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18 abril 2026

“The Beauty - Lindos de Morrer”: o que você faria para ter beleza eterna?

Nova série de Ryan Murphy expõe o preço da perfeição em um mundo onde estética e imagem valem
mais que a alma (Fotos: Fox)
 
 

Robhson Abreu

 
Se você tivesse um visual não tão atraente, alguma enfermidade e soubesse que a indústria farmacêutica criou uma fórmula capaz de curar todos os males e ainda te deixar lindo (a), o que faria? Pagaria por essa fórmula milagrosa que custaria uma fortuna? E se soubesse que a fórmula poderia ser sexualmente transmissível, transaria por isso? Tudo em prol da beleza e aceitação social? 

Em tempos de medicamentos milagrosos para emagrecimento parece que a série "Lindos de Morrer" ("The Beauty"), do canal Fox e exibida na plataforma Disney+, não é tão fantasiosa.


Há séries que entretêm e outras que provocam. E, em se tratando de Ryan Murphy (“‘Glee”, "Pose" e "American Horror Story"), as duas sensações caminham juntas. O diretor manteve sua habilidade de trabalhar temas provocativos e universos estilizados, mas com um tom mais reflexivo, sem abrir mão do impacto visual que marca sua carreira.

"The Beauty" é uma série que seduz ao mesmo tempo em que desconforta. O roteiro é simples na superfície e brutal em suas implicações. 

Por meio de uma injeção ou por sexo, qualquer pessoa pode ficar extraordinariamente bonita. Em troca, um preço irreversível. O que poderia soar como fantasia logo se revela um comentário ácido sobre o mundo real.


Inspirada nos quadrinhos de Jeremy Haun e Jason A. Hurley, a narrativa acompanha os detetives Cooper Madsen (Evan Peters, da série "Mare of Easttown" - 2021) e Jordan Bennett (Rebecca Hall, de "Godzilla e Kong: O Novo Império" - 2024) que investigam uma possível conspiração entre o governo e a indústria farmacêutica para lucrar com a disseminação controlada da doença de “ser bonito”. 

Assim, eles investigam mortes que orbitam a fórmula chamada Beauty, enquanto tentam compreender como algo tão desejado pode esconder consequências tão devastadoras.


O elenco amplia a densidade da trama. Peters sustenta o protagonismo com um registro contido, quase silencioso, que cresce em tensão a cada episódio. Rebecca oferece um contraponto emocional, trazendo humanidade a uma história que poderia facilmente se tornar apenas conceitual. 

Entre os nomes de peso, Ashton Kutcher ("Jobs" - 2013) assume um papel central e perturbador, enquanto Isabella Rossellini ("Conclave" - 2024) imprime sofisticação e ambiguidade. O elenco conta ainda com Jeremy Pope ("A Inspeção" - 2022) e Anthony Ramos ("Twisters" - 2024), que ajudam a ampliar as camadas sociais e emocionais da narrativa.


Kutcher, como o ambicioso Byron Forst, acredita ter alcançado o que a humanidade sempre quis - a fonte da juventude e da beleza eterna. Mais do que um usuário da Beauty, ele se enxerga como alguém acima dela, quase um criador, alguém capaz de controlar e redefinir os padrões do mundo. 

Essa convicção o leva a ultrapassar limites morais com frieza, eliminando qualquer pessoa que represente ameaça ao seu projeto de poder. Há nele uma dimensão quase messiânica, distorcida por vaidade e ambição, que o aproxima da ideia de um “Deus da beleza”.


Ao mesmo tempo, a construção do personagem evita reduzi-lo a um vilão unidimensional. A narrativa revela fissuras. Quando os efeitos colaterais começam a se intensificar, especialmente entre aqueles contaminados pela transmissão sexual, surge outro lado. 

Aquele que observa as consequências fora de controle, que percebe a falha no sistema que acreditava dominar. É nesse ponto que o personagem expõe traços de humanidade, ainda que tardios, ainda que atravessados por culpa e desespero.


Uma nova IST?

Esse arco reforça um dos temas centrais da série. Beauty promete perfeição, mas escapa ao controle. A mesma tecnologia pode ser interpretada como uma espécie de Infecção Sexualmente Transmissível (IST), transmitida pelo contato íntimo que, ao contrário das doenças combatidas, desperta desejo coletivo. 

