23 junho 2022

"Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo" é sobre a beleza e o multiverso das relações familiares

Michelle Yeoh é a protagonista desta comédia visionária, que beira o absurdo, capaz de prender do início ao fim (Fotos: Diamond Films)


Marcos Tadeu
blog Narrativa Cinematográfica


Daqueles filmes que você não espera nada e sai extasiado. Pois essa é a definição de "Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo" ("Everything Everywhere All at Once"), que estreia oficialmente nos cinemas nesta quinta-feira. Aclamado pela crítica com um alto índice de aprovação no Rotten Tomatoes de 96%, o longa é dirigido por Daniel Kwan e Daniel Scheinert, com produção dos irmãos Joe e Antony Russo ("Vingadores: Ultimato" - 2019) e da A24.


Na história conhecemos Evelyn Wang (Michelle Yeoh), dona de uma lavanderia com vários problemas financeiros e familiares - um pai intransigente e doente (o experiente James Hong), uma filha rebelde e um marido acomodado (Ke Huy Quan). Até ser surpreendida por uma situação que envolve multiversos e ameaças que podem explicar quem realmente ela é e as escolhas que tem feito.


Os dramas dos personagens funcionam de maneira orgânica, a começar pela protagonista e todos que estão a sua volta. A trama é dividida em três capítulos que conseguem dar profundidade aos personagens. O tempo de tela é suficiente para que desenvolvam seus conflitos, principalmente os do núcleo de Evelyn, permitindo também que se entenda o porquê de determinadas atitudes.


O filme é um espetáculo gráfico que vale a pena ser contemplado. As direções de arte, de fotografia e de efeitos visuais fazem uma junção perfeita que funciona bem em todos os formatos de exibição da maneira mais criativa possível. A Marvel pode até ter começado a discutir multiversos, mas "Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo" apresenta um diálogo profundo e inovador sobre a proposta de realidades paralelas.



A montagem é muito bem trabalhada e feita com carinho, o que dá a sensação de um ritmo frenético, mas harmônico, com a preocupação em juntar todas as peças do quebra-cabeça para o telespectador. 

Destaco as atuações de Michelle Yeoh, a nossa heroína que é o ponto chave da narrativa, além de Stephanie Hsu que faz o contraponto, interpretando a filha Joy/Jobu. Menção honrosa para Jamie Lee Curtis como Deirdre Beaubeirdra, o elo que guia toda a história.


"Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo" é uma experiência para ser vivida no cinema. Apesar de toda a sua loucura, existe uma sobriedade no enredo que nos confronta como seres humanos em nossos núcleos familiares. 

Me marcaram os temas presentes no filme: a questão da rejeição, o amor próprio, a vida conjugal, tudo isso se resume em um único fim: família. Evelyn sofreu com a rejeição de seu pai e repetiu isso com Joy, ao mesmo tempo em que vê o marido como um cara inútil e sem valor. 


Nesse quesito, a narrativa se preocupa em criar um fio condutor linear e uma conexão para que esses personagens e suas viradas aconteçam. Toda essa jornada da protagonista enfatiza que é possível mudar relações e romper paradigmas. E o principal: é preciso começar a enxergar o outro e aprender a ouvir.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Daniel Scheinert e Daniel Kwan
Produção: IAC Films e A24
Distribuição: Diamond Films
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h19
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: ação / ficção científica / fantasia

22 junho 2022

De volta ao presencial, 17ª CineOP discute produções indígenas, memória, preservação e o futuro do audiovisual no Brasil

Fotos: Universo Produção/Divulgação


Da Redação


A cidade histórica de Ouro Preto, com seus quase 310 anos, recebe novamente a CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, que completa 17 edições. O evento começa nesta quarta-feira (com sessões especiais) e segue até dia 27 de junho, oferecendo seis dias de programação intensa (presencial e online) reunindo profissionais do cinema, da educação e da preservação em sessões de filmes, debates, masterclasses e várias atividades, todas gratuitas.

Mostra Histórica: PI'Õnhitsi, Mulheres Xavantes sem nome

A abertura oficial será na noite desta quinta-feira (23), às 19h30, na Praça Tiradentes, com uma performance audiovisual apresentando as três temáticas de cada seção da CineOP (Histórica, Preservação e Educação). Também haverá homenagem aos cineastas M’bya Guarani: Kuaray (Ariel Ortega) e Pará Yxapy (Patrícia Ferreira) com a entrega do Troféu Vila Rica. A CineOP é o único festival de cinema brasileiro dedicado a tratar o audiovisual como patrimônio.

