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02 novembro 2026

"Ana, En Passant" dialoga com diferentes gerações de mulheres negras

Animação ambientada em Belo Horizonte celebra a força e a representatividade do cinema nacional
(Fotos: Embaúba Filmes)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
Depois de abrir a Mostra Competitiva do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e passar por diversos festivais internacionais, “Ana, En Passant”, de Fernanda Salgado, chega no dia 5 de novembro ao circuito comercial. A animação conquistou o Prêmio Zózimo Bulbul de Melhor Longa-Metragem, concedido por um júri indicado pela Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN) e pelo Centro Afrocarioca de Cinema. 

O reconhecimento destaca obras que ampliam as possibilidades de representação e autoria negra no cinema e ganha ainda mais relevância por se tratar de uma animação dirigida por uma mulher. 

Após a morte da avó, Ana (dublada por Jéssica Pierina), uma jovem negra franco-brasileira, se vê perdida entre o luto e a sensação de não pertencer completamente a lugar nenhum. Em busca das próprias raízes, segue pistas deixadas pela avó (voz de Zezé Motta) e viaja a Belo Horizonte, cidade ligada à sua história familiar.   


Lá, encontra Alice (também dublada por Jéssica Pierina), que mora no antigo apartamento da avó. A partir desse encontro, mergulha em afetos e conexões ancestrais que a levam a repensar suas origens e o lugar que ocupa no mundo.

A protagonista é construída a partir desse deslocamento. Com descendências francesa e brasileira, Ana carrega diferentes referências culturais, mas nenhuma delas parece responder completamente onde é seu lugar. 

A morte da avó intensifica essa sensação ao representar também a perda de uma das principais ligações com sua origem. A viagem, portanto, não é apenas uma busca pelas raízes, mas uma tentativa de compreender a própria formação.


Alice estabelece uma relação diferente com esse mesmo espaço. Ela ocupa um lugar carregado de histórias e cria uma ligação inesperada entre passado e presente. A casa deixa de ser apenas um endereço para se tornar um ponto de encontro entre diferentes trajetórias.

O carteiro André, dublado por Carlos Francisco, ator mineiro conhecido por trabalhos como “Marte Um” (2022) e “O Agente Secreto” (2025), amplia essa rede de relações. Ele funciona como mediador entre pessoas e tempos distintos, além de possuir uma ligação própria com a avó de Ana. Sua função vai além da entrega das cartas: também carrega experiências que o conectam àquela comunidade.


Fellipe, amigo de Alice, apresenta outra dimensão dessas relações. Seu percurso está ligado à maneira como formamos vínculos no presente. Ele erra, reconhece seus erros e demonstra disposição para reparar suas atitudes. 

É um personagem interessante justamente por mostrar que também construímos quem somos a partir da forma como tratamos e somos tratados pelos outros. Por isso, sua presença poderia ganhar mais espaço. A relação com Alice e a aproximação com a protagonista poderiam acrescentar novas camadas à narrativa. 

O mesmo acontece com outros personagens secundários, que possuem características próprias, mas acabam funcionando apenas como apoio à trajetória central. Não chega a comprometer a experiência, mas deixa a sensação de que algumas relações poderiam ter sido aprofundadas.


Um dos destaques está na construção visual. Cartas, envelopes, papéis, carimbos e escritas não são apenas elementos de cena. Esses objetos fazem parte da própria linguagem da obra. 

Em vez da velocidade das mensagens instantâneas, a produção recupera o tempo entre escrever e receber, criando uma atmosfera de espera, expectativa e imaginação. A carta carrega não apenas palavras, mas também as marcas de quem a escreveu.

Essa escolha transforma a correspondência em um elo entre ausências e aproximações. As cartas permitem que a protagonista estabeleça contato com uma história que não viveu diretamente, enquanto a materialidade do papel reforça a tentativa de preservar aquilo que poderia desaparecer com o tempo.


A direção encontra na animação uma maneira de representar sentimentos que dificilmente seriam traduzidos apenas pelo realismo. Desenho, dança, papelaria e diferentes técnicas visuais se combinam para criar uma estética autoral, em que a linguagem não apenas ilustra a história, mas participa da forma como os personagens percebem o mundo.

É raro encontrar uma animação tão disposta a experimentar. A obra se distancia dos modelos mais convencionais associados às grandes produções e coloca uma nova perspectiva no centro de uma história sobre família, origem e descoberta pessoal.

Essa escolha ganha força porque a experiência negra não aparece de maneira única ou limitada. Os personagens estabelecem relações diferentes com os lugares que ocupam, com as pessoas que encontram e com as histórias que carregam. 


