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12 janeiro 2026

Com duas estatuetas, Brasil faz história no Globo de Ouro com "O Agente Secreto"

Longa dirigido por Kleber Mendonça Filho conquista prêmios de Melhor Filme em Língua Não Inglesa
e Melhor Ator em Filme de Drama (Fotos: CinemaScópio Produções)
 
 

Maristela Bretas

 
"O Agente Secreto", do diretor Kleber Mendonça Filho, atingiu mais um feito histórico para o cinema brasileiro ao conquistar, neste domingo (11) os prêmios de Melhor Filme em Língua Não Inglesa, e de Melhor Ator em Filme de Drama, recebido por Wagner Moura na 83ª edição do Globo de Ouro. Mais um para a coleção do ator, que também foi eleito Melhor Ator no Festival de Cannes de 2025 onde a produção fez sua estreia mundial.

O longa já soma mais de 20 prêmios concedidos por festivais e associações de críticos ao redor do mundo. Entre os destaques mais recentes estão as conquistas na 31ª edição do Critics Choice Awards 2026, onde venceu como Melhor Filme em Língua Estrangeira, e no New York Film Critics Circle (NYFCC) Awards 2026, no qual Wagner Moura recebeu o prêmio de Melhor Ator e o filme foi reconhecido como Melhor Filme Internacional.

Wagner Moura (Reprodução TV)

Orlando Bloom e Minnie Driver entregaram a estatueta de Melhor Filme em Língua Não-inglesa para o diretor Kleber Mendonça Filho. O longa brasileiro competiu com produções da Coreia do Sul, França, Noruega, Espanha e Tunísia.

Wagner Moura recebeu seu troféu das mãos dos atores Diane Lane e Colman Domingo, que ainda simulou no palco uma dança para comemorar com o ator brasileiro, que ao final de seu discurso em inglês, agradeceu em português a todos os brasileiros pela conquista.

Ambientado no Brasil de 1977, em pleno período da ditadura militar, "O Agente Secreto" acompanha Marcelo, interpretado por Wagner Moura, um professor que retorna de São Paulo para Recife, sua terra natal, tentando escapar de um passado violento e misterioso para ficar perto do filho. 


Mas logo percebe que o passado continua à espreita e, mesmo usando uma nova identidade, ainda corre risco e representa um perigo para todos ao seu redor. 

O longa é uma coprodução entre Brasil (CinemaScópio Produções), França (MK Productions), Holanda (Lemming) e Alemanha (One Two Films), com distribuição nacional da Vitrine Filmes.

"O Agente Secreto" foi escolhido para representar o Brasil no Oscar 2026. A 98ª edição da cerimônia da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood está prevista para o dia 15 de março.

As premiações

George Clooney, ao lado de Don Cheadle, anunciou o vencedor da principal categoria do Globo de Ouro 2026. "Hamnet: A Vida Antes de Hamlet", da diretora Chloé Zhao, foi escolhido Melhor Filme de Drama. 

A produção também levou a estatueta de Melhor Atriz em Filme de Drama, entregue por Chris Pine e Ana de Armas a Jessie Buckley por sua elogiada atuação.

"Hamnet: A Vida Antes de Hamlet"
(Foto: Universal Pictures)

Com apresentação da comediante Nikki Glaser, o Globo de Ouro 2026, foi realizado no auditório do Beverly Hilton Hotel, em Los Angeles. As atrizes Amanda Seyfried e Jennifer Garner entregaram o primeiro prêmio da noite, de Melhor Atriz Coadjuvante em Filme para Teyana Taylor, por sua atuação em "Uma Batalha Após a Outra", da Warner Bros. Pictures. 

A produção, considerada a favorita, foi a maior premiada conquistando outras três estatuetas: Melhor Roteiro em Filme, Melhor Direção em Filme e Melhor Filme de Comédia ou Musical, entregues ao diretor e roteirista Paul Thomas Anderson.

"Uma Batalha Após a Outra"
(Foto: Warner Bros. Pictures)

Nas séries, como era esperado, "Adolescência", da Netflix, também foi premiada quatro vezes: Melhor Ator Coadjuvante em Série de Drama, novamente para o jovem Owen Cooper, que aumentou sua coleção de estatuetas como protagonista; Melhor Ator em Minissérie ou Filme de TV, conquistado por Stephen Graham; Melhor Atriz Coadjuvante em Série para Erin Doherty, e Melhor Minissérie ou Filme para TV.

Duas estatuetas

Outro filme que estava entre os favoritos na disputa pelo Globo de Ouro 2026 foi o filme "Pecadores", do diretor Ryan Coogler, com Michael B. Jordan interpretando dois irmãos gêmeos. O longa levou os prêmios de Melhor Trilha Sonora Original e Melhor Campeão de Bilheteria. 

