08 setembro 2026

“Minha Melhor Amiga": quando a amizade vira reencontro com a própria vida

Comédia nacional reúne no elenco principal as atrizes e amigas de longas datas na vida real Mônica
Martelli e Ingrid Guimarães (Fotos: Desirée do Valle)
 
 

Marcos Tadeu
Blog Jornalista de Cinema

 
O que acontece quando duas melhores amigas chegam aos 50 anos e percebem que a vida está mudando — e que talvez seja hora de mudar com ela? É a partir dessa pergunta que “Minha Melhor Amiga”, nova comédia dirigida por Susana Garcia, coloca Mônica Martelli e Ingrid Guimarães lado a lado em uma história sobre amizade, amadurecimento, maternidade e a descoberta de que nunca é tarde para recomeçar.

Distribuída pela Paris Filmes, a produção chega aos cinemas quebrando o recorde de maior abertura de um filme nacional de todos os tempos. O filme está em exibição em 1.531 telas de 773 cinemas, em 436 cidades brasileiras, superando “Minha Mãe É Uma Peça 3” (2019), segunda maior bilheteria do cinema nacional nos últimos dez anos.

Estrelado por Mônica Martelli e Ingrid Guimarães, o filme, rodado no Rio de Janeiro, Sevilha (Espanha) e Lisboa (Portugal), é dirigido por Susana Garcia, que já possui uma trajetória muito ligada à comédia brasileira e ao cinema protagonizado por mulheres.


Susana Garcia dirigiu “Minha Mãe É Uma Peça 3”, “Minha Vida em Marte” (2018), com Mônica Martelli e o falecido ator Paulo Gustavo, e “Minha Irmã e Eu” (2023), com Ingrid Guimarães e Tatá Werneck. Seus filmes anteriores somaram mais de 20 milhões de ingressos vendidos, segundo a Paris Filmes.

Na história, conhecemos Júlia (Ingrid Guimarães) e Clara (Mônica Martelli), que chegam aos 50 anos diante de uma nova fase da vida. Entre os efeitos da menopausa e a saída das filhas de casa - Manu (Giulia Benite) e Isadora (Gabi Amaral) -, as duas se encontram por acaso em um aeroporto e descobrem que as meninas estão no mesmo voo para Portugal onde farão um intercâmbio.


O encontro dá início a uma amizade inesperada. Ao viajarem para visitar as filhas, Júlia e Clara deixam a rotina de lado e se envolvem em uma série de aventuras, com viagens, festas, romances, shows e situações inusitadas. Ao longo da jornada, as duas passam a questionar escolhas, relações e a própria maneira de enxergar as filhas.

O que começa como uma viagem para acompanhar as jovens se transforma em uma oportunidade de redescobrir a própria vida e perceber que nunca é tarde para mudar os planos.

No longa, feito por mulheres para mulheres, podemos ver como o conceito de sororidade, palavra muito usada hoje em dia, cabe nessa obra de Susana Garcia. A definição está associada à ideia de irmandade entre mulheres, valorizando a cooperação, o respeito e o fortalecimento umas das outras, especialmente diante de situações de desigualdade, preconceito ou violência.


Segundo o Dicionário Michaelis, amizade é o vínculo estabelecido entre pessoas por meio de uma relação de afeição, simpatia, estima e confiança. Mais do que uma simples convivência, a amizade pressupõe proximidade, respeito, lealdade e reciprocidade, criando um laço afetivo que se constrói e se fortalece ao longo do tempo.

Isso fica claro dentro e fora da tela. Podemos ver como Mônica e Ingrid, de fato, conseguem representar esse conceito, cada uma com sua personalidade, e como as duas, juntas, em meio a tantos anos de amizade, estabelecem uma relação de respeito e simpatia.

O filme acerta ao aproximar o público de Mônica e Ingrid. A sinergia entre ambas e todas as histórias, confusões, perrengues, crises e conflitos trazem o telespectador para perto dessa amizade tão bem construída ao longo de vários anos, que vai além do roteiro do filme.


Algumas curiosidades ajudam a dar o tom da narrativa: a história nasceu da amizade real das protagonistas. Em vez de simplesmente interpretarem duas amigas, Ingrid e Mônica levaram para a ficção experiências que  efetivamente viveram juntas, como a viagem real com as filhas adolescentes pela Europa, que serviu de inspiração para a história.

Apesar de a cena da “chave não está aqui” provocar boas risadas, senti falta das filhas no carro e de como essa parte do roteiro poderia ter sido mais bem trabalhada, incluindo as jovens no perrengue das mães. Um sofrimento a quatro poderia ser mais divertido.


Conflitos emocionais

Júlia, uma jornalista, se depara com um ambiente de trabalho que descarta as mulheres mais maduras para colocar rostos jovens em suas mídias e no mercado. Ela se encontra em conflito, com medo de ficar perdida profissionalmente e também emocionalmente.

Já Clara tem uma visão bonita de um casamento que acabou há muito tempo, mas que precisa encontrar novas formas de viver a vida e de lutar pelo que acredita. Sempre fica a sensação de que ela é muito velha para viver novas experiências e de que não irá conseguir acompanhar a modernidade.

O filme talvez deixe a desejar por apenas “pincelar” vários conflitos que afetam o universo feminino no campo profissional e afetivo, como o das mães acima dos 50 anos. 


