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24 maio 2026

VERdeCINE 2026 transforma Lavras em espaço de diálogo entre cinema, infância e sustentabilidade

Festival de cinema promove a exibição de 17 obras audiovisuais e dezenas de atividades culturais e
educativas gratuitas (Fotos: Divulgação)
 
 

Da Redação

 
Lavras recebe, entre os dias 29 e 31 de maio, sexta-feira a domingo, a edição 2026 do VERdeCINE – Festival Socioambiental de Filmes, evento cultural e educativo que utiliza o audiovisual como ferramenta de transformação social e ambiental. 

Com programação gratuita no CEU Lavrinhas e na Praça Dr. Augusto Silva, o festival reúne a exibição de 17 obras audiovisuais em mais de 20 sessões de cinema, além de dezenas de atividades culturais e educativas, entre rodas de conversa, apresentações culturais, oficinas, feira de economia solidária e ações voltadas para a infância, educação e sustentabilidade.

A programação deste ano ganha um significado especial ao integrar o encerramento da Semana do Brincar em Lavras e abrir os diálogos para a construção do Plano Municipal da Primeira Infância, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação. 

Renata Meirelles (Foto: David Vêluz)

Um dos destaques da edição será a presença da pesquisadora, documentarista e educadora Renata Meirelles, referência nacional quando o assunto é infância e cultura do brincar.

Idealizadora do projeto Território do Brincar, Renata é co-diretora e roteirista dos longas-metragens "Território do Brincar" e "Do Colo da Terra", além de autora de livros, curadora de exposições e pesquisadora dedicada às infâncias brasileiras. Sua participação marca a programação dos dias 30 e 31 de maio, com sessões especiais e conversas abertas ao público.

 “O VERdeCINE nasce do desejo de aproximar as pessoas de temas urgentes por meio do cinema e do encontro. Nesta edição, a infância ocupa um lugar muito potente dentro da programação, trazendo reflexões sobre escuta, pertencimento, educação e cuidado com os territórios e com as pessoas. É muito simbólico receber a Renata Meirelles justamente neste momento em que Lavras começa a dialogar sobre a construção do Plano da Primeira Infância”, destaca a coordenadora do festival, Cristiane Pederiva.

VERdeCINE de 2025

No dia 29 de maio o CEU Lavrinhas recebe sessões voltadas para estudantes da rede pública, às 8h, 13h e 15h30, com exibição de filmes seguida de conversa. Entre os destaques estão a animação "O Jardim Mágico" (PR), o híbrido "Habitar" (SP) e filmes produzidos por estudantes das escolas municipais Oscar Botelho e Paulo Lourenço Menicucci.

Às 9h, acontece a abertura oficial do festival, com exibição de filmes e bate-papo sobre a trajetória do VERdeCINE. Ao longo da tarde e da noite, o espaço também recebe a Feira da Economia Solidária.

A programação infantil traz o longa de animação "Papaya" (SP), às 18h. Já às 20h, a sessão voltada ao público da EJAI apresenta os filmes "Às Compras" (RJ) e "Presépio" (RJ), acompanhados de apresentação musical e do tradicional Caldo VERdeCINE.

Animação "Umassuma - Lascas de Memória" (PA)

Cinema, brincadeiras e infância

No sábado, 30 de maio, o festival amplia o diálogo entre cinema, educação e infância. Das 9h às 12h, o público poderá participar da atividade especial da Semana do Brincar e da construção do Plano da Primeira Infância, com exibição do documentário "Do Colo da Terra" e presença da diretora Renata Meirelles.

A programação do dia inclui ainda Feira da Economia Solidária, apresentação musical, oficina “A Escola que Eu Quero”, contação de histórias e brincadeiras “Entre Letras e Brincares”, realizada pela UFLA, além de sessões infantis e exibições de filmes seguidas de conversa.

Oficina Escola (Foto: Pedro Michelli)

Entre os filmes exibidos ao longo do sábado estão "Cartas Pela Paz" (RJ), "Presépio" (RJ), "Dois Passos" (GO), "Ponto de Partida" (SP), "Quanto Vale?" (MG), "Às Compras" (RJ), "Memória das Escolas da Floresta em Rondônia" (RO), "Da Aldeia à Universidade" (TO) e "Habitar" (SP).

A sessão infantil das 16h apresenta "O Jardim Mágico" (PR) e "Umassuma – Lascas de Memórias" (PA). Na mesma faixa de programação, a Sessão Água exibe "Guardiões das Águas" (PE), filme realizado por crianças em ambiente escolar, além de produções desenvolvidas nas Oficinas Cinema na Escola com estudantes das escolas Oscar Botelho e Paulo Lourenço Menicucci.

Encerramento

No domingo, 31 de maio, a programação segue na Praça Dr. Augusto Silva, no Centro de Lavras, reunindo atividades culturais e sessões gratuitas ao longo de todo o dia.

