02 novembro 2026

"Ana En Passant" dialoga com diferentes gerações de mulheres negras

Animação ambientada em Belo Horizonte celebra a força e a representatividade do cinema nacional
(Fotos: Embaúba Filmes)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
Depois de abrir a Mostra Competitiva do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e passar por diversos festivais internacionais, “Ana, En Passant”, de Fernanda Salgado, chega no dia 5 de novembro ao circuito comercial. A animação conquistou o Prêmio Zózimo Bulbul de Melhor Longa-Metragem, concedido por um júri indicado pela Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN) e pelo Centro Afrocarioca de Cinema. 

O reconhecimento destaca obras que ampliam as possibilidades de representação e autoria negra no cinema e ganha ainda mais relevância por se tratar de uma animação dirigida por uma mulher. 

Após a morte da avó, Ana (dublada por Jéssica Pierina), uma jovem negra franco-brasileira, se vê perdida entre o luto e a sensação de não pertencer completamente a lugar nenhum. Em busca das próprias raízes, segue pistas deixadas pela avó (voz de Zezé Motta) e viaja a Belo Horizonte, cidade ligada à sua história familiar.   


Lá, encontra Alice (também dublada por Jéssica Pierina), que mora no antigo apartamento da avó. A partir desse encontro, mergulha em afetos e conexões ancestrais que a levam a repensar suas origens e o lugar que ocupa no mundo.

A protagonista é construída a partir desse deslocamento. Com descendências francesa e brasileira, Ana carrega diferentes referências culturais, mas nenhuma delas parece responder completamente onde é seu lugar. 

A morte da avó intensifica essa sensação ao representar também a perda de uma das principais ligações com sua origem. A viagem, portanto, não é apenas uma busca pelas raízes, mas uma tentativa de compreender a própria formação.


Alice estabelece uma relação diferente com esse mesmo espaço. Ela ocupa um lugar carregado de histórias e cria uma ligação inesperada entre passado e presente. A casa deixa de ser apenas um endereço para se tornar um ponto de encontro entre diferentes trajetórias.

O carteiro André, dublado por Carlos Francisco, ator mineiro conhecido por trabalhos como “Marte Um” (2022) e “O Agente Secreto” (2025), amplia essa rede de relações. Ele funciona como mediador entre pessoas e tempos distintos, além de possuir uma ligação própria com a avó de Ana. Sua função vai além da entrega das cartas: também carrega experiências que o conectam àquela comunidade.


Fellipe, amigo de Alice, apresenta outra dimensão dessas relações. Seu percurso está ligado à maneira como formamos vínculos no presente. Ele erra, reconhece seus erros e demonstra disposição para reparar suas atitudes. 

É um personagem interessante justamente por mostrar que também construímos quem somos a partir da forma como tratamos e somos tratados pelos outros. Por isso, sua presença poderia ganhar mais espaço. A relação com Alice e a aproximação com a protagonista poderiam acrescentar novas camadas à narrativa. 

O mesmo acontece com outros personagens secundários, que possuem características próprias, mas acabam funcionando apenas como apoio à trajetória central. Não chega a comprometer a experiência, mas deixa a sensação de que algumas relações poderiam ter sido aprofundadas.


Um dos destaques está na construção visual. Cartas, envelopes, papéis, carimbos e escritas não são apenas elementos de cena. Esses objetos fazem parte da própria linguagem da obra. 

Em vez da velocidade das mensagens instantâneas, a produção recupera o tempo entre escrever e receber, criando uma atmosfera de espera, expectativa e imaginação. A carta carrega não apenas palavras, mas também as marcas de quem a escreveu.

Essa escolha transforma a correspondência em um elo entre ausências e aproximações. As cartas permitem que a protagonista estabeleça contato com uma história que não viveu diretamente, enquanto a materialidade do papel reforça a tentativa de preservar aquilo que poderia desaparecer com o tempo.


A direção encontra na animação uma maneira de representar sentimentos que dificilmente seriam traduzidos apenas pelo realismo. Desenho, dança, papelaria e diferentes técnicas visuais se combinam para criar uma estética autoral, em que a linguagem não apenas ilustra a história, mas participa da forma como os personagens percebem o mundo.

É raro encontrar uma animação tão disposta a experimentar. A obra se distancia dos modelos mais convencionais associados às grandes produções e coloca uma nova perspectiva no centro de uma história sobre família, origem e descoberta pessoal.

Essa escolha ganha força porque a experiência negra não aparece de maneira única ou limitada. Os personagens estabelecem relações diferentes com os lugares que ocupam, com as pessoas que encontram e com as histórias que carregam. 


São caminhos distintos para discutir como cada indivíduo constrói sua própria maneira de existir e de se relacionar com o mundo. Talvez o principal ponto a desenvolver esteja justamente na quantidade de possibilidades abertas por essas relações. Algumas poderiam render conflitos e descobertas maiores, mas são resolvidas rapidamente. 

