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24 fevereiro 2026

Breve leitura dos documentários em curta-metragem do Oscar 2026

 
 

Marcos Tadeu

 
Os indicados ao Oscar de Melhor Documentário em Curta-Metragem deste ano mostram uma Academia de Artes e Ciências Cinematográficas cada vez mais próxima dos problemas do mundo real. 

No lugar de histórias "somente para distrair”, os filmes escolhidos falam de situações reais, que estão acontecendo agora na vida de pessoas de verdade. Isso já diz muito sobre o momento que a premiação vive: o Oscar também é um retrato do tempo atual. Confira os concorrentes, três deles já disponíveis em streaming:

"O Diabo Não Tem Descanso" (HBO Max) entra num tema pesado sem enrolação. O curta acompanha a equipe médica que garante a segurança de mulheres que buscam o aborto. São profissionais que vivem esse conflito todos os dias e a produção mostra o cansaço, o medo e a pressão constante. 

Não é um filme para agradar todo mundo e sim para provocar. Ele joga o espectador para dentro da realidade de quem está ali, tentando sobreviver e seguir em frente em meio a decisões difíceis. A obra é a mais cotada da categoria.

Ficha técnica
Direção:
Christalyn Hampton e Geeta Gandbhir
Duração: 31 minutos
Classificação: 12 anos
Exibição: HBO Max
País: EUA



"Quartos Vazios" (Netflix) escolhe falar por meio do silêncio. Um jornalista e um fotógrafo registram os quartos de crianças e adolescentes que morreram em ataques a escolas. O filme leva o espectador a sentir a falta dessas pessoas, mesmo sem conhecer suas histórias. Não tem choque visual, não tem discurso político direto, tem ausência, e a ausência pesa. É o tipo de obra que faz a dor parecer mais próxima, mais real, mais humana.

Ficha técnica
Direção:
Joshua Seftel
Duração: 33 minutos
Classificação: 12 anos
Exibição: Netflix
País: EUA


"Armado com uma Câmera: Vida e Morte de Brent Renaud" (HBO Max) lembra que por trás de cada imagem de guerra há alguém correndo risco para contar o que está acontecendo. O  documentário é uma homenagem do diretor ao seu irmão, Brent Renaud, o primeiro jornalista americano morto na Guerra da Ucrânia. Ele aproxima o público da figura deste profissional e faz pensar em como consumimos essas imagens no dia a dia, muitas vezes sem lembrar do custo humano que existe por trás delas.

Ficha técnica:
Direção:
Brent Renaud e Craig Renaud
Duração: 39 minutos
Classificação: 16 anos
Exibição: HBO Max 
País: EUA


"Children No More: Were and Are Gone" retrata um grupo de ativistas israelenses pela paz que realiza vigílias silenciosas semanais em Tel Aviv. Numa resistência silenciosa, eles seguram fotos de crianças palestinas mortas em Gaza. A produção foca nas reações no público às manifestações: indiferença, tristeza, negação e até violência contra as ativistas. Ainda não está disponível em streaming no Brasil.

Ficha técnica
Direção:
Hilla Medalia
Duração: 36 minutos
Classificação: 12 anos
Exibição: ainda sem previsão de chegar ao streaming do Brasil
País: a sociedade israelense


"Perfectly a Strangeness" - ambientado no deserto do Atacama, no Chile, o curta mostra a percepção do universo através da visão de três burros que descobrem um observatório astronômico abandonado. O filme explora o visual, mas se arrasta, mesmo com seus 15 minutos de duração. A abordagem é mais filosófica e intelectual, com longos silêncios, o que pode não agradar ao público em geral.

Ficha técnica
Direção e roteiro: Alison McAlpine
Duração: 15 minutos
Classificação: não informada
Exibição: ainda sem previsão de chegar ao streaming do Brasil
País: Canadá


Essa seleção mostra que a categoria de documentário de curta-metragem no Oscar se mantém como o espaço onde o cinema encara o mundo sem tanto filtro. São filmes que não querem só entreter: querem fazer sentir, pensar e, em alguns casos, até incomodar. 

A cerimônia do Oscar acontece dia 15 de março, em Los Angeles. Acompanhe com o Cinema no Escurinho.


07 fevereiro 2026

"Sonhos de Trem": a fotografia encanta, mas o conflito não chega

Longa dirigido por Clint Bentley se ancora em uma abordagem existencial que privilegia como elementos centrais o silêncio, a contemplação e o tempo (Fotos: Netflix)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
"Sonhos de Trem" ("Train Dreams") é um filme visualmente belo, sensível e cuidadosamente construído, mas que encontra dificuldades em sustentar dramaticamente sua própria proposta. 

