23 julho 2026

Cine Humberto Mauro realiza mostra com a filmografia completa de Akira Kurosawa até 16 de agosto

Retrospectiva exibe 30 longas e conta com sessões comentadas por especialistas (Crédito: Akira Kurosawa)
 
 

Da Redação

 
O Cine Humberto Mauro realiza mostra dedicada a exibir a filmografia completa de Akira Kurosawa (1910-1998), considerado um dos principais cineastas do Japão. 

A programação inclui sessões comentadas por especialistas e 30 filmes emblemáticos do realizador, como “Rashomon”, (1950), “Os Sete Samurais” (1954), “Trono Manchado de Sangue” (1957), “Dersu Uzala” (1975) e “Ran” (1985), formando um panorama da carreira de Kurosawa ao longo de seis décadas e de séculos da história japonesa. 

A mostra segue até o dia 16 de agosto, com entrada gratuita, sendo a retirada de ingressos antecipados na plataforma Sympla; e  a partir de 1 hora antes de cada exibição, na bilheteria principal do Palácio das Artes.

(Dersu Uzala)

A mostra começou no dia 16 de julho com uma exibição do filme “A Fortaleza Escondida” (1958), épico de aventura, ação, drama e humor que se Inspira nos faroestes do diretor hollywoodiano John Ford. Logo depois,  houve a abertura oficial com uma apresentação de Taiko com o Grupo Raiki Daiko, nos jardins internos do Palácio das Artes. 

A noite se encerrou com a sessão de “Yojimbo, o Guarda-Costas” (1961), seguida por comentário do professor e pesquisador José Ricardo Miranda Júnior – haverá tradução simultânea para a Língua Brasileira de Sinais. 

"Yojimbo, o Guarda-Costas"

A mostra segue com mais sessões comentadas, oferecendo ao público a oportunidade de aprofundar o diálogo com os filmes ao explorar aspectos históricos, estéticos e temáticos que ajudam a iluminar a riqueza da obra de Kurosawa. 

Nesta segunda semana da mostra, no dia 24 de julho (sexta-feira), às 18h30, “O Idiota” (1951) será comentado pelo crítico e pesquisador João Paulo Campos. 

Dia 28 (terça-feira), às 19h, a curadora Layla Braz conversa com o público sobre “Não Lamento Minha Juventude” (1946). Fechando as sessões comentadas, o cineasta Affonso Uchoa participa da exibição de “Dodeskaden - O Caminho da Vida” (1970), às 16h do dia 1º de agosto (sábado).

“Dodeskaden - O Caminho da Vida”

Cineasta inspirador

Com curadoria de Vitor Miranda, programador do Cine Humberto Mauro, a mostra propõe uma aproximação com a obra de Akira Kurosawa a partir de suas múltiplas dimensões: sua relação com a cultura japonesa, sua inventividade formal e sua capacidade de transformar questões humanas específicas de seu país de origem – moral, honra, poder, memória, justiça, violência e responsabilidade coletiva – em experiências cinematográficas de alcance universal. 

Considerado um dos diretores mais influentes da história do cinema, Akira Kurosawa nasceu em Tóquio e viveu uma trajetória que acompanhou o surgimento e a consagração do cinema como forma de arte. 

"O Idiota"

Durante sua infância, o pai levava a família ao cinema para assistir a filmes internacionais, e seu irmão mais velho, Heigo, tornou-se um benshi — narrador que acompanhava ao vivo a exibição de filmes mudos —, com a companhia frequente de Akira. 

Após um período atuando como pintor, ativista e entusiasta da literatura no grupo clandestino Liga dos Artistas Proletários, Kurosawa respondeu, em 1936, a um anúncio de vagas para assistentes de direção no estúdio P.C.L. Film Studios. 

"Não Lamento Minha Juventude"

Lá, trabalhou como aprendiz por sete anos sob a tutela do cineasta Kajiro Yamamoto antes de dirigir seu primeiro longa-metragem, “A Saga do Judô” (1943), aos 33 anos. 

Inspirando-se no teatro, em suas obras favoritas da literatura japonesa e internacional e em cineastas como Sergei Eisenstein, D.W. Griffith e Abel Gance, Kurosawa fundiu essas influências na criação de uma linguagem cinematográfica autoral que seria desenvolvida até seu último filme, a comédia dramática “Madadayo” (1993), lançado quando o cineasta tinha 83 anos.

"Os Sete Samurais"

Arte marcial japonesa

Impulsionado pelo interesse no kendo – arte marcial tradicional japonesa de combate com a espada – durante a infância e pelas conexões familiares de seu pai com samurais reais, Kurosawa destacou-se no gênero jidai-geki com alguns dos épicos de samurai mais reverenciados de todos os tempos — histórias ambientadas no Japão feudal e diversos outros períodos. 