A manhã começa com apresentação teatral do Grupo Construção, às 9h. Em seguida, acontece a sessão em homenagem a Renata Meirelles, com exibição da série documental "Território do Brincar", encerrando oficialmente a Semana do Brincar na cidade e ampliando os debates sobre a construção do Plano da Primeira Infância.

"Memória das Escolas da Floresta em Rondônia" (RO)

Ao longo da manhã, o público poderá participar da oficina “A Escola que Eu Quero”, promovida pelo Unilavras, além de assistir aos filmes produzidos nas oficinas Cinema na Escola pelas escolas municipais Oscar Botelho e Paulo Lourenço Menicucci.

A programação infantil apresenta as animações "O Jardim Mágico" (PR), "Umassuma – Lascas de Memórias" (PA) e o longa "Papaya" (SP). Durante a tarde, o festival exibe os filmes "Habitar" (SP), "Da Aldeia à Universidade" (TO), "Memória das Escolas da Floresta em Rondônia" (RO), "Às Compras" (RJ), "Quanto Vale?" (MG), "Cartas Pela Paz" (RJ), "Presépio" (RJ), "Dois Passos" (GO) e "Um Filme de Ficção" (SP), sempre seguidos de conversa com o público.

O encerramento da programação será marcado por apresentação musical às 18h.


SERVIÇO
VERdeCINE – Festival Socioambiental de Filmes
Data:
29 a 31 de maio de 2026
Locais: CEU – Centro de Artes e Esporte Unificados (Lavrinhas) e Praça Dr. Augusto Silva – Centro de Lavras
Programação: gratuita com sessões de cinema, debates, oficinas, apresentações culturais, atividades infantis e Feira da Economia Solidária
Classificação: livre
Informações: @verdecine e www.verdecine.com.br

13 maio 2026

Instigante e criativo, "Eu Não Te Ouço" é um convite ao diálogo no país da intolerância


Márcio Vito faz ótima interpretação dos dois papéis do filme: o caminhoneiro e o patriota do caminhão
(Fotos: Amaia Distribuidora)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
Certamente muitos vão se lembrar do estranhíssimo caso do manifestante que, revoltado, se agarrou a um caminhão cujo motorista se recusou a parar e se juntar a ele na tentativa de bloquear as estradas e paralisar o país. Era novembro de 2022, a eleição presidencial estava encerrada, mas parte dos brasileiros não aceitou o resultado. 

O vídeo do homem de camisa e boné amarelos se segurando de braços abertos como um Cristo à frente de um caminhão viralizou nas redes sociais e não faltaram memes do caroneiro patriota passeando pelas estradas de várias partes do mundo.

Reprodução


Foi mesmo uma sacada genial do ator e diretor Caco Ciocler, que decidiu transformar essa história bizarra em um interessante road movie, em que um motorista de caminhão e seu passageiro preso ao veículo  tentam manter alguma conversa. 

Mas por estarem separados pelo vidro, a prosa dos dois se transforma num diálogo de surdos e ninguém se entende, enquanto os temas vão além da política, passando por filosofia, Deus, o diabo, família, filosofia, escolhas, cotidiano etc etc. 

O longa "Eu Não Te Ouço", que estreia dia 14 de maio no UNA Cine Belas Artes, encerra a chamada Trilogia Política de Ciocler, que antes dirigiu "Partida" (2019) e "O Melhor Lugar do Mundo É Agora" (2021).


Outra sacada incrível de Caco Ciocler, que aliás assina também o roteiro com Isabel Teixeira e Márcio Vito, foi se colocar no filme como um documentarista. Do início ao fim, apenas por meio da sua voz, ele levanta assuntos, pergunta, provoca e instiga motorista e patriota, que expõem seus pontos de vista em monólogos entrecortados, enquanto o caminhão desliza pela rodovia, se desviando de outros veículos apressados e enfrentando os inevitáveis baques dos buracos do asfalto. 

Para falar do artista Márcio Vito é preciso um capítulo à parte. Em mais um atrevimento dos roteiristas e do diretor, a ideia de fazer com que o mesmo ator fizesse ambos os papéis, foi um acerto e tanto. E Vito se sai muito bem, intercalando o motorista e o patriota, interpretando textos que vão do cômico à reflexão séria e necessária. 


Não por acaso, ele recebeu o troféu de Melhor Ator na Mostra Novos Rumos do Festival do Rio. Mais do que merecido. O duplo papel acaba por tornar-se outra metáfora do longa, como se o filme quisesse mostrar como somos ao mesmo tempo diferentes e humanamente iguais.

Mais um acerto de "Eu Não Te Ouço": como se passa apenas e tão somente na estrada e em movimento, o barulho infernal da rodovia torna-se uma instigante trilha sonora, com suas freadas, ronco de motores e buzinas. 

Enfim, ao retomar o estranho caso do caroneiro patriota, Caco Ciocler provoca o espectador e o faz refletir sobre a falta de diálogo, a polarização nefasta e a intolerância que impera no país. Quem sabe o filme possa ser um convite a - quem sabe? - (re)construir este Brasil?


