28 abril 2023

“O Chamado 4” falha do início ao fim com o legado de Samara

Filme japonês dirigido por Hisashi Kimura tem pouca ligação com a famosa franquia norte-americana iniciada em 1998 (Fotos: Paris Filmes)


Larissa Figueiredo 


A franquia “O Chamado”, iniciada em 1998, está entre os novos clássicos do terror e não é segredo para nenhum millennial, ou seja, os nascidos entre 1985 e 1995, o impacto dos filmes para o gênero e para esta geração.  

Mas “O Chamado 4 – Samara Ressurge”, que estreou nesta semana nos cinemas brasileiros, não faz parte da franquia norte-americana, apesar de utilizar da consagrada entidade para emplacar a narrativa. 

Com o título original “Sadako DX”, o longa japonês pertence, na verdade, ao subgênero comédia de horror. 


A primeira aparição de Samara foi há 20 anos. Originalmente, quem assistia a amaldiçoada fita cassete era visitado por ela e levado ao fundo do poço em sete dias. 

Porém, em “O Chamado 4 – Samara Ressurge”, as vítimas só têm 24 horas para tentar escapar da entidade. 

Apoiado no uso indiscriminado das redes sociais pelos jovens e no compartilhamento de informações em massa, o roteiro de Kôji Susuki e Yuga Takahashi foi pensado para atrair a geração Z (nascidos entre 1995 e 2010). 


O filme apresenta a trama da cética Ayaka Ichijo (Fuka Koshiba), uma estudante de pós-graduação que não acredita na maldição até sua irmã mais nova assistir ao vídeo. 

Paralelamente, diversas mortes acontecem sem explicação e rumores de que cópias da fita estariam sendo vendidas começam a viralizar nas redes sociais. 


Por falar em viral, Ayaka tenta provar a todo custo que os eventos se tratam de um efeito placebo pela crença da população na maldição. 

Ainda que sua família esteja destinada à visita de Samara em poucas horas, a protagonista parece não descer do pedestal intelectual e continua racionalizando os acontecimentos sobrenaturais. 


Quando finalmente Ayaka está inserida no enredo do filme, o roteiro começa a dar voltas desnecessárias e cansativas. Diálogos longos e complexos demais sobram, enquanto faltam cenas de suspense e tensão.

Em todo (bom) filme de terror, o protagonista precisa enfrentar seus medos e encarar a entidade. É aí que está o grande erro de “O Chamado 4 – Samara Ressurge” não sente medo, não confronta a si mesma nem as próprias crenças. 


Uma “final girl” que derrota Samara com conceitos básicos de biologia e associações frágeis sobre o comportamento humano na internet não cativa o público e deixa de fazer sentido. 

Os demais personagens parecem deslocados, não são construídos adequadamente e permanecem na sombra da protagonista. 

No auge do filme, começa uma tentativa de romance entre Ayaka e Bunka e os sentimentos do rapaz causam mais medo na mocinha que a própria Samara. 


A crítica satírica à geração Z é pontual, mas fica deslocada no enredo e não é trabalhada depois. O roteiro justifica a “atualização” da maldição com a difusão da informação e as cópias das fitas. 

Tenta falar sobre internet e tecnologia, mas é incoerente e beira o desleixo, principalmente porque continua utilizando a aposentada fita cassete para invocar Samara. 

Conclusão: mudar a receita de um clássico é, quase sempre, fadar o filme ao fracasso. 


Ficha técnica:
Direção: Hisashi Kimura
Distribuição: Paris Filmes
Duração: 1h40
Exibição: nos cinemas
Classificação: 14 anos
Gênero: Terror
Nota: 1 (0 a 5)

27 abril 2023

"Renfield" acaba com o estoque de sangue de Hollywood

Nicolas Cage e Nicholas Hoult dividem as atenções como o conde Drácula e seu assistente comedor de insetos (Fotos: Universal Studios)


Maristela Bretas


Um banho de sangue e violência do início ao fim. E apesar de ser um filme de terror que cumpre o que propõe, "Renfield - Dando Sangue Pelo Chefe" é também uma boa comédia com muita ação que estreia nesta quinta-feira nos cinemas. 

