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26 fevereiro 2026

"O Caso dos Estrangeiros": cinco histórias, países diferentes e a mesma busca sofrida por uma vida melhor

Longa é baseado em fatos reais sobre a fuga de refugiados de guerras, suas angústias e esperanças
(Fotos: Paris Filmes)
 
 

Maristela Bretas


A partir das memórias de uma ex-refugiada, "O Caso dos Estrangeiros" ("I Was a Stranger") consegue contar histórias entrelaçadas de refugiados, suas angústias, sofrimentos e esperanças de uma vida melhor. 

Baseado em fatos reais, o filme é um retrato emocionante de uma situação quase diária que acompanhamos pelos noticiários, contada por quem vive ou viveu este drama.

Uma crítica ao título em português: "O Caso dos Estrangeiros" ficou muito ruim e não condiz com as histórias dos personagens. A tradução mais correta seria "Eu era um estrangeiro” ou “Eu era uma pessoa estranha ou desconhecida”, expressões que se aplicariam melhor às condições e fatos narrados por eles.


A narrativa, com diálogos em inglês, árabe e grego, envolve cinco famílias de quatro países diferentes, cujas histórias vão se entrelaçando após uma tragédia, com cada personagem sendo apresentado em fragmentos que vão formar o quebra-cabeça. Aos poucos, o espectador vai entendendo o drama de cada um, como se conheceram e criaram laços. 

O longa é inspirado no curta-metragem “Refugee” (2020), também do diretor e roteirista Brandt Andersen. Tudo começa em abril de 2023, a partir das lembranças da síria Amira (Yasmine Al Massari) que mora e trabalha em um hospital de Chicago, nos EUA. 


É dela o primeiro caso - A Médica -, ocorrido oito anos antes, quando era uma das responsáveis pelo atendimento às vítimas da guerra em Aleppo, na Síria. Para ela, não importava de qual lado vinha a pessoa ferida: como médica, ela dispensava o mesmo esforço. 

O desgaste diário com o sofrimento diário causado pela guerra só quebrado pelas reuniões alegres, com cantorias, na casa dos pais. Até que o conflito chega ao seu lar e a obriga a fugir com a filha do país de forma ilegal.


Na segunda parte - O Soldado - o personagem é Mustafa Faris (Yahya Mahayni), um militar sírio que sempre foi fiel à causa e ao governo. Mas ele passa a questionar seu trabalho e seus superiores após presenciar atrocidades e desvios de conduta. 

A suposta guerra contra terroristas que haviam lhe contado era, na verdade, uma maneira de eliminar os inimigos do governo, não importando o sexo ou a idade do "acusado".


Omar Sy é O Traficante, terceiro personagem. Ele é Marwan, um homem poderoso que mantém uma rede de tráfico de refugiados de quem ele extrai todas as economias para tirá-los ilegalmente da Turquia. 

Essas pessoas, que vivem em acampamentos vigiados pelo exército, querem deixar o país em busca de uma vida melhor na Grécia. Em troca, o traficante oferece um bote inflável inseguro e superlotado, dividido com outras dezenas de emigrantes.

Ao mesmo tempo em que despreza seus "passageiros", Marwan demonstra um amor carinhoso e verdadeiro por seu filho pequeno. E promete ao garoto, um dia, se mudar com ele para os Estados Unidos, a terra das oportunidades. Omar Sy, como esperado, tem uma ótima atuação, mesmo nos momentos de total silêncio.


Entre os refugiados do acampamento militar está nosso quarto personagem - O Poeta - de nome Fathi, papel vivido por Ziad Bakri. Ele, a esposa e os três filhos tentam fugir do local e procuram Marwan para viabilizar a viagem, mesmo sendo a opção mais insegura e perigosa. 

É no embarque para a "Terra Prometida", que todos esses personagens acabam se conhecendo e vão viver o mesmo perigo da travessia insana pelo Mar Mediterrâneo durante uma forte tempestade. 


O quinto caso - O Capitão - concretiza a trama. Ele é Stravos (Constantine Markoulakis), comandante de um dos navios da Guarda Costeira grega que resgata diariamente milhares de refugiados que chegam ao país em botes. Seu maior drama é não ter conseguido salvar todos. Mesmo assim não desiste, colocando muitas vezes sua família em segundo plano.

O sofrimento, as perdas, as escolhas, o desejo de proteger suas famílias e a fé formam a trama de "O Caso dos Estrangeiros". Apesar de terem vidas diferentes, enfrentam traumas semelhantes que as levam até mesmo questionar sua fé em Deus. 