Mostra Histórica: Avá Marangatu

O público poderá assistir filmes na sala de cinema e na praça, participar de debates, masterclasses internacionais, rodas de conversas, oficinas, Mostrinha, sessões de cine-escola, lançamento de livros, exposição, atrações artísticas e várias outras atividades em dois espaços – no Centro de Artes e Convenções e na Praça Tiradentes. Toda a programação pode ser acessada no site oficial do evento - www.cineop.com.br.

Mostra Preservação: Sessão Lupa

Serão exibidos 151 filmes em pré-estreias e mostras temáticas -20 longas, 14 médias e 117 curtas-metragens -, vindos de oito países - Brasil, Argentina, Bolívia, EUA, Israel, Peru, Rússia, Uruguai - e de 21 estados brasileiros: AC, AL, AM, AP, BA, CE, DF, ES, GO, MA, MG, MT, PA, PB, PE, PR, RJ, RR, RS, SC, SP. Eles estarão distribuídos em oito mostras - Contemporânea, Homenagem, Preservação, Histórica, Educação, Mostrinha e Cine-Escola.

Nesta edição, 20 filmes de Minas Gerais foram selecionados para serem exibidos durante o evento, entre documentários, animações e muitas produções experimentais. Uma das produções é em colaboração com o Pará e outra com a Bahia.

Documentário mineiro "Yãy tu nũnãhã payexop: encontro
 de pajés", de Sueli Maxakali

Presenças internacionais
Novamente a CineOP contará com a participação de importantes profissionais internacionais para irão ministrar masterclasses e participarem de debates. Nesta edição, marcam presença: Miguel Hilari (Bolívia), cineasta que vai tratar de cinema aymara; Teresa Castillo (Peru), gestora cultural do projeto La Combi del Arte, interface específica entre o cinema e línguas indígenas; a cineasta, fotógrafa e professora Aldana Loiseau (Humauaca/Jujuy, Argentina), que vai tratar do tema “A mãe terra e as tradições como protagonistas no fazer cinematográfico de animação”; Mela Marquez, diretora executiva da Cinemateca Boliviana; e, com apresentação online, Perla Olivia Rodriguez, pesquisadora do Instituto de Investigaciones Bibliotecológicas y de la Información da Universidad Nacional Autónoma de México.

Mostra Educação: El corral y el viento (O curral e o vento)

Mostrinha com show de mágica
A Mostrinha terá esse ano a exibição de “Poropopó” (2022), longa-metragem de Luis Antonio Igreja, seguido de show de mágica com a Família Kradyn. O filme trata de Julieta, uma palhacinha adolescente que vive com sua família num grupo circense nômade. A vida da garota muda drasticamente quando seus pais decidem deixar o circo e tentar a sorte em uma cidade próxima. Esta encantadora produção foi apresentada na Mostra de Cinema Tiradentes deste ano. 

Filme "Poropopó" (Foto: Juliana Pereira/Divulgação)

Shows e festa junina
Repetindo a parceria cultural com o Sesc-MG, acontece o Sesc Cine-Lounge Show, instalado no Centro de Artes e Convenções. Além do tradicional cortejo da arte que percorre as ruas de Ouro Preto, no dia 25 (sábado), às 11h30, com saída da Praça Tiradentes, o público vai poder curtir várias atrações, performances, DJs, shows noturnos com grupos locais e artistas de destaque na cena mineira que se relacionam com as temáticas e debates propostos.

Uma das novidades desta edição é a Festa Junina que será promovida no domingo (26), a partir das 18 horas, também no Centro de Artes e Convenções como parte da programação da Mostra Valores. O evento vai reunir duas quadrilhas da cidade para fazer todo mundo dançar no Arraiá da CineOP. Sem contar as barraquinhas de comes e bebes, brincadeiras e show de forró para reunir a família.

Longas da Mostra Contemporânea


Serviço
17ª CineOP - Mostra de Cinema de Ouro Preto
Data: 22 a 27 de junho de 2022
Formatos: Presencial e Online
Site para a programação: www.cineop.com.br

19 junho 2022

Além do clássico: "O Próximo Passo" é muito mais do que uma típica tragédia de dançarina

Sucesso de bilheteria, filme é destaque do Festival Varilux 2022 e foi o terceiro mais visto nos cinemas franceses em abril. 