O roteiro poderia explorar mais momentos dramáticos. O que se vê, no geral, são as personagens interpretando quem são. As atrizes não precisam sair de sua zona de conforto. Não que isso seja um problema, mas não mostra nada diferente do que já vimos em seus filmes anteriores.

Mesmo com essas ressalvas, “Minha Melhor Amiga” cumpre aquilo que promete: divertir, emocionar e lembrar que a vida não termina quando os filhos crescem, quando um casamento acaba ou quando os 50 chegam. Pelo contrário. Pode ser justamente aí que começa uma nova história.

É um filme solar, leve, para sair do cinema com o coração quentinho e querendo encontrar o seu melhor amigo ou amiga. Porque amizade verdadeira é isso: estar ao lado nos melhores momentos, dividir as confusões, enfrentar os perrengues e, principalmente, lembrar ao outro que nunca é tarde para viver aquilo que ainda falta. 

As diferenças e os embates só reforçam esse laço que podemos levar para o resto da vida, para o que der e vier.


Ficha técnica:
Direção: Susana Garcia
Produção: Paris Entretenimento
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h58
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gênero: comédia

06 setembro 2026

"O Convite": comédia sim, mas com jeito de lição de autoajuda

Filme acompanha o que seria um simples encontro de dois casais vizinhos, mas que acaba se transformando em uma grande confusão (Fotos: O2 Play)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
Difícil resistir a uma comédia rica e instigante como "O Convite" ("The Invite"), em cartaz no Cineart Ponteio, Centro Cultural Unimed-BH Minas e Cine Belas Artes. Com elenco perfeito e roteiro ágil e inteligente, o filme acompanha o que seria um simples encontro de dois casais vizinhos, mas que acaba se transformando em confusões, revelações e constrangimentos. 

Com roteiro de Rashida Jones e Will McCormack e direção de Olivia Wilde ("Não Se Preocupe Querida" - 2022), o longa começa provocando altas gargalhadas antes de se transformar numa conversa séria quase incômoda para o público.


Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia Wilde) vivem uma rotina insuportável e facilmente identificada pelo espectador desde as primeiras cenas do filme. Ele é professor de música numa pequena escola, anda de bicicleta e tem sérios problemas de coluna. 

Ela é a típica dona de casa, cujas funções se limitam a limpar, lavar e preparar as refeições. Os diálogos entre os dois são ríspidos, limitam-se a temas práticos, pequenas brigas e não há nenhum carinho. Descobre-se logo que eles têm uma filha, mas ela não aparece ao longo da trama.


Tudo muda quando Angela, numa tentativa de quebrar a rotina, convida um casal vizinho que está há pouco tempo morando no prédio. Por trás do convite, está algo mais além da simples cortesia. 

Ela e Joe estão curiosos para saber mais sobre as transas ruidosas dos dois que só conhecem de cumprimentos e gentilezas no elevador. Há, no ar, uma nítida inveja dos gemidos, sussurros e gritos ouvidos do apartamento ao lado.

A entrada em cena de Piña (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton) ilumina o filme. Ele, quase discreto, e ela, loiríssima, esbanjando sensualidade, transformam o apartamento de Angela e Joe. O elenco, aliás, é a grande sacada de "O Convite".  


A exuberante Piña deixa claro, desde o início, que é moderna e ousada. É sexóloga e faz questão de relatar as experiências de sexo grupal que ela e o marido costumam ter, para delírio dos anfitriões. 

E a diretora Olivia Wilde, como Angela, brilha como a mulher carente, desiludida e curiosa. Também carente, mas mais afoito, o personagem Joe, feito por Seth Rogen, é o grande responsável pelas gargalhadas do público.

Outra sacada que faz toda a diferença é, sem dúvida, o cenário. Tudo se passa, praticamente, em apenas dois cômodos da casa: a sala e o pequeno escritório de Joe, como se fosse o palco de um teatro. 


Sem nenhuma cena de nudez e com raros beijos e abraços, o longa deixa transparecer o tesão que começa a brotar entre eles, enquanto os vizinhos relatam suas histórias mirabolantes. São os momentos mais engraçados do filme.

Classificado como comédia dramática, "O Convite" peca pelo final, discursivo e com cara de autoajuda. O fechamento não chega a comprometer o filme, mas uma solução mais sutil talvez levasse o longa a um outro patamar. 

Afinal, há outras formas menos explícitas que podem levar o espectador à reflexão sem fazê-lo parar de rir, como se, depois da piada, o convocasse à seriedade. Merecia um final mais criativo.


Ficha técnica:
Direção: Olivia Wilde
Produção: Annapurna Pictures
Distribuição: O2 Play
Exibição: Cineart Ponteio, Centro Cultural Unimed-BH Minas e Cine Belas Artes
Duração: 1h47
Classificação: 16 anos
País: EUA
Gêneros: comédia, drama

04 setembro 2026

Grace Passô estreia na direção com "Nosso Segredo", filme metafórico que flerta com o sobrenatural

Produção de Ricardo Alves Jr. foi filmada em Belo Horizonte e tem trilha sonora original do pianista Amaro Freitas (Fotos: Vitrine Filmes)
 
 

Eduardo Jr.

 
Em cartaz nos cinemas o primeiro longa dirigido por Grace Passô, "Nosso Segredo", que integra a Sessão Vitrine Petrobrás. O filme acompanha uma família negra que tenta se reerguer após uma perda recente. 