Sem novidade também foram as estatuetas entregues a "Guerreiras do K-Pop", da Netflix, que levou os prêmios de Melhor Música para Filme com a canção "Golden", e de Melhor Filme de Animação. Considerada um dos fenômenos da Netflix ela já teve uma nova temporada anunciada.

"Guerreiras do K-Pop" (Foto: Netflix)

Nas séries, uma das favoritas, "The Pitt" levou também dois troféus: Melhor Ator em Série de Drama, para Noah Wyle, e Melhor Série de Drama. A série da HBO Max, que estreou recentemente a segunda temporada, já anunciou uma terceira. 

"The Studio", da Prime Vídeo, foi outra que venceu em duas categorias do Globo de Ouro 2026: Melhor Ator em Série de Comédia ou Musical, prêmio entregue a Seth Rogen, e Melhor Série de Comédia ou Musical. A série já teve sua segunda temporada confirmada.

"The Studio" (Foto: Prime Vídeo)

Veja a lista completa de vencedores:

- Melhor Filme de Drama: "Hamnet: A Vida Antes de Hamlet"
- Melhor Filme de Comédia ou Musical: "Uma Batalha Após a Outra"
- Melhor Ator em Filme de Drama: Wagner Moura ("O Agente Secreto")
- Melhor Atriz em Filme de Drama: Jessie Buckley ("Hamnet: A Vida Antes de Hamlet")
- Melhor Série de Comédia ou Musical: "The Studio"
- Melhor Minissérie ou Filme para a TV: "Adolescência"

"Adolescência" (Foto: Netflix)

- Melhor Série de Drama: "The Pitt"
- Melhor Atriz em Série de Drama: Rhea Seehorn ("Pluribus")
- Melhor Performance de Comédia Stand-up na TV: Ricky Gervais ("Ricky Gervais: Mortality")
- Melhor Atriz Coadjuvante na TV: Erin Doherty ("Adolescência")
- Melhor Filme em Língua Não-inglesa: "O Agente Secreto"
- Melhor Filme de Animação: "Guerreiras do K-Pop"
- Melhor Direção em Filme: Paul Thomas Anderson ("Uma Batalha Após a Outra")
- Melhor Destaque em Bilheteria: "Pecadores"
- Melhor Atriz em Minissérie ou Filme para a TV: Michelle Williams ("Dying for Sex")
- Melhor Ator em Minissérie ou filme para a TV: Stephen Graham ("Adolescência")

"Pecadores" (Foto: Warner Bros. Pictures)

- Melhor Ator em Filme de Comédia ou Musical: Timothée Chalamet ("Marty Supreme")
- Melhor Atriz em Filme de Comédia ou Musica: Rose Byrne ("Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria")
- Melhor Roteiro de Filme: Paul Thomas Anderson ("Uma Batalha Após a Outra")
- Melhor Trilha Sonora de Filme: "Pecadores"
- Melhor Música para Filme: canção "Golden" ("Guerreiras do K-Pop")
- Melhor Podcast: "Good Hang with Amy Poehler"
- Melhor Ator em Série de Comédia ou Musical: Seth Rogen ("The Studio")
- Melhor Ator Coadjuvante em Série de Drama: Owen Cooper ("Adolescência")
- Melhor Atriz em Série de Comédia ou Musical: Jean Smart ("Hacks")
- Melhor Ator em Série de Drama: Noah Wyle ("The Pitt")
- Melhor Ator Coadjuvante em Filme: Stellan Skarsgard ("Valor Sentimental")
- Melhor Atriz Coadjuvante em Filme: Teyana Taylor ("Uma Batalha Após a Outra")

Noah Wyle, de "The Pitt (Foto: HBO Max")

23 novembro 2025

"Frankenstein", de Guillermo del Toro, discute solidão e busca por pertencimento

Longa dá um novo significado à criatura, longe da brutalidade que outras versões insistiram em perpetuar (Fotos: Netflix)
 
 

Silvana Monteiro

 
A mais recente adaptação de "Frankenstein", lançada pela Netflix, desloca o olhar tradicional para algo mais íntimo do que a mera oposição entre criador e criatura. Em vez de repetir o clichê do “monstro que aterroriza”, o filme investe naquilo que sempre foi seu núcleo mais humano: a busca pelo sentido da existência.

O grande mérito da obra está na forma como ressignifica a criatura. Longe da brutalidade que tantas versões insistiram em perpetuar, o ser renascido em laboratório pode estar vivo e pode estar morto, mas qual é o sentido de viver ou morrer, de fato? 


