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05 maio 2022

"Klondike - A Guerra na Ucrânia", um longa sobre mulheres, resistência e solidão

Oksana Cherkashyna é o destaque da produção interpretando Irka, uma ucraniana grávida vítima do conflito de seu pais com a Rússia (Fotos: Pandora Filmes/Divulgação)


Marcos Tadeu - blog Narrativa Cinematográfica


Angustiante, sem dúvida essa é a palavra que define "Klondike: A Guerra na Ucrânia", longa de Maryna Er Gorbach, ganhadora do Prêmio de Direção para filmes estrangeiros no Festival de Sundance e do Prêmio do Júri Ecumênico no Festival de Berlim deste ano. A obra, distribuída pela Pandora Filmes, estreia nesta quinta-feira em Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Brasília, Recife, Porto Alegre, Aracaju e Balneário Camboriú.

No filme, somos situados, no ano de 2014, na cidade de Donetsk, nas proximidades da fronteira entre Ucrânia e Rússia, onde vive o casal Irka (Oksana Cherkashyna) e Tolik (Sergey Shadrin). O território é palco de disputa desde o começo da Guerra em Donbas. A queda de um avião civil na região, abatido por mísseis e que deixou quase 300 mortos, deixa ainda mais tenso o casal que aguarda o nascimento do primeiro filho. Um rastro de tristeza e luto toma conta de todos.


É muito rica a construção do roteiro nas cenas iniciais de Irka e Tolik. Eles descrevem não só com palavras a questão do sonho ideal, mas também por seus papéis de parede com uma bonita praia de fundo. O início é um ponto forte do roteiro: ao mesmo tempo em que o casal sonha com a vida ideal, entra em choque com a chegada da guerra, com seus mísseis e explosões. Mesmo não mostrando claramente, apenas com o som do combate ao fundo da narrativa, é possível sentir que o sonho dos futuros pais começou a desabar.


Oksana Cherkashyna interpreta Irka com maestria e traz todas as suas camadas, principalmente por mostrar as dores e dificuldades, não só da gravidez, mas do contexto do caos instaurado ao redor. Sua dualidade é um fator que chama a atenção. Enquanto sonha em sair com seu marido daquele lugar e daquelas condições, ela também tem demonstra um forte sentimento de pertencimento. Mesmo a casa estando em total desordem, Irka ainda se preocupa em realizar tarefas básicas, como tirar a poeira e, de alguma forma, tentar reconstruir, aquele lar. 


Tolik, por outro lado, apresenta um lado quase racional. Mesmo não querendo ficar ali, ele não sabe lidar com os sentimentos da esposa. No desespero, tenta oferecer afeto de maneira quase brusca e quando sua esposa o rejeita, ele começa a beber. É a forma encontrada para lidar com os conflitos internos e externos e não estar sóbrio em meio a todo esse contexto cru escancarado pela guerra.

A trama começa a ganhar mais força quando o irmão de Irka, Yaryk (Oleg Scherbina), um contraste com Tolik, chega à casa do casal e desconfia que o marido de sua irmã esteja ligado a grupos separatistas pró-Rússia. Muitas vezes, Yarik chama o cunhado de traidor, trazendo para dentro de casa o conflito e disputa entre ucranianos e russos. O filme mostra que cada um tem suas razões e consegue que nos tornemos solidários com os irmãos, mas quem acaba enfrentando tudo sozinha é Irka.


Os aspectos técnicos do longa também reforçam a guerra, a solidão, a tensão por meio do designer de produção. A fotografia de Svyatoslav Bulakovskiy é cirúrgica ao capturar o clima frio e cortante desses sentimentos. 

Também temos a bela trilha sonora de Zviad Mgebry, que consegue captar clima sombrio e cru que a todo o momento deixa o telespectador angustiado pelos personagens que ali estão. O roteiro é também assinado pela diretora Maryna Er Gorbach que, em determinado momento conduz a câmera de forma suave para teletransportar o telespectador por aquele cenário.


O conflito

"Klondike - A Guerra na Ucrânia" nos mostra que o conflito entre Rússia e Ucrânia não é de hoje e nada mais é do que a decisão dos russos de mandar sua força militar para a região Leste do país vizinho para dominar vilas e cidades. Os rebeldes pró-Rússia chamaram a região de Dombas de Luhansk e República Popular de Donetsk. 

Mas o governo ucraniano afirma que os russos ocuparam o local e se recusa a negociar com qualquer república separatista. A Ucrânia chama os rebeldes de "invasores", enquanto a Rússia trata os separatistas de "milícia" em defesa de Kiev. 


Em meio a isso tudo, a força maior é a de Irka, com seu instinto de sobrevivência e de não deixar de seguir em frente, mesmo com a ameaça de ter seus sonhos desfeitos por uma guerra que ela não pediu e da qual não pode fugir. 

O que mais chama a atenção nesse cenário caótico é a falta de esperança e de perspectiva de mudança de vida. Fico pensando qual futuro terá aquela criança que está para nascer e como será criá-la? Esses são alguns dos questionamentos com os quais a diretora nos provoca. 

Trata-se de uma obra forte, com caráter de urgência a ser debatido, onde imperam o a guerra, o medo e, principalmente, a solidão. Torço para que todos esses aspectos chamem a atenção para outros grandes festivais e, principalmente, o Oscar. 


