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06 janeiro 2026

Histórias de perda e reinvenção - Parte 2: “Vida Privada” e “Miroirs No. 3"

 
 

Carol Cassese

 
Dando sequência aos destaques da temporada iniciados em "Histórias de perdas e reinvenção - Parte 1: Hamnet e Valor Sentimental", a temática da perda e os modos de elaboração do luto estruturam também outros dois filmes recentes que vêm se destacando no circuito internacional. 

Em "Vida Privada", da realizadora francesa Rebecca Zlotowski, o tema da perda se constrói a partir da súbita morte de uma mulher, acontecimento que leva Lilian Steiner, psiquiatra da vítima, a questionar suas práticas profissionais. 


A recusa em tratar o episódio como encerrado transforma o luto em um processo de investigação, no qual a personagem passa a confrontar tanto a prática clínica quanto sua própria identidade.

Ambientado em Paris, o filme ganha força principalmente por conta da atuação de Jodie Foster, que apresenta uma significativa intensidade dramática e, ainda, um domínio impressionante do francês. 

Em entrevistas, a atriz comentou que atuar em outro idioma teve um impacto profundo sobre sua performance, em especial porque se sente “uma pessoa diferente quando conversa em francês”. 


Carregado de elementos hitchcockianos (já que a personagem principal decide investigar a morte de sua paciente), o filme ressalta a importância da escuta e ilustra como a aceleração da vida contemporânea prejudica a nossa capacidade de interpretação. 

A produção teve estreia mundial fora de competição no Festival de Cannes e passou pelo Festival do Rio em 2025. A revista Trois Couleurs incluiu "Vida Privada" em sua lista dos 50 filmes preferidos de 2025, destacando o trabalho da diretora e a atuação de Foster. 

Vale destacar que o trabalho de Zlotowski, nome promissor do cinema independente, reúne ainda referências importantes da cena francesa, como Virginie Efira, Daniel Auteuil e Vincent Lacoste.


MIROIRS NO. 3

Outro longa que apareceu em um número significativo de listas dos melhores filmes do ano foi "Miroirs No. 3", do diretor alemão Christian Petzold. O filme acompanha Laura (Paula Beer), uma jovem que, após sobreviver a um acidente de carro, passa a conviver com uma família desconhecida e bastante misteriosa. 

Abalada pelo trauma, a protagonista se aproxima desse núcleo familiar por reconhecer nele uma fragilidade compartilhada, já que os personagens também parecem estar marcados por uma ausência traumática. 


Inspirado na obra musical "Miroirs", de Maurice Ravel, o título remete à ideia de espelhamento, sugerindo identidades que se refletem e, de certa forma, se duplicam ao longo da narrativa, assumindo um tom marcadamente enigmático e apostando na ambiguidade como motor narrativo. 

O longa, que está em cartaz em cinemas europeus e deve chegar ao Brasil em 2026 com distribuição da Imovision, carrega um tom bastante enigmático e prende a atenção do início ao fim. "Miroirs No. 3" se destacou em listas de fim de ano de veículos críticos internacionais, incluindo a da Cahiers du Cinéma.


Narrativas reflexivas

Chama a atenção o fato de que os diretores de "Hamnet - A Vida Antes de Hamlet", "Valor Sentimental", "Vida Privada" e "Miroirs No. 3" possuem nacionalidades diversas – Estados Unidos/China, França, Noruega e Alemanha –, o que reforça como os temas da perda e da reconstrução estão presentes em múltiplos contextos culturais. 

Ainda que partam de realidades específicas, as produções dialogam entre si ao mostrar como essas experiências dolorosas e profundamente humanas encontram ressonância em diferentes países.


Dessa maneira, os longas se afirmam como boas escolhas para quem busca narrativas reflexivas e intrigantes, sustentadas por atuações marcantes. 

Em uma sociedade em que a exibição constante de felicidade parece ganhar cada vez mais força, essas produções oferecem oportunidades valiosas de introspecção.

Histórias de perda e reinvenção - Parte 1: “Hamnet” e “Valor Sentimental"



Carol Cassese


A temática da perda e os modos de elaboração do luto estruturam pelo menos quatro filmes recentes que vêm se destacando no circuito internacional, articulando experiências familiares a processos de reconstrução subjetiva. 

O assunto será abordado em duas postagens. Enquanto este post será centrado em "Hamnet" e "Valor Sentimental", o segundo traz breves análises dos longas "Vida Privada" e "Miroirs No. 3".

