quinta-feira, 19 de setembro de 2019

“A Música da Minha Vida” e a difícil arte de ser livre

Veveik Kalra interpreta um adolescente britânico, de família paquistanesa, que venera o cantor e compositor Bruce Springsteen (Fotos: Nick Wall/Warner Bros. Pictures)


Carolina Cassese


Depois dos sucessos de “Bohemian Rhapsody” (2018), “Rocketman” (2019) e “Yesterday” (2019), que trouxeram a magia de artistas consagrados (respectivamente da banda Queen, do cantor Elton John e dos Beatles) para as telas, chegou a vez de celebrar a trajetória musical de Bruce Springsteen. No longa “A Música da Minha Vida”, que chega aos cinemas nesta quinta-feira (19), Jeved (Veveik Kalra) é um adolescente britânico, de família paquistanesa, que vive na cidade de Luton, em 1987. 

Naquela época, a Inglaterra era governada pela primeira-ministra Margaret Thatcher, conhecida como “A Dama de Ferro”. Diante de um contexto repleto de tensões econômicas e raciais (nesse mesmo período, o líder sul-africano Nelson Mandela seguia preso, enquanto ativistas do mundo inteiro iam às ruas pedir sua liberdade), acompanhamos a dificuldade do protagonista em encontrar a própria identidade e se livrar das amarras dos pais conservadores. 


Dirigido por Gurinder Chadha, o filme (baseado em uma história verídica) foca também no preconceito que alguns britânicos nutrem pelos imigrantes paquistaneses. Assim como nas dificuldades que esses enfrentam para serem inseridos no mercado de trabalho - muitos acabam em posições subalternas e não conseguem ascender socialmente. O longa acerta em mostrar que, em períodos de crise, os grupos minoritários são especialmente afetados e ainda mais atacados por supremacistas. Ao tratar dessa temática, a produção se torna assustadoramente atual. 


Javed quer fugir dessa realidade que, para ele, é sombria e sem futuro no horizonte. Quer escrever, o que o pai não considera um ofício. Na escola, um mundo novo se abre. Ao se deparar com a diversidade de tribos, entende que há muita vida lá fora. Com o empurrão da professora de literatura e a dica preciosa do colega e conterrâneo que lhe passa fitas K-7 de Bruce Springsteen, ele amplia seus horizontes. E percebe que as inquietações que atormentam seu interior são compartilhadas por muita gente mundo afora. Até mesmo por Springsteen, esse rapaz de Nova Jersey, que passou para a história da música mundial (o cantor, inclusive, completa 70 anos no próximo dia 23). 

A partir do momento que o jovem paquistanês descobre as músicas do “Boss”, sua vida ganha um sentido - e o longa se torna mais envolvente. Ao conhecer Eliza (Nell Williams), ele encontra uma garota para compartilhar suas descobertas e os planos para o futuro. Seu talento para a escrita passa a chamar atenção e sua carreira começa a deslanchar. No entanto, a turbulenta relação com o pai (interpretado por Kulvinder Ghir) cria alguns impedimentos - e é responsável pela maior parte dos momentos de tensão. 


Em algumas cenas, o filme pode parecer literal demais, como nas vezes em que palavras-chave das músicas de Springsteen aparecem na tela. O recurso parece desnecessário, já que a conexão entre a letra das canções e a vida de Javed já é bem evidente. Pode-se pontuar também que, ao passo que o longa acerta em muitas críticas sociais, há uma idealização dos Estados Unidos. 


Em certo momento, o protagonista afirma que os principais males da Inglaterra (como a xenofobia), praticamente não existem na terra de Springsteen. No entanto, sabe-se que os EUA têm um histórico considerável de intolerância contra outras nacionalidades (especialmente em se tratando de países mais periféricos). As atuações são, sem dúvida, o ponto alto do filme, com destaque para Veveik Kalra e a maior parte do elenco jovem. 

