sábado, 28 de setembro de 2019

"Foro Íntimo": Fórum Lafayette é cenário para drama de juiz ameaçado de morte

Arquitetura em formato de caixa e a cor cinza do concreto do Fórum de BH ajudaram a compor o longa (Foto: Embaúba Filmes/ Divulgação)

Da Redação (Com informações do TJMG)


O cenário escolhido foi o ideal para contar uma história sobre a violência que atinge até as grandes autoridades do país - o Fórum Lafayette, em Belo Horizonte. O filme é "Foro Íntimo", do diretor, roteirista e produtor Ricardo Mehedff, que está em cartaz no Cine Belas Artes (salas 2, sessão às 15h20, e 3, às 18h10) e nas principais capitais do país – Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Porto Alegre, Brasília, Salvador e Fortaleza, e deverá percorrer outras cidades brasileiras.

Foto: Robert Leal/TJMG
Selecionado para mais de 30 festivais estrangeiros, foi vencedor de cinco deles como Melhor Filme - Londres, Buenos Aires, Otawa (Canadá), Portugal e Irã. "Foro Íntimo" é um drama psicológico todo em preto e branco. De acordo com Ricardo Mehedff, que dividiu o roteiro com Guilherme Lessa, a ideia surgiu quando leu sobre a história do juiz criminal Odilon de Oliveira, do Mato Grosso. Ele julgava casos de narcotráfico e foi obrigado a se afastar da família e morar dentro do fórum por seis meses, devido às ameaças que começou a sofrer.

Foto: Robert Leal/TJMG
A ficção acompanha 24 horas na vida de um importante juiz criminal ameaçado de morte por seu trabalho de risco, julgando perigosos criminosos. Ele se torna refém do sistema legal ao ter que ficar trancado no gabinete onde trabalha no Fórum, sob um forte esquema de segurança, longe de seus familiares, escondidos na Argentina. O ator Gustavo Werneck interpreta o magistrado ameaçado - Dr. Teixeira. O elenco conta ainda com Jefferson da Fonseca Coutinho (chefe dos guarda-costas), Bia França (advogada), Léo Quintão (promotor), André Senna, Letícia Castilho e Edu Costa. Saiba mais sobre a produção na entrevista do diretor Ricardo Mehedff ao Programa Justiça em Questão, do TJMG.

Fórum Lafayette (Foto: Embaúba Filmes/Divulgação)
A pesquisa para escolha do local ideal para as filmagens levou Mehedff ao Fórum Lafayette como o mais adequado. Sua arquitetura em formato de caixa, a cor cinza do concreto e os imensos corredores contribuíram para dar a sensação de claustrofobia desejada para o roteiro. O apoio do então juiz diretor do foro, Cássio Azevedo Fontenelle, além dos depoimentos de juízes e servidores de diversos setores do Fórum, ajudou o cineasta a conhecer melhor o sistema e a rotina do judiciário brasileiro. O longa foi filmado inteiramente dentro do fórum, num prazo recorde de três semanas, entre 2015 e 2016, aproveitando o recesso forense.


Ficha técnica:
Direção, Produção e Roteiro: Ricardo Mehedff
Produção: VFilmes / Hungry Man Produções
Distribuição: Embaúba Filmes
Duração: 1h14
Gênero: Drama
País: Brasil
Classificação: 12 anos

Tags: #ForoIntimo, #RicardoMehedff, #EmbaubaFilmes, #VFilmes, #justicabrasileira, #ForumLafayette, #drama, @justicaemquestao, @TJMG, @cinemaescurinho, @cinemanoescurinho

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

"Hebe" é um recorte raso da história de uma grande estrela do Brasil

Andréa Beltrão brilha e entrega uma Hebe Camargo real, com qualidades e defeitos (Fotos: Warner Bros. Pictures/Divulgação)

Maristela Bretas


Muito superficial, sem detalhar datas e pessoas importantes da época, "Hebe - A Estrela do Brasil" o diretor Maurício Farias perde a oportunidade de contar a rica história daquela que foi a maior apresentadora de TV do país. A produção é um recorte de um curto período na vida exótica e polêmica da estrela que passou pelas principais emissoras do país, mas se recusou (e o filme reforça isso) a trabalhar na Rede Globo. Uma pena não ter explorado a infância humilde, a descoberta do talento no rádio, a ascensão à TV até sua morte. Sim, Hebe morreu. No dia 29 de setembro de 2012, vítima de uma parada cardiorrespiratória enquanto dormia. Na época. ela se preparava para retornar ao SBT. Mas esse fato não é citado nem mesmo com a famosa plaquinha nasceu em /faleceu em.


Coube à atriz Andréa Beltrão interpretar Hebe Camargo aos 60 anos. E ela entregou uma excelente atuação, sem se preocupar em ser uma caricatura da apresentadora, com seus RRs arrastados e o sotaque do interior paulista. O período escolhido foi o de maior pressão e perseguição, segundo o filme, quando saiu da Rede Bandeirantes e foi contratada pelo próprio Silvio Santos, no SBT. Enfrentando todos que tentavam mudar sua maneira de apresentar seus programas, ela levava ao palco travestis, gays, negros e minorias, deixando produtores e diretores das emissoras de cabelo em pé, mas garantindo altos índices de audiência.

Fez grandes entrevistas em seu famoso sofá, cantava e provocava usando um forte poder de persuasão. Foi ameaçada de prisão por criticar a corrupção dos políticos, apesar de ser amiga de um dos maiores corruptos do país - o ex-governador de São Paulo, Paulo Maluf (e a esposa dele, Sylvia) e de Antônio Carlos Magalhães (ex-governador da Bahia), citado rapidamente. A Eucatex, maior empresa do setor madeireiro do pais na época, pertencente à família de Maluf, foi anunciante do programa de Hebe durante anos.