"Hamnet - A Vida Antes de Hamlet", que estreou nos cinemas estadunidenses em 5 de dezembro e chega às salas brasileiras em 15 de janeiro, é um exemplo notável do tema. 


Dirigido por Chloé Zhao (“Nomadland” - 2021) e inspirado no romance homônimo de Maggie O’Farrell, a produção reflete sobre como a ficcionalização pode ser um mecanismo de enfrentamento ao luto. 

O filme dialoga diretamente com a vida de William Shakespeare e com o modo como sua experiência de perda teria ressoado na criação de Hamlet (sabe-se que Hamnet Shakespeare, filho do dramaturgo, faleceu aos 11 anos).

"Hamnet" estreou no Telluride Film Festival, em agosto de 2025. Posteriormente, a produção foi exibida no Toronto International Film Festival, onde venceu o People’s Choice Award, um dos principais prêmios de público da temporada. 


Em dezembro, o filme integrou a programação de eventos especiais do Main Cinema, em Minneapolis (Estados Unidos), onde tive a oportunidade de acompanhar um debate após a sessão com Katherine Scheil, autora de "Imagining Shakespeare’s Wife: The Afterlife of Anne Hathaway" (vale ressaltar que a sala de cinema estava lotada, em uma manhã de sábado com temperatura de –10 °C). 

A discussão abordou o apagamento histórico de figuras femininas ao longo dos séculos e também evocou a curiosa coincidência em torno do nome Anne Hathaway, esposa de William Shakespeare e homônima da conhecida atriz hollywoodiana. 

Vale notar que, no século XVI, os nomes Hamnet e Hamlet eram usados de maneira intercambiável, o que reforça a proximidade simbólica entre a experiência biográfica do dramaturgo e sua criação literária.


Além da forte recepção no circuito de festivais, a produção protagonizada por Jessie Buckley e Paul Mescal já aparece entre os títulos mais comentados do circuito de premiações, sendo frequentemente mencionado em projeções para grandes disputas. 

A atuação de Buckley, que recentemente levou o prêmio de Melhor Atriz no Critics Choice Awards, e o trabalho de Zhao vêm sendo apontados como destaques relevantes da temporada. 

Ao se inscrever no campo da ficção histórica, a adaptação do livro de O'Farrell propõe uma reflexão sobre a recriação do passado e a mescla entre fatos, imaginação e elaboração estética. 

Dessa maneira, Hamnet se alinha a uma tendência crescente no cinema e na literatura contemporânea, em que narrativas históricas são revisitadas a partir de perspectivas criativas.


VALOR SENTIMENTAL

Também em destaque na temporada de premiações, "Valor Sentimental" (ainda em circulação nos cinemas brasileiros), obra do diretor norueguês Joachim Trier, é centrada no retorno de um pai, cuja presença reabre feridas ligadas à memória familiar. 

Assim como ocorre em "Hamnet", o filme propõe reflexões sobre o retrato ficcional de acontecimentos trágicos, mostrando como a recriação de experiências difíceis pode, de maneira complexa e não linear, auxiliar na elaboração de traumas.


Como mencionamos na introdução, o novo filme do diretor norueguês Joachim Trier, que assinou produções como "Oslo, 31 de Agosto" (2011) e "A Pior Pessoa do Mundo" (2021), é centrado nos efeitos conturbados de um reencontro familiar. 

Mais especificamente, a narrativa acompanha um cineasta, interpretado por Stellan Skarsgård, e suas duas filhas, vividas por Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas, em meio a tensões ligadas à memória e a feridas que permanecem abertas. 


Nesse contexto, o filme introduz ainda a personagem de Elle Fanning, uma atriz americana convidada a interpretar ficcionalmente episódios dolorosos da história da família – gesto que desloca a experiência do trauma para o campo da representação. 

Aqui, é interessante pensar como a presença da personagem de Fanning opera também como uma alusão a um processo enfrentado por muitos diretores da cena independente: a passagem por um crivo hollywoodiano, seja em termos de reconhecimento crítico ou validação dentro de um mercado desigual. 

Bastante aclamado pela crítica, o longa estreou na competição oficial do Festival de Cannes 2025, onde venceu o Grand Prix (Grande Prêmio do Júri). 