Carolina Cassese - correspondente em Paris
Blog Carolina Cassese 


O terceiro filme mais visto na França na sua semana de estreia, somando mais de um milhão de espectadores. É dessa maneira que "O Próximo Passo" ("En Corps", no original), mais recente longa de Cédric Klapisch, é anunciado como um dos destaques da nova edição do Festival Varilux de Cinema Francês, que tem início em todo o Brasil a partir desta terça-feira (21). 

A produção de fato se destacou nos cinemas franceses. O público definitivamente se encantou com a história de Elise, uma jovem bailarina que se machuca em uma de suas apresentações e é obrigada a rever os rumos de sua vida por conta do acidente.


O longa de Klapisch reúne uma série de elementos que são realmente muito gratificantes para o espectador: uma abordagem bastante sensível acerca de temas universais, personagens construídos com complexidade, momentos de humor muito bem dosados, excelentes diálogos e ainda ótimos atores. O fato de a protagonista ser interpretada por Marion Barbeau, que também é dançarina, provavelmente auxilia bastante no quão crível é a paixão da personagem pela dança. 

Podemos perceber que essa manifestação artística é seu universo, seu eixo, absolutamente essencial para a existência de Elise. Acompanhamos com angústia a recuperação da protagonista, torcendo para que ela volte o mais rápido possível para os palcos.


Se engana, porém, quem acredita que a produção se restringe ao universo da dança. Essencialmente, O próximo passo é sobre frustrações e recomeços, além de proporcionar reflexões acerca de temas como o luto e relações entre pais e filhos. Ao longo de todo o filme, o diretor inteligentemente constrói um paralelo dos tipos de dança com as próprias formas de viver a vida. Forma clássica ou contemporânea? Quem sabe as duas ao mesmo tempo, a depender do contexto.

Durante uma sessão de fotos, Elise e sua amiga reagem a um pedido sexista do fotógrafo, que pede para uma menina menor de idade se ajoelhar diante de um cara mais velho, numa posição de submissão. "Essa pose é um clássico!", argumenta o fotógrafo. "O fato de ser um clássico não é razão para continuar fazendo", rebate Elise.


Em seu processo de recuperação, a personagem principal muitas vezes se sente desmotivada e fraca. Uma de suas principais chateações diz respeito ao fato de que célebres histórias sobre dançarinas geralmente acabam em tragédia. "É isso, é um clichê, eu virei uma heroína do balé clássico", diz, em uma das excelentes cenas com Yann, seu fisioterapeuta. 

Em outro momento, Hofesh Shechter, um conhecido coreógrafo (inclusive na vida real), argumenta: "A fraqueza é a chave. A fraqueza é o novo superpoder". Ele busca incentivar Elise a dar uma chance para a dança contemporânea e a participar de sua companhia. "Eu não estou dançando tão bem, não é perfeito", diz a dançarina. Sem nenhum tipo de grosseria, Shechter responde: "Quem disse que era perfeito antes?".


Em dois momentos do filme, aparece a metáfora do corpo como um carro. Na primeira vez, o argumento é de que não devemos deixar nosso corpo parado por muito tempo, sem funcionar. Na segunda, o pressuposto é de que precisamos ter cautela. Elise se divide entre o cuidado e a urgência de se movimentar, de voltar a respirar como antes.

Num mundo onde estamos habituados a exigir performances e resultados rápidos, olhar para o nosso corpo muitas vezes é uma aula de paciência. Ver um espetáculo de dança, idem. Em "O Próximo Passo", não há resposta exata e nem imediata: é primordialmente sobre o processo.


