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21 junho 2024

“Tudo o Que Você Podia Ser” mostra a união como ferramenta para vencer na sociedade da homofobia

Documentário de ficção tem DNA mineiro, com direção de Ricardo Alves Júnior (Fotos: Vitrine Filmes)


Eduardo Jr.


Está em cartaz, em duas salas de cinema de Belo Horizonte, o longa “Tudo o Que Você Podia Ser”. A produção tem DNA mineiro e transita entre a ficção e o documentário. Dirigida por Ricardo Alves Júnior, é uma observação da felicidade, da pulsante energia da comunidade LGBT, da amizade e da sempre iminente violência homofóbica. 

O filme é distribuído pela Sessão Vitrine Petrobras e pode ser visto no Centro Cultural Unimed BH-Minas e Cine Una Belas Artes. 


A história parte do último dia de Aisha (Aisha Brunno) na cidade. E a despedida será com a família escolhida, as amigas Bramma Bremmer, Igui Leal e Will Soares (as personagens utilizam seus nomes verdadeiros, deixando o espectador na incerteza do que é realidade e do que é ficção). 

Algumas das locações são as casas das próprias atrizes, colaborando para edificar “o real” do filme. A cidade da qual Aisha se despede é quase uma personagem do longa. Locais bem familiares aos belo-horizontinos desfilam pela tela, emoldurando os caminhos das quatro amigas. 


E cada uma delas tem um pouco de sua história pessoal revelada (menos que o desejado, há que se dizer), dos dramas familiares às conquistas. Com leveza, o diretor nos apresenta personagens que vão além do preconceito e da exclusão, escancarando que a presença e a vitória são plenamente possíveis a essa parcela da população. 

Se as atrizes/personagens são trans ou não binárias, não faz a menor diferença tamanha a cumplicidade e carisma do elenco.   

A jornada do grupo é costurada por risos, dramas, afeto, lágrimas, criatividade, amor e música. Tudo embalado em naturalidade. É o seguir da vida diante dos nossos olhos. Sempre em frente, de um ponto a outro, tal qual a personagem que sai das sombras e vai rumo à luz do dia. 


A obra não tem uma questão a responder, ela simplesmente flui, com o elenco fazendo o que nós todos tentamos diariamente: seguir rumo à felicidade desejada. Que pode ser uma coisa simples, como o convívio familiar, que para muitos de nós é corriqueiro, mas para pessoas trans é quase um milagre. 

O documentário parece ter agradado aos olhos e corações de quem assistiu nas premiações. “Tudo o Que Você Podia Ser” ganhou, em 2023, o Prêmio de Melhor Direção no Festival do Rio e o Prêmio de Melhor Longa Nacional do Festival Mix Brasil.   


Ficha Técnica:
Direção: Ricardo Alves Júnior
Produção: EntreFilmes e Sancho & Punta
Distribuição: Sessão Vitrine Petrobras
Exibição: Centro Cultural Unimed BH-Minas - sala 1, sessão 20h30 (somente nos dias 21, 23 e 25/26); e Cine UNA Belas Artes - sala 2, sessão 20h30
Duração: 1h24
Classificação: 16 anos
País: Brasil
Gêneros: documentário, drama, ficção


15 maio 2024

Incômodo e indigesto, “A Hora da Estrela” está de volta para reforçar a complexidade de Clarice Lispector

Produção de 1985, protagonizada por Marcélia Cartaxo, retorna ao cinema em versão digitalizada, dentro do projeto Sessão Vitrine Petrobras (Fotos: Vitrine Filmes)


Mirtes Helena Scalioni


Embora muitos considerem impossível, a diretora Suzana Amaral foi lá e fez: transformou em cinema a obra complexa de Clarice Lispector em1985, quando, sob sua direção, “A Hora da Estrela” ganhou quase todos os prêmios do Festival de Brasília, além de ter conquistado o Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim. 

Pois agora o longa volta ao cartaz nos cinemas a partir desta quinta-feira (16), dentro do projeto Sessão Vitrine Petrobras, que está digitalizando e remasterizando películas importantes do cinema nacional. Ele pode ser conferido na sala 3 do Cine Una Belas Artes, sessão de 18h40, com ingressos a R$ 20,00 a inteira e R$ 10,00 a meia.


Não se pode dizer que o filme estrelado magnificamente por Marcélia Cartaxo seja fácil de ver. Não é. O longa, que conta a história de Macabéa, é indigesto e incomoda. 

Causa desconforto e talvez até certa repulsa a trajetória da nordestina de 19 anos que se vê absolutamente sozinha e despreparada numa cidade como São Paulo. Órfã de pai e mãe, desajeitada, ignorante, feia e ingênua, a jovem é mais uma figura invisível na metrópole.


Sem desmerecer o elenco, todo ele correto na medida, Marcélia Cartaxo é a grande responsável pelo brilho do filme. Sua Macabéa, tão tímida quanto estúpida, é quase uma provocação ao espectador com seus silêncios, olhares e posturas submissas. É como se ela pedisse desculpas por existir. 

