02 maio 2026

"Mãe e Filho" envolve o espectador em trama regada a sede de vingança

O roteiro consegue manter a atenção o tempo todo, acrescentando fatos em curtos intervalos na vida da enfermeira e seus dois filhos (Fotos: Retrato Filmes)
 
 

Patrícia Cassese

 
Um dos grandes trunfos de “Mãe e Filho”, em cartaz no Centro Cultural Unimed-BH Minas e Una Cine Belas Artes, é o de conseguir fazer com que o espectador adentre o universo da personagem feminina citada no título – a enfermeira Mahnaz (interpretada por Parinaz Izadyar) - e, desse modo, compartilhe de maneira intensa os sentimentos que povoam a jovem viúva, mãe de dois filhos, a cada etapa dos acontecimentos que constituem a narrativa. 


Tão importante quanto, principalmente a partir da segunda metade do filme iraniano dirigido por Saeed Roustaee, o roteiro é tão bem urdido que a ansiedade invade o público o tempo todo, fazendo-o ansiar pelo desdobrar da trama.

A parte inicial é mais dedicada a apresentar o filho mais velho de Mahnaz, o adolescente Aliyar (Sinan Mohebi), que, vale dizer, não soa como uma figura simpática. Ao contrário. A série de situações apresentadas que o envolvem diretamente dificultam que o espectador se apegue ao personagem. 


No entanto, um acontecimento abrupto promove uma reviravolta. Bem, comentar o filme sem incorrer em spoilers é uma tarefa hercúlea, mas, a partir deste ponto de virada, a figura materna ocupa ainda mais espaço. 

O sofrimento se avoluma de tal forma que é difícil não tentar praticar o exercício de se colocar no lugar de Mahnaz e pensar no que fazer quando todas as certezas parecem desmoronar como um castelo de cartas.

A decepção com a atitude dos familiares mais próximos – mãe e irmã – e com o núcleo do finado marido se potencializa com a atitude do noivo. O mar revolto se agrava à medida que uma cadeia de segredos começa a ser revelada. E, a partir daí, a sede de vingança dá a tônica. 


Ainda que não concordemos com as atitudes de Mahnaz, é impossível não a entender. Mesmo porque, em algum ponto da vida, todos nós nos sentimos injustiçados por um motivo ou outro, ainda que a maioria não em tamanha intensidade.

Muito bem planejado, o roteiro consegue manter a atenção o tempo todo, com o bônus de ir acrescentando fatos em curtos intervalos, assim como em colocar, na balança, a questão da ética em várias oportunidades. 

A performance de Parinaz Izadyar é um fator determinante para o resultado do filme. Trata-se de uma atriz que consegue dizer muito até com o olhar. A forma como defende, tal qual uma leoa, o filho é tocante. 


Em Mahnaz, tristeza e raiva se mesclam sem litígio e deságuam na ação tempestuosa, ainda que em um mundo no qual a personagem central está cônscia de que o patriarcado dita as regras. Em meio a tudo isso, vale citar, ainda, a atuação de Arshida Dorostkar, a atriz mirim que interpreta Neda, a filha mais nova de Mahnaz, outra que diz tanto pelo olhar. 

Completa o rol de trunfos a presença do ator Payman Maadi, conhecido do público cinéfilo brasileiro pela presença em “Separação” (2011), de Asghar Farhadi, que venceu na categoria Filme Estrangeiro no Oscar 2012. O longa, vale lembrar, pode ser visto no Prime.


Ficha técnica:
Direção: Saeed Roustaee
Produção: Iris Film
Distribuição: Retrato Filmes
Exibição: Centro Cultural Unimed-BH Minas e Una Cine Belas Artes
Duração: 2h11
Classificação: 16 anos
País: Irã
Gêneros: drama