04 novembro 2026

"Assalto à Brasileira": quando a realidade do país supera qualquer roteiro de comédia

Filme é baseado em um fato ocorrido em Londrina no ano de 1987 que ganhou repercussão nacional
pelo número de reféns (Fotos: +Galeria
)
 
 

Maristela Bretas

 
Não importa a época, a cidade ou mesmo os fatos. O certo é que o brasileiro é um ser que precisa ser estudado pela ciência. E "Assalto à Brasileira", que estreia nos cinemas nesta quinta-feira, é a prova de que até mesmo uma ação criminosa pode fazer vítimas mudarem de lado, apoiarem bandidos e ainda transformá-los em heróis.

Londrina, 10 de dezembro de 1987. O Brasil, recém-saído da Ditadura Militar, era presidido por José Sarney e vivia uma de suas piores crises econômicas. Os remarcadores de preços disputavam espaço nas prateleiras com os consumidores, numa corrida para ver quem chegava primeiro aos produtos antes que as etiquetas fossem trocadas.


O povo sofria com a hiperinflação, a falta de dinheiro e os juros bancários extorsivos. É nesse contexto que sete rapazes desempregados e fortemente armados resolvem assaltar a agência do Banestado, a maior da cidade, exigindo 30 milhões de cruzados (cerca de US$ 10 milhões na época) e fazendo mais de 300 reféns.

Liderada por Moreno (Christian Malheiros) e Barba (Robson Nunes), a quadrilha não tem um plano decente para a ação criminosa e nem sabe como escapar depois que a polícia chega ao local. Alguns integrantes mal sabiam segurar um revólver. 


Tinha tudo para dar errado, até que entra em cena Paulo (Murilo Benício, de "Divórcio", 2017), um jornalista recém-demitido que estava no local tentando receber sua rescisão e acaba virando refém. 

Ele assume o papel de mediador para evitar que a situação piore ainda mais e passa a orientar a quadrilha sobre como agir para que todos saiam vivos do local, com o dinheiro e sem ferir ninguém.

Do lado de fora, o caricato comandante Fonseca (Paulo Miklos, numa ótima atuação) fica responsável por conduzir as tensas negociações. É um cenário caótico, que vai do drama dos reféns ao completo despreparo da polícia e dos assaltantes, agora orientados por um repórter que enxerga na situação sua grande matéria jornalística.


O caso é tão surreal que, a todo momento, os meliantes afirmam aos reféns que não são bandidos, apenas cidadãos desesperados. Esse é um dos pontos cômicos da trama, muito bem explorado pelo diretor José Eduardo Belmonte ("Uma Família Feliz", 2024), que consegue transformar o clima e a relação entre todos que estão dentro e fora da agência.

Se, no assalto verdadeiro, uma multidão de mais de cinco mil pessoas se concentrou em frente ao banco, torceu pelos assaltantes e até aplaudiu quando eles saíram com os reféns, imagine essa história adaptada para o cinema com este elenco! Era como se os bandidos tivessem virado mocinhos e estivessem vingando o povo que sofria nas mãos do sistema bancário.


Adaptado do livro homônimo do jornalista Domingos Pellegrini, com roteiro de L.G. Bayão, "Assalto à Brasileira" é uma comédia policial baseada em fatos reais. A frase que aparece no início do filme resume bem a proposta: "Pense em um absurdo. Ele já aconteceu antes no Brasil".

Um dos maiores roubos a banco do país é transformado em quase uma comédia, com diálogos inacreditáveis, tanto dos bandidos quanto dos reféns. Tem até pedidos de desculpas, distribuição de dinheiro e flertes.

Murilo Benício é carismático e mantém o estilo de outras produções, dominando as cenas. Ele forma uma boa parceria nos diálogos com Christian Malheiros, cujo personagem tem tudo, menos cara de ladrão. 


Malheiros é conhecido também por seu papel em "Maníaco do Parque" (2024), disponível no Prime Vídeo. Já o humorista Robson Nunes trabalhou com o diretor José Eduardo Belmonte em "O Auto da Boa Mentira" (2021).

Outros integrantes da quadrilha também entregam ótimas cenas de humor, em especial Matheus Macena. Fazem parte ainda do grupo os atores Vertin Moura, Vinícius Marinho e Ariclenes Barroso. O elenco conta ainda com Fernanda de Freitas, Yohama Eshima, Laura Luz, Mila Ribeiro, Augusto Madeira, Débora Duboc, Luiz Thunderbird e Fernando Rubro, entre outros.

"Assalto à Brasileira" consegue reproduzir acontecimentos reais de um momento delicado do país, equilibrando ação, tensão e humor ácido, às vezes até inocente, com atuações imprevisíveis dos protagonistas. 