Seu contraponto é o namorado Olímpico de Jesus, em atuação excelente de José Dumont, com suas tiradas professorais e engraçadas que, no entanto, não fazem o espectador rir.

É preciso ressaltar também a presença da sempre brilhante Fernanda Montenegro como a cartomante picareta Madame Carlota, responsável pela grande mudança na vida de Macabéa que, acreditando em suas previsões, pode ter finalmente a sua hora de estrela. Ao final, pode-se dizer, ninguém sai ileso do filme de Suzana Amaral.


Para quem não leu o livro de Clarice Lispector, vale contar que Macabéa divide um quarto com mais três moças e trabalha como datilógrafa numa firma onde tem como chefes os senhores Pereira e Raimundo, feitos por Denoy de Oliveira e Umberto Magnani. 

Entre as colegas, destaca-se a atirada e sensual Glória (Tamara Taxman), tão bonita quanto antiética. É nesses dois ambientes, além das praças, metrôs e ruas pelas quais transita, que essa heroína brasileira mostra, com sutileza, sua dor de viver.


Ficha Técnica
Direção: Suzana Amaral
Roteiro: Suzana Amaral e Alfredo Oroz
Baseado no romance homônimo de Clarice Lispector
Produção: Raiz Produções e Assunção Hernandes
Distribuição: Sessão Vitrine Petrobras e Vitrine Filmes
País: Brasil
Ano: 1985
Duração: 1h36
Classificação: 12 anos
Gênero: drama

29 abril 2024

Documentário “Verissimo” adentra a intimidade do tímido e excepcional escritor gaúcho

Produção de 2016 dirigida por Angelo Defanti é definida como "coerente" com a personalidade do escritor (Fotos: Boulevard Filmes)


Eduardo Jr.


Há quase oito anos, o escritor gaúcho Luis Fernando Verissimo teve seu cotidiano retratado em um documentário dirigido por Angelo Defanti. Sua primeira exibição ao público foi na Mostra Competitiva de Longas Brasileiros no Festival É Tudo Verdade. 

Agora, “Verissimo”, chega aos cinemas nesta quinta-feira (2), distribuído pela Boulevard Filmes, para mostrar a rotina do introvertido autor de algumas das mais engraçadas crônicas já publicadas. 

Mas não espere muitos momentos de humor dessa produção. Para quem se encanta e se diverte com os textos saídos da mente criativa do autor de “Comédias da Vida Privada”, “Ed Mort” e “Todas as Histórias do Analista de Bagé”, o longa pode ser decepcionante.


O diretor e suas câmeras se instalaram na casa do escritor para acompanhar a rotina do cronista, em setembro de 2016, 15 dias antes do aniversário de 80 anos de Verissimo. 

E não há muita emoção em assistir um octogenário caladão observar sentado à movimentação da casa, fazendo fisioterapia ou escrevendo ao computador. 

Para alguns pode ser uma resposta para o questionamento sobre como Verissimo consegue ser tão engraçado e observador. Talvez por seu jeito, de falar menos e ouvir mais, o escritor consiga captar tantas coisas e elaborar respostas bem-humoradas. 


Aliás, o humor aparece nas entrevistas. O escritor se diz desconfortável em ser entrevistado, mas não sabe dizer não, e as perguntas algumas vezes rendem respostas engraçadas. 

A sabedoria para preencher páginas também serve para divertir platéias. Mas parece não salvar o gaúcho do desconforto nas sessões de autógrafos. 


No final das contas, talvez o documentário possa ser definido como ‘coerente’ com a personalidade do retratado. É calmo, leve. Até na própria festa de 80 anos, Verissimo só interage quando perguntado. 

É mais dado a expor suas ideias digitando no computador, em noites silenciosas como ele mesmo. Continua morando em Porto Alegre e cuidando da saúde.


Ficha técnica:
Direção: Angelo Defanti
Produção: Sobretudo Produções, Lacuna Filmes, Canal Brasil
Distribuição: Boulevard Filmes, Vitrine Filmes e Spcine
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h27 minutos
Classificação: livre
País: Brasil
Gênero: documentário

23 agosto 2023

Comovente, filme “Retratos Fantasmas” reflete sobre a interseção entre cinema, espaço e sociedade

Novo documentário de Kleber Mendonça Filho ilustra as consequências do trator da modernidade 
(Fotos: João Carlos Lacerda/Primeiro Plano)


Carolina Cassese
Blog no Zint


Depois de três longas-metragens ficcionais que obtiveram recepção calorosa da crítica e o reconhecimento de premiações renomadas - "O Som ao Redor" (2012), "Aquarius" (2016) e "Bacurau" (2019) - Kleber Mendonça Filho tem seu nome mais uma vez inserido na lista das estréias de cinema com "Retratos Fantasmas".

