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28 maio 2026

"A Revolução dos Bichos" revela que não há limites nem escrúpulos para adaptações

Animação dirigida por Andy Serkis é uma repaginação piorada da obra de George Orwell (Fotos: Angel Studios)
 
 

Silvana Monteiro

 
Com estética peculiar e diálogos estranhamente bestializados "A Revolução dos Bichos" ("Animal Farm") se distancia da essência crítica criada por George Orwell e se aproxima de uma versão piorada da própria obra que pretendia revisitar. 

A animação, que estreou nesta quinta-feira nos cinemas, revela-se um produto moldado para impacto imediato, amplificado por sombras excessivas e frases feitas muito mais para vídeos curtos do que para o cinema. 

O romance original discute como um grupo de animais organiza um novo sistema baseado em igualdade e justiça coletiva. Aos poucos, porém, o ideal revolucionário passa a ser ameaçado pela ascensão autoritária de dois animais de uma espécie, os quais concentram o poder e transformam o local em um regime totalitário. 

Já no filme dirigido por Andy Serkis a situação se inverte quando a fazenda é vendida e os animais vão ser retirados dela. 


Nesse ponto, a tirania é bem estética e a escolha de inserir Lucky como ponto afetivo revela justamente esse movimento. O filme parece desconfiar da inteligência das pessoas e cria uma âncora emocional didática para conduzir o espectador por uma narrativa que, no livro, dispensava mediações tão evidentes, influenciando na perda da força visceral da história. Obviamente que é legal ter um contraponto afetivo, mas no contexto dessa adaptação, fica muito simplista.

Há ainda uma contradição curiosa na própria aparência da animação. Em muitos momentos, a animação lembra produções infantis genéricas dos anos 1990, revestidas por um acabamento tosco. O filme alterna entre humor escatológico, referências contemporâneas e discursos políticos, sem representar uma obra tecnicamente bem equilibrada.


Essa indecisão também atravessa Napoleon o porco que lidera a distorção dos objetivos de um grupo. No livro, ele era assustador justamente porque compreendia o poder como administração fria e absoluta da realidade. Aqui, surge quase como caricatura performática. Até a manipulação ideológica perde sofisticação: slogans substituem contradições; frases de efeito ocupam o espaço onde antes havia reflexão político-social. 

Talvez o aspecto mais interessante do filme seja involuntário. Esta adaptação parece menos uma leitura de Orwell e mais um retrato da atual dificuldade de lidar com profundidade sem convertê-la em entretenimento acelerado. 


No fim, o ponto positivo desta animação é que, de tão previsível e espetacularizada, mesmo quem nunca leu o livro ou nunca viu as demais adaptações, vai conseguir assistir e talvez, querer de fato ler a obra original para contrapor ou confirmar algo visto no filme.

O roteiro de "A Revolução dos Bichos" deixa a história pouco atrativa para crianças e abobada demais para adultos. É um filme que nos mostra a incapacidade de limites para adaptações. Adaptar não é o problema, como fazer isso de forma mais interessante? Fica a pergunta.


Ficha técnica:
Direção: Andy Serkis
Produção: Angel Studios, Aniventure, Cinesite e The Imaginarium Studios
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h36
Classificação: 10 anos
Países: Reino Unido, Canadá e EUA
Gêneros: animação, fantasia

11 maio 2026

“O Gênio do Crime”: aventura divertida aposta no carisma dos detetives mirins

Gordo, Edmundo, Pituca e Beré formam o quarteto que vai investigar a falsificação de figurinhas da
Copa do Mundo (Fotos: Pivô Audiovisual)
 
 

Maristela Bretas

 
“O Gênio do Crime”, que estreia nesta quinta-feira nos cinemas, aposta na combinação de aventura, mistério, humor e amizade para conquistar o público infantojuvenil — e também os adultos que cresceram acompanhando histórias de detetives mirins. 

Adaptado da clássica obra literária de João Carlos Marinho, o longa apresenta a Turma do Gordo em uma investigação cheia de reviravoltas envolvendo a falsificação de uma figurinha rara do álbum da Copa do Mundo de 2026.


A trama acompanha João, mais conhecido como Gordo (Francisco Galvão), Edmundo (Samuel Estevam) e Pituca (Breno Kaneto), trio inseparável que ganha o reforço da inteligente e destemida Berenice, a Beré (Bella Alelaf). 

Juntos, eles tentam descobrir quem está produzindo as figurinhas falsas que ameaçam levar à falência a editora Escanteio, comandada pelo Sr. Tomé, personagem de Ailton Graça.

