15 setembro 2026

"Morte e Vida Madalena" homenageia a arte de fazer cinema, mas perde a graça em exageros e bizarrices

Comédia encontra graça naquilo que poderia dar errado, e celebra quem não desiste do que ama
(Fotos: Divulgação)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
São tantas as ideias, referências e intenções expostas - e implícitas - sobre o cinema em "Morte e Vida Madalena" que dificilmente o espectador vai conseguir digerir tudo e, realmente, curtir o filme, que estreia nesta quinta-feira nos cinemas.

Metalinguagem que pretende homenagear e celebrar a arte, o longa dirigido pelo cearense Guto Parente ("Estranho Caminho" - 2023), quase se perde em situações esdrúxulas e irreais, causando mais estranheza do que risos.


Madalena, interpretada por Noá Bonoba, é uma jovem produtora que acaba de perder o pai (Carlos Francisco), com quem ela aprendeu o ofício. Grávida de oito meses, ela decide levar adiante um filme B de ficção científica planejado por ele. 

Mas, como costuma acontecer, falta tudo nessa produção, de dinheiro a profissionais, de material a equipamentos. Junto com ela, está o ex-companheiro Davi (Marcus Curvelo), parcialmente envolvido na tarefa.

"O Futuro a Deus Pertence" é o nome do filme que Madalena e sua turma teimam em fazer, lutando contra tudo e todos. São tantas as dificuldades enfrentadas pela equipe que talvez o roteiro (do próprio diretor) tenha carregado nas tintas. 


Montada toda a tralha necessária para um set de filmagem, com barracas, profissionais, câmeras e trilhos, alguém dá o grito: Davi, o diretor sumiu. E o escolhido para o lugar dele é Oswaldo.

Interpretado por Tavinho Teixeira, o novo comandante da produção se acha um verdadeiro Stanley Kubrick. É um maluco, como todos comentam, "mas está tratado, analisado e medicado". 

Os cenários, que mais parecem cavernas lunares, os figurinos e maquiagens exageradas, acabam caindo na bizarrice, assim como as situações e cenas. Se a intenção era mostrar simplicidade, escassez e improvisos comuns em sets de filmagem, não parece ter sido uma boa ideia. 


Sobram esquisitices e o que fica são algumas tiradas (quase) engraçadas de membros da equipe e uma ou outra canção popular cantada pela equipe nas horas de folga, entre uma e outra cerveja. 

O elenco, formado por atores e atrizes pouco conhecidos no eixo Rio-São Paulo, conta ainda com Nataly Rocha como Natasha, Jenniffer Joingley como Jéssica, David Santos como Nonato, entre outros. 

Consta que algumas das situações vividas pela equipe do filme teriam sido inspiradas em apuros reais sofridos por Ticiana Augusto Lima, sócia do diretor Guto Parente. Pode ser. 

Fica nítida, ao final de "Morte e Vida Madalena" (ou seria de "O futuro a Deus pertence"?), a ideia de resistência dos criadores. Fazer cinema é para poucos mesmo. Mas há outras maneiras mais criativas de homenagear essa arte.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Guto Parente
Produção: Tardo Filmes, coprodução Canal Brasil
Distribuição: Embaúba Filmes
Exibição: Centro Cultural Unimed-BH Minas
Duração: 1h25
Classificação: 12 anos
Países: Brasil e Portugal
Gêneros: comédia dramática, ficção


14 setembro 2026

"Viva Marília": uma celebração que poderia revelar mais por trás da estrela

Documentário sobre Marília Pêra foi codirigido pela filha Esperança Motta
com roteiro do ex-marido Nelson Motta (Fotos: Acervo Pessoal/Marília Pêra)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
“Viva Marília” revisita a trajetória de uma das artistas mais versáteis da cultura brasileira. Em cartaz no Cine Belas Artes, o documentário é dirigido por Zelito Viana, com codireção da filha Esperança Motta e roteiro do ex-marido Nelson Motta. 

Narrado pela própria Marília Pêra, o filme percorre sua carreira por meio de entrevistas, cenas de filmes, novelas, espetáculos e programas de televisão, além de fotografias e registros de seu acervo pessoal. 

Produzido pela Mapa Filmes do Brasil tem coprodução de Globo Filmes, Globo News e Canal Brasil, com distribuição da Mapa Filmes e codistribuição da Bretz Filmes.


O resultado é também uma viagem por diferentes momentos do Brasil, acompanhando uma artista que atravessou décadas sem se limitar a uma única linguagem. Teatro, cinema, televisão, comédia, drama e musicais fizeram parte de uma trajetória marcada pela versatilidade e por mais de 80 prêmios.

Filha dos atores Manuel Pêra e Dinorah Marzullo, Marília cresceu cercada pelo teatro e aprendeu desde cedo os códigos do palco. Essa formação ajuda a entender uma carreira construída na capacidade de transitar entre diferentes personagens e linguagens. 


Mas sua história vai além do sucesso profissional. Durante a ditadura militar, esteve no elenco de “Roda Viva”, de Chico Buarque, espetáculo que sofreu uma invasão violenta em 1968. A agressão aos artistas tornou o palco também um espaço de resistência em um período marcado pela censura e pela repressão.

O documentário recupera ainda episódios que ajudam a dimensionar sua relação com outros nomes importantes da cultura brasileira, como Elis Regina, com quem disputou o papel principal do musical Como Vencer na Vida sem Fazer Força. 


Mais do que uma antiga disputa profissional, a história revela a admiração entre duas artistas que fizeram da presença em cena uma de suas principais marcas.

É justamente na maneira de contar essa história que está o principal problema de “Viva Marília”. O filme é extremamente chapa-branca e, ao optar quase sempre pela celebração, deixa pouco espaço para outras visões sobre a atriz. 

A condução da narrativa por Marília dá ao documentário um caráter íntimo, mas também limita os contrapontos. Faltam vozes capazes de tensionar a memória, questionar escolhas e apresentar outras perspectivas sobre a mulher e a profissional. 


Sua vida familiar, os três filhos — Ricardo Graça Mello, Esperança Motta e Nina Morena — e os diferentes relacionamentos que marcaram sua vida também aparecem de maneira bastante superficiais.

Ainda assim, o documentário cumpre um papel importante ao preservar a memória de uma artista que ajudou a construir o imaginário cultural brasileiro. As imagens de arquivo revelam não apenas a passagem do tempo, mas a transformação de Marília diante das câmeras e no palco. 

O problema é que em “Viva Marília” tudo é muito literal: a carreira é apresentada, os momentos importantes são recuperados e os personagens que fizeram parte dessa trajetória são lembrados, mas quase sempre falta o próximo passo — a reflexão. 


O filme poderia questionar mais, provocar mais e explorar as contradições de uma mulher e de uma artista tão complexa. Em vez disso, prefere reafirmar aquilo que já sabemos sobre Marília Pêra.

“Viva Marília” funciona, portanto, como um registro afetivo e uma oportunidade de reencontro com uma grande atriz, mas poderia ser muito mais. Ao transformar sua trajetória quase exclusivamente em celebração, o documentário acaba contando quem foi Marília Pêra, mas pouco se arrisca a perguntar quem ela foi de fato.


Ficha técnica:
Direção: Zelito Viana
Produção: Mapa Filmes do Brasil
Distribuição: Mapa Filmes, codistribuição Bretz Filmes
Exibição: Cine Belas Artes
Duração: 1h20
Classificação: livre
País: Brasil
Gênero: documentário