Um viés que a Angel Studios vem apostando há tempos ao entregar produções de cunho religioso, algumas boas, que não extrapolam na pregação convencional. Uma que recomendo para assistir em família e está em cartaz nos cinemas é a animação "Davi - Nasce um Rei".


Além de Omar Sy, as atuações de Yasmine Al Massari e dos personagens principais das demais etapas são muito boas e sustentam a narrativa. 

Outro destaque do longa é a fotografia em tons frios e muitas vezes escuros, ressaltando o dilema de cada um e o reforçando que o futuro pode ser sombrio e vai exigir confiança, persistência e esperança.

"O Caso dos Estrangeiros" não é apenas um protesto do diretor Brandt Andersen, mas também uma forma de mostrar ao mundo um problema que precisa ter um basta, para que as pessoas parem de sofrer tentando fugir de seus países. Infelizmente, a solução está longe de vir de forma pacífica. 


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Brandt Andersen
Produção: The Reel Foundation, Philistine Films, SpaceArt Entertainment, Karma Film Productions
Distribuição: Paris Filmes e Angel Studios
Exibição: Cinemark Patio Savassi
Duração: 1h44
Classificação: 16 anos
Países: Jordânia, Território Palestino Ocupado e EUA
Gênero: drama

25 fevereiro 2026

"A Miss" lança um olhar atual sobre o universo dos concursos de beleza

Dois gêmeos, dois desejos diferentes e uma mãe controladora que vive em função da imagem
(Fotos: Olhar Filmes)
 
 

Patrícia Cassese

 
"A Miss", primeiro longa-metragem da carreira do também dramaturgo e roteirista fluminense (nascido em São Gonçalo) Daniel Porto, cita, em seu título, um tema cuja abordagem serve de gancho para tratar assuntos na ordem do dia, como as questões de gênero. 

Passado no bairro carioca do Grajaú, o filme flagra uma família formada por Iêda (Helga Nemetik), uma mãe solo, endurecida pela vida, e seus dois filhos gêmeos, Martha (Maitê Padilha) e Alan (Pedro David), então com 17 anos. 


Na juventude, Iêda (o nome certamente é uma alusão a Ieda Maria Vargas, primeira brasileira a vencer o Miss Universo, em 1963, e falecida ano passado) participou, por influência da mãe, de concursos de beleza, o que, conscientemente ou não, a fez desejar que a filha (cujo nome faz referência a ícones como Martha Vasconcellos e Martha Rocha) siga o mesmo caminho. 

Ocorre que a adolescente não quer menos que maior distância possível desse mundo no qual a individualidade é solapada por ditames anacrônicos aos tempos atuais, como a magreza excessiva. Quem não se lembra da lenda das célebres duas polegadas a mais de Martha Rocha, que por anos pautou o imaginário do país? 


E é aí que entra em cena a solução inesperada para o impasse: em "A Miss", enquanto Martha tem repúdio por um mundo no qual a alimentação tem que ser regrada e a postura, perfeita, lapidada por caminhadas com livros sobre a cabeça; o personagem de Alan passa a externar seu fascínio por tudo o que cerca o universo do glamour feminino. 

E, assim, com o apoio de Athena (Alexandre Lino), que divide com Iêda a condução de um salão de beleza de bairro, Alan parte para encarar a etapa que vai escolher a representante do Grajaú rumo ao momento seguinte - a eleição da miss Rio de Janeiro. Uma artimanha que, diga-se de passagem, até dado momento, se desenrola sem conhecimento da mãe.


Apresentado, no material de divulgação enviado à imprensa, como uma "dramédia contemporânea que propõe um olhar sensível e bem-humorado sobre as relações familiares e a liberdade de ser quem se é", "A Miss" traz boas surpresas, como a voz (e a participação) da cantora Ellen de Lima, defendendo "A Canção das Misses", assim como um elenco visivelmente comprometido. 

No entanto, ao fim, fica a impressão de que a questão da identidade de Alan poderia ter sido mais trabalhada dentro da trama, dada a atualidade do tema. 

Outro ponto é que alguns momentos de intenção cômica não são efetivamente tão engraçados assim, portanto, poderiam ter sido limados na edição final, sem prejuízo da proposta como um todo - caso da ingestão de remédios para controlar a ansiedade ou da cena da ponta acesa de um cigarro.


Festivais

Em tempo: o material de apresentação do filme informa, ainda, que, antes de chegar ao circuito comercial brasileiro, "A Miss" foi exibido no Actrum International Film Festival (Espanha) e no 18º OMOVIES – Festival Internacional de Cinema LGBTQIA+ (Itália). 

