30 agosto 2023

Comédia de humor refinado, “O Porteiro” quer levar brasileiros de volta ao cinema

Produção nacional que não recorre à apelação, arranca risos do público (Fotos: Laura Campanella)


Eduardo Jr.


Marque em sua agenda: nesta quinta-feira, 31 de agosto, estreia nos cinemas a comédia nacional “O Porteiro”. Acompanhamos a live realizada com o elenco e a pré-estreia do longa em uma das salas da rede Cineart. Dirigido por Paulo Fontenelle (realizador de “Blitz, o filme”, 2019) e distribuído pela Imagem Filmes, a produção arranca risos do público sem dificuldades, por trazer atuações muito boas.

No filme, o porteiro Waldisney (personagem de Alexandre Lino) é mais um nordestino que migrou para o Rio de Janeiro com a família. Morando no “cafofo” dentro do prédio onde trabalha, ele não tem como evitar as situações (cômicas) que complicam sua vida. 


Ele é um homem simples, que não tem habilidade nem pra acalmar a estourada esposa Laurizete, vivida por Daniela Fontan (“A Sogra que te Pariu”, 2022, disponível na Netflix), que dirá capacidade para driblar os problemas. 

Waldisney inicia sua saga na delegacia, prestando depoimento ao delegado, personagem de Maurício Manfrini (“Os Farofeiros”, 2018), que tem na mão um personagem bem diferente dos papéis costumeiros. O que aconteceu e virou caso de polícia, descobrimos ao longo do filme.


Os flashbacks (que a gente esquece que são flashbacks) vão nos contando como as situações foram se amarrando até aquele ponto. E aí os moradores do edifício Clímax vão sendo apresentados. Destaques para a excelente Dona Alzira, vivida por Suely Franco ("Minha Mãe é uma Peça 2", 2016) e a surpreendente e engraçada presença do lutador José Aldo.   

Além destes nomes, a produção conta ainda com Cacau Protásio (“Juntos e Enrolados”, 2022), Aline Campos (“Um Dia Cinco Estrelas”, 2023), Bruno Ferrari (“O Buscador”, 2021), Rosane Gofman (“Confissões de uma Garota Excluída”, 2021) e Heitor Martinez (“Um Natal Cheio de Graça”, 2022). 


O elenco se reuniu em 2022 para as gravações. Se havia alguma insegurança com o período pós-pandemia, não se percebe isso na tela. A atriz Aline Campos revelou que o entrosamento foi tão grande que o diretor precisava pedir silêncio durante as filmagens, de tanto que a equipe se divertia. 

O desafio agora é trazer de volta aos cinemas um público que parece ter se habituado a assistir tudo em casa e não percebeu que o poder do controle remoto de pausar, voltar cenas, interrompe as emoções, faz perder o clima. Sem contar a perda da experiência coletiva nas salas de exibição. 


Outra intenção do filme é reforçar a necessidade de cordialidade para com os porteiros. Embora não seja um filme de militância, algumas pautas não têm como ser omitidas. 

O protagonista Alexandre Lino é natural de Pernambuco e sabe como é ser um migrante nordestino em um grande centro urbano, que muitas vezes apaga essas identidades. Seja pela grosseria de não dar um bom dia, seja sob a desculpa da piada (que geralmente é só manifestação de preconceito). 

Além disso, Lino nos disse que trazer às telas uma comédia nacional, sem o mesmo aparato de marketing de um filme como “Barbie”, por exemplo, é mais desafiador ainda. Principalmente neste momento em que se discute a cota de tela e a necessidade de mais salas exibindo produções brasileiras. 


A aposta de “O Porteiro” é na simplicidade. E o humor chega a ser refinado, já que não apela para o besteirol. A construção da simplicidade de Waldisney vem dos seis anos em que a peça é realizada nos palcos do país. E também é fruto de pesquisa. A equipe visitou portarias de diversos prédios em São Paulo e Rio de Janeiro para ouvir histórias dos profissionais e pedir permissão para retratar isso na telona. 


O resultado é um filme leve, que peca apenas por permitir que algumas cenas se alonguem e pela falta de mais músicas originais (Marília Mendonça nem sempre combina com as cenas). Mas diverte e retrata bem alguns aspectos da cultura brasileira e nordestina. 

"O Porteiro" já se equipara com produções da Marvel, porque tem até cenas pós-créditos. Então, depois que as letrinhas começarem a subir, se prepare pra rir mais um pouquinho. 