Ficha técnica:
Direção: Caco Ciocler
Roteiro: Caco Ciocler, Isabel Teixeira e Márcio Vito
Produção: AMAIA Filmes, coprodução UNO Filmes, 555 Studios e Schifiguer
Distribuição: AMAIA Distribuidora
Exibição: Una Cine Belas Artes
Duração: 1h11
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gêneros: road movie, comédia

29 abril 2026

Cineart Open Air volta a BH mais sofisticado, acessível e ultra sensorial

Programação acontece de quinta a domingo no Espaço 356, com filmes, shows e atividades para a família
(Fotos: Cineart/Divulgação)
 
 

Da Redação

 
De 30 de abril a 31 de maio, o Cineart Open Air está de volta a Belo Horizonte no Espaço 356, bairro Olhos D'Água, em uma edição mais ambiciosa, mais sofisticada e muito mais expandida, com sessões Premium a céu aberto a partir de R$ 40,00.

O projeto retorna com mais força em uma parceria com a produtora de eventos Box. A promessa é transformar novamente o céu da capital em telão, mas com um upgrade claro de proposta. 

O cinema continua sendo o coração da experiência, só que agora pulsa cercado por música ao vivo, DJs, festas temáticas, ambientação sensorial, gastronomia de primeira e uma programação pensada para prolongar a emoção muito além dos créditos finais. 


De quinta a sábado, as noites começam com um filme e seguem com diferentes desdobramentos. Às quintas, o espaço recebe noites de jazz e arte assinadas pelo DJ Leandro Rallo, Amy Wine Bar e Forninho, com sessões mais intimistas e intervenções artísticas. Às sextas, a programação se desdobra em happy hours com DJs convidados e bebidas especiais. 

As noites de sábado terão sessões temáticas seguidas de after parties assinadas por marcas aclamadas em BH, como Cafofo, Baile do Birico e Jack in the House. Todas especialmente desenhadas para conversar com a atmosfera do longa exibido. 

Já os domingos serão dedicados às famílias, com atividades infantis, oficinas e brincadeiras durante o dia ao ar livre, em parceria com o Extremo Park, o parque indoor do Espaço 356, antes de uma sessão ao final da tarde pensada para todas as idades. As atividades estão incluídas no valor do ingresso.


Uma estreia de peso

A edição deste ano também ganha um gancho pop poderoso. A estreia da temporada coincide com a chegada de “O Diabo Veste Prada 2”, um dos títulos mais aguardados de 2026 e capaz de conectar moda, cultura pop e cinema de forma quase irresistível. 

A programação reúne ainda outros títulos de forte apelo, como “Michael”, a cinebiografia que conta a história do Rei do Pop, Michael Jackson. Além desses, também serão exibidos títulos como “Super Mario Galaxy” e "Marte Um" (2022), promovendo o cinema nacional, dentre outros filmes que ainda serão divulgados.

Para Lúcio Otoni, diretor da Rede Cineart, o novo formato nasce de uma escuta atenta ao que o público demonstrou desejar na primeira edição. “O primeiro Open Air já mostrou que Belo Horizonte queria mais do que uma sessão especial ao ar livre. Queria viver uma noite ou tarde inteira em torno do filme e para além. Esta nova edição nasce justamente desse entendimento. O cinema continua sendo o centro, mas agora a experiência cresce em volta dele, com música, atmosfera, permanência e uma curadoria pensada para transformar a ida ao cinema em um acontecimento”, afirma.


Tudo em volta da tela

O público encontrará uma tela de 11m x 6m, projeção Barco 2K, som Dolby Digital 5.1, além de cadeiras estilo praia, pufes, mantas personalizadas e aquecedores para as noites mais frias.

Em volta da sessão, a experiência se completa com gastronomia, assinada pelo restaurante Barolio, carta de vinhos, drinques selecionados, bomboniére gourmet, um lounge com vista panorâmica para Belo Horizonte (onde música ao vivo e DJs ajudam a construir a atmosfera do evento) e muito mais.


Segundo Otoni, o projeto reafirma uma visão de experiência para a marca e representa um “universo sensorial completo”, em que gastronomia, cenografia e entretenimento se unem para criar momentos únicos. 

“A Cineart acredita cada vez mais no cinema como experiência. A sala escura continua sendo um lugar insubstituível, mas há formatos que permitem expandir essa potência e criar novos rituais em torno da sétima arte. O Open Air é uma forma de valorizar o filme e, ao mesmo tempo, tudo o que pode nascer em volta dele: encontro, cidade, música, celebração e memória”, comenta.

Funcionamento

Serão vendidos 120 ingressos por sessão, todos com direito ao filme e à programação do dia, incluindo as after parties ou atividades correspondentes. Esses ingressos custam R$ 80,00 a inteira e R$ 40,00 a meia, com vendas pelo site da Cineart


Além disso, a parte noturna terá também venda de ingressos avulsos para quem quiser participar apenas das festas posteriores à sessão, comercializados pelo app da Ingresse.