Ele aplicou o mesmo virtuosismo visual e a narrativa de grande proporção aos seus dramas contemporâneos – gênero gendai-geki –, incluindo “O Anjo Embriagado” (1948) e “Viver” (1952).

"Trono Manchado de Sangue"

Fonte de inspiração para diversos cineastas ocidentais, como Sidney Lumet, Sam Peckinpah, Sergio Leone, Spike Lee e George Lucas – que bebeu de “A Fortaleza Escondida” para criar “Star Wars” (1977) –, Kurosawa está presente também em uma das animações mais queridas de todos os tempos – “Vida de Inseto”, dirigida por John Lasseter e produzida pela Pixar, que tomou emprestada a trama de “Os Sete Samurais”.

A primeira fase significativa da carreira do diretor ocorreu no pós-Segunda Guerra Mundial com “O Anjo Embriagado” e “Cão Danado”, filmes noir que inauguraram sua longa colaboração com o ator Toshiro Mifune – parceiros em 16 filmes no total. 

"A Fortaleza Escondida"

No início da década de 1950, Kurosawa alcançou fama mundial com “Rashomon”, um marco na narrativa não-linear que despertou o interesse internacional pelo cinema japonês. 

Nos anos seguintes, ele manteve um diálogo frutífero com o Ocidente, inspirando-se em autores canônicos como Shakespeare e Dostoiévski, mas também em escritores contemporâneos como Dashiell Hammett. 

Na década de 1960, Kurosawa mudou o foco para obras mais sombrias e pessimistas, situadas no ambiente urbano, como “Céu e Inferno” (1963) e “O Barba Ruiva” (1965), que encerraram sua colaboração com Mifune. 

Nos anos 1970, ele enfrenta uma crise, com a fraca bilheteria de “Dodeskaden - O Caminho da Vida”. Porém, é premiado com o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira por “Dersu Uzala” (que Kurosawa já havia ganho por “Rashomon”), feito em parceria com a produtora soviética Mosfilm. 

“Rashomon”

Na década de 80, com o apoio dos cineastas estadunidenses George Lucas e Francis Ford Coppola, o diretor segue com obras internacionalmente reconhecidas, centrados na queda de figuras heroicas e poderosas, como “Kagemusha, a Sombra de um Samurai” (1980), ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes, e Ran – indicado aos Oscars de Melhor Direção, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte, e vencedor do Oscar de Melhor Figurino.  

Nos anos 90, o cineasta encerra a carreira com “Sonhos” (1990), “Rapsódia em Agosto” (1991) e “Madadayo” — obras contemplativas que fazem um uso tido como visionário das cores. 

"Sonhos"

A programação inclui ainda a exibição do documentário “Uma Mensagem de Kurosawa” (2000), de Hisao Kurosawa, filho do cineasta. A obra revisita a trajetória do realizador por meio de imagens de arquivo, depoimentos e reflexões sobre seu processo criativo.

Com uma filmografia marcada por sequências de ação cuidadosamente coreografadas e uso dramático do clima, Kurosawa foi influenciado e inspirou, em um processo recíproco, o cinema ocidental. 

Mas ele é também lembrado por colocar tais elementos a serviço de uma constante investigação da condição humana, o que o torna parte de uma linhagem de cineastas humanistas que encontraram no cinema uma maneira de observar o mundo e compreender as complexidades da experiência humana.

"Ran"

SERVIÇO:
Data: até 16 de agosto
Local: Cine Humberto Mauro – Palácio das Artes (Avenida Afonso Pena, 1537, Centro – Belo Horizonte)
Classificações indicativas: variáveis
Programação completa no site: www.cinehumbertomauromais.com/programacao
Entrada: gratuita; 50% dos ingressos estarão disponíveis, de forma on-line, a partir do meio-dia da data das sessões, na plataforma Sympla; o restante será distribuído presencialmente na bilheteria principal do Palácio das Artes e nos totens, a partir de 1 hora antes de cada exibição.
Sessão da Meia-Noite: acontece mensalmente, em exibição única, na madrugada de sexta-feira para sábado. Para essa sessão, metade dos ingressos estará disponível de forma on-line a partir das 18h do dia da sessão, pela plataforma Sympla. O restante ficará disponível no Totem de Autoatendimento localizado no hall do Cine Humberto Mauro - uma hora antes da sessão. 

