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09 fevereiro 2026

"O Morro dos Ventos Uivantes" - fotografia exuberante para uma adaptação diferente e sexualizada

Margot Robbie e Jacob Elordi são os protagonistas dessa história de amor impossível e possessivo,
adaptada do clássico literário escrito por Emily Brontë (Fotos: Warner Bros. Pictures) 
 
 

Maristela Bretas

 
A nova versão do clássico literário "O Morro dos Ventos Uivantes" ("Wuthering Heights"), de Emily Brontë, dirigida pela vencedora do Oscar de 2021, Emerald Fennell ("Bela Vingança" - 2020) e estrelada por Margot Robbie (Catherine/Cathy Earnshaw) e Jacob Elordi (Heathcliff), tem uma belíssima fotografia, mas falha em vários quesitos

O longa, que entra em cartaz nos cinemas nesta quinta-feira (12), vem acumulando críticas das mais variadas há dois anos desde que foi anunciado, muitas delas não muito positivas. 

Especialmente pela escolha do casal e a narrativa adotada por Emerald, também roteirista, que afirmou que "estava contando a maior história de amor de todos os tempos de outra forma". 


Uma versão mais sexualizada, explorando pontos mais picantes do romance escrito em 1847 que não haviam sido abordados em outras versões. Um bom exemplo é a frase "Be with me always - take any form - drive me mad" (na tradução "Esteja sempre comigo - assuma qualquer forma - me enlouqueça"). A mudança, no entanto, pode desagradar alguns fãs do clássico.

O filme continua contando a história de Catherine/Cathy Earnshaw e Heathcliff, o órfão adotado pelo pai dela, que nutrem, desde a infância, uma louca paixão não resolvida que segue até a fase adulta. 


Mas Cathy faz de Heathcliff um brinquedo, mesmo sendo apaixonada pelo jovem, que morreria por ela. Do amor juvenil à obsessão, este romance, que se passa no século XIX, vai destruir a vida de ambos.

Ao querer uma vida de luxo e riqueza, Catherine acaba se casando com o vizinho aristocrata Edgar Linton (Shazad Latif) e afasta Heathcliff de sua vida por considerá-lo inferior. Ele vai embora e retorna tempos depois em busca de vingança contra as famílias Earnshaw e Linton. 

Sua volta, no entanto, torna a paixão do casal violenta e obsessiva, provocando o declínio de ambos e de todos ao seu redor.


A narrativa é lenta, sem brilho (exceto pelo figurino da atriz), se prende a momentos de sexo para abordar o "amor impossível" dos jovens. Com isso, deixa "buracos" que desagradam. 

Cathy é o exemplo da aristocracia vitoriana que, mesmo falida, trata Heathcliff como seu "bichinho de estimação" (palavras do pai dela no filme), apesar do amor que sente por ele, mas não assume. 

Outro furo foi o destino de Heathcliff após deixar a fazenda: ele sai da casa de Cathy na condição de empregado quase escravo, e volta rico. O que fez nesse tempo que passou longe? Como conseguiu melhorar tanto de vida? Apenas uma argola na orelha deixa a indicar que se tornou um pirata (será?). 


Margot Robbie entrega uma ótima atuação de garota mimada (quase uma "Barbie" vitoriana com trajes exóticos), mas foge completamente da idade da personagem literária, que era uma adolescente e mais nova que Heathcliff. No filme, ela aparenta ser mais velha que ele (e é, na verdade, sete anos). 

Situação semelhante à do personagem de Jacob Elordi ("Frankenstein" - 2025), que tem uma atuação mediana, sem brilho nem fúria nos olhos, mesmo nos momentos intensos de paixão desenfreada. Como em outras mais de dez adaptações do clássico, Heathcliff é branco, quando deveria ser um jovem cigano negro ou mestiço. 


O mesmo aconteceu com a versão de 1939, com Laurence Olivier e Merle Oberon, dirigida por William Wyller. Não foi a primeira para o cinema, mas é a mais famosa e faturou o Oscar daquele ano como Melhor Fotografia/Preto e Branco. 

Se Emerald Fennell depender da fotografia, o Oscar pode vir e será muito merecido. O excelente trabalho com as imagens envolve e segura o filme, especialmente nos cenários abertos. 

Algumas cenas poderiam ser menores, ficam cansativas às vezes e esticam o filme para uma duração de 2h16 desnecessária pela abordagem adotada.