03 janeiro 2026

"Anaconda" - Selton Mello rouba a cena nesta comédia em plena selva amazônica

Jack Black, Paul Rudd e seus amigos tentam fazer o remake de um sucesso do passado sobre uma
cobra gigante que ataca uma equipe de filmagem (Fotos: Sony Pictures)
 
 

Maristela Bretas

 
Em cartaz nos cinemas, "Anaconda" surge como uma comédia escancaradamente absurda que entende perfeitamente o próprio ridículo — e faz disso sua maior virtude. Protagonizado por Jack Black, Paul Rudd e Selton Mello, o filme aposta na paródia, no humor e em referências pop para garantir boas risadas do início ao fim.

O grande destaque, sem dúvida, é Selton Mello. No papel do domador de cobras Carlos Santiago, o ator brasileiro rouba a cena sempre que aparece. Seu personagem carrega um jeitão que remete ao Chicó de "O Auto da Compadecida" (2000 e 2024), mas sem o medo crônico que marcou aquele papel. 


Aqui, Selton entrega falas e expressões tipicamente brasileiras, com um timing cômico afiadíssimo, sem dever nada a Jack Black ou Paul Rudd. A química entre os três funciona de forma surpreendentemente natural e é um dos pilares do filme.

Há momentos tão ridículos que ultrapassam o limite do bom senso — e é justamente aí que o humor acerta. As piadas são atuais, repletas de comentários metalinguísticos bem sacados, e não têm receio de zombar do próprio cinema, da indústria e até da produtora e distribuidora Sony Pictures. 

O diretor assume o tom de paródia do início ao fim, transformando o filme em uma sátira consciente do original.


Este remake também reserva surpresas para quem conhece ou, como eu, gosta de produções trashs absurdas com animais perigosos, como o "Anaconda" de 1997, que foi muito criticada à época, mas que diverte justamente pelo exagero e tem público cativo. 

Na época, o elenco contava com Jennifer Lopez, Ice Cube, Jon Voight, Eric Stoltz, Jonathan Hyde e Owen Wilson, e a trama também se passava na Amazônia, envolvendo uma equipe de documentaristas perseguida por uma cobra gigante. 

Classificado como terror, o filme sempre flertou com o lado cômico por conta de seu absurdo — algo que o novo "Anaconda" assume sem vergonha alguma.


Na versão atual, acompanhamos Griff (Paul Rudd), um ator de meia-idade em crise e desempregado, e Doug (Jack Black), um cineasta frustrado por ter sua carreira resumida a vídeos de casamento. 

Amigos de infância, eles decidem realizar um antigo sonho: viajar até a selva amazônica para produzir um reboot independente de seu filme favorito, "Anaconda".

Para a empreitada, contam com a ajuda de Carlos Santiago e Heitor, sua cobra “domesticada” (parece piada pronta), além da atriz Claire Simons (Thandiwe Newton), recém-saída de um divórcio, e do cinegrafista Kenny Trent (Steve Zahn), que não dispensa “umas biritas” turbinadas. 

Tudo corre bem até que uma anaconda gigante resolve entrar em cena, ao mesmo tempo em que o grupo acaba envolvido em uma perseguição policial a garimpeiros ilegais de ouro.


Curiosamente, apesar do título, a cobra aparece pouco. O protagonismo fica mesmo com o elenco humano, enquanto a anaconda funciona quase como um elemento catalisador do caos. 

O filme também se diverte citando com cenas que remetem a clássicos do cinema de aventura e ação, como a franquia "Jurassic Park - O Parque dos Dinossauros" (1993), quando a cobra gigante persegue o grupo e é acompanhada pelo retrovisor do carro.

Ou "Tubarão" (1975), quando ela circunda o barco da equipe no rio. Até mesmo a cena de Jack Black engolido por uma cobra gigante em "Jumanji - Próxima Fase" (2019) é lembrada. 


"Anaconda" é, acima de tudo, uma produção leve e despretensiosa, que entende seu lugar como entretenimento. Jack Black e Paul Rudd sustentam bem o humor, mas é Selton Mello quem dá um charme especial à narrativa, funcionando como uma âncora cômica e cultural. 

Não é um filme para ser levado a sério — e nem quer ser. Vale a pena justamente por isso: uma diversão honesta, autoconsciente e eficaz para quem busca boas risadas no cinema.