Enquanto cada um foge do luto à sua maneira, o filho caçula guarda um segredo capaz de encarar as raízes de suas dores e, juntos, descobrirem um novo caminho.

Com produção de Ricardo Alves Jr. e filmado em Belo Horizonte, o filme tem trilha sonora original de Amaro Freitas, o criativo e celebrado pianista brasileiro.  


Já na primeira cena o espectador recebe a informação de que aspectos sobrenaturais podem estar por vir. Mas a dica não é sinal de fácil compreensão da obra, que exige enorme capacidade interpretativa de quem assiste. 

Os integrantes da família são apresentados gradativamente, e é fácil questionar se há, de fato, alguma ligação entre eles. Ponto positivo para a tentativa de retratar como as pessoas estão isoladas umas das outras naquela família. 

E aqui, do outro lado da tela, fica uma certa angústia por não entendermos determinados comportamentos ou a profundidade daquelas personagens. 


Uma das poucas (talvez a única) dicas da salvação para esta família venha do texto, no momento em que um dos filhos escuta de uma amiga que é preciso demonstrar afeto para aquelas com quem convive.

Depois disso o espectador é arrastado novamente para o campo da incompreensão ao ver uma casa que parece se manifestar de maneira sobrenatural.  

E dentro do espaço quase claustrofóbico da casa, no grupo formado por pai, esposa, avó e netos, fica claro que a personagem que talvez tenha as respostas é a criança. O longa deixa transparecer que ela se comunica com um amigo imaginário. 


E aí a busca pelo "quem é/o que é" o causador dos ruídos e eventos estranhos na casa vai conduzindo a história, até chegarmos ao final, que pode explicar ou tirar do sério quem ficou ali, acompanhando a história por 103 minutos que parecem não acabar.  

Se este texto não diz muito ao espectador, é porque o longa também se vale de linguagem metafórica para transmitir o desejo da diretora. Os festivais mostram que essa mensagem provocou algum efeito. 


Selecionado para a Mostra Perspectives, dedicada a cineastas que estão em seu primeiro longa-metragem no Festival Internacional de Berlim (Berlinale), "Nosso Segredo" conquistou no Festival de Gramado o Kikito de Melhor Filme, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte. 

Claro, o cinema não precisa entregar tudo mastigado para o espectador. E assim como não há obrigação de se trazer obras de fácil compreensão ou embaladas em rótulos como "terror" ou "suspense", os prêmios conquistados também não garantem que a obra vai agradar ou que será lembrada nas listas de melhores filmes nacionais. 


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Grace Passô
Produção: Entre Filmes, coprodução Globo Filmes, Desvia Filmes, Quarta-Feira Filmes, Foi Bonita a Festa e Grãos da Imagem
Distribuição: Vitrine Filmes
Exibição: Cineart Cidade, Centro Cultural Unimed BH-Minas e Cine Belas Artes
Duração: 1h43
Classificação: 14 anos
Países: Brasil e Portugal
Gêneros: drama, família, fantasia

04 agosto 2026

Cinema e gastronomia vão dominar o Mercado Central de BH no Matula Film Festival

4ª edição celebra feiras e mercados populares como espaços de encontro, memória e preservação da
cultura alimentar (Fotos: Divulgação)
 

 
Da Redação

 
O Matula Film Festival – Cinema e Comida chega à sua quarta edição de 6 a 8 de agosto, no Mercado Central de Belo Horizonte, com o tema “Gastronomia de Feira”. 

Durante três dias, o festival celebra feiras e mercados populares como espaços de encontro, memória e preservação da cultura alimentar, com programação que reúne exibições de filmes, mesas de debate, palestras, lançamentos de publicações, cozinhas-show e percursos guiados pelo mercado.

A Mostra de Filmes reúne produções nacionais e internacionais que exploram as múltiplas relações entre comida, cultura, território e identidade. 

Com exibições gratuitas, a programação apresenta documentários, ficções e animações que revelam histórias de produtores, cozinheiros, comunidades, mercados e tradições alimentares, promovendo reflexões sobre patrimônio cultural, sustentabilidade e modos de vida.

 
Professor Carlos Augusto Monteiro (NUPENS/USP) 
e a chef e historiadora Juliana Duarte


Cada dia tem um eixo temático. A quinta-feira (6) abre com “Sabores de Origem: a Feira como Patrimônio Vivo”. O primeiro compromisso é o tour Mercado Vivo, conduzido pelo jornalista gastronômico Nenel Neto, criador do Baixa Gastronomia, que apresenta personagens e lugares do Mercado Central. 

Na sequência, a mesa de abertura “Mercados Vivos: Cultura Alimentar e Futuro” reúne os homenageados desta edição, o professor Carlos Augusto Monteiro (NUPENS/USP) e a chef e historiadora Ju Duarte, ao lado de convidadas do IDEC e da ACT Promoção da Saúde. 

O dia inclui ainda o lançamento da publicação "Queijos Artesanais de Minas", resultado de dois anos de pesquisa da Emater-MG pelas 16 regiões produtoras do estado.

"Galinha Cheia" (Matheus Monstro e Japa)

Às 13 horas, sessão 1 de curtas: "Coração de Junho" (Eduarda Gulman e Irina Cordeiro, SP, 2025, 15 min); "Planeta Fome" (Édier Willian, RO, 2025, 15 min); "Fui na Feira" (Ana Carolina Aliaga e Vitória Marques, SP, 2023, 19 min) e "Galinha Cheia" (Matheus Monstro e Japa, Maceió, 2023, 9 min).