17 julho 2026

Após 50 anos, "Xica da Silva" volta às telas em versão restaurada

Obra dirigida por Cacá Diegues que consagrou Zezé Motta é relançada nos cinemas de mais de 23 cidades brasileiras (Fotos: Divulgação)
 
 

Patrícia Cassese

 
É sempre uma boa notícia quando um título icônico da cinematografia brasileira volta em cartaz com cópia restaurada. O exemplo da vez é “Xica da Silva”, um clássico. Dirigido por Cacá Diegues, com Zezé Motta no papel da mítica personagem, o filme - lançado em 1976 – foi, conforme informam os créditos iniciais deste relançamento, restaurado digitalmente em resolução 4K.

Vinte e três cidades brasileiras vão exibir esta versão remasterizada. O filme poderá ser conferido em BH nas salas do Cine Belas Artes e do Centro Cultural Unimed-BH Minas.


Dentro da diretriz de evitar a manipulação dos materiais originais em película, o processo utilizou arquivos digitais. Sendo esses provenientes do escaneamento do negativo original de imagem em 35mm, que, informa a produção, à época do processamento, apresentava sujeiras, fungos e rasgos de todos os rolos. Os louros da iniciativa cabem à Sessão Vitrine Petrobrás.

Detalhes técnicos à parte, o filme é daqueles que dispensam muitas apresentações, principalmente aqui, em Minas, visto se tratar de uma história hoje bastante conhecida (ainda que apontamentos vejam graves distorções no retratamento dessa mulher, filha de um homem branco de origem portuguesa e uma africana), ambientada na segunda metade do século XVIII, nas proximidades do Arraial do Tijuco – hoje, Diamantina. 


O ponto de partida é a chegada, na região, de João Fernandes de Oliveira (Walmor Chagas), novo contratador de diamantes nomeado pelo regente, preocupado com possíveis desvios na extração do ouro e de diamantes em plagas locais.

Não demora e o contratador é impactado pela beleza e sensualidade da figura da escrava Xica da Silva – sim, você sabe, vivida pela diva Zezé Motta -, a ponto de logo querer comprá-la. Os dois se tornam publicamente amantes, desafiando o tradicionalismo e o preconceito vigente à época. 

Obstinado, João Fernandes não poupa esforços para satisfazer os caprichos da sedutora moça, a começar por lhe conceder a almejada carta de alforria – o que, vale dizer, não permite a Xica da Silva o livre acesso a todos os lugares frequentados pela elite branca. 


Mais que isso, o contratador manda trazer perucas e tecidos dos mais caros para Xica da Silva, além de emular um mar, para que ela, assim, possa ter a sensação de uma viagem de barco.

Em se tratando de um filme feito há 50 anos, naturalmente alguns aspectos certamente vão provocar uma certa estranheza, mesmo para aqueles que o revisitaram mais amiúde. É pertinente supor que, se fosse filmado hoje, o próprio tom interpretativo dos atores seria distinto – mesmo lembrando que Diegues optou por um tom farsesco. 

Portanto, é necessário pensar “Xica da Silva” como um documento importante da produção cinematográfica brasileira dos anos 1970, em tempos nos quais os recursos eram – óbvio – mais limitados. 


Um documento, que, por seu turno, se empenha em flagrar um período extremamente doloroso da história brasileira, o da escravidão, quando seres humanos violentamente tirados de seus países de origem eram separados de suas famílias e trazidos em condições sub-humanas para o Brasil, sendo comercializados, escravizados e, diante de patrões contrariados, submetidos a rituais de tortura inenarráveis, alguns dos quais aparecem sublinhados na tela, numa representação que busca explicitar – para o público de 1976, assim como para o de agora - o horror.

Por outro lado, a ambição da escrava que usa de sua sexualidade para catapultar sua posição na sociedade incomoda bastante, principalmente por, de acordo com alguns historiadores, não corresponder aos fatos. Aqui, não cabe estender no quesito figura histórica X personagem tecida pelo imaginário, embora uma pesquisa aprofundada em sites confiáveis possa ser proveitosa. 


A própria historiadora e escritora Mary del Priore lançou, este ano, pela Editora José Olympio, obra no qual desmonta a imagem hiper sexualizada de Xica da Silva: “Meu Nome é Francisca: Uma História de Chica da Silva” (em tempo: a grafia com ch é considerada historicamente como a correta).

Com o olhar de que a história real não corresponde ao mito, o espectador, pois, pode rever o filme atentando-se para o talento incontestável de Zezé Motta, aproveitando para rever grandes atores que já partiram, como José Wilker e Walmor Chagas – para não falar da presença em cena de Elke Maravilha, linda. Além de relembrar uma das grandes produções de Cacá Diegues, falecido em 2025.

Como assinalamos, é um filme icônico, um documento. E que bom, então, que volta em cartaz nos cinemas marcando a importância da preservação da memória.