Ficha técnica:
Direção:
Tom Gormican
Roteiro: Tom Gormican e Kevin Etten
Produção e Distribuição: Sony Pictures
Duração: 1h40
Exibição: nos cinemas
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: comédia, ação, aventura

31 dezembro 2025

Em "Jovens Mães", irmãos Dardenne lançam foco sobre a gravidez na adolescência

Filme retrata uma questão que, infelizmente, é presente entre jovens em todos os países do mundo,
numa fase em que estão descobrindo a sexualidade (Fotos: Christine Plenus)
 
 

Patrícia Cassese

 
Com uma chancela de respeito - a assinatura dos irmãos Dardenne tanto na direção quanto no roteiro -, entra em cartaz na cidade o filme "Jovens Mães", que, vale dizer, integrou a programação do Festival de Cinema Francês desse ano, porém, com poucas sessões. Em cena, cinco representantes do que o título - que, na tradução brasileira, mantém o original, "Jeunes Mères" - já revela ao espectador. 

Mais preciso que o uso da palavra "jovem", na verdade, seria "adolescente", posto que a câmera dos belgas Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne flagra a maternidade em uma faixa etária na qual a inocência da infância ainda se mescla às descobertas do mundo adulto. 


São cinco, as jovens mães do filme, e, à exceção de uma, as demais dividem o tempo de duração do longa. Um denominador comum é que nenhuma ali vem de uma vida propriamente fácil. Ao contrário, alguns relatos de episódios da infância são de causar calafrios.

De todo modo, na retratação de uma questão que, infelizmente, é presente em todos os países do mundo - a gravidez acidental na vida de pessoas numa fase em que estão, na verdade, descobrindo a sexualidade, "Jovens Mães" apresenta uma situação que já de pronto mostra a distância entre os ditos países do primeiro mundo e os mais pobres. 


É que as cinco meninas estão provisoriamente abrigadas em uma casa de acolhimento na qual as funcionárias tratam de explicar, com paciência e medida insistência, os cuidados básicos com os bebês para quem pouco tempo atrás certamente brincava de boneca. 

Entre eles, a limpeza do umbigo, o banho ou a melhor forma de dar mamadeira - posto que, ali, dado o estresse inerente à situação, nem todas têm leite para alimentar seus rebentos. Importante dizer que as garotas do filme foram mães por opção, uma vez que, sim, havia a alternativa de se submeter a um aborto. 


No entanto, em casos como o de Jessica (Babette Verbeek), o bater o martelo em manter a gravidez se deu no bojo do sonho de construção de uma união dela com o pai do bebê. Uma ilusão que, mundo afora, muitas adolescentes acalentam.

Mesmo com a escolha do aborto afastada pelas cinco quando ainda havia tempo, resta, a elas, uma última decisão: entregar o filho para uma família ou assumir a maternidade (inclusive, a maternidade solo) nessa etapa tão complexa da vida.


Entre as cinco, talvez o caso que mais afete o espectador seja o de Jessica, que, na reta final da gravidez, tenta se reconectar com a mãe, Morgane (India Hair), que, no passado, a abandonou ainda recém-nascida. Vale muito pontuar o talento da jovem atriz belga que a interpreta, e que dá conta de transmitir o desespero que invade a menina ali, sozinha. 

De todo modo, ela não está disposta a repetir a decisão de sua genitora. Detalhe: a idade da atriz que interpreta Morgane dá indícios que ela também foi mãe na adolescência, mostrando como esse ciclo se repete na sociedade, não obstante os avanços de métodos contraceptivos.


Ariane (Janaina Halloy Fokan, atriz de apenas 16 anos) é outro caso que comove, pelo fato de a garota também vir de uma família esfacelada - a mãe mantém um relacionamento tóxico (apesar de jurar para a filha que colocou um ponto final, o namorado sempre retorna para buscar objetos). 

Não bastasse isso, o envolvimento com drogas que faz a polícia volta e meia bater à sua porta. É nela que a possibilidade de entregar a criança à adoção fala mais alto.

A situação de Julie (Elsa Houben) é um pouco diferente das colegas, sendo ela a única cujo pai do bebê segue não só presente, mas mantendo o intuito de formar uma família. Mesmo assim, ambos lidam com a falta de perspectiva de ter um teto, assim como com o fantasma do vício em drogas. Julie também narra a experiência de um abuso praticado dentro de casa. 


Como ela, Perla (Lucie Larvelle, ótima presença em cena), ao dar continuidade à gravidez, acreditou que o bebê seria o ponto de partida para a construção de uma célula familiar. 

Sua situação não vai deixar o espectador incólume, inclusive quando ela coloca em repasse a relação com a mãe e uma maldade cometida por essa que a marcou para sempre. Além do fato de ser uma adolescente mãe solteira, Perla ainda tem que lidar com o racismo. 

