04 outubro 2026

“Se Eu Fosse Você 3”: novos rostos, velhos clichês e pouca graça

Cleo Pires e Rafael Infante formam o novo casal da comédia que já teve Tony Ramos e Glória Pires como protagonistas (Fotos: Buena Vista International)
 
 

Maristela Bretas

 
A comédia romântica “Se Eu Fosse Você 3”, que estreia nesta quinta-feira (8), muda o protagonismo para uma dupla mais jovem, mas mantém a fórmula clássica da troca de corpos do primeiro filme, lançado há 20 anos e que ganhou uma continuação em 2009.

No lugar de Tony Ramos (Cláudio) e Glória Pires (Helena), que tiveram ótimas atuações no primeiro filme da franquia, entram Cleo Pires, no papel de Bia, filha do casal original e de Glória Pires na vida real, e o namorido Aquiles, interpretado por Rafael Infante. 

Se a intenção era dar uma rejuvenescida à história, isso não aconteceu, mesmo com a entrada dos novos integrantes. A comédia não convence, mantém muitos clichês e aposta em piadas que pouco funcionam.


O ponto mais fraco é o personagem do comediante Rafael Infante. Ao trocar de corpo, Aquiles parece acreditar que, para ser mulher, precisa adotar estereótipos ultrapassados, com caras, bocas, beicinhos, faniquitos e rebolados, como se toda mulher agisse dessa forma o tempo todo. O roteiro pisou feio na bola com o personagem.

Já Glória Pires consegue entregar um Aquiles mais próximo da postura de um homem comum, meio tosco em alguns momentos, mas convincente. A experiência da atriz conta muito a seu favor. No elenco estão ainda Valentina Daniel, Paulo Rocha, Rosi Campos, Yohama Eshima e Dan Ferreira.


Tony Ramos e Glória Pires, em participações especiais, são boas aparições e dão um toque saudosista ao longa, especialmente quando a situação fica caótica, como nas histórias vividas por eles nos filmes anteriores, que contaram com a direção de Daniel Filho.

Em “Se Eu Fosse Você 3”, dirigido por Anita Barbosa, com supervisão artística de Daniel Filho, Bia e Aquiles vivem uma relação desgastada e, quando estão prestes a se separar, acabam tendo os corpos trocados durante uma noite de raios. Agora, precisam assumir as rotinas profissionais um do outro sem despertar suspeitas entre os colegas de trabalho.


Ele é instrutor de esportes radicais que mal sabe fazer uma vitamina. Ela é uma chef de cozinha que quer conquistar a primeira estrela do restaurante, mas tem medo de altura. Como conciliar duas profissões tão opostas e, ao mesmo tempo, tentar salvar uma relação já desgastada?

O sucesso de 1967 “Ain’t No Mountain High Enough”, com Marvin Gaye e Tammi Terrell, embala vários momentos do longa. A escolha é diferente da dos dois primeiros filmes, que apostaram em canções da Bossa Nova e da MPB.

Os atores até se esforçam, mas este terceiro filme deixa muito a desejar e não apresenta grandes novidades. Nem mesmo as situações absurdas, como as vividas por Tony Ramos no filme original, aparecem com força. O raio caiu pela terceira vez, mas não provocou grandes mudanças: “Se Eu Fosse Você 3” é mais do mesmo, agora com rostos novos.


Ficha técnica
Direção: Anita Barbosa
Produção: Total International e Star Original Productions
Distribuição: Buena Vista International
Duração: 1h32
Exibição: nos cinemas
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gênero: comédia romântica

01 outubro 2026

“Digger”: Tom Cruise irreconhecível em uma sátira provocadora contra os poderosos

Ator interpreta um bilionário do setor petrolífero responsável por um gigantesco acidente ambiental
(Fotos: Warner Bros. Pictures)
 
 

Maristela Bretas

 
Estreia nesta quinta-feira nos cinemas “Digger”, que tem Tom Cruise como principal estrela e já está gerando muita polêmica entre críticos e pessoas que assistiram ao longa-metragem pelo mundo. A narrativa satírica pós-apocalíptica é diferente, pode até parecer estranha em algumas partes, mas é audaciosa e envolvente como um todo.

Especialmente pelas excelentes atuações do elenco, a começar por Tom Cruise, no papel principal. A produção, dirigida pelo premiado Alejandro González Iñárritu, responsável por sucessos como “Birdman” (2014) e “O Regresso” (2015), satiriza o mundo dos poderosos.


