Produção tem narrativa com ritmo lento e contemplativo, com valorização da atmosfera e da fotografia (Fotos: Pandora Filmes)
Mirtes Helena Scalioni
"Um filme-cabeça é uma produção que exige um envolvimento intelectual profundo do espectador. Em vez de focar apenas em entretenimento ou ação direta, aposta em narrativas complexas, metáforas, simbolismos e em grandes questões filosóficas, existenciais, psicológicas ou científicas.
A narrativa é sempre abstrata e não linear, e usa quebra-cabeças temporais, sonhos, alucinações ou finais abertos que dependem da interpretação de quem assiste.
Tem foco em conceitos profundos e explora temas como a natureza da realidade, a identidade humana, a moralidade, o tempo e a solidão. O ritmo é lento e contemplativo, com valorização da atmosfera, da fotografia, dos silêncios e diálogos densos, dando tempo para o espectador absorver as ideias propostas".
A definição, colhida de uma plataforma de Inteligência Artificial, é talvez a que mais se aproxima de "Cartório das Almas", longa brasileiro que ainda não tem data prevista para entrar nos cinemas mineiros.
Dirigido por Leo Bello ("O Espaço Infinito" - 2003), que também assina o roteiro, o filme leva o espectador a um tempo distópico em que as pessoas são praticamente condenadas a viver eternamente. E as que desejam morrer precisam registrar essa opção devidamente justificada em um determinado cartório apropriado.
A história gira em torno de Laura (Gabriela Correa) que, com 126 anos, começa a trabalhar exatamente no departamento que atende os que querem morrer.
Filmado em preto e branco e tendo os descampados do cerrado brasiliense como cenários, não há como negar que "Cartório das Almas" gera certa curiosidade e instiga.
No entanto, a forma lenta e repetitiva como é contada a história dos que desejam a liberdade da morte, acaba por cansar o espectador. Também não fica claro por que a própria Laura, responsável por ajudar tantos a morrer, não pode optar pelo fim da vida.
Há sim reflexões bonitas que são propostas ao longo do filme - como aliás costumam ser as ponderações sobre a finitude - mas elas não chegam a instigar quem está assistindo.
A fotografia de Pedro Maffei e a direção de arte de Maíra Carvalho aparecem quase que como personagens, criando o clima perfeito para a ideia, mas não conseguem salvar o longa.
Necessária nestes tempos em que setores da ciência falam até na possibilidade de interrupção do envelhecimento, a discussão corre o risco de se tornar rasa quando a proposta se mistura com transmutações, gaiolas, ninhos e pássaros. Haja metáforas.
O elenco, perfeito no que propõe o roteiro em termos de longos silêncios e atuações contidas, conta ainda com Wellington Abreu, Chico Sant'Anna, Roustang Carrilho, Maria Carolina Machado e Gabrielle Lopes. A trilha sonora, por sua vez, é tão discreta que quase nem aparece.
A conclusão, ao final desse filme-cabeça, é de que perdeu-se em elucubrações um tema que poderia ser mais profundamente contemplado.
Ficha técnica: Direção e roteiro: Léo Bello Produção: Machado Filmes e Lumiô Filmes Distribuição: Pandora Filmes Duração: 1h17 Classificação: 10 anos País: Brasil Gêneros: fantasia, ficção
E se a promessa de ser uma mulher melhor for, na verdade, aprender a obedecer melhor? É a partir dessa provocação que "Virtuosas", novo terror de Cíntia Domit Bittar, constrói seu desconforto. O filme está em cartaz no Cine Belas Artes estrelado por Bruna Linzmeyer, Maria Galant, Juliana Lourenção, Sarah Motta e Brisa Marques.
Produzido pela Novelo Filmes e distribuído pela Olhar Filmes e Filmes do Estação, o longa também chega ao circuito comercial depois de conquistar o Goes to Cannes Award 2025, durante o Marché du Film, e o Prêmio Netflix da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
Na trama, Virgínia Heinzel (Bruna Linzmeyer), uma espécie de coach conhecida nas redes sociais, conduz um retiro que promete transformar mulheres em suas “melhores versões”. Germina (Maria Galant), Lorena Canolo (Juliana Lourenção), Bárbara Rossi (Sarah Motta) e Gorete (Brisa Marques) são selecionadas após uma palestra em que Virgínia esconde rosas embaixo das cadeiras.
O que parece uma oportunidade de autoconhecimento, porém, logo revela regras cada vez mais rígidas. Virgínia é justamente uma das personagens mais interessantes porque não vende submissão de maneira explícita. Pelo contrário: fala em força, protagonismo e transformação.