O filme entra em cartaz, simultaneamente no Brasil e Portugal, nesta quinta-feira (24). A primeira exibição do longa no país aconteceu durante a noite de abertura do 51º Festival de Cinema de Gramado, em sessão única fora de competição. Em outubro, será lançado nas salas da Espanha e, em novembro, nos cinemas da França e Estados Unidos. 

Cine São Luiz 

No documentário, memórias familiares se misturam à história de Recife, cidade na qual o diretor, produtor, roteirista e crítico de cinema brasileiro nasceu há pouco mais de 58 anos. 

O resultado é um filme forte e carregado de uma emoção que não é de modo algum forçada, mas inevitável diante da sucessão de acontecimentos a que o espectador assiste. Inegavelmente, há um sentimento de impotência diante desse mundo que avança como um trator rumo ao novo.

Narrado pelo próprio diretor, o longa é dividido em três partes. A primeira, “O apartamento de Setúbal”, é centrada na casa em que o recifense cresceu. O mesmo lugar serviu como cenário de vários trabalhos assinados por Mendonça Filho, como o já mencionado "O Som ao Redor". 


Aqui percebemos como realidade e ficção se entrelaçam, já que acontecimentos daquele cotidiano inspiraram ideias presentes nas obras do diretor. Uma frase dessa primeira parte ecoará por toda a obra: “O tempo transforma os lugares”. E como transforma. 

No bloco subsequente, intitulado “Cinemas do Centro de Recife”, acompanhamos como esse local sofreu importantes modificações ao longo dos anos. É a história de muitos centros brasileiros: representantes do capital passam a se interessar por outras áreas da cidade, geralmente menos acessíveis e democráticas. 

As zonas centrais então abandonadas pelo poder público e também por boa parte da sociedade, como pontua o diretor - “conheço jovens que nunca foram ao centro”.

Cine Veneza 

É também nesse momento do longa que vemos imagens de antigos cinemas de rua, que costumavam ser pontos de efervescência cultural. Como de costume, Mendonça Filho tem excelentes sacadas, como a sugestão de que os letreiros dos cinemas comentavam a situação política do país e, ainda, enviavam mensagens enigmáticas. 

Há também pontuações que ilustram a histórica (e ainda muito atual) desvalorização do cinema nacional - em detrimento de grandes distribuidoras estadunidenses.

Diante da demanda por uma cidade mais “moderna” e “funcional”, que atendesse aos interesses de grandes empresários, a maioria dos estabelecimentos independentes precisou fechar as portas. 

Essa história também se repetiu em muitos outros centros brasileiros: o cinema sai da rua e migra para o shopping center, o espaço do consumismo - se não bastasse, a própria indústria cinematográfica se torna mais e mais comercial. 

Centro de Recife 

No filme, Mendonça Filho mostra imagens de um shopping que foi construído em volta de um cinema antigo: “Essa coisa se alojou dentro do (Cinema) Veneza, como um organismo alienígena. E o cinema virou o hospedeiro”. 

No dia a dia, as ruas do centro vão ficando cada vez mais abandonadas. Como pontua uma personagem do longa “A Árvore, O Prefeito e a Mediateca” (1993), de Éric Rohmer: “Às vezes, a modernidade pode ser muito limitada”.

Em “Igrejas e Espíritos Sagrados”, o último bloco do documentário, há uma alegoria sobre símbolos religiosos, fantasmas e as ilusões do cinema. A última cena surpreende e, ao mesmo tempo, dialoga com várias outras discussões presentes na obra. 

Bilheteira de cinema

Esse é um dos principais méritos do trabalho de Mendonça Filho: seu documentário é extremamente coeso, conduzido por elementos fantasmagóricos (luzes piscando, vultos, desaparecimentos) e reflexões sobre o abandono.

Ao vermos o filme, nos damos conta de que as ruínas também contam histórias. Afinal de contas, muito pode ser inferido acerca de uma sociedade que troca cinemas por shoppings centers ou redes de farmácias. 

Em tempos de tanta correria, “Retratos Fantasmas” nos convida para uma pausa. É hora de olharmos para os escombros e refletirmos sobre o que ainda pode ser resgatado.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Kleber Mendonça Filho
Produção: CinemaScópio / Vitrine Filmes
Distribuição: Vitrine Filmes
Exibição: no Cineart Ponteio, Minas Tênis Clube/Unimed, Uni Cine Belas Artes
Duração: 1h31
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gênero: documentário

04 julho 2023

"Canção ao Longe" aborda dores e chegada à vida adulta de uma jovem negra

O sentimento de inadequação é o foco do filme de Clarissa Campolina (Fotos: Letícia Marotta)


Eduardo Jr. 


Nas primeiras cenas, uma jovem caminha sem segurança dentro de casa. Só quando essa casa começa a ruir é que a luz ganha o ambiente. Uma metáfora interessante sobre a busca da protagonista Jimena, no filme “Canção ao Longe”, dirigido por Clarissa Campolina.