Ficha técnica:
Direção: Maryna Er Gorbach
Distribuição: Pandora Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h40
Países: Ucrânia / Turquia
Gêneros: drama / guerra

21 fevereiro 2022

“A Ilha de Bergman”: filme cabeça e metalinguagem para lembrar a obra do genial diretor sueco

O filme se passa na ilha de Fårö, na Suécia, onde o cineasta passou boa parte de sua vida (Fotos: Pandora Filmes/Divulgação)


Mirtes Helena Scalioni


Fårö fica no Mar Báltico, a alguns quilômetros de Gotland, na Suécia. É a segunda maior ilha da província, com 5 quilômetros de comprimento e o nome se escreve assim, com uma estranha acentuação no “a” e trema no “o”.

Mas o que a torna famosa é o fato de ter sido, por muito tempo, o refúgio do angustiado Ingmar Bergman, que realizou ali muitas de suas obras. E hoje o lugar volta à cena, por ter sido motivo e inspiração para “A Ilha de Bergman” (“Bergman Island”), em cartaz nos cinemas a partir desta quinta-feira (24).


Não é preciso ser profundo conhecedor de Bergman para assistir ao longa dirigido pela francesa Mia Hansen-Løve (“O Que Está Por Vir” – 2016). Até porque não se trata propriamente de uma homenagem ao diretor, embora se passe na ilha, mostrando e citando ideias dele. Na verdade, trata-se mais de uma reflexão sobre o difícil processo de criação na arte e como ele pode se confundir com a própria vida do artista.

O casal americano Chris (Vicky Krieps) e Tony (Tim Roth) chega à ilha em busca de inspiração para seus próximos trabalhos. Ambos são cineastas – ele, mais velho e reconhecido. Ela, jovem em início de carreira, planejando escrever um roteiro. Pelo que se pode perceber, o relacionamento entre os dois não anda bem, mais entediado do que em crise.


Aos poucos, eles vão descobrindo o lugar que, planejado para fãs de Ingmar Bergman e turistas curiosos, é cheio de referências ao diretor que, aos 42 anos, já havia criado e dirigido 25 filmes. Estão lá a árvore de “Gritos e Sussurros” (1972), o piano da quarta mulher do cineasta, o quarto onde foi filmado “Cenas de um Casamento” (1973)...

Todos falam muito do diretor, do que ele gostava, no que acreditava. Há até um estranho safari de ônibus, com guia, visitando as locações. E uma sala de projeção onde passam os filmes dele.


“A Ilha de Bergman” não é um filme de fácil assimilação, daqueles que contam uma história com começo, meio e fim. Com roteiro da própria diretora, as cenas se arrastam entre passeios de bicicleta, diálogos e paisagens e, a certa altura, o espectador é surpreendido com cenas de “O Vestido Branco”, que está sendo escrito pela jovem Chris, um filme dentro do filme – pura metalinguagem. E, claro, em algum momento, ficção e realidade se misturam e os personagens se confundem. É interessante. Mas não prende muito e demanda certa atenção.


Além do casal, estão no filme, em participações menores, Hampus Nordensen como Hampus, uma espécie de flerte de Chris na ilha; Mia Wasikowska como a Amy, do filme dentro do filme; e Anders Danielsen Lie – ora como Joseph, ora como Anders, dependendo da obra focada no momento.

O final – os finais, melhor dizendo – são reticentes e inconclusos. Pode frustrar, mas há quem goste. E, no fundo, não deixa de ser uma forma de se lembrar das muitas obras-primas do grande Ingmar Bergman.


Ficha técnica:

Direção e roteiro: Mia Hansen-Løve

Distribuição: Pandora Filmes

Exibição: nos cinemas

Duração: 1h52

Classificação: 14 anos

Países: França, Bélgica, Alemanha, Suécia, México

Gênero: drama

22 setembro 2021

Sem tomar partido, “Aranha” fala de grupo fascista que sonhava com um Chile de extrema direita nos anos de 1970

O desempenho impecável do elenco nas duas fases é um dos grandes méritos da produção (Fotos: Pandora Filmes/Divulgação)


Mirtes Helena Scalioni


Pelo menos dois detalhes deixam claro que “Aranha” ("Araña"), filme do diretor chileno Andrés Wood, que entra em cartaz nos cinemas nesta quinta-feira, não veio para virar um blockbuster. O primeiro: em vez de narrar a história com começo, meio e fim, a direção optou por recortes, com idas e vindas, revezando cenas dos anos de 1970 e da atualidade. 

O segundo: o final, tão inusitado quanto inesperado, deixa no espectador um gosto de incompletude. Ambos são típicas características de um bom “filme de arte”, como querem alguns.


O roteiro, de Guilhermo Calderón, é interessante e curioso: no início da década de 1970, em pleno governo Allende, um grupo de extrema direita chamado Pátria e Liberdade (Patria y Liberdad) programa e comete atentados violentos em nome de um sonhado nacionalismo.

A ideia é matar o presidente Allende e combater o comunismo, dando apoio ao golpe de Estado do general Augusto Pinochet. Entre os mais atuantes dessa turma, estão os jovens Inés (Maria Valverde), Justo (Gabriel Urzía) e Gerardo (Pedro Fontaine), que vivem um conturbado e estranho triângulo amoroso.


Quarenta anos depois, um crime reaproxima os agora adultos Inés (Mercedes Morán), que se casou com Justo (Felipe Armas), e Gerardo (Marcelo Alonso), que reaparece depois de um longo sumiço. A reconstituição de época e figurinos, irrepreensíveis, são partes imprescindíveis da trama.