O elenco coadjuvante entrega boas atuações, especialmente Hong Chau, como Nelly Dean, governanta de Cathy. Assim como os jovens Owen Cooper (da série "Adolescência" - 2025) e Charlotte Mellington, que interpretam Heathcliff e Catherine jovens, Alison Oliver, como Isabella Linton, e Martin Clunes, como o pai de Cathy.

Já a trilha sonora original apresenta 12 músicas de Charli XCX com estilos bem provocativos e sensuais, como a dark "House", em parceria de John Cale, a potente "Chains of Love" e a envolvente "Wall of Sound", tocada em momentos especiais dos protagonistas.

"O Morro dos Ventos Uivantes" é um romance dramático que atravessa gerações atraindo milhares de seguidores que ainda vêm na obra escrita por Emily Brontë um modelo de amor impossível que só aumentou com o passar dos anos.


Se escrito hoje seria tema de discussões acaloradas pela relação passional e tóxica, marcada por violência, ciúme, racismo e diferença de classes sociais. E como no filme, só poderia acabar em tragédia. 

Agora é saber se o orçamento de US$ 80 milhões dessa nova adaptação será compensado pela bilheteria, garantindo mais um sucesso para a diretora. Especialmente porque a produtora LuckyChap, da atriz Margot Robbie, recusou uma oferta de US$ 150 milhões feita pela Netflix para que o longa fosse lançado nos cinemas em vez de ir direto para o streaming.

Particularmente, a fotografia foi o que mais me agradou. Assista e comente aqui o que achou.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Emerald Fennell
Produção: Media Rights Capital (MRC), LuckyChap Entertainment, Lie Still
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h16
Classificação: 16 anos
País: EUA
Gêneros: drama, romance

07 fevereiro 2026

"Sonhos de Trem": a fotografia encanta, mas o conflito não chega

Longa dirigido por Clint Bentley se ancora em uma abordagem existencial que privilegia como elementos centrais o silêncio, a contemplação e o tempo (Fotos: Netflix)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
"Sonhos de Trem" ("Train Dreams") é um filme visualmente belo, sensível e cuidadosamente construído, mas que encontra dificuldades em sustentar dramaticamente sua própria proposta. 

Concorrendo ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Fotografia, esta última assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso, o longa dirigido por Clint Bentley e exibido na Netflix, se ancora em uma abordagem existencial que privilegia o silêncio, a contemplação e o tempo como elementos centrais da narrativa.

A famosa frase “ser ou não ser, eis a questão” resume bem os conflitos internos que atravessam o filme. Aqui, a dúvida não se manifesta em grandes diálogos ou decisões explícitas, mas na maneira como o protagonista ocupa o mundo. 


A trama acompanha Robert Grainier, interpretado por Joel Edgerton, um trabalhador ferroviário que, no início do século XX, tenta levar uma vida simples como lenhador em meio às rápidas transformações dos Estados Unidos. 

Ao longo do caminho, Robert vivencia o amor, a perda e a solidão, construindo uma existência marcada pela resistência silenciosa e pelas marcas deixadas pelo tempo. Edgerton sustenta o filme com uma atuação contida e introspectiva, baseada mais em gestos e silêncios do que em palavras.


A fotografia de Adolpho Veloso é o grande destaque do longa. Seu olhar contemplativo transforma paisagens naturais, relações de trabalho, a vida familiar e pequenos acontecimentos cotidianos em imagens de forte carga simbólica. Cada enquadramento convida o espectador à observação e à reflexão, reforçando o caráter introspectivo da obra.

No entanto, é justamente nessa aposta radical na contemplação que o filme encontra seu principal problema. O ritmo extremamente lento, quase hipnótico, como o movimento constante de um trem, pode afastar parte do público. 


O elenco de apoio reforça a atmosfera melancólica, ainda que seja pouco explorado dramaticamente. Felicity Jones, como Gladys Grainier, traz delicadeza e humanidade à relação afetiva do protagonista, enquanto Kerry Condon adiciona nuances emocionais importantes nos encontros que pontuam a jornada de Robert. 

William H. Macy e Clifton Collins Jr. surgem como figuras que ajudam a contextualizar o ambiente de trabalho e as relações sociais da época, mas seus personagens acabam funcionando mais como presença simbólica do que como agentes de transformação narrativa.

Tecnicamente, o filme apresenta qualidades inegáveis. A trilha sonora de Bryce Dessner desempenha papel fundamental ao desenhar o estado emocional do protagonista, alternando entre tons intimistas e momentos mais amplos, quase épicos, sem romper a delicadeza do conjunto. 