A quinta adolescente do roteiro tem uma presença mais breve na trama. Naïma (Samia Hilmi), mãe da Selma e a mais serena das adolescentes.


Detalhe: "Jovens Mães" foi o título indicado pela Bélgica para o Oscar 2026, na categoria Filme Estrangeiro. Certo, foi eliminado na lista de pré-selecionados, mas isso de forma alguma tira a importância da narrativa que, como salientado no início, fala de uma questão que preocupa não só as autoridades ou pessoas envolvidas em situações similares, mas também aos mais conscientes mundo afora.

Além de mostrar como o acolhimento - familiar ou externo - é imprescindível em tais casos, uma vez que a insegurança e a pouca experiência intrínsecas à idade pode levar a decisões bastante equivocadas, passíveis de virarem traumas para toda uma vida.


Ficha técnica:
Direção:
Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne
Produção: Les Films du Fleuve, Archipel 35, The Reunion (Delphine Tomson, Denis Freyd)
Distribuição: Vitrine Filmes
Exibição: Cine Una Belas Artes e Centro Cultural Unimed-BH Minas
Duração: 1h46
Classificação: 16 anos
Países: Bélgica e França
Gênero: drama

24 dezembro 2025

“Tainá e os Guardiões da Amazônia - Em Busca da Flecha Azul" une aventura infantil e preservação da Amazônia

Animação usa linguagem educativa e divertida para conscientizar gerações sobre meio ambiente
(Fotos: Sincrosine Produções)
 
 

Maristela Bretas

 
Com estreia marcada para 25 de dezembro, em pleno Natal, "Tainá e os Guardiões da Amazônia – Em Busca da Flecha Azul" chega aos cinemas como uma animação brasileira que entende muito bem seu papel: entreter, educar e conscientizar, sem jamais perder o apelo lúdico necessário para dialogar com crianças — e também com adultos.

Dirigido por Alê Camargo e Jordan Nugem, produzido pela Sincrocine Produções e distribuído pela Paris Filmes, o longa tem classificação livre e se posiciona como uma obra pensada para todas as idades.  

Seu grande mérito está justamente no equilíbrio entre um tema urgente e delicado — a destruição da Amazônia — e uma narrativa leve, colorida e acessível, que transforma a conscientização ambiental em aventura.


Mesmo inserido em um contexto extremamente atual, marcado por mudanças climáticas, queimadas e desmatamento, o filme evita o tom panfletário. 

Os diretores apostam em uma linguagem educativa e bem-humorada, criando situações divertidas e diálogos simples, capazes de captar a atenção do público infantil sem subestimar sua inteligência. 

O resultado é uma animação que fala de preservação ambiental a partir da infância, entendendo que é ali que nasce a verdadeira mudança. 

A relevância do projeto ficou evidente com seu pré-lançamento durante a COP-30, em Belém, reforçando o compromisso da obra com a pauta ambiental e com a valorização da cultura amazônica. 


Essa conexão também se reflete no elenco de dublagem, que conta com nomes paraenses de peso. Fafá de Belém empresta sua voz à ancestral e sábia preguiça Mestra Aí, enquanto Juliana Nascimento dá vida à protagonista Tainá, trazendo carisma e energia à personagem.

Na trama, acompanhamos uma Tainá jovem, impulsiva e ansiosa, em pleno treinamento para se tornar uma Guardiã da Amazônia. Ao perder a Flecha Azul, artefato mágico que guia aqueles destinados à proteção da floresta, a heroína coloca seu próprio destino em risco. 

A partir daí, inicia-se uma jornada clássica de amadurecimento, repleta de encontros, aprendizados e desafios.


É nesse percurso que surgem alguns dos personagens mais carismáticos do filme. Catu, o macaquinho encrenqueiro dublado por Caio Guarnieri, é o grande responsável pelo alívio cômico; Pepe, o sábio urubu-rei vivido por Yuri Chesman, traz equilíbrio e reflexão; e Suri, a delicada e charmosa ouricinha rosa dublada por Laura Chasseraux, completa o grupo com ternura. 

A dinâmica entre eles funciona muito bem, especialmente nas cenas mais leves, garantindo ritmo e diversão. Unidos, eles aprendem a lidar com suas diferenças para formar os Guardiões da Amazônia, grupo que representa valores essenciais como amizade, cooperação e respeito à natureza. 


O filme ainda incorpora elementos do folclore brasileiro ao apresentar o temido Jurupari, figura lendária que assombra os animais da floresta, enriquecendo o universo narrativo. 