Ficha técnica:
Direção: Cédric Klapisch
Produção: Studio Canal
Distribuição: Bonfilm
Duração: 1h57
Classificação: 14 anos
País: França
Gênero: Drama

FESTIVAL VARILUX DE CINEMA FRANCÊS 2022
Data: De 21/06 a 01/07/2022
A 13ª edição do Festival Varilux de Cinema Francês oferece uma programação composta por 17 longas-metragens inéditos e dois filmes clássicos
Exibição: nos cinemas Cineart Ponteio, UNA Cine Belas Artes, Centro Cultural Unimed BH Minas e Cinemark Pátio Savassi.
Programação: https://variluxcinefrances.com/2022/

15 junho 2022

“Um Broto Legal” não explica por que um estúpido cupido pode mais do que uma carreira promissora

Marianna Alexandre e Murilo Armacollo estão bem como Celly e o irmão Tony Campello (Fotos: Pandora Filmes/Divulgação)


Mirtes Helena Scalioni


Não é preciso ir muito longe para chegar à conclusão de que o diretor Luiz Alberto Pereira tem fortes ligações com a sua cidade, Taubaté, no interior de São Paulo. Afinal, “Um Broto Legal” sobre a trajetória de Celly Campello, que entra em cartaz nesta quinta-feira (16), é o segundo filme dele sobre celebridades da sua terra. 

O outro, de 2006, é “Tapete Vermelho”, belo tributo ao ator Mazzaropi, que lotava as salas de cinema nas décadas de 1950 e 1960, com atuação antológica de Matheus Nachtergaele como o caipira que queria, a qualquer custo, apresentar o comediante ao filho adolescente.


Mas, se em "Tapete Vermelho", Luiz Alberto foi brilhante e criativo, inventando uma história na qual Mazzaropi era apenas um alvo a ser alcançado por uma família interiorana, em “Um Broto Legal”, ele e o roteirista Dimas Oliveira Júnior parecem ter optado pelo óbvio. A trajetória da taubateana Célia Benelli Campello é mostrada de forma quase burocrática, sem charme, sem brilho, sem dramas.

Quem acompanhou a época, ou já se interessou pela música daquele tempo (final dos anos 50 e início dos 60), sabe que o rock brasileiro passou a existir a partir de versões de sucessos de conjuntos e cantores americanos. E que Celly Campello foi a primeira mulher pop star do rock’n’roll nacional. Até então, quem dominava as rádios eram os boleros e sambas-canções entoados pelos vozeirões de  Ângela Maria, Nora Ney e afins. 

Celly e Tony Campello (Divulgação)

Foi um arraso quando aquela menina apareceu cantando “Estúpido Cupido”, “Banho de Lua” e “Broto Legal”. Há quem diga que, antes de Celly Campello e seus rocks, a juventude brasileira não existia. Portanto, até pelo pioneirismo, a meiga e delicada cantora de voz pequena e afinada talvez merecesse um filme mais arrojado, por mais que sua trajetória pareça singela e linear. 

Com atores praticamente desconhecidos e roteiro previsível, o que fica no final é uma espécie de obrigação cumprida, uma cinebiografia morna. Não se pode dizer que o elenco é fraco. Nada disso. São muito gracinhas a novata Marianna Alexandre como Celly e Murilo Armacollo como Tony Campello. Corretos estão também o casal que interpreta os pais dos dois artistas - Paulo Goulart Filho e Martha Meola, como o sim e o não - sem falar de Danilo Franccesco, como Eduardo, o namorado da estrela. 


Há que se elogiar ainda o esforço da equipe para recriar cenários de um tempo em que não havia vídeos, apenas fotos. Celly morreu em 2003, mas o filme conta com uma consultoria muito especial: o irmão mais velho Tony, que, aos 85 anos, se envolveu com o projeto e partilhou várias histórias que serviram de base no roteiro, além de fotografias, discos, prêmios dela e dele, que acabaram sendo alguns dos objetos utilizados no filme. 


Uma curiosidade: o roteirista Dimas Oliveira Júnior lançou em 2012 o documentário longa-metragem "Celly e Tony Campello - Os Brotos Legais" com entrevistas de Renato Teixeira; Agnaldo Rayol, que era amigo da família; depoimentos do irmão Tony e de Wanderléia falando sobre a influência da cantora, precursora do rock no Brasil, na geração dela e na Jovem Guarda; e uma entrevista com Celly feita em 1999 (ela morreria de câncer em 2003). Este filme está em exibição no Canal Brasil (confira o canal em sua operadora), com reprises nos dias 18 e 24 de junho e 1º de julho.

