16 outubro 2026

“Verity”: até onde alguém iria para ocupar o lugar de outra pessoa?

Anne Hathaway, Dakota Johnson e Josh Hartnett protagonizam o longa baseado na obra literária
homônima de Colleen Hoover (Fotos: Sony Pictures)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
Das páginas para a tela, “Verity”, em cartaz nos cinemas, adapta o romance homônimo de suspense psicológico publicado em 2018 pela escritora Colleen Hoover. Dirigido por Michael Showalter, o filme reúne Dakota Johnson, Anne Hathaway e Josh Hartnett em uma trama marcada por segredos familiares, manipulação e dúvidas sobre a fronteira entre verdade e ficção.

A história acompanha Lowen Ashleigh (Dakota Johnson), uma escritora contratada para concluir a série de livros policiais de sucesso de Verity Crawford (Anne Hathaway), afastada de suas atividades profissionais após sofrer um grave acidente. 

Lowen conhece Jeremy Crawford (Josh Hartnett), marido de Verity, e ao chegar à casa do casal, encontra escritos perturbadores que levantam dúvidas sobre o passado da família e a verdadeira personalidade da escritora.


Um dos acertos do longa está na escolha do elenco, especialmente na escalação de Anne Hathaway como Verity. Mesmo com movimentos limitados e poucas expressões, seu personagem transmite inquietação e constrói uma presença que desperta dúvida e desconfiança. 

A atriz, que vem mostrando maturidade a cada nova produção, deixa de lado o rostinho quase inocente de Andy Sachs, de "O Diabo Veste Prada" e sua continuação para assumir contornos sombrios que garantem o suspense da trama. 


Dakota Johnson também entrega uma atuação consistente, embora não apresente grandes novidades em relação a trabalhos anteriores. Há momentos em que parece reproduzir seu papel como Anastasia Steele, da trilogia "Cinquenta Tons de Cinza" (2015, 2017 e 2018). 

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Já Josh Hartnett mantém aquela expressão de quem não é muito confiável, mesmo interpretando um bom pai e marido. Sua atuação lembra muito o papel dele como pai no suspense "Armadilha" (2024), dirigido por M. Night Shyamalan.


Mas é na trajetória da personagem de Dakota Johnson que a produção encontra espaço para discutir pertencimento e identidade. Ao entrar no universo dos Crawford, a jovem escritora descobre não apenas uma oportunidade profissional, mas também uma realidade que parece reunir tudo aquilo que ainda não conquistou: sucesso, reconhecimento, estabilidade financeira e uma vida familiar consolidada. 

A proximidade com Verity e Jeremy faz com que Lowen se envolva cada vez mais naquele ambiente, como se pertencer àquele universo também significasse conquistar um lugar de destaque na própria vida. 

Esse desejo ultrapassa a esfera profissional. A relação com os Crawford envolve o interesse por Jeremy e a aproximação com a dinâmica familiar, incluindo o vínculo dele com o filho. Lowen se sente atraída não apenas pelo que Verity representa como escritora, mas também por tudo o que existe ao redor dela. 


A questão central está justamente na tentativa de se aproximar de uma realidade alheia. Até que ponto admirar a vida de alguém pode se transformar no desejo de ocupar seu lugar? Essa busca evidencia as contradições de Lowen e a maneira como suas ambições influenciam suas escolhas. 

Mais do que descobrir quem é a mulher por trás dos livros, ela precisa confrontar quem deseja ser e o que está disposta a fazer para alcançar aquilo que admira.

O roteiro, entretanto, poderia explorar melhor a trajetória de Lowen. Conhecer mais sobre sua carreira, seus desafios e a maneira como conquistou seus leitores ajudaria a compreender por que o sucesso de Verity exerce tanta influência sobre ela. 


A ausência destas informações enfraquece parte do conflito, pois a construção da identidade profissional da protagonista merecia mais espaço antes de sua entrada naquele universo. 

Com um desenvolvimento mais aprofundado, suas inseguranças e ambições poderiam ganhar maior complexidade, tornando suas decisões ainda mais significativas. 

Outro aspecto interessante está no uso da metalinguagem. A escrita deixa de ser apenas parte da profissão das personagens e se transforma em um elemento fundamental para o suspense. Os textos de Verity alimentam as dúvidas sobre os acontecimentos e colocam em discussão a relação entre realidade, memória e ficção. 


Ao assumir a responsabilidade de concluir a obra da escritora, Lowen passa a lidar não apenas com uma narrativa literária, mas também com versões conflitantes sobre a identidade de quem a escreveu. O recurso mantém o espectador envolvido e reforça a incerteza sobre o que pode ser considerado verdade.

O desfecho em aberto também pode dividir opiniões. Ao deixar algumas questões sem respostas definitivas, o filme convida o público a reconsiderar as atitudes dos personagens e as motivações por trás de suas escolhas. 

Essa ambiguidade combina com a proposta do suspense psicológico, embora possa frustrar quem espera uma resolução mais conclusiva. Afinal, quando cada personagem parece ter seus próprios interesses, determinar em quem acreditar se torna parte da experiência.


Adaptações

Entre as adaptações das obras de Colleen Hoover para o cinema, “Verity” segue um caminho diferente de “É Assim que Acaba” e “Se Não Fosse Você”, ambos de 2025. Enquanto esses títulos exploram principalmente relacionamentos amorosos, conflitos familiares e marcas emocionais, o novo longa aposta em uma atmosfera mais sombria, marcada por segredos, traições, intrigas e manipulação. 