Concorrendo ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Fotografia, esta última assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso, o longa dirigido por Clint Bentley e exibido na Netflix, se ancora em uma abordagem existencial que privilegia o silêncio, a contemplação e o tempo como elementos centrais da narrativa.

A famosa frase “ser ou não ser, eis a questão” resume bem os conflitos internos que atravessam o filme. Aqui, a dúvida não se manifesta em grandes diálogos ou decisões explícitas, mas na maneira como o protagonista ocupa o mundo. 


A trama acompanha Robert Grainier, interpretado por Joel Edgerton, um trabalhador ferroviário que, no início do século XX, tenta levar uma vida simples como lenhador em meio às rápidas transformações dos Estados Unidos. 

Ao longo do caminho, Robert vivencia o amor, a perda e a solidão, construindo uma existência marcada pela resistência silenciosa e pelas marcas deixadas pelo tempo. Edgerton sustenta o filme com uma atuação contida e introspectiva, baseada mais em gestos e silêncios do que em palavras.


A fotografia de Adolpho Veloso é o grande destaque do longa. Seu olhar contemplativo transforma paisagens naturais, relações de trabalho, a vida familiar e pequenos acontecimentos cotidianos em imagens de forte carga simbólica. Cada enquadramento convida o espectador à observação e à reflexão, reforçando o caráter introspectivo da obra.

No entanto, é justamente nessa aposta radical na contemplação que o filme encontra seu principal problema. O ritmo extremamente lento, quase hipnótico, como o movimento constante de um trem, pode afastar parte do público. 


O elenco de apoio reforça a atmosfera melancólica, ainda que seja pouco explorado dramaticamente. Felicity Jones, como Gladys Grainier, traz delicadeza e humanidade à relação afetiva do protagonista, enquanto Kerry Condon adiciona nuances emocionais importantes nos encontros que pontuam a jornada de Robert. 

William H. Macy e Clifton Collins Jr. surgem como figuras que ajudam a contextualizar o ambiente de trabalho e as relações sociais da época, mas seus personagens acabam funcionando mais como presença simbólica do que como agentes de transformação narrativa.

Tecnicamente, o filme apresenta qualidades inegáveis. A trilha sonora de Bryce Dessner desempenha papel fundamental ao desenhar o estado emocional do protagonista, alternando entre tons intimistas e momentos mais amplos, quase épicos, sem romper a delicadeza do conjunto. 


A narrativa carece de conflitos mais consistentes e de acontecimentos que provoquem mudanças significativas no protagonista. Há situações específicas que poderiam funcionar como pontos de virada, mas elas não são plenamente desenvolvidas. 

Da mesma forma, os personagens ao redor de Robert Grainier não recebem aprofundamento suficiente para ampliar o impacto emocional da história.

Temas como luto, solidão, reflexão e o aprendizado de viver conduzem a narrativa e conferem ao filme uma melancolia constante. Essa força temática transforma "Sonhos de Trem" em uma experiência sensível e, em muitos momentos, tocante. Ainda assim, ao final, permanece a sensação de que falta algo. 


A conclusão, embora coerente com o tom existencial proposto, soa mais triste do que transformadora, deixando a impressão de uma jornada que observa muito, mas se arrisca pouco dramaticamente.

Em síntese, "Sonhos de Trem" é um drama de época elegante e tecnicamente refinado, que se destaca pela fotografia, pela trilha sonora e pelas atuações contidas de seu elenco, liderado por Joel Edgerton. 

Ao mesmo tempo, tropeça na ausência de conflitos mais claros e em um desenvolvimento narrativo limitado. É um filme que convida à contemplação e à introspecção, mas pode frustrar quem busca maior densidade dramática ou uma evolução mais marcante de seus personagens. 

Bonito, sensível e silencioso, o longa permanece mais como uma experiência estética do que como uma narrativa plenamente envolvente.


Ficha técnica:
Direção: Clint Bentley
Exibição: Netflix
Duração: 1h43
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gênero: drama

12 janeiro 2026

Com duas estatuetas, Brasil faz história no Globo de Ouro com "O Agente Secreto"

Longa dirigido por Kleber Mendonça Filho conquista prêmios de Melhor Filme em Língua Não Inglesa
e Melhor Ator em Filme de Drama (Fotos: CinemaScópio Produções)
 
 

Maristela Bretas

 
"O Agente Secreto", do diretor Kleber Mendonça Filho, atingiu mais um feito histórico para o cinema brasileiro ao conquistar, neste domingo (11) os prêmios de Melhor Filme em Língua Não Inglesa, e de Melhor Ator em Filme de Drama, recebido por Wagner Moura na 83ª edição do Globo de Ouro. Mais um para a coleção do ator, que também foi eleito Melhor Ator no Festival de Cannes de 2025 onde a produção fez sua estreia mundial.