Na tentativa de salvar a empresa, Sr. Tomé acaba se unindo aos adolescentes, que também contam com a ajuda — nem sempre eficiente — do famoso detetive televisivo Mister Mistério, interpretado por Marcos Veras. 


Convencido de que não precisa de ninguém para solucionar casos, o personagem rende alguns dos momentos mais engraçados do filme, funcionando como um alívio cômico que conversa bem com o público infantil.

Ambientado em São Paulo, o longa segue uma linha semelhante à de “Detetives do Prédio Azul” (D.P.A.), fenômeno criado por Flávia Lins e Silva para a TV e posteriormente levado aos cinemas. Assim como na produção carioca, aqui o protagonismo infantil é o grande motor da narrativa, conduzindo uma investigação repleta de pistas, suspeitos e descobertas.


Cada integrante do grupo possui características bem definidas. Gordo é inteligente, curioso e apaixonado por histórias de investigação, especialmente pelo programa de Mister Mistério. Edmundo é o atleta da turma, fanático por futebol e figurinhas, além de ser justamente quem encontra a rara figurinha do Vini Jr., prêmio que garante assistir à final da Copa do Mundo. 

Já Pituca se destaca pelo jeito atrapalhado, carismático e sempre bem-humorado, responsável por boa parte das situações cômicas. A chegada de Beré traz equilíbrio ao grupo: ela é corajosa, observadora e rapidamente se torna peça fundamental na solução do caso.


Os jovens atores funcionam muito bem juntos. Têm naturalidade, carisma e falam diretamente com o público da mesma faixa etária, tornando crível a dinâmica dos “detetives mirins”. O filme acerta especialmente ao construir personagens que se comportam como adolescentes reais, com inseguranças, disputas, amizades e descobertas típicas da idade.

Dirigido por Lipe Binder e produzido por Tiago Mello, “O Gênio do Crime” consegue equilibrar aventura, suspense, ação e humor em um ritmo leve e acessível. 

Ao mesmo tempo, aborda temas importantes sem perder o tom divertido, como a transição da infância para a adolescência, o bullying relacionado ao peso de João, os primeiros interesses amorosos e as mudanças naturais nas amizades.


O elenco conta ainda com atores conhecidos da TV e do cinema que garantem o suporte necessário para a obra: Douglas Silva, Rafael Losso, Marcelo Goes, Fafá Rennó, Favel Andrade, Estevam Nabote, Thelmo Fernandes e Larissa Nunes.

Mesmo sendo um filme essencialmente familiar, há uma cena específica que sugere um crime que pode assustar crianças menores. Ainda assim, o saldo é bastante positivo. 

Com uma narrativa ágil, personagens simpáticos e clima de sessão da tarde, “O Gênio do Crime” tem potencial para iniciar uma nova franquia nacional voltada ao público jovem — algo raro e necessário no cinema brasileiro atual.


Ficha técnica:
Direção: Lipe Binder
Roteiro: Ana Reber
Produção: Boutique Filmes, coprodução com a Globo Filmes e Paris Entretenimento
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h30
Classificação: 10 anos
País: Brasil
Gêneros: aventura, ação, infantojuvenil

14 abril 2026

“Pinóquio” russo erra o tom e transforma clássico em confusão musical

Nova adaptação do romance infantil de Carlo Collodi é mais uma versão em live-action duvidosa
(Fotos: Paris Filmes)
 
 

Maristela Bretas

 
Uma versão russa em live-action que se propõe diferente do romance escrito em 1883 pelo italiano Carlo Collodi — que provavelmente estaria se revirando no túmulo. Este é “Pinóquio” ("Pinocchio"), longa que estreia nesta quinta-feira (16) nos cinemas brasileiros.

Sem o carisma da adaptação animada da Disney de 1940 (esqueça o live-action de 2022 com Tom Hanks), o filme ainda aposta em situações politicamente incorretas, especialmente no desfecho, ao sugerir que crianças ignorem regras e desobedeçam aos pais.


A versão dublada em português também deixa a desejar, e até o protagonista carece de leveza e convicção — mesmo nos momentos em que tenta defender animais e amigos. O excesso de informações transforma a narrativa em algo confuso, especialmente para o público infantil.

Na tentativa de se diferenciar, o diretor Igor Voloshin inclui números musicais longos e dispensáveis, além de uma carga exagerada de violência por parte dos vilões. Entre os temas abordados estão exploração de mão de obra e mensagens perigosas, como a ideia de que roubar ou enganar não é necessariamente errado.