Pôster do documentário (Divulgação)

Pode até ser que fãs mais ardorosos reconheçam, no longa, o retrato fiel da mocinha certinha, careta e apaixonada que se recusou a ser estrela. O roteiro, portanto, justificaria a vida previsível e sem arroubos da artista. Pode ser. Mas como cinema é arte, não custava dourar a pílula, salpicar purpurina, dramatizar, priorizar conflitos, enfatizar dificuldades, analisar e, principalmente, jogar luz e discutir, de alguma forma, a distância entre talento e vocação. 

Ninguém pergunta, por exemplo, por que ela foi convidada por Roberto Carlos para ser a figura feminina da Jovem Guarda e disse não. “Um Broto Legal” pode até ser um filme correto e razoável. Mas falta tempero.


Ficha técnica:
Direção: Luiz Alberto Pereira
Roteiro: Luiz Alberto Pereira e Dimas Oliveira Jr.
Produção: Lapfilme Produções
Distribuição: Pandora Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h34
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gêneros: drama, biografia, musical

13 junho 2022

"Assassino Sem Rastro" só faz o espectador esquecer da experiência de ver um bom filme

Liam Neeson volta às telas como um assassino de aluguel que está com Alzheimer e quer aposentar (Fotos: Diamond Filmes/Divulgação)



Marcos Tadeu
Blog Narrativa Cinematográfica


Existem filmes incríveis e filmes medianos. "Assassino Sem Rastro" ("Memory"), em cartaz nos cinemas, entra nessa segunda categoria. Confesso que fui conferir porque gosto de Liam Neeson desde "Busca Implacável" (2008), mas do ano desse icônico filme até hoje foram poucas as produções em que o ator entregou algo novo ou diferente.


Na história conhecemos Alex Lewis (Liam Neeson), um assassino de aluguel que quer aposentar sua vida de crimes mas que antes precisa de fazer um último serviço que lhe renderá uma boa grana. Porém, ele descobre que nessa troca de favores com gente do crime terá de executar uma criança. Ao recusar a proposta, passa a ser perseguido por uma rede de corrupção maior do que poderia imaginar.


Nos primeiros minutos do longa, a trama parece ter fôlego suficiente para se sustentar até o final. Principalmente porque o protagonista manda bala e faz justiça com as próprias mãos (apesar de ser clichê, a opção ainda funciona em muitos filmes de ação).

Os carismáticos policiais Vincent Serra (Guy Pearce) e Linda Amistead (Taj Atwal) são o ponto alto da narrativa. Dá para sentir empatia pela dupla, apesar de nosso vilão/protagonista conseguir passá-los para trás.


A trama também aborda a questão do abuso infantil e dos cartéis do narcotráfico. Quem carrega esse papel é Monica Bellucci como a empresária Davana Sealman. Mas na narrativa essas abordagens são tão caricatas que praticamente soam de maneira desconexa perto do restante do filme.

As cenas de ação, a maioria com Alex dando muitos tiros em seus adversários, são até boas. Isso é um dos poucos elementos positivos que Neeson faz e faz bem. O problema maior é na execução do roteiro. Me incomodou as muitas conveniências do roteiro e, principalmente, as atuações.


Quando acrescentamos o ingrediente do Mal de Alzheimer sofrido pelo protagonista, a trama fica em um vai e vem sem fim. Ao mesmo tempo em que Liam Neeson é vilão, a doença o deixa frágil e toda sua construção acaba indo meio que pelos ares.

Algumas vezes, esse artifício do roteiro faz com que o próprio ator soe forçado em seu papel. Existe até uma reviravolta, quase como uma maneira desesperada de fisgar a audiência, mas é tão nos 45 segundos do segundo tempo que faltou um maior desenvolvimento do personagem. "Assassino Sem Rastro" é um filme facilmente esquecível, tanto pelo roteiro fraco quanto por tudo o que o ator tentou entregar.


Ficha técnica:
Direção: Martin Campbell
Produção: Black Bear Pictures, STX Films, Welle Entertainment
Distribuição: Diamond Films
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h54
Classificação: 16 anos
País: EUA
Gêneros: suspense, ação

10 junho 2022

"Jurassic World: Domínio" encerra franquia com muita ação, reencontros e novas estrelas pré-históricas

Duas gerações da franquia se encontram para enfrentar antigos e novos dinossauros e vilões (Fotos: Universal Studios)


Maristela Bretas


Foram quase 20 anos desde o primeiro filme da franquia, que estreou em junho de 1993. Agora os saudosistas e apaixonados pelo mundo dos dinossauros podem curtir no cinema o encerramento da saga em "Jurassic World: Domínio" ("Jurassic World: Dominion"). E não vão se arrepender, os nossos jurássicos são novamente as verdadeiras estrelas. Desde a estreia no dia 2 de junho, mais de dois milhões de espectadores lotaram as salas pelo país e a maioria saiu das sessões elogiando a produção.