Thaylane Cristina (BH Film Commission) estará às 14 horas na Mesa de debate “Filmando Cidades Alimentares”. A segunda sessão de cinema acontece às 15 horas com o longa "Comida de Mentira", de Rafael Mellim (SP, 2024, 65 min)

"Planeta Fome" (Édier Willian)

Na sexta-feira (7), sob o eixo “Cozinhas Criativas: Tradição, Inovação e Encontro”, a chef Carol Dini comanda a cozinha-show “Da Cidade ao Mercado”, com oficina de fermentados em homenagem a Bergamo, na Itália, cidade convidada desta edição e integrante da Rede de Cidades Criativas da Gastronomia da UNESCO, da qual Belo Horizonte também faz parte. 

A sessão 3 acontece às 13 horas dedicada às Cidades Criativas da Gastronomia Unesco, com a exibição dos filmes: "Heróis do Meio Ambiente" (Gaziantep, Turquia, 2025, 4 min); "Pão Doce de Santa Maria da Feira" (Santa Maria da Feira, Portugal, 2025, 33 min); "Raiz Cultural" (Marcia Mística, Paraty, 2025, 15 min); "Em Quem Você Acredita" (Matosinhos, Portugal, 2025, 3 min) e "Ilha da Gastronomia" (Gustavo Zinder, Florianópolis, 2026, 12 min).

"Fui na Feira" (Ana Carolina Aliaga e Vitória Marques)

Já às 15 horas será a sessão 4 com a exibição de "MAXLAB Mercados em Movimento: Living Matter" (Teresa Sala, Bergamo, Itália, 2023, 26 min) e "Território e Transformação" (Massimo Battaglini, Piemonte, Itália, 2026, 36 min)

O sommelier de cachaças Léo Gomes conduz a degustação comentada "Territórios da Cachaça", com rótulos apresentados no documentário "Cachaça, O Espírito Brasileiro", de Carlos Ribas (BH, 2026, 83 min), que tem pré-estreia na mesma sala, às 16 horas.

"Cachaça, O Espírito Brasileiro" (Carlos Ribas)

O sábado (8), dedicado ao eixo “Memória à Mesa: Cinema, Afeto e Identidade”, começa com o Cortejo Dona Lucinha: integrantes da comunidade do Serro que participaram das filmagens de "O Melhor Queijo do Mundo" conduzem o público pelos corredores do mercado até a sala de cinema, onde o longa de Lucas Assunção tem sua pré-estreia mundial, às 11 horas. 

Outras duas sessões de cinema marcam o último dia do festival. A primeira às 13 horas, com a exibição dos curtas "Diamantina" (Tangente Filmes, Diamantina, 2026, 14 min) e "Quitandas de Minas Novas" (Nereu Jr, Minas Novas, 2025, 16 min). 

"Atlas do Queijo Minas Artesanal"

Fecham a programação o lançamento do "Atlas do Queijo Minas Artesanal", bate-papo com Denise e Eduardo Girão, do projeto "Só Queijo Cura", e a mostra Raízes Mineiras.

Ao longo dos três dias, as cozinhas-show da Academia de Chefs do Prepara Gastronomia/Sebrae Minas recebem chefs de diferentes cidades mineiras para preparos feitos com ingredientes do próprio mercado, no circuito “Do Mercado à Mesa – Caminhos do Ingrediente”. 

Também diários são os Caminhos da Matula, roteiro de estabelecimentos do Mercado Central selecionado por Nenel Neto em diálogo com os temas da programação, e o lançamento de publicações sobre cultura alimentar, que inclui ainda Papilex – A História Invisível dos Sabores, de Carol Dini.


Serviço
Matula Film Festival – Cinema e Comida

Data: 6 a 8 de agosto de 2026
Local: Mercado Central de Belo Horizonte, Av. Augusto de Lima, 744, Centro
Programação: www.matulafilmfestival.com.br

03 agosto 2026

"Champagne": sensível e comovente longa holandês convida à celebração antes que a vida se apague

Leo Alkemade e Huub Stapel formam uma ótima parceria que dá leveza, equilíbrio e simplicidade à
narrativa sobre esta jornada de pai e filho (Fotos: Autoral Filmes)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
Mais do que uma história de despedida, o filme holandês "Champagne - Uma Viagem de Pai e Filho" ("Champagne") trata de uma celebração da vida. Aclamado e premiado em seu país de origem, o longa emociona e diverte enquanto acompanha a jornada dos dois pelas estradas da Europa. Classificado como uma comédia dramática, o trabalho do diretor Tim Kamps encontra o tom perfeito para falar de amor.

É preciso salientar que "Champagne..." é um filme, antes de tudo, simples. Logo no início, o espectador toma conhecimento de que o velho Hans (Huub Stapel) e sua mulher Sophie (Beppie Melissen) se ocupam, principalmente, de tomar conta dos netos. 

Ao mesmo tempo, o avô é apresentado como brincalhão, quase irresponsável, e apreciador de bebidas alcoólicas, principalmente de champagne, que ele adora, para preocupação e desespero de toda a família. 


Na verdade, trata-se mesmo é de um road movie. São poucas e ligeiras as primeiras cenas da família. Assim que descobre a doença e o estado terminal de Hans, o filho Maarten (Leo Alkemade) propõe a viagem pelo nordeste da França, exatamente a região vinícola onde nasceu e é cultivado com esmero o champagne. A bebida, como todos sabem, é associada a festejos, alegria e comemorações. Por que não antes da morte?

