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10 outubro 2026

Cine Humberto Mauro mostra esplendor da China que poucos conhecem

Serão apresentadas dez produções audiovisuais chinesas abordando a história, a cultura e o desenvolvimento tecnológico do país (Crédito: China Media Group)
  
 

Da Redação

 
Nos dias 13, 15, 17, 20, 22 e 24 de outubro (terças-feiras, quintas e sábados), com entrada sempre gratuita, o Cine Humberto Mauro, no Palácio das Artes, recebe a mostra “Ciclo China em Perspectiva”. Serão exibidas dez produções audiovisuais chinesas feitas entre 2023 e 2025, entre longas-metragens, curtas e uma série.

Os documentários percorrem diferentes dimensões da vida e da sociedade chinesas, destacando também a herança milenar e o desenvolvimento tecnológico, revelando facetas diversas de uma sociedade que já existe há cerca de 4 mil anos e se consolida cada vez mais no cenário global. 

A China é o segundo país mais populoso e segundo mais rico do mundo. Em 2026 é celebrado o Ano Cultural Brasil–China, marco que amplia as possibilidades de encontro e intercâmbio entre os dois países por meio da arte e da cultura. 


Em Minas Gerais, as comemorações ganham um significado ainda mais especial: o Estado completa 30 anos do acordo de irmanamento com a Província de Jiangsu, estabelecendo uma trajetória de aproximação que se renova, neste ano, por meio de diferentes ações culturais e institucionais. 

A programação começou no dia 1º de outubro, Dia Nacional da China, e segue até o fim do mês, com exibições regulares as terças e quintas-feiras, às 16h, e aos sábados, às 15h, incluindo documentários e programas audiovisuais chineses.

Além de abordar tradições milenares, patrimônio arquitetônico, gastronomia, paisagens e memória histórica, os filmes também acompanham a juventude, o desenvolvimento das cidades, a inovação tecnológica e os desafios da China contemporânea. 

"O Esplendor das Cidades”

No dia 13 (terça-feira), às 16 horas, será exibida a série "Milagre" (2025), de Shen Yan, dividida em quatro episódios: "Encontro na Floresta", uma emocionante história sobre o vínculo entre mãe e filho e a proteção dos animais; "Wing Chun", que conta a história de Chang Hongji, uma criança apaixonada pela dança em Nanyang, na província de Henan, que se tornou um ator de teatro de dança capaz de, em uma mesma expressão artística, unir as artes marciais e a dança. 

Os outros dois episódios são "Superando Obstáculos" - uma mãe, para ajudar o filho desempregado, mas enfrenta repetidos obstáculos devido à idade, à falta de habilidades específicas e às barreiras linguísticas; e "Vidas em Ascensão", uma história sobre crescimento, luta e emoções entrelaçadas, que se desenrola de 2011 a 2025 envolvendo a faxineira de um prédio comercial em Shenzhen e um jovem, mostrando como eles passam do primeiro encontro ao apoio mútuo e, finalmente, ao crescimento conjunto.

“Canção do Rio Amarelo” 

Entre os destaques da curadoria está o longa-metragem “Canção do Rio Amarelo” (2024), de Fan Zhiyuan, que será exibido no dia 15 de outubro. O filme acompanha o curso milenar e impetuoso do Rio Amarelo, traçando um amplo panorama da trajetória da civilização chinesa, desde suas origens até seu desenvolvimento ao longo dos séculos. 

A obra explora em profundidade os principais elementos culturais intimamente ligados ao Rio Amarelo em diferentes períodos históricos — da Pré-História às dinastias Qin e Han, passando pelas dinastias Tang e Song, Ming e Qing, até a era moderna. 

"Sabores da China"

Já no dia 17 (sábado), haverá sessão dupla. O público poderá fazer um mergulho na culinária do país asiático assistindo o curta "China através do seu Patrimônio Cultural Imaterial - Província de Fujian". Na sequência, o filme “Sabores da China” (2025), de Cai Yaqian, Gao Yue e Tu Xiaohe, é uma grande celebração da gastronomia chinesa, na qual chefes de diferentes regiões do país competem e demonstram suas habilidades culinárias. 

Por meio de técnicas criativas e inovadoras, são apresentados pratos marcados por fortes características regionais, que revelam o cotidiano, as tradições, as trocas e a riqueza cultural presentes nas gastronomias locais. 

"Registros das Artes e Ofícios da China: Os Robôs"

No dia 20 haverá também sessão dupla a partir das 16 horas com o curta "Registros das Artes e Ofícios da China: Os Robôs", que reúne diversos robôs inovadores e os engenheiros responsáveis por seu desenvolvimento, combinando análises de especialistas com apresentações artísticas. 

A  segunda produção é o documentário "China Rumo ao Futuro", de Wei Keran (2025), que acompanha três observadores de diferentes áreas profissionais em uma jornada pelos quatro principais agrupamentos urbanos da China. 