O longa já soma mais de 20 prêmios concedidos por festivais e associações de críticos ao redor do mundo. Entre os destaques mais recentes estão as conquistas na 31ª edição do Critics Choice Awards 2026, onde venceu como Melhor Filme em Língua Estrangeira, e no New York Film Critics Circle (NYFCC) Awards 2026, no qual Wagner Moura recebeu o prêmio de Melhor Ator e o filme foi reconhecido como Melhor Filme Internacional.

Wagner Moura (Reprodução TV)

Orlando Bloom e Minnie Driver entregaram a estatueta de Melhor Filme em Língua Não-inglesa para o diretor Kleber Mendonça Filho. O longa brasileiro competiu com produções da Coreia do Sul, França, Noruega, Espanha e Tunísia.

Wagner Moura recebeu seu troféu das mãos dos atores Diane Lane e Colman Domingo, que ainda simulou no palco uma dança para comemorar com o ator brasileiro, que ao final de seu discurso em inglês, agradeceu em português a todos os brasileiros pela conquista.

Ambientado no Brasil de 1977, em pleno período da ditadura militar, "O Agente Secreto" acompanha Marcelo, interpretado por Wagner Moura, um professor que retorna de São Paulo para Recife, sua terra natal, tentando escapar de um passado violento e misterioso para ficar perto do filho. 


Mas logo percebe que o passado continua à espreita e, mesmo usando uma nova identidade, ainda corre risco e representa um perigo para todos ao seu redor. 

O longa é uma coprodução entre Brasil (CinemaScópio Produções), França (MK Productions), Holanda (Lemming) e Alemanha (One Two Films), com distribuição nacional da Vitrine Filmes.

"O Agente Secreto" foi escolhido para representar o Brasil no Oscar 2026. A 98ª edição da cerimônia da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood está prevista para o dia 15 de março.

As premiações

George Clooney, ao lado de Don Cheadle, anunciou o vencedor da principal categoria do Globo de Ouro 2026. "Hamnet: A Vida Antes de Hamlet", da diretora Chloé Zhao, foi escolhido Melhor Filme de Drama. 

A produção também levou a estatueta de Melhor Atriz em Filme de Drama, entregue por Chris Pine e Ana de Armas a Jessie Buckley por sua elogiada atuação.

"Hamnet: A Vida Antes de Hamlet"
(Foto: Universal Pictures)

Com apresentação da comediante Nikki Glaser, o Globo de Ouro 2026, foi realizado no auditório do Beverly Hilton Hotel, em Los Angeles. As atrizes Amanda Seyfried e Jennifer Garner entregaram o primeiro prêmio da noite, de Melhor Atriz Coadjuvante em Filme para Teyana Taylor, por sua atuação em "Uma Batalha Após a Outra", da Warner Bros. Pictures. 

A produção, considerada a favorita, foi a maior premiada conquistando outras três estatuetas: Melhor Roteiro em Filme, Melhor Direção em Filme e Melhor Filme de Comédia ou Musical, entregues ao diretor e roteirista Paul Thomas Anderson.

"Uma Batalha Após a Outra"
(Foto: Warner Bros. Pictures)

Nas séries, como era esperado, "Adolescência", da Netflix, também foi premiada quatro vezes: Melhor Ator Coadjuvante em Série de Drama, novamente para o jovem Owen Cooper, que aumentou sua coleção de estatuetas como protagonista; Melhor Ator em Minissérie ou Filme de TV, conquistado por Stephen Graham; Melhor Atriz Coadjuvante em Série para Erin Doherty, e Melhor Minissérie ou Filme para TV.

Duas estatuetas

Outro filme que estava entre os favoritos na disputa pelo Globo de Ouro 2026 foi o filme "Pecadores", do diretor Ryan Coogler, com Michael B. Jordan interpretando dois irmãos gêmeos. O longa levou os prêmios de Melhor Trilha Sonora Original e Melhor Campeão de Bilheteria. 

Sem novidade também foram as estatuetas entregues a "Guerreiras do K-Pop", da Netflix, que levou os prêmios de Melhor Música para Filme com a canção "Golden", e de Melhor Filme de Animação. Considerada um dos fenômenos da Netflix ela já teve uma nova temporada anunciada.

