28 setembro 2026

“A Queda 2” desafia a gravidade — e a paciência do espectador

Dupla de amigas se aventura em atravessar uma perigosa passarela suspensa na Tailândia a 3 mil
metros de altitude (Fotos: Paris Filmes)
 
 

Maristela Bretas

 
Apesar de ser angustiante do início ao fim, o que incomoda mesmo em “A Queda 2: No Limite” (“Fall 2: Deadpoint”) são as decisões estúpidas quando o assunto é correr riscos desnecessários por motivações pessoais. Continuação de “A Queda”, de 2022, o longa aposta novamente em situações extremas, mas exagera na dose ao construir suas personagens.

Assim como no primeiro filme, Jonathan Frank e Scott Mann assinam o roteiro, enquanto a direção desta vez fica por conta dos irmãos Michael e Peter Spierig. A estreia está prevista para esta quinta-feira nos cinemas, com distribuição da Paris Filmes.


As cenas de perigo, favorecidas por uma ótima fotografia, são tão tensas que chegam a dar “gastura” e revolta em quem está assistindo. Impossível não se perguntar como alguém se propõe a entrar em uma aventura como esta. No caso deste longa, assim como no anterior, eu chamaria de burrice.

Jax Hunter (Harriet Slater) está de luto pela morte da irmã Shiloh, personagem do primeiro filme. Apesar de ser uma jovem que não gosta de se arriscar, ela se une a Luce (Arsema Thomas), uma antiga amiga da irmã, para atravessar a perigosa passarela suspensa do Monte Kwan, na Tailândia. 

O objetivo é chegar até uma estátua de dragão cuja lenda diz ser capaz de devorar os medos de quem a encontra.


O problema é que a dupla acaba presa em uma estreita prancha, a mais de 3 mil metros de altitude, após um deslizamento de rochas. Separadas de seu guia, o misterioso Jon (Tom Brittney), resta a Jax enfrentar seus medos para sobreviver e ajudar a amiga.

As decisões e atitudes da dupla amadora aventureira beiram o absurdo. Por mais que sejam alertadas, elas insistem em continuar a jornada insana. 

Em alguns momentos, chega a dar raiva das protagonistas. E os roteiristas ainda deixam de lado questões básicas, as jovens não sentem fome, sede e cansaço, mesmo depois de três dias penduradas na montanha.


Pelo contrário, elas ainda encontram forças — e põe força nisso — para fazer malabarismos a 3 mil metros de altitude. Também conseguem dormir tranquilamente em uma prancha de uns 50 centímetros de largura (estou chutando o tamanho). Os roteiristas exageraram na dose.

Há ainda uma cena de Jax na ponte, nos momentos finais do filme, que os diretores simplesmente eliminaram e que poderia ter sido bem explorada. De repente, a protagonista já está em outro cenário, deixando para o espectador imaginar o que aconteceu.



Em compensação, os cenários abertos são muito bem explorados pela fotografia, assim como o som, especialmente o das rochas caindo, da prancha ruindo e das correntes se movimentando. Ponto positivo também para as atuações de Harriet Slater e Arsema Thomas. Já Tom Brittney entrega um papel bem canastrão.

“A Queda 2: No Limite”, no fim, é uma repetição de seu antecessor, com mais efeitos gráficos e decisões ainda mais irritantes. E, para completar, o final já abre caminho para um terceiro longa-metragem. Aguardemos. Tomara que seja melhor e consiga recuperar a força do primeiro.


Ficha técnica:
Direção:
Michael e Peter Spierig
Roteiro: Jonathan Frank e Scott Mann
Produção: Capston Pictures e Frawless
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h40
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: suspense, ação, aventura

26 setembro 2026

"Virtuosas": quando o controle aprende a falar de liberdade

Longa leva para as telonas um retiro VIP que promete aperfeiçoar mulheres em busca de sua melhor
versão (Fotos: Olhar Filmes)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema 

 
E se a promessa de ser uma mulher melhor for, na verdade, aprender a obedecer melhor? É a partir dessa provocação que "Virtuosas", novo terror de Cíntia Domit Bittar, constrói seu desconforto. O filme está em cartaz no Cine Belas Artes estrelado por Bruna Linzmeyer, Maria Galant, Juliana Lourenção, Sarah Motta e Brisa Marques. 

Produzido pela Novelo Filmes e distribuído pela Olhar Filmes e Filmes do Estação, o longa também chega ao circuito comercial depois de conquistar o Goes to Cannes Award 2025, durante o Marché du Film, e o Prêmio Netflix da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.


Na trama, Virgínia Heinzel (Bruna Linzmeyer), uma espécie de coach conhecida nas redes sociais, conduz um retiro que promete transformar mulheres em suas “melhores versões”. Germina (Maria Galant), Lorena Canolo (Juliana Lourenção), Bárbara Rossi (Sarah Motta) e Gorete (Brisa Marques) são selecionadas após uma palestra em que Virgínia esconde rosas embaixo das cadeiras. 