Ficha técnica:
Direção: Paulo Fontenelle
Produção: Rubi Produções
Distribuição: Imagem Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h23 minutos
Classificação: 14 anos
País: Brasil
Gênero: comédia

29 agosto 2023

Roteiro de "Toc Toc Toc - Ecos do Além" patina entre terror psicológico e real

Relação abusiva familiar é um das abordagens do terror baseado em conto do escritor Edgar Allan Poe
(Fotos: Paris Filmes)


Maristela Bretas


Edgar Allan Poe era, sem dúvida, um grande escritor de contos de terror e suspense. E foi um deles, "O Coração Revelador ("The Tell-Tale Heart"), de 1843, que serviu de inspiração para o roteiro de "Toc Toc Toc - Ecos do Além" ("Cobweb"), escrito por Chris Thomas Devlin, que estreia nesta quinta-feira (31) nos cinemas. 

Apesar de a história apontar para um final diferente do que se propunha, o que seria bem interessante, ela insiste nos clichês conhecidos. Cenas escuras (às vezes nem dá para ver o que está acontecendo), uma voz misteriosa vinda de uma parede, protagonistas com caras de psicopatas, uma criança retraída e sempre com medo e uma pessoa disposta a enfrentar o desconhecido para ajudá-la.


Inicialmente, o filme leva a crer que poderia ser um suspense, abordando temas como violência psicológica doméstica, bullying na escola e traumas provocados por uma relação abusiva dentro de casa. 

Mas a partir da segunda metade, o roteiro fica embolado e as cenas deixam a desejar. Começa uma explicação, deixa pela metade, já pula para outra cena, não se sabe nada da família de Peter, apenas que é assustadora, especialmente o pai. Os crimes acontecem, mas ninguém investiga e nem suspeita de ninguém. Tudo fica solto no ar.


Na história, Peter (Woody Norman), de 8 anos, é atormentado por um misterioso e constante barulho que vem de dentro da parede de seu quarto, um toque que seus pais abusivos insistem que se trata apenas da imaginação do garoto. 

À medida que o medo de Peter se intensifica, ele acredita que seus pais podem estar escondendo um segredo perigoso e passam a ameaçá-lo. O garoto passa a confiar apenas na professora e na voz misteriosa vinda da parede.


No elenco estão Antony Starr (pai) e Lizzy Caplan (mãe), ambos da série “The Boys” (2019 a 2022), da Prime Video, que conta com a produção de Seth Rogen e Evan Goldberg, os mesmos deste filme. A dupla também é roteirista de "As Tartarugas Ninja - Caos Mutante", que estreia também nesta quinta-feira (31) nos cinemas.

Destaque para Woody Norman, que pelo visto gostou de fazer o gênero - este é o segundo filme de terror este ano. O primeiro foi "Drácula - A Última Viagem do Deméter", que entrou em cartaz nos cinemas na semana passada. Também fazem parte do longa Cleopatra Coleman (a professora Miss Devine) e Ellen Dublin (a voz vinda da parede do quarto de Peter).


"Toc Toc Toc - Ecos do Além" não é um terror ruim, mas não provoca impacto, do tipo que faz a gente dar pulo na cadeira do cinema. Muito antes de a entidade dar as caras, o que acontece nos minutos finais, já dá para saber que não vai dar boa coisa para Peter. E agora, o que é capaz de provocar mais pavor: os pais do garoto ou a voz na parede? Só assistindo para saber.


Ficha técnica:
Direção: Samuel Bodin
Produção: Lionsgate, Vertigo Entertainment e Point Grey Pictures
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h28
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: suspense, terror

28 agosto 2023

As Tartarugas Ninja voltam às telas atualizada com menções a memes e TikTok

Animação é uma versão que tenta dialogar com as novas gerações (Fotos: Paramount Pictures)


Eduardo Jr.    


Quem viveu os anos 1980 e 1990 certamente ouviu falar ou se divertiu com as aventuras de Leonardo, Donatello, Raphael e Michelangelo. Agora, uma nova animação tenta refrescar um dos desenhos mais populares do século passado. 

Com distribuição da Paramount e da Nickelodeon, “As Tartarugas Ninja - Caos Mutante” ("Teenage Mutant Ninja Turtles: Mutant Mayhem"), do diretor Jeff Rowe, estreia nos cinemas nesta quinta-feira (31). Para apresentar - e atualizar - a história do quarteto mutante às novas gerações, o longa vem recheado de referências pop. 