A ideia de que a mulher seria o “pescoço” e o homem, a “cabeça”, parece empoderadora até descobrirmos o que esse poder significa na prática: cozinhar, cuidar da casa, preparar tudo para o marido, aprender a tricotar e cumprir expectativas tradicionalmente associadas ao papel feminino. O velho modelo aparece com uma nova embalagem.
É aí que "Virtuosas" encontra sua melhor discussão: o patriarcado também pode sobreviver quando aprende a falar a linguagem do empoderamento. A ordem deixa de ser simplesmente “obedeça” e passa a ser “melhore”. Se você não consegue cumprir as expectativas, o problema passa a ser você. Em vez de questionar a estrutura, é preciso se adaptar a ela.
A jornalista Germina é quem começa a perceber essa contradição e questionar as regras do retiro. Ao mesmo tempo, a própria Virgínia nem sempre parece disposta a seguir aquilo que exige das participantes.
A tão prometida “melhor versão” começa a parecer menos uma descoberta pessoal e mais um modelo pronto de mulher. A pergunta, então, se torna inevitável: se alguém já decidiu como você deve ser, que liberdade existe nessa transformação?
O terror funciona justamente porque o medo nasce de situações reconhecíveis. Não é necessário recorrer constantemente ao sobrenatural para provocar desconforto. O que assusta está nas relações de poder, na manipulação e na maneira como determinadas ideias podem ser apresentadas como cuidado, orientação ou autoconhecimento.
As próprias participantes ampliam essa discussão. Lorena, esposa de um deputado, recebe privilégios que as demais não têm, mostrando que até dentro de uma estrutura de controle existem diferentes níveis de poder. A regra, portanto, não é aplicada da mesma maneira para todas. Dependendo da posição social ocupada, algumas mulheres podem encontrar brechas que outras não têm.
É uma ideia interessante, mas também revela uma das limitações do filme. "Virtuosas" apresenta questões bastante provocadoras sobre fé, feminilidade, privilégio, manipulação e poder, porém nem sempre consegue aprofundar todas elas. Algumas ideias aparecem com força, mas são abandonadas antes de alcançar todo o potencial dramático.
O mesmo acontece com algumas personagens. Germina possui uma função clara dentro da investigação das contradições do retiro, enquanto Bárbara e Gorete poderiam ter conflitos próprios mais desenvolvidos.
Em determinados momentos, elas acabam funcionando principalmente como representações de diferentes tipos de mulheres dentro daquele sistema. Dar maior espaço às experiências individuais dessas personagens poderia tornar o impacto do retiro ainda mais forte.
A comparação com "Corra!" (2017) faz sentido justamente pela aproximação com o terror social. Assim como no filme de Jordan Peele, o horror nasce menos de um monstro do que de relações sociais reconhecíveis que escondem algo perturbador.
Em "Virtuosas", o perigo está justamente naquilo que parece familiar: alguém oferecendo acolhimento, transformação e uma suposta oportunidade de mudança enquanto, aos poucos, estabelece as regras que devem ser seguidas.
Mesmo com essas limitações, Cíntia Domit Bittar encontra no gênero uma maneira eficiente de discutir algo que ultrapassa o próprio terror. O filme não apresenta o patriarcado apenas como uma figura masculina autoritária, mas como uma estrutura capaz de se adaptar e mudar de discurso para continuar funcionando.
E essa talvez seja a parte mais incômoda do longa. Uma regra não deixa de ser regra porque foi apresentada como conselho. Controle continua sendo controle quando vem acompanhado de cuidado. E cobrança não se transforma automaticamente em liberdade apenas porque recebeu o nome de empoderamento.
O desfecho segue essa mesma lógica. É duro, brutal e não oferece um alívio fácil ao espectador. A escolha combina com uma narrativa que passou boa parte do tempo discutindo controle e violência, evitando transformar uma experiência tão incômoda em uma conclusão excessivamente confortável.
O roteiro poderia aprofundar melhor algumas das questões que levanta e dar mais complexidade a determinadas personagens, mas "Virtuosas" consegue deixar uma provocação que permanece depois dos créditos: talvez o verdadeiro terror não seja alguém dizer quem você deve ser, mas fazer você acreditar que essa escolha sempre foi sua.
