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23 julho 2026

Cine Humberto Mauro realiza mostra com a filmografia completa de Akira Kurosawa até 16 de agosto

Retrospectiva exibe 30 longas e conta com sessões comentadas por especialistas (Crédito: Akira Kurosawa)
 
 

Da Redação

 
O Cine Humberto Mauro realiza mostra dedicada a exibir a filmografia completa de Akira Kurosawa (1910-1998), considerado um dos principais cineastas do Japão. 

A programação inclui sessões comentadas por especialistas e 30 filmes emblemáticos do realizador, como “Rashomon”, (1950), “Os Sete Samurais” (1954), “Trono Manchado de Sangue” (1957), “Dersu Uzala” (1975) e “Ran” (1985), formando um panorama da carreira de Kurosawa ao longo de seis décadas e de séculos da história japonesa. 

A mostra segue até o dia 16 de agosto, com entrada gratuita, sendo a retirada de ingressos antecipados na plataforma Sympla; e  a partir de 1 hora antes de cada exibição, na bilheteria principal do Palácio das Artes.

(Dersu Uzala)

A mostra começou no dia 16 de julho com uma exibição do filme “A Fortaleza Escondida” (1958), épico de aventura, ação, drama e humor que se Inspira nos faroestes do diretor hollywoodiano John Ford. Logo depois,  houve a abertura oficial com uma apresentação de Taiko com o Grupo Raiki Daiko, nos jardins internos do Palácio das Artes. 

A noite se encerrou com a sessão de “Yojimbo, o Guarda-Costas” (1961), seguida por comentário do professor e pesquisador José Ricardo Miranda Júnior – haverá tradução simultânea para a Língua Brasileira de Sinais. 

"Yojimbo, o Guarda-Costas"

A mostra segue com mais sessões comentadas, oferecendo ao público a oportunidade de aprofundar o diálogo com os filmes ao explorar aspectos históricos, estéticos e temáticos que ajudam a iluminar a riqueza da obra de Kurosawa. 

Nesta segunda semana da mostra, no dia 24 de julho (sexta-feira), às 18h30, “O Idiota” (1951) será comentado pelo crítico e pesquisador João Paulo Campos. 

Dia 28 (terça-feira), às 19h, a curadora Layla Braz conversa com o público sobre “Não Lamento Minha Juventude” (1946). Fechando as sessões comentadas, o cineasta Affonso Uchoa participa da exibição de “Dodeskaden - O Caminho da Vida” (1970), às 16h do dia 1º de agosto (sábado).

“Dodeskaden - O Caminho da Vida”

Cineasta inspirador

Com curadoria de Vitor Miranda, programador do Cine Humberto Mauro, a mostra propõe uma aproximação com a obra de Akira Kurosawa a partir de suas múltiplas dimensões: sua relação com a cultura japonesa, sua inventividade formal e sua capacidade de transformar questões humanas específicas de seu país de origem – moral, honra, poder, memória, justiça, violência e responsabilidade coletiva – em experiências cinematográficas de alcance universal. 

Considerado um dos diretores mais influentes da história do cinema, Akira Kurosawa nasceu em Tóquio e viveu uma trajetória que acompanhou o surgimento e a consagração do cinema como forma de arte. 

"O Idiota"

Durante sua infância, o pai levava a família ao cinema para assistir a filmes internacionais, e seu irmão mais velho, Heigo, tornou-se um benshi — narrador que acompanhava ao vivo a exibição de filmes mudos —, com a companhia frequente de Akira. 

Após um período atuando como pintor, ativista e entusiasta da literatura no grupo clandestino Liga dos Artistas Proletários, Kurosawa respondeu, em 1936, a um anúncio de vagas para assistentes de direção no estúdio P.C.L. Film Studios. 

"Não Lamento Minha Juventude"

Lá, trabalhou como aprendiz por sete anos sob a tutela do cineasta Kajiro Yamamoto antes de dirigir seu primeiro longa-metragem, “A Saga do Judô” (1943), aos 33 anos. 