A composição do personagem por Andréa Beltrão focou no lado exótico, mas elegante, de Hebe, sem esquecer também a parte sombria. Apesar de estar sempre cercada por amigos e fãs, ter um filho que a adorava e um marido que a idolatrava, ela era uma pessoa solitária. A mansão onde morava, com muitas portas e corredores que mais pareciam um labirinto, confirmava isso. O prazer da atriz em beber muito e sempre é exposto no filme, assim como seu gosto por coisas caras, e a prepotência em mostrar "quem é que mandava".

O filme também não deixou passar em branco a relação conturbada com o segundo marido, Lélio Ravagnani (Marco Ricca). Empresário e também alcoólatra, ele era possessivo ao extremo e não aceitava a vida glamourosa da esposa e as amizades dela, com o cantor Roberto Carlos (Felipe Rocha), com quem ela trocava selinho no programa, e o apresentador Chacrinha (Otávio Augusto).


Mas à medida que o roteiro escrito por Carolina Kotscho vai se desenrolando, a impressão que dá é de que teria sido escrito pela ótica do filho Marcelo, que adorava a mãe, mas que sofria calado pelo pouco tempo que passavam juntos. Ou com as brigas constantes dela com o padrasto. O jovem, homossexual não assumido à época, era tratado como criança por Hebe, estava sempre sozinho, vivendo na imensa mansão da família e tendo como únicos amigos os empregados da casa.


As amigas fiéis e inseparáveis de longas datas - Nair Bello (Claudia Missura) e Lolita Rodrigues (Karine Teles) - foram lembradas duas vezes no filme, Hebe era a mais exótica e elegante das três. Neste ponto a produção brilhou demais. o figurino honrou a rainha da TV., tão chamativos quanto os trajes usados por ela à época. Dona de uma grande fortuna, Hebe exibia joias caríssimas e que teriam sido cedidas pelo filho Marcelo (interpretado por Caio Horowicz). Ele participou da produção juntamente com o primo Claudio Pessutti (papel vivido por Danton Mello), assessor da apresentadora neste período. No filme foram usados por Andréa Beltrão os brincos de diamante, uma medalha de ouro e o vestido preto com abas que ela se apresentou na estreia do programa no SBT.


Além do figurino, a trilha sonora também foi muito bem escolhida, tanto para compor a época, com os  Menudos se apresentando no programa para histeria das fãs no auditório, quanto o repertório romântico de Roberto Carlos. Sucessos como "Emoções" e "Cama e Mesa" embalaram os momentos mais expressivos do filme. Mas é Stella Miranda como a saudosa e escrachada Dercy Gonçalves quem oferece a parte mais divertida de toda a história.

Hebe Camargo (Foto Roberto Nemanis/SBT/Divulgação)

Para aqueles que vão ao cinema para saber um pouco mais sobre a grande dama da TV, vale uma explicação antecipada. O filme se passa entre os anos de 1979 e 1986, durante o governo militar do presidente João Batista Figueiredo (uma foto dele e dos também ex-presidentes Ernesto Geisel e Emílio Garrastazu Médici aparece na parede do órgão fiscalizador). Ou seja, em plena censura, que todo mundo negava que ainda existisse, mas que controlava e punia os atores que saíssem da linha.

Pena que a parte mostrada seja muito pouco da história de Hebe Camargo, uma mulher além do seu tempo, provocadora, batalhadora, intransigente, desbocada quando queria, e que se consagrou como uma das apresentadoras mais emblemáticas da televisão brasileira e arrastou uma legião de fãs de uma ponta a outra do país. Apesar de deixar um vazio de informações importantes sobre a vida da "Estrela do Brasil", "Hebe" vale pelo figurino, a trilha sonora e as atuações do ótimo elenco, em especial, Andréa Beltrão.


Ficha técnica:
Direção: Maurício Farias
Produção: Globo Filmes / Hebe Forever / Labrador Filmes / Loma Filmes
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Duração: 1h52
Gêneros: Drama / Biografia
País: Brasil
Classificação: 14 anos
Nota: 3,5 (0 a 5)

Tags: #HebeFilme, #AndreaBeltrao, #HebeCamargo, #drama, #biografia, #GloboFilmes, WarnerBrosPictures, #EspacoZ, @#jornaldebelo, @cineanoescurinho, @cinemaescurinho

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Sem meias palavras, "Rambo - Até o Fim" vai fundo na violência e cenas de ação

Quinto filme com Sylvester Stallone encerra saga do ex-soldado atormentado pelos fantasmas da guerra (Fotos: Metropolitan FilmExport/Divulgação)

Maristela Bretas


O que esperar de "Rambo - Até o Fim" ("Rambo: Last Blood")? Nada menos que muita violência e ação, características de um ícone que marcou toda uma geração. Sylvester Stallone entrega um de seus principais personagens, agora envelhecido (ou melhor, mais maduro, aos 73 anos), que já sabe atuar, além de também se aventurar como um dos roteiristas desse quinto e provável último filme da saga do ex-soldado norte-americano que lutou no Vietnã e que traz consigo uma violência latente, que ele tenta controlar na nova vida de homem do campo. O filme é, antes de tudo, nostálgico, tanto nas imagens finais quanto na solidão de Rambo.


Nesta produção, o ator já não entorta mais a boca nas cenas de violência extrema, como fazia em "Rambo: Programado Para Matar" e que mostrava claramente a limitação de Stallone para atuar. Nem por isso deixou de atrair milhares de fãs, que sempre acompanharam a saga do ex-combatente. Apesar das críticas contrárias, "Rambo - Até o Fim" está agradando a quem interessa - aos fãs, que estão delirando com o filme, em especial, com as cenas de violência, que ganham proporções chocantes somente nos últimos 40 minutos. 