Também integra a programação do 39º Queergestreift Film Festival Konstanz (Alemanha). O roteiro de "A Miss" foi desenvolvido no laboratório francês do Festival Varilux de Cinema Francês. A distribuição é da Olhar Filmes.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Daniel Porto
Distribuição: Olhar Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h45
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gêneros: drama, comédia

24 fevereiro 2026

Breve leitura dos documentários em curta-metragem do Oscar 2026

 
 

Marcos Tadeu

 
Os indicados ao Oscar de Melhor Documentário em Curta-Metragem deste ano mostram uma Academia de Artes e Ciências Cinematográficas cada vez mais próxima dos problemas do mundo real. 

No lugar de histórias "somente para distrair”, os filmes escolhidos falam de situações reais, que estão acontecendo agora na vida de pessoas de verdade. Isso já diz muito sobre o momento que a premiação vive: o Oscar também é um retrato do tempo atual. Confira os concorrentes, três deles já disponíveis em streaming:

"O Diabo Não Tem Descanso" (HBO Max) entra num tema pesado sem enrolação. O curta acompanha a equipe médica que garante a segurança de mulheres que buscam o aborto. São profissionais que vivem esse conflito todos os dias e a produção mostra o cansaço, o medo e a pressão constante. 

Não é um filme para agradar todo mundo e sim para provocar. Ele joga o espectador para dentro da realidade de quem está ali, tentando sobreviver e seguir em frente em meio a decisões difíceis. A obra é a mais cotada da categoria.

Ficha técnica
Direção:
Christalyn Hampton e Geeta Gandbhir
Duração: 31 minutos
Classificação: 12 anos
Exibição: HBO Max
País: EUA



"Quartos Vazios" (Netflix) escolhe falar por meio do silêncio. Um jornalista e um fotógrafo registram os quartos de crianças e adolescentes que morreram em ataques a escolas. O filme leva o espectador a sentir a falta dessas pessoas, mesmo sem conhecer suas histórias. Não tem choque visual, não tem discurso político direto, tem ausência, e a ausência pesa. É o tipo de obra que faz a dor parecer mais próxima, mais real, mais humana.

Ficha técnica
Direção:
Joshua Seftel
Duração: 33 minutos
Classificação: 12 anos
Exibição: Netflix
País: EUA


"Armado com uma Câmera: Vida e Morte de Brent Renaud" (HBO Max) lembra que por trás de cada imagem de guerra há alguém correndo risco para contar o que está acontecendo. O  documentário é uma homenagem do diretor ao seu irmão, Brent Renaud, o primeiro jornalista americano morto na Guerra da Ucrânia. Ele aproxima o público da figura deste profissional e faz pensar em como consumimos essas imagens no dia a dia, muitas vezes sem lembrar do custo humano que existe por trás delas.

Ficha técnica:
Direção:
Brent Renaud e Craig Renaud
Duração: 39 minutos
Classificação: 16 anos
Exibição: HBO Max 
País: EUA


"Children No More: Were and Are Gone" retrata um grupo de ativistas israelenses pela paz que realiza vigílias silenciosas semanais em Tel Aviv. Numa resistência silenciosa, eles seguram fotos de crianças palestinas mortas em Gaza. A produção foca nas reações no público às manifestações: indiferença, tristeza, negação e até violência contra as ativistas. Ainda não está disponível em streaming no Brasil.

Ficha técnica
Direção:
Hilla Medalia
Duração: 36 minutos
Classificação: 12 anos
Exibição: ainda sem previsão de chegar ao streaming do Brasil
País: a sociedade israelense


"Perfectly a Strangeness" - ambientado no deserto do Atacama, no Chile, o curta mostra a percepção do universo através da visão de três burros que descobrem um observatório astronômico abandonado. O filme explora o visual, mas se arrasta, mesmo com seus 15 minutos de duração. A abordagem é mais filosófica e intelectual, com longos silêncios, o que pode não agradar ao público em geral.

Ficha técnica
Direção e roteiro: Alison McAlpine
Duração: 15 minutos
Classificação: não informada
Exibição: ainda sem previsão de chegar ao streaming do Brasil
País: Canadá


Essa seleção mostra que a categoria de documentário de curta-metragem no Oscar se mantém como o espaço onde o cinema encara o mundo sem tanto filtro. São filmes que não querem só entreter: querem fazer sentir, pensar e, em alguns casos, até incomodar. 

A cerimônia do Oscar acontece dia 15 de março, em Los Angeles. Acompanhe com o Cinema no Escurinho.