Os links das duas modalidades podem ser conferidos nos canais oficiais da Cineart e Ingresse. Os assentos das sessões serão livres, numa escolha que favorece um clima mais solto e convida o público a chegar antes, circular, ocupar o espaço com mais liberdade e entrar gradualmente no ritmo da noite (ou da tarde, no caso dos domingos).

Para o diretor da Cineart, o Open Air ajuda a consolidar Belo Horizonte como uma praça preparada para experiências culturais mais autorais, mais Premium e mais híbridas.


Serviço:
Cineart Open Air 2026
Período: de 29 de abril a 31 de maio
Dias: quinta a domingo
Horários: quintas a sábados, a partir das 18h
                domingos, a partir das 12h (com atividades infantis incluídas no ingresso)
Local: Espaço 356 - Rua Adriano Chaves e Matos, 100 - Olhos D'Água, Belo Horizonte
Ingresso cinema + experiência do dia: R$ 80,00 inteira / R$ 40,00 meia 
Venda: site da Cineart - https://cineart.com.br/cinema/cineart-open-air
Ingresso só after party: R$ 80,00 em média
Venda: app ou site da Ingresse - https://www.ingresse.com/cineart-open-air-30-de-abril-a-31-de-maio/



21 abril 2026

“Michael” acerta ao transformar espetáculo em emoção

Jaafar Jackson entrega a grande aposta do filme ao interpretar o tio com precisão (Fotos: Universal Pictures)
 
 

Robhson Abreu e Maristela Bretas
Parceiro da Revista PQN, Jornal de Belô e Bloco de Belô


Há filmes que procuram apenas contar uma história. Outros tentam reconstruir um mito. "Michael", no entanto, vai além dessas missões. O longa, dirigido por Antoine Fuqua (responsável por sucessos como a trilogia "O Protetor" 2014, 2018 e 2023 e "Sete Homens e um Destino" - 2016), estreou nesta terça-feira (21) nos cinemas brasileiros e mira no centro de uma das figuras mais complexas e influentes da cultura pop. 

O que se vê é uma tentativa de devolver a Michael Jackson aquilo que o tempo, a fama e o próprio excesso de reverência muitas vezes lhe roubaram, sua dimensão humana. E é aí que o filme encontra sua força mais rara. Não apenas no brilho do ícone, mas na dor, na solidão e na pulsação íntima de um artista que se tornou maior do que a própria imagem.


O grande triunfo da produção, que custou mais de US$ 155 milhões, está na atuação de Jaafar Jackson, sobrinho de Michael e filho de Jermaine, o irmão mais velho e um dos integrantes da primeira geração do The Jackson 5. 

Em sua primeira grande passagem pelo cinema, Jaafar não interpreta o tio como quem reproduz um repertório de gestos conhecidos pelo mundo inteiro, ele o encarna com uma entrega que impressiona pela precisão e pela emoção. 


Há no seu trabalho uma combinação difícil de alcançar como a semelhança física, o domínio corporal, a respiração cênica, o olhar que alterna insegurança e magnetismo. Jaafar não copia Michael. Ele o reconstrói por dentro e dá ao personagem uma presença que vai além da lembrança nostálgica. Seu desempenho carrega o peso de uma herança monumental, mas também a coragem de não se esconder atrás dela.

Nos momentos musicais, Jaafar parece habitar um território em que técnica e encantamento se confundem. A dança não surge como truque, e sim como linguagem. A voz, embora inevitavelmente comparada à do artista original, não soa como simples reprodução. Ela tenta captar o espírito de uma assinatura vocal que moldou gerações. 


Mas é nas passagens mais silenciosas que o ator encontra sua maior potência. Quando o filme desacelera e deixa o espetáculo em segundo plano, Jaafar revela um Michael mais vulnerável, quase ferido pela própria grandeza. É nesses instantes que a performance ganha densidade dramática e faz o filme respirar.

O elenco de apoio também sustenta bem essa construção. Colman Domingo ("Rustin" - 2024), como Joe Jackson, imprime peso e tensão à narrativa, sem jamais diluir a sombra paterna que marcou a trajetória do cantor. Sua presença em cena tem autoridade e desconforto na medida certa. 


Nia Long ("The Banker", 2020) como Katherine Jackson, oferece um contraponto de ternura e resistência, emprestando ao núcleo familiar uma delicadeza que impede o filme de se tornar apenas um desfile de traumas.

Destaque também para Juliano Krue Valdi, que interpreta Michael criança, um garoto muito fofo que deu o tom certo ao personagem no período do surgimento do The Jackson 5. Cada coadjuvante, à sua maneira, ajuda a compor o ambiente em que o cantor e compositor foi forjado, pressionado e, muitas vezes, esmagado.