A relação pouco íntima entre pai e filho fica nítida assim que a viagem começa. Há silêncios que pesam e incomodam e que, aos poucos, vão se transformando em risos, lembranças, revelações. Entre consultas ao mapa, paradas para abastecimento do carro e, principalmente para as refeições, o amor entre os dois parece desabrochar como se eles estivessem se (re)conhecendo. 


Há momentos de descobertas e pura ternura que comovem o espectador. E talvez exatamente pela simplicidade como a história vai se desenvolvendo, "Champagne..." é um filme que pode ser entendido e apreciado em qualquer idioma ou cultura, pois fala do sentimento universal entre pai e filho.

Plasticamente, o longa explora as maravilhas da região, com seus vinhedos infinitos e imagens de pequenas estradas entre as parreiras, onde os dois se perdem em bifurcações e encruzilhadas. Nada mais bonito e simbólico. 


Também há cenas de dezenas de champagnes sendo abertas, inclusive pelo método conhecido como sabrage, em que se abre a garrafa com espada ou facão afiado que arranca o bocal e faz jorrar o líquido com abundância. Impossível não sair do cinema com sede de champagne.

O ator Leo Alkemade se baseou no seu próprio projeto de sair pela estrada com seu pai, que acabou morrendo antes que a viagem se concretizasse. Inspirado, ele escreveu o roteiro junto com Rik van den Bos e, de certa maneira, cumpriu o que tinha prometido ao pai. 

No fundo, "Champagne ..." parece ser mesmo um convite à celebração da vida antes que ela se apague. Não por acaso, no Brasil, o filme entra em cartaz em 6 de agosto, mês em que se celebra o Dia dos Pais.


Ficha técnica:
Direção: Tim Kamps
Roteiro: Leo Alkemade e Rik van den Bos
Produção: Aattache Films e Brabant Films
Distribuição: Autoral Filmes
Exibição: Cine Una Belas Artes
Duração: 1h30
Classificação: 14 anos
País: Holanda
Gêneros: road movie, comédia dramática

31 julho 2026

Maratona: "Toy Story 3" ensina que crescer é aprender a deixar ir

Woody, Buzz Lightyear e os demais enfrentam mudanças que colocam sua amizade à prova (Fotos: Pixar)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
Na sequência de nossa maratona temos "Toy Story 3", que chegou aos cinemas em 2010 com orçamento de US$ 200 milhões e se tornou o primeiro longa de animação a ultrapassar US$ 1 bilhão nas bilheterias mundiais. 

Andy (voz de John Morris) cresceu e está indo para a faculdade. Ele precisa decidir o que fazer com seus antigos brinquedos. Quando Woody, Buzz e a turma vão parar na creche Sunnyside, descobrem que o lugar não é tão perfeito quanto parece. 


Agora, precisam escapar de um novo inimigo e encarar a difícil despedida de Andy. O grande mérito do filme está em fechar de maneira emocional a história do jovem e trabalhar com maturidade a passagem da infância para a vida adulta. 

Woody, Buzz e os demais enfrentam mudanças que colocam sua amizade à prova, principalmente o cowboy, que inicialmente só quer manter todos juntos em casa.


O urso de pelúcia Lotso é uma das grandes surpresas da nova animação. Aparentemente fofo, ele carrega um histórico de abandono e ressentimento que o transforma em um líder cruel e totalitário. 

O elenco reúne novamente a maioria dos dubladores do primeiro e do segundo filmes como Tom Hanks (Woody), Tim Allen (Buzz), Joan Cusack (Jessie), Don Rickles (Sr. Cabeça de Batata), Estelle Harris (Sra. Cabeça de Batata), Wallace Shawn (Rex), John Ratzenberger (Porquinho), Laurie Metcalf (Mãe de Andy) e Annie Potts (Betty). 


Mas trouxe também novos nomes como Emily Hahn (Bonnie), Ned Beatty (Lotso), Michael Keaton (o boneco Ken), Jodi Benson (Barbie), Whoopi Goldberg (Stretch), Kristen Schaal (Trixie) e Blake Clark (que substituiu Jim Varney, falecido em 2000 e que fazia a voz de Slinky), entre outros.

Na dublagem brasileira, os personagens ganharam as vozes de Marco Ribeiro, Guilherme Briggs, Mabel Cezar, Pádua Moreira, Alfredo Martins, Carmen Sheila, Marco Antônio Costa, Reginaldo Primo, Carlos Gesteira, Duda Ribeiro, Olavo Cavalheiro, Renata Ferreira, Sheila Dorfman, Fernanda Bullara e Miriam Ficher, respectivamente.


O ponto negativo de "Toy Story 3" está na fórmula repetida. Mais uma vez, os brinquedos são separados e precisam enfrentar uma situação perigosa para conseguirem voltar juntos. 

Bonnie, a nova criança que passa a fazer parte dessa história, também poderia ter recebido mais espaço para desenvolver sua relação com os brinquedos.


Ainda assim, "Toy Story 3" funciona justamente porque entende que crescer também significa aprender a deixar ir. O filme recebeu cinco indicações ao Oscar e venceu Melhor Animação e Melhor Canção Original, além de ter sido indicado a Melhor Filme. 