O longa, produzido pela Anavilhana e distribuído pela Vitrine Filmes, chega aos cinemas na próxima quinta-feira (6). 


Jimena é uma jovem arquiteta, negra, que não se encontrou na vida e no mundo. Em casa, pouco interage com a mãe e a avó. E o ato de fumar um cigarro é mais um elemento a agravar a tensão familiar. 

Enquanto o silêncio se faz presente na vida da jovem, a figura paterna é sinônimo de ausência. A relação com o pai se mantém apenas por meio de troca de cartas. E numa dessas cartas ela o questiona por que ainda mora ali, junto da mãe. 


Angústia, falta de comunicação e ruídos compõem a atmosfera do dia a dia de Jimena. O contraponto é a música. É ouvindo o repertório clássico, acompanhando os ensaios de uma orquestra, que ela parece encontrar algum alívio - e afeto, ao conhecer um dos músicos. 

O desejo de se mudar vai ficando mais evidente quando a protagonista admira a vista do apartamento de uma amiga e também quando experimenta um programa “em família” com o músico e o filho dele. 


O público observa tudo de perto, já que a câmera vai seguindo a atriz Mônica Maria (que faz com que seus silêncios, expressões de tristeza e apatia impactem a experiência do espectador). 

Escolhas de fotografia, com cenas de pouca luminosidade e planos fechados - quase claustrofóbicos - se amarram à interpretação de Mônica. 

Durante uma hora e dez, em sua estreia como diretora solo, a realizadora Clarissa Campolina emoldura na telona questões a respeito do passado, tradições, raça e relações familiares. 


E é a relação com a mãe que inicia o desejado processo de transformação da protagonista. Quando o silêncio sobre o passado é quebrado, Jimena começa romper as barreiras que a aprisionavam. 

Enquanto aguarda por esse desfecho, o público acompanha a trama sendo apresentado a alguns recortes da paisagem, por vezes caótica, da capital mineira, e ao talento da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. 

É um filme sobre busca de identidade e relacionamentos, que não traz arroubos de emoção, já que a vida também pode ser uma busca por serenidade. 

(Foto: Pedro Rena)

A obra é um drama de ficção, que atravessou o circuito de festivais, e agora terá sua estreia na telona. A diretora Clarissa Campolina foi premiada com seu longa de estreia, "Girimunho", em 2011, em Veneza, Mar Del Plata, Nantes e Havana. Ela é sócia da Anavilhana, produtora fundada em 2005, com mais de 30 obras audiovisuais lançadas.  

Distribuído por meio do projeto Sessão Vitrine, “Canção ao Longe” se junta ao rol das mais de 200 obras oferecidas pela Vitrine Filmes. Entre elas estão “Bacurau”, de Kleber Mendonça; “O Processo”, de Maria Augusta Ramos, e “Druk: Mais Uma Rodada”, de Thomas Vinterberg, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2021.  


Ficha técnica:
Direção: Clarissa Campolina
Produção: Produtora Anavilhana
Distribuição: Vitrine Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h10
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gêneros: drama, ficção

19 outubro 2022

Repleto de boas atuações, "Noites de Paris" é um sensível estudo de personagem

Ambientado nos anos 1980, longa-metragem francês é um verdadeiro mosaico do cotidiano (Fotos Vitrine Filmes)


Carolina Cassese
Blog no Zint


“Noites de Paris” (“Les Passagers de la Nuit”), dirigido por Mikhaël Hers, longa que chega nesta quinta-feira (20) na sala 2 do Una Cine Belas Artes, é um verdadeiro mosaico do cotidiano. O ponto de partida do filme é a reconstrução da vida de Elisabeth (Charlotte Gainsbourg), que acaba de passar por um divórcio e atravessa dificuldades financeiras. 

Para se adaptar ao novo estilo de vida, a personagem começa a trabalhar em um programa de rádio noturno, chamado "Passageiros da Noite". 

É nessa circunstância que ela conhece Talulah (Noée Abita), uma adolescente problemática que conta sua história para a apresentadora Vanda (Emanuelle Béart). 

A personagem principal não consegue deixar de se comover com o depoimento da garota, que vive sem domicílio fixo, e decide convidá-la para passar uns dias em sua casa, onde também moram os filhos Judith e Mathias (Megan Northam e Quito Rayon-Richter).


Apesar de abordar temas como divórcio, maternidade, dependência química e ativismo (a história tem início na noite da eleição de 1981, quando o socialista François Mitterrand se tornou presidente), o filme não é de fato centrado em alguma dessas pautas. 

Tampouco é melodramático ou panfletário. Como pontuou o veículo Variety, o longa trata de "pedaços de vida", primordialmente por meio da visão de Elizabeth. 

A presença de Gainsbourg na tela realmente é a alma do filme: a atuação da atriz é impecável e exala sensibilidade. Acreditamos na força e também nas vulnerabilidades de Elisabeth, que acaba se tornando uma mãe para Talulah, já que a garota é dependente química e tem pais relapsos.