Esqueça tudo o que você já viu: este novo boneco de madeira é ingênuo, seu nariz grande não tem função narrativa — aqui, a famosa máxima “se você mentir, seu nariz vai crescer” praticamente não existe. 

A fada madrinha também abandona o papel de figura iluminada e benevolente. Mas nada é mais estranho do que a substituição do Grilo Falante por três baratas falantes. Simpáticas, é verdade — mas ainda são baratas. Quem, afinal, anda com três delas no ombro ou na gola da camisa?


Inicialmente, a trama segue o romance original, ambientado na Toscana. O carpinteiro Gepeto, solitário e triste, é “aconselhado” pelas três baratas a esculpir um boneco de madeira que se tornará seu filho de verdade. 

No entanto, o sonho de Gepeto e Pinóquio rapidamente se complica ao enfrentarem um mundo cheio de aventuras, mas também de armadilhas.

Tecnicamente, o filme apresenta recursos medianos e um elenco engessado, com exceção do vilão Carabaz, líder de um circo mambembe que chega à cidade determinado a tomar posse de Pinóquio. 

Mudanças e adaptações de clássicos podem render bons resultados — mas, desta vez, a aposta simplesmente não funciona.


Ficha técnica:
Direção
: Igor Voloshin
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: redes Cineart - Cidade, Del Rey e Via Shopping - e Cinemark BH Shopping (somente versão dublada)
Duração: 1h42
Classificação: 12 anos
País: Rússia
Gêneros: aventura, live-action, infantil, drama

25 março 2026

Amigos de sempre, Fernanda Montenegro e Ary Fontoura se revelam "Velhos Bandidos"

Comédia conta ainda com as participações de Lázaro Ramos, Vladimir Brichta, Bruna Marquezine e
elenco de telenovelas (Fotos: Laura Campanella)
 
 

Maristela Bretas

 
Comédia leve e divertida com Fernanda Montenegro e Ary Fontoura dando aula de dramaturgia e comicidade ao tratarem um tema que já foi muito explorado no cinema - assalto a banco - incluindo a questão da velhice com um humor que só os anos de experiência deles e de outros idosos do elenco saberiam abordar. Recomendo demais.

O longa, dirigido por Cláudio Torres, filho de Fernanda Montenegro, e produzido pela Conspiração, é divertido, sem deixar de lado a emoção. O etarismo é abordado com leveza, de forma divertida, provando que a experiência dos idosos lhes dá uma grande vantagem sobre os "novinhos" e que a idade não pode ser um entrave para a realização dos sonhos.


O filme acompanha o casal de aposentados Marta (Fernanda Montenegro) e Rodolfo (Ary Fontoura), que planejam roubar um banco. Só que, para realizar o crime, eles precisam da participação de um jovem casal de assaltantes, Nancy e Sid, interpretados por Bruna Marquezine e Vladimir Brichta, que foi pego em flagrante tentando roubar a casa deles. 

A forma "diferente" como as vidas dos quatro se cruzam já deixa claro como será o decorrer da trama, que conta com muita ação e cada casal tentando dar um golpe no outro. No meio do caminho, entra uma figura inesperada que pode colocar fim a todo o plano - o obstinado investigador Oswaldo Aranha (Lázaro Ramos).



As estrelas, sem dúvida, são Fernanda Montenegro e Ary Fontoura. Uma dupla carismática, sincronizada e perfeita, que trata a idade avançada não como o fim da vida, e sim, o início de uma nova. No caso de Marta e Rodolfo, com mais dinheiro e muita energia. 

São elesque dão o rumo do filme, levantando a bola para Vladimir Brichta, Lázaro Ramos e Bruna Marquezine chutarem. Uma sintonia que agrada desde o início, com piadas "velhas e boas" que muitos espectadores acima dos 60 vão reconhecer.

A produção não se esqueceu de incluir no elenco artistas que marcaram gerações e hoje estão na Melhor Idade: Reginaldo Faria, Vera Fischer, Teca Pereira, Hamilton Vaz Pereira, Tony Tornado, Laila Garin e Nathalia Timberg.