Inspirando-se no teatro, em suas obras favoritas da literatura japonesa e internacional e em cineastas como Sergei Eisenstein, D.W. Griffith e Abel Gance, Kurosawa fundiu essas influências na criação de uma linguagem cinematográfica autoral que seria desenvolvida até seu último filme, a comédia dramática “Madadayo” (1993), lançado quando o cineasta tinha 83 anos.

"Os Sete Samurais"

Arte marcial japonesa

Impulsionado pelo interesse no kendo – arte marcial tradicional japonesa de combate com a espada – durante a infância e pelas conexões familiares de seu pai com samurais reais, Kurosawa destacou-se no gênero jidai-geki com alguns dos épicos de samurai mais reverenciados de todos os tempos — histórias ambientadas no Japão feudal e diversos outros períodos. 

Ele aplicou o mesmo virtuosismo visual e a narrativa de grande proporção aos seus dramas contemporâneos – gênero gendai-geki –, incluindo “O Anjo Embriagado” (1948) e “Viver” (1952).

"Trono Manchado de Sangue"

Fonte de inspiração para diversos cineastas ocidentais, como Sidney Lumet, Sam Peckinpah, Sergio Leone, Spike Lee e George Lucas – que bebeu de “A Fortaleza Escondida” para criar “Star Wars” (1977) –, Kurosawa está presente também em uma das animações mais queridas de todos os tempos – “Vida de Inseto”, dirigida por John Lasseter e produzida pela Pixar, que tomou emprestada a trama de “Os Sete Samurais”.

A primeira fase significativa da carreira do diretor ocorreu no pós-Segunda Guerra Mundial com “O Anjo Embriagado” e “Cão Danado”, filmes noir que inauguraram sua longa colaboração com o ator Toshiro Mifune – parceiros em 16 filmes no total. 

"A Fortaleza Escondida"

No início da década de 1950, Kurosawa alcançou fama mundial com “Rashomon”, um marco na narrativa não-linear que despertou o interesse internacional pelo cinema japonês. 

Nos anos seguintes, ele manteve um diálogo frutífero com o Ocidente, inspirando-se em autores canônicos como Shakespeare e Dostoiévski, mas também em escritores contemporâneos como Dashiell Hammett. 

Na década de 1960, Kurosawa mudou o foco para obras mais sombrias e pessimistas, situadas no ambiente urbano, como “Céu e Inferno” (1963) e “O Barba Ruiva” (1965), que encerraram sua colaboração com Mifune. 

Nos anos 1970, ele enfrenta uma crise, com a fraca bilheteria de “Dodeskaden - O Caminho da Vida”. Porém, é premiado com o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira por “Dersu Uzala” (que Kurosawa já havia ganho por “Rashomon”), feito em parceria com a produtora soviética Mosfilm. 

“Rashomon”

Na década de 80, com o apoio dos cineastas estadunidenses George Lucas e Francis Ford Coppola, o diretor segue com obras internacionalmente reconhecidas, centrados na queda de figuras heroicas e poderosas, como “Kagemusha, a Sombra de um Samurai” (1980), ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes, e Ran – indicado aos Oscars de Melhor Direção, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte, e vencedor do Oscar de Melhor Figurino.  

Nos anos 90, o cineasta encerra a carreira com “Sonhos” (1990), “Rapsódia em Agosto” (1991) e “Madadayo” — obras contemplativas que fazem um uso tido como visionário das cores. 

"Sonhos"

A programação inclui ainda a exibição do documentário “Uma Mensagem de Kurosawa” (2000), de Hisao Kurosawa, filho do cineasta. A obra revisita a trajetória do realizador por meio de imagens de arquivo, depoimentos e reflexões sobre seu processo criativo.

Com uma filmografia marcada por sequências de ação cuidadosamente coreografadas e uso dramático do clima, Kurosawa foi influenciado e inspirou, em um processo recíproco, o cinema ocidental. 