"Guerreiras do K-Pop" (Foto: Netflix)

Nas séries, uma das favoritas, "The Pitt" levou também dois troféus: Melhor Ator em Série de Drama, para Noah Wyle, e Melhor Série de Drama. A série da HBO Max, que estreou recentemente a segunda temporada, já anunciou uma terceira. 

"The Studio", da Prime Vídeo, foi outra que venceu em duas categorias do Globo de Ouro 2026: Melhor Ator em Série de Comédia ou Musical, prêmio entregue a Seth Rogen, e Melhor Série de Comédia ou Musical. A série já teve sua segunda temporada confirmada.

"The Studio" (Foto: Prime Vídeo)

Veja a lista completa de vencedores:

- Melhor Filme de Drama: "Hamnet: A Vida Antes de Hamlet"
- Melhor Filme de Comédia ou Musical: "Uma Batalha Após a Outra"
- Melhor Ator em Filme de Drama: Wagner Moura ("O Agente Secreto")
- Melhor Atriz em Filme de Drama: Jessie Buckley ("Hamnet: A Vida Antes de Hamlet")
- Melhor Série de Comédia ou Musical: "The Studio"
- Melhor Minissérie ou Filme para a TV: "Adolescência"

"Adolescência" (Foto: Netflix)

- Melhor Série de Drama: "The Pitt"
- Melhor Atriz em Série de Drama: Rhea Seehorn ("Pluribus")
- Melhor Performance de Comédia Stand-up na TV: Ricky Gervais ("Ricky Gervais: Mortality")
- Melhor Atriz Coadjuvante na TV: Erin Doherty ("Adolescência")
- Melhor Filme em Língua Não-inglesa: "O Agente Secreto"
- Melhor Filme de Animação: "Guerreiras do K-Pop"
- Melhor Direção em Filme: Paul Thomas Anderson ("Uma Batalha Após a Outra")
- Melhor Destaque em Bilheteria: "Pecadores"
- Melhor Atriz em Minissérie ou Filme para a TV: Michelle Williams ("Dying for Sex")
- Melhor Ator em Minissérie ou filme para a TV: Stephen Graham ("Adolescência")

"Pecadores" (Foto: Warner Bros. Pictures)

- Melhor Ator em Filme de Comédia ou Musical: Timothée Chalamet ("Marty Supreme")
- Melhor Atriz em Filme de Comédia ou Musica: Rose Byrne ("Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria")
- Melhor Roteiro de Filme: Paul Thomas Anderson ("Uma Batalha Após a Outra")
- Melhor Trilha Sonora de Filme: "Pecadores"
- Melhor Música para Filme: canção "Golden" ("Guerreiras do K-Pop")
- Melhor Podcast: "Good Hang with Amy Poehler"
- Melhor Ator em Série de Comédia ou Musical: Seth Rogen ("The Studio")
- Melhor Ator Coadjuvante em Série de Drama: Owen Cooper ("Adolescência")
- Melhor Atriz em Série de Comédia ou Musical: Jean Smart ("Hacks")
- Melhor Ator em Série de Drama: Noah Wyle ("The Pitt")
- Melhor Ator Coadjuvante em Filme: Stellan Skarsgard ("Valor Sentimental")
- Melhor Atriz Coadjuvante em Filme: Teyana Taylor ("Uma Batalha Após a Outra")

Noah Wyle, de "The Pitt (Foto: HBO Max")

23 novembro 2025

"Frankenstein", de Guillermo del Toro, discute solidão e busca por pertencimento

Longa dá um novo significado à criatura, longe da brutalidade que outras versões insistiram em perpetuar (Fotos: Netflix)
 
 

Silvana Monteiro

 
A mais recente adaptação de "Frankenstein", lançada pela Netflix, desloca o olhar tradicional para algo mais íntimo do que a mera oposição entre criador e criatura. Em vez de repetir o clichê do “monstro que aterroriza”, o filme investe naquilo que sempre foi seu núcleo mais humano: a busca pelo sentido da existência.

O grande mérito da obra está na forma como ressignifica a criatura. Longe da brutalidade que tantas versões insistiram em perpetuar, o ser renascido em laboratório pode estar vivo e pode estar morto, mas qual é o sentido de viver ou morrer, de fato? 


Sem se apoiar em explicações excessivas, o diretor Guillermo del Toro constrói um ritmo que abraça a contemplação. O que poderia ser apenas uma história sobre criação científica torna-se um ensaio visual sobre pertencimento. 