No fim, a despedida de Andy e dos brinquedos se tornou um dos momentos mais marcantes da Pixar: uma conclusão honesta, que permanece na memória e no coração mesmo quando a vida adulta chega e precisamos seguir nossas próprias escolhas.

Saiba mais sobre os outros filmes da franquia que estão disponíveis no Disney Plus clicando nos links: "Toy Story" (1995), "Toy Story 2" (1999), "Toy Story 4" (2019) e o mais recente, ainda no cinema, "Toy Story 5".


Ficha técnica:
Direção: Lee Unkrich
Produção: Pixar Animation Studio
Distribuição: Buena Vista Pictures Distribution
Exibição: Disney+
Duração: 1h40
Classificação: Livre
País: EUA
Gêneros: animação, aventura, comédia, infantil

30 julho 2026

Maratona "Toy Story 2" — O que importa é ser um brinquedo amado por uma criança

Continuação apresentou melhorias significativas na qualidade da animação, especialmente nas texturas, expressões faciais e movimentação dos personagens  (Fotos: Pixar) 
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
Sequência direta do primeiro filme, "Toy Story 2" chegou aos cinemas em 1999 com a difícil missão de manter a essência do original, explorando o que significa ser um brinquedo por meio da amizade entre Buzz Lightyear e Woody (novamente dublados por Tim Allen e Tom Hanks), ao mesmo tempo em que expande esse universo com uma nova história. 

Com um orçamento de US$ 90 milhões e uma bilheteria mundial de US$ 511,3 milhões, tornou-se a terceira maior arrecadação daquele ano e mais um grande sucesso comercial da Pixar.

A história gira em torno da descoberta de Woody sobre seu passado como estrela de um antigo programa de TV. Ao conhecer Jessie (voz de Joan Cusack), o cavalo Bala no Alvo (efeitos vocais de Frank Welker) e Pete Fedido (Kelsey Grammer), ele passa a questionar se deve permanecer ao lado de Andy e dos velhos amigos ou viver para sempre em um museu. 

Enquanto isso, Buzz e seus amigos embarcam em uma missão para resgatá-lo, invertendo a dinâmica do filme original. Lançada quatro anos após "Toy Story", a continuação apresentou melhorias significativas na qualidade da animação, especialmente nas texturas, iluminação, expressões faciais e movimentação dos personagens. 


Os cenários ficaram mais detalhados e a equipe conseguiu criar sequências mais complexas e dinâmicas, como a perseguição na loja Al's Toy Barn e a emocionante cena no aeroporto. O filme também demonstrou a evolução do RenderMan, software de renderização da Pixar que permitiu imagens mais sofisticadas e maior liberdade criativa para os animadores.

A qualidade técnica e narrativa da produção foi reconhecida com diversas premiações. "Toy Story 2" venceu o Globo de Ouro de Melhor Filme Musical ou Comédia em 2000 e conquistou vários Annie Awards, considerados os principais prêmios da indústria da animação. Vale lembrar que, naquela época, a categoria de Melhor Filme de Animação ainda não existia, sendo criada apenas alguns anos depois.

O grande mérito da continuação está na introdução de personagens carismáticos como Jessie, Bala no Alvo e Pete Fedido, ao mesmo tempo em que aprofunda a trajetória de Woody. 


O filme questiona o verdadeiro propósito de um brinquedo: ser preservado para sempre como peça de museu ou viver sua existência sendo amado por uma criança. Essa reflexão dá a narrativa uma maturidade emocional que vai muito além da aventura.

Outra novidade está na forma como o longa brinca com referências da cultura pop. A mais famosa delas envolve Buzz Lightyear e Zurg (Andrew Stanton). Durante o resgate de Woody, Buzz encontra seu maior inimigo e os dois recriam uma das cenas mais icônicas da história do cinema. 

Em uma clara homenagem a "Star Wars: Episódio V – O Império Contra-Ataca", Zurg revela a Buzz: "Eu sou seu pai". A piada funciona porque Buzz foi inspirado nos heróis das aventuras espaciais que marcaram as décadas de 1970 e 1980.


O filme também ri de si mesmo quando Buzz encontra uma fileira de outros Buzz Lightyear na loja de brinquedos. A cena satiriza a crise de identidade do primeiro filme ao mostrar que ele acreditava ser único quando, na verdade, era apenas mais um brinquedo produzido em massa. 

A brincadeira ganha força com a entrada de um astronauta semelhante na missão de resgate, criando situações divertidas e reforçando a confusão de identidades.

Um dos temas mais fortes de "Toy Story 2" é a busca por pertencimento e identidade. Diferentemente do primeiro filme, que explorava principalmente a amizade entre Woody e Buzz, a continuação questiona quem os brinquedos são e qual é seu verdadeiro propósito.

Agora amigos, eles não estão mais em conflito. A relação entre os dois amadureceu e serve como base para a narrativa. Enquanto o astronauta lidera a missão para resgatar o caubói, este passa por uma jornada interna ao descobrir que faz parte do antigo programa de televisão, "Woody's Roundup". 


Pela primeira vez, ele percebe que é mais do que o brinquedo favorito de Andy: é uma peça rara, com uma história e um legado próprios. É nesse momento que entram os novos personagens. Jessie carrega as marcas de ter sido abandonada por sua antiga dona e acredita que criar laços com crianças inevitavelmente leva ao sofrimento. Bala no Alvo demonstra uma lealdade incondicional a Woody, reforçando a ideia de pertencimento através dos vínculos. 