Ficha técnica: Direção: Cíntia Domit Bittar Produção: Novelo Filmes, coprodução Olhar Filmes Distribuição: Filmes do Estação Exibição: Cine Belas Artes Duração: 1h26 Classificação: 16 anos País: Brasil Gêneros: Suspense, ficção, terror
Diretor retoma sua paixão pela ficção científica misturando ação, conspiração e fé em nova produção (Fotos: Universal Pictures)
Maristela Bretas
Uma reunião de amigos numa viagem ao passado. Este é "Dia D" ("Disclosure Day"), novo filme de Steven Spielberg em cartaz nos cinemas, o 37º de sua carreira, que traz fortes referências a produções marcantes de sua carreira.
O diretor, que sempre demonstrou fascínio por temas ligados à presença de extraterrestres em nosso planeta, volta a explorar esse universo e conduz a história com a experiência de quem ajudou a definir o gênero.
Longas como "ET - O Extraterrestre" (1982) e "Contatos Imediatos do Terceiro Grau" (1977) são lembrados em várias cenas, reforçando o lado mais emocional de Spielberg, que completa 80 anos no final de 2026.
Diferentemente de "Guerra dos Mundos" (2005), que apostava mais na ação, mas sem deixar de lado as relações familiares. Até mesmo produções de outros diretores, como "Sinais" (2002), de M. Night Shyamalan, vêm à memória em determinados momentos.
E, como disse antes, esse reencontro de velhos amigos começa pela trilha sonora de John Williams, responsável pelas composições de grande parte dos filmes mais importantes de Spielberg, incluindo os três citados acima.
A ideia de "Dia D" partiu do próprio diretor e foi entregue a outro parceiro de longa data, David Koepp — roteirista de "O Mundo Perdido: Jurassic Park" (1997) e "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal" (2008) — para desenvolver a história.
No novo longa, Spielberg aposta na divulgação de documentos ultrassecretos sobre a presença de extraterrestres na Terra e o contato direto das forças militares norte-americanas com eles. Coincidência ou não, um dos períodos de aparições alienígenas destacados na trama é o governo Nixon, tema que dialoga com outro trabalho do diretor, "The Post - A Guerra Secreta" (2017).
Na história, Daniel Kellner (Josh O'Connor) e Hugo Wakefield (Colman Domingo) trabalham na segurança da agência secreta Wardex responsável por guardar esses arquivos e decidem revelar ao mundo os segredos sobre os ETs entre nós.
A partir daí começa uma perseguição implacável, repleta de ação, ótimas cenas de perseguições (especialmente a do trem) e suspense, liderada por Noah Scanlon (Colin Firth), chefe dessa agência que tenta capturar a dupla e recuperar os pendrives com os documentos.
Enquanto isso, em outra parte do país, a meteorologista Margareth Fairchild (Emily Blunt), apresentadora de uma emissora de TV em Kansas City, passa a apresentar um comportamento estranho, falando em uma língua desconhecida.
Sem entender o motivo, se vê misteriosamente conectada aos dois foragidos. Especialmente a Daniel, o único humano capaz de decifrar a linguagem alienígena. Todos os atores entregam ótimas interpretações e bem alinhadas à proposta da trama.
O elenco conta ainda com Eve Hewson, como Jane, namorada de Daniel; Wyatt Russell, como o atual companheiro dela; e Henry Lloyd-Hughes, no papel de Casper, chefe da segurança de Noah, entre outros.
O filme apresenta diversas imagens dos contatos com alienígenas, tanto em situações amistosas quanto em episódios de atrocidades praticadas pelos humanos.
Algumas dessas sequências poderiam facilmente integrar os arquivos secretos recentemente divulgados pelo governo dos Estados Unidos sobre fenômenos extraterrestres e que foram guardados a sete chaves por décadas.
Mas Spielberg vai além da ficção científica. O diretor também coloca a fé em debate, levando até personagens religiosos a questionarem suas próprias crenças. Deus criou o universo apenas para os humanos? Estamos realmente sozinhos?
Ao mesmo tempo, a divulgação das imagens gera dúvidas sobre o que é verdadeiro e o que é falso num mundo em que a inteligência artificial e as fake news dominam as redes sociais e provoca reações diversas.
O longa demonstra preocupação em retratar os alienígenas como seres mais evoluídos — e possivelmente até mais humanos — do que nós mesmos. A revelação dos arquivos acontece justamente num momento delicado, quando o planeta parece caminhar para uma Terceira Guerra Mundial.
Mais uma vez, aflora o lado emocional de Spielberg, embalado pelos arranjos de John Williams e pela belíssima fotografia de Janusz Kaminski, outro colaborador histórico do diretor, responsável por trabalhos como "Os Fabelmans" (2022), "Amor, Sublime Amor" (2021) e "Munique" (2005).
"Dia D" deixa uma grande interrogação no ar: Spielberg queria apenas fazer mais um filme sobre alienígenas ou provocar uma reflexão sobre a possibilidade — cada vez menos tratada apenas como ficção — de que não estamos sós no universo?
