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26 setembro 2026

"Virtuosas": quando o controle aprende a falar de liberdade

Longa leva para as telonas um retiro VIP que promete aperfeiçoar mulheres em busca de sua melhor
versão (Fotos: Olhar Filmes)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema 

 
E se a promessa de ser uma mulher melhor for, na verdade, aprender a obedecer melhor? É a partir dessa provocação que "Virtuosas", novo terror de Cíntia Domit Bittar, constrói seu desconforto. O filme está em cartaz no Cine Belas Artes estrelado por Bruna Linzmeyer, Maria Galant, Juliana Lourenção, Sarah Motta e Brisa Marques. 

Produzido pela Novelo Filmes e distribuído pela Olhar Filmes e Filmes do Estação, o longa também chega ao circuito comercial depois de conquistar o Goes to Cannes Award 2025, durante o Marché du Film, e o Prêmio Netflix da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.


Na trama, Virgínia Heinzel (Bruna Linzmeyer), uma espécie de coach conhecida nas redes sociais, conduz um retiro que promete transformar mulheres em suas “melhores versões”. Germina (Maria Galant), Lorena Canolo (Juliana Lourenção), Bárbara Rossi (Sarah Motta) e Gorete (Brisa Marques) são selecionadas após uma palestra em que Virgínia esconde rosas embaixo das cadeiras. 

O que parece uma oportunidade de autoconhecimento, porém, logo revela regras cada vez mais rígidas. Virgínia é justamente uma das personagens mais interessantes porque não vende submissão de maneira explícita. Pelo contrário: fala em força, protagonismo e transformação. 


A ideia de que a mulher seria o “pescoço” e o homem, a “cabeça”, parece empoderadora até descobrirmos o que esse poder significa na prática: cozinhar, cuidar da casa, preparar tudo para o marido, aprender a tricotar e cumprir expectativas tradicionalmente associadas ao papel feminino. O velho modelo aparece com uma nova embalagem.

É aí que "Virtuosas" encontra sua melhor discussão: o patriarcado também pode sobreviver quando aprende a falar a linguagem do empoderamento. A ordem deixa de ser simplesmente “obedeça” e passa a ser “melhore”. Se você não consegue cumprir as expectativas, o problema passa a ser você. Em vez de questionar a estrutura, é preciso se adaptar a ela.


A jornalista Germina é quem começa a perceber essa contradição e questionar as regras do retiro. Ao mesmo tempo, a própria Virgínia nem sempre parece disposta a seguir aquilo que exige das participantes. 

A tão prometida “melhor versão” começa a parecer menos uma descoberta pessoal e mais um modelo pronto de mulher. A pergunta, então, se torna inevitável: se alguém já decidiu como você deve ser, que liberdade existe nessa transformação?

O terror funciona justamente porque o medo nasce de situações reconhecíveis. Não é necessário recorrer constantemente ao sobrenatural para provocar desconforto. O que assusta está nas relações de poder, na manipulação e na maneira como determinadas ideias podem ser apresentadas como cuidado, orientação ou autoconhecimento.


As próprias participantes ampliam essa discussão. Lorena, esposa de um deputado, recebe privilégios que as demais não têm, mostrando que até dentro de uma estrutura de controle existem diferentes níveis de poder. A regra, portanto, não é aplicada da mesma maneira para todas. Dependendo da posição social ocupada, algumas mulheres podem encontrar brechas que outras não têm.

É uma ideia interessante, mas também revela uma das limitações do filme. "Virtuosas" apresenta questões bastante provocadoras sobre fé, feminilidade, privilégio, manipulação e poder, porém nem sempre consegue aprofundar todas elas. Algumas ideias aparecem com força, mas são abandonadas antes de alcançar todo o potencial dramático.


O mesmo acontece com algumas personagens. Germina possui uma função clara dentro da investigação das contradições do retiro, enquanto Bárbara e Gorete poderiam ter conflitos próprios mais desenvolvidos. 

Em determinados momentos, elas acabam funcionando principalmente como representações de diferentes tipos de mulheres dentro daquele sistema. Dar maior espaço às experiências individuais dessas personagens poderia tornar o impacto do retiro ainda mais forte.

A comparação com "Corra!" (2017) faz sentido justamente pela aproximação com o terror social. Assim como no filme de Jordan Peele, o horror nasce menos de um monstro do que de relações sociais reconhecíveis que escondem algo perturbador. 


Em "Virtuosas", o perigo está justamente naquilo que parece familiar: alguém oferecendo acolhimento, transformação e uma suposta oportunidade de mudança enquanto, aos poucos, estabelece as regras que devem ser seguidas.