A narrativa carece de conflitos mais consistentes e de acontecimentos que provoquem mudanças significativas no protagonista. Há situações específicas que poderiam funcionar como pontos de virada, mas elas não são plenamente desenvolvidas. 

Da mesma forma, os personagens ao redor de Robert Grainier não recebem aprofundamento suficiente para ampliar o impacto emocional da história.

Temas como luto, solidão, reflexão e o aprendizado de viver conduzem a narrativa e conferem ao filme uma melancolia constante. Essa força temática transforma "Sonhos de Trem" em uma experiência sensível e, em muitos momentos, tocante. Ainda assim, ao final, permanece a sensação de que falta algo. 


A conclusão, embora coerente com o tom existencial proposto, soa mais triste do que transformadora, deixando a impressão de uma jornada que observa muito, mas se arrisca pouco dramaticamente.

Em síntese, "Sonhos de Trem" é um drama de época elegante e tecnicamente refinado, que se destaca pela fotografia, pela trilha sonora e pelas atuações contidas de seu elenco, liderado por Joel Edgerton. 

Ao mesmo tempo, tropeça na ausência de conflitos mais claros e em um desenvolvimento narrativo limitado. É um filme que convida à contemplação e à introspecção, mas pode frustrar quem busca maior densidade dramática ou uma evolução mais marcante de seus personagens. 

Bonito, sensível e silencioso, o longa permanece mais como uma experiência estética do que como uma narrativa plenamente envolvente.


Ficha técnica:
Direção: Clint Bentley
Exibição: Netflix
Duração: 1h43
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gênero: drama

05 fevereiro 2026

"Zafari" é visceral e socialmente selvagem

As cenas são um olhar prolongado sobre o que acontece quando a escassez redefine valores
(Fotos: Vitrine Filmes)
 
 

Silvana Monteiro

 
Em "Zafari", tudo começa com um gesto simples: olhar pela janela. A família observa o hipopótamo recém-chegado ao jardim zoológico vizinho e, sem perceber, passa a medir o tempo pela permanência daquele corpo pesado, quase imóvel, que ocupa o quadro dia após dia, sem pressa.

Lá fora, o animal tem cuidadores e atenção, enquanto dentro das casas, as famílias vivem a falta de tudo, inclusive de paz e equilíbrio. 

A narrativa não se apoia em uma história que avança por viradas claras. O que se constrói é um ambiente. Em uma Caracas atravessada pela falta de comida, água e energia, o hipopótamo vira um ponto de atenção. 

Em meio à escassez generalizada, Zafari é o único que ainda tem o suficiente. Esse detalhe, aparentemente banal, desorganiza tudo.


Ana, a mãe, percorre o prédio decadente em busca de alimento nos apartamentos abandonados. O edifício, que já foi símbolo de conforto, agora funciona entre ruídos e sombras de vidas sem perspectivas. 

À medida que o filme avança, a aflição da falta é vista no rosto dos personagens, enquanto que o animal está ali à espera de ser alimentado e viver plenamente. 


A chegada do hipopótamo, que no início unia os vizinhos em torno de um acontecimento raro, passa a evidenciar fraturas antigas. As diferenças de classe deixam de ser pano de fundo e se tornam conflito direto. 

O animal, sempre observado à distância, passa a ocupar o centro das tensões humanas.

O ritmo lento pode afastar quem espera um enredo mais evidente, mas ele faz sentido dentro da proposta do filme. "Zafari" não traz uma história óbvia que prende de imediato o telespectador. 


As cenas são um olhar prolongado sobre o que acontece quando a escassez redefine valores e quando a convivência entre humanos e animais deixa de ser contemplativa para se tornar brutal. 

E deixa óbvio que quando a luta por sobrevivência dos humanos é visceral, quem paga caro são os animais. Excelente fotografia, uma ótima sonoplastia e uma atuação impecável de Daniela Ramirez.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Mariana Rondón
Produção: Sudaca Films, Paloma Negra Films, Klaxon Cultura Audiovisual, Still Moving, Quijote Films
Distribuição: Vitrine Filmes
Duração: 1h40
Classificação: 12 anos

Países: Brasil, Venezuela, Peru, México, França, Chile e República Dominicana
Gêneros: drama, ficção

04 fevereiro 2026

“Matriz de Arte & Fé" – documentário conta a história e o esplendor da Matriz de Santo Antônio de Santa Bárbara

Filme foi viabilizado por meio da Lei Paulo Gustavo e nasce também de uma relação pessoal do diretor
com a cidade (Fotos: Divulgação)
 
 

Da Redação

 
A Matriz de Santa Bárbara, em Minas Gerais, acaba de ganhar um documentário especial: “Matriz de Arte & Fé – A História e o Esplendor da Matriz de Santo Antônio de Santa Bárbara”, que vai contar a trajetória e os aspectos artísticos e culturais desta importante igreja mineira do período Barroco. 