Em entrevista coletiva de imprensa no Rio de Janeiro, Fernanda Montenegro contou que "Velhos Bandidos" foi um presente que Cláudio Torres deu a ela. "Ele sabe que eu gosto de comédia e tem também os companheiros de cena. Foi um prazer fazer o filme, era divertido. Há uma hora na vida em que a gente não tem mais futuro, sem morbidez, tem só o presente. Eu acho que só tenho o presente. E no presente, eu ter a oportunidade de estar com essa família de opção e ter meu filho me comandando como diretor faz com uma atriz, assim como fez com todo o elenco, é um momento especial", disse. 

Assim como Fernanda, o restante do elenco confirmou que também se divertiu muito durante as gravações.



"Velhos Bandidos" não é um filme para dar gargalhadas, mas as atuações do grande elenco, o plano mirabolante e as situações absurdas e previsíveis que vão sendo criadas pela "improvável quadrilha" são uma promessa de agradar ao público, inclusive o final no estilo novelesco. 

O filme também é uma oportunidade de ver "Fernandona" trabalhar pela primeira vez com Ary, apesar de serem velhos amigos. O mais engraçado é que nenhum dos dois tem cara de vilão - estão mais para mocinhos. Será este o único e último longa dos dois juntos no cinema? Recomendo assistir, um ótimo entretenimento.


Ficha Técnica
Direção e produção: Claudio Torres
Roteiro: Claudio Torres, Fabio Mendes e Renan Flumian
Produção: Conspiração, coprodução da TV Globo, Claro, Star Original Productions
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h33
Classificação: 14 anos
País: Brasil
Gêneros: ação, comédia

26 fevereiro 2026

"O Caso dos Estrangeiros": cinco histórias, países diferentes e a mesma busca sofrida por uma vida melhor

Longa é baseado em fatos reais sobre a fuga de refugiados de guerras, suas angústias e esperanças
(Fotos: Paris Filmes)
 
 

Maristela Bretas


A partir das memórias de uma ex-refugiada, "O Caso dos Estrangeiros" ("I Was a Stranger") consegue contar histórias entrelaçadas de refugiados, suas angústias, sofrimentos e esperanças de uma vida melhor. 

Baseado em fatos reais, o filme é um retrato emocionante de uma situação quase diária que acompanhamos pelos noticiários, contada por quem vive ou viveu este drama.

Uma crítica ao título em português: "O Caso dos Estrangeiros" ficou muito ruim e não condiz com as histórias dos personagens. A tradução mais correta seria "Eu era um estrangeiro” ou “Eu era uma pessoa estranha ou desconhecida”, expressões que se aplicariam melhor às condições e fatos narrados por eles.


A narrativa, com diálogos em inglês, árabe e grego, envolve cinco famílias de quatro países diferentes, cujas histórias vão se entrelaçando após uma tragédia, com cada personagem sendo apresentado em fragmentos que vão formar o quebra-cabeça. Aos poucos, o espectador vai entendendo o drama de cada um, como se conheceram e criaram laços. 

O longa é inspirado no curta-metragem “Refugee” (2020), também do diretor e roteirista Brandt Andersen. Tudo começa em abril de 2023, a partir das lembranças da síria Amira (Yasmine Al Massari) que mora e trabalha em um hospital de Chicago, nos EUA. 


É dela o primeiro caso - A Médica -, ocorrido oito anos antes, quando era uma das responsáveis pelo atendimento às vítimas da guerra em Aleppo, na Síria. Para ela, não importava de qual lado vinha a pessoa ferida: como médica, ela dispensava o mesmo esforço. 

O desgaste diário com o sofrimento diário causado pela guerra só quebrado pelas reuniões alegres, com cantorias, na casa dos pais. Até que o conflito chega ao seu lar e a obriga a fugir com a filha do país de forma ilegal.


Na segunda parte - O Soldado - o personagem é Mustafa Faris (Yahya Mahayni), um militar sírio que sempre foi fiel à causa e ao governo. Mas ele passa a questionar seu trabalho e seus superiores após presenciar atrocidades e desvios de conduta. 

A suposta guerra contra terroristas que haviam lhe contado era, na verdade, uma maneira de eliminar os inimigos do governo, não importando o sexo ou a idade do "acusado".


Omar Sy é O Traficante, terceiro personagem. Ele é Marwan, um homem poderoso que mantém uma rede de tráfico de refugiados de quem ele extrai todas as economias para tirá-los ilegalmente da Turquia. 

Essas pessoas, que vivem em acampamentos vigiados pelo exército, querem deixar o país em busca de uma vida melhor na Grécia. Em troca, o traficante oferece um bote inflável inseguro e superlotado, dividido com outras dezenas de emigrantes.