Sem se apoiar em explicações excessivas, o diretor Guillermo del Toro constrói um ritmo que abraça a contemplação. O que poderia ser apenas uma história sobre criação científica torna-se um ensaio visual sobre pertencimento. 

As escolhas de fotografia, sempre entre a penumbra e a luz filtrada, ajudam a materializar o sentimento de estar “entre mundos”: vivo, mas não nascido; consciente, mas sem raízes.

Em busca de respostas

Quando o médico Victor Frankenstein (Oscar Isaac) decide extrapolar seus conhecimentos e buscar uma sabedoria além da vida e da morte, ele não imaginava que as coisas poderiam sair do controle. Pelo contrário, embora testando, ele achava que dominava as práticas. 


Uma das maiores surpresas é a relação que se estabelece — ainda que fragmentada — entre a criatura (interpretada por Jacob Elordi), Victor Frankenstein e os demais personagens da história. Com dois deles em especial, há ainda desdobramentos muito mais incríveis que vão mexer com os sentimentos do telespectador. 

Em relação a Victor e o monstro, a obra tenta mostrar que, a sua maneira, cada um representa dois seres igualmente perdidos, ambos tentando lidar com a própria incapacidade de preencher o vazio que carregam. 

O filme sugere, com extrema sutileza, que há ainda um gesto final, uma forma de romper a cadeia que prende as almas e os corações, dos vivos e dos mortos. 


Nuances dos personagens

O interessante é que o roteiro se equilibra para não empurrar o espectador nem para a pena, nem para o medo. Em vez disso, é convidado a enxergar nuances: a criatura que observa o mundo com cuidado; o criador que tenta decifrar os danos que causou; a vida que escapa a qualquer forma de controle. 

A força da crítica social — presente em toda história de "Frankenstein" — aparece não como discurso, mas como camada: o que fazemos com quem não se encaixa? O que acontece com aqueles que não foram desejados, mas existem?


É nesse ponto que a obra conquista sua singularidade. O filme transforma a narrativa em uma reflexão sobre autonomia e humanidade. Sem recorrer a grandes revelações ou reviravoltas explícitas, a adaptação da Netflix entrega um filme que respira poesia nos intervalos das monstruosidades, seja dos humanos, seja das invenções criadas por mãos insanas.

Curiosidade

Acompanhando o lançamento do filme, o clássico absoluto da literatura gótica e do horror escrito pela jovem Mary Shelley em 1816 ganha nova edição ilustrada. O livro chega pelo selo Planeta Minotauro, com ilustrações de Amanda Miranda e apresentação de Cláudia Fusco. Reconstituído, como a própria criatura, esta edição especial quer atrair uma nova geração de leitores.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Guillermo del Toro
Produção: Columbia Pictures e Netflix
Distribuição: O2 Filmes e Netflix
Exibição: Netflix
Duração: 2h30
Classificação: 18 anos
País: EUA
Gêneros: drama, ficção, terror

16 agosto 2025

"Meu Ano em Oxford": quando o amor desafia o tempo e veste a beleza dos jardins ingleses e da poesia

Longa com Sofia Carson e Corey Mylchreest se destaca por seu cuidado visual e sua atmosfera envolvente (Fotos: Netflix)


Silvana Monteiro

 
"Não há tempo consumido
nem tempo a economizar
O tempo é todo vestido

de amor e tempo de amar."
Carlos Drummond de Andrade
 
Os versos do poeta mineiro abrem com perfeição o caminho para falar de outro tipo de poesia: a cinematográfica. E mais que isso: uma poesia que atravessa os corredores da literatura e se manifesta nas imagens de "Meu Ano em Oxford" ("My Oxford Year").

O filme, adaptado do romance de Julia Whelan e lançado em 2024, acaba de entrar na coleção da Netflix e é dos mesmos produtores de "A Culpa é das Estrelas" (2014).


A história gira em torno de Anna de La Vega, uma jovem norte-americana vivida por Sofia Carson, que se muda para Oxford, na Inglaterra, para cursar seu tão sonhado mestrado. 

Lá, ela conhece Jamie Davenport, interpretado por Corey Mylchreest, um professor-adjunto carismático, admirado e temido por sua fama de amores efêmeros. 

O encontro entre os dois rende mais do que trocas intelectuais: nascem sentimentos atribulados, atravessados por obstáculos, escolhas difíceis e um segredo que vira a perspectiva da história de cabeça para baixo.

Apesar de o enredo seguir a linha clássica dos romances de formação com tintas dramáticas e reviravoltas já conhecidas do público, o filme se destaca por seu cuidado visual e sua atmosfera envolvente. 


Destaque para a fotografia 

A fotografia é um espetáculo à parte. Oxford é retratada em toda sua glória: bibliotecas de madeira antiga com vitrais coloridos, salões silenciosos onde a luz atravessa o tempo, jardins palaciais em flor e uma paleta que remete ao romantismo vitoriano.