As quatro tartarugas adolescentes vivem nos esgotos com seu pai, Splinter, um homem-rato, que impede que os filhos se aproximem dos humanos para não serem maltratados e ordenhados por eles (sim, ordenhados). A única permissão é sair para “fazer as compras da casa”. 

Mas como adolescentes criam suas próprias regras, as tartarugas fazem da sua obrigação um ‘rolê’ animado, ao som de hip-hop e filmagens com celular. Em uma das escapadas para a superfície se metem em uma aventura que se transforma em missão para salvar Nova Iorque. 


A animação de Rowe traz algumas modificações em relação aos desenhos orginais. A começar pela presença de April O’Neil, que era uma jornalista ruiva, e agora é uma estudante negra aspirante a jornalista. 

O inimigo do grupo de heróis também é outro. E não há menção à organização ninja Clã do Pé, como havia na versão de 1980. 

Aqui, o pai e mestre Splinter aprendeu artes marciais em filmes e vídeos (fazer o quê, né, se as novas gerações aprendem tudo no YouTube, por que não vamos engolir essa?). 

Aliás, o nome do homem-rato é pouco mencionado na trama. Corre o risco de os mais jovens saírem do cinema sem nem lembrar qual o nome do pai das tartarugas ninja.   


O termo ‘mutante’ é a deixa para observarmos uma semelhança entre este filme e a consagrada franquia X-Men. Assim como os personagens da Marvel, as tartarugas também enfrentam outros mutantes e batalham para serem aceitas entre os humanos. 

As semelhanças não param por aí. O traço dos personagens se parece com rascunhos de desenhos, lembrando o estilo utilizado em “Homem Aranha no Aranhaverso” (2018). Fica claro que há na proposta estética uma intenção de suavizar os heróis, enquanto o vilão é poluído, com traços mais grosseiros. 


Ainda assim, a obra derrapa nos gráficos em certos momentos. A mistura de traços imperfeitos somada à agilidade das cenas de ação pode deixar o espectador sem captar um detalhe ou outro do que passou na tela. 

A apresentação de alguns personagens também fica a desejar. A vilã Cynthia Utrom aparece na trama, mas não se sabe de onde ela veio ou qual a sua motivação. 

Situação similar a do vilão Supermosca, que não tem sua origem bem explicada. Resta ao espectador aguardar por uma continuação para ter as respostas (e esperar também as cenas pós-crédito, porque TEM). 


O longa acerta na abordagem da cultura pop, na discussão de pautas como bullying e preconceito, e no vocabulário dos personagens. Uma curiosidade interessante é que as vozes das tartarugas são de atores adolescentes, o que confere maior fidelidade ao que está sendo dito. 

A produção tem como roteiristas Seth Rogen e Evan Goldberg, que já criaram juntos vários roteiros de comédias, como "A Entrevista" (2014), "Vizinhos 2" (2016), e "Festa da Salsicha (2016). A dupla também produtora executiva do terror "Toc Toc Toc - Ecos do Além", que estreia nesta quinta-feira (31) nos cinemas.

No geral, o resgate de um desenho considerado clássico por alguns consegue divertir, explora a graça da adolescência, mas “As Tartarugas Ninja - Caos Mutante” poderia ser mais bem trabalhado.


Ficha técnica:
Direção: Jeff Rowe
Produção: Paramount Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h19
Classificação: livre
País: EUA
Gêneros: animação, comédia, aventura, ação

27 agosto 2023

Documentário “Ithaka: A Luta de Assange” expõe o preço da verdade

Obra de Ben Lawrence revela detalhes da batalha do pai do jornalista para conseguir a libertação do filho
(Fotos: Divulgação)


Eduardo Jr. 


A tela se abre com uma mensagem dizendo que a tortura é uma ferramenta de alerta, que é mais efetiva se usada em público. Um resumo claro do que acontece, há anos, com Julian Assange, fundador do site WikiLeaks. 

Perseguido, preso e constantemente ameaçado, o jornalista e ativista australiano tem sua saga contada no documentário “Ithaka: A Luta de Assange”, que estreia nos cinemas brasileiros dia 31 de agosto, com distribuição da Pandora Filmes. 

