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26 fevereiro 2026

"O Caso dos Estrangeiros": cinco histórias, países diferentes e a mesma busca sofrida por uma vida melhor

Longa é baseado em fatos reais sobre a fuga de refugiados de guerras, suas angústias e esperanças
(Fotos: Paris Filmes)
 
 

Maristela Bretas


A partir das memórias de uma ex-refugiada, "O Caso dos Estrangeiros" ("I Was a Stranger") consegue contar histórias entrelaçadas de refugiados, suas angústias, sofrimentos e esperanças de uma vida melhor. 

Baseado em fatos reais, o filme é um retrato emocionante de uma situação quase diária que acompanhamos pelos noticiários, contada por quem vive ou viveu este drama.

Uma crítica ao título em português: "O Caso dos Estrangeiros" ficou muito ruim e não condiz com as histórias dos personagens. A tradução mais correta seria "Eu era um estrangeiro” ou “Eu era uma pessoa estranha ou desconhecida”, expressões que se aplicariam melhor às condições e fatos narrados por eles.


A narrativa, com diálogos em inglês, árabe e grego, envolve cinco famílias de quatro países diferentes, cujas histórias vão se entrelaçando após uma tragédia, com cada personagem sendo apresentado em fragmentos que vão formar o quebra-cabeça. Aos poucos, o espectador vai entendendo o drama de cada um, como se conheceram e criaram laços. 

O longa é inspirado no curta-metragem “Refugee” (2020), também do diretor e roteirista Brandt Andersen. Tudo começa em abril de 2023, a partir das lembranças da síria Amira (Yasmine Al Massari) que mora e trabalha em um hospital de Chicago, nos EUA. 


É dela o primeiro caso - A Médica -, ocorrido oito anos antes, quando era uma das responsáveis pelo atendimento às vítimas da guerra em Aleppo, na Síria. Para ela, não importava de qual lado vinha a pessoa ferida: como médica, ela dispensava o mesmo esforço. 

O desgaste diário com o sofrimento diário causado pela guerra só quebrado pelas reuniões alegres, com cantorias, na casa dos pais. Até que o conflito chega ao seu lar e a obriga a fugir com a filha do país de forma ilegal.


Na segunda parte - O Soldado - o personagem é Mustafa Faris (Yahya Mahayni), um militar sírio que sempre foi fiel à causa e ao governo. Mas ele passa a questionar seu trabalho e seus superiores após presenciar atrocidades e desvios de conduta. 

A suposta guerra contra terroristas que haviam lhe contado era, na verdade, uma maneira de eliminar os inimigos do governo, não importando o sexo ou a idade do "acusado".


Omar Sy é O Traficante, terceiro personagem. Ele é Marwan, um homem poderoso que mantém uma rede de tráfico de refugiados de quem ele extrai todas as economias para tirá-los ilegalmente da Turquia. 

Essas pessoas, que vivem em acampamentos vigiados pelo exército, querem deixar o país em busca de uma vida melhor na Grécia. Em troca, o traficante oferece um bote inflável inseguro e superlotado, dividido com outras dezenas de emigrantes.

Ao mesmo tempo em que despreza seus "passageiros", Marwan demonstra um amor carinhoso e verdadeiro por seu filho pequeno. E promete ao garoto, um dia, se mudar com ele para os Estados Unidos, a terra das oportunidades. Omar Sy, como esperado, tem uma ótima atuação, mesmo nos momentos de total silêncio.


Entre os refugiados do acampamento militar está nosso quarto personagem - O Poeta - de nome Fathi, papel vivido por Ziad Bakri. Ele, a esposa e os três filhos tentam fugir do local e procuram Marwan para viabilizar a viagem, mesmo sendo a opção mais insegura e perigosa. 

É no embarque para a "Terra Prometida", que todos esses personagens acabam se conhecendo e vão viver o mesmo perigo da travessia insana pelo Mar Mediterrâneo durante uma forte tempestade. 


O quinto caso - O Capitão - concretiza a trama. Ele é Stravos (Constantine Markoulakis), comandante de um dos navios da Guarda Costeira grega que resgata diariamente milhares de refugiados que chegam ao país em botes. Seu maior drama é não ter conseguido salvar todos. Mesmo assim não desiste, colocando muitas vezes sua família em segundo plano.

O sofrimento, as perdas, as escolhas, o desejo de proteger suas famílias e a fé formam a trama de "O Caso dos Estrangeiros". Apesar de terem vidas diferentes, enfrentam traumas semelhantes que as levam até mesmo questionar sua fé em Deus. 