São caminhos distintos para discutir como cada indivíduo constrói sua própria maneira de existir e de se relacionar com o mundo. Talvez o principal ponto a desenvolver esteja justamente na quantidade de possibilidades abertas por essas relações. Algumas poderiam render conflitos e descobertas maiores, mas são resolvidas rapidamente. 

É uma limitação que não compromete o conjunto, embora deixe a sensação de que determinados personagens poderiam permanecer mais tempo em cena. Ainda assim, o longa encontra beleza justamente no que é íntimo. 

Ao transformar cartas, afetos e encontros em imagens, Fernanda Salgado constrói uma animação sobre compreender o passado sem ficar presa a ele. 


Ao partir em busca de suas origens, Ana encontra diferentes formas de olhar para si mesma e entende que pertencer não é necessariamente encontrar um único lugar para chamar de seu, mas reconhecer as relações e experiências que ajudam a formar quem somos.  

Em um cinema de animação muitas vezes associado a grandes estúdios e fórmulas conhecidas, “Ana, En Passant” reafirma a força de uma obra autoral, particular e disposta a experimentar. 

É justamente essa intimidade, capaz de falar sobre identidade e pertencimento a partir de uma história tão própria, que pode fazer a animação atravessar fronteiras e encontrar novos públicos pelo mundo.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Fernanda Salgado
Produção: Apiário Estudio Criativo, coprodução Sardinha em Lata e Midralgar
Distribuição: Embaúba Filmes
Exibição: Cine Belas Artes
Duração: 1h30
Classificação: 12 anos
Países: Brasil, Portugal, França
Gêneros: animação, drama

29 outubro 2026

“O Bosque Selvagem”: uma animação mágica que encanta, assusta e emociona

Stop-motion levou cinco anos para ser criado e pode ser um dos favoritos na disputa por um Oscar em 2027 (Fotos: Laika Studios)
 
 

Maristela Bretas

 
Prepare-se para uma produção fora do convencional, inteiramente em stop-motion, que impressiona pelo cuidado com cada detalhe e merece figurar entre as melhores animações dos últimos anos. Não por acaso, o filme alcançou 100% de aprovação no Rotten Tomatoes. 

Estou falando de “O Bosque Selvagem” ("Wildwood"), o projeto mais ambicioso da Laika Studios que estreia nesta quinta-feira nos cinemas, com distribuição da Imagem Filmes.

A animação surpreende pela criação minuciosa dos personagens, montados e fotografados quadro a quadro, e pelas cenas que encantam o espectador, mas também provocam medo e desconforto pela violência. 

Apesar de muito colorido e de apresentar um roteiro impecável, especialmente para o público adulto, o longa tem uma atmosfera sombria, com cenas envolvendo suicídio, imagens sangrentas e guerra, além de linguagem imprópria. Por isso, é indicado para maiores de 14 anos.


Mas “O Bosque Selvagem” vai muito além da aventura fantástica. É uma história sobre perdas: de um filho, de um irmão, das terras, da dignidade e até do respeito ao coletivo. A trama também encontra espaço para criticar a morosidade da burocracia, que tantas vezes atrasa a vida dos cidadãos sem oferecer soluções para seus problemas. 

A abordagem ganha profundidade ao explorar o luto, o amor materno e os laços familiares, além da luta para proteger a terra deixada pelos ancestrais.

Na cidade de Portland, no estado de Oregon (EUA), os moradores não se arriscam a entrar no misterioso Bosque Impassável, escondido além da ponte que liga a cidade à floresta. Durante um passeio de bicicleta com o irmãozinho Mac, a adolescente Prue McKeel (voz original de Peyton Elizabeth Lee e dublagem brasileira de Giulia Benite) vê o bebê ser levado por uma revoada de corvos comandados por uma feiticeira.


Desesperada para resgatar o irmão, Prue precisa enfrentar um lugar sobre o qual conhece apenas dos avisos do pai, que sempre a proibiu de se aproximar dali. 

Nessa jornada, ela conta com a companhia do amigo Curtis Mehlberg (voz original de Jacob Tremblay e dublagem brasileira de Pedro Burgarelli), um garoto tímido que gosta dela e sonha em se tornar um guerreiro para proteger a si mesmo e a pessoa amada.

Na mata sombria, os dois descobrem um mundo mágico, habitado por animais falantes, bandidos e figuras poderosas e cruéis. Seus habitantes vivem amedrontados, especialmente diante do exército de lobos comandado pela feiticeira Alexandra (Carey Mulligan), conhecida como a “Viúva do Governador”. Consumida pela vingança, ela também carrega a dor de ter perdido o filho.


Prue e Curtis enfrentam inúmeras aventuras e precisam conquistar a confiança dos habitantes da floresta, além de contar com a ajuda de seus anciãos e com os poderes da própria mata. 