No fim das contas, “A Música da Minha Vida” pode ser classificado como um “feel-good movie”, daqueles que assistimos com um sorriso no rosto. Faz divertir e cantar, mas não deixa de tocar em temas sérios que, relevantes naquele hoje distante 1987, ainda soam dolorosamente pertinentes em pleno 2019. 
Classificação: 12 anos
Duração: 1h57
Distribuição: Warner Bros. Pictures


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quarta-feira, 18 de setembro de 2019

13ª CineBH Mostra Internacional de Cinema: noite memorável de festa e resistência

Os quatro integrantes da Filmes de Plástico receberam o Troféu Horizonte na abertura do festival (Foto: CineBH/Divulgação)

Mirtes Helena Scalioni



Mais do que o privilégio de sermos os primeiros brasileiros a assistirem "A Vida Invisível", filme que vai nos representar no Oscar, a sessão de abertura da 13ª edição da CineBH - Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte, na noite de terça-feira (17), provocou outro tipo de emoção na platéia que lotou o Cine Theatro Brasil Vallourec. Era visível, quase palpável, a sensação de pertencimento que tomou conta dos espectadores quando a apresentadora Rejane Faria subiu ao palco para fazer as honras da casa. Depois de abrir o evento, falar das dificuldades de se fazer cinema no Brasil, ser aclamada por todos, ela apresentou a banda Diplomatas, que fez sucesso com canções que eram verdadeiros gritos de protesto.

Não faltaram projeções de manchetes com as últimas do atual presidente da República prometendo acabar com a Ancine e ameaçar censurar o que não for do agrado do governo, sempre recebidas com vaias e protestos. O clima tornou-se mais íntimo quando a premiada atriz e diretora Grace Passô subiu ao palco. É como se ela fosse "gente de casa". Mas o clímax mesmo foi a homenagem que a produtora Filmes de Plástico recebeu da organização do festival. Um justo reconhecimento aos quatro integrantes da trupe que, a partir de Contagem, estão levando o nome de Minas para o mundo.



Ninguém escondeu a emoção. Os diretores André Novais Oliveira, Gabriel Martins e Maurílio Martins, além do produtor Thiago Macêdo Correia, não seguraram as lágrimas. Dois deles, inclusive, confessaram ter sido, na infância, frequentadores do antigo Cine Brasil, o único da cidade, segundo contaram, que oferecia ingressos a preços populares. 

Diretores da Filmes de Plástico recebeu o Troféu Horizonte (Foto: Leo Lara)

Reconhecidos hoje em festivais mundo afora, de Rotterdam a Marseille, de Lisboa a Los Angeles, os rapazes da Filmes de Plástico agradeceram à cidade de Contagem e as parcerias, citaram nomes de familiares e vizinhos e prometeram continuar fazendo cinema, apesar da onda contrária. O sucesso do longa mais recente da produtora, "No Coração do Mundo", tem sido praticamente uma unanimidade.

Julia Stocler, KArim Aïnouz e Carol Duarte em Cannes (AFP)
Foi só depois de muita emoção, pequenas falas e algum protesto, que a equipe de "A Vida Invisível" subiu ao palco para, finalmente, apresentar o longa de Karim Aïnouz que vai representar o Brasil na maior festa mundial do cinema em Los Angeles no ano que vem. Entre os que vieram a BH, estavam as atrizes Carol Duarte e Julia Stocler e o produtor Rodrigo Teixeira. Inspirado no livro "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão", de Martha Batalha, o longa, que conta com pequena participação de Fernanda Montenegro, ganhou o Prêmio Principal da Mostra Paralela Un Certain Regard no Festival de Cannes, em maio de 2019. O filme só chega às salas no Brasil no final de outubro.


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terça-feira, 17 de setembro de 2019

Mostra CineBH começa hoje com programação gratuita em cinco espaços culturais

Serão exibidos  85 filmes nacionais e internacionais , entre pré-estreias e retrospectivas ( Foto: Leo Lara/ Universo Produções)

Da Redação


Belo Horizonte recebe a partir de hoje a CineBH - Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte, que entra em sua 13ª edição , com uma intensa atividade de exibição de filmes e várias outras atrações até o dia 22 de setembro, A abetura oficial será às 20 horas, no Cine Theatro Brasil Vallourec, com programação gratuita durante os seis dias de evento. A mostra irá ocupar cinco espaços culturais da cidade: Fundação Clóvis Salgado (Palácio das Artes), Sesc Palladium, Cine Theatro Brasil Vallourec, Teatro Sesiminas e MIS Cine Santa Tereza. 

