29 julho 2026

MARATONA - "Toy Story": o que importa é ser brinquedo e compartilhar

Obra apresentou ao mundo uma nova forma de contar histórias animadas, ajudando a redefinir os rumos
deste gênero no cinema (Fotos: Pixar)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
Quem diria que uma história protagonizada por brinquedos poderia se transformar em um fenômeno de público e crítica? Lançado em 1995, "Toy Story - Um Mundo de Aventuras" não apenas conquistou espectadores de todas as idades, como também marcou definitivamente a história do cinema.

Levando cerca de quatro anos para ser produzido foi o primeiro longa-metragem da Pixar e também a primeira animação da história inteiramente realizada por computação gráfica (CGI).
 
Sob a direção de John Lasseter e com roteiro assinado por Joss Whedon, Andrew Stanton, Joel Cohen, Pete Docter e Alec Sokolow, a obra apresentou ao mundo uma nova forma de contar histórias animadas, ajudando a redefinir os rumos deste gênero no cinema.


Por trás desse avanço artístico, havia também uma base científica fundamental. Nomes como Ed Catmull e Alvy Ray Smith, cofundadores da Pixar Animation Studios, foram essenciais nesse processo. 

Catmull, especialista em computação gráfica, ajudou a desenvolver e aprimorar sistemas de imagem digital e a estruturar o pipeline de produção 3D que tornou o filme possível. 

Já Alvy Ray Smith contribuiu com fundamentos matemáticos e visuais que permitiram a criação de imagens digitais consistentes em larga escala. Sem esse tipo de engenharia, "Toy Story" simplesmente não existiria.

O resultado foi um sucesso imediato. Com um orçamento considerado modesto para os padrões de Hollywood — cerca de US$ 30 milhões — o filme arrecadou impressionantes US$ 394,4 milhões nas bilheterias mundiais. O desempenho consolidou o estúdio como uma das maiores forças da animação e abriu caminho para uma nova era do cinema animado.


Na história, o cowboy Woody (voz de Tom Hanks) é o brinquedo favorito de Andy e o líder entre os brinquedos do quarto. Sua rotina muda completamente quando Buzz Lightyear (Tim Allen), um moderno patrulheiro espacial, chega como presente de aniversário. 

O que começa como rivalidade logo se transforma em uma grande aventura, cheia de perigos, descobertas e amizade, enquanto tentam encontrar o caminho de volta para casa. 

No meio da jornada, eles cruzam com Sid (Erik von Detten), o vizinho de Andy, um garoto que desmonta brinquedos e cria invenções estranhas com suas peças. Presos na casa do destruidor, Woody e Buzz precisam encontrar uma forma de escapar antes que seja tarde demais.


O grande mote do longa está justamente na relação entre Woody e Buzz. Acostumado a ser o brinquedo favorito de Andy, o cowboy vê a chegada do astronauta como uma ameaça e faz de tudo para afastá-lo, chegando a provocar a queda dele pela janela. 

A atitude de Woody provoca revolta nos outros brinquedos, que passam a condená-lo pelo ocorrido. A partir daí, os dois são forçados a conviver e a enfrentar seus conflitos.

Existe aqui um interessante contraste entre gerações. Woody representa os brinquedos tradicionais, ligados ao Velho Oeste e a uma ideia mais artesanal de diversão. Já Buzz simboliza a modernidade, a tecnologia e o fascínio infantil por aventuras espaciais.


Esse choque fica ainda mais evidente na forma como Buzz acredita ser, de fato, um patrulheiro espacial, incapaz de aceitar sua condição de brinquedo.

É nesse ponto que surge uma das subtramas mais fortes do filme. Enquanto Woody insiste repetidamente em afirmar para Buzz “você é um brinquedo”, o astronauta luta para sustentar sua fantasia de missão espacial. O momento em que tenta voar para escapar da casa de Sid é o ponto de virada emocional da narrativa. 

Ao som de “I Will Go Sailing No More”, ele finalmente confronta a realidade e compreende que não é um herói espacial e sim mais uma das diversões de Andy. É uma cena melancólica e surpreendentemente madura para uma animação infantil, tratando identidade, aceitação e propósito com rara sensibilidade.