17 fevereiro 2026

"Uma Batalha Após a Outra" escancara o patriotismo, o delírio e as feridas da imigração na América

Leonardo DiCaprio protagoniza um libertador acidental que tenta reacender a esperança em meio ao
colapso de seu país (Fotos: Warner Bros. Pictures)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
Com 13 indicações ao Oscar 2026, nove indicações ao Globo de Ouro e 14 ao Critics Choice Awards está em exibição na HBO Max um dos lançamentos mais aclamados do ano: "Uma Batalha Após a Outra" ("One Battle After Another"). 

A produção foi lançada na plataforma como parte do selo Do Cine pra HBO Max, responsável por levar as principais estreias do cinema para o streaming.

O novo filme de Paul Thomas Anderson, estrelado por Leonardo DiCaprio, Benicio Del Toro, Regina Hall, Teyana Taylor, Sean Penn, Alana Haim e Chase Infiniti, é uma mistura explosiva de ação, sátira política e drama social.


Na trama, Perfídia Beverly Hills (Teyana Taylor), uma revolucionária intensa, desaparece logo após dar à luz, deixando o companheiro Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio) responsável por criar a filha, Willa (Chase Infiniti). 

Anos depois, o temido Coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn) ressurge em busca de vingança e coloca pai e filha na mira.

Os dois são forçados a fugir, enfrentar verdades que sempre evitaram e aprender a confiar um no outro. Com a ajuda do misterioso Sensei Sérgio (Benicio Del Toro), embarcam em uma jornada que mistura adrenalina, conflitos sociais e um país prestes a desabar.


A obra mergulha de cabeça nas contradições dos Estados Unidos, esse lugar que se vende como “terra das oportunidades”, mas onde imigrantes vivem presos entre esperança e medo. 

Anderson transforma isso em narrativa: ali, ser imigrante é lutar duas vezes contra as dificuldades da vida e contra o preconceito de quem acredita que só “o americano de verdade” merece espaço. 

DiCaprio encarna um libertador acidental, alguém que tenta reacender a esperança em meio ao colapso. A ideia de revolução aparece como um grito contido, nascido do cansaço de quem percebe que o país só funciona para poucos.


O elenco brilha, especialmente na química entre DiCaprio e Chase Infiniti, que entregam momentos de pura sintonia. O ator vive um personagem dúbio, que oscila entre lucidez e loucura e é justamente nesse desequilíbrio que o filme encontra força. 

Ele brinca com o absurdo, faz piadas sobre o caos ao redor e, ao mesmo tempo, revela um homem movido por propósito. Teyana Taylor, Chase Infiniti e Regina Hall (Deandra) se destacam igualmente, sustentando a narrativa com intensidade e carisma.


No meio desse circo político, DiCaprio surge como o único que parece entender o tamanho da farsa. Enquanto os poderosos se vestem de generais e transformam o país numa caricatura, ele atravessa o caos com aquele olhar cansado de quem já entendeu que nada faz sentido. 

Seu personagem vira o guia involuntário do espectador, tenta ajudar, organizar, salvar, mas tudo ao redor é tão absurdo que sua lucidez vira quase cômica. Ele representa o americano que vê o sistema desmoronar, consciente demais para acreditar nas mentiras e cansado demais para ainda lutar contra elas.


Sean Penn, como o Coronel Lockjaw, é o retrato vivo do extremismo: um homem que acredita tanto na própria virilidade e patriotismo que não enxerga o vazio por trás disso. É uma mistura perigosa de insegurança, grosseria e ignorância vendida como coragem.  

O personagem expõe a base do preconceito e a incapacidade de lidar com a própria fragilidade. Ele é o símbolo da América que defende seus ideais com unhas e dentes, mesmo que isso signifique destruir tudo em nome deles.


O principal problema está no ritmo: há momentos que disparam e outros que se arrastam, especialmente quando o longa tenta equilibrar ação com discurso político. A crítica aos supremacistas brancos, embora necessária e poderosa, às vezes soa repetitiva e excessivamente explicativa, perdendo a sutileza que Anderson domina tão bem.

Mesmo assim, “Uma Batalha Após a Outra” é um dos filmes mais provocativos de 2025, uma obra para ver e rever, cada vez descobrindo novas camadas. 

Anderson entrega um retrato ácido e hilário da América contemporânea, cheia de contradições, egos e delírios. Um espelho incômodo de um país que insiste em lutar contra os próprios fantasmas.