Mas a obra do diretor Ben Lawrence não é um filme de ação, é mais drama. O protagonista não é Julian Assange, e sim seu pai, John. E como antagonista, os Estados Unidos da América, que realizam, aos olhos do mundo, uma tortura psicológica contra Assange e, consequentemente, contra a liberdade de imprensa, fazendo disso uma espécie de aviso (ou ameaça) a quem se aventurar na exposição de algumas verdades inconvenientes. 


O longa acompanha o pai de Assange, John Shipton, que viaja pela Europa em busca de contatos com a mídia e com apoiadores, para libertar o filho da prisão. No ano de 2010, o jornalista publicou arquivos e documentos que revelavam crimes de guerra cometidos pelos Estados Unidos durante o conflito no Iraque, quando um helicóptero norte-americano metralhou civis em Bagdá. 

Julian foi preso em Londres em 11 de abril de 2019, e desde então os americanos tentam sua extradição. Tal pedido não é nenhuma novidade na história moderna. O ineditismo reside no fato de que nunca antes um jornalista e editor foi acusado de espionagem.  

Julian Assange

Ao que parece, o caso de Assange pode abrir precedente para que o ofício do jornalismo seja ferido de morte - mesmo que a Primeira Emenda norte-americana proíba o congresso de limitar a liberdade de imprensa. 

O documentário apresenta esta questão, costurando depoimentos e imagens de arquivo. Mas explora de forma mais intensa o drama de um pai, idoso, que sai de Melbourne para ir a Berlim, Londres e quantos países forem precisos, para ajudar o filho. E também o quanto os desgastes de um processo longo, envolvendo um preso político, afeta uma família. 


Enquanto John caminha, uma câmera nervosa acompanha o pai. E captura até os momentos em que ele se recusa a responder algumas perguntas que soam sensacionalistas - afinal, o que importa é libertar Julian ou explorar o motivo que manteve pai e filho afastados durante anos?  

Junto das cenas familiares e das manifestações pela liberdade do jornalista, a direção opta por inserir legendas, de forma a situar o espectador e explicar alguns detalhes. 

No geral, o documentário é direcionado a apresentar, textual e visualmente, um Assange vítima de um governo sujo. Tanto que, o acusado de espionagem se torna alvo a ser espionado, até mesmo enquanto asilado dentro de uma embaixada. 


Além do drama, há também um certo suspense. Para quem não acompanha os noticiários e não sabe o atual status do preso político mais famoso dos últimos tempos, pode ficar a sensação de “o que vai acontecer agora?”. 

Isso ocorre porque, até aí, não se sabe como a alternância de poder nos EUA, de Donald Trump para Joe Biden, pode interferir no destino de Assange. 

O julgamento que definirá a extradição ou não do ativista é entrecortado pelo cotidiano dos familiares e outros detalhes estratégicos. E até que essas respostas sejam entregues, o espectador já está tomado pela aflição, curiosidade ou ambos. 

Acompanhar a saga da família causa tristeza em certos momentos. O acesso à intimidade dos parentes se deve ao meio-irmão de Assange, Gabriel. Partiu dele a ideia de estar junto com o pai nessa campanha pela liberdade do filho. 

Da esq. para direita - irmão, cunhado e o pai de Julian

Outro parente envolvido na produção é o irmão da esposa de Assange, Adrian Devant. Com as portas da casa abertas por eles, a câmera nos permite observar o neto chorando por não poder desfrutar da companhia do avô, que precisa libertar o filho. 

“Ithaka” é um bom documentário. Se propõe a trazer uma abordagem pessoal a um conteúdo que se resume a uma batalha jurídica. E por trás dela, um governo motivado em esconder seus feitos (acho que já vi isso em algum lugar…). Em tempos de analfabetismo político, pode ser também uma aula, um alerta sobre assuntos que nos afetam diretamente. 


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Ben Lawrence
Distribuição: Pandora Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h46
Classificação: 12 anos
Países: Austrália e Reino Unido
Gêneros: documentário, drama

25 agosto 2023

"A Chamada" é uma repetição de outros filmes de ação de Liam Neeson

Longa traz ameaças por telefone, perseguições da polícia e um roteiro bem fraco  (Fotos: StudioCanal)


Maristela Bretas


De agente num avião ("Sem Escalas" - 2014) para um policial no trem ("O Passageiro" - 2018) e agora um executivo do setor financeiro que não dá atenção à família dentro de um carro. O formato que marcou estes filmes de ação de Liam Neeson se repete em "A Chamada" ("Retribution"), novamente com mensagens e ligações telefônicas ameaçadoras. A nova produção, em cartaz nos cinemas, é mais do mesmo.