Mas o que realmente marca a experiência de "Meu Ano em Oxford" é a sensibilidade com que trata a relação entre amor e tempo. Afinal, quantos dias são necessários para um amor valer à pena? 

O filme não responde com fórmulas prontas, mas convida à reflexão. Em tempos acelerados, é um lembrete delicado de que há sentimentos que não se medem em anos, e que o amor pode ser eterno mesmo quando breve.


Anna se reinventa ao longo da trama, e é isso que torna o filme mais interessante do que apenas a história romântica. É uma narrativa sobre recomeços, amadurecimento e coragem. E sim, é um clichê, mas daqueles que acolhem, emocionam e aquecem o coração.

"Meu Ano em Oxford" é um romance que, mesmo querendo aprofundar em uma complexidade sobre a duração da vida, consegue ser raso, mas sem deixar de oferecer beleza, esperança e a certeza de que, como dizia Drummond, "amar é mesmo o sumo da vida".

E ficam a pergunta e a resposta que intitulam a poesia do nosso grande escritor: "O tempo passa? Não passa. Para o amor, não passa".


Ficha técnica:
Direção: Iain Morris
Produção: Temple Hill Entertainment
Exibição: Netflix
Duração: 1h53
Classificação: 12 anos
País: EUA
Gêneros: romance, comédia

09 abril 2025

Polêmico e atual, "Adolescência" alerta para um perigo real e crescente

Apesar da pouca experiência, o jovem Owen Cooper entrega uma interpretação carregada de verdades e vulnerabilidades (Fotos: Netflix)


Equipe do Cinema no Escurinho


A equipe do Cinema no Escurinho assistiu a nova minissérie da Netflix, "Adolescência" ("Adolescence"), e se juntou para abordar a essência desta produção. E concordam que se trata de uma produção impactante, atual e que serve de alerta para pais e educadores para o problema da violência contra as mulheres, não importando a idade.

Para o parceiro e colaborador Marcos Tadeu, do blog Jornalista de Cinema, até o momento é uma das séries mais necessárias e impactantes do ano. Ela se destaca pela urgência do tema e pela capacidade de provocar discussões importantes sobre juventude, violência, papel da escola, da família e as estruturas que nos cercam.

Desde que chegou ao catálogo da Netflix em 13 de março, "Adolescência" viralizou rapidamente e ultrapassou a marca de 66,3 milhões de visualizações, deixando o público em choque — e cheio de perguntas.


A produção começa com a brutal interrupção da rotina da família Miller, quando a polícia invade sua casa à procura de Jamie (Owen Cooper), acusado de esfaquear a colega de escola Katie Leonard (Emilia Holliday). 

O que poderia parecer um caso direto de violência entre adolescentes se transforma, aos poucos, em uma trama densa, repleta de nuances e contradições. 

À medida que os detetives Luke Bascombe (Ashley Walters) e Misha Frank (Faye Marsay) avançam na investigação, segredos vão surgindo e abalam não só o núcleo familiar, mas também a comunidade escolar e os demais envolvidos.


O maior trunfo da série está na forma como a história é contada: a narrativa recorre a diferentes pontos de vista — da polícia, da escola, dos amigos de Jamie, da psicóloga e da família — e evita qualquer tipo de resposta fácil. 

Em vez de dizer o que o público deve pensar "Adolescência" o convida a refletir: o ambiente em que o adolescente está inserido contribui para afastá-lo ou aproximá-lo da violência?

Para amplificar esse efeito, mais do que apostar no plano-sequência como um artifício estético, a minissérie usa a câmera em movimento constante como um observador silencioso, que se infiltra nos espaços, capta as tensões e torna a experiência do espectador mais íntima e visceral.

As atuações acompanham o rigor da proposta. Stephen Graham (Eddie Miller, pai de Jamie), Erin Doherty (Briony) e o jovem Owen Cooper entregam interpretações carregadas de verdade e vulnerabilidade. 


O texto, bem escrito e afiado, ganha ainda mais potência com a escolha precisa do elenco. Nada soa artificial ou encenado — é como se estivéssemos acompanhando tudo de dentro, em tempo real.

No entanto, nem tudo é acerto. Um dos pontos mais frágeis da narrativa é justamente a construção da vítima. Katie Leonard quase não tem voz própria: seu ponto de vista aparece apenas por meio da amiga Jade (Fatima Bojang), e seus pais ou outras pessoas próximas sequer são mostrados. Isso enfraquece a complexidade emocional que a série poderia ter explorado. 

Além disso, o desfecho sem um julgamento formal pode soar frustrante para quem esperava um posicionamento mais claro. O final aberto, ao invés de corajoso, parece fugir da responsabilidade de encerrar a história com uma decisão.