É uma limitação que não compromete o conjunto, embora deixe a sensação de que determinados personagens poderiam permanecer mais tempo em cena. Ainda assim, o longa encontra beleza justamente no que é íntimo. 

Ao transformar cartas, afetos e encontros em imagens, Fernanda Salgado constrói uma animação sobre compreender o passado sem ficar presa a ele. 


Ao partir em busca de suas origens, Ana encontra diferentes formas de olhar para si mesma e entende que pertencer não é necessariamente encontrar um único lugar para chamar de seu, mas reconhecer as relações e experiências que ajudam a formar quem somos.  

Em um cinema de animação muitas vezes associado a grandes estúdios e fórmulas conhecidas, “Ana, En Passant” reafirma a força de uma obra autoral, particular e disposta a experimentar. 

É justamente essa intimidade, capaz de falar sobre identidade e pertencimento a partir de uma história tão própria, que pode fazer a animação atravessar fronteiras e encontrar novos públicos pelo mundo.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Fernanda Salgado
Produção: Apiário Estudio Criativo, coprodução Sardinha em Lata e Midralgar
Distribuição: Embaúba Filmes
Exibição: Cine Belas Artes
Duração: 1h30
Classificação: 12 anos
Países: Brasil, Portugal, França
Gêneros: animação, drama

31 outubro 2026

"Cartório das Almas", filme-cabeça que não entrega o que propõe sobre eternidade e finitude

Produção tem narrativa com ritmo lento e contemplativo, com valorização da atmosfera e da fotografia
(Fotos: Pandora Filmes)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
"Um filme-cabeça é uma produção que exige um envolvimento intelectual profundo do espectador. Em vez de focar apenas em entretenimento ou ação direta, aposta em narrativas complexas, metáforas, simbolismos e em grandes questões filosóficas, existenciais, psicológicas ou científicas. 

A narrativa é sempre abstrata e não linear, e usa quebra-cabeças temporais, sonhos, alucinações ou finais abertos que dependem da interpretação de quem assiste. 


Tem foco em conceitos profundos e explora temas como a natureza da realidade, a identidade humana, a moralidade, o tempo e a solidão. O ritmo é lento e contemplativo, com valorização da atmosfera, da fotografia, dos silêncios e diálogos densos, dando tempo para o espectador absorver as ideias propostas".

A definição, colhida de uma plataforma de Inteligência Artificial, é talvez a que mais se aproxima de "Cartório das Almas", longa brasileiro que ainda não tem data prevista para entrar nos cinemas mineiros.


Dirigido por Leo Bello ("O Espaço Infinito" - 2003), que também assina o roteiro, o filme leva o espectador a um tempo distópico em que as pessoas são praticamente condenadas a viver eternamente. E as que desejam morrer precisam registrar essa opção devidamente justificada em um determinado cartório apropriado. 

A história gira em torno de Laura (Gabriela Correa) que, com 126 anos, começa a trabalhar exatamente no departamento que atende os que querem morrer. 

Filmado em preto e branco e tendo os descampados do cerrado brasiliense como cenários, não há como negar que "Cartório das Almas" gera certa curiosidade e instiga. 


No entanto, a forma lenta e repetitiva como é contada a história dos que desejam a liberdade da morte, acaba por cansar o espectador. Também não fica claro por que a própria Laura, responsável por ajudar tantos a morrer, não pode optar pelo fim da vida.

Há sim reflexões bonitas que são propostas ao longo do filme - como aliás costumam ser as ponderações sobre a finitude - mas elas não chegam a instigar quem está assistindo. 

A fotografia de Pedro Maffei e a direção de arte de Maíra Carvalho aparecem quase que como personagens, criando o clima perfeito para a ideia, mas não conseguem salvar o longa. 


Necessária nestes tempos em que setores da ciência falam até na possibilidade de interrupção do envelhecimento, a discussão corre o risco de se tornar rasa quando a proposta se mistura com transmutações, gaiolas, ninhos e pássaros. Haja metáforas.

O elenco, perfeito no que propõe o roteiro em termos de longos silêncios e atuações contidas, conta ainda com Wellington Abreu, Chico Sant'Anna, Roustang Carrilho, Maria Carolina Machado e Gabrielle Lopes. A trilha sonora, por sua vez, é tão discreta que quase nem aparece. 

A conclusão, ao final desse filme-cabeça, é de que perdeu-se em elucubrações um tema que poderia ser mais profundamente contemplado.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Léo Bello
Produção: Machado Filmes e Lumiô Filmes
Distribuição: Pandora Filmes
Duração: 1h17
Classificação: 10 anos
País: Brasil
Gêneros: fantasia, ficção