A produção revela como essas regiões estão promovendo um desenvolvimento mais integrado e harmonioso, superando barreiras geográficas e recorrendo à  inteligência artificial para melhorar a qualidade de vida da população e enfrentar os desafios do envelhecimento

"O Esplendor das Cidades”

"O Esplendor das Cidades” (2024), dirigido por Zhang Jie, Zhang Zhicheng e Zou Lin será exibido dia 22 de outubro (quinta-feira), mostra  detalhes das cidades chinesas de Suzhou, Hangzhou, Changsha, Kunming, Xangai e Zhuhai. 

Apresentadores percorrem mercados, vielas e margens de rios, revelando os encantos e a personalidade única de cada cidade. Convidados famosos compartilham memórias e histórias de sua infância, enquanto historiadores e especialistas locais ajudam a traçar os caminhos históricos e culturais que moldaram essas cidades ao longo do tempo. 

Destaque também para “Ecos de Xizang” (2023), da China Global Television Network, que será exibido no último dia da mostra, 24 de outubro (sábado), a partir das 15 horas. O curta-metragem acompanha a vida de um grupo diversificado de jovens de diferentes áreas profissionais no Planalto Qinghai-Xizang – região cuja altitude média é de 4 mil metros acima do nível do mar. 

Eles mostram como a juventude contemporânea está criando novas conexões entre suas raízes culturais tradicionais e as tendências globais.

"Patrimônio Arquitetônico Milenar"

Encerrando a programação, a série "Patrimônio Arquitetônico Milenar", de Zhu Jun (2024). Do Templo do Céu, onde os antigos buscavam “dialogar” com o Céu, à Torre de Madeira, construída sem um único prego e que permanece de pé há mais de mil anos; do Templo Suspenso, erguido à beira de um penhasco, ao Templo Foguang, a “joia da Dinastia Tang”; e ao Palácio Yongle, um precioso patrimônio taoista que passou por uma histórica “realocação integral”.

O documentário explora a arquitetura tradicional chinesa sob diferentes perspectivas — dos conceitos construtivos às técnicas de edificação, da busca estética à preservação, transmissão e inovação. Revela a extraordinária engenhosidade dos antigos mestres da construção, a sabedoria de uma arquitetura baseada na harmonia entre o ser humano e a natureza e a impressionante capacidade de preservação de obras que permanecem de pé há séculos e até milênios.

"Canção do Rio Amarelo"

A mostra “Ciclo China em Perspectiva” é realizada pelo Ministério da Cultura, a partir de uma parceria entre a Superintendência de Relacionamento Nacional e Internacional da Secretaria-Geral do Estado de Minas Gerais, o China Media Group e a Fundação Clóvis Salgado. A ação é viabilizada por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. 

O China Media Group (CMG), que cedeu os filmes para exibição, é um conglomerado estatal de mídia do país, criado em 2018, que produz e distribui conteúdos televisivos, documentários, notícias, entretenimento e programas culturais.

"Sabores da China"

Serviço
Mostra “Ciclo China em Perspectiva”
Local: Cine Humberto Mauro - Palácio das Artes (Avenida Afonso Pena, 1537, Centro - Belo Horizonte)
Datas: 13, 15, 17, 20, 22 e 24 de outubro (terças-feiras, quintas e sábados)
Horários: Variáveis
Classificações: Os filmes são livres para todos os públicos
Entrada: gratuita; 50% dos ingressos estarão disponíveis, de forma on-line, a partir do meio-dia da data das sessões, na plataforma Sympla; o restante dos ingressos será distribuído presencialmente na bilheteria principal do Palácio das Artes e nos totens, a partir de 1 hora antes de cada exibição.

25 setembro 2026

“Papaya” - O poder de mudar o mundo começa nas nossas raízes

Longa de animação conta a saga de uma semente de mamão que quer conhecer o mundo e sonha em poder voar
(Fotos: Boulevard Filmes)
 
 

Eduardo Jr.

 
Uma produção nacional que vale a pena conferir. "Papaya", em cartaz no Cine Belas Artes, marcou história como a primeira animação brasileira selecionada para o Festival Internacional de Cinema de Berlim, mesmo sem levar prêmios oficiais.

O longa-metragem de estreia da diretora e roteirista Priscilla Kellen conta a saga de uma semente de mamão que sonha em poder voar. A distribuição é da Cajuína Audiovisual e da Sessão Vitrine Petrobras, projeto voltado à democratização do cinema brasileiro.

Depois do impacto e do sucesso de "Flow", animação da Letônia que levou pra casa um Oscar e um Globo de Ouro em 2025, o público brasileiro já pode se apaixonar por mais um longa sem diálogos, e mesmo assim muito expressivo.


Colorida e com gráficos que lembram xilogravuras, a obra promete estimular a compreensão do público infantil - e também trazer mensagens para os adultos. 

Na abertura, o espectador é ambientado ao universo de “Papaya” com sons da natureza. A câmera vai subindo por uma raiz, e a vida parece se formar ao som de uma trilha suave. 

Essa música, que parece típica para acalmar um recém-nascido, se mostra coerente quando uma semente de mamão se encontra com uma gota de leite de um seio cor de mamão. 