No entanto, a ameaça mais concreta e assustadora não vem da lenda, mas do mundo real: Jaime Bifão e seu trator, símbolo direto da devastação ambiental. 

É nesse ponto que a animação se mostra mais contundente, traduzindo em imagens simples e compreensíveis um problema complexo e urgente. Quando tudo parece perdido, resta gritar “Cru-cru” e confiar na coragem de Tainá — um gesto simbólico que reforça a esperança e o poder da ação coletiva.


Personagem criada nos anos 2000

Criada há 25 anos, Tainá retorna agora em um longa que foi idealizado antes da série exibida nos anos 2000, explicando suas origens, o início de seu treinamento e a formação do grupo que marcou uma geração. 

Para quem já conhece a personagem, há um agradável sentimento de nostalgia; para os novos espectadores, uma apresentação envolvente e atualizada. "Tainá e os Guardiões da Amazônia – Em Busca da Flecha Azul" é, acima de tudo, uma linda produção nacional, que honra sua proposta ao divertir enquanto educa. 

Um filme que fala sobre a importância de preservar a Floresta Amazônica sem perder a leveza, provando que o cinema infantil pode — e deve — ser também um espaço de reflexão e responsabilidade. 

Uma ótima escolha para o período natalino e um passo importante para o fortalecimento da animação brasileira.


Ficha técnica:
Direção:
Alê Camargo e Jordan Nugem
Roteiro: Gustavo Colombo
Produção: Sincrocine Produções e coprodução Tietê Produções
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h28
Classificação: Livre
País: Brasil
Gêneros: animação, aventura

21 dezembro 2025

"Avatar: Fogo e Cinzas" - novo capítulo deixa apagada a grande novidade

No campo técnico, o filme segue sendo um espetáculo, como nos dois filmes anteriores do diretor James Cameron (Fotos: 20th Century Studios)
 
 

Marcos Tadeu
Blog Jornalista de Cinema

 
"Avatar: Fogo e Cinzas" ("Avatar: Fire and Ash"), em cartaz nos cinemas, chega com a missão de manter vivo e relevante o universo criado por James Cameron em 2009, que teve sua continuação somente 13 anos depois, em 2022, com "Avatar: O Caminho da Água". 

A grande promessa deste terceiro capítulo é a introdução do Povo das Cinzas, um grupo de Na’vi que vive em regiões vulcânicas de Pandora, além da ampliação dos conflitos internos do planeta. 


O elenco também cresce, com reforços como Oona Chaplin, Edie Falco, David Thewlis e Trinity Jo-Li Bliss, o que aumenta a expectativa por um olhar mais denso sobre esse mundo.

A proposta inicial funciona. Levar a história para um território dominado pelo fogo sugere um clima mais tenso e a chance de explorar disputas culturais e morais entre os próprios Na’vi. O problema é que o filme não sustenta essa ideia. 


O Povo das Cinzas aparece pouco, é pouco desenvolvido e acaba reduzido a uma ameaça genérica. Falta tempo (apesar das 3h15 de filme) ou interesse em mostrar sua cultura, seus conflitos e suas motivações, o que enfraquece bastante o impacto dessa “grande novidade”.

Outro ponto que pesa é a sensação de déjà-vu. A estrutura do roteiro repete fórmulas já vistas nos filmes anteriores, com conflitos que se alongam demais e cenas que impressionam visualmente, mas que pouco fazem a história avançar. 

O tempo de duração joga contra o longa, criando momentos de cansaço e a sensação de que faltou coragem para enxugar e arriscar mais.


No campo técnico, o filme segue sendo um espetáculo. O design de Pandora, as criaturas, os ambientes vulcânicos e a imersão sonora continuam em altíssimo nível, com destaque para o trabalho de som liderado por Brent Burge e Gwendolyn Yates Whittle, os efeitos visuais supervisionados por Eric Saindon e a equipe de VFX conduzida por Simon Franglen, que também assina a trilha sonora. 

É um conjunto que funciona perfeitamente para criar impacto sensorial, embora, desta vez, ele sirva mais como sustentação estética do que como motor narrativo.

O maior problema está na forma como os conflitos são resolvidos. O filme insiste em soluções baseadas em laços familiares, perdão e revelações emocionais que diluem a tensão. Em vez de assumir consequências mais duras, a narrativa frequentemente recua, transformando embates que poderiam ser mais fortes em resultados seguros e previsíveis.