Mas ele é também lembrado por colocar tais elementos a serviço de uma constante investigação da condição humana, o que o torna parte de uma linhagem de cineastas humanistas que encontraram no cinema uma maneira de observar o mundo e compreender as complexidades da experiência humana.

"Ran"

SERVIÇO:
Data: até 16 de agosto
Local: Cine Humberto Mauro – Palácio das Artes (Avenida Afonso Pena, 1537, Centro – Belo Horizonte)
Classificações indicativas: variáveis
Programação completa no site: www.cinehumbertomauromais.com/programacao
Entrada: gratuita; 50% dos ingressos estarão disponíveis, de forma on-line, a partir do meio-dia da data das sessões, na plataforma Sympla; o restante será distribuído presencialmente na bilheteria principal do Palácio das Artes e nos totens, a partir de 1 hora antes de cada exibição.
Sessão da Meia-Noite: acontece mensalmente, em exibição única, na madrugada de sexta-feira para sábado. Para essa sessão, metade dos ingressos estará disponível de forma on-line a partir das 18h do dia da sessão, pela plataforma Sympla. O restante ficará disponível no Totem de Autoatendimento localizado no hall do Cine Humberto Mauro - uma hora antes da sessão. 

04 junho 2026

"Cordélicos": uma viagem no tempo onde até os ETs dançam forró

Laser, cangaceiros, sanfona e muito humor: conheça a origem do temido vilão Cabra da Peste
(Fotos: Retrato Filmes)
 
 

Maristela Bretas


Quem disse que cangaceiros, extraterrestres, viagens no tempo e muito forró não combinam? "Cordélicos - A Origem do Cabra da Peste", animação brasileira em 2D atualmente em cartaz no Cine Belas Artes BH, prova justamente o contrário. Baseado na série animada "Cordélicos", lançada em 2022, o longa leva para as telonas uma aventura tão improvável quanto divertida.

Criado por Ale McHaddo, que assina direção, roteiro e também o desenho de alguns personagens, o filme mergulha de cabeça na literatura de cordel, na cultura popular nordestina e em um vocabulário repleto de regionalismos.

O resultado é uma mistura de humor, faroeste, ficção científica e aventura, onde alienígenas aparecem aos montes — alguns deles tocando sanfona e triângulo como se tivessem acabado de chegar de uma festa junina intergaláctica.


A animação ganha ainda mais energia com a trilha sonora produzida pela Music Solution, recheada de forró e ritmos nordestinos que ajudam a dar identidade própria à história.

A trama começa em 1933, no sertão de Juazeiro do Norte, no Ceará, aos pés da famosa estátua de Padre Cícero. É ali que conhecemos os Cordélicos, um grupo de cinco amigos cangaceiros liderados por Capitão Rocha, dublado por Bruno Garcia. Com ele estão Sivirino, ou simplesmente Siv, dublado por Tadeu Mello, Bonita (Raissa Xavier), Rivonilda, a Rimbi (Carol Goes) e o inseparável jegue Corisco.

Como toda boa aventura de cangaceiros, não falta perseguição. O grupo vive fugindo do insistente cabo PM Firmino, dublado por Marcelo Mansfield, e de seus dois ajudantes atrapalhados. Mas o que parecia ser apenas mais uma correria pelo sertão muda completamente quando os amigos encontram um misterioso portal temporal.


Em poucos segundos, eles saltam de 1933 para o ano 3333 e descobrem um futuro dominado pelo temido Cabra da Peste, também com a voz de Marcelo Mansfield. O vilão governa o chamado Neo Nordeste com mão de ferro e pretende usar os cangaceiros para montar um exército capaz de dominar o mundo.

Daí em diante, vale tudo: armas a laser, naves espaciais, criaturas alienígenas, perseguições futuristas e até citações de personalidades como Guimarães Rosa e Gilberto Gil, lembradas pelo Capitão Rocha ao longo da jornada. Entre uma confusão e outra, os Cordélicos precisam encontrar uma maneira de voltar para casa e impedir os planos do tirano intertemporal.