Assim como essa sementinha, inúmeras outras se alimentam. Mas a primeira delas (cujo destino traçado no nascimento é ser nossa heroína) é arrancada do seio frutífero quando um pássaro aparece para se alimentar daquilo que é o lar de Papaya, a semente pretinha e esperta. 

Curiosa, ela vai em direção à luz que entra por uma fresta aberta na fruta e descobre que o tal pássaro pode voar. Essa habilidade a encanta, é quase um chamado. Num piscar de olhos, ela está no colo da mãe natureza. Tão encantador quanto esta cena é o forrozinho que toca ao fundo. 

Neste primeiro contato com o mundo exterior, tudo é estímulo. Se até uma joaninha, pequena e escura, pode bater suas asas por aí, uma semente de mamão também deve ter esse direito, ora bolas! Mas não. 


Mamãe natureza não deixa, pois há uma grande diferença entre voar e germinar. A saída para não estagnar e criar raízes é se movimentar, se aproximar do amigo sol, que faz suas irmãs sementes brotarem e crescerem.

É quando se intensifica a saga de Papaya, indo além do destino pré-determinado e tentando caminhar com as próprias pernas (ou voar como as pétalas de dente-de- leão). 

Mas nessa aventura ela vai descobrir a hostilidade do arame cercando o egoísmo da propriedade privada, as torres de eletricidade ferindo a paisagem, o ronco das máquinas que fazem tristes as sementes do agronegócio. 


A animação de Priscila Kellen traz uma poesia delicada. Está na sutileza de, no final do arco-íris, reencontrar a esperança quando o sonho de ganhar o mundo te afasta de casa. Na percepção de que se reconectar com suas origens é importante. Na mensagem de que florescer onde você foi plantado é vitória.

Em um Brasil que se fez, também, graças a um êxodo rural, uma animação que aborda a mudança, o sonho, e que vem embrulhada em uma trilha sonora com sanfona, pandeiro e tarol tem muita chance de conquistar corações brasileiros. 

Como atrativos, o longa tem ainda a coprodução de Alê Abreu, que dirigiu “O Menino e o Mundo” (2013), indicado ao Oscar 2016; a ótima trilha sonora de Talita del Collado e a participação da cantora Tulipa Ruiz.  


Brotando em festivais

“Papaya” teve sua primeira exibição em 2025 no Festival de Brasília, integrando a mostra Festivalzinho. O longa também passou pela Première Brasil do Festival do Rio 2025, pela 24ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, pela Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, além de exibição especial na COP30, em Belém. 

Também teve sessões na Mostra de Cinema de Tiradentes, na CineOP e no Olhar de Cinema de Curitiba em junho deste ano. É o primeiro longa-metragem de animação do Brasil a integrar a competitiva mostra Generation KPlus do Festival de Berlim de 2026. 

Assim como a sementinha Papaya, a obra de Priscilla Kellen também quer voar, voar e voar. Vale a pena ir ao cinema e ajudar na decolagem deste filme. 


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Priscilla Kellen
Produção: Boulevard Filmes, Birdo Studios, coprodução Alê Abreu
Distribuição: Cajuína Audiovisual e Vitrine Filmes
Exibição: Cine Belas Artes
Duração: 1h14
Classificação: livre
País: Brasil
Gênero: animação


23 setembro 2026

"Fiebre" - Uma viagem febril e delirante de uma criança pelo universo do fantástico

O visual elaborado da produção pode encantar os adultos, mas a narrativa exige atenção redobrada,
o que não combina com crianças (Fotos: Cup Filmes)
 
 

Patrícia Cassese

 
Um dos principais trunfos de “Fiebre: Um Filme Para Crianças que Não Têm Medo do Fogo” é, sem dúvida, o apuro visual, cativante do início ao fim. O filme de Elisa Eliash, uma produção que une Brasil, Chile e Peru, mescla live-action e animação analógica para compartilhar a história de Nino, um garoto cujos olhos não produzem lágrimas – portanto, demanda cuidados constantes da mãe, que trata de ter sempre à mão um colírio para que os olhos do filho não fiquem demasiadamente ressecados.

Nino não sai muito de casa – a mãe teme que ele caia, devido ao problema ocular. No seu recolhimento involuntário, desenha bastante, mais até do que gostaria. Os trabalhos, fixados na parede, ressaltam um percurso imaginativo que será destrinchado ao longo da narrativa: assim, há a figura do avô chinês, as aventuras do pai, uma ilha na Polinésia... 


A figura da mãe surge em cena quando ela está prestes a sair ao encontro com um homem interessado em adquirir uma pintura que guarda em casa desde a infância. Mesmo febril, Nino vai acompanhá-la.

O aspecto fantástico começa a adentrar a cena quando o menino pede à mãe que lhe conte novamente a história da tela. Apesar de estar em cima da hora, a mulher cede à insistência do filho e relembra Pablo, artista adolescente e misantropo que, quando ela registrava apenas nove anos de idade, habitava o mesmo prédio, até subitamente desaparecer sem deixar rastros. 

