22 outubro 2026

"Mestre Zu", tributo que vira aula de jornalismo, humanidade e Brasil

Documentário é uma homenagem a Zuenir Ventura, grande jornalista e imortal da Academia Brasileira
de Letras (Fotos: Divulgação)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
Mesmo as pessoas que não leram os livros de Zuenir Ventura vão apreciar com gosto o documentário "Mestre Zu", direção de Zelito Viana e Luciana Savaget, em cartaz nos cinemas a partir de 5 de novembro. 

Autor de "Mal Secreto: Inveja", "Chico Mendes: Crime e Castigo", "Cidade Partida" e do best-seller "1968 - O Ano Que Não Terminou", o jornalista, que trabalhou em todos os grandes veículos de comunicação do Brasil, é mais do que um repórter de boa escrita. 

Membro da Academia Brasileira de Letras desde 2015, Zuenir é o grande pensador do Brasil, talvez o maior escritor das questões urbanas, sociais e políticas do País.


Como fica claro no filme, o mineiro Zuenir Carlos Ventura, nascido em Além Paraíba em 1931, é das raras pessoas que alcançam a unanimidade. De jornalistas a publicitários, de cineastas a alunos, de acadêmicos a artistas, todos concordam com a capacidade do mestre de ser rigoroso, exigente e, ao mesmo tempo, leve, generoso e engraçado. E, segundo muitos, irônico e sarcástico.

O documentário, que, além dos colegas, conta com a participação dos filhos Mauro e Elisa Ventura, começa com um encontro descontraído de amigos que, em volta da mesa, se perguntam: sobre qual Zuenir vamos falar neste filme? Qual deles será focalizado? 


E, pelo andamento da produção, fica evidente que, senão todos, muitos e variados "zuenirs" foram lembrados e reverenciados. Fica claro também, pela emoção de alguns dos entrevistados, que é praticamente impossível falar dele sem prestar-lhe uma homenagem. 

Miriam Leitão, Nelson Motta, Arthur Dapieve, Gerson Camarotti, Ana Maria Machado, Xexéu, Ancelmo Goes, Joaquim Ferreira dos Santos, Regina Zappa, Lula Vieira e Heloisa Teixeira são alguns dos profissionais que contam saborosas e reveladoras histórias vividas com Zuenir. 

O jornalista carregava com certo humor o estranho nome que lhe foi dado pelos pais, que lhe rendeu confusões hilárias ao longo da sua vida. Frequentemente era confundido com um nome de mulher.


Quando saiu de Minas para Nova Friburgo (RJ) onde passou parte da adolescência, ele trabalhou como ajudante do pai, pintor de paredes, faxineiro de boteco, boy de banco e caixeiro de camisaria. Mais tarde, já no Rio, virou estudante de Línguas Neolatinas enquanto morava na casa de uma tia em Vila Isabel, onde dividia um quarto de duas camas com dois primos. 

Zuenir conta também que sua vida foi marcada sempre por grandes coincidências, desde o encontro com Mary Akierstein na cantina da escola, com quem se casou e viveu a vida toda, até a forma como passou de arquivista a repórter do jornal Tribuna da Imprensa, comandado por Carlos Lacerda, antes de ser enviado especial a Paris para acompanhar João Goulart em seu exílio após o golpe de 1964.


Mas não só de coincidências e histórias saborosas foi a vida de Zuenir. Preso durante a ditadura militar, ele amargou cadeia por três meses, deixando em pânico a família e os amigos. Mas, para não perder o otimismo, dizia que, em vez de castigado, saiu premiado da prisão, pois teve como companheiro de cela ninguém menos do que o psicanalista Hélio Pellegrino.

Como não trata apenas do profissional, mas também do amigo, colega e professor de muitos, "Mestre Zu" é um documentário emocionante e inteligente. A forma como escreveu suas premiadas reportagens que se tornaram livros, e a ideia de trazer do Acre para sua casa no Rio de Janeiro um menino de 9 anos ameaçado de morte, dão a medida do homem Zuenir. Até os 13 anos, Genésio viveu sob a tutela do jornalista.


Engrandecem e humanizam também o filme a confissão do biografado de que, por duas vezes, sofreu um dilema ético ao noticiar a morte de dois amigos - Pedro Nava e Leon Hirshman. 

Outras pérolas que valem o documentário são o relato dos quatro dias que passou num sítio com Fernando Veríssimo para a produção do livro "Conversa Sobre o Tempo", de Arthur Dapieve, e sobre a carta histórica que recebeu - e publicou - do cineasta Glauber Rocha elogiando a ditadura de Geisel e Golbery do Couto e Silva. 

Enfim, "Mestre Zu" é, sob todos os aspectos, imperdível e necessário para se compreender o Brasil.