O trabalho da protagonista combina bastante com o próprio "Noites de Paris", considerando que é um exercício de escuta. Os convidados do programa "Passageiros da Noite" não necessariamente contam casos extraordinários: são divagações típicas da madrugada, focadas primordialmente no cotidiano, na história de pessoas comuns. 

Se a cineasta Agnès Varda considerava que o artista é um "catador de histórias da vida real", o filme cumpre muito bem essa função de reunir narrativas simples numa obra cheia de significado. O uso de diferentes lentes e de imagens de arquivo granuladas enriquecem visualmente a produção, que de fato "é a cara" dos anos 80. 


A excelente trilha sonora nos ajuda a voltar no tempo e garante a carga emotiva de algumas cenas. Além de acompanhar a história da família, o longa homenageia o próprio cinema. 

A jovem Talulah é a mais fascinada com os filmes e faz da sétima arte uma forma de escapismo, já que consegue esquecer da vida (e de todos os seus consideráveis problemas) quando está numa sala de cinema. 


A própria performance de Abita dialoga com o trabalho da atriz francesa Pascale Ogier, que morreu tragicamente em 1984. O filme "Noites de Lua Cheia", um dos principais trabalhos estrelados por Ogier, é bastante citado na produção. 

Ao falar sobre o longa de Éric Rohmer, Talulah diz que conseguimos apreciar melhor alguns filmes depois de certo tempo ou quando os vemos duas vezes. 


Possivelmente influenciada por essa reflexão, a pessoa que vos escreve assistiu à "Noites de Paris" duas vezes. Se a obra é tocante e significativa logo "de primeira", da segunda vez nos deixamos levar ainda mais pela sensibilidade da narrativa e conseguimos apreciar melhor os respiros do filme. 

Nesse trabalho de Mikhaël Hers, muitas cenas não cumprem uma função narrativa pragmática - basta a vida como ela é, sem grandes acontecimentos em cada tomada.


Ficha técnica:
Direção: Mikhaël Hers
Produção: Nord-Ouest Films / Arte France Cinéma
Distribuição: Vitrine Filmes
Exibição: Una Cine Belas Artes (sala 2, sessões 16 horas e 18h15)
Duração: 1h51
Classificação: 16 anos
País: França
Gênero: drama

28 abril 2022

"Como Matar a Besta": um filme que tenta ser feroz, mas é bem manso

Produção latina foi filmada na região das Missões, na fronteira da Argentina e Brasil (Fotos: Vitrine Filmes/Divulgação)


Wallace Graciano


Quando anunciado, “Como Matar a Besta” ("Matar a La Bestia", filme de 2021) logo chamou a atenção. Para além do título, imaginava-se que a coprodução latina (Argentina, Brasil e Chile), que foi dirigida e roteirizada por Agustina San Martin, traria aspectos culturais e folclóricos do cone sul. Bom, não foi bem assim no resultado. Se muito se imaginava algo bestial, o que se viu no resultado foi uma trama lenta e pouco convincente. 


A trama de 1h20 conta a história de Emília (a estreante Tamara Rocca), uma jovem latina de 17 anos, residente em Buenos Aires. Porém, a garota precisa viajar para a fronteira do país com o Brasil, mais precisamente à casa de sua tia Inés (Ana Brun). No local, descobre que seu irmão, Mateo, sumiu. 

Não obstante, precisa lidar com o pavor de uma besta à solta, que faz com que ela tema o pior. O elenco conta ainda com ator brasileiro João Miguel, interpretando Lautaro, um homem que cruza o caminho de Emília.


Porém, o início promissor se desfaz tal qual um vampiro ao ver a luz de um dia. O clima fantasioso paira no local e passa a ser o único elemento de destaque em meio a um filme de poucos diálogos. Ou seja, para ser absorvido pela trama, você precisa contemplar a emoção dos atores, que pouco têm a lhe dizer, o que traz monotonia ao longa. 


Não fosse simples, a história poderia, e muito, confundir o espectador, que se vê em uma tentativa fracassada de thriller. De relevante (e muito relevante), o figurino e a fotografia, que ditam bem o ambiente e conseguem ser convidativas, uma vez que "Como Matar a Besta" foi filmado na bela região das Missões, que abrange o sul do Brasil e norte da Argentina. O filme estreia nesta quinta-feira em várias cidades brasileiras, incluindo Belo Horizonte e inaugura a Sessão Vitrine 2022.



Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Agustina San Martín
Produção: Estúdio Giz
Distribuição: Vitrine Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h20
Classificação: 14 anos
Países: Argentina, Brasil e Chile
Gêneros: drama / terror

27 janeiro 2022

"Fortaleza Hotel": Amizade e companheirismo em meio às problemáticas da vida

Clébia Sousa e Lee Young-Lan são as protagonistas deste drama nacional dirigido por Armando Praça (Fotos: Jorge Silvestre/Divulgação)


Marcos Tadeu


Momentos difíceis e de mudanças, de país, de vida, de relações, barreiras culturais e de idiomas. Mesmo com todas essas dificuldades, uma amizade sincera e solidária pode surgir. É com essa temática que estreia nesta quinta-feira nos cinemas o filme "Fortaleza Hotel", dirigido por Armando Praça.