Mesmo com essas limitações, Cíntia Domit Bittar encontra no gênero uma maneira eficiente de discutir algo que ultrapassa o próprio terror. O filme não apresenta o patriarcado apenas como uma figura masculina autoritária, mas como uma estrutura capaz de se adaptar e mudar de discurso para continuar funcionando.

E essa talvez seja a parte mais incômoda do longa. Uma regra não deixa de ser regra porque foi apresentada como conselho. Controle continua sendo controle quando vem acompanhado de cuidado. E cobrança não se transforma automaticamente em liberdade apenas porque recebeu o nome de empoderamento.


O desfecho segue essa mesma lógica. É duro, brutal e não oferece um alívio fácil ao espectador. A escolha combina com uma narrativa que passou boa parte do tempo discutindo controle e violência, evitando transformar uma experiência tão incômoda em uma conclusão excessivamente confortável.

O roteiro poderia aprofundar melhor algumas das questões que levanta e dar mais complexidade a determinadas personagens, mas "Virtuosas" consegue deixar uma provocação que permanece depois dos créditos: talvez o verdadeiro terror não seja alguém dizer quem você deve ser, mas fazer você acreditar que essa escolha sempre foi sua.


Ficha técnica:
Direção:
Cíntia Domit Bittar
Produção: Novelo Filmes, coprodução Olhar Filmes
Distribuição: Filmes do Estação
Exibição: Cine Belas Artes
Duração: 1h26
Classificação: 16 anos
País: Brasil
Gêneros: Suspense, ficção, terror

11 junho 2026

"Dia D" - Spielberg usa os alienígenas para falar de nós mesmos

Diretor retoma sua paixão pela ficção científica misturando ação, conspiração e fé em nova produção 
(Fotos: Universal Pictures)
 
 

Maristela Bretas

 
Uma reunião de amigos numa viagem ao passado. Este é "Dia D" ("Disclosure Day"), novo filme de Steven Spielberg em cartaz nos cinemas, o 37º de sua carreira, que traz fortes referências a produções marcantes de sua carreira. 

O diretor, que sempre demonstrou fascínio por temas ligados à presença de extraterrestres em nosso planeta, volta a explorar esse universo e conduz a história com a experiência de quem ajudou a definir o gênero.

Longas como "ET - O Extraterrestre" (1982) e "Contatos Imediatos do Terceiro Grau" (1977) são lembrados em várias cenas, reforçando o lado mais emocional de Spielberg, que completa 80 anos no final de 2026. 

Diferentemente de "Guerra dos Mundos" (2005), que apostava mais na ação, mas sem deixar de lado as relações familiares. Até mesmo produções de outros diretores, como "Sinais" (2002), de M. Night Shyamalan, vêm à memória em determinados momentos.


E, como disse antes, esse reencontro de velhos amigos começa pela trilha sonora de John Williams, responsável pelas composições de grande parte dos filmes mais importantes de Spielberg, incluindo os três citados acima. 

A ideia de "Dia D" partiu do próprio diretor e foi entregue a outro parceiro de longa data, David Koepp — roteirista de "O Mundo Perdido: Jurassic Park" (1997) e "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal" (2008) — para desenvolver a história.

No novo longa, Spielberg aposta na divulgação de documentos ultrassecretos sobre a presença de extraterrestres na Terra e o contato direto das forças militares norte-americanas com eles. Coincidência ou não, um dos períodos de aparições alienígenas destacados na trama é o governo Nixon, tema que dialoga com outro trabalho do diretor, "The Post - A Guerra Secreta" (2017).


Na história, Daniel Kellner (Josh O'Connor) e Hugo Wakefield (Colman Domingo) trabalham na segurança da agência secreta Wardex responsável por guardar esses arquivos e decidem revelar ao mundo os segredos sobre os ETs entre nós. 

A partir daí começa uma perseguição implacável, repleta de ação, ótimas cenas de perseguições (especialmente a do trem) e suspense, liderada por Noah Scanlon (Colin Firth), chefe dessa agência que tenta capturar a dupla e recuperar os pendrives com os documentos.


Enquanto isso, em outra parte do país, a meteorologista Margareth Fairchild (Emily Blunt), apresentadora de uma emissora de TV em Kansas City, passa a apresentar um comportamento estranho, falando em uma língua desconhecida. 

Sem entender o motivo, se vê misteriosamente conectada aos dois foragidos. Especialmente a Daniel, o único humano capaz de decifrar a linguagem alienígena. Todos os atores entregam ótimas interpretações e bem alinhadas à proposta da trama.