O lançamento será nos dias 7 e 8 de fevereiro, às 20 horas, no Cine Vitória, espaço histórico da cidade que hoje abriga a Câmara Municipal de Santa Bárbara. A entrada será gratuita, com vagas limitadas. 

Os ingressos poderão ser reservados clicando no linkA partir do dia 09/02, o filme estará disponível gratuitamente no site: https://matrizartefe.com.br


Com 30 minutos de duração, o documentário, primeira obra da produtora mineira Thema Audiovisual, articula pesquisa histórica e entrevistas com especialistas para refletir sobre o papel simbólico, cultural e artístico da Matriz ao longo do tempo e sua permanência na vida da cidade.

Segundo Bruno dos Anjos, diretor do documentário e da Thema Audiovisual, a produção se mostrou muito interessante desde a etapa de pesquisa. "O período histórico em que a Igreja Matriz de Santo Antônio foi construída, assim como seus símbolos e elementos artísticos, remetem a uma era fundamental da formação cultural de Minas Gerais".


O filme foi viabilizado por meio da Lei Paulo Gustavo, a partir de edital da Prefeitura de Santa Bárbara, e nasce também de uma relação pessoal de Bruno dos Anjos com a cidade. "Por ser santabarbarense, o projeto é uma tentativa de projetar um pouco do encantamento que esse templo exerceu sobre mim desde a infância — especialmente a pintura atribuída a Manuel da Costa Ataíde, um dos principais nomes da arte colonial brasileira".

O processo de produção envolveu pesquisa histórica, levantamento iconográfico, gravações e entrevistas com pesquisadores e professores da UFMG que são referência na área. "Um dos principais desafios foi organizar esse material de modo a construir uma narrativa cinematográfica, já que a proposta era realizar um filme, e não um conteúdo didático ou uma videoaula", explica Bruno dos Anjos.


   

A produção se desenvolveu ao longo de aproximadamente 10 meses, desde a pesquisa inicial até a finalização. "Optamos por uma linguagem que vai na contramão das tendências audiovisuais contemporâneas, privilegiando um ritmo mais reflexivo e contemplativo, em diálogo com a própria estética barroca que o filme aborda".

Para a equipe de produção, a experiência foi criativamente estimulante e abriu a possibilidade de desenvolver uma série dedicada a outros monumentos do Barroco Mineiro. "No momento, o objetivo é levar o documentário ao maior público possível, o que inclui a participação em festivais e a circulação em plataformas digitais e multimídia", concluiu.


Ficha técnica:
Direção:
Bruno dos Anjos
Produção: Thema Audiovisual
Apoio: Prefeitura Municipal de Santa Bárbara e Ministério da Cultura
Exibição: Youtube e no site https://matrizartefe.com.br
Duração: 30 minutos
Classificação: Livre
País: Brasil
Gêneros: documentário, história

03 fevereiro 2026

Sobreviver a um mundo em ruínas: "Destruição Final 2" é ação, suspense e exageros

Do bunker à esperança de um novo mundo, sequência encerra a jornada da família Garrity iniciada
em 2020 (Fotos: Diamond Films Brasil)
 
 

Maristela Bretas


"Destruição Final 2" ("Greenland 2: Migration") encerra a saga da família Garrity apostando em uma escala maior de ação e em um mundo ainda mais hostil do que o apresentado no filme de 2020, "Destruição Final: O Último Refúgio". 

Sob a direção de Ric Roman Waugh, a continuação se passa cinco anos após o impacto do cometa Clarke, quando a Terra segue profundamente marcada por tempestades radioativas, instabilidade geológica e pela degradação quase total da sociedade humana.

Desta vez, John Garrity (Gerard Butler), sua esposa Allison (Morena Baccarin) e o filho Nathan (Roger Dale Floyd) são forçados a abandonar a relativa segurança de um bunker na Groenlândia para enfrentar uma jornada extremamente perigosa rumo ao sul da França. 


A região surge como um possível novo ponto de esperança, um raro local onde a vida pode voltar a florescer em meio ao planeta destruído. No entanto, o caminho até lá se revela brutal: paisagens em ruínas, um deserto congelado implacável e grupos humanos dispostos a tudo para sobreviver.