Em um mundo que ainda luta para controlar infecções como o HIV, a série inverte a lógica ao apresentar uma doença que muitos querem contrair. O risco deixa de ser evitado e passa a ser buscado. O contágio vira símbolo de status.


No entanto, o acesso seguro depende de um tratamento caro, aplicado por injeção, restrito a quem pode pagar. A tecnologia não é democrática. Para quem não tem recursos, resta uma alternativa informal e arriscada. 

Mas essa escolha cobra seu preço. Os efeitos colaterais funcionam como uma verdadeira caixa de surpresas. Em alguns casos, a transformação pode acontecer dentro do esperado. 

Em outros, o resultado foge completamente ao controle, revelando consequências físicas e emocionais imprevisíveis. A promessa de perfeição convive, o tempo todo, com a possibilidade de fracasso. O que nos faz querer maratonar a temporada.


A Beauty pode ou não dar certo. Essa incerteza sustenta a tensão da narrativa e amplia seu impacto simbólico. A promessa de perfeição vem acompanhada de instabilidade. Cada rosto impecável carrega a possibilidade de colapso.

Há também um diálogo interessante com o cinema recente. "The Beauty" ecoa, em certa medida, às inquietações de "A Substância" (2024), filme protagonizado por Demi Moore. Lembra? Além do conteúdo, a forma também se destaca. A trilha sonora contribui de maneira decisiva para a atmosfera da série. 

Os figurinos seguem a mesma estética, com peças elegantes e contemporâneas. Já as locações apostam em ambientes luxuosos, frios e controlados como clínicas, coberturas e espaços urbanos de alto padrão, que ajudam a construir um universo onde a beleza não é apenas atributo, mas capital.


A série de Murphy, com 11 episódios na primeira temporada, é precisa ao construir um mundo onde a beleza é quase um produto. A fotografia valoriza peles impecáveis, simetrias e brilhos artificiais, criando imagens que remetem a campanhas publicitárias. 

Ao mesmo tempo, há algo deslocado em cada enquadramento, como se aquela perfeição estivesse sempre prestes a se desfazer. 

Em um mundo de muitos influencers em que ser belo é condição nata, "The Beauty - Lindos de Morrer" é um espelho distorcido que reflete com clareza o presente. 

Assim Murphy levanta uma questão direta: você tomaria uma medicação para alcançar a beleza e a juventude eternas, mesmo sabendo dos seus possíveis efeitos colaterais?


Ficha técnica:
Direção: Ryan Murphy, Alexis Martin Woodall e Michael Uppendahl 
Produção: Fox
Exibição: Disney+ e FX/Hulu
Duração: 1ª temporada - 11 episódios, média de 40 minutos por episódio
Classificação: 18 anos
País: EUA
Gêneros: drama, policial, terror, suspense

17 abril 2026

“Maldição da Múmia”: terror sobrenatural aposta no grotesco e esquece de assustar

Natalie Grace interpreta a jovem Katie, possuída por uma entidade maligna da antiguidade que vai
atormentar a vida de seus familiares (Fotos: Warner Bros. Pictures) 
 
 

Maristela Bretas

 
O terror contemporâneo tem apostado cada vez mais no desconforto físico e psicológico do espectador — e “Maldição da Múmia” segue exatamente por esse caminho. Em cartaz nos cinemas de Belo Horizonte, o longa troca o susto fácil por uma experiência mais perturbadora e sobrenatural, que provoca mais repulsa do que medo. E como anunciado pela produção, Brendan Frazer e Rachel Weisz não estão neste filme.

Produzido pela Blumhouse Productions em parceria com a Atomic Monsters e New Line Cinema, o filme carrega a expectativa de quem já entregou bons títulos do gênero. Mas, sob a direção de Lee Cronin, de “A Morte do Demônio: A Ascensão” (2023), o resultado é irregular — com mais impacto visual do que narrativa consistente.


A trama acompanha uma família marcada por uma tragédia inexplicável: a filha de um jornalista norte-americano desaparece durante uma viagem ao Egito e é dada como morta. 

Oito anos depois, porém, ela reaparece — ferida, deformada e carregando algo muito mais sombrio do que o trauma do desaparecimento. Encontrada dentro de um antigo sarcófago, a jovem retorna como um enigma perturbador.

O que deveria ser um reencontro emocionante logo se transforma em pesadelo. A presença da garota contamina o ambiente familiar, revelando sinais de possessão ligados a antigas seitas egípcias. E, nesse ponto, o filme acerta ao trazer o horror para dentro de casa, virando a vida dos personagens completamente de cabeça para baixo.