Tudo é bem previsível, das falas ao vilão. O roteiro é preguiçoso, quase um CONTROL C/CONTROL V. Poderia ter explorado a experiência do ator principal, que já fez produções melhores do gênero. Desde o primeiro momento é possível saber o que vai acontecer e como será a reação do empresário Matt Turner, papel de Neeson.


O elenco secundário também faz o básico e acrescenta muito pouco, especialmente os atores Lilly Aspell, Jack Champion e Embeth Davidtz, que interpretam os filhos e a esposa de Turner. 

A agente da Europol, Angela Brickmann (Noma Dumezweni), está lá para cumprir tabela. Afinal é necessário alguém da polícia para caçar o homem que ameaça os filhos com uma bomba. Até mesmo o experiente Matthew Modine, como Anders, sócio de Turner, é mal aproveitado.


O longa é uma corrida contra o relógio para Matt Turner. Numa manhã quando levava os filhos à escola, ele recebe uma ligação de um desconhecido que diz que há uma bomba sob os assentos e que ninguém pode deixar o carro. 

O executivo terá de seguir as ordens do terrorista ou o veiculo será explodido com todos os ocupantes. Para quem não se importava muito com a família e só pensava nos negócios, ele agora tem de voltar sua atenção para salvar os filhos do homem que os está ameaçando.


"A Chamada" tem pontos positivos, como as imagens nas ruas de Berlim. Mesmo com cenas rápidas de perseguição é possível ver locais bem interessantes da cidade alemã. A ação predomina durante todo o longa, mas não apresenta nada de novo do que já foi visto em outros filmes do gênero. 

A trilha sonora composta por Harry Gregson-Williams, responsável por "Megatubarão 2" (2023), "Mulan" (2020) e "A Casa de Gucci" (2021), é boa e ajuda a dar um clima mais dinâmico às cenas de ação. 

Para os fãs do ator, "A Chamada" pode ser uma opção que agrade - eu mesma fui assistir por gostar dos filmes de Liam Neeson -, mas não espere novidades. Acredito que o longa vá bem rápido para o streaming.


Ficha técnica:
Direção: Nimród Antal
Produção: StudioCanal, Vaca Films Studio, Ombra Films
Distribuição: Paris Filmes, Telecine
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h31
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: suspense, ação

24 agosto 2023

"Drácula - A Última Viagem do Deméter" agrada pelo roteiro, produção e atuações

A famosa criatura do romance de Bram Stoker traz terror e sustos à telona (Fotos: Universal Pictures)


Eduardo Jr. e Maristela Bretas


Os fãs de "Crepúsculo" que me perdoem, mas o maior vampiro de todos os tempos está de volta. “Drácula: A Última Viagem do Deméter” ("The Last Voyage Of The Demeter"), é o longa do diretor norueguês André Ovredal, que estreia nesta quinta-feira nos cinemas, trazendo muitas mortes ao cair da noite. Trata-se de um terror que agrada por contar um capítulo da obra do escritor irlandês Bram Stoker, publicado em 1897. 

Com um bom roteiro, produção e parte técnica corretas, além de um elenco sem estrelas milionárias, mas que entregam boas interpretações, o filme segue um caminho diferente do costumeiro conde Drácula. 

A história aposta no famoso vampiro e como ele saiu de sua terra natal para procurar um "cardápio" diferente, do tipo sangue inglês correndo nas veias. 


Na história, o navio Deméter, comandado pelo capitão Eliot (o experiente Liam Cunningham, da série "Game of Thrones"), parte do porto da Romênia em direção a Londres com uma carga particular misteriosa que vai colocar toda a tripulação em risco. Ao longo do percurso, uma presença assustadora vai deixando um rastro de sangue e mortes.

No elenco principal também estão Corey Hawkins (“Infiltrado na Klan" - 2018) como Clemens, médico do navio, que luta para tentar salvar os ocupantes da embarcação, e o ator espanhol Javier Botet ("It - A Coisa" - 2017), no papel de Drácula.


Já na escolha da tripulação do navio que levará uma carga misteriosa da Romênia para a Londres, os avisos de que algo ruim vai acontecer são apresentados. 