Bem, ao menos para as pessoas do entorno, já que, a menina o encontra preso em um quadro a óleo descoberto no apartamento dele, o qual trata de pendurar em seu quarto. É na representação artística que Pablo dá sequência à sua existência, crescendo junto à garota.


Fascinado, Nino é informado pela mãe que é possível adentrar a pintura. Ao mesmo tempo, ela alerta: se entrar é fácil, sair... Imerso no já citado estado febril, Nino em dado momento ignora o alerta materno e profere as palavras mágicas que o transportam para um mundo metafísico, no qual os cenários podem mudar radicalmente a partir do momento em que da sua boca as palavras-chave voltam a sair e mediante representações visuais concretas, como fotos, desenhos e postais. 

Para citar um exemplo, não tarda a ele se ver imerso no filme italiano que, pouco antes, estava sendo exibido na TV de sua casa. O enredo mostra uma família (mãe e crianças) notadamente sem muitos recursos financeiros em meio aos bombardeios de uma guerra que ameaçam fazer a casa desabar. 


É neste momento, aliás, que ele encontra uma companheira de jornada, Dina. Juntos, os dois procuram comida e água, até desembarcarem em uma comunidade aborígene localizada nas cercanias de um vulcão prestes a entrar em erupção. 

Por sinal, temos aí um dos vários apontamentos da simbologia do fogo que aparece no subtítulo em português, para além, claro, da febre que perpassa o corpo do personagem principal, da presença de um sol inclemente ou do que emana de um fósforo.

Ao fim, há uma referência aos pais e mães que contam histórias para seus filhos, revelando uma homenagem aos que não reprimem a imaginação ilimitada dessa fase da vida, a infância, e que, pela realidade concreta, muitas vezes não deixa vestígios na vida adulta. 


A intenção é ótima, assim como digna de nota a associação do estado febril ao percurso delirante de Nino (sozinho ou junto à amiga imaginária Dina). Tal qual, como assinalado no início, o invólucro visual é de assoberbar, e é fácil prever que vai encantar adultos. 

O único porém fica por conta de uma provável não aderência do público-alvo (crianças) à história, pelo menos daquele que pertence à chamada primeira infância. Inicialmente, por conta de a narrativa exigir atenção redobrada, sem tempo para desvios ou desconcentração. 

Por outro lado, há citações que adentram terrenos arenosos, como a menção à morte iminente provocada pela erupção do vulcão. De todo modo, é uma aposta interessante. Se a criança não entender de todo o contexto, sairá impressionada pelo esmero visual. Já os pais, certamente serão cooptados.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Elisa Eliash
Produção: La Forma Cine e Válvula Films (Chile), coproduzido pela Klaxon (Brasil) e Films Bastardia y Tiempo Libre (Peru)
Distribuição: Cup Filmes
Duração: 1h24
Classificação: Livre
Países: Chile, Brasil e Peru
Gêneros: infantil, live-action, animação, ficção

20 setembro 2026

"A Ilha Esquecida": quando a amizade é a chave para não esquecer quem amamos

Animação é ambientada nas Filipinas da década de 1990, explorando as histórias do folclore local
(Fotos: DreamWorks Animation)
 
 

Maristela Bretas

 
Uma das melhores animações do ano tem um visual incrível e uma verdadeira explosão de cores para falar sobre amizade: “A Ilha Esquecida” (“Forgotten Island”) está em cartaz nos cinemas, com direção e roteiros de Joel Crawford e Januel Mercado, produção da DreamWorks Animation e distribuição da Universal Pictures.

Apesar de voltado ao público infantil, o filme traz algumas cenas que podem assustar crianças abaixo dos 10 anos, além de diálogos diretos e bastante francos sobre amizade, relacionamentos e as mudanças que fazem parte da vida.


Na trama, ambientada nas Filipinas da década de 1990, conhecemos Jo (voz da cantora H.E.R.) e Raissa (voz da atriz filipina Liza Soberano, que cresceu ouvindo histórias do folclore de seu país), amigas inseparáveis desde a infância.

Recém-formadas no ensino médio e com visões diferentes de futuro, as duas melhores amigas estão prestes a seguir caminhos diferentes. Enquanto Jo permanece nas Filipinas, Raissa se prepara para se mudar para os Estados Unidos.


Durante a celebração de despedida, elas encontram um misterioso portal que há anos procuram e são transportadas para a fantástica ilha de Nakali. O lugar é habitado por criaturas mágicas e mitológicas, como metamorfos, demônios, bruxas e monstros, seres sobre os quais as duas cresceram ouvindo histórias contadas por Lola Fátima (Dolly de Leon), avó de Jo.

Ao descobrirem que o preço para retornar para casa é abrir mão das memórias que construíram juntas ao longo da vida, elas terão de enfrentar um grande desafio. Ao lado de Raww (Dave Franco), um desajeitado cão-lobisomem, elas precisam derrotar a temida Manananggal (voz de Lea Salonga) antes que se esqueçam uma da outra. 

No elenco de dubladores estão ainda Manny Jacinto (Bungi Tiyanak), Jenny Slate (Batiba), Jo Koy (Datu) e Ronny Chieng (Rei Truflle Wuffle).