Já Pete Fedido representa o extremo oposto: por nunca ter sido escolhido por uma criança, acredita que o melhor destino para um brinquedo é ficar protegido em um museu, onde jamais será esquecido ou descartado.

A partir dessas diferentes perspectivas, Woody é colocado diante de uma escolha difícil. De um lado, a possibilidade de viver para sempre em um museu, sendo admirado e preservado como uma peça histórica. Do outro, continuar ao lado de Andy, sabendo que um dia será deixado para trás quando seu dono crescer.


A trilha sonora ficou novamente a cargo de Randy Newman, que ampliou os temas musicais apresentados no primeiro filme e ajudou a dar uma identidade emocional ainda mais forte à continuação. 

O grande destaque é a canção "When She Loved Me", interpretada por Sarah McLachlan, que recebeu indicação ao Oscar de Melhor Canção Original. A música acompanha a história de Jessie e se tornou uma das cenas mais emocionantes da história da animação, abordando sentimentos como abandono, saudade e passagem do tempo. A trilha também conta com novas versões de "You've Got a Friend in Me" e músicas inspiradas no universo de Woody's Roundup.

O que deixa a desejar é que a trama repete parte da estrutura do primeiro filme, com Woody novamente separado dos demais brinquedos e Buzz assumindo a liderança de uma missão de resgate. 

Além disso, personagens já conhecidos, como Rex (Wallace Shawn), Slinky (Jim Varney), Porquinho (John Ratzenberger) e Betty (Annie Potts), recebem pouco desenvolvimento, ficando em segundo plano para dar espaço aos novos integrantes da história. 


No fim, a mensagem é simples e poderosa: Woody descobre que ser um cowboy famoso, raro ou valioso não importa tanto quanto aquilo que sempre deu sentido à sua existência: brincar, criar memórias e fazer parte da vida de uma criança. Nenhuma coleção, museu ou reconhecimento pode substituir o sentimento de ser amado por seu dono.

É justamente nessa escolha que "Toy Story 2" encontra sua força emocional e se consolida como uma das melhores continuações da história da animação. Saiba mais sobre os outros filmes da franquia que estão disponíveis no Disney Plus clicando nos links: "Toy Story" (1995), "Toy Story 3" (2010), "Toy Story 4" (2019) e o mais recente, ainda no cinema, "Toy Story 5".


Ficha técnica:
Direção: John Lasseter, Ash Brannon, Lee Unkrich
Produção: Pixar Animation Studio
Distribuição: Buena Vista Pictures Distribution
Exibição: Disney+
Duração: 1h32
Classificação: Livre
País: EUA
Gêneros: animação, aventura, comédia, infantil

29 julho 2026

Maratona - "Toy Story": o que importa é ser brinquedo e compartilhar

Obra apresentou ao mundo uma nova forma de contar histórias animadas, ajudando a redefinir os rumos
deste gênero no cinema (Fotos: Pixar)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
Quem diria que uma história protagonizada por brinquedos poderia se transformar em um fenômeno de público e crítica? Lançado em 1995, "Toy Story - Um Mundo de Aventuras" não apenas conquistou espectadores de todas as idades, como também marcou definitivamente a história do cinema.

Levando cerca de quatro anos para ser produzido foi o primeiro longa-metragem da Pixar e também a primeira animação da história inteiramente realizada por computação gráfica (CGI).
 
Sob a direção de John Lasseter e com roteiro assinado por Joss Whedon, Andrew Stanton, Joel Cohen, Pete Docter e Alec Sokolow, a obra apresentou ao mundo uma nova forma de contar histórias animadas, ajudando a redefinir os rumos deste gênero no cinema.


Por trás desse avanço artístico, havia também uma base científica fundamental. Nomes como Ed Catmull e Alvy Ray Smith, cofundadores da Pixar Animation Studios, foram essenciais nesse processo. 

Catmull, especialista em computação gráfica, ajudou a desenvolver e aprimorar sistemas de imagem digital e a estruturar o pipeline de produção 3D que tornou o filme possível. 

Já Alvy Ray Smith contribuiu com fundamentos matemáticos e visuais que permitiram a criação de imagens digitais consistentes em larga escala. Sem esse tipo de engenharia, "Toy Story" simplesmente não existiria.

O resultado foi um sucesso imediato. Com um orçamento considerado modesto para os padrões de Hollywood — cerca de US$ 30 milhões — o filme arrecadou impressionantes US$ 394,4 milhões nas bilheterias mundiais. O desempenho consolidou o estúdio como uma das maiores forças da animação e abriu caminho para uma nova era do cinema animado.


Na história, o cowboy Woody (voz de Tom Hanks) é o brinquedo favorito de Andy e o líder entre os brinquedos do quarto. Sua rotina muda completamente quando Buzz Lightyear (Tim Allen), um moderno patrulheiro espacial, chega como presente de aniversário. 

O que começa como rivalidade logo se transforma em uma grande aventura, cheia de perigos, descobertas e amizade, enquanto tentam encontrar o caminho de volta para casa. 

No meio da jornada, eles cruzam com Sid (Erik von Detten), o vizinho de Andy, um garoto que desmonta brinquedos e cria invenções estranhas com suas peças. Presos na casa do destruidor, Woody e Buzz precisam encontrar uma forma de escapar antes que seja tarde demais.