Logo no início da viagem, o primeiro evento: a descoberta de uma mulher, Anna (Aisling Franciosi), dentro de uma das caixas transportadas. Um dos marujos diz que “a presença de mulheres em navios é sinônimo de azar”. 

Começa a ser construída a tensão do filme, com cenas escuras, silêncios e sustos, e o estranho ataque que mata todos os animais que estavam sendo transportados. Daí vem a sequência de mortes noturnas e a apresentação em relances do Drácula. 


A maquiagem do vampiro ficou ótima, é assustadora, mesmo o personagem não tendo praticamente nenhuma fala, só grunhidos, ao contrário de outros filmes sobre o "chupador de sangue", em que ele é um sedutor conde, cercado de lindas mulheres e esbanjando riqueza.   

Destaque também para o garoto Woody Norman, que interpreta Toby, neto do capitão que vive no navio. O menino está muito bem, entregando uma carga emocional surpreendente em seu papel. Pelo visto gostou do gênero terror, pois está também no elenco de "Toc Toc Toc - Ecos do Além", que estreia dia 31 de agosto.


Falando do garoto Toby, vale dizer que o roteiro se mostra corajoso - só não vou dizer o porquê pra não dar spoiler. Mas dá pra dizer que há cenas bem legais à noite e também durante o dia, como a representação da incapacidade de um vampiro suportar a luz do sol.   

O filme traz ainda um certo drama. Isso se percebe, por exemplo, na história do capitão que deseja se aposentar tranquilamente, mas se vê incapaz diante das tragédias daquela última viagem. E também no dilema do médico que não é aceito nos hospitais por racismo, mas no navio é o mais capacitado para aquela luta por usar sua inteligência como arma pra enfrentar a criatura.


Verdade seja dita, o vampiro poderia ter mais tempo de tela, e talvez uma explicação de como se deu seu surgimento. Mas o longa vale o ingresso e a pipoca. 

É um filme que, mesmo não sendo um arrasa-quarteirão, se sustenta. Não tenta sobreviver apenas do nome do vampiro mais famoso de todos os tempos. 


Ficha técnica:
Direção: André Ovredal
Produção: Universal Pictures, DreamWorks Pictures, Phoenix Pictures
Distribuição: Universal Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h59
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: terror, suspense

23 agosto 2023

Comovente, filme “Retratos Fantasmas” reflete sobre a interseção entre cinema, espaço e sociedade

Novo documentário de Kleber Mendonça Filho ilustra as consequências do trator da modernidade 
(Fotos: João Carlos Lacerda/Primeiro Plano)


Carolina Cassese
Blog no Zint


Depois de três longas-metragens ficcionais que obtiveram recepção calorosa da crítica e o reconhecimento de premiações renomadas - "O Som ao Redor" (2012), "Aquarius" (2016) e "Bacurau" (2019) - Kleber Mendonça Filho tem seu nome mais uma vez inserido na lista das estréias de cinema com "Retratos Fantasmas".

O filme entra em cartaz, simultaneamente no Brasil e Portugal, nesta quinta-feira (24). A primeira exibição do longa no país aconteceu durante a noite de abertura do 51º Festival de Cinema de Gramado, em sessão única fora de competição. Em outubro, será lançado nas salas da Espanha e, em novembro, nos cinemas da França e Estados Unidos. 

Cine São Luiz 

No documentário, memórias familiares se misturam à história de Recife, cidade na qual o diretor, produtor, roteirista e crítico de cinema brasileiro nasceu há pouco mais de 58 anos. 

O resultado é um filme forte e carregado de uma emoção que não é de modo algum forçada, mas inevitável diante da sucessão de acontecimentos a que o espectador assiste. Inegavelmente, há um sentimento de impotência diante desse mundo que avança como um trator rumo ao novo.

Narrado pelo próprio diretor, o longa é dividido em três partes. A primeira, “O apartamento de Setúbal”, é centrada na casa em que o recifense cresceu. O mesmo lugar serviu como cenário de vários trabalhos assinados por Mendonça Filho, como o já mencionado "O Som ao Redor". 


Aqui percebemos como realidade e ficção se entrelaçam, já que acontecimentos daquele cotidiano inspiraram ideias presentes nas obras do diretor. Uma frase dessa primeira parte ecoará por toda a obra: “O tempo transforma os lugares”. E como transforma. 

