28 junho 2026

"O Menino da Calça Rosa" reconstrói uma história para alertar sobre a prática do bullying

Samuele Carrino interpreta o jovem Andrea Spezzacatena que tirou a própria vida devido ao assédio
contínuo na escola (Fotos: Divulgação)
 
 

Patrícia Cassese

 
Filmes baseados em episódios da vida real trazem, em seu bojo, a peculiaridade de o público adentrar a sala de exibição de certa forma já sabendo o desenlace da história – bem, claro, salvo no caso daqueles que, por variados motivos, não tomaram conhecimento do fato, principalmente quando este ocorreu em outro país. 

Evidentemente, essa característica – de o que acontece ao fim já ser sabida - não depõe contra a realização de tais iniciativas, pois, assim como há o chamariz de ver como uma história real foi transposta para o écran, há também a pertinência de levar certos episódios à telona para que não sejam esquecidos.

É o caso de “O Menino da Calça Rosa” ("Il Ragazzo Dai Pantaloni Rosa"), de Margherita Ferri, que integrou a programação da 8 ½ Festa do Cinema Italiano Brasil, exibida em vários cinemas do país, inclusive de BH.

Trata-se de uma encenação a partir de um caso real que comoveu a Itália. Em novembro de 2012, pouco após completar 15 anos, Andrea Spezzacatena tirou a própria vida, solapado pela tormenta que atravessava na escola, onde era vítima de bullying e cyberbullying.


Ao transpor o caso para a telona, a diretora permitiu-se entremear os fatos comprovados (após a morte, a mãe do garoto teve acesso ao conteúdo do celular dele e, assim, tomou conhecimento da dimensão do assédio dos colegas, que chegaram a criar um perfil chamado O Menino da Calça Rosa com toques ficcionais.

Por serem menores, à época, os alunos que perpetraram sofrimento e humilhação a Andrea (vivido no longa-metragem pelo expressivo Samuele Carrino) tiveram a identidade preservada. 

De todo modo – e, mesmo como apontamos, já sabendo o desenlace – o filme alcança o que imaginamos ser seu objetivo precípuo, ou seja, ratificar a necessidade de prevenir a prática do bullying. Assim como saber lidar com a questão quando esse já se implantou, tanto no acolhimento de quem procura a direção da escola ou diretamente algum professor para pedir ajuda.


Ou na percepção da dinâmica da classe (já que, muitas vezes, por vergonha ou medo, o alvo recolhe-se ao silêncio), assim como no tratamento e eventual punição (de educativa à expulsão) de quem o pratica e no investimento na prevenção futura. 

O assunto é premente. Para se ter uma ideia, pesquisa nacional realizada pelo Departamento de Educação dos EUA apontou que 100% dos estudantes ouvidos relataram ter vivenciado, testemunhado ou tido conhecimento de atos de bullying durante o ano letivo de 2021-2022. 

No Brasil, em matéria da Agência Brasil, quatro em cada dez estudantes brasileiros de 13 a 17 anos afirmam já ter sido alvos de bullying, e 27,2% dos alunos nessa faixa etária já sofreram alguma forma de humilhação duas ou mais vezes.  


Os dados foram divulgados em março de 2026, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), e se referem a depoimentos coletados em 2024 em escolas de todo o Brasil. 

Vale dizer que Teresa Manes, a mãe de Andrea (vivida, no filme, pela belíssima Claudia Pandolfi), desde a morte do filho se dedica a percorrer escolas do país ministrando palestras para conscientizar jovens e educadores sobre as consequências do bullying. 

Também fundou a Associazione Italiana Prevenzione Bullismo e escreveu o livro “Andrea, para além da calça rosa” (tradução livre). Por seu empenhado trabalho, aliás, em 2022 foi agraciada com a ordem Cavaleiro do Mérito da República por Sergio Mattarella, o presidente da República Italiana. 


Em tempo: a calça rosa citada no título do filme e em outros pontos desta matéria refere-se à peça de vestuário que Andrea ganhou de presente de sua mãe. 

Na verdade, a calça era originalmente da cor vinho, mas uma lavagem na máquina fez com que o tingimento esmaecesse, deixando a peça com um tom rosado – inacreditavelmente, ainda hoje atrelada ao sexo feminino.

Assistir a “O Menino da Calça Rosa” é, pois, uma experiência dolorosa, da qual ninguém sai inalterado. Não se surpreenda ao se flagrar pesquisando o caso a fundo e se afundar na cadeira refletindo como uma prática tão destrutiva e perversa, com um potencial tão significativo de acabar com uma vida e, na esteira, dilacerar famílias inteiras, possa seguir arrebanhando adeptos. De todo modo, uma experiência necessária.