O desempenho impecável do elenco nas duas fases, que tem até participação de Caio Blat como Antonio, um dos líderes do movimento fascista, é um dos grandes méritos de “Aranha”, que às vezes se torna confuso graças à vertiginosa mudança de época. O trio principal, tanto na versão jovem quanto na maturidade, não deixa a peteca cair, evitando que o espectador se sinta tentado a julgar os três como bandidos. 


Principalmente Mercedes Morán, que faz uma Inés adulta acima de qualquer suspeita, interpretando uma empresária influente e poderosa. Logo no início do filme, como um aviso, o longa – uma produção de Chile, Argentina e Brasil - deixa claro que a violência faz e vai fazer parte dessa história.

Crimes, bombas, correrias, tiros, pichações, atritos e reuniões secretas são intercalados, com muita naturalidade, com as cenas calientes entre Gerardo e Inés, sempre deixando dúvida se a traição é aceita ou será vingada por Justo, o marido dela.


Interessante também é saber que Andrés Wood se tornou conhecido – e reconhecido - no Brasil principalmente por dois filmes: “Violeta foi para o céu” e “Machuca”. Tanto o primeiro, uma cinebiografia da cantora e compositora Violeta Parra, quanto o segundo, sobre a desigualdade social no Chile pós-golpe, são longas, digamos, de esquerda.

Em “Aranha”, o diretor mostra exatamente o outro lado da moeda. Não há, claro, nenhum julgamento. Mas não deixa de ser curioso, principalmente nesses tempos de polarização vividos praticamente em todo o mundo. Ou seria um alerta?


Ficha técnica:
Direção: Andrés Wood
Exibição: Una Cine Belas Artes - Sala 3 - sessão 14h30
Produção: Bossa Nova Films, Magma Cine, Andrés Wood Producciones  
Distribuição: Pandora Filmes
Duração: 1h45
Classificação: 16 anos
Países: Chile / Argentina / Brasil
Gêneros: suspense / crime

06 setembro 2021

"O Bom Doutor" - uma boa opção para quem gosta de comédia

O veterano ator Michel Blanc e o comediante e youtuber Hakim Jemili formam a dupla principal desta produção francesa (Fotos: Pandora Filmes/Divulgação)


Jean Piter Miranda


É véspera de Natal em Paris. O experiente médico Serge Mamou-Mani (Michel Blanc) segue de plantão, rodando com seu carro, esperando os chamados de urgência. Entediado, mal humorado e um tanto alcoolizado, ele sofre um acidente e fica incapacitado de fazer os atendimentos. 

Sem ter o que fazer, e pra não perder o emprego, ele coloca o jovem entregador de comida Malek Aknoun (o youtuber Hakim Jemili) para atender os pacientes em seu lugar. Essa é a história de “O Bom Doutor” (2021), comédia francesa que estreia nesta quinta-feira (9) nos cinemas.


À primeira vista, é meio estranho se localizar no filme. Um médico que atende chamados em casa? E não se trata de serviço público. É um atendimento particular que tem que ser pago ao fim da consulta. Não é algo comum aqui no Brasil. Então, bate aquele estranhamento. “Será que é assim mesmo na França?”. Passados os primeiros minutos, dá pra ir se ambientando.

Serge é um sujeito ranzinza, até meio grosseiro. Mas dá pra simpatizar com ele. Trabalhar em uma véspera de Natal na Cidade Luz? Não tem como ficar de bom humor, né? Só que essa indisposição vai se agravando e logo chegam reclamações sobre a conduta do médico. Ou seja, ele não pode mais pisar na bola, se quiser manter o emprego.


Mas há algo mais sobre o médico, não é só tédio e mal humor. Tem tristeza no meio. Uma história que Serge ainda não superou. E ele vai ter que lidar com isso também. Tudo na mesma noite. Tudo fica bem confuso após o acidente que o impossibilita de andar. 

Entra em cena Malek, um jovem entregador de comida de aplicativo, um cara cheio de energia, boa vontade e otimismo. Os dois acabam formando uma dupla pouco convencional e é aí que começam as cenas engraçadas. 


Malek com fone auricular vai ao encontro dos pacientes, recebendo orientações de Serge, que fica no carro. E logo vem um, vem outro, e mais outro atendimento. Tudo correndo sem nenhum problema. E, claro, dá pra saber que uma hora as coisas vão dar errado. Cada vez mais surgem situações cômicas. Um humor diferente das comédias produzidas por Hollywood, com humor e um lado humano. É engraçado, mas nem todo mundo vai rir.


É evidente que Serge e Malek, mesmo apesar das diferenças, vão desenvolver uma amizade. Tudo se desenrola de forma natural, sem forçar a barra. Tem um pouco de drama e ainda sim o filme é bem leve. Dá pra rir e se entreter. As atuações são boas. Há apenas um ponto no roteiro que pode incomodar: ele força a barra para vender o aplicativo Uber como sonho profissional. Tirando isso, o restante é bom. Vale o ingresso. 