A partir desse conflito, "Toy Story" revela seu tema mais profundo: pertencimento e identidade. Esses dois conceitos não aparecem de forma abstrata, mas como experiências vividas dentro da própria dinâmica do grupo dos brinquedos. 

O filme constrói isso de maneira simples e precisa: quem pertence ao grupo nem sempre se sente pertencente, e quem é aceito pelo grupo nem sempre se reconhece dentro dele.

Woody é o principal exemplo dessa tensão. No início, ocupa uma posição de estabilidade como líder e brinquedo favorito de Andy. Existem harmonia e reconhecimento naquele universo. Porém, a chegada de Buzz desestabiliza essa estrutura. 

Depois do conflito com a queda do astronauta, Woody passa a ser visto com desconfiança pelos outros brinquedos. Ele continua fisicamente dentro do grupo, mas perde o reconhecimento emocional. Está presente, mas já não pertence plenamente. Esse deslocamento mostra que pertencimento não é automático: ele depende de confiança, validação e reconhecimento coletivo.


Buzz, por outro lado, vive o movimento inverso. Ele chega como um estranho, mas é rapidamente aceito pelos outros brinquedos. Sua aceitação, porém, não se baseia em quem ele realmente é, mas na imagem que representa: um brinquedo avançado e admirável. Ou seja, ele pertence ao grupo sem compreender esse pertencimento.

O astronauta vive uma crise de identidade, não se vê como brinquedo, mas como um patrulheiro espacial em missão. Isso cria uma ironia central: ele é aceito por todos, mas não se reconhece e vai precisar se desconstruir até que aceite sua realidade.

No fundo, "Toy Story" fala de algo profundamente humano: não basta fazer parte de um grupo para se sentir pertencente, e não basta ser reconhecido pelos outros para compreender a si mesmo. 


É nesse encontro entre perda de lugar e descoberta de si que o filme encontra sua força emocional mais profunda — e é aí que deixa de ser apenas um marco tecnológico para se tornar uma história sobre o que significa existir dentro de um mundo que também precisa te reconhecer.

Mas a conclusão dessa jornada vai além da identidade individual. O que "Toy Story" realmente revela é que o pertencimento só se completa quando existe aceitação — de si e do outro. É nesse ponto que Woody e Buzz deixam de ser apenas opostos e passam a ser parceiros.

Se no início representam choque de gerações, egos e visões de mundo, ao longo da narrativa constroem algo mais forte do que suas diferenças: uma amizade baseada na transformação mútua. 

Woody aprende a dividir espaço, perder o controle e reconhecer o valor do outro. Buzz, por sua vez, aprende a se aceitar sem abrir mão da coragem e do sentido de propósito que o define.


Não se trata apenas de estar no mesmo lugar, mas de construir um lugar em conjunto. A canção “Amigo Estou Aqui” sintetiza essa virada emocional de forma definitiva. 

Mais do que um tema musical, ela traduz apoio, presença e permanência mesmo diante das diferenças. Woody e Buzz descobrem que a força não está em competir por atenção, mas em caminhar lado a lado.

No fim, "Toy Story" não fala apenas sobre brinquedos de uma criança. Fala sobre vínculos que se formam quando dois mundos diferentes aprendem a coexistir, se transformar e se reconhecer. E é aí que tudo se fecha com simplicidade e força: amizade é quando o outro deixa de ser ameaça — e passa a ser parte de quem você é. 

Saiba mais sobre os outros filmes da franquia clicando nos links: "Toy Story 2" (1999), "Toy Story 3" (2010), "Toy Story 4" (2019) e o mais recente, ainda no cinema, "Toy Story 5".