Toma como exemplo o setor petrolífero, mas poderia ser qualquer representante do poder econômico, cujo descaso nas decisões e a exploração desmedida da natureza, com a certeza de que sempre estarão livres das consequências, são comportamentos comuns.

Os personagens são caricatos, como o próprio Digger, interpretado brilhantemente por Tom Cruise, assim como Compson, presidente dos EUA, vivido por John Goodman; seu vice, papel de Michael Stuhlbarg; e os militares integrantes do gabinete da crise, interpretados por Robert John Burke e Burn Gorman.


Digger Rockwell (Tom Cruise) é um bilionário do setor petrolífero e de minerais que herdou os negócios da família e se acha acima de tudo e de todos. Um acidente de proporções catastróficas coloca vários países da Europa em risco, assim como os negócios das empresas Rockwell e a credibilidade dos EUA. 

Determinado a provar que é o salvador da humanidade, ele embarca em uma missão frenética para evitar que o desastre que ele mesmo desencadeou destrua tudo.

Poderia ser uma história comum, mas o tom satírico adotado pelo diretor Alejandro González Iñárritu acaba virando o jogo, transformando o longa em uma produção envolvente. Não vou contar mais para não dar spoiler. Mas essa forma de narrativa tem provocado debates entre aqueles que gostaram da abordagem e do conjunto da obra e os que detestaram, considerando o filme ruim, confuso e até desnecessário.


Tom Cruise está irreconhecível, envelhecido e adotando um estilo cowboy, com um terno vinho e chapéu, imitando pistoleiros do Velho Oeste, ou usando pijama enquanto planeja a próxima ação para ter aumentar os lucros. 

Digger é um homem de poucos escrúpulos, mas demonstra um lado emotivo quando está com sua preciosa companheira Maggie, uma gata idosa e doente, prestes a morrer.

O ator saiu de sua zona de conforto da franquia “Missão: Impossível” para apostar em mais uma comédia satírica — a primeira foi “Trovão Tropical” (2008) — e acertou muito bem. É uma atuação digna de disputar um Oscar.


Destaque também para o premiado Riz Ahmed, com ótima interpretação do Dr. Ganesh, especialista ambiental das empresas Rockwell. Apesar de ser uma pessoa de conhecimento avançado em sua área e de discordar das decisões do patrão, ele segue o que lhe é mandado para não desagradar quem paga seu salário.

Ahmed é ganhador do Oscar de 2022 como Melhor Curta-Metragem de Live-Action "O Longo Adeus”, que ele escreveu e estrelou. O ator rouba as cenas, inclusive as que faz com Tom Cruise, e mostra uma boa sintonia com o ator.


O mesmo acontece com John Goodman, cujo papel lembra bastante o perfil de presidentes dos EUA por suas decisões armamentistas e religiosas e pela postura de descaso com a população, especialmente a de outros países. 

No elenco temos ainda a também indicada ao Oscar Sandra Hüller, como Emma, irmã de Digger, com boa atuação, e Jesse Plemons, em uma participação que completa a trama.

“Digger” tem ainda, na maquiagem (especialmente a de Tom Cruise) e na trilha sonora de Cosmo Sheldrake, um dos elementos positivos impossíveis de ignorar. As músicas são impactantes e abraçam as imagens, dando mais vida e vigor às cenas. 


Outro destaque é a fotografia de Emmanuel Lubezki, que adota cores pastéis na maior parte da trama e da vida do protagonista, dando o tom envelhecido que o roteiro precisa para ambientar a história, como se fosse um clássico dos anos 1950. Os enquadramentos com muitos closes dos personagens e cenas de baixo para cima reforçam as ações e até a superioridade de alguns personagens.

Filmado inteiramente em VistaVision, o longa-metragem está disponível nos cinemas nos formatos IMAX, XD, D-Box e 2D, além de contar com acessibilidade, em versões dubladas e legendadas.

Mas, como uma boa história, “Digger” é uma comédia satírica com uma reviravolta surpreendente. A mensagem do filme é um tapa na cara da sociedade ao escancarar algo que todos sabem e fingem que não acontece porque não interessa mudar a realidade. Mesmo que isso coloque a humanidade em risco.


Ficha técnica:
Direção: Alejandro González Iñárritu
Roteiro: Alejandro González Iñárritu, coescrito com Alexander Dinelaris & Nicolás Giacobone, e Sabina Berman
Produção: Legendary Pictures, Warner Bros Pictures, M Productions e TC Productions
Distribuição: Warner Bros Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h07
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: ficção, comédia, drama