A carnificina é tanta que a classificação é acima de 18 anos, como aconteceu com "Rambo IV". Para os amantes deste gênero, um prato cheio. Para quem não gosta, fuja das salas onde está sendo exibido. Não espere uma história amena, com algumas piadas e situações cômicas, como em "Mercenários 1, 2 e 3". Rambo é Rambo. Facas e canivetes, cabeças rolando, tiros, porrada e bombas são sua marca registrada. Ele agora pode até ser um cara recluso que trabalha num rancho na fronteira entre os Estados Unidos e o México, cuida de cavalos e tem uma afilhada que ele trata como filha.


John Rambo, no entanto, vive assombrado pelos traumas da guerra que nunca se apagaram. No entanto, o rapto da jovem vai despertar nele toda a fúria que estava guardada. E fazer voltar o soldado insano, especialista em armadilhas e ataques, que nunca deixa um inimigo vivo. Rambo agora vai ao México enfrentar perigosos traficantes de jovens que são usadas em prostituição.


Abusando dos dublês e efeitos especiais, Stallone entrega um filme com roteiro morno até mais da metade da exibição e uma explosão de ação no final que compensa quem foi ao cinema ver Rambo de volta às origens. O elenco é pouco conhecido e está lá só para levantar a bola do verdadeiro astro. Para quem aguardava a volta de Rambo com ansiedade, "Até o Fim" deverá agradar. Mesmo enchendo linguiça com uma história arrastada e mais que manjada da jovem que ignora os conselhos dos mais velhos, se mete em encrenca e vai parar nas mãos de traficantes de mulheres. 


O tiozão Rambo, ao saber, vai socorrer a afilhada, apanha muito, mas bate e mata muito também. No estilo da trilogia "Busca Implacável" (2008, 2012 e 2014), com Liam Neeson, ou "Linha de Frente" (2013), com Jason Statham, porém bem mais violento. Para os fãs de carteirinha, "Rambo: Até o Fim" encerra bem a história do personagem que para muitos deles representa um clássico do gênero.


Ficha técnica:
Direção: Adrian Grunberg
Produção: Balboa Productions/ Millenium Films / Lionsgate
Distribuição: Imagem Filmes
Duração: 1h40
Gênero: Ação
País: EUA
Classificação: 18 anos
Nota: 3 (0 a 5)

Tags: #RamboAteOFim, #RamboLastBlood, #SylvesterStallone, #Rambo, #RamboSendoRambo, #ação, @ImagemFilmes, @cinemaescurinho, @cinemanoescurinho

domingo, 22 de setembro de 2019

"Bacurau", um faroeste com a pureza do nordestino e a força do cangaço

Sônia Braga é um dos destaques do elenco que faz da produção nacional uma das melhores lançadas neste ano (Fotos: Vitrine Filmes)

Maristela Bretas


Uma grande produção, que merecia estar na disputa do Oscar como representante do Brasil. "Bacurau", dos diretores e roteiristas Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, até foi indicado mas não chegou lá. A escolha ficou por outro ótimo filme "A Vida Invisível", de Karin Aïnouz, Mesmo assim, o longa conquistou o publico nacional e internacional, atingindo uma bilheteria superior a R$ 2 milhões em sua primeira semana de exibição, além de levar o Grande Prêmio de Júri do Festival de Cannes e ser escolhido o Melhor Filme no 37º Festival de Munique.


Realizado no Sertão do Seridó, na divisa do Rio Grande do Norte com a Paraíba, "Bacurau" é uma mistura de passado e futuro, paz e violência, dor e raiva, poder e fé. O filme é o nome de um povoado, no meio do nada, cercado pela seca, comida escassa e a ganância de políticos, que só procuram o lugar no período das eleições. É o retrato fiel da nossa realidade, em especial do povo do Nordeste, que dribla a injustiça social com garra e solidariedade. 

O filme explora a capacidade do ser humano de se adaptar ao meio ambiente, fazendo dele o melhor lugar para viver ou se defender. Ao mesmo tempo, mostra que qualquer um pode abrir mão de uma natureza pacífica e lutar com unhas e dentes quando tudo o que possui e respeita está ameaçado. 

Diretores  Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho

Os moradores de Bacurau levam uma vida pacata, sem se mostrarem para o mundo, mas conectado a ele pela internet. Mas assim como o pássaro que deu nome à cidade e é típico da região e que se manifesta somente á noite ou em perigo, a população local também é capaz de se transformar quando a paz está ameaçada. Logo nas primeiras cenas, os diretores mostram, por meio de caixões espalhados numa estrada, que o enredo vai explorar a morte sobre diferentes aspectos.

Tudo se passa num futuro incerto, onde no mundo fora de Bacurau, a violência é parte do cotidiano enquanto no pequeno vilarejo nordestino, as diferenças foram resolvidas e a paz reina. O ritmo do filme é contado passo a passo, como a calma interiorana, e vai ganhando tensão após o falecimento de Dona Carmelita, uma das ilustres moradoras do local. Vários fatos estranhos são registrados: a localização da cidade some dos mapas digitais, a aparição de um disco voador e a ocorrência de assassinatos inexplicáveis. Tudo isso altera a rotina de Bacurau, provocando reações surpreendentes e diversas nos nativos. O pacato cidadão então se torna uma fera ferida, muitas vezes mais violento que seus algozes.


Sônia Braga é um dos destaques, trabalhando novamente com Kleber Mendonça Filho (a primeira vez foi o ótimo "Aquarius"). Em "Bacurau", ela interpreta Domingas, uma médica local alcoólatra, de humor sarcástico e defensora ferrenha da cidade. Além dela, vários outros atores contribuem com brilho para formar um elenco redondo, com cada participação sendo essencial para o desenrolar da história, tanto os brasileiros quanto os estrangeiros. 