Cada vez mais perto de nós

Para Jean Piter Miranda, a essência de “Adolescência” deixa bem claro que jovens bem criados podem cometer atrocidades. E que isso está mais perto de todos nós do que podemos imaginar. 

O menino Jamie de apenas 13 anos é branco, de família de classe média na Europa, tem bom relacionamento com os pais e com a irmã e ainda é bom aluno. Um jovem acima de qualquer suspeita. Entretanto, ele é acusado de matar a facadas uma menina da mesma idade que ele. O motivo? Ódio pelas mulheres. 

Jamie participava de comunidades online que pregam ódio às mulheres, os chamados "incels". Grupos esses que têm membros de todas as idades. Se dizem vítimas do feminismo, se sentem rejeitados pelo sexo oposto. Por isso, se acham no direito de cometer todo tipo de violência contra o sexo feminino. 


"Adolescência" retrata um problema social silencioso, que vem crescendo em todo o mundo. Um problema social ligado a outros problemas. Pais que trabalham demais e que estão sempre ausentes. Como você vai educar seus filhos se nunca está presente? Crianças que desde muito cedo passam bastante tempo diante de telas, expostas a vários riscos sem que os pais desconfiem de algo. 

A minissérie também mostra vulnerabilidades das instituições. As escolas e a polícia não estão preparadas para lidar com esse problema. Não há política pública estruturada para o enfrentamento e prevenção desses casos. 


A obra propõe reflexões e, acertadamente, não tem a pretensão de indicar soluções. Não há sensacionalismo de mostrar violência explícita, ao mesmo tempo em que constrói um ambiente de tensão. 

As atuações são ótimas, muitas delas carregadas de emoção, porém, sem exageros, sem perder a mão. A filmagem em plano sequência prende o expectador, dando a impressão de que tudo está acontecendo naquele exato momento. 

São apenas quatro episódios, o que não deixa a série ser cansativa. O desfecho fica subentendido, sem reviravoltas e sem desgastes com cenas clichês de tribunais. E cada um é feito na medida, com abordagem específica. Tudo isso faz da produção uma obra excelente que merece ser vista e debatida por todos.


Misoginia

Silvana Monteiro tem opinião semelhante. As mulheres enfrentam um tratamento desrespeitoso nas comunidades virtuais, refletindo a desvalorização que também ocorre na sociedade. O chamado "clube do bolinha", para determinados assuntos, pode representar um risco maior do que muitos imaginam.

As pessoas aparentemente comuns podem praticar as piores atrocidades. Famílias perfeitas não existem. Filhos não são o que os pais tentam, pensam ou querem. Mentes sagazes não têm idade. Pais não se prepararam para o mundo e o submundo da web. E criminoso não vem com estrela na testa.

Estamos vendo uma grande número de meninas de 11, 12, 13 e 14 sendo assassinadas todos os dias, a maioria por marmanjos ordinários. É chocante, virou uma coisa sem tamanho, uma situação desesperadora. Antes mesmo de atingir a adolescência plena, as meninas estão se tornando números. Estão tendo donos, "donos" que tiram suas vidas a qualquer espirro.


Para Carol Cassese é uma tristeza como essas meninas já são objetificadas. É toda uma cultura mesmo. Uma existência que fica associada à estética, à ideia de agradar ou não homens. Essa (a objetificação) é uma parte do problema, definitivamente não é apenas isso. Mas faz parte do problema também.

Mirtes Helena Scalioni gostou muito de “Adolescência” e afirma que a produção fez acender luzinhas nas cabeças de pais, filhos e professores. As plataformas não são o que parecem ser. Meninos estão sim fazendo cursos de misoginia na internet. E aprendendo a odiar e matar mulheres e meninas. O último capítulo da série é, para mim, uma pequena obra-prima de reflexão. E o pior de tudo é que as meninas estão sendo, de novo, apontadas como culpadas.

Segunda temporada?

Há rumores de que a série pode ganhar uma nova temporada, não como continuação direta do caso de Jamie, mas com uma nova história e a mesma abordagem. Se mantiver essa profundidade e cuidado na construção narrativa, ela tem tudo para seguir como um dos projetos mais relevantes da Netflix.


Ficha técnica:
Direção: Philip Barantini
Roteiro: Jack Thorne e Stephen Graham
Produção: Warp Films, Plan B Entertainment e Matriarch Productions
Distribuição: Netflix
Exibição: Netflix
Duração: 4 episódios
Classificação: 14 anos
País: Reino Unido
Gêneros: drama, policial, suspense

03 dezembro 2024

JustWatch divulga lista dos filmes de Natal mais transmitidos



Da Redação

O JustWatch acaba de lançar sua mais recente lista dos Top 10s, bem como um relatório de catálogo de provedores para a temporada de festas. Usando os gráficos de streaming, o site, parceiro do Cinema no Escurinho, determinou os filmes de Natal mais transmitidos entre 2023 e 2024 no Brasil. Saiba mais sobre o JustWatch clicando aqui.