As escolhas de fotografia, sempre entre a penumbra e a luz filtrada, ajudam a materializar o sentimento de estar “entre mundos”: vivo, mas não nascido; consciente, mas sem raízes.

Em busca de respostas

Quando o médico Victor Frankenstein (Oscar Isaac) decide extrapolar seus conhecimentos e buscar uma sabedoria além da vida e da morte, ele não imaginava que as coisas poderiam sair do controle. Pelo contrário, embora testando, ele achava que dominava as práticas. 


Uma das maiores surpresas é a relação que se estabelece — ainda que fragmentada — entre a criatura (interpretada por Jacob Elordi), Victor Frankenstein e os demais personagens da história. Com dois deles em especial, há ainda desdobramentos muito mais incríveis que vão mexer com os sentimentos do telespectador. 

Em relação a Victor e o monstro, a obra tenta mostrar que, a sua maneira, cada um representa dois seres igualmente perdidos, ambos tentando lidar com a própria incapacidade de preencher o vazio que carregam. 

O filme sugere, com extrema sutileza, que há ainda um gesto final, uma forma de romper a cadeia que prende as almas e os corações, dos vivos e dos mortos. 


Nuances dos personagens

O interessante é que o roteiro se equilibra para não empurrar o espectador nem para a pena, nem para o medo. Em vez disso, é convidado a enxergar nuances: a criatura que observa o mundo com cuidado; o criador que tenta decifrar os danos que causou; a vida que escapa a qualquer forma de controle. 

A força da crítica social — presente em toda história de "Frankenstein" — aparece não como discurso, mas como camada: o que fazemos com quem não se encaixa? O que acontece com aqueles que não foram desejados, mas existem?


É nesse ponto que a obra conquista sua singularidade. O filme transforma a narrativa em uma reflexão sobre autonomia e humanidade. Sem recorrer a grandes revelações ou reviravoltas explícitas, a adaptação da Netflix entrega um filme que respira poesia nos intervalos das monstruosidades, seja dos humanos, seja das invenções criadas por mãos insanas.

Curiosidade

Acompanhando o lançamento do filme, o clássico absoluto da literatura gótica e do horror escrito pela jovem Mary Shelley em 1816 ganha nova edição ilustrada. O livro chega pelo selo Planeta Minotauro, com ilustrações de Amanda Miranda e apresentação de Cláudia Fusco. Reconstituído, como a própria criatura, esta edição especial quer atrair uma nova geração de leitores.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Guillermo del Toro
Produção: Columbia Pictures e Netflix
Distribuição: O2 Filmes e Netflix
Exibição: Netflix
Duração: 2h30
Classificação: 18 anos
País: EUA
Gêneros: drama, ficção, terror

16 agosto 2025

"Meu Ano em Oxford": quando o amor desafia o tempo e veste a beleza dos jardins ingleses e da poesia

Longa com Sofia Carson e Corey Mylchreest se destaca por seu cuidado visual e sua atmosfera envolvente (Fotos: Netflix)


Silvana Monteiro

 
"Não há tempo consumido
nem tempo a economizar
O tempo é todo vestido

de amor e tempo de amar."
Carlos Drummond de Andrade
 
Os versos do poeta mineiro abrem com perfeição o caminho para falar de outro tipo de poesia: a cinematográfica. E mais que isso: uma poesia que atravessa os corredores da literatura e se manifesta nas imagens de "Meu Ano em Oxford" ("My Oxford Year").

O filme, adaptado do romance de Julia Whelan e lançado em 2024, acaba de entrar na coleção da Netflix e é dos mesmos produtores de "A Culpa é das Estrelas" (2014).


A história gira em torno de Anna de La Vega, uma jovem norte-americana vivida por Sofia Carson, que se muda para Oxford, na Inglaterra, para cursar seu tão sonhado mestrado. 

Lá, ela conhece Jamie Davenport, interpretado por Corey Mylchreest, um professor-adjunto carismático, admirado e temido por sua fama de amores efêmeros. 

O encontro entre os dois rende mais do que trocas intelectuais: nascem sentimentos atribulados, atravessados por obstáculos, escolhas difíceis e um segredo que vira a perspectiva da história de cabeça para baixo.

Apesar de o enredo seguir a linha clássica dos romances de formação com tintas dramáticas e reviravoltas já conhecidas do público, o filme se destaca por seu cuidado visual e sua atmosfera envolvente. 


Destaque para a fotografia 

A fotografia é um espetáculo à parte. Oxford é retratada em toda sua glória: bibliotecas de madeira antiga com vitrais coloridos, salões silenciosos onde a luz atravessa o tempo, jardins palaciais em flor e uma paleta que remete ao romantismo vitoriano.