O elenco conta ainda com Eve Hewson, como Jane, namorada de Daniel; Wyatt Russell, como o atual companheiro dela; e Henry Lloyd-Hughes, no papel de Casper, chefe da segurança de Noah, entre outros.


O filme apresenta diversas imagens dos contatos com alienígenas, tanto em situações amistosas quanto em episódios de atrocidades praticadas pelos humanos. 

Algumas dessas sequências poderiam facilmente integrar os arquivos secretos recentemente divulgados pelo governo dos Estados Unidos sobre fenômenos extraterrestres e que foram guardados a sete chaves por décadas.

Mas Spielberg vai além da ficção científica. O diretor também coloca a fé em debate, levando até personagens religiosos a questionarem suas próprias crenças. Deus criou o universo apenas para os humanos? Estamos realmente sozinhos? 

Ao mesmo tempo, a divulgação das imagens gera dúvidas sobre o que é verdadeiro e o que é falso num mundo em que a inteligência artificial e as fake news dominam as redes sociais e provoca reações diversas.


O longa demonstra preocupação em retratar os alienígenas como seres mais evoluídos — e possivelmente até mais humanos — do que nós mesmos. A revelação dos arquivos acontece justamente num momento delicado, quando o planeta parece caminhar para uma Terceira Guerra Mundial.

Mais uma vez, aflora o lado emocional de Spielberg, embalado pelos arranjos de John Williams e pela belíssima fotografia de Janusz Kaminski, outro colaborador histórico do diretor, responsável por trabalhos como "Os Fabelmans" (2022), "Amor, Sublime Amor" (2021) e "Munique" (2005).

"Dia D" deixa uma grande interrogação no ar: Spielberg queria apenas fazer mais um filme sobre alienígenas ou provocar uma reflexão sobre a possibilidade — cada vez menos tratada apenas como ficção — de que não estamos sós no universo?


No início, o longa pode parecer confuso, apresentando fatos isolados que, com o decorrer da trama, vão sendo interligados, mostrando que a desinformação gera temor. E que as pessoas podem não estar preparadas para aceitar a presença alienígena.

Talvez o verdadeiro Dia D seja justamente o dia da revelação e a presença desses seres na Terra represente mais esperança do que ameaça. Para descobrir, será preciso tirar os olhos das telas por alguns instantes e ouvir a mensagem que eles tentam nos transmitir sobre o futuro que estamos construindo.

Assista ao filme e deixe aqui seu comentário sobre o que achou.


Ficha técnica:
Direção:
Steven Spielberg
Roteiro: David Koepp
Produção: Universal Pictures e Amblin Entertainment
Distribuição: Universal Pictures Brasil
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h25
Classificação: 12 anos
País: EUA
Gêneros: Ficção, suspense

10 junho 2026

O Som do Perigo: quando o jazz encontra o crime em "O Afinador"

Leo Woodall é um talentoso afinador de pianos que descobre outra utilização mais rentável para suas habilidades (Fotos: Paris Filmes)
 
 

Maristela Bretas

 
"O Afinador" ("Tuner") é um filme envolvente sobre um jovem que, devido a uma grave deficiência auditiva, vê o sonho de seguir carreira como pianista ser interrompido. Sem abandonar completamente a música, ele transforma seu talento em uma nova profissão: a de afinador de pianos. O longa estreia nesta quinta-feira nas salas Cineart Ponteio e Del Rey.

Interpretado por Leo Woodall, Niki White é um protagonista carismático e complexo. Mas quem realmente domina as cenas sempre que aparece é Dustin Hoffman, no papel de Harry Horowitz, um renomado ex-pianista e mentor do jovem. 


A química entre os dois funciona perfeitamente. Hoffman traz um humor ácido e afiado ao personagem, enquanto Woodall entrega uma atuação sensível, especialmente nos momentos em que a dor e o desconforto causados pelos sons intensos evidenciam a condição auditiva de Niki.

O trabalho sonoro é um dos grandes trunfos do longa. O diretor utiliza os sons — e até a ausência deles — para ampliar a tensão, intensificando cenas de suspense e ação que mantêm o público constantemente atento.


A rotina da dupla consiste em afinar pianos para clientes ricos e influentes, até que uma situação inesperada leva Niki a descobrir uma habilidade bastante incomum: sua audição diferenciada o torna capaz de ouvir os mecanismos internos de cofres e ajudar a abri-los. 

O talento chama a atenção de uma quadrilha especializada em invadir mansões de luxo, liderada por Uri (Lior Raz), que rapidamente o recruta para o grupo.