Amigos há 15 anos, desde as gravações de “Kung Fu Panda 2”, Joel Crawford e Januel Mercado são responsáveis por sucessos como “Gato de Botas 2: O Último Pedido” (2022) e “Os Croods 2: Uma Nova Era” (2021).

A produção acertou também na trilha sonora dinâmica, que reúne composições originais de Nathan Matthew David e vozes de grandes artistas da música internacional e filipina. O destaque fica para o sucesso dos anos 1980 “Don’t You (Forget About Me)”, do Simple Minds, escolhido como tema do filme.

H.E.R. e Liza Soberano também interpretam as canções “BRB” e “Jerk in the Box”, além de faixas com BINI, Lea Salonga e Sophia Laforteza.


Um dos pontos negativos é o pouco aprofundamento na origem de alguns personagens secundários, como os novos amigos da dupla e os próprios vilões. Conhecer melhor suas histórias ajudaria a compreender seus comportamentos e motivações.

Ainda assim, “A Ilha Esquecida” é um filme vibrante, divertido e cheio de fantasia, mas que vai muito além da aventura. A mensagem final, forte e extremamente sensível, mostra como as amizades podem transformar vidas e permanecerem importantes mesmo quando tudo ao redor parece mudar.

Vale muito a pena ser conferido. E prepare o lenço: cai até um cisco no olho.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Joel Crawford e Januel Mercado
Produção: DreamWorks Animation, em parceria com a Snipple Animation
Distribuição: Universal Pictures Brasil
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h43
Classificação: 10 anos
País: EUA
Gêneros: animação, infantil, família

17 setembro 2026

"One Piece: O Grande Pirata do Ouro": o maior tesouro não está no baú

Anime é uma aventura complementar dentro da franquia, pela primeira vez com versão dublada em
português (Fotos: Paris Filmes)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
Depois do sucesso da série na Netflix, os piratas mais loucos do anime chegam dia 24 aos cinemas. "One Piece: O Grande Pirata do Ouro" ou "One Piece: O Filme", como também está sendo chamado, funciona praticamente como uma aventura complementar dentro da franquia, que não exige conhecimento da extensa cronologia.

Com versão inédita dublada em português, direção de Junji Shimizu e distribuição da Paris Filmes, não é preciso encarar mais de mil episódios da série ou conhecer a produção para acompanhar a história. Basta gostar de anime, piratas e aventura. E conferir a crítica da série no @cinemanoescurinho clicando no link https://tinyurl.com/yfsj88md


A trama parte da lenda de Woonan, um pirata que teria desaparecido levando consigo um terço de todo o ouro do mundo e escondendo o tesouro em uma ilha misteriosa. 

Anos depois, Luffy e sua tripulação entram nessa busca e acabam enfrentando Eldrago, um pirata que também deseja encontrar a fortuna e possui os poderes de uma Akuma no Mi (fruta sobrenatural do anime e mangá), capazes de transformar sua voz em ondas ultrassônicas.

O tesouro, porém, é apenas a superfície da história. Woonan funciona como uma figura lendária, semelhante ao próprio Gol D. Roger, mostrando como alguém pode continuar influenciando outras pessoas mesmo depois de desaparecer. 


A diferença está no que cada personagem faz com aquilo que recebe como legado. Woonan e Ganzo seguiram caminhos diferentes, e suas escolhas ajudam a mostrar que identidade não nasce pronta: ela também é construída pelas experiências, pelos vínculos e pelas decisões que tomamos.

Essa discussão ganha mais força através de Tobio. O menino possui uma relação de avô e neto com Ganzo e encontra nessa convivência uma referência de afeto, cuidado e família. Ao mesmo tempo, busca entender qual é o seu lugar no mundo. 

É justamente aí que o filme encontra seu ponto mais interessante: pertencimento não depende do lugar onde nascemos nem do que conseguimos possuir, mas das relações que construímos. Tobio não precisa do ouro de Woonan para saber quem é. Precisa sentir que pertence a algum lugar e que existe alguém disposto a caminhar ao seu lado.


A estrutura mais curta faz com que "One Piece: O Grande Pirata do Ouro" não tenha ação o tempo inteiro. As principais sequências acontecem no início e próximo ao final, enquanto boa parte da narrativa se dedica a apresentar a lenda e seus personagens. 

Para quem espera uma aventura acelerada, isso pode causar certa estranheza. Por outro lado, permite que a história trabalhe melhor temas como memória, legado e identidade.

O problema está justamente em alguns personagens que poderiam receber mais atenção. Eldrago é um vilão funcional, mas pouco desenvolvido. Sua obsessão pelo ouro e pelo poder aparece de maneira rápida, sem que o roteiro consiga explorar o que existe por trás dessa ambição. 


A luta contra Luffy, entretanto, compensa parte dessa fragilidade e ganha força nas sequências de ação, especialmente quando projetadas na tela grande.

No fim, "One Piece: O Grande Pirata do Ouro" está menos interessado no ouro do que parece. Woonan representa o legado de uma lenda; Ganzo, as consequências das escolhas; e Tobio, a necessidade de encontrar um lugar e pessoas que dêem sentido à própria existência. 