O que parece uma oportunidade de autoconhecimento, porém, logo revela regras cada vez mais rígidas. Virgínia é justamente uma das personagens mais interessantes porque não vende submissão de maneira explícita. Pelo contrário: fala em força, protagonismo e transformação. 


A ideia de que a mulher seria o “pescoço” e o homem, a “cabeça”, parece empoderadora até descobrirmos o que esse poder significa na prática: cozinhar, cuidar da casa, preparar tudo para o marido, aprender a tricotar e cumprir expectativas tradicionalmente associadas ao papel feminino. O velho modelo aparece com uma nova embalagem.

É aí que "Virtuosas" encontra sua melhor discussão: o patriarcado também pode sobreviver quando aprende a falar a linguagem do empoderamento. A ordem deixa de ser simplesmente “obedeça” e passa a ser “melhore”. Se você não consegue cumprir as expectativas, o problema passa a ser você. Em vez de questionar a estrutura, é preciso se adaptar a ela.


A jornalista Germina é quem começa a perceber essa contradição e questionar as regras do retiro. Ao mesmo tempo, a própria Virgínia nem sempre parece disposta a seguir aquilo que exige das participantes. 

A tão prometida “melhor versão” começa a parecer menos uma descoberta pessoal e mais um modelo pronto de mulher. A pergunta, então, se torna inevitável: se alguém já decidiu como você deve ser, que liberdade existe nessa transformação?

O terror funciona justamente porque o medo nasce de situações reconhecíveis. Não é necessário recorrer constantemente ao sobrenatural para provocar desconforto. O que assusta está nas relações de poder, na manipulação e na maneira como determinadas ideias podem ser apresentadas como cuidado, orientação ou autoconhecimento.


As próprias participantes ampliam essa discussão. Lorena, esposa de um deputado, recebe privilégios que as demais não têm, mostrando que até dentro de uma estrutura de controle existem diferentes níveis de poder. A regra, portanto, não é aplicada da mesma maneira para todas. Dependendo da posição social ocupada, algumas mulheres podem encontrar brechas que outras não têm.

É uma ideia interessante, mas também revela uma das limitações do filme. "Virtuosas" apresenta questões bastante provocadoras sobre fé, feminilidade, privilégio, manipulação e poder, porém nem sempre consegue aprofundar todas elas. Algumas ideias aparecem com força, mas são abandonadas antes de alcançar todo o potencial dramático.


O mesmo acontece com algumas personagens. Germina possui uma função clara dentro da investigação das contradições do retiro, enquanto Bárbara e Gorete poderiam ter conflitos próprios mais desenvolvidos. 

Em determinados momentos, elas acabam funcionando principalmente como representações de diferentes tipos de mulheres dentro daquele sistema. Dar maior espaço às experiências individuais dessas personagens poderia tornar o impacto do retiro ainda mais forte.

A comparação com "Corra!" (2017) faz sentido justamente pela aproximação com o terror social. Assim como no filme de Jordan Peele, o horror nasce menos de um monstro do que de relações sociais reconhecíveis que escondem algo perturbador. 


Em "Virtuosas", o perigo está justamente naquilo que parece familiar: alguém oferecendo acolhimento, transformação e uma suposta oportunidade de mudança enquanto, aos poucos, estabelece as regras que devem ser seguidas.

Mesmo com essas limitações, Cíntia Domit Bittar encontra no gênero uma maneira eficiente de discutir algo que ultrapassa o próprio terror. O filme não apresenta o patriarcado apenas como uma figura masculina autoritária, mas como uma estrutura capaz de se adaptar e mudar de discurso para continuar funcionando.

E essa talvez seja a parte mais incômoda do longa. Uma regra não deixa de ser regra porque foi apresentada como conselho. Controle continua sendo controle quando vem acompanhado de cuidado. E cobrança não se transforma automaticamente em liberdade apenas porque recebeu o nome de empoderamento.


O desfecho segue essa mesma lógica. É duro, brutal e não oferece um alívio fácil ao espectador. A escolha combina com uma narrativa que passou boa parte do tempo discutindo controle e violência, evitando transformar uma experiência tão incômoda em uma conclusão excessivamente confortável.

O roteiro poderia aprofundar melhor algumas das questões que levanta e dar mais complexidade a determinadas personagens, mas "Virtuosas" consegue deixar uma provocação que permanece depois dos créditos: talvez o verdadeiro terror não seja alguém dizer quem você deve ser, mas fazer você acreditar que essa escolha sempre foi sua.


Ficha técnica:
Direção:
Cíntia Domit Bittar
Produção: Novelo Filmes, coprodução Olhar Filmes
Distribuição: Filmes do Estação
Exibição: Cine Belas Artes
Duração: 1h26
Classificação: 16 anos
País: Brasil
Gêneros: Suspense, ficção, terror