Ao mesmo tempo em que despreza seus "passageiros", Marwan demonstra um amor carinhoso e verdadeiro por seu filho pequeno. E promete ao garoto, um dia, se mudar com ele para os Estados Unidos, a terra das oportunidades. Omar Sy, como esperado, tem uma ótima atuação, mesmo nos momentos de total silêncio.


Entre os refugiados do acampamento militar está nosso quarto personagem - O Poeta - de nome Fathi, papel vivido por Ziad Bakri. Ele, a esposa e os três filhos tentam fugir do local e procuram Marwan para viabilizar a viagem, mesmo sendo a opção mais insegura e perigosa. 

É no embarque para a "Terra Prometida", que todos esses personagens acabam se conhecendo e vão viver o mesmo perigo da travessia insana pelo Mar Mediterrâneo durante uma forte tempestade. 


O quinto caso - O Capitão - concretiza a trama. Ele é Stravos (Constantine Markoulakis), comandante de um dos navios da Guarda Costeira grega que resgata diariamente milhares de refugiados que chegam ao país em botes. Seu maior drama é não ter conseguido salvar todos. Mesmo assim não desiste, colocando muitas vezes sua família em segundo plano.

O sofrimento, as perdas, as escolhas, o desejo de proteger suas famílias e a fé formam a trama de "O Caso dos Estrangeiros". Apesar de terem vidas diferentes, enfrentam traumas semelhantes que as levam até mesmo questionar sua fé em Deus. 

Um viés que a Angel Studios vem apostando há tempos ao entregar produções de cunho religioso, algumas boas, que não extrapolam na pregação convencional. Uma que recomendo para assistir em família e está em cartaz nos cinemas é a animação "Davi - Nasce um Rei".


Além de Omar Sy, as atuações de Yasmine Al Massari e dos personagens principais das demais etapas são muito boas e sustentam a narrativa. 

Outro destaque do longa é a fotografia em tons frios e muitas vezes escuros, ressaltando o dilema de cada um e o reforçando que o futuro pode ser sombrio e vai exigir confiança, persistência e esperança.

"O Caso dos Estrangeiros" não é apenas um protesto do diretor Brandt Andersen, mas também uma forma de mostrar ao mundo um problema que precisa ter um basta, para que as pessoas parem de sofrer tentando fugir de seus países. Infelizmente, a solução está longe de vir de forma pacífica. 


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Brandt Andersen
Produção: The Reel Foundation, Philistine Films, SpaceArt Entertainment, Karma Film Productions
Distribuição: Paris Filmes e Angel Studios
Exibição: Cinemark Patio Savassi
Duração: 1h44
Classificação: 16 anos
Países: Jordânia, Território Palestino Ocupado e EUA
Gênero: drama

18 fevereiro 2026

“O Frio da Morte”: thriller gelado sobre amor, solidão e sobrevivência

Emma Thompson brilha como a viúva que precisa salvar uma jovem mantida como refém numa cabana
em meio a uma floresta coberta de neve (Fotos: Leonine Studios)
 
 

Maristela Bretas

 
Um thriller de ação tenso e surpreendente, de gelar os ossos - literalmente - e que prende o espectador na cadeira do início ao fim. Este é "O Frio da Morte" ("Dead of Winter"), que estreia nesta quinta-feira (19) nos cinemas, com uma atuação brilhante de Emma Thompson no papel principal.

Ela é Barb, uma mulher que acaba de perder o marido, com quem passou boa parte da vida. Para atender ao último desejo do esposo, parte em sua velha caminhonete em uma viagem solitária até o Lago Hilda, no norte de Minnesota, onde pretende espalhar as cinzas no local em que passaram as primeiras férias juntos. 


Durante o trajeto é surpreendida por uma forte nevasca e se perde nas estradas tomadas pela neve perto do lago. Ao parar para pedir informações em uma cabana isolada na floresta, Barb descobre que uma jovem chamada Leah (Laurel Marsden) está sendo mantida em cativeiro por um casal, interpretado por Judy Greer (Purple Lady) e Marc Menchaca (Camo Jacket). Sem ter a quem recorrer, ela vai fazer de tudo para salvar a refém. 

Desde o início, o filme provoca tensão ao mostrar a protagonista circulando sozinha durante a tempestade, mal conseguindo enxergar o caminho. 


O cenário gélido, o estranho dono da cabana que mal pronuncia dez palavras ao lhe dar informações e a companheira dele, com fúria e angústia nos olhos, reforçam a atmosfera inquietante. 