A história reúne ainda um elenco de vozes de peso, com nomes como Mahershala Ali, Awkwafina, Angela Bassett, Jake Johnson e Charlie Day, entre outros.

Os números do stop-motion 

Segundo a produtora, o longa levou cinco anos para ser criado, em razão do delicado trabalho artesanal, realizado sem a utilização de inteligência artificial. 

Embora tenha recorrido à computação gráfica (CGI) para o acabamento visual, a animação foi construída a partir da técnica stop-motion, com personagens e cenários físicos fotografados quadro a quadro. 


Os números impressionam: foram mais de 1.155 dias de trabalho, do início à conclusão da produção, que chegou à versão final com 2.804 planos. As gravações aconteceram em 132 cenários práticos, construídos em 117 locações distintas. 

Cada personagem principal recebe um rosto único para cada quadro de animação, o equivalente a 24 rostos por segundo de filme, e cada um deles é preservado no acervo da Laika como uma obra de arte individual.

Os 142.030 rostos substituíveis criados para a animação eram trocados constantemente para transmitir as emoções dos 233 bonecos com o máximo de expressividade e naturalidade.

Para entender a escala de "O Bosque Selvagem":
  • Recorde no stop-motion: uma única cena exigiu 1.124 rostos substituíveis, 555 para Prue e 569 para Curtis. Segundo a Laika, é o maior número já usado em um único plano na história da técnica;
  • Lágrimas: 67 planos mostram lágrimas visíveis, mais de dez vezes o recorde anterior do estúdio, que pertencia a Os Boxtrolls, com apenas seis;

Galeria da preparação do filme

O Bosque Selvagem
  • Do minúsculo ao gigante: o menor boneco, a Mini Septima, tem apenas 4,1 cm de altura. O maior, a General, mede 86 cm do bico à cauda e tem 1,63 m de envergadura, a altura de um adulto;
  • Pena por pena: cada boneco da General carrega 3.794 penas colocadas individualmente;
  • Uma floresta feita à mão: 728 árvores artesanais representam dez espécies do noroeste do Pacífico. A armação mais alta chega a 5,72 m, quase a altura de um sobrado;
  • Do tamanho de dois campos de futebol: as filmagens ocuparam 112 palcos, em uma área de mais de 14.400 m²;
  • De São Paulo a Brasília em arame: a produção usou cerca de 1.151 km de arame de latão, mais que a distância rodoviária entre as duas cidades. Todo o material foi reciclado ao fim das filmagens.

“O Bosque Selvagem” é baseado no livro homônimo escrito por Colin Meloy (vocalista da banda The Decemberists), com ilustrações de sua companheira, Carson Ellis. A obra se tornou um best-seller do The New York Times em 2014. Foi nessa época que o diretor do filme conheceu o casal e se encantou com a história.

A adaptação para o cinema só começou a ganhar forma em 2021, com a participação de Chris Butler no roteiro. Ele também dirigiu “Link Perdido”, produção da Laika Studios vencedora do Globo de Ouro de 2019, disponível no Disney+.


O estúdio é responsável ainda por excelentes animações como “Coraline e o Mundo Secreto” (2009) e “Kubo e as Cordas Mágicas” (2016), esta última também dirigida por Travis Knight. Ambos estão disponíveis nas plataformas Amazon Prime Video, YouTube, Apple TV e Google Play Filmes.

Entre os animadores do stop-motion está o mineiro Thiago Calçado, de Uberaba, que já havia trabalhado com Travis Knight em “Kubo e as Cordas Mágicas” e também foi animador sênior de "Pinóquio", de Guillermo del Toro (2022), vencedor do Oscar de Melhor Animação, e Marcelo Amp, especialista em moldagem e fundição de silicone.

Saiba Mais

Uma obra para sentir

“O Bosque Selvagem” é lindo, mágico e arrebatador. Encanta e choca, provoca espanto e arranca lágrimas. É uma obra em que todos os envolvidos na criação conseguiram transformar bonecos, cenários e movimentos minuciosamente planejados em sentimentos humanos verdadeiros, tratados com força e sensibilidade.

Saí da sessão encantada com a beleza e a criatividade da animação, mas também profundamente tocada pelas dores, pelos afetos e pelas perdas que ela retrata. É impressionante como uma história fantástica, construída quadro a quadro, consegue falar de sentimentos tão reais e universais.

Uma das melhores produções do ano e uma das melhores que assisti nos últimos tempos. O filme foge dos padrões, emociona sem subestimar o espectador e permanece na memória depois que as luzes da sala se acendem. Merece, sem dúvida, disputar — e ganhar — o Oscar de Melhor Animação em 2027.