Pilar (Clébia Sousa) é camareira do Hotel Fortaleza e tem o grande sonho de sair do Brasil e se mudar para Dublin, na Irlanda, em busca de melhores condições de vida. Na sua rotina diária de limpeza ela conhece Shin (Lee Young-Lan), uma hospede sul-coreana que veio para o Brasil buscar o corpo do marido e levar de volta para seu pais de origem. As duas, com suas diferenças e dificuldades semelhantes, começam uma amizade de solidariedade e superação. 


É válido destacar aqui a incrível atuação de Clébia Sousa, cuja personagem, logo no inicio do filme, mostra que é uma mulher determinada, forte, que sabe o que quer. Como na cena em que faz um treino de conversação em inglês para a entrevista que vai enfrentar na imigração da Irlanda. 

Pilar foi mãe aos 13 anos e teve que trabalhar muito cedo, conseguindo uma renda que dava apenas para sobreviver e não para viver seus sonhos. Teve também um namorado que nem é tão presente e como a própria Pilar diz, "uma filha que mais lhe dá problemas do que alegrias".


Diretamente da Coréia do Sul para o Brasil, temos Shin que precisou partir de sua terra, em condições desesperadoras, após descobrir o suicídio do marido, e vir para um país estranho para tentar entender o que aconteceu.

Pilar sofre com a filha que vive envolvida com traficantes e o mundo do crime até ser sequestrada. A partir daí, a camareira precisa conseguir, com urgência, o dinheiro para libertar a jovem com vida. 

Com Shin, os problemas não são menores. Ao tentar fazer um velório descente e enterrar o marido, descobre que a empresa em que ele trabalhava desviou dinheiro e se eximiu de qualquer responsabilidade, deixando assim a viúva sem dinheiro. 


A situação financeira é o que guia a desesperadora trajetória das duas personagens. Ambas estão tentando conseguir dinheiro para resolverem seus dilemas e essa narrativa é construída de maneira inteligente com o telespectador.

O destaque do filme está na forma como o diretor trabalhou as questões que envolvem os contrastes de realidades opostas, mas da mesma forma difíceis. E como isso é encenado, toda a mise-en-scène por trás da produção. 


Faltou, no entanto, mostrar mais do passado de Pilar, como aconteceu a gravidez, o relacionamento com o pai da menina e quem era ele. Também é superficial a abordagem sobre o marido de Shin, a chegada dele ao Brasil e a influência que tinha na empresa em que trabalhava.

“Fortaleza Hotel” é um filme que usa e abusa das diferenças para se completar. Pilar aprende com Shin e o mesmo acontece de maneira inversa. O companheirismo e a amizade se fazem presentes para juntas enfrentarem as circunstâncias da vida, por mais crua que ela seja.


Ficha técnica:
Direção: Armando Praça
Roteiro: Isadora Rodrigues, Pedro Cândido
Produção: Moçambique Audiovisual / Carnaval Filmes
Distribuição: Vitrine Filmes
Exibição: Nos cinemas
Duração: 1h17
Classificação: 14 anos
País: Brasil
Gênero: Drama

16 dezembro 2021

“Azor” é um retrato da elite argentina durante a ditadura

A estória é contada a partir da visão dos ricos, que levam suas vidas como se nada de errado estivesse ocorrendo no país (Fotos: Divulgação)


Jean Piter Miranda 


O ano é 1980. Argentina vive os últimos anos de sua última ditadura. O banqueiro suíço Yvan de Wiel (Fabrizio Rongione) e sua esposa Inês (Stéphanie Cléau) chegam ao país. Ele vai substituir o sócio que desapareceu sem deixar pistas. Além de tentar resolver esse mistério, Yvan tem que se aproximar da elite argentina para que eles continuem sendo clientes do seu banco. Essa é a estória de “Azor”, filme que acaba de estrear nos cinemas brasileiros.  

De forma geral, os filmes sobre ditaduras abordam a crueldade dos militares, o sofrimento do povo, e a coragem de pessoas que enfrentaram esses regimes. "Azor" inova bastante e passa bem longe disso. A estória é contada a partir da visão dos ricos argentinos, que levam suas vidas normalmente. Como se nada demais estivesse acontecendo no país. O mostra como a elite ficou intocada e, de certa forma, protegida nesse período.  


“Azor” não se passa nas ruas de Buenos Aires. Quase não se vê ruas na verdade. Praticamente, a cidade não aparece. Todas as cenas se passam em ambientes fechados, como clubes, restaurantes, hotéis luxuosos, salões de festa, etc. As imagens externas são de mansões, e piscinas. Os personagens, em nada são incomodados pela ditadura. Na verdade, a maior parte da elite apoia o regime, que, no filme, acaba se tornando só um pano de fundo.  