Ficha técnica:
Direção: Cacá Diegues
Roteiro: Cacá Diegues e João Felício dos Sanros
Distribuição: Vitrine Filmes
Exibição: Cine Belas Artes e Centro Cultural Unimed-BH Minas
Duração: 1h47
Classificação: 16 anos
País: Brasil
Ano: 1976 (RELANÇAMENTO)
Gêneros: comédia, história


16 julho 2026

"A Odisseia": Christopher Nolan transforma um clássico em um espetáculo monumental

Diretor supera os próprios limites em seu filme mais grandioso, gravado em seis países, totalmente em
IMAX (Fotos: Universal Pictures)
 
 

Maristela Bretas

 
Christopher Nolan reúne novamente um elenco estelar para entregar uma obra épica em todos os sentidos: duração, elenco, efeitos visuais e, ainda, o fato de ser o primeiro longa-metragem totalmente filmado em IMAX 15/65 mm.

Falo de “A Odisseia” (“The Odyssey”), em cartaz nos cinemas a partir desta quinta-feira. O diretor e roteirista de sucessos como "Oppenheimer" (2023), "Dunkirk" (2017), "Interestelar" (2014) e "Batman – O Cavaleiro das Trevas" (2008) mostra, mais uma vez, que consegue se superar a cada nova produção.

“A Odisseia” é um espetáculo visual e sonoro que prende o público do início ao fim, mesmo com quase três horas de duração. O IMAX é utilizado com maestria por Nolan, que prometeu recorrer minimamente à Inteligência Artificial — algo que, ao que tudo indica, foi cumprido. 


O filme, escrito e dirigido por Nolan, é baseado no poema épico da Antiguidade atribuído ao poeta grego Homero. O diretor segue de perto a narrativa original, alternando a trajetória de Odisseu e suas aventuras com a vida de Penélope e Telêmaco, que permanecem em Ítaca à espera de seu retorno.

Além da imponência visual, Nolan demonstra grande cuidado na construção de uma narrativa envolvente. Mesmo quem não conhece esse clássico da literatura consegue acompanhar o enredo sem dificuldade, já que as experiências dos personagens vão se encaixando como peças de um quebra-cabeça até a conclusão da história.


Matt Damon, em ótima atuação, interpreta o rei grego Odisseu (ou Ulisses, nome dado pelos romanos), comandante do grupo de soldados que utiliza o gigantesco cavalo de madeira para entrar em Troia e destruir a cidade e seu exército.

A trama começa após essa vitória e acompanha a longa jornada de Odisseu e seus homens para retornar à ilha de Ítaca e reencontrar suas famílias depois de 20 anos afastados — dez deles lutando na Guerra de Troia e o restante tentando voltar para casa.

É uma jornada marcada por novas batalhas contra criaturas da mitologia grega, como o ciclope Polifemo, filho de Poseidon; a feiticeira Circe (Samantha Morton, grande destaque do filme), que transforma humanos em animais; as sereias; e a misteriosa Calipso (Charlize Theron, que poderia ter sido melhor aproveitada).


Odisseu está disposto a enfrentar tudo isso para reencontrar a esposa Penélope (Anne Hathaway) e o filho Telêmaco (Tom Holland), que nunca conheceu. Também precisa recuperar seu trono, cobiçado por dezenas de pretendentes vindos de toda a Grécia, entre eles Antínoo (Robert Pattinson), decidido a se casar com a rainha e ocupar o poder.

O elenco de peso conta ainda com Zendaya (Athena), Elliot Page (Sinon), Jon Bernthal (Menelau), Lupita Nyong’o (Helena de Troia), Bill Irwin (voz do ciclope Polifemo), Mia Goth (Melanto), Himesh Patel (Euríloco), Ben Safdie (Agamenon) e John Leguizamo (o servo cego Eumeu), entre outros.


Não espere, porém, um filme sentimental. Pelo contrário: Nolan expõe a frieza humana tanto nas batalhas campais quanto nas ações dos personagens, levando até mesmo o herói a questionar seus princípios e o sentido da guerra diante de tanta crueldade.

Se a narrativa impressiona, o trabalho técnico eleva ainda mais o filme. A fotografia de Hoyte van Hoytema aproveita ao máximo o formato IMAX para criar imagens de impacto, explorando a beleza das locações e a imponência das batalhas. 

A trilha sonora de Ludwig Göransson confere emoção e intensidade na medida certa, enquanto a montagem mantém o ritmo fluido mesmo em uma produção de quase três horas. 


O desenho de som, aliado aos efeitos visuais discretos e ao uso predominante de recursos práticos, faz com que o espectador se sinta dentro da jornada de Odisseu, transformando a sessão em uma experiência cinematográfica envolvente.