Como o ator alemão Udo Kier (de "Bastardos Inglórios" - 2009), que faz o americano Michael; Bárbara Colen, interpreta Teresa, a jovem que retorna a sua terra natal; Wilson Rabelo, como Plínio, viúvo de Dona Carmelita e um dos moradores mais atuantes e respeitados da vila; Thomas Aquino, como Pacote, ligado ao mundo do crime, mas protetor da cidade, juntamente com Lunga, interpretado por Silvero Pereira, que dá um show de atuação.


Elenco, fotografia, som, figurino, direção e roteiro entregam uma obra cinematográfica marcante. Aos expectadores mais incautos, alerto que o clímax do filme é de extrema violência, justificada pela forma como a trama foi sendo apresentada, explorando o lado psicológico (às vezes psicopata) de cada personagem. Um ponto importante que vale uma boa discussão na mesa de um bar após a sessão é a importância dada pelos moradores de Bacurau ao Museu da Cidade, sempre indicado aos visitantes que passam pela localidade. Com certeza, ele faz toda a diferença na história
.
"Bacurau" é o retrato de um Brasil de ontem e de hoje ao mostrar a ganância de políticos e governantes inescrupulosos, que distribuem caixões, comida vencida e remédios tarja preta sem receita médica, na tentativa de alienar a população em tempos de eleições. Um filme imperdível, que faz a gente pensar muito e sair do cinema com a sensação de ter sido atingido com um soco no estômago.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:  Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles
Produção: CinemaScópio, Arte France Cinéma, SBS, Símio, Telecine Productions, Globo Filmes
Distribuição: Vitrine Filmes
Duração: 2h10
Gêneros: Drama, Suspense, Faroeste
Países: Brasil e França
Classificação: 16 anos
Nota: 4 (0 a 5)

Tags: #Bacurau, #VitrineFilmes, #KleberMendonçaFilho, #SoniaBraga, #JulianoDornelles, #faroeste, #suspense, @jornaldebelo, #drama, @cineart_cinemas, @cinemarkoficial, @cinemaescurinho, @cinemanoescurinho

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

“A Música da Minha Vida” e a difícil arte de ser livre

Veveik Kalra interpreta um adolescente britânico, de família paquistanesa, que venera o cantor e compositor Bruce Springsteen (Fotos: Nick Wall/Warner Bros. Pictures)


Carolina Cassese


Depois dos sucessos de “Bohemian Rhapsody” (2018), “Rocketman” (2019) e “Yesterday” (2019), que trouxeram a magia de artistas consagrados (respectivamente da banda Queen, do cantor Elton John e dos Beatles) para as telas, chegou a vez de celebrar a trajetória musical de Bruce Springsteen. No longa “A Música da Minha Vida”, que chega aos cinemas nesta quinta-feira (19), Jeved (Veveik Kalra) é um adolescente britânico, de família paquistanesa, que vive na cidade de Luton, em 1987. 

Naquela época, a Inglaterra era governada pela primeira-ministra Margaret Thatcher, conhecida como “A Dama de Ferro”. Diante de um contexto repleto de tensões econômicas e raciais (nesse mesmo período, o líder sul-africano Nelson Mandela seguia preso, enquanto ativistas do mundo inteiro iam às ruas pedir sua liberdade), acompanhamos a dificuldade do protagonista em encontrar a própria identidade e se livrar das amarras dos pais conservadores. 


Dirigido por Gurinder Chadha, o filme (baseado em uma história verídica) foca também no preconceito que alguns britânicos nutrem pelos imigrantes paquistaneses. Assim como nas dificuldades que esses enfrentam para serem inseridos no mercado de trabalho - muitos acabam em posições subalternas e não conseguem ascender socialmente. O longa acerta em mostrar que, em períodos de crise, os grupos minoritários são especialmente afetados e ainda mais atacados por supremacistas. Ao tratar dessa temática, a produção se torna assustadoramente atual. 


Javed quer fugir dessa realidade que, para ele, é sombria e sem futuro no horizonte. Quer escrever, o que o pai não considera um ofício. Na escola, um mundo novo se abre. Ao se deparar com a diversidade de tribos, entende que há muita vida lá fora. Com o empurrão da professora de literatura e a dica preciosa do colega e conterrâneo que lhe passa fitas K-7 de Bruce Springsteen, ele amplia seus horizontes. E percebe que as inquietações que atormentam seu interior são compartilhadas por muita gente mundo afora. Até mesmo por Springsteen, esse rapaz de Nova Jersey, que passou para a história da música mundial (o cantor, inclusive, completa 70 anos no próximo dia 23). 

A partir do momento que o jovem paquistanês descobre as músicas do “Boss”, sua vida ganha um sentido - e o longa se torna mais envolvente. Ao conhecer Eliza (Nell Williams), ele encontra uma garota para compartilhar suas descobertas e os planos para o futuro. Seu talento para a escrita passa a chamar atenção e sua carreira começa a deslanchar. No entanto, a turbulenta relação com o pai (interpretado por Kulvinder Ghir) cria alguns impedimentos - e é responsável pela maior parte dos momentos de tensão. 


Em algumas cenas, o filme pode parecer literal demais, como nas vezes em que palavras-chave das músicas de Springsteen aparecem na tela. O recurso parece desnecessário, já que a conexão entre a letra das canções e a vida de Javed já é bem evidente. Pode-se pontuar também que, ao passo que o longa acerta em muitas críticas sociais, há uma idealização dos Estados Unidos. 