É uma aventura curta, divertida e acessível, que pode funcionar tanto para fãs da franquia quanto para quem está chegando agora. Porque, no fim das contas, talvez o maior tesouro de "One Piece" seja descobrir quem somos, de onde viemos e, principalmente, com quem queremos compartilhar a nossa jornada.


Mais novidades

Lançado originalmente em 2000 no Japão, “One Piece: O Grande Pirata do Ouro” é o primeiro longa-metragem animado da franquia dublado em português. A parceria entre a Paris Filme e a Toei Animation, produtora da série, prevê a exibição de outros dois nos cinemas ainda em 2026. 

Os próximos serão "One Piece: Aventura na Ilha Espiral", dia 22 de outubro, e "One Piece: O Reino de Chopper na Ilha dos Animais Estranhos", em 3 de dezembro. Em seguida, os três serão incorporados ao catálogo da Netflix.


Ficha técnica:
Direção: Junji Shimizu
Produção: Toei Animation
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 51 minutos
Classificação: 12 anos
País: Japão
Gêneros: animação, aventura, ação

15 setembro 2026

"Morte e Vida Madalena" homenageia a arte de fazer cinema, mas perde a graça em exageros e bizarrices

Comédia encontra graça naquilo que poderia dar errado, e celebra quem não desiste do que ama
(Fotos: Divulgação)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
São tantas as ideias, referências e intenções expostas - e implícitas - sobre o cinema em "Morte e Vida Madalena" que dificilmente o espectador vai conseguir digerir tudo e, realmente, curtir o filme, que estreia nesta quinta-feira nos cinemas.

Metalinguagem que pretende homenagear e celebrar a arte, o longa dirigido pelo cearense Guto Parente ("Estranho Caminho" - 2023), quase se perde em situações esdrúxulas e irreais, causando mais estranheza do que risos.


Madalena, interpretada por Noá Bonoba, é uma jovem produtora que acaba de perder o pai (Carlos Francisco), com quem ela aprendeu o ofício. Grávida de oito meses, ela decide levar adiante um filme B de ficção científica planejado por ele. 

Mas, como costuma acontecer, falta tudo nessa produção, de dinheiro a profissionais, de material a equipamentos. Junto com ela, está o ex-companheiro Davi (Marcus Curvelo), parcialmente envolvido na tarefa.

"O Futuro a Deus Pertence" é o nome do filme que Madalena e sua turma teimam em fazer, lutando contra tudo e todos. São tantas as dificuldades enfrentadas pela equipe que talvez o roteiro (do próprio diretor) tenha carregado nas tintas. 


Montada toda a tralha necessária para um set de filmagem, com barracas, profissionais, câmeras e trilhos, alguém dá o grito: Davi, o diretor sumiu. E o escolhido para o lugar dele é Oswaldo.

Interpretado por Tavinho Teixeira, o novo comandante da produção se acha um verdadeiro Stanley Kubrick. É um maluco, como todos comentam, "mas está tratado, analisado e medicado". 

Os cenários, que mais parecem cavernas lunares, os figurinos e maquiagens exageradas, acabam caindo na bizarrice, assim como as situações e cenas. Se a intenção era mostrar simplicidade, escassez e improvisos comuns em sets de filmagem, não parece ter sido uma boa ideia. 


Sobram esquisitices e o que fica são algumas tiradas (quase) engraçadas de membros da equipe e uma ou outra canção popular cantada pela equipe nas horas de folga, entre uma e outra cerveja. 

O elenco, formado por atores e atrizes pouco conhecidos no eixo Rio-São Paulo, conta ainda com Nataly Rocha como Natasha, Jenniffer Joingley como Jéssica, David Santos como Nonato, entre outros. 

Consta que algumas das situações vividas pela equipe do filme teriam sido inspiradas em apuros reais sofridos por Ticiana Augusto Lima, sócia do diretor Guto Parente. Pode ser. 

Fica nítida, ao final de "Morte e Vida Madalena" (ou seria de "O futuro a Deus pertence"?), a ideia de resistência dos criadores. Fazer cinema é para poucos mesmo. Mas há outras maneiras mais criativas de homenagear essa arte.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Guto Parente
Produção: Tardo Filmes, coprodução Canal Brasil
Distribuição: Embaúba Filmes
Exibição: Centro Cultural Unimed-BH Minas
Duração: 1h25
Classificação: 12 anos
Países: Brasil e Portugal
Gêneros: comédia dramática, ficção


14 setembro 2026

"Viva Marília": uma celebração que poderia revelar mais por trás da estrela

Documentário sobre Marília Pêra foi codirigido pela filha Esperança Motta
com roteiro do ex-marido Nelson Motta (Fotos: Acervo Pessoal/Marília Pêra)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
“Viva Marília” revisita a trajetória de uma das artistas mais versáteis da cultura brasileira. Em cartaz no Cine Belas Artes, o documentário é dirigido por Zelito Viana, com codireção da filha Esperança Motta e roteiro do ex-marido Nelson Motta. 