Se a proposta de Cronin era reinventar o terror com múmias, aproximando-o do cotidiano de uma família comum, ele até consegue. O problema é como faz isso. “Maldição da Múmia” tem um roteiro preguiçoso, que abandona o desenvolvimento dramático em favor de um festival de excessos visuais: olhos esbugalhados, dentes sendo arrancados, sangue escorrendo, fluidos corporais e uma coleção de sons grotescos, mas nada assustador.

Ainda assim, há méritos técnicos. Os closes nos rostos da criatura e de suas vítimas reforçam a tensão em momentos-chave, potencializando o desconforto de cada ataque. É um recurso eficiente — ainda que usado em excesso. 

Uma cena em especial chama a atenção e fica gravada na mente: a do cortador de unhas. Ponto positivo também para as referências sutis a cenas de filmes como "Branca de Neve e os Sete Anões" e "O Exorcista".


O elenco, pouco conhecido, tem nomes como Jack Reynor, Laia Costa, Shylo Molina e Verónica Falcón, além da detetive egípcia interpretada por Dalia Zaki, que investiga o desaparecimento e os eventos estranhos após o retorno da jovem. Mesmo com esforço do elenco, os personagens acabam limitados por um roteiro que pouco aprofunda suas relações.

E esse talvez seja um dos maiores problemas do filme: a presença da múmia dentro de casa até expõe fragilidades familiares interessantes, mas tudo fica na superfície. Falta densidade emocional para sustentar o impacto das situações vividas.

O grande destaque fica com Natalie Grace, convincente como Katie, a jovem possuída. Sua atuação equilibra fragilidade e ameaça, sendo um dos poucos elementos que realmente sustentam a narrativa.


“Maldição da Múmia” pode não agradar a quem espera um terror mais clássico, cheio de sustos e tensão crescente. Mas pode encontrar seu público entre aqueles que preferem o horror mais gráfico, bizarro e incômodo de Cronin — e que não se importam tanto com a falta de profundidade ou de medo genuíno.

No fim, é um filme que chama atenção pelo choque, mas que deixa a sensação de uma boa ideia mal aproveitada, especialmente por ter James Wan, Jason Blum e John Keville entre seus produtores e os estúdios responsáveis por sucessos como a franquia "Invocação do Mal".


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Lee Cronin
Produção: Blumhouse Productions, Atomic Monsters, New Line Cinema, Warner Bros. Pictures
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h14
Classificação: 18 anos
País: EUA
Gêneros: suspense, terror sobrenatural

24 março 2026

“Peaky Blinders: O Homem Imortal” e o problema de não saber a hora de parar

Cillian Murphy está de volta como Thomas Shelby, personagem que o consagrou na série homônima
(Fotos: BBC Films)
 
 

Jean Piter Miranda

 
O ano é 1940 e a cidade inglesa de Birmingham está sendo atacada pelo exército alemão, durante a Segunda Guerra Mundial. Thomas Shelby (Cillian Murphy) segue recluso, distante de tudo, convivendo com suas dores. 

Após tantas perdas ao longo da vida, ele deixou pra trás seus dias de gângster. Porém, a ligação de nazistas com seu filho Duke (Barry Keoghan) faz com que o maior de todos os Shelby volte à ativa para uma última batalha. 

Esse é “Peaky Blinders: O Homem Imortal” ("Peaky Blinders: The Immortal Man"), filme disponível na Netflix. O longa chega para encerrar “Peaky Blinders”, série de grande sucesso mundial que teve seis temporadas entre 2013 e 2022. 


Ao longo de 30 capítulos, Tommy Shelby se torna um dos maiores gângsteres da Europa. A trama envolve questões familiares, crimes, amizades, lealdade e traições. São muitas brigas, violência, a entrada do clã no mundo dos negócios e também na política. 

Depois de perder amigos, familiares e amores, Tommy não vê mais sentido na vida. Ele então se retira e vai viver sozinho, no interior do país. O antigo gângster agora passa os dias em uma casa assombrada, remoendo o passado diariamente, como uma espécie de penitência. 


Escreve um livro de memórias como um ritual para esquecer tudo o que viveu. Sua única irmã viva, Ada (Sophie Rundle) vai ao seu encontro para pedir ajuda. Ela relata os problemas que enfrenta, em especial com Duke, filho dele.