O diretor Chris McKay ("Lego Batman: O Filme" - 2017) entrega uma boa produção para os apreciadores do gênero e a carnificina é tanta que vai faltar tinta vermelha para os próximos filmes do gênero. 


Membros decepados, cabeças cortadas, paredes tingidas com os corpos das vítimas do vilão. Ninguém menos que o famoso Conde Drácula (interpretado pelo vencedor do Oscar, Nicolas Cage) que conta com a ajuda de seu assistente Renfield (Nicholas Hoult, de "X-Men: Apocalipse" - 2016). 


Cage arrasa no papel e conta com um trabalho de maquiagem perfeito, acompanhando a transformação do famoso vampiro, de um quase cidadão de roupas e comportamento estranhos para o monstro assassino.

Hoult também tem seus momentos de mudança, do jovem com aparência "quase inocente" para o serviçal sanguinário que escolhe as vítimas a serem servidas como um banquete para seu chefe. 


A história é contada a partir dessa relação de dependência tóxica e poder. Renfield é o narrador e desabafa sobre seus problemas durante uma sessão coletiva com pessoas que querem deixar seus parceiros ou chefes abusivos.

O longa mostra como Renfield se torna um assistente e, ao mesmo tempo, dependente de Drácula. Como um viciado, ele precisa se alimentar de insetos para adquirir poderes especiais e força descomunal. Mas a vida de assassino e delivery de corpos começa a desagradar o jovem. 


Durante uma de suas caçadas noturnas pelo banquete humano, Renfield conhece a incorruptível policial Rebecca Quincy (interpretada por Awkwafina, de "Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis" - 2021). 

Ele a ajuda a combater uma família de traficantes chefiada por Teddy Lobo (Ben Schwartz) e a mãe dele, Eita (Shohreh Aghdashloo) que matou o pai de Rebecca e domina a cidade e a polícia. 

O jovem passa a questionar os desejos e a insanidade daquele que chama de mestre e descobre que existe uma vida "normal" entre os humanos. 


Renfield decide deixar de ser um vilão e Drácula não fica nada satisfeito. Para puni-lo, vai deixando um rastro de mortes de pessoas ligadas a seu agora ex-ajudante.

O diretor Chris McKay soube usar bem o sarcasmo e a comicidade para mostrar o que seria um relacionamento abusivo entre um chefe e seu subordinado (quem nunca passou por isso?).


Toda essa matança conta com efeitos visuais excelentes, um ponto forte do filme, além das ótimas interpretações de Cage, Hoult e Awkwafina. O ritmo ágil do filme não deixa o expectador se sentir confortável por muito tempo na cadeira do cinema.

"Renfield - Dando Sangue Pelo Chefe" é um filme para pessoas de estômago forte, mesmo tendo um lado cômico. Mas vale a pena conferir, especialmente por Nicolas Cage, que durante entrevista classificou o enredo como algo “corajoso, original e peculiar”.


Ficha técnica:
Direção: Chris McKay
Produção: Skybound Entertainment e Universal Pictures
Distribuição: Universal Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h32
Classificação: 18 anos
País: EUA
Gêneros: terror, ação e comédia

26 abril 2023

“Deixa que Digam” mostra que Jair Rodrigues era a alegria de um país

Documentário do diretor Rubens Rewald consegue colocar o sorriso do cantor no rosto de quem assiste
(Fotos: Elo Studios)



Eduardo Jr.


Prestes a ser lançado nos cinemas, mais precisamente nesta quinta-feira (27), o documentário “Jair Rodrigues: Deixa que Digam”, sobre o cantor, apresenta a trajetória daquele que talvez tenha sido o artista mais alegre do país. O filme pode ser conferido no Una Cine Belas Artes.

Embora o próprio biografado diga que alcançou o sucesso graças a uma canção que ganhou as paradas, parece que Jair estourou porque ele mesmo já era um estouro. Esta é a impressão que fica da obra do diretor Rubens Rewald, distribuída pela Elo Studios. 


O documentário vem enfileirando depoimentos, que são unânimes ao afirmar que Jair não tinha tristezas ou amarguras. Músicos, familiares e pesquisadores vão descrevendo a personalidade do artista agitado, cuja marca registrada era o sorriso largo. Assim como sua parceira em muitas apresentações, Elis Regina.