Mas o que realmente marca a experiência de "Meu Ano em Oxford" é a sensibilidade com que trata a relação entre amor e tempo. Afinal, quantos dias são necessários para um amor valer à pena? 

O filme não responde com fórmulas prontas, mas convida à reflexão. Em tempos acelerados, é um lembrete delicado de que há sentimentos que não se medem em anos, e que o amor pode ser eterno mesmo quando breve.


Anna se reinventa ao longo da trama, e é isso que torna o filme mais interessante do que apenas a história romântica. É uma narrativa sobre recomeços, amadurecimento e coragem. E sim, é um clichê, mas daqueles que acolhem, emocionam e aquecem o coração.

"Meu Ano em Oxford" é um romance que, mesmo querendo aprofundar em uma complexidade sobre a duração da vida, consegue ser raso, mas sem deixar de oferecer beleza, esperança e a certeza de que, como dizia Drummond, "amar é mesmo o sumo da vida".

E ficam a pergunta e a resposta que intitulam a poesia do nosso grande escritor: "O tempo passa? Não passa. Para o amor, não passa".


Ficha técnica:
Direção: Iain Morris
Produção: Temple Hill Entertainment
Exibição: Netflix
Duração: 1h53
Classificação: 12 anos
País: EUA
Gêneros: romance, comédia

09 abril 2025

Polêmico e atual, "Adolescência" alerta para um perigo real e crescente

Apesar da pouca experiência, o jovem Owen Cooper entrega uma interpretação carregada de verdades e vulnerabilidades (Fotos: Netflix)


Equipe do Cinema no Escurinho


A equipe do Cinema no Escurinho assistiu a nova minissérie da Netflix, "Adolescência" ("Adolescence"), e se juntou para abordar a essência desta produção. E concordam que se trata de uma produção impactante, atual e que serve de alerta para pais e educadores para o problema da violência contra as mulheres, não importando a idade.

Para o parceiro e colaborador Marcos Tadeu, do blog Jornalista de Cinema, até o momento é uma das séries mais necessárias e impactantes do ano. Ela se destaca pela urgência do tema e pela capacidade de provocar discussões importantes sobre juventude, violência, papel da escola, da família e as estruturas que nos cercam.

Desde que chegou ao catálogo da Netflix em 13 de março, "Adolescência" viralizou rapidamente e ultrapassou a marca de 66,3 milhões de visualizações, deixando o público em choque — e cheio de perguntas.


A produção começa com a brutal interrupção da rotina da família Miller, quando a polícia invade sua casa à procura de Jamie (Owen Cooper), acusado de esfaquear a colega de escola Katie Leonard (Emilia Holliday). 

O que poderia parecer um caso direto de violência entre adolescentes se transforma, aos poucos, em uma trama densa, repleta de nuances e contradições. 

À medida que os detetives Luke Bascombe (Ashley Walters) e Misha Frank (Faye Marsay) avançam na investigação, segredos vão surgindo e abalam não só o núcleo familiar, mas também a comunidade escolar e os demais envolvidos.


O maior trunfo da série está na forma como a história é contada: a narrativa recorre a diferentes pontos de vista — da polícia, da escola, dos amigos de Jamie, da psicóloga e da família — e evita qualquer tipo de resposta fácil. 

Em vez de dizer o que o público deve pensar "Adolescência" o convida a refletir: o ambiente em que o adolescente está inserido contribui para afastá-lo ou aproximá-lo da violência?

Para amplificar esse efeito, mais do que apostar no plano-sequência como um artifício estético, a minissérie usa a câmera em movimento constante como um observador silencioso, que se infiltra nos espaços, capta as tensões e torna a experiência do espectador mais íntima e visceral.

As atuações acompanham o rigor da proposta. Stephen Graham (Eddie Miller, pai de Jamie), Erin Doherty (Briony) e o jovem Owen Cooper entregam interpretações carregadas de verdade e vulnerabilidade. 


O texto, bem escrito e afiado, ganha ainda mais potência com a escolha precisa do elenco. Nada soa artificial ou encenado — é como se estivéssemos acompanhando tudo de dentro, em tempo real.

No entanto, nem tudo é acerto. Um dos pontos mais frágeis da narrativa é justamente a construção da vítima. Katie Leonard quase não tem voz própria: seu ponto de vista aparece apenas por meio da amiga Jade (Fatima Bojang), e seus pais ou outras pessoas próximas sequer são mostrados. Isso enfraquece a complexidade emocional que a série poderia ter explorado. 