Ficha técnica:
Direção: Paul Thomas Anderson
Produção: Warner Bros. Pictures
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: HBO Max
Duração: 2h42
Classificação: 16 anos
País: EUA
Gêneros: comédia, drama, ação

12 fevereiro 2026

“Quarto do Pânico”: suspense brasileiro aposta na tensão emocional para prender o espectador

Isis Valverde e Marianna Santos vivem mãe e filha neste thriller de suspense adaptado de um sucesso homônimo dos anos 2000 (Fotos: Floresta Produções)
 
 

Maristela Bretas

 
Mari (Isis Valverde) é uma mulher marcada por uma tragédia da violência urbana dos nossos dias. Ela e sua filha adolescente Bel (Marianna Santos), mudam-se para uma mansão luxuosa, equipada com um sistema de segurança de alta tecnologia e localizada em um condomínio fechado. 

O principal ambiente da casa é um espaço secreto, revestido de aço maciço e impenetrável, que só pode ser aberto por dentro, onde os moradores podem se esconder em caso de perigo. 

Quando supostos ladrões invadem a residência, mãe e filha se refugiam nesse cômodo, até descobrirem que é justamente ali que está escondido o que o trio de invasores - Charly (Marco Pigossi), Benito (André Ramiro) e Raul (Caco Ciocler) - deseja roubar.


Esta é a história de "Quarto do Pânico", filme dirigido por Gabriela Amaral Almeida, que chega nesta sexta-feira 13, no catálogo do Globoplay. O longa faz sua superestreia no sábado, dia 14, às 22 horas, no @Telecine Premium. No domingo (15) haverá reexibição, no Telecine Pipoca, às 20 horas.

Com roteiro de Fábio Mendes, a produção é uma adaptação brasileira do sucesso de 2002 dirigido por David Fincher e estrelado por Jodie Foster e Kristen Stewart. 

A versão original pode ser conferida nas plataformas de streaming Amazon Prime e HBO Max, por assinatura, ou na Apple TV, Youtube e Google Play Filmes por aluguel. Confira o trailer clicando aqui.


Neste remake, a trama é transportada para um contexto nacional, com fortes tensões, leituras sociais, uma estética que privilegia o suspense psicológico e um grande elenco, com que entrega excelentes atuações. 

Especialmente a jovem Marianna Santos, que assume a responsabilidade de interpretar o papel vivido na versão original por Kristen Stewart e começou muito bem.


A narrativa é claustrofóbica e tensa, prometendo deixar o espectador em suspense na maior parte da trama. Embora utilize a mesma base da história, o roteiro brasileiro reforça as questões pessoais, como a relação entre Mari e a adolescente Bel, que é diabética. 

A química entre Isis Valverde e Marianna Santos funciona bem, permitindo maior intensidade emocional nas cenas - resultado de um trabalho intenso fora do set de filmagens realizado pela experiente atriz com a jovem, como Isis contou em coletiva à imprensa.


Na mesma coletiva online, a diretora Gabriela Amaral Almeida explicou a questão da violência no filme. "O que nos interessava era entender a natureza da violência no nosso contexto, a violência urbana, de classe, de gênero. A casa invadida é também um corpo feminino violado”. 

O roteirista Fábio Mendes reforça a necessidade de criar um thriller mais próximo da realidade brasileira, cuja “violência urbana crescente tem isolado cada vez mais as pessoas”.

Cabe aos invasores, com seus perfis e motivações totalmente diferentes, imprimir a dinâmica necessária ao filme, criando o clima psicológico de ameaça constante que vai levar ao confronto entre vítimas e algozes. 


Destaque para as atuações de Marco Pigossi e André Benito, que ressaltou a importância de seu personagem como o coração do trio, aquele que estava cometendo um crime por um motivo familiar. 

O elenco conta ainda com Leopoldo Pacheco, Dudu de Oliveira, Wesley Andrade, Felipe Martins, Clarissa Kiste, Carlos Morelli.

Em alguns momentos, no entanto, a narrativa fica um pouco superficial quando comparada à versão dirigida por David Fincher. Há também certos furos, como a entrada de três suspeitos, sem autorização do morador, em um local que deveria apresentar controle de segurança redobrado.


As cenas de confronto físico não convencem totalmente, apesar do bom desempenho dos atores principais e de alguns exageros pontuais. Já a conclusão apressada acaba prejudicando a estratégia de força e tensão que construída ao longo do filme. 

Mesmo assim, a versão brasileira de "Quarto do Pânico" é uma produção bem elaborada, que aposta nas relações pessoais de seus personagens e na força emocional que elas conferem à trama. Soma-se a isso a qualidade dos efeitos visuais de qualidade e uma trilha sonora bem escolhida. Vale à pena conferir.