A trama lembra, em alguns aspectos, "Em Ritmo de Fuga" (2017), de Edgar Wright. Assim como o personagem de Ansel Elgort naquele filme, Niki também convive com limitações auditivas, mas transforma essa condição em uma habilidade excepcional dentro de um universo criminal.

Em paralelo, Niki conhece Ruthie (Havana Rose Liu), uma estudante de composição musical que o faz descobrir o amor. Mas sua nova vida dupla acabará colocando em risco não apenas seu futuro, mas também todas as pessoas que ama.


Dirigido por Daniel Roher, que assina o roteiro ao lado de Robert Ramsey, "O Afinador" mistura suspense, romance e drama em uma narrativa eficiente, ainda que siga caminhos já conhecidos. O resultado é um entretenimento bem construído, impulsionado por uma excelente trilha sonora que certamente agradará aos amantes da música.

E os fãs de jazz têm um motivo extra para prestar atenção: o lendário pianista e tecladista Herbie Hancock faz uma rápida, mas especial, participação no filme. Também fazem parte do elenco, Tovah Feldshuh (esposa de Harry) e Jean Reno em uma aparição importante.

"O Afinador" passou por importantes festivais internacionais entre 2025 e 2026, incluindo Sundance, TIFF Toronto International Film Festival, BFI London Film Festival e Telluride Film Festival, consolidando sua trajetória antes de chegar ao público.


Ficha técnica:
Direção: Daniel Roher
Roteiro: Daniel Roher e Robert Ramsey
Produção: Black Bear
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: salas Cineart Ponteio e Del Rey
Duração: 1h49
Classificação: 16 anos
País: Canadá
Gêneros: romance, suspense, drama, ação

26 maio 2026

“Fora de Controle”, lançamento francês com Omar Sy ecoa "Atração Fatal"

Drama com pinceladas de suspense aborda traição conjugal, possessividade e desejo de vingança
(Fotos: California Filmes) 
 
 

Eduardo Jr.

 
O conhecido rosto do ator francês Omar Sy volta às telonas no próximo dia 28 de maio. “Fora de Controle” ("Dis-moi juste que tu m’aimes"), dirigido por Anne Le Ny, chega aos cinemas brasileiros com trama sobre traição e possessividade. A distribuição é da California Filmes.   

Na obra, Julien (Omar Sy) está casado há 15 anos. Mas sua esposa Marie (Élodie Bouchez) sente a relação ameaçada com a volta da ex de Julien, Anaëlle, papel de Vanessa Paradis - a cantora de “Joe Le Taxi”, que conhecemos como “Vou de Taxi”, na voz de Angélica (eu não podia deixar vocês sem essa informação).  


A insegurança, a ira e o desejo de vingança por desconfiar que o marido se encontrou com a ex, colocam Marie num affair com seu próprio chefe, Thomas (José Garcia). 

Mas o carente e possessivo Thomas começa a perseguir Marie. É aí que o título se justifica. Manipulação, ameaças e suspense psicológico passam, então, a marcar presença no filme.    

A semelhança com “Atração Fatal” (1987) se dá pela obsessão de Thomas com Marie. Um toque de modernidade ao inverter os gêneros de perseguidor e perseguido. 


Mas claro, guardadas as proporções e a época em que o primeiro filme foi realizado, “Fora de Controle” fica abaixo na temperatura, afinal, é cinema francês, tem seus momentos de resfriamento. E cá pra nós, fica difícil abordar o tema e superar o que a série “Bebê Rena” (2024) estampou na tela. 

No frigir dos ovos, esta é uma obra correta. Fotografia que não compromete, inserção de trilha cuidadosa e atuações na medida. Não estaríamos errados em afirmar que é mais drama do que suspense, com boas reviravoltas. Carece de mais emoção, mas pode agradar ao espectador.    


Ficha técnica:
Direção e Roteiro: Anne Le Ny
Distribuição: Califórnia Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h51
Classificação: 18 anos
Países: França e Bélgica
Gêneros: suspense, drama

23 maio 2026

“Cansei de Ser Nerd” é uma história sobre identidade e dificuldade de continuar sendo quem é

Fernando Caruso é o protagonista desta comédia sci-fi brasileira com várias referências ao universo geek (Fotos: Mariana Vianna)
 
 

Marcos Tadeu

Parceiro do blog Jornalista de Cinema
 
Chega aos cinemas brasileiros em 28 de maio, “Cansei de Ser Nerd”, com direção de Gualter Pupo e distribuição da (H2O Films). A comédia mistura romance, ficção científica, suspense e muitas referências ao universo geek para contar uma história sobre identidade, pertencimento e a dificuldade de continuar sendo quem você é.