No início, o longa pode parecer confuso, apresentando fatos isolados que, com o decorrer da trama, vão sendo interligados, mostrando que a desinformação gera temor. E que as pessoas podem não estar preparadas para aceitar a presença alienígena.
Talvez o verdadeiro Dia D seja justamente o dia da revelação e a presença desses seres na Terra represente mais esperança do que ameaça. Para descobrir, será preciso tirar os olhos das telas por alguns instantes e ouvir a mensagem que eles tentam nos transmitir sobre o futuro que estamos construindo.
Assista ao filme e deixe aqui seu comentário sobre o que achou.
Ficha técnica: Direção: Steven Spielberg Roteiro: David Koepp Produção: Universal Pictures e Amblin Entertainment Distribuição: Universal Pictures Brasil Exibição: nos cinemas Duração: 2h25 Classificação: 12 anos País: EUA Gêneros: Ficção, suspense
Os atores sul-coreanos Yeo Jin-goo e Cho Yi-hyun protagonizam este romance de ficção de 2022 (Fotos: Sato Company)
Silvana Monteiro
A refilmagem de "Ditto - Conexões do Amor" (2022),
dirigida por Seo Eun-young, parte da narrativa de que a conexão entre os seres
humanos atravessa o tempo.
No decorrer da história é possível observar o que há
de mais cotidiano nas relações: o encontro, o desencontro e inúmeras tentativas
de buscar a concretização daquilo que para nós é ainda mais caro e necessário:
olho no olho, frente a frente.
Protagonizada por Yeo Jin-goo e Cho Yi-hyun a obra chegou
aos cinemas brasileiros por meio da Sato Company. O enredo traz a história dos
universitários Kim Yong (Yeo Jin-goo) e Mo-nee (Cho Yi-hyun) que acabam se
encontrando e interagindo apenas por meio das ondas de rádio, um dispositivo
antigo amador encontrado por acaso, por ele.
Ao conectar Kim Yong, em 1999, e Mo-nee, em 2022, o filme
transforma a comunicação em metáfora. Além de tratar de um recurso de ficção
científica, o filme nos traz uma reflexão sobre como, em qualquer época — seja
por meio de rádios transceptores, redes sociais ou encontros presenciais —,
seguimos tentando alcançar o outro, muitas vezes sem saber exatamente o que
esperamos encontrar.
Há, nesse sentido, uma poesia discreta na forma como a
história se desenrola: a vida como um campo de possibilidades, mas também de
entraves.
A condução narrativa aposta no afeto e na nostalgia, especialmente ao
contrastar dois tempos que, embora próximos, revelam mudanças sutis nas formas
de se relacionar.
As conversas entre os protagonistas sustentam o filme, ainda
que, em alguns momentos, o roteiro se alongue mais do que o necessário. Há
também escolhas previsíveis, que aproximam a obra de certos clichês do gênero
romântico.
Ainda assim, "Ditto - Conexões do Amor" mantém um
equilíbrio que o torna acessível. Não busca reinventar o romance nem a ficção
científica, mas oferecer uma experiência sensível sobre conexões humanas.
É bem
simples e morno às vezes: uma história sobre como, apesar das distâncias, sejam
elas temporais ou emocionais, seguimos buscando formas de nos reconhecer no
outro.
No fim, é um filme razoável, que pode agradar tanto a quem
se aproxima pela primeira vez quanto aos que carregam alguma memória afetuosa
da obra original.
Mais do que sobre o tempo, "Ditto - Conexões do
Amor" fala sobre a tentativa constante, e sempre tentante, de conexões
afetivas. Com certeza é uma boa pedida para dorameiras e dorameiros de plantão.
Ficha técnica:
Direção: Seo Eun-young Distribuição: Sato Company Exibição: Cineart Shopping Cidade Duração: 1h54 Classificação: 12 anos País: Coreia do Sul Gêneros: romance, ficção
Longa resgata a história de Daisy Castro, interpretada por Luiza Mariani, que enfrentou vários obstáculos machistas para estudar teatro em 1919 (Fotos: Muiraquitã Filmes)
Eduardo Jr.
“O senhor já foi em alguma peça escrita por uma mulher?” A pergunta lançada no meio do filme e o silêncio constrangido dado como resposta poderiam ser apresentados logo no início do filme “Cyclone”, como dica do que está por vir. O longa está em cartaz no Cine Una Belas Artes.