Narrado pela própria Marília Pêra, o filme percorre sua carreira por meio de entrevistas, cenas de filmes, novelas, espetáculos e programas de televisão, além de fotografias e registros de seu acervo pessoal. 

Produzido pela Mapa Filmes do Brasil tem coprodução de Globo Filmes, Globo News e Canal Brasil, com distribuição da Mapa Filmes e codistribuição da Bretz Filmes.


O resultado é também uma viagem por diferentes momentos do Brasil, acompanhando uma artista que atravessou décadas sem se limitar a uma única linguagem. Teatro, cinema, televisão, comédia, drama e musicais fizeram parte de uma trajetória marcada pela versatilidade e por mais de 80 prêmios.

Filha dos atores Manuel Pêra e Dinorah Marzullo, Marília cresceu cercada pelo teatro e aprendeu desde cedo os códigos do palco. Essa formação ajuda a entender uma carreira construída na capacidade de transitar entre diferentes personagens e linguagens. 


Mas sua história vai além do sucesso profissional. Durante a ditadura militar, esteve no elenco de “Roda Viva”, de Chico Buarque, espetáculo que sofreu uma invasão violenta em 1968. A agressão aos artistas tornou o palco também um espaço de resistência em um período marcado pela censura e pela repressão.

O documentário recupera ainda episódios que ajudam a dimensionar sua relação com outros nomes importantes da cultura brasileira, como Elis Regina, com quem disputou o papel principal do musical Como Vencer na Vida sem Fazer Força. 


Mais do que uma antiga disputa profissional, a história revela a admiração entre duas artistas que fizeram da presença em cena uma de suas principais marcas.

É justamente na maneira de contar essa história que está o principal problema de “Viva Marília”. O filme é extremamente chapa-branca e, ao optar quase sempre pela celebração, deixa pouco espaço para outras visões sobre a atriz. 

A condução da narrativa por Marília dá ao documentário um caráter íntimo, mas também limita os contrapontos. Faltam vozes capazes de tensionar a memória, questionar escolhas e apresentar outras perspectivas sobre a mulher e a profissional. 


Sua vida familiar, os três filhos — Ricardo Graça Mello, Esperança Motta e Nina Morena — e os diferentes relacionamentos que marcaram sua vida também aparecem de maneira bastante superficiais.

Ainda assim, o documentário cumpre um papel importante ao preservar a memória de uma artista que ajudou a construir o imaginário cultural brasileiro. As imagens de arquivo revelam não apenas a passagem do tempo, mas a transformação de Marília diante das câmeras e no palco. 

O problema é que em “Viva Marília” tudo é muito literal: a carreira é apresentada, os momentos importantes são recuperados e os personagens que fizeram parte dessa trajetória são lembrados, mas quase sempre falta o próximo passo — a reflexão. 


O filme poderia questionar mais, provocar mais e explorar as contradições de uma mulher e de uma artista tão complexa. Em vez disso, prefere reafirmar aquilo que já sabemos sobre Marília Pêra.

“Viva Marília” funciona, portanto, como um registro afetivo e uma oportunidade de reencontro com uma grande atriz, mas poderia ser muito mais. Ao transformar sua trajetória quase exclusivamente em celebração, o documentário acaba contando quem foi Marília Pêra, mas pouco se arrisca a perguntar quem ela foi de fato.


Ficha técnica:
Direção: Zelito Viana
Produção: Mapa Filmes do Brasil
Distribuição: Mapa Filmes, codistribuição Bretz Filmes
Exibição: Cine Belas Artes
Duração: 1h20
Classificação: livre
País: Brasil
Gênero: documentário

10 setembro 2026

"Homem-Aranha: Um Novo Dia" coloca Peter Parker diante do seu maior inimigo: a solidão

Quarto filme do super-herói amplia as conexões do personagem com outros núcleos do Universo Cinematográfico Marvel (Fotos: Sony Pictures)
 
 

Maristela Bretas


Em “Homem-Aranha: Um Novo Dia” (“Spider-Man: Brand New Day”), em cartaz nos cinemas, sob a direção de Destin Daniel Cretton, encontramos o Amigo da Vizinhança vivendo integralmente para defender Nova York. 

Quatro anos depois dos acontecimentos de “Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa” (2021), ninguém mais se lembra que ele é Peter Parker (novamente vivido por Tom Holland) — nem mesmo aqueles que mais amava.

Mas o pior para o super-herói é acompanhar de longe a vida da amada MJ (Zendaya) e do melhor amigo Ned Leeds (Jacob Batalon), que também não se lembram dele. 


Peter, agora adulto e mais maduro, tornou-se um Homem-Aranha mais experiente, sem perder o carisma e o jeito doce de bom menino que sempre o diferenciaram dos demais Vingadores.

Direcionando toda sua energia para o combate ao crime, ele passa a trabalhar ao lado da polícia e da detetive Jean DeWolff (Liza Colón-Zayas). A solidão e o afastamento das pessoas que ama, porém, começam a cobrar um preço alto.