Ficha técnica:
Direção: Travis Knight
Roteiro: Chris Butler
Produção: Estúdios Laika
Distribuição: Imagem Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h12
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: animação, drama, aventura
Nota: 5 (0 a 5)

27 outubro 2026

“As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você” emociona ao falar de amizade, luto e recomeços

 Giulia Be e Any Gabrielly entregam interpretações emocionantes e demonstram sintonia na trama
(Fotos: Paris Filmes)
 
 

Maristela Bretas

 
Prepare os lencinhos, porque “As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você” faz muito marmanjo enxugar as lágrimas. O filme conta a história de duas amigas inseparáveis, Gabriela (Any Gabrielly) e Julia (Giulia Be), e aposta na emoção para conquistar o público. A premissa não é exatamente original, mas a química entre as duas atrizes funciona muito bem e dá força à narrativa.

A produção aborda temas delicados, como luto, depressão, relações familiares, redescobertas e, principalmente, a força da amizade, que pode permanecer mesmo depois da morte. Com sensibilidade, o longa acompanha as dificuldades de uma adolescente para lidar com a perda e encontrar coragem para mudar a própria vida.


Dirigido por Diego Freitas e baseado no livro "As Dez-vantagens de Morrer Depois de Você", de Fernanda De Castro Lima, o filme apresenta Gabriela e Julia, amigas desde a infância, mas com personalidades bastante diferentes. Gabi é reservada, tímida e tem medo de sair da própria zona de conforto. Julia, por outro lado, é extrovertida, carismática e aproveita a vida intensamente.

Tudo muda quando Julia sofre um acidente de carro. Antes de morrer, ela escreve dez cartas para a amiga, cada uma com um desafio destinado a ajudá-la a enfrentar seus medos e superar a timidez. As mensagens também levam Gabi a refletir sobre situações que poderia ter enfrentado de outra maneira se tivesse tido coragem de arriscar.


É nesse processo que surge Lorena (Pamela Germano), uma nova colega de escola que se aproxima de Gabi e a ajuda a cumprir as missões deixadas por Julia. Aos poucos, a protagonista começa a se reconectar consigo mesma, a compreender melhor o luto e a importância do perdão, além de descobrir que seguir em frente não significa esquecer quem se foi.

Música e emoção em cena

As duas entregam interpretações emocionantes, monstrando sintonia nos momentos mais delicados da trama. E a música tem papel importante na história e aproxima ainda mais as protagonistas. 


Giulia Be, conhecida também por sua atuação em “Depois do Universo” (2022) e do documentário “Toquinho Maravilhoso” (2024), divide a tela com Any Gabrielly, que faz sua estreia no cinema como atriz. 

Além de cantora e compositora, Any Gabrielly é conhecida por dar voz à personagem Moana em "Moana 2" (2024), da Disney, e por ter integrado o grupo internacional Now United, do qual foi representante brasileira até 2022.

A canção é um ponto comum entre as protagonistas. As duas interpretam canções originais que contribuem para a atmosfera emotiva do filme. Entre elas está “Te Olhando Daqui”, na voz de Giulia Be, uma das músicas que mais intensificam a carga emocional da narrativa e podem levar o público às lágrimas.


Já “Ecoar”, escrita e interpretada por Any Gabrielly em inglês, reforça a presença da música como elemento de conexão entre as personagens. A trilha sonora é assinada por Fábio Góes.

O elenco conta ainda com Sheron Menezzes e Paulo Lessa, que interpretam Márcia e André, pais de Gabi; Regiane Alves, no papel de Lili, mãe de Julia; e Léo Jaime, como Toninho, um senhor divertidíssimo que se torna amigo de Gabi durante um dos desafios. 

Michel Joelsas (Nico) e Daniel Rangel (Lucas) também participam da trama como interesses amorosos da protagonista, entre outros nomes.


Os clichês típicos dos dramas adolescentes estão presentes, mas não chegam a comprometer a narrativa. O filme consegue alternar tristeza e humor, sem perder de vista os conflitos de sua protagonista. 

Ao acompanhar a transformação de Gabi, a história convida o espectador a refletir sobre a importância de valorizar a vida, enfrentar os próprios medos e cuidar das pessoas que fazem parte dela.

Mais do que uma história sobre a perda, “As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você” fala sobre aprender a continuar vivendo. E lembra que, mesmo quando alguém parte, o afeto, as lembranças e tudo o que essa pessoa nos ensinou permanecem conosco.