O longa, dirigido por Flávia Castro, produzido pela Muiraquitã Filmes, pela Mar Filmes e distribuído pela Bretz Filmes, resgata a história real da dramaturga Maria de Lourdes Castro Pontes, que enfrentou o obstáculo de ser mulher na busca por uma viagem a Paris para estudar teatro.
O início, sem cor, parece identificar o mundo masculino. A dramaturga Daisy Castro, que se intitula Cyclone (Luiza Mariani), tenta apresentar seu trabalho para alguns senhores. Mas essa é uma daquelas conversas onde o que a mulher tem a dizer não interessa aos homens.
O local onde ela tem (tem?) reconhecimento é na encenação de uma trupe teatral, dirigida por Heitor Gamba (Eduardo Moscovis), com quem ela dorme. Além de ter o corpo de Cyclone, ele detém o poder de incluir ou não o nome dela nos créditos da peça, que só existe graças ao trabalho dela.
A direção ganha um ponto extra por conta de fina provocação: a peça a ser encenada no filme é “Os Bruzundangas”, de Lima Barreto. Texto que satiriza questões como preconceito e hipocrisia em um país fictício.
Na coxia, a câmera espreita tudo, como um dos participantes alcoolizados naquele ambiente, ora com foco, ora desfocada ao capturar detalhes. Sem planos abertos, parece querer simbolizar um mundo fechado.
Para entender algumas falas, o espectador precisa estar bem atento. O som, que começa inicia em volume mais elevado, perde potência ao acompanhar o cotidiano, os deslocamentos, o trabalho de Daisy como tipógrafa.
Ali, ela e a prima Lia (Luciana Paes) conversam sobre o universo feminino, a relação com o mundo dos homens. E isso alimenta a escrita de Cyclone. Enquanto ela cria, a música guia o emocional do público, tentando dar esperança à luta daquela mulher.
Até então meio morno, o longa começa a respirar mais forte quando a jovem recebe a confirmação de que conquistou uma bolsa para estudar teatro em Paris, onde poderá deixar de ser Daisy durante o dia e ser somente Cyclone em tempo integral.
Mas ela é mulher. E isso, na São Paulo de 1919, significa precisar ter seu nome gravado no programa de uma peça como dramaturga, ter uma autorização para viajar assinada pelo pai (já falecido) ou marido (com quem ela não se relaciona mais) e ainda enfrentar outros absurdos.
Luiza Mariani constrói uma Cyclone profunda, que até se fragiliza, mas engole seco e luta. O que ela tem é sua força e a ajuda de duas mulheres: a amiga Marie (Karine Teles) e de uma apoiadora de última hora, Ada (vivida por Magali Biff).
Vale destacar a sororidade fora da tela também. A obra se sustenta na colaboração entre mulheres: roteiro de Rita Piffer, produção executiva de Diana Almeida, direção de fotografia de Heloísa Passos, direção de arte de Ana Paula Cardoso, figurino de Gabriella Marra e edição de Joana Collier.
O longa, livremente inspirado nas obras “Neve na Manhã de São Paulo”, de José Roberto Walter, e em “O Perfeito Cozinheiro das Almas Deste Mundo”, de Oswald de Andrade. Tem, ainda, pesquisa de Suzane Jardim.
Para derrubar tantos entraves, a raiva é energia para ela — e promete energizar o público também. Energia que faltou a Maria de Lourdes, apelidada “Miss Cyclone”, que morreu por complicações decorrentes de um aborto e retirada do útero — procedimento fruto da insistência do amante, Oswald de Andrade. Vale a pena conferir o filme.
Ficha Técnica:
Direção: Flávia Castro Roteiro: Rita Piffer Produção: Mar Filmes e Muiraquitã Filmes, coprodução Video Filmes e Claro Distribuição: Bretz Filmes Exibição: Cine Una Belas Artes Duração: 1h40 Classificação: 16 anos País: Brasil Gênero: drama
Longa dá um novo significado à criatura, longe da brutalidade que outras versões insistiram em perpetuar (Fotos: Netflix)
Silvana Monteiro
A mais recente adaptação de "Frankenstein", lançada pela Netflix, desloca o olhar tradicional para algo mais íntimo do que a mera oposição entre criador e criatura. Em vez de repetir o clichê do “monstro que aterroriza”, o filme investe naquilo que sempre foi seu núcleo mais humano: a busca pelo sentido da existência.
O grande mérito da obra está na forma como ressignifica a criatura. Longe da brutalidade que tantas versões insistiram em perpetuar, o ser renascido em laboratório pode estar vivo e pode estar morto, mas qual é o sentido de viver ou morrer, de fato?