Ficha técnica:
Direção: John Lasseter
Produção: Pixar Animation Studio
Distribuição: Buena Vista Pictures Distribution
Exibição: Disney+
Duração: 1h17
Classificação: Livre
País: EUA
Gêneros: animação, aventura, comédia, infantil

28 julho 2026

Uma cinebiografia à altura para celebrar Sarah Bernhardt

Diva do cinema francês das décadas de 1910 e 1920 recebeu uma atuação sensível e vibrante da atriz
Sandrine Kiberlain (Fotos: Imovision)
 
 

Patrícia Cassese

 
Uma das maiores divas da arte da interpretação francesa ganhou, recentemente, uma cinebiografia à sua altura dirigida por Guillaume Nicloux, “A Divina Sarah Bernhardt” ("Sarah Bernhardt, La Divine") que traz Sandrine Kiberlain nas vestes da atriz falecida em março de 1923, aos 78 anos. 

Com cenas que perpassam três períodos importantes da vida da estrela, o longa centra-se principalmente em sua intempestiva paixão pelo colega de profissão Lucien Guitry, interpretado por Laurent Lafitte. 

Uma observação: tanto ele quanto Sandrine são figuras conhecidas pelo público brasileiro que acompanha com atenção a cinematografia francesa contemporânea. 

Lafitte, por exemplo, está em “A Mulher Mais Rica do Mundo”, exibido recentemente, enquanto Kiberlain, em “Vizinhos Bárbaros”, de Julie Delpy, que acaba de aportar no catálogo da Netflix – e, conselho, vale muito a pena assistir.


Mas voltemos a “A Divina Sarah Bernhardt”. No curso da história, o espectador acessa os momentos de fragilidade da retratada (como a dependência doentia do amor de Julien), seu sofrimento psicológico (que a leva por várias vezes a praticar a autolesão), seu temperamento avant-garde (Sarah se relaciona com homens e mulheres e não se furta a enumerar as dezenas de amantes), seu viés feminista (aboliu o corselete e fala da ausência de mulheres dramaturgas) e, principalmente, sua sagacidade e seu fino humor. A extravagância se reflete até na escolha dos animais que habitam sua casa, casa de um lêmure ou de uma cobra.


No início, a narrativa flagra a atriz às vésperas de se submeter à amputação de uma perna. Cônscia dos ricos da cirurgia, e com todo temor advindo dessa constatação, ela se mantém afiada, fazendo piadas sobre mais uma parte do corpo perdida (já teve extraídos um rim e um pulmão).

Logo depois ao retroceder no tempo, a história trata de explicar o pedido de perdão feito a Lucien também nas cenas iniciais, assim como mostra aspectos como o modo inconsequente o qual o único filho arruína o patrimônio por ela conquistado, bem como a relação muito particular com Sacha, filho de Lucien. Detalhe: só mais adiante o público vai entender por que, na época da amputação, os dois não se falavam mais.


Com estética caprichada e interpretações convincentes, em particular, de Sandrine, “A Divina Sarah Bernhardt” comove o público, tendo também como mérito o fato de narrar pormenores da vida deste ícone francês, que, aliás, chegou a se apresentar no Brasil três vezes. (NR. - Aliás, foi em apresentação de “La Tosca”, no Rio de Janeiro, em 1905, que a atriz sofreu a queda que lesionou seu joelho de modo a anos mais tarde ser necessária a citada amputação da perna). 

Em cena, abundam referências aos ícones com os quais Sarah Bernhardt conviveu em seu tempo, caso de Émile Zola, Victor Hugo (que a presenteou com um crânio humano) e Alexandre Dumas, de quem encenou “A Dama das Camélias”.


Todas as observações levantadas até aqui já sustentam e incentivam a ida ao cinema. Para os que já conhecem a história da diva, vale ver a representação ajustada ao quilate da homenageada, enquanto para os que pouco sabem, ou mesmo os que sequer ouviram falar, uma excelente oportunidade para travar contato com essa que é conhecida como a primeira celebridade global da história, em tempos em que o mundo nem sonhava em um dia estar assim, tão conectado.

Para além do talento inato, Sarah Bernhardt é o clássico exemplo de uma mulher avant la lettre. Motivos mais que suficientes para fazê-la merecer biografias, cinebiografias e tudo o que mais houver para celebrar sua persona e contribuir para a memória da vida de pessoas tão fora da curva.


Ficha técnica:
Direção: Guillaume Nicloux
Distribuição: Imovision
Duração: 1h38
Classificação: 16 anos
País: França
Gêneros: drama, romance, cinebiografia