Ficha técnica:
Direção: Diego Freitas
Roteiro: Diego Freitas e Rod Azevedo
Produção: Paris Entretenimento
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h46
Classificação: 14 anos
País: Brasil
Gênero: drama

21 outubro 2026

“Cara-de-Barro” transforma vilão da DC em um pesadelo de horror corporal

Saído dos quadrinhos, este é o primeiro terror do estúdio no cinema e apresenta o monstro de lama com superpoderes reais de metamorfose (Fotos: DC Studios)
 
 

Maristela Bretas

 
Com cenas violentas e brutais que chocam o público, “Cara-de-Barro” (“Clayface”), em cartaz nos cinemas brasileiros a partir desta quarta-feira, é o primeiro filme de terror da DC Studios, baseado em um dos grandes inimigos de Batman nos quadrinhos.

O maior destaque da produção são os excelentes e assustadores efeitos visuais, que deixam muitos longas atuais do gênero no chinelo. A maquiagem e a transformação gradativa do personagem em monstro chegam a causar desconforto, em uma atmosfera sombria, semelhante à dos filmes recentes de Batman.


James Gunn, desde que assumiu como co-CEO da DC Studios, vem dando uma nova direção às produções do estúdio, apostando no terror e apresentando histórias diferentes das tradicionais aventuras de super-heróis e seus vilões.

Também merece elogios a ótima atuação de Tom Rhys Harries (“O Retorno” – 2024), no papel do ator Matt Hagen, que se transforma em um monstro metamorfo e cruel, sem piedade de seus inimigos.

A direção de James Watkins (“Não Fale o Mal” – 2024 e o roteiro de Mike Flanagan e Hossein Amini permitem que até o espectador que não acompanha as HQs conheça o personagem e entenda sua trajetória. A narrativa é didática, às vezes até demais, estendendo a trama além do necessário antes de colocar o monstro em cena.


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Na versão para o cinema, Matt Hagen é um jovem de Gotham City que se torna um dos grandes astros de Hollywood, mas tem a carreira interrompida ao ser atacado pela quadrilha de um chefão da máfia local, que o deixa totalmente desfigurado.

Traído por todos ao seu redor e desesperado, ele procura um tratamento experimental à base de uma substância biotecnológica, desenvolvido pela Dra. Caitlyn Corr, muito bem interpretada por Naomi Ackie (“Pisque Duas Vezes” – 2024 e “Mickey 17” – 2025). O procedimento promete restaurar sua aparência original.


Apesar de funcionar bem inicialmente, o tratamento começa a provocar reações inesperadas e bizarras, que afetam não apenas a aparência de Matt, mas também sua percepção da realidade. 

Ele se transforma no Cara-de-Barro, um monstro de argila vingativo e assassino, capaz de alterar a própria forma. Fazem parte também do elenco Max Minghella, Eddie Marsan e David Dencik.

Assim como “A Substância” (2024), “Cara-de-Barro” é um thriller de horror corporal (body horror) que explora a perda de identidade, a obsessão pela aparência e o desejo de vingança contra aqueles que traíram seus protagonistas.


Matt Hagen e Elisabeth Sparkle, personagem muito bem interpretada por Demi Moore em “A Substância”, não aceitam a própria aparência: ele foi desfigurado em um ataque; ela, uma apresentadora de TV, é descartada por ter envelhecido. 

Ambos recorrem a experimentos na tentativa de recuperar ou preservar a beleza e a juventude, mas acabam enfrentando consequências aterrorizantes.

O vilão das HQs

O primeiro Cara-de-Barro (Clayface) dos quadrinhos foi Basil Karlo, criado por Bill Finger e Bob Kane e fez sua primeira aparição na 40ª edição da revista Detective Comics, publicada em 1940. Ele era um ator de filmes de terror, sem superpoderes, que começou a cometer assassinatos usando as fantasias dos vilões que interpretava.


Matt Hagen foi o segundo personagem a assumir a identidade do vilão e, nas HQs da DC Comics, era um caçador de tesouros. Em “Batman: A Série Animada”, ele foi reimaginado como um astro de Hollywood que vê a carreira desmoronar após ser desfigurado em um acidente e acaba se transformando em uma criatura de lama. 

Também foi o primeiro Cara-de-Barro a ter poderes reais de metamorfose, com a capacidade de moldar o próprio corpo, assumir a forma de qualquer pessoa e transformar as mãos em armas.


“Cara-de-Barro” é um longa que surpreende  pelos efeitos gráficos — tão fortes que levam o espectador a desviar o olhar — e pela atuação excelente de Tom Rhys Harries, que incorpora com competência o ator narcisista transformado em um monstro de lama assassino. 

Drama e terror macabro se complementam nesta produção, mas o espectador deve estar preparado para cenas violentas e angustiantes, especialmente as que mostram procedimentos com agulhas e o uso de lâminas.