Ficha técnica:
Direção: Gabriela Amaral Almeida
Roteiro adaptado: Fábio Mendes
Produção: Floresta Produções
Distribuição: Sony Pictures Television
Exibição: Telecine
Duração: 1h38
Classificação: 16 anos
País: Brasil
Gênero: suspense
Nota: 4 (0 a 5)



09 fevereiro 2026

"O Morro dos Ventos Uivantes" - fotografia exuberante para uma adaptação diferente e sexualizada

Margot Robbie e Jacob Elordi são os protagonistas dessa história de amor impossível e possessivo,
adaptada do clássico literário escrito por Emily Brontë (Fotos: Warner Bros. Pictures) 
 
 

Maristela Bretas

 
A nova versão do clássico literário "O Morro dos Ventos Uivantes" ("Wuthering Heights"), de Emily Brontë, dirigida pela vencedora do Oscar de 2021, Emerald Fennell ("Bela Vingança" - 2020) e estrelada por Margot Robbie (Catherine/Cathy Earnshaw) e Jacob Elordi (Heathcliff), tem uma belíssima fotografia, mas falha em vários quesitos

O longa, que entra em cartaz nos cinemas nesta quinta-feira (12), vem acumulando críticas das mais variadas há dois anos desde que foi anunciado, muitas delas não muito positivas. 

Especialmente pela escolha do casal e a narrativa adotada por Emerald, também roteirista, que afirmou que "estava contando a maior história de amor de todos os tempos de outra forma". 


Uma versão mais sexualizada, explorando pontos mais picantes do romance escrito em 1847 que não haviam sido abordados em outras versões. Um bom exemplo é a frase "Be with me always - take any form - drive me mad" (na tradução "Esteja sempre comigo - assuma qualquer forma - me enlouqueça"). A mudança, no entanto, pode desagradar alguns fãs do clássico.

O filme continua contando a história de Catherine/Cathy Earnshaw e Heathcliff, o órfão adotado pelo pai dela, que nutrem, desde a infância, uma louca paixão não resolvida que segue até a fase adulta. 


Mas Cathy faz de Heathcliff um brinquedo, mesmo sendo apaixonada pelo jovem, que morreria por ela. Do amor juvenil à obsessão, este romance, que se passa no século XIX, vai destruir a vida de ambos.

Ao querer uma vida de luxo e riqueza, Catherine acaba se casando com o vizinho aristocrata Edgar Linton (Shazad Latif) e afasta Heathcliff de sua vida por considerá-lo inferior. Ele vai embora e retorna tempos depois em busca de vingança contra as famílias Earnshaw e Linton. 

Sua volta, no entanto, torna a paixão do casal violenta e obsessiva, provocando o declínio de ambos e de todos ao seu redor.


A narrativa é lenta, sem brilho (exceto pelo figurino da atriz), se prende a momentos de sexo para abordar o "amor impossível" dos jovens. Com isso, deixa "buracos" que desagradam. 

Cathy é o exemplo da aristocracia vitoriana que, mesmo falida, trata Heathcliff como seu "bichinho de estimação" (palavras do pai dela no filme), apesar do amor que sente por ele, mas não assume. 

Outro furo foi o destino de Heathcliff após deixar a fazenda: ele sai da casa de Cathy na condição de empregado quase escravo, e volta rico. O que fez nesse tempo que passou longe? Como conseguiu melhorar tanto de vida? Apenas uma argola na orelha deixa a indicar que se tornou um pirata (será?). 


Margot Robbie entrega uma ótima atuação de garota mimada (quase uma "Barbie" vitoriana com trajes exóticos), mas foge completamente da idade da personagem literária, que era uma adolescente e mais nova que Heathcliff. No filme, ela aparenta ser mais velha que ele (e é, na verdade, sete anos). 

Situação semelhante à do personagem de Jacob Elordi ("Frankenstein" - 2025), que tem uma atuação mediana, sem brilho nem fúria nos olhos, mesmo nos momentos intensos de paixão desenfreada. Como em outras mais de dez adaptações do clássico, Heathcliff é branco, quando deveria ser um jovem cigano negro ou mestiço. 


O mesmo aconteceu com a versão de 1939, com Laurence Olivier e Merle Oberon, dirigida por William Wyller. Não foi a primeira para o cinema, mas é a mais famosa e faturou o Oscar daquele ano como Melhor Fotografia/Preto e Branco. 