Sem se apoiar em explicações excessivas, o diretor Guillermo del Toro constrói um ritmo que abraça a contemplação. O que poderia ser apenas uma história sobre criação científica torna-se um ensaio visual sobre pertencimento.
As escolhas de fotografia, sempre entre a penumbra e a luz filtrada, ajudam a materializar o sentimento de estar “entre mundos”: vivo, mas não nascido; consciente, mas sem raízes.
Em busca de respostas
Quando o médico Victor Frankenstein (Oscar Isaac) decide extrapolar seus conhecimentos e buscar uma sabedoria além da vida e da morte, ele não imaginava que as coisas poderiam sair do controle. Pelo contrário, embora testando, ele achava que dominava as práticas.
Uma das maiores surpresas é a relação que se estabelece — ainda que fragmentada — entre a criatura (interpretada por Jacob Elordi), Victor Frankenstein e os demais personagens da história. Com dois deles em especial, há ainda desdobramentos muito mais incríveis que vão mexer com os sentimentos do telespectador.
Em relação a Victor e o monstro, a obra tenta mostrar que, a sua maneira, cada um representa dois seres igualmente perdidos, ambos tentando lidar com a própria incapacidade de preencher o vazio que carregam.
O filme sugere, com extrema sutileza, que há ainda um gesto final, uma forma de romper a cadeia que prende as almas e os corações, dos vivos e dos mortos.
Nuances dos personagens
O interessante é que o roteiro se equilibra para não empurrar o espectador nem para a pena, nem para o medo. Em vez disso, é convidado a enxergar nuances: a criatura que observa o mundo com cuidado; o criador que tenta decifrar os danos que causou; a vida que escapa a qualquer forma de controle.
A força da crítica social — presente em toda história de "Frankenstein" — aparece não como discurso, mas como camada: o que fazemos com quem não se encaixa? O que acontece com aqueles que não foram desejados, mas existem?
É nesse ponto que a obra conquista sua singularidade. O filme transforma a narrativa em uma reflexão sobre autonomia e humanidade. Sem recorrer a grandes revelações ou reviravoltas explícitas, a adaptação da Netflix entrega um filme que respira poesia nos intervalos das monstruosidades, seja dos humanos, seja das invenções criadas por mãos insanas.
Curiosidade
Acompanhando o lançamento do filme, o clássico absoluto da literatura gótica e do horror escrito pela jovem Mary Shelley em 1816 ganha nova edição ilustrada. O livro chega pelo selo Planeta Minotauro, com ilustrações de Amanda Miranda e apresentação de Cláudia Fusco. Reconstituído, como a própria criatura, esta edição especial quer atrair uma nova geração de leitores.
Ficha técnica: Direção e roteiro: Guillermo del Toro Produção: Columbia Pictures e Netflix Distribuição: O2 Filmes e Netflix Exibição: Netflix Duração: 2h30 Classificação: 18 anos País: EUA Gêneros: drama, ficção, terror
Glen Powell é Ben Richards, um desempregado que participa de um programa de TV ao vivo de vida e morte para conseguir dinheiro e salvar sua família (Fotos: Paramount Pictures)
Maristela Bretas
Em 1987, quando surgiu pela primeira vez o personagem Ben Richards, vivido por Arnold Schwarzenegger, a expectativa era maior que o resultado: a bilheteria baixa não fez jus ao filme. Mesmo com efeitos visuais artesanais, porém adequados à época, e a interpretação limitada do protagonista, o longa não rendeu o esperado.
Anos depois, o jogo virou. O filme tornou-se cult por sua ficção distópica e pela crítica à sociedade e ao controle da mídia. Atualmente, voltou a ser procurado na Netflix – especialmente com o lançamento, nesta quinta-feira (20), da nova versão.
Passadas quase quatro décadas, "O Sobrevivente" ("The Running Man") retorna às telas em um reboot que modifica parte da história original e traz como protagonista o atual queridinho de Hollywood, o carismático Glen Powell.
Baseado no romance "O Concorrente", de Stephen King (sob o pseudônimo Richard Bachman), o novo filme mantém a crítica social: um mundo dividido entre ricos vivendo em palácios verticais e marginalizados isolados para além dos muros das grandes cidades. A TV manipula tudo o que é exibido, criando heróis e vilões para uma população faminta por violência.
Assim como no longa de 1987, a audiência é o objetivo máximo — mesmo que, para isso, o público seja bombardeado com cenas de lutas, ataques e mortes, reais ou simuladas, transmitidas como um grande reality show para uma plateia sedenta por sangue e vingança.
A nova história se passa em 2025, em um cenário caótico de um Estados Unidos falido, com o governo manipulando a mídia e os pobres lutando diariamente para sobreviver.