Um viés que a Angel Studios vem apostando há tempos ao entregar produções de cunho religioso, algumas boas, que não extrapolam na pregação convencional. Uma que recomendo para assistir em família e está em cartaz nos cinemas é a animação "Davi - Nasce um Rei".


Além de Omar Sy, as atuações de Yasmine Al Massari e dos personagens principais das demais etapas são muito boas e sustentam a narrativa. 

Outro destaque do longa é a fotografia em tons frios e muitas vezes escuros, ressaltando o dilema de cada um e o reforçando que o futuro pode ser sombrio e vai exigir confiança, persistência e esperança.

"O Caso dos Estrangeiros" não é apenas um protesto do diretor Brandt Andersen, mas também uma forma de mostrar ao mundo um problema que precisa ter um basta, para que as pessoas parem de sofrer tentando fugir de seus países. Infelizmente, a solução está longe de vir de forma pacífica. 


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Brandt Andersen
Produção: The Reel Foundation, Philistine Films, SpaceArt Entertainment, Karma Film Productions
Distribuição: Paris Filmes e Angel Studios
Exibição: Cinemark Patio Savassi
Duração: 1h44
Classificação: 16 anos
Países: Jordânia, Território Palestino Ocupado e EUA
Gênero: drama

15 janeiro 2026

"Davi: Nasce Um Rei" - uma animação cristã sobre força e fé

Com linguagem acessível a todas as idades, filme narra a trajetória do pastor de ovelhas que se tornou
o segundo rei do povo de Israel (Fotos: Heaven Content)
 
 

Maristela Bretas

 
Entrou em cartaz nos cinemas nesta quinta-feira (15), em versão dublada, a animação cristã "Davi: Nasce Um Rei" ("David") que narra, em linguagem acessível a todas as idades, a história bíblica do jovem pastor de ovelhas que enfrentou o gigante Golias com sua fé inabalável e se tornou o segundo rei dos judeus. 

Produzido pela Heaven Content e Sunrise Animation Studios, o longa traz mensagens fortes, de fé e esperança, transmitidas por meio de músicas entoadas pelo elenco, especialmente pelo protagonista, que recebeu as vozes originais de Brandon Engman (Davi menino) e Phil Wickham (Davi adulto).


"Davi: Nasce Um Rei" tem uma narrativa envolvente, até mesmo para aqueles que não conhecem bem as histórias de grandes personagens bíblicos. O lado divertido para as crianças são as ovelhinhas, com seus olhos grandes e muita energia. 

Elas são as companheiras fieis de Davi no início de sua jornada, antes mesmo de ser escolhido para ser o novo rei dos hebreus.

Das canções da mãe que embalavam seu coração às silenciosas conversas com Deus, Davi era um menino adorado por todos, especialmente por seus animais e a irmã caçula. Nascido em Belém e oitavo filho de Jessé, enfrentou e venceu o gigante filisteu, que desafiava o exército de Israel. 


Com sua fé inabalável em Deus e usando apenas uma funda e uma pedra, Davi matou Golias com uma pedrada na testa. Mas sua jornada estava apenas começando. Ele ainda teria de enfrentar outros desafios, como os inimigos do povo hebreu e a inveja do rei Saul (voz de Asim Chaudhry), além de ter sua fé testada a todo instante.

Claro que os detalhes mais violentos narrados na Bíblia são aliviados ou deixados de lado na animação, exatamente por ela ser direcionada a um público infantil. Afinal, o objetivo é apresentar um personagem jovem de coração bom e devoto a Deus.


Os diretores Brent Dawes e Phil Cunningham também tiveram uma grande preocupação com o visual, o ponto mais forte da animação. Eles entregam uma produção com cores vibrantes e um traço bem definido, especialmente dos personagens mostrados em closes que emocionam e ajudam a reforçar as mensagens de coragem e fé inabalável, mesmo nas horas difíceis. 

Também são belas as cenas abertas dos locais por onde Davi passa, tanto dos campos de batalha quanto de pastoreio. 


Mas a animação falha no excesso de músicas cristãs contemporâneas que interrompem a narrativa em momentos importantes. Mesmo tendo Joseph Trapanese (do live-action de "A Dama e o Vagabundo" - 2019 e "O Rei do Show" - 2017) como responsável pela trilha sonora e as poderosas vozes de Lauren Daigle (vencedora de dois Grammys) e do cantor evangélico Phil Wickham.