Serão exibidos 85 filmes nacionais e internacionais, entre pré-estreias e retrospectivas (24 longas, 3 médias e 58 curtas-metragens), num total de 43 sessões de cinema, produções de 11 estados brasileiros e o Distrito Federal (BA, DF, ES, MG, PB, PE, PR, RJ, RS, SC, SE, SP) e seis países – Argentina, Brasil, Colômbia, EUA, França e Portugal. A programação pode ser conferida no site da Mostra CineBH - http://cinebh.com.br/programacao/

Simultaneamente, acontece o 10º Brasil CineMundi - 10th International Coproduction Meeting, encontro de mercado que recebe 25 convidados internacionais. O importante evento celebra uma década de realização, promovendo a conexão entre a produção brasileira e a indústria audiovisual internacional, além de ser um espaço formação, difusão de ideias e de projetos de coprodução. 

"No Coração do Mundo" (Foto Filmes de Plástico)

Neste primeiro dia, a Universo Produção, empresa responsável pela Mostra CineBH, fará a entrega do Troféu Horizonte à Filmes de Plástico, homenageada desta edição. A produtora mineira está completando uma década de atuação e iniciou sua trajetória na periferia de Contagem. Hoje ela é referência de cinema brasileiro em vários festivais pelo mundo. O longa mais recente da produtora é "No Coração do Mundo", lançado no início de agosto. A Mostra contará ainda com debates, masterclasses, painéis, oficinas, workshops, Mostrinha de Cinema, programa Cine-Expressão e atrações artísticas. 

Na sequência, o público poderá assistir, em pré-estreia nacional, “A Vida Invisível”, novo longa-metragem do diretor cearense Karim Aïnouz, que saiu vencedor da mostra Un Certain Regard, no Festival de Cannes (em maio) e acaba de ser escolhido para representar o Brasil no Oscar 2020. O filme é uma adaptação do romance de Martha Batalha sobre duas mulheres enfrentando opressões e dificuldades na sociedade brasileira dos anos 1950. 

“A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz (Foto: Divulgação)

A Mostra CineBH é o evento de cinema da capital mineira. Um espaço de formação, intercâmbio, lançamento e discussão da mais significativa produção cinematográfica atual. A cada edição é renovado o compromisso de estabelecer diálogo entre as culturas, ampliar as oportunidades de negócios para o cinema brasileiro e promover a conexão de profissionais com o mercado audiovisual em intercâmbio com o mundo”, destaca Raquel Hallak, coordenadora geral do evento.

Tanto a escolha da homenageada, quanto do filme de abertura dialogam com a temática central  desta edição da Mostra - “A internacionalização do cinema brasileiro e os desafios para o futuro” -. O tema será apresentado em performance durante a abertura e, no decorrer da programação, em filmes e debates com a proposta de gerar uma reflexão sobre a presença marcante da produção brasileira nas telas dos festivais e eventos internacionais. 

Sônia Braga em cena de "Bacurau" (Foto: Victor Jucá)

Sob a curadoria dos críticos Francis Vogner dos Reis e Marcelo Miranda, a temática foi pensada num ano especial, em que filmes como “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, e “A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz, receberam prêmios importantes em Cannes. “Com esforço profissional e governamental para consolidar relações de coprodução e a estruturação de um circuito de festivais locais, com quase 200 eventos anuais que ajudaram a criar um campo de visibilidade de filmes independentes e de debates em torno dessa produção, o cinema brasileiro ganhou o país e o mundo”, destaca Francis Vogner.

Cinema brasileiro

Desde 2015, somam-se 166 títulos brasileiros selecionados em mostras competitivas, paralelas ou sessões especiais de Cannes, Berlim, Locarno, Roterdã e Veneza – considerados os eventos mais importantes para exibição no mundo. Além destes, coproduções brasileiras e longas, médias e curtas-metragens do país estiveram em vários outros espaços importantes, como FID-Marseille, Toronto, Indie Lisboa, Sundance e Bafici, além de projetos selecionados para laboratórios ou encontros de mercado nos circuitos da Europa, Estados Unidos e América Latina.

"Inquietações de Uma Mulher Casada "(Foto: Divulgação)

Na mostra Diálogos Históricos, a atenção deste ano é para filmes que completam quatro décadas desde seu lançamento, refletindo um Brasil que, em 1979, estava à beira de sair da ditadura militar, apesar de ainda mal resolvido com suas questões históricas mais urgentes. Em vários sentidos, estes longas-metragens fazem uma ponte instigante com o atual momento da política e sociedade brasileiras, mostrando que a complexidade do país é cíclica e muitas vezes chocante. Todos os três filmes serão comentados pelo conservador-chefe da Cinemateca do MAM Hernani Heffner. São estes: “República dos Assassinos”, de Miguel Faria Jr; “Inquietações de uma Mulher Casada”, de Alberto Salvá, e “Maldita Coincidência”, de Sérgio Bianchi.