Em certo momento, o protagonista afirma que os principais males da Inglaterra (como a xenofobia), praticamente não existem na terra de Springsteen. No entanto, sabe-se que os EUA têm um histórico considerável de intolerância contra outras nacionalidades (especialmente em se tratando de países mais periféricos). As atuações são, sem dúvida, o ponto alto do filme, com destaque para Veveik Kalra e a maior parte do elenco jovem. 

No fim das contas, “A Música da Minha Vida” pode ser classificado como um “feel-good movie”, daqueles que assistimos com um sorriso no rosto. Faz divertir e cantar, mas não deixa de tocar em temas sérios que, relevantes naquele hoje distante 1987, ainda soam dolorosamente pertinentes em pleno 2019. 
Classificação: 12 anos
Duração: 1h57
Distribuição: Warner Bros. Pictures


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quarta-feira, 18 de setembro de 2019

13ª CineBH Mostra Internacional de Cinema: noite memorável de festa e resistência

Os quatro integrantes da Filmes de Plástico receberam o Troféu Horizonte na abertura do festival (Foto: CineBH/Divulgação)

Mirtes Helena Scalioni



Mais do que o privilégio de sermos os primeiros brasileiros a assistirem "A Vida Invisível", filme que vai nos representar no Oscar, a sessão de abertura da 13ª edição da CineBH - Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte, na noite de terça-feira (17), provocou outro tipo de emoção na platéia que lotou o Cine Theatro Brasil Vallourec. Era visível, quase palpável, a sensação de pertencimento que tomou conta dos espectadores quando a apresentadora Rejane Faria subiu ao palco para fazer as honras da casa. Depois de abrir o evento, falar das dificuldades de se fazer cinema no Brasil, ser aclamada por todos, ela apresentou a banda Diplomatas, que fez sucesso com canções que eram verdadeiros gritos de protesto.

Não faltaram projeções de manchetes com as últimas do atual presidente da República prometendo acabar com a Ancine e ameaçar censurar o que não for do agrado do governo, sempre recebidas com vaias e protestos. O clima tornou-se mais íntimo quando a premiada atriz e diretora Grace Passô subiu ao palco. É como se ela fosse "gente de casa". Mas o clímax mesmo foi a homenagem que a produtora Filmes de Plástico recebeu da organização do festival. Um justo reconhecimento aos quatro integrantes da trupe que, a partir de Contagem, estão levando o nome de Minas para o mundo.



Ninguém escondeu a emoção. Os diretores André Novais Oliveira, Gabriel Martins e Maurílio Martins, além do produtor Thiago Macêdo Correia, não seguraram as lágrimas. Dois deles, inclusive, confessaram ter sido, na infância, frequentadores do antigo Cine Brasil, o único da cidade, segundo contaram, que oferecia ingressos a preços populares. 


Diretores da Filmes de Plástico recebeu o Troféu Horizonte (Foto: Leo Lara)

Reconhecidos hoje em festivais mundo afora, de Rotterdam a Marseille, de Lisboa a Los Angeles, os rapazes da Filmes de Plástico agradeceram à cidade de Contagem e as parcerias, citaram nomes de familiares e vizinhos e prometeram continuar fazendo cinema, apesar da onda contrária. O sucesso do longa mais recente da produtora, "No Coração do Mundo", tem sido praticamente uma unanimidade.

Julia Stocler, KArim Aïnouz e Carol Duarte em Cannes (AFP)
Foi só depois de muita emoção, pequenas falas e algum protesto, que a equipe de "A Vida Invisível" subiu ao palco para, finalmente, apresentar o longa de Karim Aïnouz que vai representar o Brasil na maior festa mundial do cinema em Los Angeles no ano que vem. Entre os que vieram a BH, estavam as atrizes Carol Duarte e Julia Stocler e o produtor Rodrigo Teixeira. Inspirado no livro "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão", de Martha Batalha, o longa, que conta com pequena participação de Fernanda Montenegro, ganhou o Prêmio Principal da Mostra Paralela Un Certain Regard no Festival de Cannes, em maio de 2019. O filme só chega às salas no Brasil no final de outubro.


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terça-feira, 17 de setembro de 2019

Mostra CineBH começa hoje com programação gratuita em cinco espaços culturais

Serão exibidos  85 filmes nacionais e internacionais , entre pré-estreias e retrospectivas ( Foto: Leo Lara/ Universo Produções)

Da Redação


Belo Horizonte recebe a partir de hoje a CineBH - Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte, que entra em sua 13ª edição , com uma intensa atividade de exibição de filmes e várias outras atrações até o dia 22 de setembro, A abetura oficial será às 20 horas, no Cine Theatro Brasil Vallourec, com programação gratuita durante os seis dias de evento. A mostra irá ocupar cinco espaços culturais da cidade: Fundação Clóvis Salgado (Palácio das Artes), Sesc Palladium, Cine Theatro Brasil Vallourec, Teatro Sesiminas e MIS Cine Santa Tereza. 

Serão exibidos 85 filmes nacionais e internacionais, entre pré-estreias e retrospectivas (24 longas, 3 médias e 58 curtas-metragens), num total de 43 sessões de cinema, produções de 11 estados brasileiros e o Distrito Federal (BA, DF, ES, MG, PB, PE, PR, RJ, RS, SC, SE, SP) e seis países – Argentina, Brasil, Colômbia, EUA, França e Portugal. A programação pode ser conferida no site da Mostra CineBH - http://cinebh.com.br/programacao/

Simultaneamente, acontece o 10º Brasil CineMundi - 10th International Coproduction Meeting, encontro de mercado que recebe 25 convidados internacionais. O importante evento celebra uma década de realização, promovendo a conexão entre a produção brasileira e a indústria audiovisual internacional, além de ser um espaço formação, difusão de ideias e de projetos de coprodução. 