O grande mote do longa está justamente na relação entre Woody e Buzz. Acostumado a ser o brinquedo favorito de Andy, o cowboy vê a chegada do astronauta como uma ameaça e faz de tudo para afastá-lo, chegando a provocar a queda dele pela janela. 

A atitude de Woody provoca revolta nos outros brinquedos, que passam a condená-lo pelo ocorrido. A partir daí, os dois são forçados a conviver e a enfrentar seus conflitos.

Existe aqui um interessante contraste entre gerações. Woody representa os brinquedos tradicionais, ligados ao Velho Oeste e a uma ideia mais artesanal de diversão. Já Buzz simboliza a modernidade, a tecnologia e o fascínio infantil por aventuras espaciais.


Esse choque fica ainda mais evidente na forma como Buzz acredita ser, de fato, um patrulheiro espacial, incapaz de aceitar sua condição de brinquedo.

É nesse ponto que surge uma das subtramas mais fortes do filme. Enquanto Woody insiste repetidamente em afirmar para Buzz “você é um brinquedo”, o astronauta luta para sustentar sua fantasia de missão espacial. O momento em que tenta voar para escapar da casa de Sid é o ponto de virada emocional da narrativa. 

Ao som de “I Will Go Sailing No More”, ele finalmente confronta a realidade e compreende que não é um herói espacial e sim mais uma das diversões de Andy. É uma cena melancólica e surpreendentemente madura para uma animação infantil, tratando identidade, aceitação e propósito com rara sensibilidade.


A partir desse conflito, "Toy Story" revela seu tema mais profundo: pertencimento e identidade. Esses dois conceitos não aparecem de forma abstrata, mas como experiências vividas dentro da própria dinâmica do grupo dos brinquedos. 

O filme constrói isso de maneira simples e precisa: quem pertence ao grupo nem sempre se sente pertencente, e quem é aceito pelo grupo nem sempre se reconhece dentro dele.

Woody é o principal exemplo dessa tensão. No início, ocupa uma posição de estabilidade como líder e brinquedo favorito de Andy. Existem harmonia e reconhecimento naquele universo. Porém, a chegada de Buzz desestabiliza essa estrutura. 

Depois do conflito com a queda do astronauta, Woody passa a ser visto com desconfiança pelos outros brinquedos. Ele continua fisicamente dentro do grupo, mas perde o reconhecimento emocional. Está presente, mas já não pertence plenamente. Esse deslocamento mostra que pertencimento não é automático: ele depende de confiança, validação e reconhecimento coletivo.


Buzz, por outro lado, vive o movimento inverso. Ele chega como um estranho, mas é rapidamente aceito pelos outros brinquedos. Sua aceitação, porém, não se baseia em quem ele realmente é, mas na imagem que representa: um brinquedo avançado e admirável. Ou seja, ele pertence ao grupo sem compreender esse pertencimento.

O astronauta vive uma crise de identidade, não se vê como brinquedo, mas como um patrulheiro espacial em missão. Isso cria uma ironia central: ele é aceito por todos, mas não se reconhece e vai precisar se desconstruir até que aceite sua realidade.

No fundo, "Toy Story" fala de algo profundamente humano: não basta fazer parte de um grupo para se sentir pertencente, e não basta ser reconhecido pelos outros para compreender a si mesmo. 


É nesse encontro entre perda de lugar e descoberta de si que o filme encontra sua força emocional mais profunda — e é aí que deixa de ser apenas um marco tecnológico para se tornar uma história sobre o que significa existir dentro de um mundo que também precisa te reconhecer.

Mas a conclusão dessa jornada vai além da identidade individual. O que "Toy Story" realmente revela é que o pertencimento só se completa quando existe aceitação — de si e do outro. É nesse ponto que Woody e Buzz deixam de ser apenas opostos e passam a ser parceiros.

Se no início representam choque de gerações, egos e visões de mundo, ao longo da narrativa constroem algo mais forte do que suas diferenças: uma amizade baseada na transformação mútua. 

Woody aprende a dividir espaço, perder o controle e reconhecer o valor do outro. Buzz, por sua vez, aprende a se aceitar sem abrir mão da coragem e do sentido de propósito que o define.


Não se trata apenas de estar no mesmo lugar, mas de construir um lugar em conjunto. A canção “Amigo Estou Aqui” sintetiza essa virada emocional de forma definitiva. 

Mais do que um tema musical, ela traduz apoio, presença e permanência mesmo diante das diferenças. Woody e Buzz descobrem que a força não está em competir por atenção, mas em caminhar lado a lado.

No fim, "Toy Story" não fala apenas sobre brinquedos de uma criança. Fala sobre vínculos que se formam quando dois mundos diferentes aprendem a coexistir, se transformar e se reconhecer. E é aí que tudo se fecha com simplicidade e força: amizade é quando o outro deixa de ser ameaça — e passa a ser parte de quem você é. 

Saiba mais sobre os outros filmes da franquia que estão disponíveis no Disney Plus clicando nos links: "Toy Story 2" (1999), "Toy Story 3" (2010), "Toy Story 4" (2019) e o mais recente, ainda no cinema, "Toy Story 5".


Ficha técnica:
Direção: John Lasseter
Produção: Pixar Animation Studio
Distribuição: Buena Vista Pictures Distribution
Exibição: Disney+
Duração: 1h17
Classificação: Livre
País: EUA
Gêneros: animação, aventura, comédia, infantil