Durante a tentativa de resgate da jovem ocorrem várias reviravoltas. A violência é latente e em alguns momentos, explícita. Mas o que mais incomoda é a presença constante da morte - tanto nas memórias da viúva, presa aos dias bons e ruins com o marido falecido, quanto na relação desgastada dos sequestradores.


Barb é uma mulher pacífica, mas as circunstâncias a levam a tomar medidas extremas para salvar Leah. Sem querer defender os "bandidos", eles também têm seus motivos pessoais para agir como agem, o que evidentemente, não justifica os crimes cometidos.

Os cenários são uma atração à parte. Filmado na Finlândia, Canadá e Alemanha (mesmo com a história ambientada nos Estados Unidos), "O Frio da Morte" entrega belas imagens de montanhas e florestas cobertas de neve e lagos congelados. Difícil não sentir o vazio e a finitude que emanam do ambiente.


Leah torna-se o ponto em comum entre Barb e os sequestradores. Torce para ser salva pela viúva, mas não sabe se o socorro chegará a tempo de evitar seu seja morta por seus algozes. Mas ficou uma falha no roteiro: como ela conheceu o casal que a sequestrou?

Já Barb sente a morte ainda mais presente após a perda do marido, e a jovem Lhe oferece uma nova razão para viver. Algo semelhante ocorri com Purple Lady e Camo Jacket, que mantêm um relacionamento conturbado marcado por violência doméstica.


O longa permite diversas interpretações - algumas sutis, outras mais evidentes - cabendo a cada personagem revelar por que está ali: memórias que não podem ser esquecidas, saudade, solidão, perdas, relação abusiva, a luta pela sobrevivência. 

O frio da morte pode significar a queda da temperatura do corpo (hipotermia ) que pode matar, a rigidez cadavérica, o desejo de morrer e também o medo de que isso aconteça antes da hora.

"O Frio da Morte" é um filme que eu recomendo. Pena que a reviravolta final não tenha sido a que eu desejava, embora faça sentido dentro da trama. Vale conferir nos cinemas. Um lembrete: não esqueça de levar um casaco - o ar-condicionado parece tornar a experiência ainda mais fria, além da neve Coisa de gelar os ossos. Depois comenta aqui o que achou.


Ficha técnica:
Direção: Brian Kirk
Roteiro: Nicholas Jacobson-Larson e Dalton Leeb
Produção: Augenschein Filmproduktion e Stampede Ventures, com a coprodução da Leonine Studios
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h38
Classificação: 14 anos
Países: EUA, Canadá e Alemanha
Gêneros: ação, suspense psicológico

22 janeiro 2026

"Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno" decepciona ao tentar reproduzir famosa franquia

Longa novamente dirigido por Christophe Gans é uma adaptação do videogame "Silent Hill 2"
(Fotos: Paris Filmes)
 
 

Maristela Bretas


"Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno" ("Return To Silent Hill") estreia nesta quinta-feira nos cinemas tentando ressuscitar o prestígio de uma das franquias mais cultuadas do terror psicológico, mas acaba entregando um retorno decepcionante. 

Dirigido novamente por Christophe Gans, o longa é uma adaptação de "Silent Hill 2", um dos jogos mais aclamados da série, porém com menos impacto, menos personalidade e muito mais problemas. Até oferece um susto ou outro nos primeiros 10 minutos e mais nada.


A história acompanha James (Jeremy Irvine, de "Mamma Mia 2" - 2018), um pintor atormentado que recebe uma carta misteriosa de Mary (Hannah Emily Anderson), seu amor perdido após a separação, pedindo que ele retorne à estranha cidade de Silent Hill para um possível reencontro. 

O que ele encontra, no entanto, é uma cidade devastada por um incêndio, tomada por névoa e lembranças fragmentadas de uma comunidade tão bizarra quanto ameaçadora. Conforme James revisita memórias de seu passado com Mary, figuras tenebrosas começam a surgir, colocando sua sanidade mental à prova.


Entre essas presenças está o icônico Piramidy Head, vivido novamente por Robert Strange, uma das poucas conexões diretas com o imaginário dos jogos da Konami e do filme original. 

Também chama atenção a presença da jovem Eve Templeton, embora sua personagem seja pouco explorada pelo roteiro. Infelizmente, mesmo com elementos reconhecíveis para os fãs, o filme falha em construir tensão verdadeira ou aprofundar seus personagens.