Se Emerald Fennell depender da fotografia, o Oscar pode vir e será muito merecido. O excelente trabalho com as imagens envolve e segura o filme, especialmente nos cenários abertos. 

Algumas cenas poderiam ser menores, ficam cansativas às vezes e esticam o filme para uma duração de 2h16 desnecessária pela abordagem adotada.


O elenco coadjuvante entrega boas atuações, especialmente Hong Chau, como Nelly Dean, governanta de Cathy. Assim como os jovens Owen Cooper (da série "Adolescência" - 2025) e Charlotte Mellington, que interpretam Heathcliff e Catherine jovens, Alison Oliver, como Isabella Linton, e Martin Clunes, como o pai de Cathy.

Já a trilha sonora original apresenta 12 músicas de Charli XCX com estilos bem provocativos e sensuais, como a dark "House", em parceria de John Cale, a potente "Chains of Love" e a envolvente "Wall of Sound", tocada em momentos especiais dos protagonistas.

"O Morro dos Ventos Uivantes" é um romance dramático que atravessa gerações atraindo milhares de seguidores que ainda vêm na obra escrita por Emily Brontë um modelo de amor impossível que só aumentou com o passar dos anos.


Se escrito hoje seria tema de discussões acaloradas pela relação passional e tóxica, marcada por violência, ciúme, racismo e diferença de classes sociais. E como no filme, só poderia acabar em tragédia. 

Agora é saber se o orçamento de US$ 80 milhões dessa nova adaptação será compensado pela bilheteria, garantindo mais um sucesso para a diretora. Especialmente porque a produtora LuckyChap, da atriz Margot Robbie, recusou uma oferta de US$ 150 milhões feita pela Netflix para que o longa fosse lançado nos cinemas em vez de ir direto para o streaming.

Particularmente, a fotografia foi o que mais me agradou. Assista e comente aqui o que achou.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Emerald Fennell
Produção: Media Rights Capital (MRC), LuckyChap Entertainment, Lie Still
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h16
Classificação: 16 anos
País: EUA
Gêneros: drama, romance

07 fevereiro 2026

"Sonhos de Trem": a fotografia encanta, mas o conflito não chega

Longa dirigido por Clint Bentley se ancora em uma abordagem existencial que privilegia como elementos centrais o silêncio, a contemplação e o tempo (Fotos: Netflix)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
"Sonhos de Trem" ("Train Dreams") é um filme visualmente belo, sensível e cuidadosamente construído, mas que encontra dificuldades em sustentar dramaticamente sua própria proposta. 

Concorrendo ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Fotografia, esta última assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso, o longa dirigido por Clint Bentley e exibido na Netflix, se ancora em uma abordagem existencial que privilegia o silêncio, a contemplação e o tempo como elementos centrais da narrativa.

A famosa frase “ser ou não ser, eis a questão” resume bem os conflitos internos que atravessam o filme. Aqui, a dúvida não se manifesta em grandes diálogos ou decisões explícitas, mas na maneira como o protagonista ocupa o mundo. 


A trama acompanha Robert Grainier, interpretado por Joel Edgerton, um trabalhador ferroviário que, no início do século XX, tenta levar uma vida simples como lenhador em meio às rápidas transformações dos Estados Unidos. 

Ao longo do caminho, Robert vivencia o amor, a perda e a solidão, construindo uma existência marcada pela resistência silenciosa e pelas marcas deixadas pelo tempo. Edgerton sustenta o filme com uma atuação contida e introspectiva, baseada mais em gestos e silêncios do que em palavras.


A fotografia de Adolpho Veloso é o grande destaque do longa. Seu olhar contemplativo transforma paisagens naturais, relações de trabalho, a vida familiar e pequenos acontecimentos cotidianos em imagens de forte carga simbólica. Cada enquadramento convida o espectador à observação e à reflexão, reforçando o caráter introspectivo da obra.

No entanto, é justamente nessa aposta radical na contemplação que o filme encontra seu principal problema. O ritmo extremamente lento, quase hipnótico, como o movimento constante de um trem, pode afastar parte do público. 


O elenco de apoio reforça a atmosfera melancólica, ainda que seja pouco explorado dramaticamente. Felicity Jones, como Gladys Grainier, traz delicadeza e humanidade à relação afetiva do protagonista, enquanto Kerry Condon adiciona nuances emocionais importantes nos encontros que pontuam a jornada de Robert. 

William H. Macy e Clifton Collins Jr. surgem como figuras que ajudam a contextualizar o ambiente de trabalho e as relações sociais da época, mas seus personagens acabam funcionando mais como presença simbólica do que como agentes de transformação narrativa.