Homenagem

A partir da proposta de internacionalização do cinema brasileiro, a 13a CineBH vai homenagear a produtora mineira Filmes de Plástico e seus criadores André Novais Oliveira, Gabriel Martins, Maurílio Martins e Thiago Macêdo Correia, a empresa virou um “case” mundial ao se tornar uma das principais caras do cinema brasileiro em festivais e eventos internacionais. Isto se deve a uma constante e bem-sucedida presença de trabalhos do grupo em grandes circuitos de exibição desde 2013, quando o curta-metragem “Pouco Mais de um Mês”, de André Novais e exibido na Mostra de Cinema de Tiradentes, foi selecionado para a seção Quinzena dos Realizadores, no Festival de Cannes. 

Os quatro criadores da Filme de Plastico que será homenageada 
(Foto Leo Lara/Universo Produções)

Os quatro integrantes da Filmes de Plástico estarão presentes na abertura no Cine-Theatro Brasil Vallourec. Amanhã vão promover uma masterclass nas dependências do Palácio das Artes para apresentar sua história e formas de trabalho, produção e circulação. A programação da mostra exibirá ainda três sessões de retrospectiva da Filmes de Plástico, com títulos que marcam sua trajetória – entre eles o primeiro projeto, o curta “Filme de Sábado” (2009), e o mais recente, o longa “No Coração do Mundo” (2019). 

Mostra Contemporânea

Com curadoria de Francis Vogner dos Reis e Marcelo Miranda, a Mostra Contemporânea contará com pré-estreias nacionais e internacionais. Do Brasil, serão exibidos vários títulos com repercussão internacional, refletindo a temática do evento. Os filmes são “Animal Indireto”, de Daniel Lentini (RJ); “Os Príncipes”, de Luiz Rosemberg Filho (RJ); “Os Filhos de Macunaíma”, de Miguel Antunes Ramos (SP); “Diz a Ela que me Viu Chorar”, de Maíra Büheler (SP); “A Noite Amarela”, de Ramon Porto Mota (PB); “Os Dias sem Tereza”, de Thiago Taves Sobreiro (MG); “Os Jovens Baumann”, de Bruna Carvalho Almeida (SP); e “Nietzsche Sils Maria Rochedo de Surlej”, de Julio Bressane e Rodrigo Lima (RJ).

Os Dias Sem Tereza”,  de Thiago Taves Sobreiro (Foto: Divulgação)

Os títulos estrangeiros, haverá exibições de “Paul Sanchez Está de Volta!” (França), de Patricia Mazuy; “Danças Macabras, Esqueletos e Outras Fantasias” (França/Portugal), de Rita Azevedo Gomes, Pierre Léon e Jean-Louis Schefer; “Por El Diñero” (Argentina), de Alejo Moguilansky; “Nightmare Cinema” (EUA), de Mick Garris, Joe Dante, David Slade, Ryuhei Kitamura e Alejandro Brugués; “A Vingança de Jairo” (Colômbia), de Simón Hernández; e o curta “O Mar Enrola na Areia” (Portugal), de Catarina Mourão.

Serviço:
13ª CineBH - Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte e Brasil Cinemundi 
Data: 17 a 22 de setembro de 2019
Informações pelo telefone: (31) 3282-2366
Locais de realização:
- Palácio das Artes: Cine Humberto Mauro, Sala Juvenal Dias, Teatro João Ceschiatti, Jardim Interno e Área de Convivência Cine-Café
- Sesc Palladium: Grande Teatro, Cine Sesc Palladium e Foyer na Avenida Augusto de Lima
- Cine Theatro Brasil Vallourec
- Teatro Sesiminas
- MIS Cine Santa Tereza 
Programação: http://cinebh.com.br/programacao/

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quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Mesmo romanceado, "Legalidade" é uma oportuna aula de História do Brasil

Leonardo Machado interpreta um Brizola seguro, com sotaque e entonação característicos do líder (Fotos: Joba Migliorin/Divulgação)

Mirtes Helena Scalioni


Para quem tem fome de História, "Legalidade", dirigido por Zeca Brito, que entra nesta quinta-feira (12) em cartaz em Belo Horizonte, é simplesmente um prato cheio. O ano é 1961, o presidente eleito Jânio Quadros renuncia e o imbróglio está criado: o vice João Goulart, democraticamente escolhido pelo voto, corre o risco de não tomar posse por causa de suas ideias socialistas. Enquanto o Exército brasileiro, com o apoio de parte da população, faz tudo para impedir que ele suba a rampa em Brasília, no Rio Grande do Sul nasce e cresce um movimento forte para que Jango seja empossado. E quem lidera essa luta, que ficou conhecida como Rede da Legalidade, é o então governador gaúcho Leonel Brizola. 