Como era de se esperar, Ada não consegue convencê-lo a voltar para Birmingham. Porém, a visita inesperada da cigana Kaulo (Rebecca Ferguson) muda tudo. Com seus poderes místicos, ela faz com Tommy mude de ideia. 


É nesse segundo ato, quando a ação se inicia, que o filme começa a se perder. Se na introdução tudo seguia bem, com um desenvolvimento esperado e satisfatório, a partir da saída de Tommy do exílio tudo fica acelerado. Dessa forma, nada parece ter consistência e nem convence. 

A ligação de Duke com os nazistas é rasa, não inspira segurança para nenhum dos lados, ainda mais se tratando de uma missão secreta de alta prioridade. A revolta de Duke com o pai, que a princípio parece ser a base do filme, não se explica. 


O que indicava uma rivalidade e um antagonismo íntimo entre pai e filho, simplesmente não acontece. Tudo se resolve rápido demais, sem nenhum esforço. 

Duke que ora parece ser um gângster duro e destemido, muda rapidamente. Mostra-se fraco e frágil, sem a imponência e a autoridade de um verdadeiro Shelby. 

Isso destoa muito do que é apresentado no início: um líder anarquista pronto para ajudar os nazistas, e que, de repente, passa a integrar uma missão de vingança que também visa salvar a nação. 


Tommy Shelby parte para o que parece ser sua última batalha, que também dará o desfecho ao filme e à série. São momentos que até emocionam, mas não sem forçar muito a barra. 

O roteiro é pouco consistente e apresenta situações nada críveis, difíceis de engolir. É como se tivessem escrito uma temporada inteira e depois fossem cortando partes e fazendo adaptações para tudo caber em um longa - e claro, não ficou bom. 


A série transformou Tommy Shelby em um ícone pop: um personagem temido, respeitado, admirado e amado. Uma aura que saiu das telas e conquistou uma legião de fãs pelo mundo. 

Mas, assim como outras produções, “Peaky Blinders” também não soube a hora de parar. Se estendeu demais - para dar lucro, é evidente - e acabou comprometendo sua essência. É claro que os fãs mais apegados podem fazer vista grossa a tudo isso, em nome da nostalgia e de uma  despedida satisfatória.


Ficha técnica:
Direção: Tom Harper
Roteiro: Steven Knight
Produção:Tiger Aspect Productions, BBC Films, BBC Studios
Exibição: Netflix
Duração: 1h52
Classificação: 18 anos
País: Reino Unido
Gêneros: policial, ação, suspense

13 março 2026

Do céu ao inferno: a viagem emocional de "Sirât"

Longa espanhol reflete a jornada física e emocional que os personagens atravessam pelo deserto
(Fotos: Divulgação)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
Em ritmo de Oscar 2026, ainda dá tempo para assistir no cinema e agora em plataformas de streaming o longa "Sirât", dirigido por Óliver Laxe. Com roteiro do próprio diretor e de Santiago Fillol, é um dos indicados nas categorias de Melhor Filme Internacional (concorrendo com "O Agente Secreto") e Melhor Som. 

Sirât significa “caminho” em árabe, e reflete a jornada física e emocional que os personagens atravessam. Distribuído pela Retrato Filmes, o filme é coproduzido por Pedro e Agustín Almodóvar, referência do cinema espanhol realista.


A história acompanha Luis (Sergi López), um pai desesperado à procura da filha desaparecida, e seu filho Esteban (Bruno Núñez Arjona), que divide a jornada e o peso emocional da busca. 

Pelo caminho, eles encontram jovens envolvidos em raves e festas — Bigui (Richard Bellamy), Stef (Stefania Gadda), Josh (Joshua Liam Henderson), Tonin (Tonin Janvier) e Jade (Jade Oukid) —, criando um clima de comunidade efêmera e tensão que atravessa todo o deserto.

O local se torna cenário de um “inferno” particular, marcado pelo calor, isolamento e aridez, mas também de pequenas descobertas e momentos de transcendência. São espaços quase mágicos onde o corpo e a mente se entregam à música e aos trances das raves, transformando a vulnerabilidade em força.


O trabalho de som é um destaque absoluto. Laia Casanovas, Amanda Villavieja e Yasmina Praderas, primeira equipe totalmente feminina indicada ao Oscar na categoria, criam uma experiência imersiva. 