Ficha técnica:
Direção: Tristan Séguéla
Exibição: nos cinemas
Distribuição: Pandora Filmes
Duração: 1h30
Classificação:
País: França
Gênero: comédia

06 agosto 2021

"O Diabo Branco" é um filme de terror que não assusta ninguém

A viagem de férias de um grupo de jovens  se torna um pesadelo nesta coprodução entre Argentina e Brasil (Fotos: Pandora Filmes)


Jean Piter Miranda


Para quem gosta de um filme de terror, já está em cartaz nos cinemas a coprodução entre Brasil e Argentina, “O Diabo Branco” ("El Diablo Blanco"). O longa conta a história de quatro amigos que vão para o interior passar uns dias de férias em uma pousada. Uma espécie de hotel fazenda, bem retirado.

E o que parecia ser uma temporada de descanso e lazer acaba se tornado um tormento com o surgimento de um homem misterioso. O grupo se vê preso em uma lenda maligna que toma conta da pequena cidade.


É bem clichê a história de um grupo de amigos ir para um lugar “mal assombrado”. "O Diabo Branco" parte dessa fórmula, muito utilizada no cinema americano, com pistas deixadas ao longo do filme. Seria um quebra-cabeça para o espectador juntar os pedaços e ficar preso, instigado com os próximos acontecimentos. Mas isso não acontece. Não há nada oculto e nem é preciso fazer muita força pra entender o que está se passando. 

O filme tem ainda outros clichês. Pessoas que parecem hostis a princípio, mas que não são os vilões. Um personagem que parece louco, mas que diz coisas sensatas e importantes. Por parecer descontrolada, ninguém liga. Tem também o mocinho, que banca o corajoso e faz burradas impensadas. É bem incômodo ver tudo isso. Sem contar os erros de roteiro sendo repetidos em uma produção que tenta se vender como novidade. 


E as mortes vão ocorrendo. Mesmo assim, o grupo não consegue ir embora. Pessoas normais fugiriam a pé, mas não ficariam de jeito nenhum. Logo, é um tanto ofensivo para a inteligência de quem está assistindo aceitar que o grupo é tão burro ou tão ingênuo, exatamente por se tratarem de adultos. Os acontecimentos que forçam os jovens a ficarem presos no local não convencem, são situações bem forçadas.


Dá pra notar também que o filme foi feito com um baixo (ou talvez baixíssimo) orçamento. São poucas as locações e cenários e, praticamente, não há efeitos especiais. O elenco é bem pequeno. Não houve nem mesmo o cuidado em caracterizar uma viatura de polícia. É um produto simples, um tanto previsível e bem frustrante por não ter reviravoltas. 

"O Diabo Branco" começa e termina sem grandes emoções. Sem que o espectador consiga ter simpatia pelos protagonistas. A história caminha do início ao fim sem novidades, sem sustos, sem medo, sem nada pra pensar depois. Um filme que destoa muito das grandes produções argentinas dos últimos anos. É uma tentativa de fazer terror que falhou. 



Ficha técnica:

Direção e roteiro: Ignácio Rogers

Distribuição: Pandora Filmes

Exibição: nos cinemas

Duração: 1h23

Países: Argentina / Brasil

Gênero: Terror

Nota: 2,5 (de 0 a 5)

10 julho 2021

"Pedro e Inês, O Amor Não Descansa" leva poesia e o amor quase impossível para as telas do cinema

História é contada em três épocas distintas, empregando os mesmos atores principais - Joana de Verona e Diogo Amaral (Fotos: Pandora Filmes/Divulgação)

Jean Piter Miranda


Paixão que nem o tempo separa. Essa é a história de “Pedro e Inês, O Amor Não Descansa”, coprodução entre Portugal, França e Brasil que entrou em cartaz nos cinemas nessa semana em várias cidades brasileiras (exceto Belo Horizonte). O longa conta a história do casal que luta para ficar junto em três épocas distintas - passado, presente e futuro. A obra, uma adaptação do romance “A Trança de Inês”, de Rosa Lobato Faria, foi a mais vista pelos portugueses este ano.



Para começar a entender é bom recorrer a uma história real muito conhecida em Portugal sobre Dom Pedro I. Ele tinha uma amante, Inês de Castro, com quem não pode se casar, quando ainda era príncipe. Ao assumir o trono, o rei ordenou que Inês, já morta, fosse desenterrada e, postumamente, colocada no trono e coroada rainha.

A história de Dom Pedro I, passada na Idade Média, é uma das que são contadas no filme. A outra, embora futurista, é ambientada em uma pequena comunidade cheia de regras rígidas. E a narrativa vivida no presente é bem urbana e pode se dizer que se passa nos dias atuais. Em todas elas, Pedro e Inês se encontram, se apaixonam, mas não podem ficar juntos.



Ou melhor. Eles podem ficar juntos. Não sem problemas. Não sem enfrentarem as consequências. As leis, os costumes, a família e, principalmente, o fato de que Pedro sempre está de certa forma comprometido. Ele nunca está livre quando encontra com Inês. E a separação trágica parece sempre inevitável, por mais que se tente fugir disso. Destino? Predestinação?


O ponto de destaque do filme é que, nas três histórias, os atores são os mesmos - Diogo Amaral (Pedro) e Joana de Verona (Inês). Mudam os cenários, as roupas e as falas. Mas os rostos são mantidos. Isso facilita a ligação. Há um Pedro narrador, sempre melancólico, fazendo reflexões sobre sua vida, suas dores e sua amada.

Uma narrativa poética acompanhada de fundos musicais que dão uma ambientação especial a cada cena. E sim, as imagens são muito bonitas. O filme foi rodado no verão de 2017 em quatro concelhos do distrito de Coimbra (Cantanhede, Montemor-o-Velho, Lousã e Coimbra), em Portugal.