Também determinou o número exato de filmes de Natal que estão disponíveis para transmissão e qual provedor tem o maior número. 

Para quem não conhece, o JustWatch é um serviço online gratuito que ajuda a encontrar filmes e séries de TV disponíveis em serviços de streaming. O serviço tem suporte para português e pode ser acessado por site ou aplicativo, compatível com os sistemas iOS e Android.


24 novembro 2024

“Amor Traiçoeiro” desafia convenções e prova que o amor pode florescer em qualquer idade

Monica Guerritore e Giacomo Gianniotti protagonizam a "caliente" minissérie italiana ambientada na Costa Amalfitana (Fotos: Netflix)


Marcos Tadeu
Do blog Jornalista de Cinema


A nova minissérie da Netflix, "Amor Traiçoeiro" ("Inganno" - 2023), dirigida por Pappi Corsicato, chegou à plataforma em 9 de outubro e mergulha em uma narrativa que explora o amor, o desejo e os preconceitos enfrentados por mulheres mais maduras.

A trama foi inspirada na minissérie da BBC de 2019, "Golpe do Amor", criada por Marnie Dickens, que tem no elenco Julia Ormond e Ben Barnes (em exibição no Prime Video).

Na nova versão, conhecemos Gabriella (Monica Guerritore), uma mulher rica e divorciada na casa dos 60 anos, dona de um luxuoso hotel na Costa Amalfitana. Ela se envolve com Elia (Giacomo Gianniotti), um homem 30 anos mais jovem. 

Enquanto vive intensamente essa paixão, Gabriella precisa lidar com o julgamento de seus filhos e questionamentos sobre as verdadeiras intenções de Elia.


A série é eficaz ao abordar temas como a redescoberta do desejo, a feminilidade na maturidade e os estigmas enfrentados por mulheres mais velhas que escolhem parceiros mais jovens. 

Em um contexto social onde relações com homens mais velhos e mulheres mais jovens são frequentemente normalizadas, "Amor Traiçoeiro" inverte a perspectiva, gerando reflexões relevantes.

Monica Guerritore entrega uma atuação segura e envolvente, personificando Gabriella como uma mulher que luta por sua liberdade de amar e viver suas escolhas. Sua performance destaca as complexidades emocionais da personagem, especialmente ao enfrentar as suspeitas e críticas. 


Já o personagem Elia interpretado por Giacomo Gianniotti é um misto de charme e mistério. Ele mantém o espectador intrigado, questionando suas motivações e segredos ao longo de cada episódio.

No aspecto técnico, a produção italiana não decepciona. Davide De Cubellis, responsável pelos storyboards, demonstra cuidado em cada enquadramento, criando uma atmosfera visualmente deslumbrante. 

A trilha sonora de Enrico Pellegrini complementa as emoções da série, transitando entre afeto, tensão e desejo. O departamento de maquiagem e figurino, liderado por Jujuba Acciarino, Ilaria Soricelli e Rosa Falcão, eleva a elegância dos personagens, especialmente a presença impecável de Elia.


A narrativa mantém um ritmo envolvente, com ganchos bem posicionados que dificultam assistir apenas um episódio. Contudo, a série poderia explorar mais a relação de Gabriella com seus filhos, especialmente no contexto de sua infância, o que traria maior profundidade à dinâmica familiar.

"Amor Traiçoeiro" prova que o amor pode transcender diferenças de idade, mas deixa claro que escolhas ousadas muitas vezes vêm acompanhadas de desafios. 

Apesar de algumas limitações, a minissérie entrega um desfecho satisfatório, embora as decisões finais dos protagonistas possam dividir opiniões.


Ficha técnica:
Direção: Pappi Corsicato
Exibição: Netflix
Duração: média de 45 minutos (1ª Temporada - 6 episódios)
Classificação: 16 anos
País: Itália
Gêneros: drama, romance, suspense

07 agosto 2024

Mafalda vai além dos quadrinhos e ganha série animada na Netflix

Personagem foi criada pelo cartunista argentino Quino 60 anos (Fotos: Divulgação)


Silvana Monteiro


Após décadas encantando leitores ao redor do mundo com suas tiras cômicas e reflexões perspicazes sobre a sociedade, a icônica personagem Mafalda finalmente ganhará sua própria série animada na Netflix. O projeto terá o ganhador do Oscar, Juan José Campanella ("O Segredo dos Seus Olhos" - 2009), como diretor, produtor e um dos roteiristas.