"Michael" dialoga diretamente com a cultura pop. O filme não trata apenas de um astro, mas de um fenômeno que moldou linguagem, imagem, coreografia, moda e comportamento. Michael Jackson não foi apenas um cantor, ele foi uma gramática estética que atravessou décadas e segue influenciando o entretenimento mundial. 


Revisitá-lo no presente é também uma forma de reavaliar o modo como a cultura pop fabrica ídolos, os consome e depois tenta decifrá-los. Nesse sentido, o longa, que vai dos anos 1960 até 1980, tem algo de ritual e de reparação. 

Explica alguns fatos da infância e da adolescência do artista - sua paixão por animais, o vitiligo que começa a se manifestar na pele, a obsessão por brinquedos e compras e o início do consumo de remédios.

Não podemos esquecer, no entanto, que a produção do filme é da família Jackson, que deixa de fora do enredo momentos comprometedores e complexos da vida do cantor e de suas relações pessoais e judiciais. A continuação está prevista para 2027 (ainda sem confirmação) que deverá abordar a fase adulta de Michael. 


Sem falar na reconstrução de clipes memoráveis que estão em nossas memórias por décadas como “Thriller”, "Bad", “Beat it”, “Dont' stop til you get enough”, entre outras. 

Algo fantástico para todos nós que só vimos o produto pronto e não como foi feito na época. É emocionante ver um ídolo sendo recriado com tanta emoção e carisma. Dá vontade de ver todo dia!

Com a ambição que exibe a força de seu protagonista e o apelo universal do personagem central, "Michael" entra naturalmente na conversa sobre a temporada de prêmios e com certeza desponta como um nome a ser observado com atenção rumo ao Oscar 2027. 


Filmes biográficos musicais costumam encontrar ressonância na Academia quando combinam transformação física, densidade emocional e apuro técnico. E em "Michael" há material de sobra para isso. 

Se mantiver o impacto que a interpretação de Jaafar Jackson sugere, o filme pode ir muito além da homenagem. Ele poderá se tornar um dos grandes eventos cinematográficos da década, assim como sempre foi o mito Michael Jackson, com uma expectativa dos produtores de atingir US$ 1 bilhão na bilheteria mundial. 


Ficha técnica:
Direção: Antoine Fuqua
Produção: Lionsgate, GK Films
Distribuição: Universal Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h05
Classificação: 12 anos
País: EUA
Gêneros: musical, drama, biografia

08 abril 2026

Até onde vai a confiança de Robert Pattinson em Zendaya? Confira em "O Drama"

Revelação de segredos do passado e do presente ameaça o momento que deveria ser o mais feliz do casal (Fotos: Diamond Films Brasil)
 
 

Maristela Bretas

 
Um encontro nada casual, dois jovens decididos a se casar e um segredo revelado às vésperas da cerimônia capaz de destruir tudo. Essa é a premissa de "O Drama" ("The Drama"), que estreia nesta quinta-feira (9) nos cinemas. 

Vendido como comédia romântica, o filme se aproxima muito mais do drama com suspense - e acerta ao apostar nisso.  Seu maior trunfo são as atuações afiadas de Zendaya ("Rivais" - 2024) e Robert Pattinson ("Mickey 17" - 2025), que funcionam com intensidade e química na primeira parceria em cena.


Eles vivem Emma e Charlie, que se conhecem em um encontro armado por ele numa cafeteria. A relação avança rápido até o noivado. Às vésperas do casamento, durante uma brincadeira entre casais, um segredo do passado da noiva vem à tona - e desestabiliza a confiança não só entra ela e Charlie, mas de todo o grupo.

Até onde um segredo nunca revelado pode corroer uma relação construída sobre amor e cumplicidade? Entre intrigas, traições e desconfianças, o diretor e roteirista Kristoffer Borgli vai criando um ambiente sufocante, marcado por tensão crescente, constrangimentos e doses certeiras de humor sombrio. Um exemplo disso é a cena desconfortável do casal com a fotógrafa do casamento, um dia após as revelações. 


O que deveria ser o momento mais feliz da vida a dois se transforma numa batalha silenciosa, que desgasta a relação dia após dia. O filme abandona rapidamente a leveza inicial e mergulha numa narrativa de suspense psicológico, cheia de reviravoltas, onde até a sanidade dos protagonistas passa a ser questionada.

Borgli conduz a trama com precisão ao explorar fragilidades e ressentimentos. Emma carrega um trauma do passado que ameaça destruir seu presente. 


Charlie, por sua vez, revela-se um homem inseguro e emocionalmente despreparado para lidar com a verdade. Zendaya e Pattinson entregam atuações intensas, transmitindo angústia em olhares, gestos e silêncios que adoecem a relação diante do espectador.

O elenco de apoio também se destaca, especialmente os padrinhos Rachel e Mike, interpretados por Alana Haim (“Uma Batalha Após a Outra” - 2025) e Mamoudou Athie (“Jurassic World: Domínio” - 2022). São eles que acendem o estopim do conflito e rapidamente expõem a superficialidade e a hipocrisia que sustentavam a amizade com o casal.