Já que, por aqui, há muito se diz que brasileiro tem memória curta, tomar conhecimento de como se criou o movimento gaúcho pela posse de João Goulart é um deleite. O que pode ter passado à História como mera bravata surge, na tela, como uma rede construída com muita coragem, ousadia, luta e união. E muito da credibilidade que o filme passa se deve à interpretação certeira de Leonardo Machado, a quem o longa é dedicado no final. 



O ator gaúcho morreu em setembro de 2018, aos 42 anos, depois de ter apresentado por anos o Festival de Gramado e de ter ganhado o Kikito de Melhor Ator em 2009 por "Em Teu Nome". Leonardo interpreta um Brizola seguro, com sotaque e entonação característicos do líder, sem nunca ceder à facilidade do exagero e da caricatura. O filme conta com cenas passadas também em 2001 e 2004, com avanços no tempo e flashbacks.


Assim como Leonardo Machado, os demais atores só enriquecem "Legalidade": Letícia Sabatela como Branca, uma jornalista que, nos anos de 2000 investiga o desaparecimento de sua mãe durante a ditadura militar; Fernando Alves Pinto, que faz o antropólogo Luiz Carlos, e José Henrique Ligabue, que vive o ingênuo fotógrafo Tonho. Os dois, que são irmãos, formam um triângulo amoroso com Cecília Ruiz (Cleo Pires), jornalista do The Washington Post que, aparentemente, vem ao Brasil para cobrir o movimento gaúcho. 


Se a direção de arte, os cenários e os figurinos não deixam o espectador se esquecer da triste realidade passada na década de 1960, o mesmo não se pode dizer da trama paralela, o romance vivido por Cecília/Luiz Carlos/Tonho. A historinha fora da História soa falsa, inadequada e inútil. A impressão que se tem é que foi colocada no filme com a intenção de torná-lo mais palatável. Não precisava. Alguém que sai de casa para ver um filme sobre fatos relativamente recentes do Brasil, dificilmente vai se deixar encantar por beijos, corpo e transas da atriz Cleo - que não usa mais o sobrenome Pires.


Enfim, "Legalidade" é um filme necessário, principalmente neste Brasil de hoje, quando muitos temem pelo fim da democracia e do cumprimento da Constituição. Ver como os gaúchos, naquele ano de 1961, com toda a precariedade das comunicações, enfrentaram com organização, bravura, solidariedade e coragem, a ameaça de uma ditadura que acabou chegando três anos depois, não deixa de ser um alento. Mais do que isso, um estímulo. Na sessão de pré-estreia, houve aplausos no final.

A obra foi premiada recentemente durante o 42ª Festival Guarnicê de Cinema (São Luís - MA), vencendo nas categorias de Melhor Direção (Zeca Brito), Direção de Arte (Adriana Borba), Fotografia (Bruno Polidoro) e Melhor Ator (Leonardo Machado - in memoriam). “Legalidade” é o sexto longa de Zeca Brito e foi inteiramente rodado no Estado do Rio Grande do Sul.

Ficha técnica
Direção: Zeca Brito    
Roteiro: Zeca Brito e Leo Garcia
Produção: Prana Filmes
Distribuição: Boulevard Filmes
Duração: 2h02
País: Brasil
Classificação: 14 anos

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quinta-feira, 5 de setembro de 2019

"It: Capítulo Dois": Pennywise retorna para se vingar do Clube dos Otários

Produção baseada na obra de Stephen King encerra a história explorando principalmente as fraquezas e superações dos personagens (Fotos: Brooke Palmer/Warner Bros Pictures)

Carolina Cassese


Após o sucesso de “It: A Coisa” (longa inspirado na obra de Stephen King), que em 2017 se tornou a maior bilheteria de um filme de terror da história, o argentino Andy Muschietti está de volta na direção de “It: Capítulo Dois” ("It Chapter Two") Dessa vez, ele apostou na abordagem de temas mais densos, como homofobia, relacionamentos abusivos e traumas de infância. “Agora o tom é menos juvenil. Vejo o primeiro filme mais ingênuo, mais leve. Afinal, é contado pelos olhos de crianças”, disse em entrevista publicada no jornal Folha de São Paulo. Nesta sequência, como no filme anterior e em outras obras do autor, o terror é usado como pano de fundo para explorar o lado emocional dos personagens.