A mudança de abordagem amplia as possibilidades de adaptação da autora para além do romance dramático, embora o resultado também dependa da capacidade de aprofundar os conflitos apresentados.


Apesar do interesse os admiradores de Colleen Hoover, evidenciado pela bilheteria, o filme tem recebido duras críticas em relação à construção do roteiro. Um dos pontos negativos é o plot twist do final que não provoca o mesmo impacto da obra literária. 

Para quem não leu o livro e procura um suspense psicológico marcado por mistérios e ambiguidades, "Verity" apresenta um resultado positivo, mas não chega a ser excepcional, como se esperava, especialmente considerando o elenco. 

No fim, a história não questiona apenas quem diz a verdade, mas também o que acontece quando o desejo de pertencer interfere na maneira como nos enxergamos. Afinal, ao tentar ocupar o lugar de outra pessoa, será que ainda conseguimos reconhecer quem somos e o que realmente queremos para nós mesmos?


Ficha técnica:
Direção: Michael Showalter
Roteiro: Nick Antosca
Produção: Amazon MGM Studios
Distribuição: Sony Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h58
Classificação: 16 anos
País: EUA
Gêneros: suspense psicológico, drama

15 outubro 2026

“Dentro da Baleia” sufoca no suspense, mas afunda no drama familiar

 
Thriller de sobrevivência com Austin Abrams e Josh Brolin é baseado no romance “Whalefall”, de
Daniel Kraus (Fotos: 20th Century Studios)
 
 

Maristela Bretas

 
A proposta era boa: deixar o espectador angustiado e até sufocado ao acompanhar o desespero do protagonista. Até a metade do longa, as cenas em que o mergulhador é engolido pelo animal e tenta escapar de dentro dele prendem a atenção e convencem.

Mas, da metade para frente, “Dentro da Baleia” (“Whalefall”) abandona o suspense de sobrevivência, até então tenso e bem conduzido, para se transformar em uma história arrastada sobre a relação mal resolvida entre pai e filho. O impacto se perde, e a baleia passa a ser apenas um pano de fundo. O filme estreia nesta quinta-feira nos cinemas.


Baseada no romance “Whalefall”, de Daniel Kraus, que também assina o roteiro, a produção conta com ótimos efeitos visuais, mas peca ao desviar o foco para os flashbacks do protagonista. As lembranças se prolongam mais do que a carga de um cilindro de oxigênio e a paciência de quem está assistindo permitem.

A trama acompanha Jay Gardiner (Austin Abrams), um jovem que viaja até a costa da Califórnia para tentar fazer as pazes com a própria consciência. Para isso, mergulha no mar em busca dos restos mortais do pai, Mitt Gardiner (Josh Brolin), que está desaparecido.


Mesmo alertado sobre os perigos, Jay insiste em levar sua missão adiante. Só não contava que seria engolido por uma gigantesca baleia-cachalote, de 25 metros e 60 toneladas. Com apenas uma hora de oxigênio, ele trava uma luta desesperada pela sobrevivência.

Preso dentro do animal, o jovem também embarca em uma jornada emocional de luto e reconciliação com o pai. São as lembranças e os ensinamentos deixados por ele que poderão ajudar Jay a encontrar uma saída.


Austin Abrams e Josh Brolin, conhecido por interpretar o vilão Thanos em “Vingadores: Guerra Infinita” (2018) e “Vingadores: Ultimato” (2019), já haviam trabalhado juntos em “A Hora do Mal” (2025). Também integram o elenco Elisabeth Shue, John Ortiz, Jane Levy e Emily Rudd, mas seus talentos são pouco aproveitados.

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O filme é claustrofóbico e não recomendo a experiência para quem não suporta lugares fechados e apertados. Algumas cenas, realmente angustiantes, funcionam e sustentam a tensão.


Outras situações, porém, irritam por serem absurdas e facilmente evitáveis. É claro que a estupidez humana é capaz de coisas que até Deus duvida, e o roteiro deixa isso bem evidente nas decisões de Jay.

Merecem elogios a atuação e a entrega física de Austin Abrams na luta pela sobrevivência, assim como o trabalho de Josh Brolin. São os dois que ajudam a sustentar uma história dividida entre o thriller de suspense e o drama familiar. 

Destaque também para a fotografia de Aaron Morton e a trilha sonora de Joseph Trapanese, que contribuem para tornar o ambiente ainda mais desesperador.


O principal problema está na condução da segunda metade. O diretor Brian Duffield parece preso à história original, escrita pelo próprio Daniel Kraus, e aposta mais nos flashbacks do que na luta pela sobrevivência. 

O resultado é um longa arrastado, previsível e cansativo no desfecho, com direito a uma mensagem de união familiar bem ao estilo dos estúdios produtores. A produção também tem lançamento previsto na plataforma Disney+ após sua passagem pelos cinemas.

“Dentro da Baleia” é um filme com boas ideias e potencial para ir muito além do que entrega. Mas, infelizmente, perde em impacto até para a história bíblica de Jonas e a baleia e para a animação “Pinóquio”. 

A cachalote — com seu esôfago — e a lula gigante merecem ser consideradas as grandes coadjuvantes da produção. Sem elas, nada aconteceria e tudo não passaria de um drama familiar.


Ficha técnica:
Direção: Brian Duffield
Roteiro: Daniel Kraus
Produção: 20th Century Studios, Imagine Entertainment, 3 Arts Entertainment, Jurassic Party Productions
Distribuição: Walt Disney Studios e 20th Century Studios
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h46
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: suspense, drama