As cenas são quase todas em ambientes fechados. E as histórias vão se intercalando, caminhando para o desfecho. Tem um pouco daquela lenda japonesa, do cordão vermelho que liga duas pessoas. Que faz com que, mais cedo ou mais tarde, elas se encontrem. Em "Pedro e Inês" é como se essa ligação ultrapassasse vidas.

É um filme, de certa forma lento. Se considerarmos o quão acelerado está o mundo. Em tempos de tuites e textos curtos. De fazer tudo ao mesmo tempo. Logo, parar por duas horas para ver uma história de amor é poesia e pode ser uma experiência que cause estranhamento a muitos. Mas é uma obra necessária, que chega na hora certa. Quem quiser tirar um tempo, vai ver que vale a pena.


Ficha Técnica:
Direção e Roteiro
: António Ferreira
Produção: Persona Non Grata Pictures
Países: Portugal, Brasil e França
Distribuição: Pandora Filmes
Duração: 2 horas
Classificação: 16 anos
Nota: 3,5 (0 a 5)

11 março 2021

"O Último Jogo" traz o lado cômico da rivalidade entre Brasil e Argentina

A história se passa entre as cidades vizinhas de Belezura e Guarpa (Fotos: Michel Gomes/Pandora Filmes)

Wallace Graciano

A rivalidade entre Brasil e Argentina sempre esteve intrínseca no imaginário dos dois lados dos países sul-americanos. De outrora aliados políticos, os coirmãos tiveram, ao longo dos tempos, ânimos que foram se aflorando pelas disputas comuns a competidores antagônicos, acirrando-se conforme o futebol tornou-se proeminente na cultura popular dos dois lados das Cataratas do Iguaçu. 

E é justamente essa temática que envolve “O Último Jogo”, que teve estreia adiada nos cinemas para o mês de maio, mostrando como levaram a campo a disputa entre cada um dos lados da fronteira.


A história se passa em Belezura, uma cidade que tem como grande atividade econômica a venda de móveis. Porém, com uma crise que assolava e ameaçava o futuro dos moradores locais, precisavam migrar para outros mercados. Antes de tudo, porém, não poderiam deixar de desafiar os arquirrivais de Guarpa, os vizinhos portenhos, em uma partida de futebol.


O que não esperavam é que a derrota viria e ela foi muito amarga, tanto que o treinador foi cobrado por torcedores e um narrador um tanto quanto caricato (isso tudo contando com uma bela sequência de imagens carregadas de humor). Porém, o dono do boné canarinho promete uma revanche daqui uma semana. E é aí que a trama se desenvolve.


O hiato entre os dois domingos é marcado por uma série de acontecimentos que ficam secundários graças à rivalidade latejante que envolve a cidade. Da malandragem aos dramas por anseios e ambições em xeque, o roteiro de Roberto Studart nos traz um filme cômico, com várias camadas, que circundam como a paixão pelo esporte bretão pode ser o veneno e o remédio para qualquer problema.


O grande destaque fica por conta da trilha sonora composta por Julian Carando, carregada de instrumentos típicos da identidade nacional. Ela rouba a ambientação até mesmo frente às boas tomadas e diálogos cheios de bom humor. “O Último Jogo” é o primeiro longa metragem do diretor Roberto Studart, responsável pelos documentários "Prá Lá do Mundo" (2012) e “Mad Dogs” (2016).

Ou seja, vista sua camisa, pegue sua bebida favorita e vá curtir as quase duas horas de “O Último Jogo”. As brigas, mentiras, traições e belas jogadas serão uma diversão garantida para você.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Roberto Studart
Produção: Truque Produtora
Distribuição: Pandora Filmes
Duração: 1h39
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gêneros: Comédia / Esporte

18 abril 2020

Estúdios de cinema anunciam novas datas de estreias de suas produções

(Montagem sobre fotos de Divulgação)

Maristela Bretas

O risco de contaminação pelo Covid-19 provocou também interrupções nas produções cinematográficas. Vários filmes com estreias previstas para o primeiro semestre deste ano, assim como a finalização de outras dezenas, precisaram ser adiados para os próximos meses, alguns até mesmo para 2021. Os Estados Unidos enfrentam hoje a pior crise na área de saúde de sua história. O país ocupa, até o momento, o primeiro lugar mundial em número de pessoas infectadas e mortas pelo coronavírus.

Com previsões otimistas, apesar de a doença ainda estar fortemente presente em diversos países, como o Brasil, algumas produtoras anunciam o retorno de suas estreias a partir de junho e início do segundo semestre. Já as salas de cinema em Belo Horizonte ainda estão sem data de reabertura por causa da pandemia. Grandes redes como Cineart, Cinemark e Cinepolis, trabalham com a possibilidade de reabrirem suas salas a partir de 30 de julho, mas não há garantias. Veja abaixo as novas datas de lançamentos das produções mais esperadas:

Paramount Pictures

A aguardada continuação "Um Lugar Silencioso - Parte II" ("A Quiet Place - Part II") também ganhou nova data - 3 de setembro de 2020. Novamente com direção e roteiro de John Krasinski, o terror retoma a história logo após os acontecimentos mortais do primeiro filme: Evelyn Abbott (Emily Blunt), seu bebê e os filhos Regan (Millicent Simmonds) e Marcus (Noah Jupe) precisam agora encarar o mundo afora, lutando em silêncio para sobreviverem às criaturas e outras ameaças pelo caminho.