Aírton (Fernando Caruso) é o tipo de nerd que nunca abandonou suas teorias. Anos depois da faculdade, ele volta ao reencontro da turma de faculdade decidido a fazer três coisas: provar sua inocência em um antigo mistério, expor um suposto culto alienígena e tentar reconquistar o amor do passado. 

O resultado é uma aventura caótica que transforma paranoia, nostalgia e romances mal resolvidos em uma trama fora do comum.


O filme conversa diretamente com o público que cresceu cercado pela cultura pop. Estão ali referências a super-heróis, ficção científica, monstros clássicos e grandes franquias do cinema. Existe carinho por esse universo e isso funciona bem nos momentos mais divertidos.

Por outro lado, as referências acabam ocupando espaço demais. Em alguns momentos, elas servem mais como apoio do que como parte da narrativa, deixando temas mais interessantes em segundo plano.


No elenco estão ainda Bia Guedes (Juliana), Pedro Benevides (Ulisses), João Velho (Charles, desafeto de Aírton), Thais Belchior, Junior Vieira, Ana Carolina Sauwen, entre outros, além da participação especial de Cissa Guimarães, como Dona Têca, mãe de Aírton, e Bel Kutner, mãe de Charles. 

Fernando Caruso sustenta boa parte do filme. Mesmo dentro da comédia, ele consegue trazer emoção quando o roteiro pede algo mais íntimo. Aírton funciona porque existe verdade nele: é alguém cansado de ser visto apenas como “o estranho” da história.

E talvez esse seja o melhor ponto do longa. Existe uma discussão interessante sobre a necessidade de mudar para ser aceito. Em determinado momento, Aírton tenta abandonar aquilo que o define para parecer mais comum. 


O filme toca numa ferida muito humana: quantas vezes as pessoas escondem partes de si para caberem onde nunca houve espaço? O problema é que a obra quer abraçar muitos caminhos ao mesmo tempo. 

Mistério, bullying, reencontro de amigos, romance, teorias conspiratórias e traumas do passado disputam atenção dentro de pouco tempo de tela.

Ainda assim, há carisma nessa bagunça. “Cansei de Ser Nerd” não é um filme perfeito e tropeça ao tentar falar de tudo. Mas acerta quando deixa de lado o exagero e olha para algo simples: o medo de não pertencer. 

No fim, fica uma mensagem sincera: talvez crescer não seja deixar de ser nerd. Talvez seja parar de pedir desculpas por ser quem você sempre foi.


Ficha técnica:
Direção:
Gualter Pupo
Produção: Hungryman e Na Paralela Filmes, em coprodução com a Paramount Pictures e Telecine
Distribuição: H2O Films
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h27
Classificação: 14 anos
País: Brasil
Gêneros: comédia romântica, ficção, suspense

18 abril 2026

“The Beauty - Lindos de Morrer”: o que você faria para ter beleza eterna?

Nova série de Ryan Murphy expõe o preço da perfeição em um mundo onde estética e imagem valem
mais que a alma (Fotos: Fox)
 
 

Robhson Abreu

 
Se você tivesse um visual não tão atraente, alguma enfermidade e soubesse que a indústria farmacêutica criou uma fórmula capaz de curar todos os males e ainda te deixar lindo (a), o que faria? Pagaria por essa fórmula milagrosa que custaria uma fortuna? E se soubesse que a fórmula poderia ser sexualmente transmissível, transaria por isso? Tudo em prol da beleza e aceitação social? 

Em tempos de medicamentos milagrosos para emagrecimento parece que a série "Lindos de Morrer" ("The Beauty"), do canal Fox e exibida na plataforma Disney+, não é tão fantasiosa.


Há séries que entretêm e outras que provocam. E, em se tratando de Ryan Murphy (“‘Glee”, "Pose" e "American Horror Story"), as duas sensações caminham juntas. O diretor manteve sua habilidade de trabalhar temas provocativos e universos estilizados, mas com um tom mais reflexivo, sem abrir mão do impacto visual que marca sua carreira.

"The Beauty" é uma série que seduz ao mesmo tempo em que desconforta. O roteiro é simples na superfície e brutal em suas implicações. 

Por meio de uma injeção ou por sexo, qualquer pessoa pode ficar extraordinariamente bonita. Em troca, um preço irreversível. O que poderia soar como fantasia logo se revela um comentário ácido sobre o mundo real.


Inspirada nos quadrinhos de Jeremy Haun e Jason A. Hurley, a narrativa acompanha os detetives Cooper Madsen (Evan Peters, da série "Mare of Easttown" - 2021) e Jordan Bennett (Rebecca Hall, de "Godzilla e Kong: O Novo Império" - 2024) que investigam uma possível conspiração entre o governo e a indústria farmacêutica para lucrar com a disseminação controlada da doença de “ser bonito”. 