Para completar a história, nada como uma boa trilha sonora, composta por Diogo Poças e Leo Mendes, que inclui músicas de Rita Lee, Ira!, Titãs e até do lendário Odair José.

Premiações

O longa também recebeu três prêmios no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro de 2025: Melhor Ator, para Murilo Benício; Melhor Ator Coadjuvante, para Christian Malheiros; e Melhor Filme pelo Júri Popular. Também foi exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Festival de Cinema Brasileiro de Paris.

No fim das contas, "Assalto à Brasileira" confirma que, quando o assunto é a realidade do país, nenhum roteirista precisa exagerar muito para criar uma boa comédia. Não perca as cenas pós-créditos.


Ficha técnica:
Direção: José Eduardo Belmonte
Roteiro: LG Bayão e Domingos Pellegrini
Produção: Santa Rita Filmes, com coprodução +Galeria e Telefilms
Distribuição: Galeria Distribuidora
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h30
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gêneros: comédia, policial, ação

03 novembro 2026

"Três Horas Para Viver": Rodrigo Santoro sai no tapa com Jack Reacher em uma corrida eletrizante contra o tempo

Owen Wilson e Alan Ritchson formam uma dupla bem humorada tentando fugir de uma quadrilha enquanto transportam um órgão para transplante (Fotos: Diamond Films)  
 
 

Maristela Bretas

 
Um órgão para transplante. Uma jornada insana para salvar uma vida em apenas três horas e uma dupla disposta a tudo para chegar a tempo. Mesmo que, para isso, precise enfrentar uma quadrilha de mafiosos.

Esta é a história de "Três Horas Para Viver" ("Runner"), filme em cartaz nos cinemas que conta com um trio de protagonistas bastante versátil. A começar pelo brasileiro Rodrigo Santoro ("O Tradutor"- 2019 e "O Último Azul" - 2025), como um vilão que enfrenta o "parrudo" Alan Ritchson (da série "Reacher" - exibida desde 2022 no Prime Vídeo) e o engraçado Owen Wilson ("Uma Noite no Museu 3" - 2015 e "Zoolander 2" - 2016).


Os três protagonizam perseguições eletrizantes em alta velocidade, muita ação, tiroteios, pancadaria e até algumas cenas de emoção, numa corrida contra o tempo em que o que realmente importa é quem vai ficar com a carga.

Na trama, o ex-soldado e transportador de elite Hank Malone (Alan Ritchson) precisa levar Ben Bishop (Owen Wilson) a um hospital, junto com um fígado que será transplantado em uma menina de sete anos. O prazo máximo para que o órgão não seja perdido é de três horas.


O que parecia uma operação simples se complica quando entra em cena Damián Zaldívar (Santoro), líder de uma organização criminosa que, junto com sua quadrilha, está disposto a fazer qualquer coisa para colocar as mãos no órgão. Os três protagonistas, no entanto, têm motivos pessoais para querer completar sua missão.

Ritchson mantém o perfil de seu personagem na série, Jack Reacher (difícil não associá-lo ao agente fortão), mas também consegue entregar emoção. Além disso, forma uma dupla muito engraçada e carismática com o veterano Owen Wilson, conhecido por seus marcantes papéis cômicos.


Rodrigo Santoro recebeu um personagem bastante canastrão e exagerado, que só não deu errado graças ao talento do ator. Ele consegue mesclar violência e humor, até mesmo quando fala três idiomas em uma só frase (uma verdadeira sopa de letrinhas). O brasileiro mostra que sabe contornar as limitações de um roteiro e dar brilho ao personagem.

Dá para imaginar uma briga entre Ritchson e Santoro, no mano a mano (e com algumas facas)? Até parece injusto, mas o brasileiro dá uma boa surra no grandão. Ponto para a interpretação de Ritchson, que mostrou que até os brutos apanham!


Outro ponto positivo é a direção de Scott Waugh, que soube dosar ação e humor sem perder uma das principais características de seu trabalho: apostar na pancadaria, com cenas de luta bem coreografadas, mesmo que absurdas.

"Três Horas Para Viver" perde um pouco o ritmo quando entram as cenas mais emotivas e o excesso de clichês, mas nada que chegue a desagradar ao público. É aquele típico filme de Sessão da Tarde que vale a pena assistir.


Ficha técnica:
Direção: Scott Waugh
Roteiro: Miles Hubley e Tommy White
Produção: Broken Road Productions e Industry Entertainment
Distribuição: Diamond Films Brasil
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h38
Classificação: 16 anos
Países: EUA e Austrália
Gêneros: ação, suspense, comédia