Ao longo de "O Drama", novas revelações aprofundam o desconforto e provocam o público a repensar ideias romantizadas sobre amor, confiança e culpa. Não espere um final reconfortante. 

O que fica é um nó na garganta — e a sensação incômoda de que talvez o filme diga mais sobre relações reais do que gostaríamos de admitir.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Kristoffer Borgli
Produção: A24
Distribuição: Diamond Films Brasil
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h46
Classificação: 16 anos
País: EUA
Gêneros: drama, romance

07 abril 2026

“Cinco Tipos de Medo”: thriller brasileiro entrelaça, com qualidade, histórias e personagens

Filme marca a estreia no cinema dos atores de séries e telenovelas Bella Campos e Xamã, que conquistou
o troféu de Melhor Ator Coadjuvante no Festival de Cinema de Gramado (Fotos: Divulgação)
 
 

Eduardo Jr.

 
O cinema nacional vive, de fato, uma boa fase no quesito qualidade. O exemplo mais recente dessa safra é o interessante “Cinco Tipos de Medo”. Já com alguns prêmios na bagagem, o longa distribuído pela Downtown Filmes estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 9 de abril.  

Dirigido e roteirizado por Bruno Bini, o longa cruza, com habilidade, as histórias de cinco personagens. Talvez a proposta faça alguns leitores aqui se lembrarem do premiado “Crash: No Limite” (EUA, 2004). Ambos começam com reflexões do protagonista, entrelaçam histórias e entregam roteiros surpreendentes. 


Em “Cinco Tipos de Medo”, um jovem músico lida com uma perda e se envolve num romance que traz mais problemas do que paz. É quando começam a se cruzar as histórias de um traficante, um advogado de comportamento suspeito e uma policial com desejo de vingança.

A história se passa na periferia de Cuiabá (MT), cenário pouco explorado no audiovisual brasileiro. Ponto positivo para esta escolha. E apesar de ser um thriller, a direção consegue levar o olhar do espectador para além da tensão típica do gênero, com questões como a Covid-19, relacionamentos abusivos e para a ausência do estado em algumas comunidades, que leva pessoas a contar mais com o crime do que com o poder público.


O início já apresenta algo que chama a atenção, um aviso de que o longa se inspira em histórias reais. Logo depois, é mencionada uma pesquisa (sem informar a fonte ou se é real), sobre os maiores medos do homem: de médico, de lugares fechados, da solidão, de ficar sem dinheiro, e só então, no espantoso quinto lugar da lista, o medo de morrer. 

Bruno Bini, então, vai colorindo suas personagens com as tintas dessas preocupações. 


E o elenco, em sua maioria, dá conta do recado ao imprimir nas personagens esses traços. O filme conta com Bella Campos (Marlene) e Xamã (Sapinho) - ambos estrearam no cinema com este longa -, João Vítor Silva (Murilo), Bárbara Colen (a policial Luciana), Rui Ricardo Diaz (Ivan), Rejane Faria (Antônia), Jonathan Haaggensen (Hugo) e Zecarlos Machado (Régis).   

Criminalidade, suspense e violência dão corpo a esse thriller, que tem cenas apresentadas sem linearidade, mas que se encaixam bem no conjunto da obra. A luz correta, a fotografia bem executada, as conexões das histórias e as reviravoltas agradam bastante. 


Não por acaso o longa conquistou, no Festival de Gramado de 2025, os prêmios de Melhor Filme, Melhor Roteiro, Melhor Montagem, para Bruno Bini, além do troféu de Melhor Ator Coadjuvante para Xamã. E ainda viaja para disputas em festivais internacionais. 

Pode não ser um filme daqueles que conquistam indicações ao Oscar, mas prende o olhar do espectador na tela do início ao fim.  


Ficha Técnica:
Direção e roteiro: Bruno Bini
Produção: Plano B Filmes, Druzina Content, coprodução Quanta
Distribuição: Downtown Filmes
Exibição: salas da rede Cineart
Duração: 1h47
Classificação: 16 anos
País: Brasil
Gêneros: drama, ação

20 março 2026

"Enzo" flagra o embate de um adolescente com sua sexualidade e uma realidade de privilégios

Eloy Pohu e Maksym Slivinskyi são colegas num canteiro de obras onde trabalham como pedreiros e
criam uma amizade que vai além do trabalho (Fotos: Mares Filmes)
 
 

Patrícia Cassese

 
Há um ponto importante a preceder a análise de "Enzo", produção francesa que entra agora em cartaz na cidade. É que, já com o projeto em curso, o diretor Laurent Cantet teve que lidar com o agravamento do seu quadro de saúde, em função de um câncer. 

Consciente de seu pouco tempo de vida, ele teria chegado a aventar o arquivamento do projeto. A ideia, no entanto, foi refutada pelo seu parceiro de trabalho de toda vida, o também diretor Robin Campillo ("120 Batimentos por Minuto"), que, no quarto de um hospital, manifestou o desejo de tocar a empreitada. 