A estas falas são costurados registros em vídeo e fonográficos. As gravações soam um pouco óbvias na construção da obra, mas funcionam por exemplificar e validar as impressões dos entrevistados. 

A variedade de pessoas ouvidas e o farto arquivo de imagens eliminam qualquer vestígio de monotonia.


Mesmo que, em síntese, todos estejam falando da mesma pessoa, o público pode se divertir com as tentativas de explicar aquele fenômeno que não parava quieto, que tinha uma ginga natural e muita brasilidade. 

E também nos faz entender que cantar samba e depois migrar para o sertanejo é sinônimo de coerência. Afinal, Jair nasceu no campo, negro, de família humilde. Por que não cantar as raízes do Brasil? 

O filho, Jair Oliveira, interpretando o pai numa das cenas

No filme, além dos filhos Jair Oliveira (que interpreta o pai em algumas cenas) e Luciana Mello e da esposa Claudine Rodrigues, temos depoimentos de muitos famosos que conviveram com o artista. 

Armando Pittigliani, Bruno Baronetti, Carlinhos Creck, Cristiane Paoli Quito, Giba Favery, Hermeto Pascoal, Jairo Rodrigues, Marcelo Maita, Mister Sam, Moisés Da Rocha, Paulinho Daflin, Pedro Mello, Rappin’ Hood, Raul Gil, Roberta Miranda, Salloma Salomão, Solano Ribeiro, Théo De Barros, Wilson Simoninha, Zuza Homem de Mello estão entre os que deram depoimentos.


O filme “Deixa que Digam” expõe a versatilidade de Jair, aquele que talvez tenha feito o primeiro rap do Brasil e também foi apresentador de TV. 

Em um dos festivais da canção, o de 1966, Jair Rodrigues vestiu a seriedade que a canção “Disparada” pedia. E emocionou o público. No registro da época é possível ver pessoas na plateia enxugando as lágrimas. 

Luciana Mello, filha de Jair Rodrigues

O documentário se aproxima inclusive de uma questão atual: a cobrança por posicionamento político. A insistência para que um negro que conquistou sucesso e teve voz em plena ditadura se manifestasse também é abordada na obra. 

Didaticamente, e sem ser professoral. E ainda assim uma lição para muitos de nós, que nos definimos como frutos do país do futebol, um jogo em que o improviso encanta e decide. 


Talvez não tenhamos olhado atentamente para um músico de repertório focado em suas raízes, que improvisava e despertava sorrisos. Será que valorizamos esse artista como ele merecia? 

Se ele era símbolo de um país alegre e otimista, onde nos perdemos desse país? Onde nos perdemos de Jair Rodrigues?     


Ficha técnica:
Direção: Rubens Rewald
Roteiro: Rubens Rewald e Rodolfo C Moreno
Produção: Confeitaria de Cinema e FT Estratégias
Distribuição: Elo Studios
Exibição: Una Cine Belas Artes - sala 2, sessão das 18h40
Duração: 1h30
Classificação: 10 anos
País: Brasil
Gênero: documentário

24 abril 2023

“Nintendo e Eu” é uma comédia dramática de amizade, amadurecimento e videogame

Produção filipina é uma viagem no tempo que serve de referência para gerações futuras (Fotos: Pandora Filmes/Divulgação)


Eduardo Jr.


Os entusiastas e saudosistas dos videogames dos anos 1990 provavelmente ficarão curiosos ao se deparar com o título do novo filme do diretor filipino Raya Martin, “Nintendo e Eu” que chega aos cinemas nesta quinta-feira (27), distribuído pela Pandora Filmes.

O console japonês que foi uma febre 30 anos atrás funciona como elemento condutor no longa e provoca resgates afetivos no público. Muito semelhante ao que está acontecendo com "Super Mário Bros - O Filme", que está arrastando pais e filhos aos cinemas. 


O longa filipino é apenas uma metáfora na história de amizade, amor e descobertas. O que de fato se acompanha na telona é a evolução de um grupo de amigos na década de 90, quando começam a deixar a infância pra trás. 

O título original, “Death of Nintendo”, deixa um pouco mais explícita a proposta do roteiro.