Passaram-se 27 anos desde que o “Clube dos Otários”, formado pelos então adolescentes Bill, Ritchie, Beverly, Ben, Mike, Eddie e Stanley, derrotou Pennywise (Bill Skarsgård), um espírito demoníaco que pode assumir muitas formas - inclusive a de um palhaço assustador. Mike, que ainda vive na pequena cidade de Derry, é o único que de fato lembra tudo o que aconteceu. Ele resolve convocar os outros membros do grupo para um encontro quando se dá conta de que Pennywise provavelmente está à solta novamente, caçando crianças e pessoas vulneráveis. Ao se reunirem, os integrantes do clube percebem que a situação é muito mais grave do que eles imaginavam.


A primeira cena, provavelmente a mais assustadora do longa, já consegue passar essa mensagem: logo após saírem de um parque de diversões, um casal de homossexuais é agredido a socos e pontapés por alguns bullies de Derry. Pennywise (com Bill Skarsgård novamente no papel) até aparece no fim da sequência, mas fica em segundo plano: o preconceito do ser humano consegue ser mais assustador do que as horrendas criaturas sobrenaturais criadas pelo palhaço do mal.


Ao longo do filme, acompanhamos as batalhas internas de cada membro do Clube dos Otários. O arco mais emocionante é o de Bev (Jessica Chanstain), que se encontra em um relacionamento violento e ainda precisa lidar com os traumas causados por seu pai abusivo. Os outros personagens principais, interpretados por James McAvoy (Bill), Bill Hader (Ritchie), James Ransone (Eddie), Jay Ryan (Ben), Isaiah Mustafa (Mike) e Andy Bean (Stanley) também são construídos com complexidade e cuidado. 

O elenco se sai muito bem (destaque para Bill Hader e Bill Skarsgård, novamente), ao passo que a produção consegue equilibrar os momentos de tensão com alívios cômicos (algumas piadas soam repetitivas, mas a maioria funciona). Assista no making off abaixo o que Stephen King e os atores falam sobre o filme.


Há transições entre a vida adulta e a adolescência dos personagens. O espectador, então, mergulha na infância do Clube dos Otários a partir de flashbacks. Muitas cenas foram gravadas para o primeiro filme e inicialmente descartadas. O diálogo entre os dois tempos funciona bem, reforçando a conexão do público com os personagens. A duração do filme (quase 3 horas), no entanto, torna a experiência do espectador mais cansativa - e não parece muito necessária.


De certa forma é possível entender esse roteiro longo demais e exagerado, uma vez que as duas produções - "It - A Coisa" e "It - Capítulo Dois") são partes de uma mesma obra, de quase 1.200 páginas, escrita em 1986 por Stephen King. Intencional ou não, o livro, assim como os dois filmes, foi lançado em setembro e completa 33 anos desde sua publicação.


Não é à toa que boa parte da crítica chamou o longa de “um presente para os fãs de Stephen King”: há incontáveis referências à obra do autor (ele mesmo faz uma pontinha no filme). Muito mais do que um simples terror, “It: Capítulo Dois” é sobre amizade, autoconhecimento e superação - e fica difícil não se envolver com as bonitas histórias de cada um dos membros do Clube.


Ficha técnica:
Direção: Andy Muschietti
Produção: New Line Cinema / Lin Pictures / Vertigo Entertainment
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Duração: 2h50
Gênero: Terror
País: EUA
Classificação: 16 anos
Nota: 4 (0 a 5)

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quarta-feira, 4 de setembro de 2019

"A Tabacaria", um dos últimos filmes de Bruno Ganz, estreia nesta quinta-feira em BH

O jovem Franz e o famoso psicanalista Sigmund Freud se tornam amigos em uma Viena ameaçada pelo nazismo (Fotos: A2 Filmes/Divulgação)

Da Redação


Com distribuição da A2 Filmes, estreia nesta quinta em BH. Juiz de Fora e outras 17 cidades, o drama alemão "A Tabacaria" ("Der Trafikant"), do diretor e roteirista Nikolaus Leytner. A produção, que foi um dos destaques na programação do Festival Judaico 2019, é um dos últimos trabalhos do grande ator Bruno Ganz ("A Queda! As Últimas Horas de Hitler" e "A Festa"), que desta vez interpreta Sigmund Freud.