Ficha técnica:
Direção: Zelito Viana
Codireção: Luciana Savaget
Produção: Mapa Filmes do Brasil com coprodução da GloboNews, Riofilme e Niterói Audiovisual
Distribuição: Bretz Filmes e Mapa Filmes do Brasil
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h10
Classificação: livre
País: Brasil
Gênero: documentário

21 outubro 2026

“Cara-de-Barro” transforma vilão da DC em um pesadelo de horror corporal

Saído dos quadrinhos, este é o primeiro terror do estúdio no cinema e apresenta o monstro de lama com superpoderes reais de metamorfose (Fotos: DC Studios)
 
 

Maristela Bretas

 
Com cenas violentas e brutais que chocam o público, “Cara-de-Barro” (“Clayface”), em cartaz nos cinemas brasileiros a partir desta quarta-feira, é o primeiro filme de terror da DC Studios, baseado em um dos grandes inimigos de Batman nos quadrinhos.

O maior destaque da produção são os excelentes e assustadores efeitos visuais, que deixam muitos longas atuais do gênero no chinelo. A maquiagem e a transformação gradativa do personagem em monstro chegam a causar desconforto, em uma atmosfera sombria, semelhante à dos filmes recentes de Batman.


James Gunn, desde que assumiu como co-CEO da DC Studios, vem dando uma nova direção às produções do estúdio, apostando no terror e apresentando histórias diferentes das tradicionais aventuras de super-heróis e seus vilões.

Também merece elogios a ótima atuação de Tom Rhys Harries (“O Retorno” – 2024), no papel do ator Matt Hagen, que se transforma em um monstro metamorfo e cruel, sem piedade de seus inimigos.

A direção de James Watkins (“Não Fale o Mal” – 2024 e o roteiro de Mike Flanagan e Hossein Amini permitem que até o espectador que não acompanha as HQs conheça o personagem e entenda sua trajetória. A narrativa é didática, às vezes até demais, estendendo a trama além do necessário antes de colocar o monstro em cena.


Leia mais:
Na versão para o cinema, Matt Hagen é um jovem de Gotham City que se torna um dos grandes astros de Hollywood, mas tem a carreira interrompida ao ser atacado pela quadrilha de um chefão da máfia local, que o deixa totalmente desfigurado.

Traído por todos ao seu redor e desesperado, ele procura um tratamento experimental à base de uma substância biotecnológica, desenvolvido pela Dra. Caitlyn Corr, muito bem interpretada por Naomi Ackie (“Pisque Duas Vezes” – 2024 e “Mickey 17” – 2025). O procedimento promete restaurar sua aparência original.


Apesar de funcionar bem inicialmente, o tratamento começa a provocar reações inesperadas e bizarras, que afetam não apenas a aparência de Matt, mas também sua percepção da realidade. 

Ele se transforma no Cara-de-Barro, um monstro de argila vingativo e assassino, capaz de alterar a própria forma. Fazem parte também do elenco Max Minghella, Eddie Marsan e David Dencik.

Assim como “A Substância” (2024), “Cara-de-Barro” é um thriller de horror corporal (body horror) que explora a perda de identidade, a obsessão pela aparência e o desejo de vingança contra aqueles que traíram seus protagonistas.


Matt Hagen e Elisabeth Sparkle, personagem muito bem interpretada por Demi Moore em “A Substância”, não aceitam a própria aparência: ele foi desfigurado em um ataque; ela, uma apresentadora de TV, é descartada por ter envelhecido. 

Ambos recorrem a experimentos na tentativa de recuperar ou preservar a beleza e a juventude, mas acabam enfrentando consequências aterrorizantes.

O vilão das HQs

O primeiro Cara-de-Barro (Clayface) dos quadrinhos foi Basil Karlo, criado por Bill Finger e Bob Kane e fez sua primeira aparição na 40ª edição da revista Detective Comics, publicada em 1940. Ele era um ator de filmes de terror, sem superpoderes, que começou a cometer assassinatos usando as fantasias dos vilões que interpretava.


Matt Hagen foi o segundo personagem a assumir a identidade do vilão e, nas HQs da DC Comics, era um caçador de tesouros. Em “Batman: A Série Animada”, ele foi reimaginado como um astro de Hollywood que vê a carreira desmoronar após ser desfigurado em um acidente e acaba se transformando em uma criatura de lama. 

Também foi o primeiro Cara-de-Barro a ter poderes reais de metamorfose, com a capacidade de moldar o próprio corpo, assumir a forma de qualquer pessoa e transformar as mãos em armas.


“Cara-de-Barro” é um longa que surpreende  pelos efeitos gráficos — tão fortes que levam o espectador a desviar o olhar — e pela atuação excelente de Tom Rhys Harries, que incorpora com competência o ator narcisista transformado em um monstro de lama assassino. 

Drama e terror macabro se complementam nesta produção, mas o espectador deve estar preparado para cenas violentas e angustiantes, especialmente as que mostram procedimentos com agulhas e o uso de lâminas.

Um dos melhores filmes da DC Studios dos últimos tempos, sem um vilão que faz piadinhas ou acaba ficando bonzinho no final.


Ficha técnica:
Direção: James Watkins
Roteiro: Mike Flanagan e Hossein Amini
Produção: DC Studios
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h48
Classificação: 18 anos
País: EUA
Gêneros: terror, ação, drama