Criada pelo cartunista argentino Quino, a menina de 6 anos questiona o mundo ao seu redor com uma sabedoria muito além de sua idade. Desde sua estreia em 1964, Mafalda se tornou um fenômeno cultural na América Latina e na Europa, ressoando com seu senso de humor inteligente e sua perspectiva única sobre temas como política, guerra e a condição humana.


Agora, essa clássica personagem ganhará vida na tela, em uma adaptação da Netflix que promete capturar toda a essência da tira original. A série, que ainda não teve sua data de estreia anunciada, será produzida por uma equipe internacional talentosa e contará com vozes conhecidas emprestando seus talentos aos amados personagens.

Para os fãs de longa data de Mafalda, a notícia da série na Netflix é uma oportunidade de ver a contestadora, revolucionária e inquieta menina ganhar vida nas telas do streaming. 


Para aqueles que ainda não a conhecem, a produção será uma porta de entrada perfeita para descobrir o mundo encantador e reflexivo criado pelo gênio Quino por meio da Mafalda. A expectativa é de que a série consiga compartilhar sua mensagem de humor, perspicácia e consciência social com uma nova geração de fãs. 

A última adaptação das histórias para a telona foi há três anos em "Voltando a Ler Mafalda", uma produção da National Geographic que pode ser conferida no Disney+. O trailer está abaixo. Agora é aguardar a personagem na série.


18 julho 2024

Minissérie “Ripley”, da Netflix, nos dá o direito de torcer pelo vilão

Andrew Scott interpreta o protagonista que vive de aplicar golpes, mas também tem um passado sombrio
(Fotos Netflix)


Jean Piter Miranda


Para quem gosta de torcer pelo vilão, está disponível na Netflix a minissérie “Ripley”. A obra tem como protagonista Tom Ripley (Andrew Scott), um homem que vive de aplicar pequenos golpes na Nova York dos anos 1960. Ele é recrutado por um empresário muito rico para uma missão: viajar para a Itália e convencer o filho desse milionário a voltar para casa. 

Tom aceita. Além de ter todas as despesas pagas para passear pelo país europeu, a proposta inclui um bom pagamento em dinheiro. Nesse cenário, ele vê uma ótima oportunidade de ter ganhos ainda maiores. 


O filho do milionário é Dickie Greenleaf (Johnny Flynn), que vive na pequena e bela cidade de Atrani, no sul da Itália. Ele passa os dias com a namorada Marge Sherwood (Dakota Fanning), em uma rotina de muita tranquilidade. Entretanto, tudo muda com a chegada de Tom. 

Ao longo da trama, o golpista contratado usa mentiras e mais mentiras, se comportando como uma pessoa sensata, calma e centrada. Faz encenações e consegue disfarçar muito bem a pessoa fria, cruel, manipuladora e calculista que realmente é. Assim, aos poucos, se aproxima de Dickie e vai ganhando a confiança do jovem. Isso enquanto sua presença incomoda cada vez mais a bela Marge. 


A minissérie tem apenas oito capítulos e um poder enorme de prender a atenção do espectador. É um suspense psicológico. A dúvida é saber se Tom vai ser pego nessa vez ou na próxima. Ele parece ter sempre uma carta na manga e estar um passo à frente. Mesmo assim, a todo o momento fica a dúvida se deixou pistas, rastros, vestígios e como vai reagir se for pego de surpresa. 

Em um determinado momento, a obra vira uma trama policial. Investigação, corrida de gato e rato, sem deixar o suspense de lado.E no meio disso tudo, é supernormal torcer pelo vilão só pra ver onde tudo vai dar. 


Os oito capítulos são todos em preto e branco, o que deixa a ambientação ainda mais perfeita. As roupas, os carros, os cenários, tudo é feito com muito cuidado. Reproduzem com perfeição os anos 1960. Andrew Scott está impecável. Dakota Fanning também tem muita presença. Johnny Flynn destoa e entrega atuação bem sem graça. 

Coco Sumner, cantor e ator britânico, interpreta Freddie Miles de forma brilhante. Um personagem muito chato e bem arrogante que, quando está em tela, rouba as atenções. 

O elenco ainda é composto por vários atores italianos, falando o idioma local, o que traz um realismo ainda maior à minissérie. Não é como aqueles filmes em que todo mundo, convenientemente, fala inglês fluente onde quer que esteja. É um detalhe que faz muita diferença. 


Vale destacar que, mesmo com imagens monocromáticas, os cenários são lindos. Veneza, Nápoles, Roma e Sicília. Igrejas, esculturas, obras de artes, casarões, praias, paisagens, viagens de trem. Uma riqueza cultural sem tamanho. Dá muita vontade de viajar pela Itália. 