Embora seja uma produção das Filipinas, é fácil identificar a cultura norte-americana entranhada na vida desses jovens. Percebe-se o efeito da globalização também na semelhança de “Nintendo e Eu” com outras produções de Hollywood. 

Entre as que estão mais frescas na memória do público vale citar “Stranger Things”, que também apresenta um grupo de adolescentes não muito populares buscando se afirmar no mundo. 


A referência para o diretor vem de outra produção - “Conta Comigo” (1986), que apresenta quatro garotos em busca de aventura e amadurecimento. Assim como no longa dos anos 1980, o filme de Martin também traz na receita amizade, questões familiares e dilemas juvenis. 

A diferença está na composição do grupo. Na produção filipina, uma menina integra o quarteto, e é por meio dessa personagem que a trama ganha "toques" de romance, reflexões sobre desigualdade e questões de gênero. 


Em “Nintendo e Eu”, uma série de terremotos leva à erupção do vulcão Pinatubo, deixando o país sem energia elétrica. Sem o refúgio dos jogos na televisão de tubo, o protagonista Paolo (Noel Comia Jr.) precisa sair de casa. 

É junto dos melhores amigos (e longe da mãe superprotetora) que ele percebe alguns dos dilemas da adolescência e da vida. 

A partir daí, o videogame fica em segundo plano. Apenas as músicas que remetem aos jogos surgem para trazer uma aura de comédia a algumas cenas. 


Assim como em “Conta Comigo”, os personagens de “Nintendo e Eu” também são carentes de uma figura paterna, são filhos de mães solo. Precisam encontrar, sozinhos, respostas sobre sexualidade, coragem e autoconhecimento. 

A leveza do filme está garantida por ser fácil se identificar com as situações vividas pelos adolescentes. 

E também pelos rituais de quem consumiu os games e a cultura dos anos 90, como este que vos fala (atire a primeira pedra quem nunca soprou um cartucho de videogame para que ele funcionasse!). 


Raya Martin nos propõe uma viagem no tempo, tanto pela estética como pelas referências a personalidades e à cultura da época. E vai além, ao mostrar para a geração atual que situações vividas hoje são repetições de décadas atrás, e não mistérios sem solução. 

Em entrevista, o diretor explicou que o visual do filme é, ao mesmo tempo, uma homenagem e um resgate da estética dos anos de 1990, especialmente, dos filmes. "Existe um balanço entre a artificialidade daquela década, mas também a luz natural, muito usada pelo diretor de fotografia Ante Cheng".


“Nintendo e Eu” é uma obra que flerta com o drama e com a comédia, que deixa uma ponta solta no final, mas diverte e tem potencial de fazer o público de +35 lembrar com carinho do passado. 

E refletir que, na vida, o que parece ser "game over" pode ser apenas o "restart" para uma oportunidade de renovação.  


Ficha técnica:
Direção: Raya Martin
Produção: Black Sheep
Distribuição: Pandora Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h39
Classificação: 12 anos
Países: Filipinas, EUA, Singapura
Gêneros: drama, comédia

21 abril 2023

"Os Três Mosqueteiros - D'Artagnan" - um clássico em dois capítulos

Nova versão francesa tem luxo, ação e boas interpretações (Fotos: Paris Filmes)


Maristela Bretas


Está em cartaz nos cinemas - "Os Três Mosqueteiros - D'Artagnan" ("Le Trois Mousquetaires: D'Artagnan"), produção baseada na obra de Alexandre Dumas de 1844 que, desta vez, será dividida em dois capítulos. 

O primeiro episódio do famoso clássico da literatura francesa conta a trajetória do imprudente D’Artagnan (François Civil) e sua jornada para se tornar um dos mosqueteiros do Rei Luis XIII (Louis Garrel) e lutar pela França.


Para assistir ao segundo capítulo, filmado simultaneamente com o primeiro, o público precisará esperar até dezembro deste ano. 

A história começará a partir do final deste episódio inicial e vai se chamar “Os Três Mosqueteiros: Milady". Ele será dedicado à personagem de Eva Green, a vilã Milady de Winter.


Com muitas lutas de espadas, tiros e punhais, "Os Três Mosqueteiros - D'Artagnan" é um filme com planos-sequências que fazem o público se sentir dentro da ação. 