Sons, batidas e silêncios subjetivos colocam o espectador dentro do corpo e da mente dos personagens, amplificando cada passo no deserto, cada tensão e cada emoção. 

O transe funciona como um catalisador de autoconhecimento e libertação, mostrando a dor e a força humana como experiências quase ritualísticas.


O filme, porém, não é feito para agradar pela simpatia ou carisma dos personagens. Luis e Esteban são apresentados com honestidade crua e o mistério sobre o desaparecimento da filha permanece, deixando perguntas sem respostas. 

É uma produção que provoca, causa estranheza e exige do espectador sensibilidade para sentir o que os personagens sentem.

No fim, "Sirât" é uma experiência intensa de céu e inferno, um filme que mistura transcendência, medo e beleza árida do deserto. Ele não se esquece facilmente, mantendo na mente o eco de suas imagens, sons e emoções muito tempo depois do fim da sessão.


Ficha técnica:
Direção: Oliver Laxe
Produção: El Desom 4A4 Productions
Distribuição: Retrato Filmes
Exibição: Cinemark Pátio Savassi, Centro Cultural Unimed-BH Minas, Una Cine Belas Artes. Disponível para compra ou aluguel nas plataformas Prime Vídeo, Apple TV e MUBI
Duração: 1h55
Classificação: 16 anos
País: Espanha
Gêneros: suspense, aventura, drama

12 fevereiro 2026

“Quarto do Pânico”: suspense brasileiro aposta na tensão emocional para prender o espectador

Isis Valverde e Marianna Santos vivem mãe e filha neste thriller de suspense adaptado de um sucesso homônimo dos anos 2000 (Fotos: Floresta Produções)
 
 

Maristela Bretas

 
Mari (Isis Valverde) é uma mulher marcada por uma tragédia da violência urbana dos nossos dias. Ela e sua filha adolescente Bel (Marianna Santos), mudam-se para uma mansão luxuosa, equipada com um sistema de segurança de alta tecnologia e localizada em um condomínio fechado. 

O principal ambiente da casa é um espaço secreto, revestido de aço maciço e impenetrável, que só pode ser aberto por dentro, onde os moradores podem se esconder em caso de perigo. 

Quando supostos ladrões invadem a residência, mãe e filha se refugiam nesse cômodo, até descobrirem que é justamente ali que está escondido o que o trio de invasores - Charly (Marco Pigossi), Benito (André Ramiro) e Raul (Caco Ciocler) - deseja roubar.


Esta é a história de "Quarto do Pânico", filme dirigido por Gabriela Amaral Almeida, que chega nesta sexta-feira 13, no catálogo do Globoplay. O longa faz sua superestreia no sábado, dia 14, às 22 horas, no @Telecine Premium. No domingo (15) haverá reexibição, no Telecine Pipoca, às 20 horas.

Com roteiro de Fábio Mendes, a produção é uma adaptação brasileira do sucesso de 2002 dirigido por David Fincher e estrelado por Jodie Foster e Kristen Stewart. 

A versão original pode ser conferida nas plataformas de streaming Amazon Prime e HBO Max, por assinatura, ou na Apple TV, Youtube e Google Play Filmes por aluguel. Confira o trailer clicando aqui.


Neste remake, a trama é transportada para um contexto nacional, com fortes tensões, leituras sociais, uma estética que privilegia o suspense psicológico e um grande elenco, com que entrega excelentes atuações. 

Especialmente a jovem Marianna Santos, que assume a responsabilidade de interpretar o papel vivido na versão original por Kristen Stewart e começou muito bem.


A narrativa é claustrofóbica e tensa, prometendo deixar o espectador em suspense na maior parte da trama. Embora utilize a mesma base da história, o roteiro brasileiro reforça as questões pessoais, como a relação entre Mari e a adolescente Bel, que é diabética. 

A química entre Isis Valverde e Marianna Santos funciona bem, permitindo maior intensidade emocional nas cenas - resultado de um trabalho intenso fora do set de filmagens realizado pela experiente atriz com a jovem, como Isis contou em coletiva à imprensa.


Na mesma coletiva online, a diretora Gabriela Amaral Almeida explicou a questão da violência no filme. "O que nos interessava era entender a natureza da violência no nosso contexto, a violência urbana, de classe, de gênero. A casa invadida é também um corpo feminino violado”. 

O roteirista Fábio Mendes reforça a necessidade de criar um thriller mais próximo da realidade brasileira, cuja “violência urbana crescente tem isolado cada vez mais as pessoas”.