Para salvar a esposa e a filha doente, Ben Richards (Glen Powell) se inscreve no violento game show "The Running Man". Durante 30 dias, os participantes precisam escapar de uma equipe de assassinos profissionais. O vencedor recebe um prêmio milionário em dinheiro.
"O Sobrevivente" apresenta as questões sociais e políticas de forma até mais clara que o original, em meio a muita ação, violência brutal e efeitos visuais competentes.
Glen Powell se destaca como o trabalhador desempregado, revoltado com os abusos das corporações e o descaso com quem não pertence à elite. Para os fãs, as cenas do galã apenas de toalha são um colírio e estão entre as divertidas do filme.
De temperamento explosivo, Ben não consegue manter empregos e acaba chamando a atenção de Dan Killian, o produtor do programa, interpretado por Josh Brolin. O ator entrega um vilão frio, preocupado apenas em “ver o circo pegar fogo” e aumentar os lucros do show número um da emissora.
O elenco traz ainda nomes conhecidos como William H. Macy, em participação especial como um rebelde; Colman Domingo, vivendo o sádico showman Bobby T.; Michael Cera, como o revolucionário Elton Parrakis; e Lee Pace, interpretando o caçador assassino Ewan MacCone, entre outros.
À medida que a trama avança, o diretor Edgar Wright intensifica a raiva e o desprezo de Ben Richards por uma sociedade hipócrita e imoral. O personagem quer justiça para sua família e para aqueles que foram esquecidos — nem que, para isso, precise “tocar o terror e ligar o f#d#-se” para o programa e seus responsáveis.
Além das sequências de ação e perseguição, "O Sobrevivente" conta com uma excelente trilha sonora composta por Steven Price, incluindo uma clássica canção de ninar em nova versão, logo nos primeiros minutos.
Resta saber se, ao contrário do original, o filme conseguirá atingir bons números de bilheteria para compensar os US$ 110 milhões investidos na produção. Ou se será reconhecido apenas após alguns anos, assim como a boa atuação de Glen Powell.
Ficha técnica:
Direção e roteiro: Edgar Wright Produção: Paramount Pictures, Complete Fiction Films, Genre Films Distribuição: Paramount Pictures Exibição: nos cinemas Duração: 2h14 Classificação: 18 anos País: EUA Gêneros: ficção, suspense, ação
A história se insere no escaninho das produções que flagram o ritual de passagem da adolescência para a juventude (Fotos: Leonardo Feliciano)
Patrícia Cassese
Muitos são os fatores que corroboram para que, ao fim de uma sessão de cinema, o espectador saia da sala escura convicto de que sim, assistiu a um filme "fora da curva". Uma experiência, em suma, daquelas para ficar tatuada na memória.
Esse é indiscutivelmente o caso de "O Último Episódio", destaque entre as estreias dessa semana de mudanças na programação dos cinemas. Com a chancela da mineira Filmes de Plástico, o filme, vale dizer, marca a estreia de Maurilio Martins na direção solo de um longa-metragem.
A história se insere no escaninho das produções que flagram o ritual de passagem da adolescência para a juventude - neste caso, por meio do personagem Erik (Matheus Sampaio). Aos 13 anos, ele embarca em uma aventura insólita junto aos vizinhos de bairro, Cassinho (Daniel Victor) e Cristiane/Cristão (Tatiane Costa, simplesmente encantadora).
Apaixonado por Sheila (Lara Silva), e cônscio do interesse da garota pelo universo da “Caverna do Dragão”, a icônica série de animação fenômeno dos anos 1980, Erik diz a ela ter, em casa, a fita cassete contendo o último episódio.
Falamos fita de vídeo? Sim, "O Último Episódio" se passa em 1991, quando, claro, nem se sonhava que um dia o mundo teria um acesso tão mais fácil a conteúdos audiovisuais como filmes e séries, por meio da internet e dos serviços de streaming. Uma época em que a TV e as locadoras de vídeo eram a via para se acessar conteúdos afins.
Com o interesse de Sheila atiçado pela possibilidade de assistir à fita contendo o tal desenlace, Erik resolve, junto aos citados dois amigos de fé, produzir, ele mesmo, o capítulo. Aos trancos e barrancos, diga-se, mas com muita (muita) criatividade. Ocorre que, claro, as coisas não são tão simples.
Paralelamente à empreitada, o filme espraia seu olhar por outros temas relevantes, como a ausência paterna (e o motivo dessa), os desafios de uma mãe solo, a vida na periferia das cidades e a solidariedade que emana entre seus habitantes. Aqui, um grupo de moradores do bairro Laguna, em Contagem, onde, não por coincidência, Maurilio Martins nasceu e se criou.