O corpo e a mente do Homem-Aranha sofrem transformações que aumentam seus poderes, mas também provocam alterações de comportamento e agressividade, colocando em risco quem está ao seu redor. 


Tudo se complica com o surgimento de uma nova ameaça, capaz de controlar a mente das pessoas. É Jean Grey (Sadie Sink, de “Stranger Things”), uma jovem mutante com poderes que ainda não faz parte dos X-Men e sequer teve contato com o Professor Charles Xavier. 

Após um trauma familiar, ela procura respostas e acaba se tornando uma das adversárias mais perigosas já enfrentadas pelo herói.

Esse é um dos pontos positivos de “Homem-Aranha: Um Novo Dia”: o filme amplia as conexões do personagem com outros núcleos do Universo Cinematográfico Marvel. 
                      

Ao lado do Teioso aparecem Frank Castle, o Justiceiro (Jon Bernthal), Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo) e Yelena Belova/Viúva Negra (Florence Pugh), que acabam se tornando importantes aliados na batalha. 

O encontro com o Justiceiro, principalmente, dá ao longa um tom mais urbano e próximo das histórias de crime que fazem parte da origem do personagem nos quadrinhos.

No elenco também estão nomes conhecidos da franquia, como Marisa Tomei, novamente como tia May; Michael Mando, como Mac Gargan/Escorpião; e Tramell Tillman, como Bill Metzger, ligado ao Departamento de Controle de Danos. 



A trilha sonora é outro destaque. Michael Giacchino, responsável pelas partituras dos três filmes anteriores de Tom Holland como Homem-Aranha, retorna com uma composição que acompanha tanto a ação quanto o momento mais solitário de Peter. 

As músicas escolhidas ajudam a criar uma identidade mais urbana e contemporânea para o longa, com nomes como Tame Impala, Bad Bunny, TV on the Radio, Chaka Khan, Cannons e Steve Lacy.

Mais que um filme de super-herói, com teias, explosões, lutas, perseguições pelas ruas de Nova York e acrobacias no ar, “Homem-Aranha: Um Novo Dia” aposta no amadurecimento de Peter Parker e nas consequências de sua escolha de dedicar a vida ao combate ao crime. 


O personagem ganhou experiência, força e confiança como Homem-Aranha, mas perdeu justamente aquilo que fazia sua vida como Peter Parker valer a pena.

Em nenhum dos filmes anteriores do personagem a ideia de que "com grandes poderes vêm grandes responsabilidades" parece tão presente quanto aqui. 

Peter precisa entender que ser herói não significa abrir mão de tudo que o torna humano. Por trás da máscara ainda existe um homem que sente falta de ter amigos, de amar e de ser lembrado.


E é justamente aí que Tom Holland encontra um dos melhores momentos de sua atuação como Peter Parker. Mais solitário, cansado e emocionalmente machucado, ele mostra um herói que já não precisa aprender a balançar entre os prédios, mas ainda necessita descobrir como viver sem as pessoas que perdeu. O Homem-Aranha está mais forte. Peter Parker, nem tanto.

Mesmo sabendo que não pode simplesmente voltar ao passado, o público torce para que Peter encontre novamente seu caminho até MJ e consiga recuperar a amizade com Ned. Afinal, o Homem-Aranha pode viver sozinho por algum tempo, mas Peter Parker não precisa — e talvez nem consiga — continuar assim.


Como toda boa franquia que ainda movimenta multidões, o filme deixa portas abertas para novas aventuras. Até o momento, o longa arrecadou mundialmente mais de US$ 2,4 bilhões, tornando-se a terceira maior bilheteria da história do cinema. 

A cena pós-créditos reforça a promessa de que o Homem-Aranha voltará, enquanto a presença de personagens como a Viúva Negra, Hulk, Justiceiro e Jean Grey amplia ainda mais as possibilidades para o futuro do Universo Marvel.  

O longa também prepara terreno para acontecimentos maiores, como “Vingadores: Doomsday”, com estreia em dezembro de 2026, e “Vingadores: Guerras Secretas”, previsto para dezembro de 2027. Jean Grey ainda terá participação no novo filme dos X-Men, que deverá estrear em 2028.



No fim, “Homem-Aranha: Um Novo Dia” entrega aquilo que os fãs esperam — ação, humor, referências aos quadrinhos e grandes encontros —, mas ganha força justamente quando deixa as explosões de lado para mostrar a solidão de Peter. 

Porque, antes de ser um dos maiores heróis da Marvel, ele continua sendo um garoto que queria fazer a coisa certa.

Talvez esse seja o verdadeiro “novo dia” do título: não o nascimento de um novo Homem-Aranha, mas o começo de uma nova fase para Peter Parker, que finalmente precisa aprender que salvar o mundo não significa necessariamente abrir mão de ter uma vida. 

Para quem ainda não assistiu, este é um dos melhores filmes da franquia atual.


Ficha técnica:
Direção: Destin Daniel Cretton
Roteiro: Chris McKenna e Erik Sommers
Produção: Columbia Pictures, Sony Pictures Marvel Studios
Distribuição: Sony Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h30
Classificação: 12 anos
País: EUA
Gêneros: ação, aventura