Assim, eles investigam mortes que orbitam a fórmula chamada Beauty, enquanto tentam compreender como algo tão desejado pode esconder consequências tão devastadoras.


O elenco amplia a densidade da trama. Peters sustenta o protagonismo com um registro contido, quase silencioso, que cresce em tensão a cada episódio. Rebecca oferece um contraponto emocional, trazendo humanidade a uma história que poderia facilmente se tornar apenas conceitual. 

Entre os nomes de peso, Ashton Kutcher ("Jobs" - 2013) assume um papel central e perturbador, enquanto Isabella Rossellini ("Conclave" - 2024) imprime sofisticação e ambiguidade. O elenco conta ainda com Jeremy Pope ("A Inspeção" - 2022) e Anthony Ramos ("Twisters" - 2024), que ajudam a ampliar as camadas sociais e emocionais da narrativa.


Kutcher, como o ambicioso Byron Forst, acredita ter alcançado o que a humanidade sempre quis - a fonte da juventude e da beleza eterna. Mais do que um usuário da Beauty, ele se enxerga como alguém acima dela, quase um criador, alguém capaz de controlar e redefinir os padrões do mundo. 

Essa convicção o leva a ultrapassar limites morais com frieza, eliminando qualquer pessoa que represente ameaça ao seu projeto de poder. Há nele uma dimensão quase messiânica, distorcida por vaidade e ambição, que o aproxima da ideia de um “Deus da beleza”.


Ao mesmo tempo, a construção do personagem evita reduzi-lo a um vilão unidimensional. A narrativa revela fissuras. Quando os efeitos colaterais começam a se intensificar, especialmente entre aqueles contaminados pela transmissão sexual, surge outro lado. 

Aquele que observa as consequências fora de controle, que percebe a falha no sistema que acreditava dominar. É nesse ponto que o personagem expõe traços de humanidade, ainda que tardios, ainda que atravessados por culpa e desespero.


Uma nova IST?

Esse arco reforça um dos temas centrais da série. Beauty promete perfeição, mas escapa ao controle. A mesma tecnologia pode ser interpretada como uma espécie de Infecção Sexualmente Transmissível (IST), transmitida pelo contato íntimo que, ao contrário das doenças combatidas, desperta desejo coletivo. 

Em um mundo que ainda luta para controlar infecções como o HIV, a série inverte a lógica ao apresentar uma doença que muitos querem contrair. O risco deixa de ser evitado e passa a ser buscado. O contágio vira símbolo de status.


No entanto, o acesso seguro depende de um tratamento caro, aplicado por injeção, restrito a quem pode pagar. A tecnologia não é democrática. Para quem não tem recursos, resta uma alternativa informal e arriscada. 

Mas essa escolha cobra seu preço. Os efeitos colaterais funcionam como uma verdadeira caixa de surpresas. Em alguns casos, a transformação pode acontecer dentro do esperado. 

Em outros, o resultado foge completamente ao controle, revelando consequências físicas e emocionais imprevisíveis. A promessa de perfeição convive, o tempo todo, com a possibilidade de fracasso. O que nos faz querer maratonar a temporada.


A Beauty pode ou não dar certo. Essa incerteza sustenta a tensão da narrativa e amplia seu impacto simbólico. A promessa de perfeição vem acompanhada de instabilidade. Cada rosto impecável carrega a possibilidade de colapso.

Há também um diálogo interessante com o cinema recente. "The Beauty" ecoa, em certa medida, às inquietações de "A Substância" (2024), filme protagonizado por Demi Moore. Lembra? Além do conteúdo, a forma também se destaca. A trilha sonora contribui de maneira decisiva para a atmosfera da série. 

Os figurinos seguem a mesma estética, com peças elegantes e contemporâneas. Já as locações apostam em ambientes luxuosos, frios e controlados como clínicas, coberturas e espaços urbanos de alto padrão, que ajudam a construir um universo onde a beleza não é apenas atributo, mas capital.


A série de Murphy, com 11 episódios na primeira temporada, é precisa ao construir um mundo onde a beleza é quase um produto. A fotografia valoriza peles impecáveis, simetrias e brilhos artificiais, criando imagens que remetem a campanhas publicitárias. 

Ao mesmo tempo, há algo deslocado em cada enquadramento, como se aquela perfeição estivesse sempre prestes a se desfazer. 

Em um mundo de muitos influencers em que ser belo é condição nata, "The Beauty - Lindos de Morrer" é um espelho distorcido que reflete com clareza o presente. 