Um dos melhores filmes da DC Studios dos últimos tempos, sem um vilão que faz piadinhas ou acaba ficando bonzinho no final.


Ficha técnica:
Direção: James Watkins
Roteiro: Mike Flanagan e Hossein Amini
Produção: DC Studios
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h48
Classificação: 18 anos
País: EUA
Gêneros: terror, ação, drama

16 outubro 2026

“Verity”: até onde alguém iria para ocupar o lugar de outra pessoa?

Anne Hathaway, Dakota Johnson e Josh Hartnett protagonizam o longa baseado na obra literária
homônima de Colleen Hoover (Fotos: Sony Pictures)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
Das páginas para a tela, “Verity”, em cartaz nos cinemas, adapta o romance homônimo de suspense psicológico publicado em 2018 pela escritora Colleen Hoover. Dirigido por Michael Showalter, o filme reúne Dakota Johnson, Anne Hathaway e Josh Hartnett em uma trama marcada por segredos familiares, manipulação e dúvidas sobre a fronteira entre verdade e ficção.

A história acompanha Lowen Ashleigh (Dakota Johnson), uma escritora contratada para concluir a série de livros policiais de sucesso de Verity Crawford (Anne Hathaway), afastada de suas atividades profissionais após sofrer um grave acidente. 

Lowen conhece Jeremy Crawford (Josh Hartnett), marido de Verity, e ao chegar à casa do casal, encontra escritos perturbadores que levantam dúvidas sobre o passado da família e a verdadeira personalidade da escritora.


Um dos acertos do longa está na escolha do elenco, especialmente na escalação de Anne Hathaway como Verity. Mesmo com movimentos limitados e poucas expressões, seu personagem transmite inquietação e constrói uma presença que desperta dúvida e desconfiança. 

A atriz, que vem mostrando maturidade a cada nova produção, deixa de lado o rostinho quase inocente de Andy Sachs, de "O Diabo Veste Prada" e sua continuação para assumir contornos sombrios que garantem o suspense da trama. 


Dakota Johnson também entrega uma atuação consistente, embora não apresente grandes novidades em relação a trabalhos anteriores. Há momentos em que parece reproduzir seu papel como Anastasia Steele, da trilogia "Cinquenta Tons de Cinza" (2015, 2017 e 2018). 

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Já Josh Hartnett mantém aquela expressão de quem não é muito confiável, mesmo interpretando um bom pai e marido. Sua atuação lembra muito o papel dele como pai no suspense "Armadilha" (2024), dirigido por M. Night Shyamalan.


Mas é na trajetória da personagem de Dakota Johnson que a produção encontra espaço para discutir pertencimento e identidade. Ao entrar no universo dos Crawford, a jovem escritora descobre não apenas uma oportunidade profissional, mas também uma realidade que parece reunir tudo aquilo que ainda não conquistou: sucesso, reconhecimento, estabilidade financeira e uma vida familiar consolidada. 

A proximidade com Verity e Jeremy faz com que Lowen se envolva cada vez mais naquele ambiente, como se pertencer àquele universo também significasse conquistar um lugar de destaque na própria vida. 

Esse desejo ultrapassa a esfera profissional. A relação com os Crawford envolve o interesse por Jeremy e a aproximação com a dinâmica familiar, incluindo o vínculo dele com o filho. Lowen se sente atraída não apenas pelo que Verity representa como escritora, mas também por tudo o que existe ao redor dela. 


A questão central está justamente na tentativa de se aproximar de uma realidade alheia. Até que ponto admirar a vida de alguém pode se transformar no desejo de ocupar seu lugar? Essa busca evidencia as contradições de Lowen e a maneira como suas ambições influenciam suas escolhas. 

Mais do que descobrir quem é a mulher por trás dos livros, ela precisa confrontar quem deseja ser e o que está disposta a fazer para alcançar aquilo que admira.

O roteiro, entretanto, poderia explorar melhor a trajetória de Lowen. Conhecer mais sobre sua carreira, seus desafios e a maneira como conquistou seus leitores ajudaria a compreender por que o sucesso de Verity exerce tanta influência sobre ela. 


A ausência destas informações enfraquece parte do conflito, pois a construção da identidade profissional da protagonista merecia mais espaço antes de sua entrada naquele universo. 

Com um desenvolvimento mais aprofundado, suas inseguranças e ambições poderiam ganhar maior complexidade, tornando suas decisões ainda mais significativas. 

Outro aspecto interessante está no uso da metalinguagem. A escrita deixa de ser apenas parte da profissão das personagens e se transforma em um elemento fundamental para o suspense. Os textos de Verity alimentam as dúvidas sobre os acontecimentos e colocam em discussão a relação entre realidade, memória e ficção. 