Dia 30 de julho foi mantida a data pela Paramount para a estreia de "Bob Esponja: O Incrível Resgate" ("Sponge Bob Square Pants 3"), apesar de somente em 7 de agosto a animação chegar aos cinemas dos EUA. A animação é dirigida por Tim Hill.

Outra estreia esperada - "Top Gun: Maverick" ("Top Gun: Maverick") teve seu lançamento mudado de 23 para 25 de dezembro de 2020. Tom Cruise vive um de seus mais marcantes personagens, ao lado de Jennifer Connelly, com direção de Joseph Kosinski.


O grupo Disney fez uma reformulação radical na programação de seus lançamentos em todas as suas produtoras por causa do coronavírus. Alguns países onde estavam previstas locações também precisaram ser mudados.

Marvel
Dirigido por Cate Shortland, o filme "Viúva Negra" ("Black Widow"), a grande produção da Marvel Studios para este ano teve nova data de estreia marcada para 5 de novembro. Scarlett Johansson, novamente no papel da vingadora Natasha Romanoff, retorna para seu país de origem e se une a antigos aliados para acabar com o programa governamental que a transformou em uma assassina. O elenco conta ainda com Florence Pugh e David Harbour.

Também ganharam novas datas:
- "Os Eternos” - 11 de fevereiro de 2021
- “Shang-Chi"- 6 de maio de 2021
- “Doutor Estranho 2” - 4 de novembro de 2021
- “Thor: Love and Thunder” - 17 de fevereiro de 2022
- “Pantera Negra 2” - 7 de maio de 2022
- “Capitã Marvel 2” - 7 de julho de 2022


Walt Disney 

Pela Walt Disney Studios, os adiamentos atingiram o live-action "Mulan", que está com data prevista (podendo ser novamente mudada) para 24 de julho de 2020. Já a aventura "Jungle Cruise", estrelada por Dwayne Johnson e Emily Blunt, que recebeu ampla divulgação há dois meses, deverá estrear apenas em 20 de junho de 2021. O mesmo ocorreu com "Indiana Jones 5", com Harrison Ford voltando a viver o papel principal,. A nova data foi marcada para 29 de agosto de 2022.

Algumas datas, de produções Disney foram mantidas, no entanto:
"Soul", animação da Pixar -  25 de junho no Brasil
"Amor, Sublime Amor" - 18 de dezembro. A refilmagem da comédia musical  "West Side Story", de 1961, tem direção de Steven Spielberg e elenco formado por Ansel Elgort, Rachel Zegler e Rita Moreno.
" The Last Duel" (ainda sem título em português) - 25 de dezembro - drama de Ridley Scott, com Matt Damon, Adam Driver, Jodie Comer e Ben Affleck.


Fox e Foz Searchlight também tiveram suas estreias mudadas.
"Free Guy - Assumindo o Controle" com Ryan Reynolds, passou de 3 de agosto de 2020 para 11 de dezembro de 2020.
"The French Dispatch" (também sem título em português), dirigido por Wes Anderson, passou de 24 de agosto para 16 de outubro de 2020.

Warner

A Warner Bros. Pictures alterou com poucos meses de diferença sua grande aposta do ano. Mulher-Maravilha 1984 ("Wonder Woman 1984"), previsto para 4 de junho foi remarcado para estrear em 13 de agosto no Brasil. A produção traz novamente a dupla Patty Jenkins na direção e roteiro e Gal Gadot no papel principal. O elenco conta ainda com Pedro Pascal (Maxwell Lord), Kristen Wiig (Mulher-Leopardo), Robin Wright (Antíope), Connie Nielsen (Hippolyta) e Chris Pine, que retorna como Steve Trevor.


Universal Pictures

Nem o superagente James Bond escapou do coronavírus e precisou ter a estreia de "007 - Sem Tempo Para Morrer" ("No Time To Die") adiada para 19 de novembro de 2020 Daniel Craig retorna ao papel do famoso espião com licença para matar para ajudar seu amigo da CIA, Felix Leiter (Jeffrey Wright) contra o enigmático Safin (Rami Malek) aparece com uma tecnologia perigosa. A direção é de Cary Joji Fukunaga.

Já a animação da DreamWorks e Universal Pictures, “Trolls 2” ("Trolls World Tour") chega aos cinemas brasileiros no dia: 8 de outubro de 2020. Dirigido pela dupla David P. Smith e Walt Dohrn, “Trolls 2” conta com um grande elenco nas vozes originais, que inclui Anna Kendrick, Justin Timberlake, Kelly Clarkson e Jamie Dornan. A versão nacional do longa traz as vozes de Hugo Bonemer (Tronco), Jullie (Poppy), Hugo Gloss (Guy Diamante) e Simone Mendes (Delta D). Assista ao trailer aqui.

A franquia "Velozes e Furiosos", que estrearia o nono filme em maio deste ano, também precisou adiar os planos e divulgou uma nota para os fãs, informando que eles terão de esperar mais um ano para ver Vin Diesel e sua turma. A nova data está prevista para 2 de abril de 2021 nos EUA. E explicam que a mudança foi feita 'pela segurança e em consideração àqueles que acompanham a saga pelo mundo possam assistir o novo capítulo.


Sony Pictures
Também os lançamentos da Sony Pictures ganharam novas datas nos cinemas norte-americanos, mas ainda não foram anunciadas no Brasil.