Desta vez, o arquiteto e diretor da fase Jurassic World, Colin Trevorrow, se uniu ao criador da era Jurassic Park, Steven Spielberg como um dos produtores e o resultado não poderia ser melhor, justificando o sucesso desta franquia de mais de US$5 bilhões. 


Não bastassem os 27 tipos de dinossauros que participam do longa, sendo dez nunca vistos em nenhum dos filmes anteriores, "Jurassic World: Domínio" ainda reúne as gerações da era jurássica no cinema pela primeira vez. Chris Pratt  e Bryce Dallas Howard, que interpretam os ex-funcionários do Parque dos Dinossauros Owen Grady e Claire Dearing. Eles agora dividem a tela com Laura Dern repetindo seu papel como a pesquisadora Ellie Sattler, Sam Neill, como o também pesquisador Alan Grant, e Jeff Goldblum, no papel do Dr. Ian Malcom.

Os dois primeiros atores já são conhecidos das novas gerações, quando a franquia foi retomada com "Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros" (2015) e “Jurassic World: Reino Ameaçado" (2018). Mas é emocionante ver o reencontro do trio original de "Jurassic Park" (1993), "O Mundo Perdido" (1997) e "Jurassic Park 3" (2001).


O elenco conta ainda com velhos conhecidos como BD Wong como Dr. Henry Wu, Justice Smith como Franklin Webb, Daniella Pineda como Dr. Zia Rodriguez, e Omar Sy, como Barry Sembenè, que treinava os velociraptors com Owen. 

O longa traz também uma turma que dá um brilho novo para encerrar bem a franquia: DeWanda Wise, Mamoudou Athie, Dichen Lachman, Scott Haze e Campbell Scott. Para completar,os efeitos visuais são de arrasar. Um filme digno de ser assistido numa tela grande, de preferência no formato Imax. 


A história se passa quatro anos depois da destruição da Isla Nublar, quando os nossos "amigos" jurássicos escaparam e se espalharam pelo mundo. Eles agora vivem e caçam ao lado de humanos, o que provoca um desequilíbrio natural, temido por uns e aproveitado por outros. 

Claire e Owen tentam preservar os animais e vão precisar contar com a ajuda dos especialistas do passado, enquanto predadores animais e humanos disputam o espaço no planeta, com desvantagem para ambos os lados. 


Claro que alguns dos primeiros dinossauros e de maior destaque foram mantidos nesta última jornada para manter a identidade visual, como o velho e temido T-Rex, assim como o temível velociraptor, bem representado por Blue, que foi treinado por Owen Grady no filme de 2015 e o Dilofossauro, o bípede carnívoro que abre um leque quando vai atacar. 

Utilizando novas tecnologias, o diretor Colin Trevorrow conseguiu produzir criaturas animatrônicas (dispositivos robóticos que recriam seres vivos) e entregou a John Nolan a supervisão para fazer estas criaturas funcionarem como se fossem reais. Chega a ser assustador a aparição do Giganotossauro e das novas espécies, como o Juvenile Baryonyx (primo do Espinossauro e predador violento) ou o Oviraptor. 


Mas também tem aqueles que são fofos e dóceis, como o Dreadnoughtus (enorme dinossauro herbívoro de pescoço comprido, primo do Braquiossauro), o Parassaurolofo (comedor de plantas com bico de pato) ou o Iguanodonte. Sem falar na criação pela equipe de Trevorrow de uma espécie ainda mais devastadora, que nada tem a ver com o mundo jurássico - gafanhotos animatrônicos medindo 70 centímetros de comprimento.


Para quem acompanha a saga há quase duas décadas, motivos não faltam para conferir "Jurassic World: Domínio" nos cinemas. São quase 2h30 de ação e aventura, proporcionada por nossos velhos amigos dinossauros. Há cenas de perseguições que parecessem tiradas de um filme de 007, se não fossem protagonizadas pelos ferozes carnívoros.