Com orçamento estimado em US$ 250 milhões e filmagens realizadas em seis países — Marrocos (que representa Troia), Grécia, Islândia (o submundo de Hades), Escócia, Itália (palco da ilha de Ítaca) e Estados Unidos —, “A Odisseia” é uma obra cinematográfica monumental e ambiciosa, à altura do próprio Christopher Nolan, e merece ser vista em IMAX.

Uma coisa é certa: o longa entra desde já como fortíssimo candidato a várias estatuetas do Oscar 2027.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Christopher Nolan
Produção: Universal Pictures, Syncopy
Distribuição: Universal Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h52
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: ação, aventura, fantasia

12 julho 2026

"Nós Acreditamos em Vocês": quando a Justiça coloca a palavra das vítimas em julgamento

Drama belga expõe a difícil fronteira entre a dúvida e a proteção das vítimas contra abusos domésticos
(Fotos: Filmes do Estação)
 
 

Patrícia Cassese

 
À exceção de uma pequena cena externa, logo em seu início, a narrativa do filme belga “Nós Acreditamos em Vocês” ("On Vous Croit"), de Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys, se passa totalmente no curso de uma audiência judicial, na qual o que está em jogo é a permissão para a reaproximação (ou não) de um pai – vivido por Lauren Cappelutto - de seus dois filhos, uma adolescente e um garoto, esse, ainda criança. Mais que isso, ele pode conquistar a guarda das crianças.

A questão é que não só a Alice (Myriem Akheddiou), ex-esposa do sujeito e mãe dos dois, é absolutamente contrária à hipótese de que este contato seja restabelecido, quanto os próprios rebentos têm verdadeira aversão a tal – na verdade, ambos entram em pane diante da mera possibilidade de compartilhar o mesmo ar que o genitor, o que obrigatoriamente aconteceria (acontece) na audiência.   


O motivo de tal ojeriza é compartilhado em pequenas pílulas com o espectador no curso do citado compromisso: sobre o pai paira a suspeita de atos desprezíveis, incluindo a molestação do filho. 

Aliás, a mãe, assim como sua advogada, sustenta que uma situação fisiológica a qual o garoto está lidando no momento, e que o faz eventualmente faltar à escola, por ter muito nela de constrangedor, seria derivada justamente do aventado abuso. 

Ocorre que o processo perpetrado contra o pai ainda não foi julgado, e é nesta brecha jurídica que ele tenta descredibilizar a mãe, com a ajuda de uma jovem (muito jovem) advogada.


Interessante apontar que tanto a advogada da mãe quanto a do pai são mulheres, assim como a juíza que vai deliberar sobre o caso. Assim, no centro do embate, temos quatro mulheres contra dois homens – além do pai dos garotos, o advogado destinado pelo estado para analisar o que seria hipoteticamente melhor para os dois menores de idade.

Colocado também na condição de juiz, o espectador vai sendo informado das versões a partir do momento em que, na audiência, as partes envolvidas ganham o direito à palavra. 

Ou seja, o público não presenciou nada (não há cenas de flashbacks), e, portanto, não tem como saber de que lado está a verdade, mas, para embasar a sentença, precisa ser convencido pelos argumentos apresentados por uma das partes.


E é aí que temos o “clássico” processo de descredibilização da mulher, fenômeno que transcende fronteiras geográficas, religiosas e culturais e se espraia pelos quatro cantos do planeta. 

No caso de Alice, a própria advogada do reclamante chama atenção pela tentativa de desmoralizar uma companheira de sexo – talvez inclusive pela especificidade, aqui já apontada, de ser jovem demais, portanto, certamente sem ainda ter experimentado o desafio de ser mãe. 

Um componente importante, então, passa a ser o conjunto de expressões manifestadas por cada personagem, inclusive as corporais, assim como a argumentação. Neste quesito, que bela interpretação, a de Myriem Akheddiou.


Em um momento em que a violência – inclusive a sexual – doméstica tem sido cada vez mais denunciada, com índices assustadores, “Nós Acreditamos em Vocês” cumpre a missão de alertar quanto à importância de uma análise acurada de cada caso, visto que nem sempre as provas são assim, tão evidentes. 

E, afinal, estamos falando de seres (crianças, adolescentes) que, na maioria das vezes, inclusive pela dependência emocional e financeira, não têm como se defender de abusos que vão mostrar suas consequências pelo resto de suas existências.