Fatherhood” – antecipado para 23 de outubro de 2020
Pedro Coelho 2: O Fugitivo” – 15 de janeiro de 2021
Ghostbusters – Mais Além” ("Ghostbusters III) – 5 de março de 2021
Morbius” – 19 de março de 2021
Uncharted” – 8 de outubro de 2021

Diamond Films
Por meio de nota enviada à imprensa, a Diamond Films  informou que atendendo as recomendações nacionais e internacionais relativas aos cuidados para evitar a propagação da Covid-19 e em prol da contenção de riscos, prorrogou seus lançamentos sem data definida.

Distribuidoras brasileiras

No Brasil, a Downtown Filmes e a Camisa Listrada, distribuidora e produtora da comédia “No Gogó do Paulinho”, informaram que o lançamento do longa, marcado para essa quinta-feira, 16 de abril, foi adiado, ainda sem nova data. Mas confirmou que mantém a previsão de estreia para o ano de 2020. A comédia reúne novamente a divertida dupla Maurício Manfrini, como o popular Paulinho Gogó, e Cacau Protásio, como Nega Juju. Em um banco de praça ele narra suas histórias para diferentes ouvintes, enquanto aguarda a chegada da sua amada.


A Distribuidora Pandora Filmes anunciou o adiamento da estreia do longa "Tel Aviv em Chamas" ("Tel Aviv on Fire"), do diretor Sameh Zoabi, premiado no Festival de Veneza com o Interfilm Award de Melhor Filme e representante de Luxemburgo no Oscar 2020. A comédia é ambientada na Palestina sobe um jovem o jovem que trabalha como assistente na produção de uma popular telenovela local.

A Embaúba Filmes também comunicou o adiamento da estreia dos filmes "Vaga Carne" e "Sete Anos em Maio" por causa da crise do coronavírus. E alertou que o momento é de precaução e de diminuição da exposição ao risco de contágio. As novas datas serão anunciadas nas redes sociais da empresa.

A distribuidora Vitrine Filmes informou que ainda continua sem data de estreia o filme "Três Verões", da diretora Sandra Kogut, programado para ser lançado em 19 de março nos cinemas nacionais.

Também a Galeria Distribuidora e a Santa Rita Filmes, para preservar a saúde e o bem-estar do público por causa da pandemia de Coronavírus (Covid-19) adiou o lançamento dos filmes "A Menina que Matou os Pais" e "O Menino que Matou Meus Pais", sobre o caso Von Richthofen. até o momento, as empresas mantêm a estreia dos longas em 2020, mas não há uma data definida.


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04 janeiro 2020

Perturbador e impactante, "Parasita" é a perfeita tradução de uma obra de arte

Uma família miserável de Seul que não gosta de trabalhar e vive de explorar da boa fé de outras pessoas (Fotos: The Jokers / Les Bookmakers)

Mirtes Helena Scalioni


Entre os filmes de 2019 que tratam da desigualdade social - "Coringa" e "Bacurau" são alguns exemplos - o sul-coreano "Parasita" ("Gisaengchung") talvez seja o mais bem cotado e comentado por público e crítica. Mistura de comédia, drama, suspense e tragédia, a história de uma família miserável que se infiltra na casa de um milionário em Seul tem fascinado plateias no mundo todo. O mérito, claro, é do diretor Bong Joon-ho, que, com maestria, transformou o roteiro em uma farsa perturbadora e impactante. É impossível sair incólume do longa, repleto de imprevistos e viradas.


A família Kim - pai, mãe, um rapaz e uma moça - vive no submundo da capital da Coreia do Sul como se fossem ratos ou baratas. O apartamento é abaixo do térreo e lembra esgoto. Mas os moradores não parecem preocupados com a pobreza e não se vê nenhum sinal de que alguém ali pretende trabalhar para mudar de vida. Até que o jovem chega em casa com uma ideia: falsificar documentos para ocupar o lugar de um amigo universitário e se candidatar ao emprego de tutor de uma menina rica. 


Aos poucos, Ki-Woo (é esse o nome do filho vivido pelo ator Choi Woo-sik) vai ganhando a confiança dos moradores da mansão e, devagar, sempre na base de golpes e falcatruas, coloca sua mãe, seu pai e sua irmã como empregados da casa. Por mais estranhos que possam parecer ao ocidente, convém registrar que estão ainda no elenco, cada um com seu brilho: Song Kang-ho, Cho Yeo-jeong, Park So-dam, Lee Sun-kyun, Lee Jung-eun, Chang Hyae Jin, Jeong Hyun-joon e Park Myeong-hoon. Talvez seja o momento de ir se acostumando com esses nomes.


Do outro lado está a família Park, riquíssima, com a mesma formação dos Kim - pai, mãe, uma menina e um menino - talvez ingênuos demais para perceber as intenções dos golpistas que vão ganhando a confiança de todos como verdadeiros parasitas. Há momentos, no desenrolar da trama, que os acontecimentos e encaixes são tão impossíveis que pode até comprometer a verossimilhança do enredo. Só que o que vem a seguir sempre surpreende e assusta, como a revelação de que pode sim existir alguém que habita num submundo ainda mais baixo do que os Kim.