Além disso, o desfecho sem um julgamento formal pode soar frustrante para quem esperava um posicionamento mais claro. O final aberto, ao invés de corajoso, parece fugir da responsabilidade de encerrar a história com uma decisão.


Cada vez mais perto de nós

Para Jean Piter Miranda, a essência de “Adolescência” deixa bem claro que jovens bem criados podem cometer atrocidades. E que isso está mais perto de todos nós do que podemos imaginar. 

O menino Jamie de apenas 13 anos é branco, de família de classe média na Europa, tem bom relacionamento com os pais e com a irmã e ainda é bom aluno. Um jovem acima de qualquer suspeita. Entretanto, ele é acusado de matar a facadas uma menina da mesma idade que ele. O motivo? Ódio pelas mulheres. 

Jamie participava de comunidades online que pregam ódio às mulheres, os chamados "incels". Grupos esses que têm membros de todas as idades. Se dizem vítimas do feminismo, se sentem rejeitados pelo sexo oposto. Por isso, se acham no direito de cometer todo tipo de violência contra o sexo feminino. 


"Adolescência" retrata um problema social silencioso, que vem crescendo em todo o mundo. Um problema social ligado a outros problemas. Pais que trabalham demais e que estão sempre ausentes. Como você vai educar seus filhos se nunca está presente? Crianças que desde muito cedo passam bastante tempo diante de telas, expostas a vários riscos sem que os pais desconfiem de algo. 

A minissérie também mostra vulnerabilidades das instituições. As escolas e a polícia não estão preparadas para lidar com esse problema. Não há política pública estruturada para o enfrentamento e prevenção desses casos. 


A obra propõe reflexões e, acertadamente, não tem a pretensão de indicar soluções. Não há sensacionalismo de mostrar violência explícita, ao mesmo tempo em que constrói um ambiente de tensão. 

As atuações são ótimas, muitas delas carregadas de emoção, porém, sem exageros, sem perder a mão. A filmagem em plano sequência prende o expectador, dando a impressão de que tudo está acontecendo naquele exato momento. 

São apenas quatro episódios, o que não deixa a série ser cansativa. O desfecho fica subentendido, sem reviravoltas e sem desgastes com cenas clichês de tribunais. E cada um é feito na medida, com abordagem específica. Tudo isso faz da produção uma obra excelente que merece ser vista e debatida por todos.


Misoginia

Silvana Monteiro tem opinião semelhante. As mulheres enfrentam um tratamento desrespeitoso nas comunidades virtuais, refletindo a desvalorização que também ocorre na sociedade. O chamado "clube do bolinha", para determinados assuntos, pode representar um risco maior do que muitos imaginam.

As pessoas aparentemente comuns podem praticar as piores atrocidades. Famílias perfeitas não existem. Filhos não são o que os pais tentam, pensam ou querem. Mentes sagazes não têm idade. Pais não se prepararam para o mundo e o submundo da web. E criminoso não vem com estrela na testa.

Estamos vendo uma grande número de meninas de 11, 12, 13 e 14 sendo assassinadas todos os dias, a maioria por marmanjos ordinários. É chocante, virou uma coisa sem tamanho, uma situação desesperadora. Antes mesmo de atingir a adolescência plena, as meninas estão se tornando números. Estão tendo donos, "donos" que tiram suas vidas a qualquer espirro.


Para Carol Cassese é uma tristeza como essas meninas já são objetificadas. É toda uma cultura mesmo. Uma existência que fica associada à estética, à ideia de agradar ou não homens. Essa (a objetificação) é uma parte do problema, definitivamente não é apenas isso. Mas faz parte do problema também.

Mirtes Helena Scalioni gostou muito de “Adolescência” e afirma que a produção fez acender luzinhas nas cabeças de pais, filhos e professores. As plataformas não são o que parecem ser. Meninos estão sim fazendo cursos de misoginia na internet. E aprendendo a odiar e matar mulheres e meninas. O último capítulo da série é, para mim, uma pequena obra-prima de reflexão. E o pior de tudo é que as meninas estão sendo, de novo, apontadas como culpadas.

Segunda temporada?

Há rumores de que a série pode ganhar uma nova temporada, não como continuação direta do caso de Jamie, mas com uma nova história e a mesma abordagem. Se mantiver essa profundidade e cuidado na construção narrativa, ela tem tudo para seguir como um dos projetos mais relevantes da Netflix.