Algumas cenas, no entanto, são longas demais e muito rápidas, deixando o expectador um pouco confuso.


As boas interpretações do elenco, especialmente de Vincent Cassel, Eva Green e François Civil, são destaque do filme. Mas o diretor Martin Bourboulon soube distribuir bem os papéis do elenco, dando a cada ator e atriz a devida importância de seu personagem na história.

Além da ação e do elenco, outro ponto que chama atenção é o luxo da produção, com riqueza de detalhes na reconstituição de época e cuidado com o figurino. 


No filme, D'Artagnan, nascido em Gasconha, no sul da França, está a caminho de Paris para se tornar um mosqueteiro. Mas é deixado para morrer depois de tentar salvar uma jovem de ser sequestrada. 

Ao chegar à cidade a procura de seus agressores, ele se une aos três mosqueteiros - Athos (Vincent Cassel), Porthos (Pio Marmaï) e Aramis (Roman Duris) - para defender a França dividida pelas guerras religiosas e ameaçada pela invasão da Inglaterra. 


Eles precisam provar sua lealdade à coroa e enfrentar as articulações do Cardeal Richelieu (Eric Ruf), que está tentando derrubar o rei do trono.

Entre uma luta e outra, o caminho de D'Artagnan se cruza com o da jovem Constance Bonacieux (Lyna Khoudri), a confidente da rainha Anna (Vicky Krieps). Ao salvar a rainha e sua amada, ele ganha uma inimiga mortal, Milady de Winter, aliada do cardeal.


O longa, inteiramente filmado na Normandia, Bretanha e Altos da França, apresenta ao público belíssimas locações destas regiões francesas. 

O custo estimado desta primeira produção foi de 70 milhões de euros. Agora é esperar que o segundo capítulo dê o encerramento esperado à obra de Dumas.


Ficha técnica:
Direção: Martin Bourboulon
Produção: Pathé Filmes
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h01
Classificação: 14 anos
País: França
Gêneros: aventura, ação

19 abril 2023

Expedição do Dr. Lund pelo Brasil é contada em "O Homem de Lagoa Santa"

“Docudrama” gira em torno da trajetória do paleontólogo pelo interior do país no século XIX (Fotos: Leonardo Barcelo/ Helvécio Martins e Divulgação)


Da Redação


Estreia nesta quinta-feira (20), às 19 horas, no Una Cine Belas Artes, a exibição inédita do longa-metragem "O Homem de Lagoa Santa". O “docudrama” é roteirizado e dirigido pelo diretor Renato Menezes.

Com produção do Grupo Novo de Cinema e TV, Tarcísio Vidigal e Lúcia Fares, o longa ficará em cartaz até o dia 26 de abril, sempre no mesmo horário.

O filme reproduz a trajetória do naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund, interpretado pelo experiente ator mineiro Chico Aníbal. As pesquisas do paleontólogo, que viveu no Brasil durante 45 anos, abriram caminho para Charles Darwin dar prosseguimento à teoria da origem das espécies. 


As semelhanças físicas de Chico Aníbal e Luiz Hippert com Lund e seu secretário Andreas Brandt são surpreendentes. Coube a Helena Penna o papel de Luzia, cozinheira do pesquisador.

Também estão no elenco outros atores conhecidos do teatro mineiro como Carl Shumacher, Célio Scarpa, Neuza Rocha, Rafael Neumayr, Charles Fagundes, Gercino Alves.


As grutas Rei do Mato, em Sete Lagoas, e Maquiné, em Cordisburgo, além de Ouro Preto, Lagoa Santa, Pedro Leopoldo e Matozinhos foram utilizadas como locações. 

O documentário recebeu assessoria técnico-científica de Rosângela Albano, diretora do Centro de Arqueologia Annette Laming Emperaire (Caale), de Lagoa Santa, e do professor e paleontólogo da PUCMinas, Castor Castelle.


Os fósseis de Lagoa Santa

Misto de obra ficcional e documentário, o filme gira em torno da expedição botânica que Peter Lund realizou ao interior do Brasil, em 1833. 

No trajeto, ele se encontrou com o também dinamarquês Peter Claussen e o norueguês Andreas Brandt levando uma amostra de fósseis encontrados em rochas calcárias da região de Lagoa Santa (MG). 