A emoção está na dose certa para uma despedida, embalada pela trilha sonora do premiado Michael Giacchino, responsável pelas composições dos dois filmes anteriores, além de sucessos como "Batman" (2022), "Homem-Aranha Sem Volta Para Casa" (2021), "Jojo Rabbit" (2020) e "Homem-Aranha: Longe de Casa" (2019) e muitos outros.


Ficha técnica:
Direção: Colin Trevorrow
Roteiro: Michael Crichton e Colin Trevorrow
Produção: Universal Pictures e Amblin Entertainment
Distribuição: Universal Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h26
Classificação: 12 anos
País: EUA
Gêneros: ação e aventura

08 junho 2022

"Amado", inspirado na história real de um policial que combateu o crime e às milícias

Sérgio Menezes representando muito bem o papel do protagonista (Fotos: Divulgação)


Marcos Tadeu

Saindo do eixo Rio-São Paulo quando o assunto é o poder paralelo das milícias e o tráfico de drogas, "Amado" chega aos cinemas nesta quinta-feira (9) inspirado na história verdadeira do policial militar que dá nome ao filme e combatia esses crimes em Ceilândia, no Distrito Federal. Lutando contra tudo e contra todos, Amado começou uma cruzada contra criminosos - marginais e policiais corruptos -, sem se importar com cor, raça, credo ou sexo.

De policial honesto e incorruptível, para combater fogo contra fogo, o cabo Amado tornou-se também juiz e executor das sentenças daqueles que prendia, agindo acima da lei burocrática e falida que ele não acreditava mais. Para alguns, ele não passava de um policial truculento e fora da lei, enquanto para outros, um herói justiceiro solitário, numa localidade onde o crime e a corrupção imperavam.


Os inimigos o consideravam "um cara de corpo fechado". Por mais que tentassem matá-lo, ele sempre escapava. A oração de São Jorge era o guia da vida de Amado e ele a recitava como um escudo protetor contra o mal: "Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos tendo pés, não me alcancem; tendo mãos, não me peguem; tendo olhos não me vejam e nem em pensamentos eles possam me fazer mal. Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar". 


Dirigido por Edu Felistoque e  Erik de Castro, com o roteiro de Erik de Castro, o longa combina ação e drama, tendo o ator Sérgio Menezes representando muito bem o papel do protagonista, numa atuação segura que deu a credibilidade que o personagem exigia. 

Apesar de um roteiro bem realista, fica difícil não comparar Amado com o capitão Nascimento, de "Tropa de Elite" (2007), apesar deste último ser muito mais violento. "Amado" tem momentos bem pontuais de violência, mas seu personagem também questiona a polícia, apesar de ser integrante dela. 


Ao contrário do capitão Nascimento, que é um cara mais ignorante e truculento, o cabo Amado é mais doce com as pessoas que ele gosta. Ele também tem um amigo de longas datas, que fica dividido entre se corromper ou não, apesar de estar tão perto dela. Outro diferencial é o par romântico do militar - uma prostituta com quem quer se casar e tirá-la daquela vida, um ponto muito a favor do roteiro. 


Mas faltou explorar mais estes personagens da vida do cabo Amado, ao contrário do que ocorreu com a polícia que foi muito bem contextualizada. No elenco estão também Adriana Lessa, Alexandre Barillari, Igor Cotrim, Brenda Ligia, Neco Vila Lobos , Sérgio Cavalcanti e Gabriela Correa.

Filmado durante a pandemia de Covid-19, "Amado" enfrentou interrupções ao longo de seu processo de produção, que foram vencidas pelo empenho e persistência e o empenho dos diretores, da equipe e do elenco que permitiram que o filme fosse concluído com um saldo positivo.