Outro ponto negativo é o fato de o roteiro dedicar pouco tempo para momentos importantes da trajetória de Davi, como o confronto com Golias, fato que mudou sua vida. Era para ser um dos pontos de maior destaque, mas passou mais rápido que o passeio de Davi com suas ovelhas do início do longa.


Excelente bilheteria

- "Davi: Nasce Um Rei" custou cerca de US$ 60 milhões;
- Arrecadou mais de US$ 70 milhões apenas nos cinemas norte-americanos;
- Ocupou a 2ª posição nas bilheterias dos EUA, atrás apenas de "Avatar: Fogo e Cinzas" (2025) nas primeiras semanas;
- Superou "Som da Liberdade" (2023) e outras animações do gênero, como "O Rei dos Reis" e "O Príncipe do Egito"
- Se tornou a animação com temática religiosa de maior bilheteria, segundo a fonte Angel Studios.

Com estes números, a expectativa é de que o longa deverá obter uma boa bilheteria no restante do mundo, agradando ao público, especialmente o cristão. Vale ser conferido pelo visual, a linguagem simples e pela história deste importante personagem de várias religiões.


Ficha técnica:
Direção:
Brent Dawes e Phil Cunningham
Roteiro: Brent Dawes, Kyle Portbury e Sam Wilson
Produção: Sunrise Animation Studios, com coprodução da Angel Studios e 2521 Entertainment
Distribuição: Heaven Content em parceria com a 360 WayUp
Exibição: salas das redes Cineart e Cinemark e Cinépolis Estação BH
Duração: 1h49
Classificação: 10 anos
País: EUA
Gêneros: animação, família, bíblico, musical

16 outubro 2025

“O Último Rodeio": drama, redenção e a luta final de um campeão

Neal McDonough interpreta um experiente peão que abandonou a arena no passado e agora precisa
retornar para salvar seu neto (Fotos: Angel Studios)
 
 

Silvana Monteiro


Em "O Último Rodeio" ("The Last Rodeo"), um experiente e premiado peão de rodeio é confrontado com as circunstâncias do destino. E para impactar, o enredo prova que o raio cai duas vezes, sim, desta vez, sobre a casa de Joe Wainwright (interpretado por Neal McDonough, que também participou do roteiro e é um os produtores). 

Primeiro, quando perde a esposa Rose (Ruve McDonough, esposa do ator e também produtora do filme), e se entrega, abandonando as arenas. Quinze anos mais tarde, quando o neto Cody (Graham Harvey), com quem tem uma relação de muita cumplicidade, é acometido por algo que ele, o avô, considera aterrorizante e traumático.  


Joe é o cowboy durão, aquele que mesmo quando o corpo se parte em cima de toneladas de músculos e ossos em movimento, não se dá ao direito de sentir e chorar. Seu domínio na arena é premiado e ele, apesar de já ter desistido de montar, pode querer uma última vez, pelo prêmio, mas muito mais pela vida de quem ele mais ama. 

Agora, o fogo que o prova é o da fé e do amor. Embora tenha um relacionamento desafiador com a filha Sally (Sarah Jones), os dois são conectados pelo amor do neto que transcende qualquer desentendimento entre pai e filha. 


E para tratar esse neto, Joe vai ser colocado à prova.  Entre laços de família, perdas e reconciliações, a narrativa mostra o peso, muitas vezes silencioso, das dores que não vêm do esporte, das fraturas e contusões à flor da pele, e sim do convívio familiar. 

O filme tem uma linda e sofisticada fotografia. A poeira, a luz do entardecer e o close nas mãos calejadas transformam a arena em território de redenção. 

Em alguns momentos, as atuações poderiam ser mais profundas e emocionantes, mas a obra, na maioria do tempo, mantém a rigor a ambientação do universo árido e simbólico dos rodeios americanos, o que é compreensível.


A direção aposta em planos longos e uma paleta terrosa que traduz a energia dos conflitos. A trilha sonora discreta, composta por Jeff Russo, reforça o tom, ora empolgante das arenas, ora contemplativo, deixando o silêncio falar tanto quanto as quedas e reerguimentos. 

Joe volta à arena não apenas por dinheiro, mas para confrontar o passado e buscar um tipo de reconciliação com a fé e consigo mesmo. No fundo, sem tantas reviravoltas, mas como uma mensagem importante, "O Último Rodeio" é menos sobre vitórias, mas sobre amor, resiliência e recomeços.


Ficha técnica:
Direção:
John Avnet
Produção: The McDonough Company
Distribuição: Paris Filmes e Abgel Studios
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h58
Classificação: 12 anos
País: EUA
Gênero: drama