Assim Murphy levanta uma questão direta: você tomaria uma medicação para alcançar a beleza e a juventude eternas, mesmo sabendo dos seus possíveis efeitos colaterais?


Ficha técnica:
Direção: Ryan Murphy, Alexis Martin Woodall e Michael Uppendahl 
Produção: Fox
Exibição: Disney+ e FX/Hulu
Duração: 1ª temporada - 11 episódios, média de 40 minutos por episódio
Classificação: 18 anos
País: EUA
Gêneros: drama, policial, terror, suspense

17 abril 2026

“Maldição da Múmia”: terror sobrenatural aposta no grotesco e esquece de assustar

Natalie Grace interpreta a jovem Katie, possuída por uma entidade maligna da antiguidade que vai
atormentar a vida de seus familiares (Fotos: Warner Bros. Pictures) 
 
 

Maristela Bretas

 
O terror contemporâneo tem apostado cada vez mais no desconforto físico e psicológico do espectador — e “Maldição da Múmia” segue exatamente por esse caminho. Em cartaz nos cinemas de Belo Horizonte, o longa troca o susto fácil por uma experiência mais perturbadora e sobrenatural, que provoca mais repulsa do que medo. E como anunciado pela produção, Brendan Frazer e Rachel Weisz não estão neste filme.

Produzido pela Blumhouse Productions em parceria com a Atomic Monsters e New Line Cinema, o filme carrega a expectativa de quem já entregou bons títulos do gênero. Mas, sob a direção de Lee Cronin, de “A Morte do Demônio: A Ascensão” (2023), o resultado é irregular — com mais impacto visual do que narrativa consistente.


A trama acompanha uma família marcada por uma tragédia inexplicável: a filha de um jornalista norte-americano desaparece durante uma viagem ao Egito e é dada como morta. 

Oito anos depois, porém, ela reaparece — ferida, deformada e carregando algo muito mais sombrio do que o trauma do desaparecimento. Encontrada dentro de um antigo sarcófago, a jovem retorna como um enigma perturbador.

O que deveria ser um reencontro emocionante logo se transforma em pesadelo. A presença da garota contamina o ambiente familiar, revelando sinais de possessão ligados a antigas seitas egípcias. E, nesse ponto, o filme acerta ao trazer o horror para dentro de casa, virando a vida dos personagens completamente de cabeça para baixo.


Se a proposta de Cronin era reinventar o terror com múmias, aproximando-o do cotidiano de uma família comum, ele até consegue. O problema é como faz isso. “Maldição da Múmia” tem um roteiro preguiçoso, que abandona o desenvolvimento dramático em favor de um festival de excessos visuais: olhos esbugalhados, dentes sendo arrancados, sangue escorrendo, fluidos corporais e uma coleção de sons grotescos, mas nada assustador.

Ainda assim, há méritos técnicos. Os closes nos rostos da criatura e de suas vítimas reforçam a tensão em momentos-chave, potencializando o desconforto de cada ataque. É um recurso eficiente — ainda que usado em excesso. 

Uma cena em especial chama a atenção e fica gravada na mente: a do cortador de unhas. Ponto positivo também para as referências sutis a cenas de filmes como "Branca de Neve e os Sete Anões" e "O Exorcista".


O elenco, pouco conhecido, tem nomes como Jack Reynor, Laia Costa, Shylo Molina e Verónica Falcón, além da detetive egípcia interpretada por Dalia Zaki, que investiga o desaparecimento e os eventos estranhos após o retorno da jovem. Mesmo com esforço do elenco, os personagens acabam limitados por um roteiro que pouco aprofunda suas relações.

E esse talvez seja um dos maiores problemas do filme: a presença da múmia dentro de casa até expõe fragilidades familiares interessantes, mas tudo fica na superfície. Falta densidade emocional para sustentar o impacto das situações vividas.

O grande destaque fica com Natalie Grace, convincente como Katie, a jovem possuída. Sua atuação equilibra fragilidade e ameaça, sendo um dos poucos elementos que realmente sustentam a narrativa.


“Maldição da Múmia” pode não agradar a quem espera um terror mais clássico, cheio de sustos e tensão crescente. Mas pode encontrar seu público entre aqueles que preferem o horror mais gráfico, bizarro e incômodo de Cronin — e que não se importam tanto com a falta de profundidade ou de medo genuíno.

No fim, é um filme que chama atenção pelo choque, mas que deixa a sensação de uma boa ideia mal aproveitada, especialmente por ter James Wan, Jason Blum e John Keville entre seus produtores e os estúdios responsáveis por sucessos como a franquia "Invocação do Mal".