Ficha técnica:
Direção: Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys
Produção: Makintosh Films
Distribuição: Filmes do Estação
Duração: 1h18
Exibição: em breve no streaming 
Classificação: 14 anos
País: Bélgica
Gênero: drama

09 julho 2026

"A Gente Tenta": entre risos, frustrações e a difícil arte de construir novas histórias

Dorama tem como destaque os atores sul-coreanos Koo Kyo-hwan e Go Youn-jung que formam uma
relação de acolhimento (Fotos: Netflix)
 
 

Silvana Monteiro

 
Para quem gosta de histórias ambientadas nos bastidores do cinema, das produções audiovisuais e de personagens complexos, fica minha indicação de um dorama da Netflix: "A Gente Tenta" ("We Are All Trying Here").

A minissérie acompanha um grupo de cineastas que se reúne regularmente no bar de uma amiga e colega de profissão. Entre projetos frustrados, sonhos adiados, rivalidades, afetos e muita conversa regada a álcool, acompanhamos personagens que tentam sobreviver — e criar — em um mercado audiovisual nem sempre acolhedor.


Os destaques ficam para Hwang Dong-man (interpretado por Koo Kyo-hwan), que há décadas tenta emplacar um roteiro nas grandes produtoras, e Byeon Eun-ah (papel de Go Youn-jung), que carrega um segredo bombástico capaz de ressignificar muitas das relações ao seu redor. 

Go Youn-jung é uma atriz sul-coreana que tem em sua filmografia sucessos séries como "Alquimia das Almas" (2022-2023), "O Amor Pode Ser Traduzido" (2026) e "Em Movimento" (desde 2023). 

Já Koo Kyo-hwan, também sul-coreano, alcançou maior sucesso por sua atuação na série "D.P. Dogs Day (2021-2023, da Netflix, além da participação nos filmes "Jane" (2016) e "Invasão Zumbi 2" (2020).


A dinâmica entre eles dois, que são os mais novos do grupo, e o restante da turma, é construída aos poucos, revelando ressentimentos, admiração, inveja, amizade e sentimentos difíceis de nomear. 

No meio disso tudo, dois atores consagrados do cinema sul-coreano são disputados por sua capacidade de interpretação, mas são colocados, para além do conflito técnico, à prova de suas humanidades. 


O grande mérito da minissérie está nos diálogos, na construção dos acontecimentos e nos temas sensíveis os quais ela aborda. São daqueles que parecem simples à primeira vista, mas continuam pulsando na nossa cabeça e no nosso coração depois que o episódio termina. 

A atuação da dupla principal é impressionante, e a narrativa está repleta de referências sutis a obras consagradas do cinema, um prato cheio para quem gosta de identificar camadas e homenagens. 

A forma como os personagens são desenvolvidos, sem a história de um encobrir a outra, mantendo um ritmo convidativo e interessante, faz querer digerir os capítulos como se faz com um bom prato de comida quando se está faminto. 


Apesar do título modesto em português, a obra é muito mais rica do que parece. Além do humor e dos conflitos profissionais, a série aborda temas como autoria e coautoria, financiamento público para a cultura, maternidade, equidade de gênero no audiovisual e outras questões sensíveis, como o autoextermínio, sem cair em discursos fáceis.

É uma dessas produções que entretêm, fazem rir, provocam reflexão e deixam alguns temas e reflexões ocupando espaço na cabeça por dias. A fotografia também é um grande trunfo. Merece aplausos.


Ficha técnica:
Direção: Cha Young-hun
Roteiro: Park Hae-young
Produção: Netflix
Exibição: Netflix
Duração: 12 episódios
Classificação: 16 anos
País: Coreia do Sul
Gêneros: minissérie, dorama, romance

06 julho 2026

"Mestres do Universo" - "Pelos poderes de Grayskull... Eu tenho a força!"

He-Man devolve a infância aos fãs, mas também prova que nostalgia sozinha não sustenta um reino,
ainda mais Eternia (Fotos: Sony Pictures)
 
 

Robhson Abreu
Parceiro do Jornal de Belô e Revista PQN

 
Muito antes de os super-heróis dominarem as plataformas de streaming e as bilheterias do cinema, um guerreiro de cabelos loiros, espada em punho e força sobre-humana já mobilizava milhões de crianças brasileiras diante da televisão. 

Exibido diariamente no "Xou da Xuxa", na segunda metade da década de 1980, He-Man e os Mestres do Universo transformou-se em um dos maiores fenômenos de audiência da programação infantil brasileira. 

O sucesso foi tão avassalador que ultrapassou as telas, impulsionou a venda de brinquedos, álbuns de figurinhas e inspirou uma canção gravada pelo grupo infantil Trem da Alegria que, até hoje, permanece viva na memória afetiva de quem cresceu naquela época.