Assim como no primeiro filme, o maior acerto está no foco na família. O roteiro mantém John como um protagonista movido quase exclusivamente pelo instinto de proteção, disposto a ajudar não apenas os seus, mas qualquer pessoa que cruze seu caminho em situação de perigo. 


Gerard Butler sustenta bem esse herói cansado, enquanto Morena Baccarin entrega uma Allison sensível e resiliente. A química entre os dois funciona, criando um casal crível e emocionalmente envolvente, sem cair no melodrama excessivo, mesmo nos momentos mais duros.

Tecnicamente, o filme é competente. O CGI das cenas de catástrofe e perigo é bem utilizado, reforçando a sensação constante de ameaça. O destaque fica para a sequência da travessia do cânion, que se mostra o momento mais tenso e bem construído do longa. 


Por outro lado, algumas cenas exageram na ação, especialmente a passagem por uma região em conflito armado, com tiros e explosões por todos os lados, o que acaba soando um pouco excessivo e menos verossímil.

No fim das contas, "Destruição Final 2" não pretende reinventar o gênero catástrofe. Não há grandes reviravoltas nem uma história memorável, mas o filme cumpre sua proposta de entretenimento, oferecendo ação, suspense e um desfecho aceitável para a trajetória da família Garrity. 

Para fãs de filmes catástrofe, é um encerramento digno e o ingresso não será desperdiçado.


Ficha técnica:
Direção: Ric Roman Waugh
Produção: Lionsgate
Distribuição: Diamond Films Brasil
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h39
Classificação: 12 anos
País: EUA
Gêneros: ação, catástrofe, suspense, ficção

01 fevereiro 2026

Mostra de Cinema de Tiradentes reafirma seu papel estratégico no audiovisual brasileiro

Encerramento da 29ª edição que contou, de 23 a 31 de janeiro, com a presença de mais de 38 mil pessoas (Fotos: Leo Lara, Jackson Romanelli e Leo Fontes/Universo Produção)
 
 

Da Redação

 
Após nove dias de intensa e diversificada programação gratuita online e presencial, a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes encerra com números expressivos e consolida seu papel estratégico no calendário cultural brasileiro como espaço de lançamento, reflexão crítica, formação e articulação do audiovisual nacional. 

Os vencedores deste ano foram: o documentário "Anistia 79" (RJ), de Anita Leandro, que conquistou os prêmios Carlos Reichnbach de Melhor Filme na Mostra Olhos Livres e  Melhor Longa pelo Júri Popular; o mineiro "Para os Guardados", de Desali e Rafael Rocha, na Mostra Aurora, pelo Júri Jovem; “Entrevista com Fantasmas” (RS/SP), de LK, como Melhor Curta pelo Júri Oficial na Mostra Foco; e “Recife Tem um Coração” (RN), de Rodrigo Sena, como Melhor Curta pelo Júri Popular.

O nome de destaque desta edição foi a diretora e atriz Karine Teles, que teve sete filmes de sua trajetória exibidos na Mostra Homenagem.

O evento reuniu realizadores, profissionais do setor, pesquisadores, imprensa e um público de idades variadas. Mais de 38 mil pessoas participaram das ações, que movimentaram a cidade histórica e seu entorno, gerando impacto direto na economia local. 


A partir do tema central “Soberania Imaginativa”, a Mostra propôs um olhar sobre a invenção como gesto central do cinema nacional atual, valorizando a autonomia criativa e a diversidade de vozes e territórios. 

Com uma programação que celebrou o cinema brasileiro, a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes exibiu 137 filmes nacionais, provenientes de 23 estados, entre longas e curtas-metragens, todos em pré-estreia, espalhados em 21 mostras ou sessões especiais. 

Os títulos, entre produções e coproduções estaduais, refletiram a diversidade e vitalidade da produção nacional. A Mostra exibiu trabalhos de Rio de Janeiro (30 filmes), Minas Gerais (27), São Paulo (22), Pernambuco (8), Rio Grande do Sul (7), Ceará (7), Bahia (6), Goiás (5), Pará (4), Paraná (3), Paraíba (3), Distrito Federal (2), Rio Grande do Norte (2), Maranhão (2), Espírito Santo (2), Sergipe (2) e Amazonas (2), Amapá (1), Santa Catarina (1), Rondônia (1), Piauí (1), Mato Grosso (1) e Alagoas (1).


4º Fórum Tiradentes 

A 29ª Mostra também sediou o 4º Fórum de Tiradentes – Encontros pelo Audiovisual, que reuniu mais 70 profissionais em seis grupos de trabalho e promoveu a sessão de abertura, três debates temáticos, seis painéis e uma sessão plenária. 