No fim, "Avatar: Fogo e Cinzas" entrega exatamente o que se espera da franquia em termos de espetáculo visual e experiência de cinema. Para os fãs, isso pode ser o suficiente. Mas, narrativamente, fica a sensação de oportunidade perdida. 

A nova mitologia não se desenvolve como deveria, o roteiro se apoia demais no que já funcionou antes e falta ousadia para levar Pandora a caminhos realmente novos. Vale pela grandiosidade, mas deixa a impressão de que esse fogo poderia queimar bem mais alto.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: James Cameron
Produção: 20th Century Studios e Lightstorm Entertainment
Distribuição: Disney Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 3h15
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: ação, fantasia, ficção, drama

17 dezembro 2025

Comédia “Perfeitos Desconhecidos” ganha versão brasileira, mas contraria o gênero

Produção nacional sob a direção de Júlia Jordão tem elenco conhecido de TV e cinema (Fotos: Desirée do Vale)
 
 

Eduardo Jr.

 
A lista de comédias nacionais ganha mais uma obra. O filme “Perfeitos Desconhecidos”, em cartaz nos cinemas, apresenta um grupo de amigos que decide brincar de expor todas as mensagens e ligações que receberem no celular. 

O longa, dirigido por Júlia Jordão, é uma das 24 versões do sucesso italiano “Perfetti Sconosciuti”, dirigido em 2016 por Paolo Genovese.  

A experiência para a imprensa já começa negativa, pois o link enviado pela distribuidora para os profissionais traz uma marca d’água, em tamanho gigante, que fica no meio da tela durante os 90 minutos do filme. 


Se o original italiano foi um sucesso, entrando para o Guinness Book como o filme com maior número de remakes da história, na versão brasileira o churrasco dos amigos que tentam provar que não têm o que esconder fracassa na tentativa de arrancar risos.

No elenco, Sheron Menezzes, Danton Mello, Débora Lamm, Gisele Itié, Fabrício Boliveira vão acumulando cenas nas quais o drama ganha maior proporção. E a atuação do casal adolescente vivido por Madu Almeida e Luigi Montez consegue, no máximo, irritar o espectador.  

A história tem ares de adaptação teatral, poderia facilmente ser transportada para os palcos. Carla e Gabriel (Sheron e Danton) acabaram de se mudar para uma bela casa, e recebem os amigos para apresentar o espaço: o solteirão pegador João (Boliveira), e o casal vivido por Luciana (Gisele Itié) e Paula (Débora Lamm). 


O atrito começa quando a filha dos anfitriões, Alice (Madu Almeida), se irrita com o controle da mãe sobre sua vida e o uso do celular. Ela diz que não tem nada a esconder, e que duvida que os adultos tenham coragem de deixar os celulares desbloqueados com todo o conteúdo à disposição. 

Aí vem a sequência de apitos de mensagens que tentam criar tensão, apresentando pistas falsas e deixando no ar os possíveis segredos de cada um. Com sonoplastia discreta e a câmera atuando de forma quase didática em alguns momentos, a obra entrega zero momentos engraçados. 

Mais uma obra de comédia brasileira. Porém, na categoria de filmes esquecíveis. 


Ficha Técnica:
Direção: Júlia Jordão
Produção: Quitanda Filmes, coprodução Arpoador Filmes e Sony Pictures
Distribuição: Sony Pictures
Duração: 1h31
Exibição: salas da rede Cineart e demais cinemas
Classificação: 14 anos
País: Brasil
Gênero: comédia

12 dezembro 2025

"Sorry, Baby" reflete sobre o impacto de uma agressão sexual na vida de uma mulher

A cineasta e roteirista franco-americana Eva Victor também protagoniza este drama que narra sua própria experiência no passado (Fotos: A24)
 
 

Patrícia Cassese

 
No dia 19 de novembro deste ano, a Organização Mundial da Saúde divulgou dados apontando que cerca de 840 milhões de mulheres em todo o mundo já sofreram algum episódio de violência doméstica ou sexual ao longo da vida. 

Na ocasião, Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da agência especializada da ONU, lembrou que, por trás de cada um desses corpos que compõem a estatística, uma vida foi alterada para sempre. 

O número, claro, pode ser muito maior, já que muitas vítimas sequer denunciam as agressões sofridas. Em cartaz no Cineart Ponteio e demais cinemas, "Sorry, Baby", primeiro longa-metragem da cineasta e roteirista franco-americana Eva Victor, tem como espinha dorsal justamente um caso de abuso. 