Lund acreditava que esses ossos poderiam ter sido contemporâneos dos animais da Megafauna que há muito pesquisadores acreditavam terem sido extintos durante o dilúvio da Arca de Noé.


Em 1840, a descoberta do “Homem de Lagoa Santa”, o hominídeo mais antigo da América do Sul, derruba as convicções científicas do pesquisador. Elas eram fundamentadas em anos de estudos ao lado de George Cuvier – fundador da paleontologia.

O achado inaugurou o debate e as contradições entre ciência e religião. Colocava em xeque a teoria cristã de que o dilúvio havia dizimado todos os seres vivos na Terra. A teoria de Lund, porém, só chegou a ser confirmada muito tempo depois, em 2002, com base em análises das ossadas.


Filmado em Super 16mm e finalizado em digital, "O Homem de Lagoa Santa" tem direção de arte de Sergio Silveira. Ele reconstitui a arquitetura de meados do século XIX e cenários repletos de detalhes. Entre eles, fósseis originais, as gravuras de Brandt e objetos levados pelos tropeiros da época.

A equipe de produção foi formada por 50 técnicos do Grupo Novo de Cinema e TV e mais de 60 figurantes. 

Com narração de Marcos Caruso e Otávio Augusto, a equipe técnica conta ainda com Silviano Santiago, no texto; Luis Abramo, na fotografia; Marta Luz, na montagem, e música de Guilherme Vaz.


SERVIÇO
Data: 20 a 26 de abril
Horário: 19 horas
Local: Cine Belas Artes – Rua Gonçalves Dias, 1581, Lourdes, BH
Duração: 1h12
Classificação: Livre

14 abril 2023

"O Colibri" aposta na narrativa simples para falar de memórias

Baseado no romance de Sandro Veronesi, filme segue a vida e as relações de um médico desde a década de 1970 (Fotos: Enrico De Luigi)


Marcos Tadeu 
Blog Narrativa Cinematográfica


Responsável por abrir o Festival de Roma e exibido no Festival de Toronto, o longa "O Colibri" estreia no UNA Cine Belas Artes, sob a direção de Francesca Archibugi. A obra é marcada pela simplicidade de sua narrativa ao falar do resgate das memórias e vivências de maneira intimista e intensa.


A história começa no início da década de 1970 e segue por vários anos da vida do protagonista. No longa, conhecemos Marco Carrera (Pierfrancesco Favino), um importante médico que é interrompido durante seu atendimento por um psicólogocom notícias sobre o estado de saúde de Luisa Lattes (Bérénice Bejo), um amor do passado que nunca foi consumado nem esquecido. 


Casado e vivendo em Roma com a esposa Marina (Kasia Smutniak) e a filha Adele (Benedetta Porcaroli), ele terá de confrontar suas escolhas do passado que podem afetar seu futuro. Mas será em Florença onde deverá passar por suas piores provações. 

O longa brinca com as questões de tempo, uma importante ferramenta na narrativa, mesmo que às vezes falte um maior contexto entre os acontecimentos.


Grande parte do público talvez julgue as atitudes de Marco. Ele é um cara que se casou apenas por fachada, e agora quer recuperar seu amor do passado. Tudo isso vai influenciar tanto a vida do protagonista quanto dos demais personagens.

O drama familiar é um ponto positivo que ajuda a segurar as mais de duas horas de duração do filme. Além de Marco temos os pais dele vivendo uma situação parecida. 


As atuações estão boas e nenhum personagem soa exagerado. Pelo contrário, todos estão no mesmo nível de entrega e isso faz com que a história ganhe ainda mais força.

Baseado no romance homônimo de Sandro Veronesi, "O Colibri" é uma produção italiana com muitas camadas sendo abordadas e uma boa conclusão. Vale o ingresso.