Com o tema central “Convergências de políticas públicas para o fortalecimento do setor audiovisual brasileiro”, o Fórum contou com a presença de representantes dos governos federal, estadual e de BH, de entidades e profissionais do setor audiovisual, entre outros.

Raquel Hallak - Coordenadora geral do Fórum

As discussões resultaram na Carta de Tiradentes 2026, documento que sistematiza propostas e diretrizes e será encaminhado a gestores públicos e instituições do setor. 

O texto reafirma a necessidade de convergência entre União, estados e municípios para superar assimetrias regionais e garantir um Sistema Nacional do Audiovisual baseado no equilíbrio federativo, na descentralização e no planejamento de longo prazo.

“A efetividade da Carta de Tiradentes 2026 dependerá do compromisso contínuo de todos nós, profissionais, instituições, redes e territórios representados aqui, em difundir, incorporar e transformar essas proposições em práticas concretas”, afirmou Raquel Hallak, coordenadora geral do Fórum. Leia a íntegra da carta clicando aqui.

Público presente

Atrações culturais

Além das exibições e debates, a Mostra promoveu uma programação artística diversa, com 32 atrações que ocuparam diferentes espaços da cidade, reforçando a integração entre cinema, artes e território. A edição também contou com o lançamento de sete livros, ampliando o debate sobre audiovisual e cultura brasileira.

O evento reafirmou Tiradentes como protagonista de sua própria narrativa ao contar com programação que incluiu uma exposição instalada em painéis urbanos no Cine Petrobras na Praça, a exibição de cinco filmes realizados na cidade — um longa-metragem e quatro curtas-metragens - e a participação de uma ala temática no Cortejo da Arte, tendo a Serra de São José como referência simbólica. 

Mais do que cenário, a cidade se apresentou como espaço de memória, experiência e imaginação, com atividades que ocuparam a praça central e promoveram o encontro entre moradores e visitantes.

Petrobras na Praça

Números da Mostra
● Filmes: 137 filmes de 23 estados brasileiros
● Atividades Formativas: 17 atividades com 623 vagas (10 oficinas, 2 workshops, 2 laboratórios e 3 masterclasses)
● Jornalistas credenciados: 97
● Número de pousadas parceiras: 21
● Número de restaurantes parceiros: 16
● Veículos de imprensa: Mais de 600
● Seminários: 160 profissionais em 59 debates e bate-papos
● Homenageada: Karine Teles, com 7 filmes exibidos na Mostra Homenagem
● Livros lançados: 7
● 4º Fórum Tiradentes: 6 grupos de trabalho, 5 debates, Carta de Tiradentes 2026 elaborada com a colaboração de 70 profissionais do setor
● Atrações artísticas: 32
● Conexão Brasil CineMundi: 20 projetos audiovisuais em desenvolvimento (14 projetos de longa + 6 wip), selecionados para rodadas de negócios com 22 convidados e players do mercado internacional, vindos de 12 países. Foram realizadas 70 reuniões entre os produtores e realizadores dos filmes WIP e convidados.
● Equipe de trabalho: 184 pessoas
● Empregos gerados - diretos e indiretos: mais de 2500
● Empresas mineiras contratadas: 280
● Público: Mais de 38 mil pessoas
● Recursos injetados na economia local: mais de R$ 10 milhões
● Plataformas digitais do evento: 4,2 milhões de visualizações e mais de 300 mil acessos contabilizados no site, vindos de 74 países.


Serviço:
29ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Data de realização: de 23 a 31 de janeiro de 2026
Saiba mais: http://www.mostratiradentes.com.br/
Fotos do evento: https://www.flickr.com/photos/universoproducao/

31 janeiro 2026

O som da espera e o silêncio do mundo em "A Voz de Hind Rajab"

Filme retrata a noite de angústia de voluntários durante a chamada de uma criança palestina presa dentro
de um carro sob fogo cruzado (Fotos: Divulgação)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema


Mais do que uma estreia, o filme "A Voz de Hind Rajab" ("The Voice of Hind Rajab") em cartaz no Una Cine Belas Artes, reafirma o cinema como espaço de memória, denúncia e responsabilidade histórica. 

Dirigido por Kaouther Ben Hania e distribuído pela Synapse Distribution, o longa parte de um fato real ocorrido em Gaza, em janeiro de 2024, quando Hind Rajab, uma criança palestina de apenas seis anos, ficou presa em um carro sob fogo cruzado após um ataque que matou sua família.