Cabe aos invasores, com seus perfis e motivações totalmente diferentes, imprimir a dinâmica necessária ao filme, criando o clima psicológico de ameaça constante que vai levar ao confronto entre vítimas e algozes. 


Destaque para as atuações de Marco Pigossi e André Benito, que ressaltou a importância de seu personagem como o coração do trio, aquele que estava cometendo um crime por um motivo familiar. 

O elenco conta ainda com Leopoldo Pacheco, Dudu de Oliveira, Wesley Andrade, Felipe Martins, Clarissa Kiste, Carlos Morelli.

Em alguns momentos, no entanto, a narrativa fica um pouco superficial quando comparada à versão dirigida por David Fincher. Há também certos furos, como a entrada de três suspeitos, sem autorização do morador, em um local que deveria apresentar controle de segurança redobrado.


As cenas de confronto físico não convencem totalmente, apesar do bom desempenho dos atores principais e de alguns exageros pontuais. Já a conclusão apressada acaba prejudicando a estratégia de força e tensão que construída ao longo do filme. 

Mesmo assim, a versão brasileira de "Quarto do Pânico" é uma produção bem elaborada, que aposta nas relações pessoais de seus personagens e na força emocional que elas conferem à trama. Soma-se a isso a qualidade dos efeitos visuais de qualidade e uma trilha sonora bem escolhida. Vale à pena conferir.


Ficha técnica:
Direção: Gabriela Amaral Almeida
Roteiro adaptado: Fábio Mendes
Produção: Floresta Produções
Distribuição: Sony Pictures Television
Exibição: Telecine
Duração: 1h38
Classificação: 16 anos
País: Brasil
Gênero: suspense
Nota: 4 (0 a 5)



03 fevereiro 2026

Sobreviver a um mundo em ruínas: "Destruição Final 2" é ação, suspense e exageros

Do bunker à esperança de um novo mundo, sequência encerra a jornada da família Garrity iniciada
em 2020 (Fotos: Diamond Films Brasil)
 
 

Maristela Bretas


"Destruição Final 2" ("Greenland 2: Migration") encerra a saga da família Garrity apostando em uma escala maior de ação e em um mundo ainda mais hostil do que o apresentado no filme de 2020, "Destruição Final: O Último Refúgio". 

Sob a direção de Ric Roman Waugh, a continuação se passa cinco anos após o impacto do cometa Clarke, quando a Terra segue profundamente marcada por tempestades radioativas, instabilidade geológica e pela degradação quase total da sociedade humana.

Desta vez, John Garrity (Gerard Butler), sua esposa Allison (Morena Baccarin) e o filho Nathan (Roger Dale Floyd) são forçados a abandonar a relativa segurança de um bunker na Groenlândia para enfrentar uma jornada extremamente perigosa rumo ao sul da França. 


A região surge como um possível novo ponto de esperança, um raro local onde a vida pode voltar a florescer em meio ao planeta destruído. No entanto, o caminho até lá se revela brutal: paisagens em ruínas, um deserto congelado implacável e grupos humanos dispostos a tudo para sobreviver.

Assim como no primeiro filme, o maior acerto está no foco na família. O roteiro mantém John como um protagonista movido quase exclusivamente pelo instinto de proteção, disposto a ajudar não apenas os seus, mas qualquer pessoa que cruze seu caminho em situação de perigo. 


Gerard Butler sustenta bem esse herói cansado, enquanto Morena Baccarin entrega uma Allison sensível e resiliente. A química entre os dois funciona, criando um casal crível e emocionalmente envolvente, sem cair no melodrama excessivo, mesmo nos momentos mais duros.

Tecnicamente, o filme é competente. O CGI das cenas de catástrofe e perigo é bem utilizado, reforçando a sensação constante de ameaça. O destaque fica para a sequência da travessia do cânion, que se mostra o momento mais tenso e bem construído do longa. 


Por outro lado, algumas cenas exageram na ação, especialmente a passagem por uma região em conflito armado, com tiros e explosões por todos os lados, o que acaba soando um pouco excessivo e menos verossímil.

No fim das contas, "Destruição Final 2" não pretende reinventar o gênero catástrofe. Não há grandes reviravoltas nem uma história memorável, mas o filme cumpre sua proposta de entretenimento, oferecendo ação, suspense e um desfecho aceitável para a trajetória da família Garrity. 