"No Coração do Mundo" (Foto Filmes de Plástico)

Neste primeiro dia, a Universo Produção, empresa responsável pela Mostra CineBH, fará a entrega do Troféu Horizonte à Filmes de Plástico, homenageada desta edição. A produtora mineira está completando uma década de atuação e iniciou sua trajetória na periferia de Contagem. Hoje ela é referência de cinema brasileiro em vários festivais pelo mundo. O longa mais recente da produtora é "No Coração do Mundo", lançado no início de agosto. A Mostra contará ainda com debates, masterclasses, painéis, oficinas, workshops, Mostrinha de Cinema, programa Cine-Expressão e atrações artísticas. 

Na sequência, o público poderá assistir, em pré-estreia nacional, “A Vida Invisível”, novo longa-metragem do diretor cearense Karim Aïnouz, que saiu vencedor da mostra Un Certain Regard, no Festival de Cannes (em maio) e acaba de ser escolhido para representar o Brasil no Oscar 2020. O filme é uma adaptação do romance de Martha Batalha sobre duas mulheres enfrentando opressões e dificuldades na sociedade brasileira dos anos 1950. 

“A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz (Foto: Divulgação)

A Mostra CineBH é o evento de cinema da capital mineira. Um espaço de formação, intercâmbio, lançamento e discussão da mais significativa produção cinematográfica atual. A cada edição é renovado o compromisso de estabelecer diálogo entre as culturas, ampliar as oportunidades de negócios para o cinema brasileiro e promover a conexão de profissionais com o mercado audiovisual em intercâmbio com o mundo”, destaca Raquel Hallak, coordenadora geral do evento.

Tanto a escolha da homenageada, quanto do filme de abertura dialogam com a temática central  desta edição da Mostra - “A internacionalização do cinema brasileiro e os desafios para o futuro” -. O tema será apresentado em performance durante a abertura e, no decorrer da programação, em filmes e debates com a proposta de gerar uma reflexão sobre a presença marcante da produção brasileira nas telas dos festivais e eventos internacionais. 

Sônia Braga em cena de "Bacurau" (Foto: Victor Jucá)

Sob a curadoria dos críticos Francis Vogner dos Reis e Marcelo Miranda, a temática foi pensada num ano especial, em que filmes como “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, e “A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz, receberam prêmios importantes em Cannes. “Com esforço profissional e governamental para consolidar relações de coprodução e a estruturação de um circuito de festivais locais, com quase 200 eventos anuais que ajudaram a criar um campo de visibilidade de filmes independentes e de debates em torno dessa produção, o cinema brasileiro ganhou o país e o mundo”, destaca Francis Vogner.

Cinema brasileiro

Desde 2015, somam-se 166 títulos brasileiros selecionados em mostras competitivas, paralelas ou sessões especiais de Cannes, Berlim, Locarno, Roterdã e Veneza – considerados os eventos mais importantes para exibição no mundo. Além destes, coproduções brasileiras e longas, médias e curtas-metragens do país estiveram em vários outros espaços importantes, como FID-Marseille, Toronto, Indie Lisboa, Sundance e Bafici, além de projetos selecionados para laboratórios ou encontros de mercado nos circuitos da Europa, Estados Unidos e América Latina.

"Inquietações de Uma Mulher Casada "(Foto: Divulgação)

Na mostra Diálogos Históricos, a atenção deste ano é para filmes que completam quatro décadas desde seu lançamento, refletindo um Brasil que, em 1979, estava à beira de sair da ditadura militar, apesar de ainda mal resolvido com suas questões históricas mais urgentes. Em vários sentidos, estes longas-metragens fazem uma ponte instigante com o atual momento da política e sociedade brasileiras, mostrando que a complexidade do país é cíclica e muitas vezes chocante. Todos os três filmes serão comentados pelo conservador-chefe da Cinemateca do MAM Hernani Heffner. São estes: “República dos Assassinos”, de Miguel Faria Jr; “Inquietações de uma Mulher Casada”, de Alberto Salvá, e “Maldita Coincidência”, de Sérgio Bianchi.

Homenagem

A partir da proposta de internacionalização do cinema brasileiro, a 13a CineBH vai homenagear a produtora mineira Filmes de Plástico e seus criadores André Novais Oliveira, Gabriel Martins, Maurílio Martins e Thiago Macêdo Correia, a empresa virou um “case” mundial ao se tornar uma das principais caras do cinema brasileiro em festivais e eventos internacionais. Isto se deve a uma constante e bem-sucedida presença de trabalhos do grupo em grandes circuitos de exibição desde 2013, quando o curta-metragem “Pouco Mais de um Mês”, de André Novais e exibido na Mostra de Cinema de Tiradentes, foi selecionado para a seção Quinzena dos Realizadores, no Festival de Cannes. 

Os quatro criadores da Filme de Plastico que será homenageada 
(Foto Leo Lara/Universo Produções)

Os quatro integrantes da Filmes de Plástico estarão presentes na abertura no Cine-Theatro Brasil Vallourec. Amanhã vão promover uma masterclass nas dependências do Palácio das Artes para apresentar sua história e formas de trabalho, produção e circulação. A programação da mostra exibirá ainda três sessões de retrospectiva da Filmes de Plástico, com títulos que marcam sua trajetória – entre eles o primeiro projeto, o curta “Filme de Sábado” (2009), e o mais recente, o longa “No Coração do Mundo” (2019). 