Baseado no romance de Robert Seethaler, o filme conta a história de Franz (Simon Morzé), um rapaz de 17 anos que chega a Viena para trabalhar como aprendiz em uma tabacaria. Ali, ele conhece Sigmund Freud, um cliente frequente. Com o passar do tempo, os dois, apesar de origens muito distintas, desenvolvem uma amizade única. 


Quando Franz se apaixona perdidamente pela dançarina Anezka (Emma Drogunova), ele busca os conselhos de seu amigo Sigmund, que, apesar de ser um renomado psicanalista, admite que o sexo feminino seja um grande mistério para ele em termos românticos. A tensão política e social aumenta dramaticamente na Áustria, piorando com a chegada dos nazistas à capital. Franz, Sigmund e Anezka se perdem no meio do caos da cidade e cada um terá uma decisão difícil a tomar: sair do país ou permanecer nele.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Nikolaus Leytner
Produção: EPO Film / Glory Film
Distribuição: A2 Filmes
Duração: 1h54
Gênero: drama
Países: Alemanha / Áustria
Classificação: 16 anos

Tags: #ATabacaria, #A2Filmes, #BrunoGanz, #NikolausLeytner, #drama, @cineart_cinemas, @cinemaescurinho, @cinemanoescurinho

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

"Anna - O Perigo Tem Nome" - espionagem, beleza russa e a excelente Helen Mirren

Sasha Luss é a agente russa Anna Poliatova, uma temida e implacável assassina da KGB (Fotos: Europacorp/ TF1 Films Production)

Maristela Bretas


Em seus segundo trabalho, Sasha Luss é a protagonista de "Anna - O Perigo Tem Nome", em cartaz nos cinemas. A atriz russa, que poucos vão se lembrar de ter participado de "Valerian e a Cidade dos Mil Planetas" (também dirigido por Luc Besson), está mais bela e entrega uma interpretação bem melhor neste filme de ação. Ela é Anna Poliatova, uma espiã russa disfarçada de modelo internacional. Claro, que somente o rostinho bonito e o corpo de Luss não salvariam a produção se o elenco não contasse com a participação da excelente Helen Mirren, que faz toda a diferença quando entra em cena - ela sim é a atriz principal. 


A britânica vencedora do Oscar dá vida à Olga, uma das chefes da KGB que vai contratar a jovem Anna para a organização. Em recente entrevista, Mirren declarou ser fascinada pelo universo dos espiões (atuou em "RED: Aposentados e Perigosos" - 2010 e "Red 2 - Aposentados e Ainda Mais Perigosos" - 2013). E conta também como foi a relação de sua personagem com a novata. Confira o vídeo clicando aqui


A trama, como em outros sucessos do diretor Luc Besson (como "Lucy", de 2014), é bem amarrada, mas com alguns momentos monótonos. Inicialmente confusos, os flashbacks ao longo do filme passam a ser essenciais ao fazerem as conexões e darem uma reviravolta na história, entregando um final muito bom. Figurino e locações também foram escolhas acertadas. Mas são as cenas de lutas de Anna que prendem o espectador na cadeira, especialmente aqueles que gostam de ação e muito sangue. A melhor é a da luta dentro de um restaurante.



De beleza incomparável, a modelo Anna Poliatova esconde um segredo conhecido por poucos. A profissão é apenas uma fachada para seu trabalho principal. Ela é uma implacável e temida assassina russa da KGB com uma história de violência, sedução e envolvimento com pessoas pouco confiáveis. O elenco conta ainda com os experientes Luke Evans, como o espião russo Alex Tchenkov, e Cillian Murphy, no papel de Lenny Miller, agente da CIA que quer trazer a jovem russa para "o lado dos mocinhos". "Anna" é um bom filme de espionagem que vale a pena ser conferido.


Ficha Técnica
Direção e roteiro: Luc Besson
Produção: EuropaCorp / Canal + / TF1 Films Production / Summit Entertainment
Distribuição: Paris Filmes
Duração: 1h58
Gênero: Ação
País: França
Classificação: 16 anos
Nota: 3 (0 a 5)

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