Yvan e Inês são dois personagens muito sem graça. Têm zero de carisma. Os demais são quase todos idosos, com semblantes tristes, tensos e tediosos. Praticamente não há risadas no filme, não há piadas nem diálogos inteligentes. O clima é quase sempre hostil. E o conflito fica nessa relação do casal tentando ganhar a confiança das famílias ricas, participando de festas, jantares e encontros. Entretanto, esses endinheirados vão se mostrando cada vez mais fechados.  


O sócio de Yvan que desapareceu é lembrado quase que o tempo todo nas conversas. Os clientes sempre o elogiam, na tentativa de deixar Yvan desconfortável. Fica nas entrelinhas o “você nunca será tão bom quanto ele, não está à altura para substituí-lo”. Mas não passa disso. E a estória não avança para lado nenhum. Nem aprofunda no banqueiro que sumiu, nem deixa claro quais negociações estão sendo feitas entre o Banco e os ricos argentinos.  


"Azor" pode ser resumido então em um retrato da elite argentina protegida durante a ditadura. Os desavisados podem criar expectativas de que se trata de uma trama de investigação, que haverá reviravoltas e revelações. Mas o filme começa e termina do mesmo jeito. Morno, sem sal, até mesmo para quem conhece um pouco da história argentina. Parece até uma obra inacabada. A fotografia e o figurino são bons. E não passa disso.  


Ficha técnica
Direção e roteiro: Andreas Fontana,
Distribuição: Vitrine Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h40
Classificação: 14 anos
Gêneros: drama / suspense

19 setembro 2021

"Suk Suk - Um Amor em Segredo” aborda com sensibilidade o tabu do amor homossexual na meia-idade

Os atores Tai-Bo e Ben Yuen desempenham com maestria seus pais no longa dirigido por Ray Yeung (Fotos: Vitrine Filmes/Divulgação)


Carolina Cassese


Logo nas primeiras cenas de “Suk Suk - Um Amor em Segredo”, longa que se passa em Hong Kong, o espectador completamente ocidentalizado se depara com cenários e costumes pouco familiares. Na medida em que a história avança, porém, conseguimos nos identificar bastante com aqueles personagens e, inclusive, perceber algumas semelhanças entre nossa cultura e a deles. O longa, distribuído pela Vitrine Filmes, está em exibição no Usiminas Cinema Belas Artes, com sessão às 17h40.

No filme escrito e dirigido por Ray Yeung, acompanhamos um romance entre Pak (Tai Bo) e Hoi (Ben Yuen). Quando os dois conversam pela primeira vez, descobrimos que Pak é um homem que trabalha dia e noite como taxista com a finalidade de sustentar sua família. Já Hoi é um aposentado que, após o divórcio, criou seu filho sozinho. Como o título indica, a relação que os dois irão estabelecer não será assumida. Isso se dá especialmente por causa de Pak, que ainda precisa manter as aparências para sua família. 


“Suk Suk - Um Amor em Segredo” aposta na contemplação e nos detalhes. A beleza dessa história não está em grandes revelações ou reviravoltas, e sim no desenrolar dessa relação tão bonita e crível. Os dois atores desempenham seus respectivos papéis com maestria: conseguimos embarcar naquelas histórias e compreendemos os pequenos dramas de ambos. 

Outro inegável ponto forte do filme é o quanto ele escapa de obviedades, até mesmo na escolha de seus protagonistas. Apesar do número crescente de narrativas protagonizadas por casais LGBTQIA+ (mesmo que ainda haja um longo caminho a ser percorrido), o tema da sexualidade durante a velhice ainda é um grande tabu. Como destacou o jornal The Hollywood Reporter, “o último bastião da sexualidade desconfortável poderia ser a admissão de que qualquer pessoa, mesmo perto da idade de aposentadoria, pode sentir desejo físico ou emocional”.


Em entrevista, o diretor da obra pontua que a geração dos protagonistas de “Suk Suk - Um Amor em Segredo” se sente particularmente reprimida, justamente porque observa um crescimento da comunidade LGBTQIA+ nos dias atuais, mas ao mesmo tempo não sente que pertence a esse movimento. “Hoje, em Hong Kong, a comunidade LGBTQIA+ é geralmente mais aberta e a sociedade aceita mais os direitos dos homossexuais. No entanto, os homens gays mais velhos não puderam desfrutar dessas mudanças devido a sua adesão a valores culturais tradicionais estritos e laços familiares próximos”.


Diferenças culturais à parte, sabemos que esse sentimento não está restrito aos valores da sociedade de Hong Kong. Debates entre gerações estão mais do que presentes na nossa sociedade, que também apresenta uma série de desafios extras para pessoas mais velhas. 

