20 abril 2021

Triste, mas real e necessário, “Agente Duplo”, faz o espectador esquecer que se trata de um documentário

Sérgio Chamy é o simpático idoso contratado para bisbilhotar uma casa de repouso na capital chilena (Fotos Globoplay/Divulgação)

Mirtes Helena Scalioni


Único filme latino-americano indicado ao Oscar – concorre a Melhor Documentário de Longa Metragem – “Agente Duplo” ("The Mole Agent" / "El Agente Topo") é dessas produções que prendem o espectador do início ao fim, mesmo que o público saiba que não se trata de ficção. É tão carismática a atuação de Sérgio Chamy, um senhor de 83 anos contratado para bisbilhotar uma casa de repouso, que, por vezes, pode-se confundi-lo com um ator.

A direção é da chilena Maite Alberti, mas como há outras pessoas de nacionalidades diferentes envolvidas na produção, “Agente Duplo” acaba por se tornar um filme universal. O tema – a velhice e suas questões – também ajuda a tornar o longa fácil de assistir por pessoas de todas as idades.


A sinopse: o detetive chileno Rômulo coloca anúncio num jornal para contratar um idoso para se infiltrar na Casa de Repouso San Francisco, em Santiago do Chile. A ideia é que ele ateste – ou não – se uma tal senhora moradora do asilo está recebendo maus-tratos. Entre os muitos candidatos, o escolhido é Sergio Chamy, que mora meses na casa para espionar com a única obrigação de fazer um relatório diário para o escritório.


A dedicação de Sergio, a seriedade com que ele leva adiante sua missão e, principalmente, seu cavalheirismo e gentileza o tornam uma espécie de galã, cortejado por quase todas as velhinhas. Se, no início, as dificuldades do espião com o uso do celular, as filmagens e mensagens de WhatsApp fazem rir, aos poucos o espectador vai se envolvendo com o que verdadeiramente ele vai descobrindo: a solidão e o abandono de muitos daqueles moradores. “A vida é cruel”, diz, a certa altura, um dos internos.


Segundo contou a diretora em entrevistas, os moradores da Casa de Repouso San Francisco foram avisados de que alguém estaria, naqueles dias, gravando um documentário sobre o asilo. Mas os idosos não pareciam se incomodar com isso. Na verdade, nada parecia incomodá-los. Com raras exceções, o que prevalece é a desesperança. Sem dúvida, “Agente Duplo” é um filme muito triste.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Maite Alberdi
Exibição: Globoplay
Duração: 1h24
Classificação: 12 anos
País: Chile
Gênero: Documentário

19 abril 2021

"Unguarded" retrata metodologia que humaniza o sistema carcerário

Documentário aborda o trabalho desenvolvido nas Apacs do país sob a perspectiva do recuperando (Fotos: Camino Productions/Divulgação)


Flávia Carneiro
Jornalista e colaboradora


Foi lançado oficialmente nesta segunda-feira (19) para um público especial, o documentário "Unguarded" (em português, desarmados). A produção cinematográfica aborda particularidades da aplicação da metodologia da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac) em comarcas mineiras. 

Dirigido pela cineasta italiana e professora universitária nos EUA, Simonetta D´Italia-Wiener, o documentário foi exibido online e reuniu mais de 300 conexões simultâneas com o público que cumpre pena em diversas Apacs de Minas Gerais, do Brasil (mais de seis mil pessoas) e de outros países, como a Itália, além de funcionários e voluntários. O documentário completo estará disponível em breve no canal Globoplay.


Desenvolvido em parceria com a Fraternidade Brasileira de Assistência aos Condenados (FBAC), a produção contou com o apoio do Tribunal de Justiça de Minas Gerais e tem sido difundida mundialmente, recebendo vários prêmios do cinema internacional.

Simonetta D'Italia-Wiener explicou que "Unguarded", de 2020, é fruto de visitas às unidades das Apacs de Itaúna e São João del-Rei em 2018. A filmagem retrata a experiência da aplicação da metodologia apaquiana, sob a perspectiva do recuperando. 


"O documentário nos leva para dentro dos muros das Apacs, o revolucionário sistema carcerário brasileiro voltado para a plena recuperação e reabilitação da pessoa. A partir de 1970, o advogado Mário Ottoboni foi voluntário em algumas das piores prisões do Brasil. Vendo homens e mulheres frequentemente retornarem à vida do crime depois de serem libertados da prisão, ele decidiu fundar seu próprio sistema de justiça restaurativa”, destacou a diretora. 

Os resultados têm sido extraordinários: enquanto o índice de criminalidade e reincidência é alto nas prisões públicas brasileiras, dentro do sistema Apac tem diminuído constantemente, constatou. 


O documentário conta com depoimentos de recuperandos como o de Bruno Adriano Bacelar, que mostrou como é a rotina dos internos, com atividades de trabalho e estudo. Saiba mais sobre a produção  clicando aqui

O juiz Luiz Carlos Rezende e Santos, coordenador-executivo do programa Novos Rumos do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, é um dos entrevistados. Ele fala sobre a proposta da produção e a metodologia Apac e a relação na qual a segurança social se alcança mais com trabalhos de recuperação do infrator do que com a simples punição.


Valdeci Antônio Ferreira, diretor-executivo da FBAC, acredita que o documentário pode ser encarado como um marco para a expansão das Apacs não só no Brasil, mas em outros países, diante do aumento da visibilidade da iniciativa. O que aumenta a responsabilidade, uma vez que as Apacs passam a ser mais observadas e monitoradas.



Sobre a diretora

Simonetta D´Italia-Wiener, natural de Florença (Itália), é diretora e produtora de filmes e professora de Língua Italiana, Literatura e Cinema no St. Francis College, em Nova York. Na mesma cidade ela também é codiretora do programa de estudos da School of Visual Arts. Foi curadora de vários eventos cinematográficos, entre eles, o Centro Cultural Crossroads.


Por oito anos, ela foi a organizadora americana do Rimini Film Festival Meeting. Foi consultora de produção de curtas e, mais recentemente, fundou a produtora de filmes Camino Productions NYC, LLC. Em 2015-2016, ela codirigiu e coproduziu o premiado documentário "The Awakened Heart". Assina como diretora os documentários "The Awakened Heart "(2016) e "Unguarded" (2020).


Ficha técnica:
Direção: Simonetta D´Italia-Wiener
Exibição: Globoplay
Duração: 47 minutos
País: Brasil
Gênero: Documentário