Cantet faleceu aos 63 anos, em abril de 2024. Com absoluto respeito ao caminho já delineado pelo amigo - a quem havia conhecido quatro décadas antes -, Campillo seguiu resoluto e, assim, no ano passado, o filme, enfim, chegou às salas exibidoras na Europa.


"Enzo" se filia ao escaninho dos filmes que lançam um olhar sobre o rito de passagem da adolescência para a vida adulta por meio do personagem citado no título, um garoto de 16 anos (vivido por Eloy Pohu). 

Ele surge pela primeira vez em cena sendo repreendido pelo ritmo lento com o qual executa suas tarefas como aprendiz de operário em uma casa em construção. 

Sem paciência com o jovem, Corelli, o chefe de obras, resolve levá-lo de carro de volta à casa, de modo a conversar seriamente com os pais sobre o fraco desempenho do subordinado. 

Ao chegar ao destino, porém, Corelli é impactado por uma realidade à qual de modo algum esperava: é que Enzo mora em uma casa idílica, sofisticada, cool, debruçada sobre a riviera francesa (o filme se passa em La Ciotat, comuna francesa localizada na região da Provença-Alpes-Costa Azul, no sul do país). 


Inclusive, no momento em que adentra a casa, Corelli, desconcertado, vislumbra os pais do menino a se refestelar na piscina, que, vale dizer, circunda toda a casa. 

Simpáticos no último grau, Paolo (Pierfrancesco Favino, ator italiano que já tem um rosto conhecido no Brasil) e Marion (Élodie Bouchez), os genitores, desconcertam Corelli. 

Ao mesmo tempo, ele não consegue entender o que levou um jovem de status tão elevado a se candidatar ao posto de um mero aprendiz num canteiro de obras, cargo nada atraente a pessoas da elite.

A mesma dúvida acompanha o público, mas, no encaminhamento da trama, algumas pistas são lançadas. Ocorre que Enzo simplesmente não encontra seu lugar no mundo, o que pode soar natural na faixa etária em que o personagem se encontra. 

O diferente, aqui, é que o adolescente refuta veementemente o status da família, de modo que, na sequência, quando os colegas de obra manifestam desejo de ir à piscina, ele frisa que a casa não é dele, mas, sim, dos pais. Do mesmo modo, Enzo abandona a escola, por não se sentir confortável inserido no sistema tradicional de ensino.


Compreensivos, os pais de Enzo até tentam com que ele se valha dos seus inequívocos dotes artísticos para, quem sabe, seguir uma carreira neste campo, o que o garoto também descarta. 

O jovem está empenhadíssimo em continuar atuar no campo da construção, mas como operário. A todo tempo, aliás, Enzo questiona os privilégios que desfruta, inclusive em tempos nos quais guerras acontecem em outras partes do mundo. 

Principalmente mediante o contato com dois colegas ucranianos, no citado canteiro de obras. Por meio dos relatos dele, passa inclusive a mergulhar no conflito, não só questionando se ambos não deveriam voltar para casa e lutar pelo país como manifestando o insólito desejo de ir junto e estar no front.

Neste ponto, Vlad (Maksym Slivinskyi), um dos ucranianos, questiona o arroubo do garoto, posto que nem ele entende que deva sair naquele momento da França. Em resposta, Enzo surpreende ao dizer que se sentiria seguro ao lado do colega. 


A verdade é que, além do estranhamento quanto ao status que sua família ocupa em um mundo em desencanto, Enzo também está às voltas com questões ligadas à sexualidade. Assim, ao mesmo tempo em que no curso do filme investe em flertes com garotas de sua faixa etária, vai se conectando cada vez mais a Vlad.

A trama vai se desenrolando temperada pelos pensamentos críticos de Enzo - em determinado momento, por exemplo, ele se pergunta de que adiantaria o luxo alcançado pela família (e refletido pela beleza idílica da casa) se um tsunami ocorresse no local e a destroçasse por completo. 

E por pinceladas de momentos nos quais o público vai prender o fôlego ante a iminência de uma tragédia, como quando ele se deita à beira de um precipício ou quando frustra os planos do pai para o final de semana e se mete em aventuras com os companheiros de obra.


Um detalhe importante é que Eloy Pohu não é um ator de formação. De acordo com matérias publicadas em jornais franceses, ele se dirigiu ao local dos testes apenas para acompanhar o irmão, esse sim, candidato. 

Mas foi justamente sua inexperiência e sua performance contida que conquistou a produção, que enxergou, ali, o intérprete perfeito - mesmo porque, Enzo é um personagem predominantemente introspectivo, ensimesmado, contido... 

Quando os fatores externos o abalam, aí sim, é capaz de atitudes extremas, como a que irrompe na festa de despedida do irmão mais velho, que está para partir rumo a Paris, após conquistar uma bolsa, para orgulho dos pais.