Ficha técnica:
Direção: Edu Felistoque e Erik de Castro
Produção: BSB Cinema Produções / Felistoque Filmes / Assum Filmes
Distribuição: Downtown Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h30
Classificação: 16 anos
País: Brasil
Gêneros: drama / ação

03 junho 2022

“Lei da Selva – A História do Jogo do Bicho” é um quebra-cabeças do crime organizado onde tudo se encaixa

Documentário de Pedro Asbeg em quatro episódios  tem excelente narração do ator Marcelo Adnet (Fotos: Canal Brasil)


Mirtes Helena Scalioni


Não seria exagero se o documentário “Lei da Selva – A História do Jogo do Bicho”, de Pedro Asbeg (“Democracia em Preto e Branco” – 2014, “Geraldinos” – 2016, “América Armada” – 2018) se chamasse simplesmente “De Vila Isabel a Brasília”. De forma didática e cirúrgica, a série mostra, em quatro episódios, como foram construídas e celebradas as relações entre um inocente sorteio com nomes de animais e o crime organizado, com direito à participação da máfia italiana e dos poderes constituídos. Tudo a céu aberto, a olhos vistos, com o consentimento e a conivência de policiais, juízes, políticos, governos e imprensa.


Quando o Barão de Drummond criou o jogo do bicho em 1892, com a prosaica intenção de ajudar na manutenção de um jardim zoológico no bairro de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, não imaginava que sua criação chegasse tão longe e tivesse tanto poder 130 anos depois. É justamente esse passo a passo que a série mostra. E faz isso de um jeito tão envolvente que prende o espectador do começo ao fim, como se fosse uma obra de ficção.


Só que “Lei da Selva...” não é ficção. Os caminhos escolhidos pelo crime organizado – que muitos preferem chamar de contravenção para amenizar – passam por uma disputa sangrenta de espaço, muita violência, sangue e mortes, tudo acontecendo enquanto os donos da banca dançam, sambam e são chamados de “patronos”. 

Escolas de samba e times de futebol foram, no início, os truques que ajudaram a lavar o nome e o dinheiro dos chefões, que se tornaram celebridades ao ponto de posarem ao lado de poderosos diretores de TV e de gente graúda da imprensa e da política.

Marcelo Adnet (Divulgação)

Foi dessa forma que o Brasil conheceu e aprendeu a aplaudir nomes como Castor de Andrade, Miro, Luizinho Drummond, Capitão Guimarães, Anísio Abrahão David e outros. Foi assim também que o país tomou conhecimento de uma juíza chamada Denise Frossard que, a certa altura, quis acabar com aquela farra. Com narração acertada do humorista Marcelo Adnet, uma das grandes riquezas da série, além do roteiro bem amarrado, está na lista de entrevistados. 

Castor de Andrade (Divulgação)

Estão lá, para falar das sutilezas que foram transformando um simples jogo numa máfia, acadêmicos do porte de Marco Antônio Simas e Michel Misse, entre outros, passando pela urbanista e vereadora carioca Tainá de Paula, além de Marcelo Freixo e muitos jornalistas que viveram as transformações. Devagar, o movimento ia sendo aceito pelo Rio de Janeiro e, de certa forma, pelo Brasil. Como se tudo fosse legal.

Numa espécie de evolução natural, com o jogo do bicho vieram o samba, o futebol, o tráfico de drogas, as milícias, a política, o escritório do crime e o surgimento de nomes como Ronnie Lessa, Anderson Nóbrega, Álvaro Lins, Fabrício Queiroz e outros muito conhecidos das páginas dos jornais brasileiros.

Carnavalesco Milton Cunha (Divulgação)

E a série não poupa ninguém. Estão lá registradas a conivência de Leonel Brizola, Darcy Ribeiro e outros quando da construção do sambódromo e a oficialidade que se deu à criminalidade com a criação da Liesa – Liga das Escolas de Samba. 

Sem falar na expansão dos territórios dos bicheiros até o domínio de uma região do Rio de Janeiro chamada Rio das Pedras, que se formou a partir do crescimento da Barra da Tijuca. Foi lá que viveu e militou a vereadora carioca Marielle Franco, assassinada em março de 2018. 


Um verdadeiro quebra-cabeças onde as peças se encaixam com justeza e perfeição. Imperdível para quem quer conhecer um pouco mais da História do Brasil que não é contada em livros oficiais, “Lei da Selva – A História do Jogo do Bicho” é uma coprodução da Kromaki e Canal Brasil e está em cartaz nas plataformas Globoplay +, Now e no próprio Canal Brasil.


Ficha técnica:
Direção: Pedro Asbeg
Locução: Marcelo Adnet
Produção: Kromaki e Canal Brasil
Exibição: Globoplay + / Now / Canal Brasil
Duração: quatro episódios, com duração de 43 e 60 minutos cada
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gêneros: Documentário / Crime