Durante horas, Hind manteve contato com voluntários do serviço de emergência do Crescente Vermelho, pedindo ajuda enquanto se escondia entre os corpos dos parentes. Do outro lado da linha, havia promessas de resgate. Do lado dela, apenas o medo. A ligação termina de forma abrupta, interrompida pelo som de tiros. O socorro nunca chegou.


Desde o início, o filme deixa claro que não está interessado em neutralidade. Ao contrário, assume um posicionamento firme ao expor a violência sistemática contra a população civil palestina, especialmente crianças. 

A narrativa se constrói a partir da espera — do tempo que se arrasta, da angústia que cresce e da sensação de abandono. Ben Hania evita mostrar a violência de forma explícita, mas isso não suaviza a experiência. O horror não é visto: ele é ouvido, sentido e compartilhado com o espectador.

O trabalho de som é decisivo para o impacto do filme. Vozes frágeis, silêncios prolongados e ruídos distantes criam uma atmosfera sufocante, onde cada segundo parece mais pesado que o anterior. 

A interrupção da chamada não é apenas um recurso narrativo, mas um golpe seco, que corta qualquer ilusão de esperança. O público permanece preso à mesma espera que Hind viveu, sem saída emocional possível.


Ao assumir claramente sua posição política, o filme abre mão de nuances mais amplas do conflito. Os personagens não são desenvolvidos como indivíduos complexos, mas aparecem como extensões de um trauma real e coletivo. Essa escolha pode incomodar quem espera um drama mais tradicional, mas faz sentido dentro da proposta: registrar, denunciar e impedir o esquecimento.

O ritmo é duro e cansativo — de propósito. Não há alívio, não há pausa, não há conforto. A experiência é difícil, quase insuportável em alguns momentos, mas esse desgaste é parte essencial do filme. O desconforto não é um efeito colateral: é uma tomada de posição.

Indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e escolhido para representar a Tunísia na corrida pelo Oscar 2026, "A Voz de Hind Rajab" se impõe como um filme necessário, ainda que profundamente incômodo. Não busca agradar, nem entreter. Funciona como documento político e humano, exigindo do espectador mais do que empatia, mas um posicionamento.


Ao colocar uma criança no centro da narrativa, o longa desmonta qualquer discurso que tente justificar o injustificável. Uma ligação interrompida se transforma em um grito que continua ecoando muito depois do fim da sessão.

No fim, o filme expõe uma realidade que insiste em se repetir: enquanto o conflito entre Palestina e Israel segue sendo tratado como disputa geopolítica, quem paga o preço são corpos civis, famílias inteiras e crianças que nunca tiveram escolha. 

Hind Rajab não é uma exceção trágica — é o retrato de uma violência contínua, normalizada e frequentemente silenciada. O cinema aqui não oferece consolo, porque a realidade também não oferece. O que resta é a memória — e a recusa em aceitar o esquecimento como resposta.


Ficha técnica:
Direção: Kaouther Ben Hania
Distribuição: Synapse Distribution
Exibição: Una Cine Belas Artes
Duração: 1h30
Classificação: 14 anos
País: Tunísia
Gêneros: guerra, drama

27 janeiro 2026

"Song Sung Blues": uma história de superação ao som de Neil Diamond

Hugh Jackman e Kate Hudson protagonizam a dupla "Lightning & Thunder" que conquista fama levando aos
palcos um show dedicado ao músico (Fotos: Focus Features)
 
 

Patrícia Cassese

 
Não se trata, claro, de um expediente obrigatório. No entanto, pesquisar ao menos um pouco sobre o filme a que se vai assistir colabora, e muito, para a fruição - principalmente se a produção em questão se debruça sobre fatos reais. É o caso de "Song Sung Blue", que estreia no dia 29 de janeiro deste 2026 nos cinemas do Brasil. 

De pronto, o título já vai dizer muito às pessoas de espírito nostálgico, mesmo que sequer tivessem nascido à época: trata-se do título de uma canção homônima de Neil Diamond que estourou mundialmente no inicinho dos anos 1970 - foi lançada em 1972, dando sequência a uma série de hits emplacados pelo artista norte-americano, hoje octogenário, como "Sweet Caroline" (1969) e "I Am... I Said" (1971).


Vale dizer que, no recente Globo de Ouro, o longa-metragem dirigido por Craig Brewer foi classificado na categoria musical ou comédia, colocando o nome de Kate Hudson - que o protagoniza junto a Hugh Jackman - como candidata a melhor atriz. O prêmio, você se lembra, acabou indo (merecidamente) para Rose Byrne, por "Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria". 