Ao assumir a responsabilidade de concluir a obra da escritora, Lowen passa a lidar não apenas com uma narrativa literária, mas também com versões conflitantes sobre a identidade de quem a escreveu. O recurso mantém o espectador envolvido e reforça a incerteza sobre o que pode ser considerado verdade.

O desfecho em aberto também pode dividir opiniões. Ao deixar algumas questões sem respostas definitivas, o filme convida o público a reconsiderar as atitudes dos personagens e as motivações por trás de suas escolhas. 

Essa ambiguidade combina com a proposta do suspense psicológico, embora possa frustrar quem espera uma resolução mais conclusiva. Afinal, quando cada personagem parece ter seus próprios interesses, determinar em quem acreditar se torna parte da experiência.


Adaptações

Entre as adaptações das obras de Colleen Hoover para o cinema, “Verity” segue um caminho diferente de “É Assim que Acaba” e “Se Não Fosse Você”, ambos de 2025. Enquanto esses títulos exploram principalmente relacionamentos amorosos, conflitos familiares e marcas emocionais, o novo longa aposta em uma atmosfera mais sombria, marcada por segredos, traições, intrigas e manipulação. 

A mudança de abordagem amplia as possibilidades de adaptação da autora para além do romance dramático, embora o resultado também dependa da capacidade de aprofundar os conflitos apresentados.


Apesar do interesse os admiradores de Colleen Hoover, evidenciado pela bilheteria, o filme tem recebido duras críticas em relação à construção do roteiro. Um dos pontos negativos é o plot twist do final que não provoca o mesmo impacto da obra literária. 

Para quem não leu o livro e procura um suspense psicológico marcado por mistérios e ambiguidades, "Verity" apresenta um resultado positivo, mas não chega a ser excepcional, como se esperava, especialmente considerando o elenco. 

No fim, a história não questiona apenas quem diz a verdade, mas também o que acontece quando o desejo de pertencer interfere na maneira como nos enxergamos. Afinal, ao tentar ocupar o lugar de outra pessoa, será que ainda conseguimos reconhecer quem somos e o que realmente queremos para nós mesmos?


Ficha técnica:
Direção: Michael Showalter
Roteiro: Nick Antosca
Produção: Amazon MGM Studios
Distribuição: Sony Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h58
Classificação: 16 anos
País: EUA
Gêneros: suspense psicológico, drama

08 outubro 2026

"Coração Selvagem": uma linda história de amor de Brad Pitt e seu companheiro Odin

Dupla enfrenta uma dura jornada pelo Alasca para voltar a salvo para casa (Fotos: Paramount Pictures)
 
 

Maristela Bretas

 
Quem ainda não teve oportunidade de assistir, não perca nos cinemas uma linda história de amor verdadeiro entre Brad Pitt e seu mais fiel companheiro, o pastor alemão Odin. O filme "Coração Selvagem" ("Heart of the Beast"), dirigido por David Ayer, entrega muita ação, dá um quentinho no peito e provoca muitas lágrimas.

Pitt interpreta o ex-oficial das Forças Especiais dos EUA, James Belmont, que, após deixar o Exército, passa o tempo viajando com seu cão de guerra aposentado pelas regiões geladas do Alasca. O ator demonstra uma grande sintonia com Odin, como se realmente um pertencesse ao outro. Ele também é um dos produtores executivos do longa.


Mas o grande destaque do filme é Odin, interpretado por Uber, um ex-cão socorrista de montanha da Nova Zelândia, e três de seus filhotes que atuaram como dublês nas cenas mais arriscadas: Seeka, Ryker e Hondo. 

Odin é um pastor alemão cujo olhar doce é capaz de encantar e derreter o coração do público. Apesar do sofrimento e dos traumas da guerra, que deixaram sérias sequelas, o cão consegue ser um guardião feroz de seu dono diante dos perigos da jornada e ainda protagoniza as cenas mais afetuosas do longa. Como afirmou o próprio Brad Pitt em entrevista, "Uber não fica em nada a dever aos grandes astros de Hollywood".


Durante uma das viagens de pesca, eles sofrem um acidente de avião, e a amizade entre os dois se torna cada vez mais importante para que consigam sobreviver na região e voltar para casa. 

O percurso, além de longo, por entre rios, matas e penhascos, reserva outros perigos e traz à tona velhas e traumáticas memórias. A cada novo perigo, a amizade é colocada à prova. A tensão domina boa parte do longa, levando o público a torcer pelos dois inseparáveis amigos. 