No bloco subsequente, intitulado “Cinemas do Centro de Recife”, acompanhamos como esse local sofreu importantes modificações ao longo dos anos. É a história de muitos centros brasileiros: representantes do capital passam a se interessar por outras áreas da cidade, geralmente menos acessíveis e democráticas. 

As zonas centrais então abandonadas pelo poder público e também por boa parte da sociedade, como pontua o diretor - “conheço jovens que nunca foram ao centro”.

Cine Veneza 

É também nesse momento do longa que vemos imagens de antigos cinemas de rua, que costumavam ser pontos de efervescência cultural. Como de costume, Mendonça Filho tem excelentes sacadas, como a sugestão de que os letreiros dos cinemas comentavam a situação política do país e, ainda, enviavam mensagens enigmáticas. 

Há também pontuações que ilustram a histórica (e ainda muito atual) desvalorização do cinema nacional - em detrimento de grandes distribuidoras estadunidenses.

Diante da demanda por uma cidade mais “moderna” e “funcional”, que atendesse aos interesses de grandes empresários, a maioria dos estabelecimentos independentes precisou fechar as portas. 

Essa história também se repetiu em muitos outros centros brasileiros: o cinema sai da rua e migra para o shopping center, o espaço do consumismo - se não bastasse, a própria indústria cinematográfica se torna mais e mais comercial. 

Centro de Recife 

No filme, Mendonça Filho mostra imagens de um shopping que foi construído em volta de um cinema antigo: “Essa coisa se alojou dentro do (Cinema) Veneza, como um organismo alienígena. E o cinema virou o hospedeiro”. 

No dia a dia, as ruas do centro vão ficando cada vez mais abandonadas. Como pontua uma personagem do longa “A Árvore, O Prefeito e a Mediateca” (1993), de Éric Rohmer: “Às vezes, a modernidade pode ser muito limitada”.

Em “Igrejas e Espíritos Sagrados”, o último bloco do documentário, há uma alegoria sobre símbolos religiosos, fantasmas e as ilusões do cinema. A última cena surpreende e, ao mesmo tempo, dialoga com várias outras discussões presentes na obra. 

Bilheteira de cinema

Esse é um dos principais méritos do trabalho de Mendonça Filho: seu documentário é extremamente coeso, conduzido por elementos fantasmagóricos (luzes piscando, vultos, desaparecimentos) e reflexões sobre o abandono.

Ao vermos o filme, nos damos conta de que as ruínas também contam histórias. Afinal de contas, muito pode ser inferido acerca de uma sociedade que troca cinemas por shoppings centers ou redes de farmácias. 

Em tempos de tanta correria, “Retratos Fantasmas” nos convida para uma pausa. É hora de olharmos para os escombros e refletirmos sobre o que ainda pode ser resgatado.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Kleber Mendonça Filho
Produção: CinemaScópio / Vitrine Filmes
Distribuição: Vitrine Filmes
Exibição: no Cineart Ponteio, Minas Tênis Clube/Unimed, Uni Cine Belas Artes
Duração: 1h31
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gênero: documentário

20 agosto 2023

Pise fundo, foi dada a largada para a estreia de "Gran Turismo" nos cinemas

Archie Madekwe vive o jogador de videogame Jann Mardenborough que se tornou piloto profissional
(Fotos: Sony Pictures)


Maristela Bretas


"Acelerar, acelerar". Até parece Relâmpago McQueen se preparando para uma corrida. Mas a adrenalina que vai contagiar o expectador é de “Gran Turismo - De Jogador a Corredor" ("Gran Turismo: Based On a True Story"), filme que estreia nesta quinta-feira (24) nos cinemas com a promessa de ser um dos melhores lançamentos do ano de simulador de corrida baseado em fatos. Algumas salas já estão com exibição antecipadas.

Um presente para quem curte carros, roncos de motores possantes, grandes e conhecidos circuitos de corrida. "Gran Turismo" conta a história do jogador de videogame Jann Mardenborough (o britânico Archie Madekwe, de "Agente Stone" - 2023). 

Suas habilidades impressionantes com o simulador de corrida da PlayStation o levam a ser escolhido para disputar uma série de competições pela equipe Nissan e se tornar um verdadeiro piloto profissional. 