E para deixar a obra ainda mais rica, a trama amarra bem a história de Tom com a do grande pintor Caravaggio. É uma minissérie para maratonar e contemplar. 

Música

A trilha sonora está simplesmente perfeita. Não há outra forma de descrever o trabalho de Jeff Russo. Canções que podem ser ouvidas clicando nesta playlist


Adaptação

“Ripley” é baseado no livro “O Talentoso Ripley”, de Patricia Highsmith. A direção é do armênio-americano Steven Zaillian, que atuou como roteirista de grandes produções como “O Irlândês” (2019), “Millennium - Os Homens Que Não Amavam as Mulheres” (2011) e “Gangues de Nova York” (2002). 

A obra, de 1955, considerada um clássico da literatura policial,já foi adaptada para o cinema em “O Sol por Testemunha” (1960), com Alain Delon como protagonista. 

Em 1999, outra versão foi lançada, mantendo o título original: “O Talentoso Ripley”. O filme tem Matt Damon como Ripley, Jude Law e Gwyneth Paltrow formando o casal Dickie e Marge, com a ótima direção de Anthony Minghella.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Steven Zaillian
Produção: Netflix e Filmrights
Exibição: Netflix
Duração: 8 episódios
Classificação: 16 anos
País: EUA
Gêneros: drama, suspense, policial
Nota: 4,5 (0 a 5)

06 abril 2024

"A Saudade que Fica" é amor transcendental e o poder transformador da arte e do cinema

Drama japonês dirigido por Michihito Fujii emociona e nos faz questionar os limites entre a vida e a morte (Fotos: Netflix)


Silvana Monteiro


Procura um filme que, com certeza, vai te fazer chorar? Então vale a pena conferir "A Saudade que Fica" ("The Parades"). Dirigido por Michihito Fujii e exibido na Netflix, o longa japonês aborda temas como amor transcendental, separação terrena, luto, perdão e cura dos traumas materiais e espirituais, com sensibilidade e profundidade.

A narrativa nos faz questionar os limites entre a vida e o que ocorre após morrermos. Como seria se pudéssemos continuar algumas atividades após a morte? E se fosse possível proteger os entes queridos, pedir perdão ou perceber aspectos que não foram vistos em nossa personalidade?


Após uma calamidade devastadora, Minako (Masami Nagasawa) procura pelo filho desaparecido, até descobrir que está morta. Ela embarca em uma jornada emocional em busca de seu filho, Ryo. Sua inquietação é marcada por sua incapacidade de interagir com os vivos, o que intensifica sua dor.

Minako é resgatada e levada a um bucólico "parque de diversões” de um vilarejo remoto, onde encontra outros espíritos “vivenciando” situações que os mantêm ligados a esta dimensão. A conexão entre eles resulta em uma colaboração mútua e ajuda emocional. Será que Minako vai encontrar Ryo? Ele está vivo? Onde ele está? Como vai ser esse encontro?


Aos poucos, de uma forma surpreendente, o enredo vai revelando acontecimentos paralelos à peregrinação noturna dessas almas. É interessante como não se formam vilões e nem heróis. O drama humaniza as ações e reações, o que o torna especial. 

As tramas intricadas e os planos mirabolantes do cineasta Michael (interpretado por Lily Franky), as observações e escritos do jovem Akira (Kentaro Sakaguchi), a contemplação familiar de Kaori (Shinobu Terajima), o passado conturbado de Shori (Ryūsei Yokohama) e as angústias da jovem Nana (Nana Mori) são apresentados com uma sensibilidade tão envolvente que até os eventos mais intensos são suavizados para o espectador.


O ponto alto reside nas narrativas entrelaçadas, que se desdobram como histórias dentro da história. Através de uma sessão de cinema e da produção de um filme, as narrativas desses espíritos são revividas, reinterpretadas e libertas. Um plot twist arrebatador diferencia o filme das abordagens convencionais sobre temas espíritas.

A fotografia é espetacular com destaque para as cenas que mostram o mar e o ambiente confortavelmente iluminado e bucólico onde se encontram os espíritos.


Apesar das mais de duas horas de filme, as referências entre nossas vidas e a construção e finalização de uma obra cinematográfica deixam tudo mais leve e saboroso. 

"A Saudade que Fica" é um testemunho do poder do cinema em explorar temas profundos e complexos, oferecendo uma perspectiva única sobre a vida, a morte e o que pode existir além. Sente-se confortavelmente e prepare os lenços.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Michihito Fujii
Produção: Babel Label
Exibição: Netflix
Duração: 2h12
Classificação: 14 anos
País: Japão
Gêneros: drama, família