Mostra Contemporânea

Com curadoria de Francis Vogner dos Reis e Marcelo Miranda, a Mostra Contemporânea contará com pré-estreias nacionais e internacionais. Do Brasil, serão exibidos vários títulos com repercussão internacional, refletindo a temática do evento. Os filmes são “Animal Indireto”, de Daniel Lentini (RJ); “Os Príncipes”, de Luiz Rosemberg Filho (RJ); “Os Filhos de Macunaíma”, de Miguel Antunes Ramos (SP); “Diz a Ela que me Viu Chorar”, de Maíra Büheler (SP); “A Noite Amarela”, de Ramon Porto Mota (PB); “Os Dias sem Tereza”, de Thiago Taves Sobreiro (MG); “Os Jovens Baumann”, de Bruna Carvalho Almeida (SP); e “Nietzsche Sils Maria Rochedo de Surlej”, de Julio Bressane e Rodrigo Lima (RJ).

Os Dias Sem Tereza”,  de Thiago Taves Sobreiro (Foto: Divulgação)

Os títulos estrangeiros, haverá exibições de “Paul Sanchez Está de Volta!” (França), de Patricia Mazuy; “Danças Macabras, Esqueletos e Outras Fantasias” (França/Portugal), de Rita Azevedo Gomes, Pierre Léon e Jean-Louis Schefer; “Por El Diñero” (Argentina), de Alejo Moguilansky; “Nightmare Cinema” (EUA), de Mick Garris, Joe Dante, David Slade, Ryuhei Kitamura e Alejandro Brugués; “A Vingança de Jairo” (Colômbia), de Simón Hernández; e o curta “O Mar Enrola na Areia” (Portugal), de Catarina Mourão.

Serviço:
13ª CineBH - Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte e Brasil Cinemundi 
Data: 17 a 22 de setembro de 2019
Informações pelo telefone: (31) 3282-2366
Locais de realização:
- Palácio das Artes: Cine Humberto Mauro, Sala Juvenal Dias, Teatro João Ceschiatti, Jardim Interno e Área de Convivência Cine-Café
- Sesc Palladium: Grande Teatro, Cine Sesc Palladium e Foyer na Avenida Augusto de Lima
- Cine Theatro Brasil Vallourec
- Teatro Sesiminas
- MIS Cine Santa Tereza 
Programação: http://cinebh.com.br/programacao/

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quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Mesmo romanceado, "Legalidade" é uma oportuna aula de História do Brasil

Leonardo Machado interpreta um Brizola seguro, com sotaque e entonação característicos do líder (Fotos: Joba Migliorin/Divulgação)

Mirtes Helena Scalioni


Para quem tem fome de História, "Legalidade", dirigido por Zeca Brito, que entra nesta quinta-feira (12) em cartaz em Belo Horizonte, é simplesmente um prato cheio. O ano é 1961, o presidente eleito Jânio Quadros renuncia e o imbróglio está criado: o vice João Goulart, democraticamente escolhido pelo voto, corre o risco de não tomar posse por causa de suas ideias socialistas. Enquanto o Exército brasileiro, com o apoio de parte da população, faz tudo para impedir que ele suba a rampa em Brasília, no Rio Grande do Sul nasce e cresce um movimento forte para que Jango seja empossado. E quem lidera essa luta, que ficou conhecida como Rede da Legalidade, é o então governador gaúcho Leonel Brizola. 


Já que, por aqui, há muito se diz que brasileiro tem memória curta, tomar conhecimento de como se criou o movimento gaúcho pela posse de João Goulart é um deleite. O que pode ter passado à História como mera bravata surge, na tela, como uma rede construída com muita coragem, ousadia, luta e união. E muito da credibilidade que o filme passa se deve à interpretação certeira de Leonardo Machado, a quem o longa é dedicado no final. 



O ator gaúcho morreu em setembro de 2018, aos 42 anos, depois de ter apresentado por anos o Festival de Gramado e de ter ganhado o Kikito de Melhor Ator em 2009 por "Em Teu Nome". Leonardo interpreta um Brizola seguro, com sotaque e entonação característicos do líder, sem nunca ceder à facilidade do exagero e da caricatura. O filme conta com cenas passadas também em 2001 e 2004, com avanços no tempo e flashbacks.


Assim como Leonardo Machado, os demais atores só enriquecem "Legalidade": Letícia Sabatela como Branca, uma jornalista que, nos anos de 2000 investiga o desaparecimento de sua mãe durante a ditadura militar; Fernando Alves Pinto, que faz o antropólogo Luiz Carlos, e José Henrique Ligabue, que vive o ingênuo fotógrafo Tonho. Os dois, que são irmãos, formam um triângulo amoroso com Cecília Ruiz (Cleo Pires), jornalista do The Washington Post que, aparentemente, vem ao Brasil para cobrir o movimento gaúcho. 


Se a direção de arte, os cenários e os figurinos não deixam o espectador se esquecer da triste realidade passada na década de 1960, o mesmo não se pode dizer da trama paralela, o romance vivido por Cecília/Luiz Carlos/Tonho. A historinha fora da História soa falsa, inadequada e inútil. A impressão que se tem é que foi colocada no filme com a intenção de torná-lo mais palatável. Não precisava. Alguém que sai de casa para ver um filme sobre fatos relativamente recentes do Brasil, dificilmente vai se deixar encantar por beijos, corpo e transas da atriz Cleo - que não usa mais o sobrenome Pires.


Enfim, "Legalidade" é um filme necessário, principalmente neste Brasil de hoje, quando muitos temem pelo fim da democracia e do cumprimento da Constituição. Ver como os gaúchos, naquele ano de 1961, com toda a precariedade das comunicações, enfrentaram com organização, bravura, solidariedade e coragem, a ameaça de uma ditadura que acabou chegando três anos depois, não deixa de ser um alento. Mais do que isso, um estímulo. Na sessão de pré-estreia, houve aplausos no final.