Se entendemos que foi uma imensa forçação de barra dizer que esse último título se enquadra no gênero comédia, é também estranho ver "Song Sung Blue" rotulado de musical. É que, ainda que a música seja a espinha dorsal da empreitada, ela está totalmente vinculada à história real - e não, não há números de dança coreografados, reunindo elenco e figurantes, tal como em "Emilia Perez" (2024), para citar um exemplo recente.


A história real sobre a qual "Song Sung Blue" se baseia é a de um casal de Milwaukee que, no auge do sucesso de Neil Diamond, cria um espetáculo em homenagem ao artista. 

O início flagra justamente o encontro dos dois, nos bastidores de um show que apresenta covers dos artistas em voga na época, como Elvis Presley e James Brown. São performances levadas muito a sério pelos empenhados intérpretes, ainda que em cada um habite o sonho de fazer fama para além daquilo. 

Ao se cruzarem nas coxias, Mike (Jackman), que se apresenta como Don Ho, e Claire (Hudson), que solta a voz a bordo do repertório de Patsy Cline, se aproximam e, em pouco tempo, criam a dupla "Relâmpago & Trovão" (Lightning & Thunder"), que passa a levar aos palcos um show dedicado a Diamond. 


E sim, o relacionamento não se limita apenas ao profissional - não tarda, os dois juntam as escovas de dente, numa ação que arrebanha também os dois filhos de Claire e, eventualmente, a filha de Mike. 

O que ambos não sabem, ali, naquele momento de felicidade, é que a vida reservaria ao casal momentos muito, muito trágicos, incluindo um acidente que muda drasticamente o destino de todos. 

Por outro lado, guarda também surpresas do âmbito do inacreditável, como o da dupla abrir um show para o Pearl Jam, a convite do próprio Eddie Vedder.


É importante frisar que a história incrível desse casal da vida real já havia sido levada à tela por meio de um documentário, dirigido por Greg Kohs - que, fica a dica, está disponível no YouTube. Craig assistiu à produção conduzida por Greg e, impressionado, partiu para contar a história com atores. E sim, as escolhas de elenco são bem acertadas. 

Jackman e Hudson se mostram extremamente empenhados, assim como o elenco de apoio, que traz desde veteranos, como Jim Belushi, a bons expoentes da nova geração, como os jovens Ella Andersen, King Princess (cantora, compositora, instrumentista e produtora) e Hudson Hensley, que fazem os filhos do casal. 

Outro ator que os fãs de "White Lotus" vão se deliciar em rever é Michael Imperioli, que integra a banda que acompanha Mike - na série da HBO, ele marcou presença na segunda temporada, passada na Itália.


Embora não seja um filme pretensioso no sentido de trazer inovações na sétima arte ou ficar marcado na história do cinema, assim como a passar o rodo na temporada de prêmios, "Song Sung Blue" não vai fazer o espectador sentir ter desperdiçado seu tempo nos cinemas. 

Principalmente se, como dissemos no início, adentrar a sala escura sabendo que o que será mostrado ali, na telona, é a representação de um episódio real. 

Isso porque, em determinado momento, quem ignorar essa particularidade certamente vai se fazer uma pergunta do tipo "mas como ele não agiu assim ou assado?". E, óbvio, ninguém consegue perscrutar o que se passa na cabeça do outro.

No frigir dos ovos, "Song Sung Blues" é um filme sobre resiliência. Sobre enfrentar adversidades, provações da vida, e tentar superá-las da maneira que dá, já que a vida assim o exige. 


Tudo isso ao som do repertório de um artista - Neil Diamond - cuja voz potente ressoou muito nas rádios brasileiras, inclusive em versões, como a de Diana (1948 - 2024) para "I Am... I Said". Recentemente, "Porque Brigamos" também ganhou cover (excelente) de Bárbara Eugênia. 

Certo, talvez o filme peque um pouco na parte final, ao incorrer com força no melodrama - justamente por isso, recomendamos, aos mais sensíveis, levar um pacotinho de lenços de papel. Como se trata de vida real, quem quiser saber o motivo, basta recorrer ao caso real. Mas, ainda assim, recomendamos. 

O talento dos dois atores centrais merece ser conferido - e as músicas do artista reverenciado, clamam por serem cantadas pelo público - mesmo que, óbvio, baixinho, para não atrapalhar quem está do lado.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Craig Brewer
Produção: Focus Features, Davis Entertainment
Distribuição: Universal Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h13
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: musical, drama