Não é por acaso que "Parasita" tem sido premiado por onde passa: levou a Palma de Ouro em Cannes em 2019, recebeu três indicações ao Globo de Ouro 2020 - Direção, Roteiro e Filme Estrangeiro - e outras quatro indicações à Academia Australiana de Cinema, Televisão e Arte (AACTA) para Melhor Filme, Diretor, Roteiro e Ator Coadjuvante. O que começa como comédia num porão de Seul e termina em violência e tragédia se revela ao espectador como uma obra de arte na sua mais perfeita tradução.


Ficha técnica:
Direção: Bong Joon-ho 
Produção: Barunson / CJ Entertainment
Distribuição: Pandora Filmes
Duração: 2h12
Gênero: drama
País: Coreia do Sul
Classificação: 16 anos

Tags: #Parasita, #PandoraFilmes, #BongJoon-ho, #drama, #filmesulcoreano, @cinemaescurinho, @cinemanoescurinho

02 fevereiro 2019

Glenn Close dá show de interpretação ao expor relacionamento abusivo em "A Esposa"

O filme é centrado nos conflitos de um casal da terceira idade em que o marido fez sua carreira às custas da mulher, que passa a vida em segundo plano (Fotos: Embankment Films/Divulgação)

Carolina Cassese 


Parece que Hollywood finalmente se deu conta da importância de retratar pessoas mais velhas nas telas e colocar atores veteranos em destaque. Produções como "Grace and Frankie" (2015), "Transparent" (2015) e a premiada "O Método Kominsky" (2018) se destacam justamente por colocarem questões relativas ao envelhecimento em pauta. Em épocas de movimentos como o Me Too e Time’s Up, a indústria do entretenimento também passou a apostar em filmes que problematizam o machismo e apresentam mulheres fortes como protagonistas.

Embarcando nessas duas tendências, o longa "A Esposa" é centrado nos conflitos de um casal da terceira idade – ou, mais especificamente, no arquétipo da esposa que passa uma vida em segundo plano, enquanto seu marido é prestigiado e vive cortejando outras mulheres.

A produção é cotada para as grandes premiações, especialmente pela excepcional atuação de Glenn Close, que interpreta a protagonista Joan Castleman. A atriz de fato consegue passar toda a aflição e complexidade de seu personagem com apenas um olhar ou um meio sorriso. O estopim de boa parte dos conflitos é a viagem que o casal realiza a Estocolmo para a cerimônia do Nobel de Literatura que Joe Castleman (Jonathan Pryce), o marido de Joan, receberá.

Desde a primeira cena, em que Joe insiste em fazer sexo com sua esposa e faz a sugestão de maneira consideravelmente misógina (acredite se quiser muitas pessoas no cinema acharam essa insistência engraçada), é bem possível não se simpatizar com o personagem. No entanto, se o desafeto não acontecer “de primeira”, é difícil continuar gostando de Castleman depois de conhecer a fundo a trajetória do casal – inacreditavelmente, há quem justifique todas as ações sexistas do escritor (“ele é movido à testosterona”, “ele faz o que faz porque se sente inseguro”, entre outras).

A opressão sofrida pela a personagem de Close acontece em muitos níveis. Joan não só é diminuída publicamente pelo seu marido (que, descaradamente, diz para os amigos “ainda bem que ela não escreve”), como também sofre em casa, já que ela é totalmente responsável pelos cuidados domésticos – Joe não sabe cuidar nem da sua própria toalha de banho. A protagonista precisa aguentar ainda os olhares que seu marido lança para outras mulheres.

A pegada feminista de "A Esposa" é inegável, especialmente a partir da metade do longa, quando a mulher começa a se dar conta de toda a opressão que sofreu a vida inteira. Seu despertar é motivado pelo injusto reconhecimento que o marido recebe com o Nobel e pelas investidas de Nathaniel Bone (Christian Slater), um escritor que sabe todos os podres da vida de seu marido e não faz nenhuma questão de escondê-los.

A produção pode não agradar algumas feministas, já que, em alguns momentos, Joan se recusa a ser colocada como vítima e até justifica alguns dos equívocos do marido. Em determinados momentos (principalmente considerando o final do longa), fica a impressão de que o próprio filme quer apresentar justificativas para o sexismo de Joe. Pode-se argumentar, no entanto, que a produção se empenha em realizar um retrato verossímil de relacionamentos abusivos, considerando que esses apresentam amarras invisíveis e complexas.

A direção de Björn Runge oscila entre planos longos e decupagens clássicas. Uma cena em especial chama atenção: a conversa de Joan e Nathaniel em um bar passa a ter seus quadros afunilados e apertados na medida em que a conversa se torna tensa e desconfortável para a protagonista. A presença do filho do casal, interpretado por Max Irons, se torna praticamente um acessório e é facilmente descartada. Seu drama, como um aspirante a escritor ofuscado pelo sucesso do pai, é até interessante, mas se torna pouco explorado na trama e parece não chegar a lugar nenhum.

No final das contas, o grande destaque de "A Esposa" é o show de Glenn Close, que de fato merece todo o prestígio que está recebendo. A atriz, que tem um portfólio e tanto, até hoje não foi premiada com um Oscar (já recebeu seis indicações), mas tudo indica que 2019 pode muito bem ser o seu ano. Ela já conquistou o prêmio de Melhor Atriz do Globo de Ouro, Critics' Choice Awards e SAG Awards. É ela quem carrega o filme, fazendo justiça ao peso e à força que sua personagem precisa ter, mostrando as nuances de uma mulher forte que se destaca em um mundo misógino.
Duração: 1h41
Classificação: 12 anos
Distribuição: Pandora Filmes


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