Aqui, uma pequena pausa se faz necessária: o cineasta admite que sim, há traços biográficos em "O Último Episódio", ainda que as experiências do personagem Erik tenham sido imaginadas. "Eu não necessariamente morei na casa onde o personagem mora, mas ela fica em frente à minha casa.
A inserção das fotos no filme também é significativa. São imagens nas quais eu apareço, minha família aparece, meus amigos".
Do mesmo modo, os personagens estudam na instituição educativa na qual Maurílio Martins estudou, a Escola Estadual Jardim Laguna, depois rebatizada como Escola Estadual Jardim Silva Couto. "Eles vivem no mesmo bairro, na mesma época. Eu sou muito da memória, sou muito nostálgico, então tem muito de mim ali”, contextualizou Maurilio.
Voltando ao universo de personagens que orbita em torno de Erik, é provável que muitos deles exalem características que vão remeter o espectador - em particular, o mineiro, pelas características de quem vive por aqui - a pessoas reais, do âmbito de suas relações mesmo.
Quem viveu aquela época certamente frequentou uma escola cuja responsável tinha traços que similares aos da diretora Simone (Babi Amaral, divertidíssima), que, em "O Último Episódio", vemos envolvida até a medula nos preparativos para a Feira de Cultura, um evento de destaque no ano letivo da instituição, e que mobiliza alunos e professores
Neste ponto, vale retornar ao início desse texto. Ao pontuar sobre a somatória de fatores que efetivamente transformam o ato de assistir a um filme em uma experiência inesquecível, no melhor dos sentidos, obviamente deve-se colocar, nesta conta, o calibre de quesitos como roteiro (Maurilio Martins e Thiago Macêdo Correia), direção, elenco, trilha sonora, fotografia (Leonardo Feliciano), montagem...
E é nessa somatória que "O Último Episódio" se insere na representativa lavra de bons filmes que estão chegando aos cinemas neste 2025 - caso de "Manas", "A Melhor Mãe do Mundo" etc.
O filme de Maurílio Martins é simplesmente uma pepita. Daquelas com potencial para suscitar uma miríade de sensações no espectador, de fazê-lo se emocionar em certos trechos, rir em outros e, ainda, compartilhar o aperto no peito dos personagens em diversos momentos.
Um daqueles filmes que, a despeito do reino mágico que Erik tenta reproduzir, finca seu pilar na realidade. Aquela, vivenciada pela maioria esmagadora dos brasileiros, com muitos malabarismos para pagar as contas, mas que ainda acorda no dia seguinte com fé.
A localização temporal também possibilita que o espectador - em particular, o "mais maduro" - viaje no tempo, diante de ecos de uma época a se reviver com nostalgia, seja por meio de objetos de cena, figurino, reprodução de comportamentos ou, ainda, por conta da trilha sonora.
Essa, aliás, leva a assinatura acima de qualquer suspeita de John Ulhoa e Richard Neves, do Pato Fu. Com toda certeza, quem assistir ao filme vai ficar com a versão de "Qualquer Jeito" ("Não está sendo Fácil"), agora na voz de Fernanda Takai, grudada na cabeça.
A música, lembre-se, estourou em 1987 com Kátia, afilhada artística de Roberto Carlos, com quem fez dueto em especial de TV. Outro hit da época que marca presença em "O Último Episódio" é “Doce de Mel”, sucesso do repertório de - sim, você sabe - Xuxa.
O elenco é uma aba à parte. Além do talento inequívoco do trio de adolescentes, já citado, a projeção vai fazer o público se extasiar com o talento de Rejane Araújo ou Camila Morena da Luz, tal qual com as participações especiais, como as de Eid Ribeiro, Robert Frank, André Novais Oliveira e Gabriel Martins.
Um luxo extra é a presença do incrível artista Froiid, que coloca sua assinatura nos créditos iniciais. Por último, mas não menos importante: a distribuição de “O Último Episódio” é da Malute e da Embaúba Filmes. Quer um conselho? Só vai!
Ficha técnica:
Direção: Maurílio Martins Roteiro: Maurilio Martins e Thiago Macêdo Correia Produção: Filmes de Plástico com coprodução do Canal Brasil e Cine Film Distribuição: Malute Filmes e Embaúba Filmes Exibição: Cineart Cidade, Centro Cultural Unimed-BH Minas e Una Cine Belas Artes Duração: 2h03 Classificação: 12 anos País: Brasil Gêneros: aventura, ficção