Ficha técnica:
Direção: Francesca Archibugi
Produção: Fandango; Rai Cinema, Les Films des Tournelles, Orange Studio
Distribuição: Pandora Filmes
Exibição: UNA Cine Belas Artes - sessões às 16 e 20h30
Duração: 2h06
Classificação: 14 anos
País: Itália
Gênero: drama

13 abril 2023

“O Lodo” promete encantar e instigar plateias Brasil afora

Estranho, forte, real, contundente e mágico, filme dirigido por Helvécio Ratton é baseado no conto homônimo de Murilo Rubião (Fotos: Bianca Aun e Lauro Escorel)


Mirtes Helena Scalioni


Que ninguém se engane. O filme “O Lodo”, baseado no conto homônimo de Murilo Rubião, que estreia nesta quinta-feira (13) em todo o Brasil, não tem nada de leve e divertido como pode parecer no início, quando muita gente ri da insistência meio pegajosa do psiquiatra Dr. Pink.

Ele quer, a todo custo, continuar cuidando do seu novo cliente Manfredo, já que ele, embora deprimido, desiste do tratamento na primeira sessão. 

A cena dos dois discutindo naquele consultório – um no divã e o outro de costas, no sofá – leva o público a inevitáveis risadas. Puro engano.


O grande mérito do filme dirigido pelo mineiro Helvécio Ratton talvez seja este: enlevar, quase enfeitiçar o público até transportá-lo, com destreza e maestria, para um outro lugar.

Devagar, o riso vai virando um sorriso amarelo e, bem aos poucos, uma espécie de desconforto vai sendo construído na cabeça e no corpo do espectador, que acaba atolado num lamaçal – lodo? - que mais parece uma areia movediça.

Roteiro, direção, iluminação, fotografia, edição, tudo parece ter sido minuciosamente pensado para quebrar as estruturas do público.


Dita assim, rasteiramente, a história poderia ser simplesmente resumida como: Manfredo, funcionário burocrático de uma empresa de seguros, anda se sentindo desanimado e procura um especialista com o objetivo de obter um remedinho e voltar à normalidade.

Só que, desde a primeira consulta, o Dr. Pink insiste, de maneira incisiva e autoritária, que seu cliente precisa de novas sessões para falar do passado e, só assim, se livrar do lodo interno que o corrói e adoece.


Quem conhece o escritor sabe que “O Lodo” é essencialmente Murilo Rubião, com seus absurdos concretamente reais, seus delírios solidamente palpáveis.

Sem nenhum estranhamento, o público do filme de Ratton assimila – e aceita – a mágica fantasia dos personagens e acontecimentos. De bom grado e com naturalidade, como se tudo aquilo fizesse parte da vida.

As atuações de “O Lodo” são um capítulo à parte, assim como o cenário, a região mais central de Belo Horizonte, com locais facilmente reconhecíveis por quem conhece a cidade.


Assim como a maioria do elenco, Eduardo Moreira, que interpreta magistralmente o protagonista, faz parte do Grupo Galpão. 

Ele entrega um Manfredo trabalhador, burocrático, solteiro convicto, paquerador e mulherengo, sem nenhuma disposição para remexer o passado, talvez por medo das próprias lembranças.

Renato Parara, outro ator experiente, faz com brilho o esquisitíssimo psiquiatra que passa a perseguir seu cliente tanto em pesadelos como na vida real.


Estão ainda no elenco, todos com atuações perfeitas e na medida, Teuda Bara como D. Sirlene, a dedicada empregada de Manfredo; Maria Clara Strambi e Inês Peixoto como Epsila, a irmã adolescente e depois adulta do protagonista; Rodolfo Vaz como Xavier, o colega de trabalho de caráter duvidoso; Thaís Mazzoni como a colega de trabalho gostosinha Ana.

Temos também Fernanda Vianna como a amante Laura; Samira Ávila como a sedutora secretária do Dr. Pink; Mário César Camargo (que nos deixou há pouco tempo), como o chefe da seguradora; e Claudio Márcio como o estranho menino que chega a Beagá com Epsila.


Também é preciso citar a fotografia ora onírica, ora real, de Lauro Escorel, e a participação de L.G Bayão como roteirista parceiro de Helvécio Ratton a partir do conto. 

Com facilidade, ao final, o público vai sair com a certeza de que o grupo foi cuidadosamente montado para que a magia do filme pudesse acontecer. Imperdível!


Ficha técnica:
Direção: Helvécio Ratton
Produção: Quimera Filmes
Distribuição: Cineart Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h34
Classificação: 14 anos
País: Brasil
Gênero: drama