He-Man, o guardião musculoso e bronzeado de Eternia, já ocupava um lugar privilegiado no imaginário de uma geração que transformou o príncipe Adam, o Castelo de Grayskull, Mentor, Teela, a Feiticeira e o temido Esqueleto e sua gangue em personagens inesquecíveis. 

He-Man, série animada de TV (Reprodução)

Quase quatro décadas depois, essa mesma geração, hoje formada por homens e mulheres acima dos 50 anos, volta a encontrar seus heróis nas telonas com o aguardado live-action de "Mestres do Universo" ("Masters of the Universe"), em cartaz nos cinemas da rede Cineart.

Reviver um clássico da cultura pop nunca é tarefa simples. A memória afetiva costuma ser implacável com qualquer adaptação. O diretor Travis Knight ("Bumblebee", 2018) demonstra desde a primeira sequência que conhece o peso dessa responsabilidade. 

Em vez de apostar apenas no apelo nostálgico, constrói uma aventura que respeita o legado da animação e, ao mesmo tempo, entrega um espetáculo visual compatível com as grandes produções contemporâneas. 

Eternia finalmente ganha a grandiosidade que os fãs imaginaram durante décadas, com cenários monumentais, figurinos ricos em detalhes e efeitos especiais que valorizam o universo criado pela Mattel.


O roteiro, assinado por Chris Butler ("Link Perdido", 2019), em parceria com David Callaham ("Homem-Aranha no Aranhaverso", 2018), além dos irmãos Aaron e Adam Nee ("A Cidade Perdida", 2022), preserva a essência dos personagens enquanto atualiza a narrativa para um público mais amplo. 

Algumas passagens poderiam ser mais desenvolvidas e certos conflitos se resolvem com rapidez excessiva, mas a história encontra um bom equilíbrio entre ação, emoção e fidelidade ao material original.

Boas atuações

Nicholas Galitzine ("Uma Ideia de Você", 2024), dublado em português por Garcia Júnior (voz original do herói na TV) entrega um Príncipe Adam convincente e um He-Man fisicamente imponente, transmitindo a evolução do jovem herdeiro até assumir plenamente o papel de defensor de Eternia. 


Mas quem domina boa parte da narrativa é Jared Leto ("Casa Gucci", 2021). Seu Esqueleto está ótimo, reunindo sarcasmo, inteligência e uma presença ameaçadora que transforma cada aparição em um dos grandes momentos do filme. 

O vilão acaba roubando a cena em diversos momentos, confirmando que grandes aventuras também dependem de antagonistas memoráveis.

O elenco de apoio também merece destaque. Idris Elba ("O Esquadrão Suicida", 2021) imprime autoridade, experiência e carisma ao Mentor de Armas, tornando Duncan um dos personagens mais sólidos da produção. 

Sua interpretação transmite a confiança de quem conhece cada batalha travada em Eternia e entende o peso de preparar o verdadeiro campeão de Grayskull, o tímido príncipe Adam.


Outro nome que chama a atenção do público brasileiro é Camila Mendes ("Música", 2024). Filha de pais brasileiros, a atriz assume o papel de Teela com personalidade, coragem e protagonismo. Sua personagem está longe de ocupar uma posição secundária. 

Ela participa das principais sequências de ação, demonstra independência e estabelece uma relação convincente com Adam, tornando-se uma das figuras mais importantes da narrativa.

Morena Baccarin ("Deadpool & Wolverine", 2024) empresta elegância e serenidade à Feiticeira de Grayskull, enquanto Alison Brie ("Bela Vingança", 2020) constrói uma Maligna fria, calculista, lora e ambiciosa, ampliando o clima de tensão que envolve a disputa pelo destino de Eternia.


Em busca da espada do poder

O rei Randor, interpretado por James Purefoy (série "Pennyworth", 2019–2022), e a rainha Marlena, vivida pela atriz Charlotte Riley (minissérie "Peaky Blinders", 2014), enviam Adam aos 10 anos para a Terra, a fim de protegê-lo da invasão liderada por Esqueleto. 

Em um portal mágico aberto pela Feiticeira, o jovem príncipe viaja em uma dimensão e acaba caindo em Oklahoma City, nos Estados Unidos. Durante a travessia, a Espada do Poder se separa dele, e esse é o acontecimento que desencadeia toda a história. 

Quinze anos depois e já com 25 anos de idade, Adam usa o nome Glenn. Ele trabalha no setor de recursos humanos de uma empresa e divide um apartamento com o desconfiado Hussein interpretado por Christian Vunipola ("Nascida Para Cantar", 2024). 

Diariamente ele procura na internet o rumo da Espada do Poder para voltar a Eternia, até encontrá-la e se meter em confusões. 