No caso, impetrado por um homem do círculo de convívio da vítima - o orientador da tese da personagem central, a estudante Agnes, interpretada pela própria Eva, hoje com 31 anos.

Embora o início da narrativa flagre a personagem passados alguns anos do fatídico episódio, não demora para que o espectador tenha a contextualização dos eventos que antecederam esse momento. 

Agnes é abusada pelo professor/orientador Preston Decker (Louis Cancelmi) durante um encontro na casa do docente, teoricamente articulado por uma revisão de alguns pontos do trabalho da garota - o qual, aliás, ele tece elogios. A câmara não mostra exatamente o que acontece ali dentro. 


O detalhamento possível (posto que um acontecimento desse impacto não raro turva a mente da vítima) chega ao público por meio do relato de Agnes à amiga com a qual divide a casa, Lydie (Naomi Ackie). 

De todo modo, a diretora marca pontos ao, no momento em que a violência se desenrola, fixa a câmera diante da parte frontal da residência de Decker, passando a sinalizar a passagem das horas pela variação cromática que marca o dia. 

A sequência encerra-se com a noite já caída, quando Agnes sai apressada e extremamente nervosa da casa, preocupada em amarrar os cadarços de suas botas e sem olhar para trás. 


Corroborando as palavras do diretor da OMS, citadas no início da matéria, naquele dia, a vida de Agnes é, pois, alterada para sempre. Ao contrário das mulheres que silenciam, porém, ela resolve sim, se submeter a um exame de corpo de delito até para ter subsídios em uma eventual denúncia contra o agressor. 

As perguntas protocolares do médico - sim, um homem - encarregado do atendimento já deixam claro que Agnes não vai encontrar, ali, a guarida necessária. 

Mais tarde, ao tentar levar o caso à própria instituição de ensino, a jovem se depara com outra barreira: horas antes, a pretexto de ir morar em Nova Iorque, o agressor se desligou do quadro de funcionários da universidade. Assim, como o relato da dicente se dá após a saída dele, eventuais sanções profissionais não podem mais ser aplicadas por lá.


Em um misto de raiva, dor, impotência, Agnes chega a pensar em soluções extremas, embora não leve o plano que lhe acorre à cabeça a cabo. Resta-lhe, pois, seguir tocando a vida, ainda que as implicações do ocorrido sigam assombrando a garota, num compasso demarcado com muita sagacidade pela diretora. 

Inclusive na escolha dos figurinos pós-evento, severos, marcados por tons sombrios, fechados, e de modelagem ampla, inclusive "masculinizada" - como se fosse uma saída inconsciente para que seu corpo deixe de provocar desejo nos homens.

Neste percurso, várias nuances de uma agressão sexual são abordadas de forma muito competente. Caso da reconexão de Agnes com a possibilidade de afeto, ativada quando, no meio de um trajeto, se depara com um filhote de gato. Ou seja, um ser que demanda cuidados. 


Ou, ainda, de uma situação inusitada e específica que envolve o felino. Da mesma maneira, quando ela entende ser o momento de tentar reativar a pulsão sexual, que foi bruscamente interrompida. 

Há uma cena particularmente curiosa, quando a jovem, escolhida para compor um corpo de jurados, pede ao tribunal que seja dispensada, por ter vivido uma situação de violência que pode influenciar em suas deliberações. 

Ao ser instada a falar mais detalhes, ela pontua que não quer compartilhar o episódio que sofreu com estranhos. No entanto, em outra cena, é a um estranho - um homem que vende sanduíches - que a socorre em um ataque de pânico que ela resolve se abrir um pouco. Aliás, atenção para esse diálogo, muito contundente e assertivo.


A palavra "sorry", do título, é proferida durante o filme mais de uma vez, inclusive na já referida situação envolvendo o gato. Mas é no final, quando Agnes estabelece uma conversa com um interlocutor muito particular (não dá para citar pormenores), é que o filme endossa o que já de certa forma já estava no cerne da conversa com o vendedor de sanduíches, com a amiga de vida e mesmo com o vizinho de casa. 

Se não há nada que possa afastar o mal de nosso caminho, que pelo menos seja possível encontrar pessoas que possam nos ajudar a reunir forças para seguir adiante.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Eva Victor
Produção: High Frequency Entertainment, Big Beach, Tango Entertainment, Pastel
Distribuição: Mares Filmes e Alpha Filmes
Exibição: Cineart Ponteio e rede Cinemark
Duração: 1h44
Classificação: 14 anos
Países: Espanha, França
Gêneros: drama, comédia