Para fãs de filmes catástrofe, é um encerramento digno e o ingresso não será desperdiçado.


Ficha técnica:
Direção: Ric Roman Waugh
Produção: Lionsgate
Distribuição: Diamond Films Brasil
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h39
Classificação: 12 anos
País: EUA
Gêneros: ação, catástrofe, suspense, ficção

25 janeiro 2026

“Dinheiro Suspeito”: suspense da Netflix testa a amizade de Matt Damon e Ben Affleck

Além das duas estrelas, longa policial baseado em história real conta com um bom elenco formado
por atores e atrizes premiados (Fotos: Netflix)
 
 

Maristela Bretas

 
Há atores que dificilmente você imagina fazendo o papel de vilão. Eles já nasceram com cara de mocinho, mesmo quando tentam fazer cara de mal. Ben Affleck é um exemplo disso em "O Contador" (2016). 

Outro que não perde a cara de "filho de vó" é Matt Damon. Como seu papel em "Jason Bourne" (2016), que apresenta o ator bem afiado no papel do superagente. 

A dupla também trabalhou junta em outra produção de sucesso - "AIR: A História Por Trás do Logo" (2023), que conta a criação da linha de tênis para basquete Air Jordan, da Nike.


Agora, no suspense policial "Dinheiro Suspeito" ("The Rip"), um dos lançamentos da Netflix de 2026, como saber qual deles é o vilão? Com mais de duas horas de duração, recheado de reviravoltas e com um bom elenco de apoio, os dois queridinhos de Hollywood entregam boas atuações e muita química. Damon e Affleck são velhos amigos e sócios no Artists Equity, estúdio que produziu o filme. 

O longa conta a história de um grupo de policiais da equipe tática da Divisão de Narcóticos de Miami que descobre um esconderijo com milhões de dólares em dinheiro vivo - uma tentação capaz de virar a cabeça do mais correto dos policiais. 

E agora: entregar o dinheiro ou dividir entre a equipe? A operação pode colocar em xeque a confiança e a união do grupo? Em quem confiar?


A produção é baseada em uma história real sobre uma operação conduzida em 2016 por Chris Casiano, à época chefe da Narcóticos da polícia do Condado de Miami-Dade e amigo do diretor Joe Carnahan. 

Durante uma investigação de tráfico de drogas, a equipe de Casiano encontrou escondido na parede de uma casa a quantia de US$ 24 milhões (R$ 128,9 milhões) em dinheiro vivo e preciso aguardar a chegada de reforços para remover a fortuna.

O filme também presta uma homenagem ao filho de Casiano, Jake William, que morreu aos 11 anos vítima de leucemia e foi a inspiração para o personagem de Matt Damon, que perde um filho para o câncer. 


A atuação do elenco é um dos destaques. Merece atenção a participação da premiada Teyana Taylor, vencedora do Globo de Ouro 2026 como Melhor Atriz Coadjuvante por sua atuação em "Uma Batalha Após a Outra" e agora cotada para disputar o Oscar na mesma categoria. 

Também estão no elenco Steven Yeun ("Minari - Em Busca da Felicidade" - 2021), vencedor do Emmy, do Globo de Ouro e do Critics Choise de 2024 como Melhor Ator; Catalina Sandino Moreno ("Bailarina - Do Universo John Wick" - 2025), indicada ao Oscar de Melhor Atriz em 2005; além de Sasha Calle (a Supergirl de "The Flash" - 2023) e Kyle Chandler ("Manchester a Beira-mar" -2017).

O filme tem mais suspense do que ação, poucas locações, poucos efeitos visuais e sem grandes perseguições. O final é muito bom, mas não chega a surpreender. 


Afinal, como revelou Matt Damon em entrevista de divulgação do filme, "a Netflix solicita a repetição de informações cruciais da trama, até 4 vezes, em produções como 'Dinheiro Suspeito', para garantir a compreensão do público, que assiste a conteúdos distraído com celulares e redes sociais".

Mesmo assim, esses pontos não estão interferindo nos números de "Dinheiro Suspeito". Desde a sua estreia, em 16 de janeiro, o longa vem liderando o ranking global da plataforma e já é considerado o maior lançamento da Netflix em 2026. São mais de 41 milhões de visualizações em quase 90 países. 