Ao voltar para casa, Glenn/Adam é perseguido pelo Homem-Fera, interpretado pelo ator Gary Martin ("Minions", 2015). Fiel escudeiro de Esqueleto, ele persegue o príncipe pelas ruas da cidade é uma das principais sequências de ação da primeira parte do filme. E é justamente nesse momento que a bela Teela reaparece para salvar Adam e ajudá-lo a retornar a Eternia.

Esse é um dos principais diferenciais do filme em relação ao desenho do Xou da Xuxa. Na animação, Adam sempre viveu em Eternia e já era o príncipe do reino. No live-action, os roteiristas optaram por construir uma história de origem, mostrando o herói crescendo longe de seu planeta natal antes de assumir definitivamente a força de He-Man. 

Os fãs mais antigos certamente perceberão a ausência de alguns personagens fundamentais na animação original. O tigre Pacato aparece pouco durante o filme até sua aguardada transformação em Gato Guerreiro. 

Embora a escolha prepare o terreno para os próximos capítulos da franquia, fica a sensação de que um dos personagens mais carismáticos de Mestres do Universo merecia maior participação. 


Outro que aparece somente no final do longa é o atrapalhado Gorpo. O pequeno mago, inseparável companheiro de He-Man em praticamente toda a série animada dos anos 1980, sequer integra a aventura principal. 

Para quem acompanhou o desenho desde a infância, sua ausência provoca estranhamento e deixa evidente que a produção preferiu guardar personagens importantes como estratégia para uma futura continuação. Com certeza ele daria maior leveza à história com suas confusões.

Boa trilha sonora

Outro acerto importante em Mestres do Universo está na trilha sonora composta por Daniel Pemberton ("Enola Holmes", 2020, e "Ferrari", 2023). Em vez de viver apenas das lembranças da série animada, o compositor cria uma identidade própria para o filme, alternando momentos épicos e passagens mais emocionais que ampliam a força dramática da história. 

O principal destaque é "Eternia", composta por Pemberton em parceria com o guitarrista Brian May. A faixa abre o filme e ganha uma versão estendida nos créditos finais. O solo de guitarra de May dá à música uma identidade que remete ao rock épico dos anos 1980, uma escolha inspirada na trilha de Flash Gordon (1980), também marcada pela participação do Queen.


Ainda assim, fica a sensação de uma oportunidade perdida. Para o público brasileiro, especialmente aquele que hoje integra a geração 50+, uma discreta homenagem à música composta por Michael Sulivan e Paulo Massadas e gravada pelo Trem da Alegria teria sido um presente inesquecível. A canção ajudou a popularizar He-Man no Brasil e permanece viva na memória afetiva de milhões de fãs. 

Bastaria uma breve referência instrumental, talvez durante os créditos finais, para estabelecer uma conexão emocional ainda mais forte com quem descobriu os heróis de Eternia nas manhãs da eterna rainha dos baixinhos. Nas redes sociais, a Amazon MGM Studios soltou um trailer com a música He-Man, o que levou muito marmanjo aos cinemas.

A produtora fez uma aposta ambiciosa ao investir em uma franquia que marcou profundamente a infância de milhões de pessoas. O resultado demonstra que ainda existe espaço para grandes clássicos quando recebem planejamento, respeito ao material original e qualidade técnica. 

O estúdio deixa claro que pretende transformar "Mestres do Universo" em uma nova franquia cinematográfica.


Vale a pena permanecer na sala até o encerramento completo dos créditos. A cena extra não está ali apenas para cumprir uma tradição de Hollywood. Ela abre caminho para uma continuação e apresenta um importante gancho envolvendo Adora, a irmã gêmea de Adam, a She-Ra, que luta pela honra de Grayskull. 

Isso ampliará o universo da franquia, além de deixar evidente que novas aventuras já fazem parte dos planos da Amazon MGM Studios, embora a confirmação oficial dependa muito do desempenho nas bilheterias e do streaming.

"Mestres do Universo" está longe de ser apenas um exercício de nostalgia. O filme emociona quem cresceu repetindo o juramento diante da Espada do Poder, mas também apresenta esse universo para uma nova geração que só conhece a música do Trem da Alegria. 

Talvez essa seja sua maior qualidade. Mostrar que alguns heróis envelhecem muito bem e que certas lembranças continuam tão poderosas quanto no primeiro dia em que entraram na nossa vida.


Ficha técnica:
Direção: Travis Knight
Produção: Amazon MGM Studios
Distribuição: Sony Pictures
Exibição: salas da rede Cineart: Boulevard, Cidade e Del Rey
Duração: 2h13
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: ação, aventura, fantasia