No final das contas, o filme de Ray Yeung é um convite para pensarmos sobre o tempo. Sobre como passamos os nossos dias e, principalmente, em como queremos viver os próximos. Muito bem escrito e dirigido, o longa definitivamente merece nossa atenção - e nosso próprio tempo.


Ficha técnica:
Direção: Ray Yeung
Exibição: Usiminas Cinema Belas Artes – sessão 17h40
Distribuição: Vitrine Filmes
Duração: 1h32
Classificação: 16 anos
País: Hong Kong
Gêneros: Romance / Drama

26 maio 2021

Melancólico e intimista, “Alvorada” mostra os últimos dias de Dilma na presidência

Documentário estreia simultaneamente nos cinemas e nas plataformas de streaming dia 27 de maio (Fotos: Vitrine Filmes/Divulgação)

Jean Piter Miranda


Como foram os dias que antecederam a votação do “impeachment” no Congresso Nacional? Mais especificamente, como foram os últimos dias da presidenta Dilma Rousseff no Palácio da Alvorada? Isso é o que podemos ver em “Alvorada”, documentário dirigido por Anna Muylaert, de “Que Horas Ela Volta”(2015), e Lô Politi. A produção estreia nesta quinta-feira (27), nos cinemas e nas plataformas de streaming Now, Oi e Vivo Play. 

Que foi um golpe todo mundo sabe. O ex-presidente Michel Temer confessou. A autora do pedido de “impeachment”, Janaína Paschoal, também admitiu. Tem o áudio da conversa entre o ex-senador Romero Jucá (MDB) e o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, admitindo que havia um “grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo”. Vários outros deputados, dirigentes partidários, juristas e cientistas políticos disseram o mesmo. 


A então presidenta Dilma Rousseff não caiu por problemas de contabilidade (pedaladas fiscais), nem por ter cometido algum crime. Foi tudo uma farsa, um teatro para fingir que tudo estava sendo feito dentro da lei. 

Diferente de outros documentários em que há um narrador, em "Alvorada", as imagens vão sendo conduzidas por si só. A sensação é de que são os olhos de alguém dentro do Palácio da Alvorada, a residência oficial do presidente ou presidenta da República. O filme acompanha o dia a dia no Alvorada, com Dilma, seus assessores, ministros e apoiadores. Tudo é passado de um ponto de vista de dentro do Palácio. 

Ao longo do filme são apresentados trechos de diálogos entre ministros, assessores e a presidenta. Mas não há nenhuma conversa do tipo secreta que mostre estratégias de defesa ou articulações políticas para evitar o golpe. A grande novidade é o ambiente, o clima dos últimos dias de Dilma no governo. Algo que não foi exibido em outros documentários e reportagens especiais sobre o tema. 


“Alvorada” mostra os cozinheiros e faxineiros em suas rotinas. O povo da manutenção, os guardas e as secretárias. Os rostos anônimos de pessoas comuns sem os quais o Palácio não funciona. E só assim é que o expectador realmente se dá conta de que se trata literalmente de um Palácio, em proporções e dimensão. São centenas de pessoas trabalhando todos os dias no local. 

Outro ponto alto de “Alvorada” são as visitas que Dilma recebe, em atos de solidariedade. São muitos e muitos amigos, artistas, deputados, senadores, dirigente partidários, lideranças de movimentos sociais e sindicalistas se encontrando com a presidenta. O que mostra que embora ela tenha sido julgada individualmente, em momento algum ela esteve sozinha.

Muitos rostos conhecidos passam pelo Alvorada. Lula, Boulos, Chico Buarque e vários outros. A pessoa que acompanha a política mais de perto vai reconhecer as deputadas Maria do Rosário e Jandira Feghali, a senadora Kátia Abreu, os então ministros José Eduardo Cardozo e Aloizio Mercadante, e até mesmo os líderes sindicais e de movimentos sociais. 


Por vezes, Dilma conversa com a câmera. Fala de tudo um pouco. Inclusive sobre a sensação de estar sendo filmada o tempo todo. Conta histórias. Sorri. É uma produção, de certa forma, bem intimista. É muito sobre a presidenta e mais ainda sobre o Palácio. Até os acontecimentos externos são mostrados a partir de algum ponto do Alvorada, visto por TVs. 

O documentário não procura explicar como o golpe aconteceu, nem como a defesa de Dilma foi construída. Não fala sobre articulações políticas, negociações ou alianças. Mostra um misto de tensão e melancolia. Sensações que não passam, uma vez que todo mundo sabe o desfecho dessa história. E é por isso que ele é bom. Por mostrar os fatos sob um outro ângulo que as pessoas ainda não tinham visto.


Ficha técnica:
Direção: Anna Muylaert e Lô Politi
Exibição: cinemas e plataformas Now, Oi e Vivo Play
Produção: África Filmes / Dramática Filmes / Cup Filmes
Distribuição: Vitrine Filmes
Duração: 1h20
Classificação: 10 anos
País: Brasil
Gênero: Documentário