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Lee Cronin
Produção: Blumhouse Productions, Atomic Monsters, New Line Cinema, Warner Bros. Pictures
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h14
Classificação: 18 anos
País: EUA
Gêneros: suspense, terror sobrenatural

24 março 2026

“Peaky Blinders: O Homem Imortal” e o problema de não saber a hora de parar

Cillian Murphy está de volta como Thomas Shelby, personagem que o consagrou na série homônima
(Fotos: BBC Films)
 
 

Jean Piter Miranda

 
O ano é 1940 e a cidade inglesa de Birmingham está sendo atacada pelo exército alemão, durante a Segunda Guerra Mundial. Thomas Shelby (Cillian Murphy) segue recluso, distante de tudo, convivendo com suas dores. 

Após tantas perdas ao longo da vida, ele deixou pra trás seus dias de gângster. Porém, a ligação de nazistas com seu filho Duke (Barry Keoghan) faz com que o maior de todos os Shelby volte à ativa para uma última batalha. 

Esse é “Peaky Blinders: O Homem Imortal” ("Peaky Blinders: The Immortal Man"), filme disponível na Netflix. O longa chega para encerrar “Peaky Blinders”, série de grande sucesso mundial que teve seis temporadas entre 2013 e 2022. 


Ao longo de 30 capítulos, Tommy Shelby se torna um dos maiores gângsteres da Europa. A trama envolve questões familiares, crimes, amizades, lealdade e traições. São muitas brigas, violência, a entrada do clã no mundo dos negócios e também na política. 

Depois de perder amigos, familiares e amores, Tommy não vê mais sentido na vida. Ele então se retira e vai viver sozinho, no interior do país. O antigo gângster agora passa os dias em uma casa assombrada, remoendo o passado diariamente, como uma espécie de penitência. 


Escreve um livro de memórias como um ritual para esquecer tudo o que viveu. Sua única irmã viva, Ada (Sophie Rundle) vai ao seu encontro para pedir ajuda. Ela relata os problemas que enfrenta, em especial com Duke, filho dele.

Como era de se esperar, Ada não consegue convencê-lo a voltar para Birmingham. Porém, a visita inesperada da cigana Kaulo (Rebecca Ferguson) muda tudo. Com seus poderes místicos, ela faz com Tommy mude de ideia. 


É nesse segundo ato, quando a ação se inicia, que o filme começa a se perder. Se na introdução tudo seguia bem, com um desenvolvimento esperado e satisfatório, a partir da saída de Tommy do exílio tudo fica acelerado. Dessa forma, nada parece ter consistência e nem convence. 

A ligação de Duke com os nazistas é rasa, não inspira segurança para nenhum dos lados, ainda mais se tratando de uma missão secreta de alta prioridade. A revolta de Duke com o pai, que a princípio parece ser a base do filme, não se explica. 


O que indicava uma rivalidade e um antagonismo íntimo entre pai e filho, simplesmente não acontece. Tudo se resolve rápido demais, sem nenhum esforço. 

Duke que ora parece ser um gângster duro e destemido, muda rapidamente. Mostra-se fraco e frágil, sem a imponência e a autoridade de um verdadeiro Shelby. 

Isso destoa muito do que é apresentado no início: um líder anarquista pronto para ajudar os nazistas, e que, de repente, passa a integrar uma missão de vingança que também visa salvar a nação. 


Tommy Shelby parte para o que parece ser sua última batalha, que também dará o desfecho ao filme e à série. São momentos que até emocionam, mas não sem forçar muito a barra. 

O roteiro é pouco consistente e apresenta situações nada críveis, difíceis de engolir. É como se tivessem escrito uma temporada inteira e depois fossem cortando partes e fazendo adaptações para tudo caber em um longa - e claro, não ficou bom. 


A série transformou Tommy Shelby em um ícone pop: um personagem temido, respeitado, admirado e amado. Uma aura que saiu das telas e conquistou uma legião de fãs pelo mundo. 

Mas, assim como outras produções, “Peaky Blinders” também não soube a hora de parar. Se estendeu demais - para dar lucro, é evidente - e acabou comprometendo sua essência. É claro que os fãs mais apegados podem fazer vista grossa a tudo isso, em nome da nostalgia e de uma  despedida satisfatória.


Ficha técnica:
Direção: Tom Harper
Roteiro: Steven Knight
Produção:Tiger Aspect Productions, BBC Films, BBC Studios
Exibição: Netflix
Duração: 1h52
Classificação: 18 anos
País: Reino Unido
Gêneros: policial, ação, suspense