Apesar de tentar se aproximar mais da estética e da mitologia da famosa série de videogames Silent Hill, o longa entrega uma versão diluída e confusa desse universo.

O terror psicológico dá lugar a cenas repetitivas e previsíveis, que apostam mais em criaturas grotescas do que em atmosfera. A direção de Gans parece presa ao passado, reciclando ideias sem o mesmo cuidado ou impacto visual que marcaram a série de videogames.


O roteiro, por sua vez, se perde em explicações vagas e revelações sem peso emocional. O drama de James nunca se desenvolve plenamente, e sua jornada entre culpa, amor e trauma não encontra força suficiente para envolver o espectador. O resultado é um filme que parece sempre à beira de algo interessante, mas nunca chega lá.

No fim, “Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno” soa como uma continuação desnecessária. Ao tentar agradar fãs dos jogos e do primeiro longa, acaba entregando uma experiência inferior, esquecível e sem o impacto psicológico que tornou Silent Hill um nome tão marcante no terror. 

Um retorno que confirma que algumas portas talvez devessem permanecer fechadas.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Christophe Gans
Produção: Davis Films, em parceria com Electric Shadow
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h46
Classificação: 16 anos
País: EUA
Gênero: terror

08 janeiro 2026

"A Empregada": o suspense que prova que confiança pode ser armadilha

Amanda Seyfried e Sydney Sweeney protagonizam o longa inspirado no best-seller homônimo escrito
por Freida McFadden (Fotos: Paris Filmes)
  
 

Marcos Tadeu
Do blog parceiro Jornalista de Cinema

  
"A Empregada" ("The Housemaid"), em cartaz nos cinemas, traz para as telas o suspense psicológico que conquistou leitores do best-seller de suspense de Freida McFadden. 

Dirigido por Paul Feig (de "Um Pequeno Favor" - 2018), o filme aposta em mistério, tensão e jogos de manipulação para fisgar o público logo de cara, deixando claro que aquela casa luxuosa esconde muito mais do que parece.


A história acompanha Millie Calloway (Sydney Sweeney, de "Madame Teia" - 2024), uma jovem tentando recomeçar a vida depois de um passado difícil. 

A oportunidade surge quando ela aceita trabalhar como empregada doméstica na mansão de Nina (Amanda Seyfried, de "Mamma Mia" - 2018) e Andrew Winchester (Brandon Sklenar, de "É Assim que Acaba" - 2025).

No início, tudo parece perfeito demais e é justamente aí que mora o perigo. Aos poucos, Millie percebe que seus patrões são estranhos, instáveis e donos de segredos perturbadores, transformando o que parecia um emprego dos sonhos em um verdadeiro pesadelo.


O filme acerta no elenco. Sydney Sweeney segura bem o papel e convence como alguém que tenta manter o controle mesmo quando tudo começa a sair do lugar. 

Amanda Seyfried e Brandon Sklenar também se destacam, criando personagens cheios de ambiguidades, daqueles que deixam o espectador o tempo todo desconfiado. A dinâmica entre os três é o que realmente move a história e sustenta o suspense até o fim.

O longa, no entanto, escorrega no ritmo. Em alguns momentos, ele aposta em exageros e ironias; em outros, fica pesado demais, trazendo discursos mais diretos sobre violência psicológica e união feminina. 


Essa mudança de tom pode causar estranhamento, mas não chega a estragar a experiência. O final ainda deixa algumas perguntas no ar, dando aquela sensação de “continua?”, o que pode indicar planos para uma sequência. 

"A Empregada" cumpre bem o que promete: prende a atenção, provoca desconforto e rende boas reviravoltas. É um suspense que funciona tanto para quem gosta de mistério quanto para quem busca um filme envolvente para começar o ano no cinema. 

Sem reinventar o gênero, o longa entrega entretenimento sólido e deixa claro por que essa história fez tanto sucesso antes mesmo de chegar às telonas.


Ficha técnica:
Direção: Paul Feig
Roteiro: Rebecca Sonnenshine
Produção: Lionsgate, Hidden Film
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h13
Classificação: 16 anos
País: EUA
Gênero: suspense

24 dezembro 2025

“Tainá e os Guardiões da Amazônia - Em Busca da Flecha Azul" une aventura infantil e preservação da Amazônia

Animação usa linguagem educativa e divertida para conscientizar gerações sobre meio ambiente
(Fotos: Sincrosine Produções)
 
 

Maristela Bretas

 
Com estreia marcada para 25 de dezembro, em pleno Natal, "Tainá e os Guardiões da Amazônia – Em Busca da Flecha Azul" chega aos cinemas como uma animação brasileira que entende muito bem seu papel: entreter, educar e conscientizar, sem jamais perder o apelo lúdico necessário para dialogar com crianças — e também com adultos.