Eu gostei e recomendo. Confira e me conte aqui o que achou.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Joe Carnahan
Produção: Artists Equity
Exibição: Netflix
Duração: 1h52
Classificação: 16 anos
País: EUA
Gêneros: suspense, drama, policial, ação

23 janeiro 2026

"A Vingança de Charlie" - um suspense de terror sobre traumas, medos e reviravoltas

Katheleen Kenny e seu agressor centralizam todo a ação e são os únicos a aparecerem (Fotos: Sofá DGTL)
 
 

Maristela Bretas

 
Gosta de um bom suspense de terror, daqueles que prende do início ao fim. Então a dica do blog de hoje é "A Vingança de Charlie" ("Sorry, Charlie"). O filme, lançado em 2023, entrou no catálogo da plataforma Filmelier+, streaming da Sofá DGTL que pode ser acessada pelo Prime Vídeo por aluguel.

Dirigido e produzido por Colton Tran, o longa vai contando aos poucos o drama de Charlie, em ótima atuação de Katheleen Kenny. Recém mudada para uma antiga casa que recebeu de herança da avó, a jovem é atraída à noite pelo choro de um bebê no jardim. 

Ao sair da residência, a jovem é atacada e estuprada por um homem de roupa preta e máscara de caveira, que estuprava suas vítimas somente para vê-las grávidas dele. 


Meses depois, um suspeito é preso por ter atacado outras mulheres usando o mesmo método para atrair as vítimas. Mas Charlie nunca se esqueceu da voz de seu agressor e não acredita que "O Cavalheiro" (papel de Travis William Harris e voz de Connor Brannigan), como foi identificado, seja aquele que a atacou.

Ainda morando na casa, ela agora trabalha como voluntária de um serviço de apoio emocional a pessoas que sofreram algum trauma (tipo um CVV). Charlie ainda tem pesadelos com seu estuprador, especialmente por causa da gravidez indesejada avançada, resultado do ataque. 


Para piorar, ela se sente vigiada constantemente, mesmo com os amigos e familiares insistindo que é apenas coisa da cabeça dela. É essa tensão que vai tomando conta do filme. Toda a ação ocorre num espaço - a casa de Charlie.

À medida que as suspeitas de Charlie vão tomando forma e seu agressor ganha corpo, ela percebe que ele está mais perto do que imaginava. A partir daí, o longa dá uma reviravolta com um final surpreendente que deve agradar ao telespectador.

Segundo o diretor, o filme teria sido inspirado em eventos reais, o que o torna ainda mais tenso. Não bastasse a voz sussurrante e ameaçadora ao telefone do verdadeiro "Cavalheiro", a máscara de caveira ajuda a compor o perfil do assediador implacável. 


O pacote fica completo com a trilha sonora de Alexander Taylor, que conta com uma canção macabra de ninar e outras como "Now I Just Don't Care" e a música de encerramento - "I'm Still Here" ("Eu Ainda Estou Aqui").

Claro que os erros padrões dos filmes de terror acontecem, mas no caso de "A Vingança de Charlie" há pelo menos uma explicação para que todas as vítimas do agressor tenham cometido o mesmo erro. 

Segundo o filme, "estudos mostram que o choro de um bebê provoca simpatia e cuidados nas mulheres, gerando uma reação instintiva de cuidado, mesmo em indivíduos que não tiveram experiência com a maternidade". E é exatamente deste instinto que o suspeito se aproveita.


O filme é todo centrado em Charlie, que vai levando a vida tentando superar seus traumas e medos após a agressão. Por sua linha telefônica chegam diariamente ligações de seus pais, de amigos, da psiquiatra que a atende e das pessoas que procuram o serviço de apoio emocional. 

Mas nenhuma delas aparece, apenas suas vozes são ouvidas, reforçando o ambiente isolado e escuro vivido pela protagonista. Toda a ação ocorre na casa de Charlie, com destaque para a piscina no jardim. 

"A Vingança de Charlie" é um dos bons lançamentos dos catálogos de streaming para abrir a temporada de terror de 2026. Não emprega efeitos visuais grandiosos de um blockbuster, a história é interessante e os atores, mesmo pouco conhecidos, dão conta do recado. Vale conferir.


Ficha técnica:
Direção: Colton Tran
Produção: Night Night, coprodução com a Colton Tran Films
Distribuição: Synapse Distribution
Exibição: Filmelier+ disponível na plataforma Prime Video, com aluguel a partir de R$ 6,90.
Duração: 1h15
Classificação: 16 anos

País: EUA
Gêneros: terror, suspense