Ficha técnica:
Direção: Margherita Ferri
Roteiro: Roberto Proia
Produção: Eagle Pictures, Weekend Films
Distribuição: Weekend Films
Duração: 1h54
Classificação: 16 anos
País: Itália
Gênero: drama

25 junho 2026

"Supergirl": nem Milly Alcock nem o adorável Krypto conseguem salvar uma heroína sem roteiro

Super-heroína inspiradora que marcou os quadrinhos estreia nova versão nas telonas (Fotos: DC Studios)
 
 

Maristela Bretas

 
Depois do bom recomeço promovido por "Superman", a DC Studios dá um passo atrás com "Supergirl", que estreia hoje nos cinemas. Desta vez, quem acaba prejudicada é justamente a prima do Homem de Aço. 

A talentosa Milly Alcock, destaque da série "A Casa do Dragão", entrega uma atuação convincente, mas esbarra em uma personagem difícil de conquistar o público.

O maior problema não está na atriz, e sim na construção de Kara. Em vez da heroína inspiradora que marcou os quadrinhos e outras adaptações para a TV e o cinema, surge uma jovem amarga, impulsiva e movida quase exclusivamente pela vingança. 

Em diversos momentos, suas atitudes se aproximam mais das de uma vilã do que das de uma super-heroína. Confesso que, para mim, Melissa Benoist continua sendo a melhor intérprete da personagem.


Quem realmente rouba a cena é Krypto. O fiel e atrapalhado cão de Kara é, de longe, o elemento mais divertido do filme. Sempre que aparece, quebra o clima pesado da narrativa e conquista facilmente a simpatia do público. 

Se existe um verdadeiro protagonista carismático nesta produção, ele tem quatro patas. e tem sua origem revelada no filme.

A trama ganha algum fôlego com a chegada de Ruthye Marye Knoll (Eve Ridley), uma jovem que também busca vingança. A relação entre as duas movimenta a história, embora o roteiro não aprofunde suficientemente suas motivações.


Entre os personagens masculinos, Superman (David Corenswet) faz uma participação importante ao conectar os acontecimentos deste filme aos de "Superman" (2025), dirigido por James Gunn, onde Supergirl apareceu pela primeira vez neste novo universo.

Do lado dos vilões, Matthias Schoenaerts ("Operação Red Sparrow" - 2018) interpreta Krem com competência, ainda que sem grandes surpresas e com características pouco marcantes. Já Jason Momoa retorna ao universo da DC em um papel diferente. 


Depois de viver o herói em "Aquaman" (2018), agora assume o personagem Lobo, um caçador de recompensas intergaláctico de visual extravagante e garras afiadas. A mudança soa forçada, e Momoa praticamente repete o mesmo estilo irreverente e desleixado que costuma apresentar em outros personagens.

O roteiro também decepciona. A história aposta em longas sequências de ação, excesso de computação gráfica e efeitos digitais para sustentar uma narrativa que oferece poucas novidades. As cenas de pancadaria ocupam boa parte do tempo, mas pouco acrescentam ao desenvolvimento dos personagens, tornando o filme repetitivo e previsível.


Curiosamente, enquanto "Superman" optou por suavizar a violência, "Supergirl" segue o caminho oposto. Kara demonstra uma crueldade que chega a incomodar, especialmente para quem conhece a personagem dos quadrinhos. 

Como uma das minhas heroínas preferidas da DC, esperava encontrar uma protagonista mais humana, inspiradora e empática, não alguém capaz de matar.

A trilha sonora, por outro lado, merece destaque. "Garota de Ipanema" volta a marcar presença, acompanhada de outras boas escolhas musicais que ajudam a criar alguns dos melhores momentos da produção.


No fim das contas, "Supergirl" certamente vai dividir opiniões. Milly Alcock faz o que pode com o material que recebeu, enquanto Krypto conquista o público sem esforço. Mas isso não basta para esconder um roteiro frágil e uma protagonista que perdeu justamente a principal qualidade que sempre a diferenciou: o carisma. 

Se quiser consolidar seu novo universo cinematográfico, a DC precisará rever alguns conceitos antes dos próximos filmes de seus heróis.

Obs. O filme não tem cenas pós créditos.


Ficha técnica:
Direção: Craig Gillespie
Produção: DC Studios
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h50
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: ação, aventura, ficção