O filme - e isso não é um spoiler - termina em aberto, mostrando que, tal como no mundo real, principalmente quando se é jovem (mas não só), a possibilidade de recalcular rotas se faz presente, ainda que o acerto ou desacerto estejam no espectro das possibilidades. 


Há que se dizer que o "Enzo" é um filme intimista, centrado, como já dissemos, no torvelinho que habita esse jovem. Portanto, que ninguém espere um filme centrado em ações - ainda que, claro, elas estejam na narrativa. 

Por último, mas não menos importante, Cantet é o nome por trás de um filme que fez história ao mostrar a realidade de jovens da periferia de Paris por meio de "Entre os Muros da Escola" (2008), vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes naquele ano. O longa é simplesmente imperdível, e pode ser assistido pelos assinantes do Prime. 

Outro dos filmes dele exibidos nos cinemas do Brasil e atualmente disponível no Google Play é "Em Direção ao Sul" (2005), estrelado por ninguém menos que Charlotte Rampling, e que aborda o turismo de teor sexual - no caso, tendo o Haiti como cenário.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Robin Campillo e Laurent Cantet
Distribuição: Mares Filmes
Exibição: Una Cine Belas Artes
Duração: 1h42
Classificação: 16 anos
Países: França, Itália, Bélgica
Gênero: drama

03 março 2026

“Kokuho: O Preço da Perfeição”, o longa japonês que evidencia o teatro kabuki e desperta impaciência

Filme dirigido por Lee Sang-il e indicado ao Oscar 2026 na categoria Melhor Maquiagem e Penteado
(Fotos: Sato Company)
  
 

Eduardo Jr.

 
O sucesso deve ser reservado apenas a quem tem sangue de artista? Vocação e suor sem sobrenome famoso devem garantir o estrelato? Estas questões certamente vão ressoar na mente do público ao assistir “Kokuho: O Preço da Perfeição” ("Kokuho"), que estreia nos cinemas brasileiros dia 5 de março.

Dirigido por Lee Sang-il e indicado ao Oscar 2026 na categoria Melhor Maquiagem e Penteado, se tornou o longa japonês mais assistido da história do Japão, com mais de 12 milhões de espectadores.


A história começa em 1964, na cidade de Nagasaki, e termina 50 anos depois. No filme, tradições, laços de sangue, arte, ambição e ciúme atravessam as vidas de dois jovens. Kikuo (interpretado por Sōya Kurokawa na adolescência, e Ryô Yoshizawa na fase adulta) assiste ao pai, líder de uma gangue da Yakuza, ser assassinado. 

Órfão, ele passa a viver na casa de Hanai Hanjiro II (Ken Watanabe), um famoso ator do teatro kabuki. Daí, junto de Shunsuke (Keitatsu Koshiyama), filho único do ator, ele decide se dedicar a essa forma de arte.


O kabuki é um teatro surgido no século XVII, após o governo japonês proibir a presença de mulheres nos palcos. Com isso, os homens passam a desempenhar papéis femininos. Interpretam aquilo que não são. Uma bela metáfora sobre um dos dilemas vivido pelo protagonista.

A jornada de Kikuo, agora rebatizado de Toichiro, traz os elementos da humilhação e da dor física em busca da excelência. Mas estes não serão os únicos problemas dele. Herdar um sobrenome de peso, enfrentar o ciúme da família, lidar com a opinião pública, abdicar de aspectos da vida em nome da arte, enfrentar a angústia de não se sentir parte daquele mundo... 

Tudo isso vai criando camadas e se colocando como dramas do personagem – e alongando a história.


“Kokuho: O Preço da Perfeição” é inteligente ao mostrar personalidades complexas, desenvolvidas como num livro. Talvez por ser uma adaptação de um romance de mesmo nome, escrito por Shuichi Yoshida. Não há maniqueísmo. 

O adotado apresenta doçura e fúria, talento e medo; enquanto o herdeiro Shunsuke traz as tintas da ingenuidade, da inveja, da amizade e do revanchismo. Ninguém é só bom ou apenas ruim.

Por outro lado, o longa faz jus ao termo que o caracteriza: é longo! É contemplativo e também cansativo. A grande quantidade de marcações de passagem de tempo deixa as quase três horas de filme ainda maiores. Contar a vida de alguém leva tempo, mas não tira do espectador a sensação de cansaço.  


Durante esse tempo, o público vai desfrutar de câmeras bem posicionadas, colocando algumas cenas como pinturas orientais. Destaque para a cena no cemitério, onde as opiniões têm lados definidos, e as apresentações de kabuki nos palcos.

O termo kokuho significa “tesouro nacional”. Se esse título de importância se refere à arte centenária do teatro ou à pessoa que abre mão de diversas coisas em nome do topo da arte, é algo que fica no ar, indefinido. Assim como o filme: morno, no meio do caminho. Vale à pena assistir, mas desperta mais impaciência do que emoção.  


Ficha técnica:
Direção: Lee Sang-il
Distribuição: Sato Company e Imovision
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h54
Classificação: 14 anos
País: Japão
Gênero: drama