Tecnicamente, o filme apresenta qualidades inegáveis. A trilha sonora de Bryce Dessner desempenha papel fundamental ao desenhar o estado emocional do protagonista, alternando entre tons intimistas e momentos mais amplos, quase épicos, sem romper a delicadeza do conjunto. 


A narrativa carece de conflitos mais consistentes e de acontecimentos que provoquem mudanças significativas no protagonista. Há situações específicas que poderiam funcionar como pontos de virada, mas elas não são plenamente desenvolvidas. 

Da mesma forma, os personagens ao redor de Robert Grainier não recebem aprofundamento suficiente para ampliar o impacto emocional da história.

Temas como luto, solidão, reflexão e o aprendizado de viver conduzem a narrativa e conferem ao filme uma melancolia constante. Essa força temática transforma "Sonhos de Trem" em uma experiência sensível e, em muitos momentos, tocante. Ainda assim, ao final, permanece a sensação de que falta algo. 


A conclusão, embora coerente com o tom existencial proposto, soa mais triste do que transformadora, deixando a impressão de uma jornada que observa muito, mas se arrisca pouco dramaticamente.

Em síntese, "Sonhos de Trem" é um drama de época elegante e tecnicamente refinado, que se destaca pela fotografia, pela trilha sonora e pelas atuações contidas de seu elenco, liderado por Joel Edgerton. 

Ao mesmo tempo, tropeça na ausência de conflitos mais claros e em um desenvolvimento narrativo limitado. É um filme que convida à contemplação e à introspecção, mas pode frustrar quem busca maior densidade dramática ou uma evolução mais marcante de seus personagens. 

Bonito, sensível e silencioso, o longa permanece mais como uma experiência estética do que como uma narrativa plenamente envolvente.


Ficha técnica:
Direção: Clint Bentley
Exibição: Netflix
Duração: 1h43
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gênero: drama

05 fevereiro 2026

"Zafari" é visceral e socialmente selvagem

As cenas são um olhar prolongado sobre o que acontece quando a escassez redefine valores
(Fotos: Vitrine Filmes)
 
 

Silvana Monteiro

 
Em "Zafari", tudo começa com um gesto simples: olhar pela janela. A família observa o hipopótamo recém-chegado ao jardim zoológico vizinho e, sem perceber, passa a medir o tempo pela permanência daquele corpo pesado, quase imóvel, que ocupa o quadro dia após dia, sem pressa.

Lá fora, o animal tem cuidadores e atenção, enquanto dentro das casas, as famílias vivem a falta de tudo, inclusive de paz e equilíbrio. 

A narrativa não se apoia em uma história que avança por viradas claras. O que se constrói é um ambiente. Em uma Caracas atravessada pela falta de comida, água e energia, o hipopótamo vira um ponto de atenção. 

Em meio à escassez generalizada, Zafari é o único que ainda tem o suficiente. Esse detalhe, aparentemente banal, desorganiza tudo.


Ana, a mãe, percorre o prédio decadente em busca de alimento nos apartamentos abandonados. O edifício, que já foi símbolo de conforto, agora funciona entre ruídos e sombras de vidas sem perspectivas. 

À medida que o filme avança, a aflição da falta é vista no rosto dos personagens, enquanto que o animal está ali à espera de ser alimentado e viver plenamente. 


A chegada do hipopótamo, que no início unia os vizinhos em torno de um acontecimento raro, passa a evidenciar fraturas antigas. As diferenças de classe deixam de ser pano de fundo e se tornam conflito direto. 

O animal, sempre observado à distância, passa a ocupar o centro das tensões humanas.

O ritmo lento pode afastar quem espera um enredo mais evidente, mas ele faz sentido dentro da proposta do filme. "Zafari" não traz uma história óbvia que prende de imediato o telespectador. 


As cenas são um olhar prolongado sobre o que acontece quando a escassez redefine valores e quando a convivência entre humanos e animais deixa de ser contemplativa para se tornar brutal. 

E deixa óbvio que quando a luta por sobrevivência dos humanos é visceral, quem paga caro são os animais. Excelente fotografia, uma ótima sonoplastia e uma atuação impecável de Daniela Ramirez.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Mariana Rondón
Produção: Sudaca Films, Paloma Negra Films, Klaxon Cultura Audiovisual, Still Moving, Quijote Films
Distribuição: Vitrine Filmes
Duração: 1h40
Classificação: 12 anos

Países: Brasil, Venezuela, Peru, México, França, Chile e República Dominicana
Gêneros: drama, ficção