A dura jornada também permitirá à dupla conhecer outras pessoas importantes para a trama, mesmo em participações curtas, como os personagens de J.K. Simmons e Anna Lambe.

Um ótimo roteiro, bela fotografia, boa trilha sonora e paisagens de encher os olhos - o filme foi rodado na Nova Zelândia, em regiões semelhantes às paisagens do Alasca. Mas são as atuações de Brad Pitt e Uber que prendem a atenção e emocionam o público do início ao fim.

"Coração Selvagem" é um filme muito lindo, um dos melhores deste ano. Simplesmente imperdível, especialmente para quem ama cães.


Ficha técnica:
Direção: David Ayer
Produção: Plan B Entertainment, Temple Hill Entertainment, Domain Entertainment, Gulfstream Pictures
Distribuição: Paramount Pictures
Exibição: no cinemas
Duração: 1h41
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: drama, ação

20 setembro 2026

"A Ilha Esquecida": quando a amizade é a chave para não esquecer quem amamos

Animação é ambientada nas Filipinas da década de 1990, explorando as histórias do folclore local
(Fotos: DreamWorks Animation)
 
 

Maristela Bretas

 
Uma das melhores animações do ano tem um visual incrível e uma verdadeira explosão de cores para falar sobre amizade: “A Ilha Esquecida” (“Forgotten Island”) está em cartaz nos cinemas, com direção e roteiros de Joel Crawford e Januel Mercado, produção da DreamWorks Animation e distribuição da Universal Pictures.

Apesar de voltado ao público infantil, o filme traz algumas cenas que podem assustar crianças abaixo dos 10 anos, além de diálogos diretos e bastante francos sobre amizade, relacionamentos e as mudanças que fazem parte da vida.


Na trama, ambientada nas Filipinas da década de 1990, conhecemos Jo (voz da cantora H.E.R.) e Raissa (voz da atriz filipina Liza Soberano, que cresceu ouvindo histórias do folclore de seu país), amigas inseparáveis desde a infância.

Recém-formadas no ensino médio e com visões diferentes de futuro, as duas melhores amigas estão prestes a seguir caminhos diferentes. Enquanto Jo permanece nas Filipinas, Raissa se prepara para se mudar para os Estados Unidos.


Durante a celebração de despedida, elas encontram um misterioso portal que há anos procuram e são transportadas para a fantástica ilha de Nakali. O lugar é habitado por criaturas mágicas e mitológicas, como metamorfos, demônios, bruxas e monstros, seres sobre os quais as duas cresceram ouvindo histórias contadas por Lola Fátima (Dolly de Leon), avó de Jo.

Ao descobrirem que o preço para retornar para casa é abrir mão das memórias que construíram juntas ao longo da vida, elas terão de enfrentar um grande desafio. Ao lado de Raww (Dave Franco), um desajeitado cão-lobisomem, elas precisam derrotar a temida Manananggal (voz de Lea Salonga) antes que se esqueçam uma da outra. 

No elenco de dubladores estão ainda Manny Jacinto (Bungi Tiyanak), Jenny Slate (Batiba), Jo Koy (Datu) e Ronny Chieng (Rei Truflle Wuffle).



Amigos há 15 anos, desde as gravações de “Kung Fu Panda 2”, Joel Crawford e Januel Mercado são responsáveis por sucessos como “Gato de Botas 2: O Último Pedido” (2022) e “Os Croods 2: Uma Nova Era” (2021).

A produção acertou também na trilha sonora dinâmica, que reúne composições originais de Nathan Matthew David e vozes de grandes artistas da música internacional e filipina. O destaque fica para o sucesso dos anos 1980 “Don’t You (Forget About Me)”, do Simple Minds, escolhido como tema do filme.

H.E.R. e Liza Soberano também interpretam as canções “BRB” e “Jerk in the Box”, além de faixas com BINI, Lea Salonga e Sophia Laforteza.


Um dos pontos negativos é o pouco aprofundamento na origem de alguns personagens secundários, como os novos amigos da dupla e os próprios vilões. Conhecer melhor suas histórias ajudaria a compreender seus comportamentos e motivações.

Ainda assim, “A Ilha Esquecida” é um filme vibrante, divertido e cheio de fantasia, mas que vai muito além da aventura. A mensagem final, forte e extremamente sensível, mostra como as amizades podem transformar vidas e permanecerem importantes mesmo quando tudo ao redor parece mudar.

Vale muito a pena ser conferido. E prepare o lenço: cai até um cisco no olho.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Joel Crawford e Januel Mercado
Produção: DreamWorks Animation, em parceria com a Snipple Animation
Distribuição: Universal Pictures Brasil
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h43
Classificação: 10 anos
País: EUA
Gêneros: animação, infantil, família