Além de mostrar grandes circuitos de Fórmula 1 conhecidos pelos aficionados - como Nürburgring e Hockenheimer (Alemanha) e Silverstone (Inglaterra) -, o longa alfineta o jogo de interesses que corre por trás dos boxes e nas pistas. Sem contar os riscos a cada curva ou lombada para quem não tem a experiência real de pilotar, como no acidente de Jann.

As cenas de ação contaram com um uso menor de computação gráfica, o que exigiu maior preparo do elenco, mas deixou o filme mais realista. Os efeitos visuais funcionam perfeitamente como no game, às vezes fica difícil diferenciar realidade da simulação nas corridas. O formato IMAX é bem explorado, especialmente nos acidentes e nas competições.


Archie Madekwe está muito bem no papel de Jann Mardenborough, que também participa da produção como dublê do ator quando ele está correndo. 

Destaque também para o talentoso e sempre simpático, mesmo quando tenta ser mal-humorado, David Harbour ("Stranger Things" - 2022 e "Noite Infeliz" - 2022) como Jack Salter, chefe de equipe que treina Jann. A sintonia entre os dois atores funciona muito bem.

Claro que, como uma história baseada em fatos reais, não poderia faltar a parte emocional. Essa fica por conta da relação de Jann com Jack e a família, especialmente com o pai, interpretado pelo ótimo Djimon Hounsou ("Shazam! Fúria dos Deuses" - 2023). Ele é Steve, o cara pé no chão que não acredita no sonho impossível do filho. 


Temos ainda Orlando Bloom ("Piratas do Caribe - A Vingança de Salazar" - 2017) que entrega o convincente Danny Moore, responsável pelo marketing da escuderia. É dele a ideia de criar o torneio da GT Academy para escolher o melhor jogador de Gran Turismo que será treinado para se tornar um piloto profissional.

Até mesmo o elenco de apoio, que conta com jovens atores como Darren Barnet (o piloto Matty Davis, da equipe de Jann) e Josha Stradowski (o piloto Nicholas Capa, da equipe rival, que dirige a maravilhosa Lamborghini Huracan STO dourada), funciona bem.

O verdadeiro Jann Mardenborough (Divulgação)

O longa não é nada discreto quanto à publicidade. A começar pela própria Nissan, que é a fabricante japonesa do GT-R Nismo dirigido por Jann, e a Playstation, responsável pelo game - não teria como contar a história sem falar dessas duas marcas. 

Temos também a Red Bull, cujo circuito é mostrado em destaque, com longas imagens, inclusive aéreas. O filme conta ainda com a participação de Geri Halliwell, uma das Spice Girls atacando aqui de atriz, no papel da mãe de Jann. Na vida real, ela é esposa de Christian Horner, chefão da escuderia.


Carros e velocidade

Já vimos inúmeras produções sobre corridas que se tornaram referências no gênero, alguns bons, outros nem tanto. Confira alguns abaixo e onde estão sendo exibidos:
- "Ford vs Ferrari" (2019 - Star+);
- "Rush - No Limite da Emoção” (2013 - Netflix);
- "Velozes e Furiosos" (franquia iniciada em 2001- Telecine);
- "Herbie - Se Meu Fusca Falasse (2005 - Disney+);
- "Senna" (2010 - para alugar em plataformas de streaming);
- “Need For Speed - O Filme” (2014 - Disney+);
- "Dias de Trovão" (1990 - Globoplay e Youtube) e muitos outros.


Sem contar animações como "Carros" (2006, em exibição na Disney+); "Turbo" (2013 - Globoplay) e as antigas séries de TV, "Corrida Maluca" (1968 - HBO Max) - como esquecer de Dick Vigarista, Mutley e Penélope Charmosa - e "Speed Racer" (1967 - Prime Vídeo), que em 2008 ganhou uma versão para cinema (HBO Max).

Mas o que importa mesmo em todas produções sobre corridas é a adrenalina e o prazer que elas proporcionam a quem assiste (e gosta). Essas sensações são bem fortes em "Gran Turismo", exatamente por focar nas disputas e nos acidentes, que são inevitáveis e marcaram a carreira do jovem piloto. 

Fica a dica: se você gosta de carros e corrida, corra para o cinema e garanta seu ingresso para conferir este lançamento da Sony Pictures.


Ficha técnica:
Direção: Neill Blomkamp
Produção e distribuição: Sony Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h14
Classificação: 12 anos
País: EUA
Gêneros: ação, drama, corrida