Ficha técnica:
Direção: Philip Barantini
Roteiro: Jack Thorne e Stephen Graham
Produção: Warp Films, Plan B Entertainment e Matriarch Productions
Distribuição: Netflix
Exibição: Netflix
Duração: 4 episódios
Classificação: 14 anos
País: Reino Unido
Gêneros: drama, policial, suspense

03 dezembro 2024

JustWatch divulga lista dos filmes de Natal mais transmitidos



Da Redação

O JustWatch acaba de lançar sua mais recente lista dos Top 10s, bem como um relatório de catálogo de provedores para a temporada de festas. Usando os gráficos de streaming, o site, parceiro do Cinema no Escurinho, determinou os filmes de Natal mais transmitidos entre 2023 e 2024 no Brasil. Saiba mais sobre o JustWatch clicando aqui.

Também determinou o número exato de filmes de Natal que estão disponíveis para transmissão e qual provedor tem o maior número. 

Para quem não conhece, o JustWatch é um serviço online gratuito que ajuda a encontrar filmes e séries de TV disponíveis em serviços de streaming. O serviço tem suporte para português e pode ser acessado por site ou aplicativo, compatível com os sistemas iOS e Android.


24 novembro 2024

“Amor Traiçoeiro” desafia convenções e prova que o amor pode florescer em qualquer idade

Monica Guerritore e Giacomo Gianniotti protagonizam a "caliente" minissérie italiana ambientada na Costa Amalfitana (Fotos: Netflix)


Marcos Tadeu
Do blog Jornalista de Cinema


A nova minissérie da Netflix, "Amor Traiçoeiro" ("Inganno" - 2023), dirigida por Pappi Corsicato, chegou à plataforma em 9 de outubro e mergulha em uma narrativa que explora o amor, o desejo e os preconceitos enfrentados por mulheres mais maduras.

A trama foi inspirada na minissérie da BBC de 2019, "Golpe do Amor", criada por Marnie Dickens, que tem no elenco Julia Ormond e Ben Barnes (em exibição no Prime Video).

Na nova versão, conhecemos Gabriella (Monica Guerritore), uma mulher rica e divorciada na casa dos 60 anos, dona de um luxuoso hotel na Costa Amalfitana. Ela se envolve com Elia (Giacomo Gianniotti), um homem 30 anos mais jovem. 

Enquanto vive intensamente essa paixão, Gabriella precisa lidar com o julgamento de seus filhos e questionamentos sobre as verdadeiras intenções de Elia.


A série é eficaz ao abordar temas como a redescoberta do desejo, a feminilidade na maturidade e os estigmas enfrentados por mulheres mais velhas que escolhem parceiros mais jovens. 

Em um contexto social onde relações com homens mais velhos e mulheres mais jovens são frequentemente normalizadas, "Amor Traiçoeiro" inverte a perspectiva, gerando reflexões relevantes.

Monica Guerritore entrega uma atuação segura e envolvente, personificando Gabriella como uma mulher que luta por sua liberdade de amar e viver suas escolhas. Sua performance destaca as complexidades emocionais da personagem, especialmente ao enfrentar as suspeitas e críticas. 


Já o personagem Elia interpretado por Giacomo Gianniotti é um misto de charme e mistério. Ele mantém o espectador intrigado, questionando suas motivações e segredos ao longo de cada episódio.

No aspecto técnico, a produção italiana não decepciona. Davide De Cubellis, responsável pelos storyboards, demonstra cuidado em cada enquadramento, criando uma atmosfera visualmente deslumbrante. 

A trilha sonora de Enrico Pellegrini complementa as emoções da série, transitando entre afeto, tensão e desejo. O departamento de maquiagem e figurino, liderado por Jujuba Acciarino, Ilaria Soricelli e Rosa Falcão, eleva a elegância dos personagens, especialmente a presença impecável de Elia.


A narrativa mantém um ritmo envolvente, com ganchos bem posicionados que dificultam assistir apenas um episódio. Contudo, a série poderia explorar mais a relação de Gabriella com seus filhos, especialmente no contexto de sua infância, o que traria maior profundidade à dinâmica familiar.

"Amor Traiçoeiro" prova que o amor pode transcender diferenças de idade, mas deixa claro que escolhas ousadas muitas vezes vêm acompanhadas de desafios. 

Apesar de algumas limitações, a minissérie entrega um desfecho satisfatório, embora as decisões finais dos protagonistas possam dividir opiniões.


Ficha técnica:
Direção: Pappi Corsicato
Exibição: Netflix
Duração: média de 45 minutos (1ª Temporada - 6 episódios)
Classificação: 16 anos
País: Itália
Gêneros: drama, romance, suspense