Dirigido por Alê Camargo e Jordan Nugem, produzido pela Sincrocine Produções e distribuído pela Paris Filmes, o longa tem classificação livre e se posiciona como uma obra pensada para todas as idades.  

Seu grande mérito está justamente no equilíbrio entre um tema urgente e delicado — a destruição da Amazônia — e uma narrativa leve, colorida e acessível, que transforma a conscientização ambiental em aventura.


Mesmo inserido em um contexto extremamente atual, marcado por mudanças climáticas, queimadas e desmatamento, o filme evita o tom panfletário. 

Os diretores apostam em uma linguagem educativa e bem-humorada, criando situações divertidas e diálogos simples, capazes de captar a atenção do público infantil sem subestimar sua inteligência. 

O resultado é uma animação que fala de preservação ambiental a partir da infância, entendendo que é ali que nasce a verdadeira mudança. 

A relevância do projeto ficou evidente com seu pré-lançamento durante a COP-30, em Belém, reforçando o compromisso da obra com a pauta ambiental e com a valorização da cultura amazônica. 


Essa conexão também se reflete no elenco de dublagem, que conta com nomes paraenses de peso. Fafá de Belém empresta sua voz à ancestral e sábia preguiça Mestra Aí, enquanto Juliana Nascimento dá vida à protagonista Tainá, trazendo carisma e energia à personagem.

Na trama, acompanhamos uma Tainá jovem, impulsiva e ansiosa, em pleno treinamento para se tornar uma Guardiã da Amazônia. Ao perder a Flecha Azul, artefato mágico que guia aqueles destinados à proteção da floresta, a heroína coloca seu próprio destino em risco. 

A partir daí, inicia-se uma jornada clássica de amadurecimento, repleta de encontros, aprendizados e desafios.


É nesse percurso que surgem alguns dos personagens mais carismáticos do filme. Catu, o macaquinho encrenqueiro dublado por Caio Guarnieri, é o grande responsável pelo alívio cômico; Pepe, o sábio urubu-rei vivido por Yuri Chesman, traz equilíbrio e reflexão; e Suri, a delicada e charmosa ouricinha rosa dublada por Laura Chasseraux, completa o grupo com ternura. 

A dinâmica entre eles funciona muito bem, especialmente nas cenas mais leves, garantindo ritmo e diversão. Unidos, eles aprendem a lidar com suas diferenças para formar os Guardiões da Amazônia, grupo que representa valores essenciais como amizade, cooperação e respeito à natureza. 


O filme ainda incorpora elementos do folclore brasileiro ao apresentar o temido Jurupari, figura lendária que assombra os animais da floresta, enriquecendo o universo narrativo. 

No entanto, a ameaça mais concreta e assustadora não vem da lenda, mas do mundo real: Jaime Bifão e seu trator, símbolo direto da devastação ambiental. 

É nesse ponto que a animação se mostra mais contundente, traduzindo em imagens simples e compreensíveis um problema complexo e urgente. Quando tudo parece perdido, resta gritar “Cru-cru” e confiar na coragem de Tainá — um gesto simbólico que reforça a esperança e o poder da ação coletiva.


Personagem criada nos anos 2000

Criada há 25 anos, Tainá retorna agora em um longa que foi idealizado antes da série exibida nos anos 2000, explicando suas origens, o início de seu treinamento e a formação do grupo que marcou uma geração. 

Para quem já conhece a personagem, há um agradável sentimento de nostalgia; para os novos espectadores, uma apresentação envolvente e atualizada. "Tainá e os Guardiões da Amazônia – Em Busca da Flecha Azul" é, acima de tudo, uma linda produção nacional, que honra sua proposta ao divertir enquanto educa. 

Um filme que fala sobre a importância de preservar a Floresta Amazônica sem perder a leveza, provando que o cinema infantil pode — e deve — ser também um espaço de reflexão e responsabilidade. 

Uma ótima escolha para o período natalino e um passo importante para o fortalecimento da animação brasileira.


Ficha técnica:
Direção:
Alê Camargo e Jordan Nugem
Roteiro: Gustavo Colombo
Produção: Sincrocine Produções e coprodução Tietê Produções
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h28
Classificação: Livre
País: Brasil
Gêneros: animação, aventura