A obra foi premiada recentemente durante o 42ª Festival Guarnicê de Cinema (São Luís - MA), vencendo nas categorias de Melhor Direção (Zeca Brito), Direção de Arte (Adriana Borba), Fotografia (Bruno Polidoro) e Melhor Ator (Leonardo Machado - in memoriam). “Legalidade” é o sexto longa de Zeca Brito e foi inteiramente rodado no Estado do Rio Grande do Sul.

Ficha técnica
Direção: Zeca Brito    
Roteiro: Zeca Brito e Leo Garcia
Produção: Prana Filmes
Distribuição: Boulevard Filmes
Duração: 2h02
País: Brasil
Classificação: 14 anos

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domingo, 8 de setembro de 2019

"O Rei Leão" surpreende em computação gráfica, mas personagens perdem em emoção

Versão live-action conquista o público e se torna o novo sucesso de bilheteria da Disney no mundo (Fotos: Disney Studios/Divulgação)

Maristela Bretas


Uma das histórias mais lindas e emocionantes dos Estúdios Disney - "O Rei Leão" está prestes a atingir a marca mundial de um milhão de espectadores em todo o mundo com sua versão live-action lançada há algumas semanas, 25 anos depois do lançamento do desenho. A produção já quebrou vários recordes, incluindo maiores bilheterias de estreia de remakes da Disney e entre animações (mais de US$ 190 milhões). Tudo isso já seria um incentivo para ir conferir o novo sucesso dos estúdios.

Mas foi principalmente a sensação de nostalgia que levou muitos fãs ao cinema, na expectativa de reverem, com muita cor e música. A saga do leãozinho Simba e seus amigos e voltar a ser criança. Mas não é bem isso que acontece. Especialmente se a opção for pela versão dublada, por causa das crianças. Apaixonada pelas dezenas de animações Disney que vi pela vida em versões em português, foi essa minha opção. Quanto arrependimento! 


Os estúdios erraram feio na escolha dos "dubladores" brasileiros. Ficou muito ruim, tanto nos diálogos quanto nas canções.  Algumas chegam a doer no ouvido e transformam a trilha sonora em algo sofrível de ouvir. Outro erro em um dos pontos fortes da versão animada. Salva apenas e muito bem a eterna "Hakuna Matata".


Mesmo com números tão bons de bilheteria, outro ponto que tem sido muito questionado por espectadores e críticos é o excesso de tecnologia. Ao mesmo tempo em que a computação gráfica entrega imagens espetaculares, quase reais como num vídeo do Discovery Channel, os personagens perdem em emoção, as expressões são plastificadas e deixam a impressão de que a fala está sincronizada com o personagem. Temos a juba de Musafa balançando ao vento (um espetáculo) contrastando com a falta de brilho nos olhos dele numa conversa de pai pra filho com Simba. Bem diferente do desenho.


Simba (vozes de Donald Glover, em inglês, e Ícaro Silva, em português) não passa emoção nem mesmo quando vê o pai morto. Ou quando está flertando com Nala, mesmo ao som de "Can You Feel The Love Tonight", na bela voz de Beyoncé (que também dubla a leoa). Mas ainda fico com a versão original, composta por Sir Elton John para "O Rei Leão" de 1994 - acho mais bonita e romântica cantada por ele.



Além do pequeno herdeiro da selva, outro que não mete medo nem em criancinha é Scar, um vilão sem fúria nos olhos ou sarcástico e cruel como no desenho, apesar da versão original estar na voz de Chiwetel Ejiofor. A história corre morna. Até que surgem Pumba e Timão, a dupla pouco provável de amigos - um javali e um suricato - para quebrarem a monotonia e provocarem os momentos mais divertidos da animação. Nada como relembrar e cantar o famoso refrão: "Isso é viver, é aprender, Hakuna Matata"...(Isso é viver, é aprender, Hakuna Matata"...). Muita gente ao meu lado soltou a voz. Eles são as estrelas da nova animação. Para completar a turma divertida, Zulu, o pássaro que fica de babá de Simba pra todo lado.


E por falar em trilha sonora, que há 20 anos garantiu prêmios a Elton John e Hans Zimmer, no live-action ela é revitalizada e recebe novas vozes e boas interpretações, especialmente de Beyoncé. Se o compositor britânico deu vida e voz à savana com "Circle of Life", marca registrada da abertura de "O Rei Leão", Lindiwe Mkhize e Lebo M. não deixaram por menos e a nova versão chega a dar arrepio na apresentação de Simba ao reino e ao público no cinema, como na primeira vez. Destaque também para "The Lion Sleeps Tonight", com Billy Eichner (que faz a voz de Timão), "Spirit", com Beyoncé, "Never Too Late", de Elton John.


A história é a mesma do desenho: Simba é um jovem leão cujo destino é se tornar o rei da selva. Entretanto, uma armadilha elaborada por seu tio Scar provoca a morte de Mufasa, o atual rei, quando ele tentava salvar o filhote. Cheio de culpa, Simba deixa o reino e vai para um local distante onde faz novos amigos que vão lhe ensinar como encarar a vida com diversão e prazer e lutar para recuperar seu reinado.

"O Rei Leão"dirigido por Jon Favreau ("Vingadores: Ultimato" e "Homem-Aranha: Longe do Lar") merece ser conferido, apesar das falhas? Com certeza, é sempre uma produção Disney. Mas aconselho a quem não tiver assistido o desenho de 1994, deixe para fazê-lo depois em uma sessão caseira dublada com as crianças. Para evitar comparações (ou decepções). E se for ao cinema sem os pequenos, passe longe da  versão dublada do live-action.


Ficha técnica:
Direção: Jon Favreau
Produção: Walt Disney Studios Motion Pictures
Distribuição: Disney / Buena Vista
Duração: 1h58
Gêneros: Animação / Aventura
Nacionalidade: EUA
Classificação: 10 anos
Nota: 3,5 (0 a 5)

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