Para aumentar ainda mais a diversão, o cantor Falcão surge em participação especial como o hilário Falcão Espacial, ajudando os heróis tanto no passado quanto no futuro. Explicar exatamente como tudo isso acontece talvez seja impossível. Como diria Chicó, de "O Auto da Compadecida": "Não sei, só sei que foi assim".

Com visual simpático, humor acessível para crianças e diversas referências que os adultos vão captar, "Cordélicos - A Origem do Cabra da Peste" é uma animação que celebra a criatividade brasileira ao misturar elementos da cultura nordestina com ficção científica sem perder sua identidade. Uma aventura arretada para toda a família.

Se você sair aperreado do cinema querendo mais, a boa notícia é que as aventuras continuam na série "Cordélicos", que conta com uma temporada de 26 episódios disponíveis no Prime Video e na Apple TV.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Ale McHaddo
Produção: 44 Filmes, coprodução SPCine e Prefeitura de São Paulo
Distribuição: Retrato Filmes
Exibição: Cine Belas Artes BH - sala 3
Duração: 1h12
Classificação: 10 anos
País: Brasil
Gêneros: animação, comédia

27 maio 2026

Em "Natal Amargo", Almodóvar transita entre dores, angústias e reflexões

Longa se desenrola mesclando ótimas atuações, uma trilha sonora marcante e ajustada a cada situação
e a paleta colorida de praxe (Fotos: Warner Bros. Pictures)
 
 

Patrícia Cassese

 
Já há algum tempo Pedro Almodóvar vem adotando um tom mais sombrio em suas narrativas fílmicas, o que não se restringe apenas ao roteiro, mas à própria paleta de cores, uma das características fortes do cineasta espanhol, hoje com 76 anos. 

Falado em inglês, “O Quarto ao Lado” (2024), até então mais recente longa do diretor a entrar em circuito, você se lembra, centrava foco em uma mulher – Michelle (Tilda Swinton) - que, acometida por um câncer em estágio terminal, convocava uma amiga, Ingrid (Juliane Moore), para estar próxima quando cometeria eutanásia. 

Em “Natal Amargo” ("Amarga Navidad"), filme que estreia nesta quinta-feira (28) no Cineart Ponteio, Cine Belas BH (Cine Belas Artes), Centro Cultural Unimed-BH Minas e Cinemark Diamond Mall, a finitude também se faz presente, mas por outro prisma: o de uma mãe que perde um filho, no que é considerada, em justa medida, a pior dor. 


Na verdade, o intrincado tema nem é propriamente a espinha dorsal do filme (ah, sim, há, ainda, a personagem que, por conta do trabalho, não conseguiu se despedir da mãe), mas um ponto que aparece como liga em um roteiro que se vale da metalinguagem. Ou seja, há um filme dentro do filme.

Logo de início, o espectador é apresentado a Elsa (interpretada pela belíssima atriz Bárbara Lennie, que, particularmente na caracterização dessa personagem, fisicamente lembra demais Christiane Torloni em início de carreira). Atormentada por uma forte enxaqueca, que ela relaciona a dias de tempestade, Elsa se dirige a um hospital, acompanhada do namorado, Bonifacio (Patrick Criado), dublê de bombeiro e strip-teaser. 

Ocorre que Elsa é, na verdade, uma personagem que desponta na mente em ebulição de Raúl (o argentino Leonardo Sbaraglia), cineasta que, no momento, se debruça obsessivamente sobre um novo roteiro. Elsa é um alter ego de Raúl que, na verdade, parece ser um alter ego de Almodóvar. Obviamente, não se trata de uma representação realística, a ser interpretada literalmente, biograficamente, mas sim, de modo metafórico. 


Na própria ida da personagem ao hospital, um pouco da trajetória de Elsa é dissecada por meio da enfermeira que a acolhe, e que, em dado momento, percebe que já viu aquele rosto antes, assim como de seu acompanhante, porém em situações distintas.

Neste momento, há uma cena particularmente engraçada, que é quando a moça, já imbuída da informação de que a paciente é uma cineasta, pergunta a Elsa o que é ser “uma diretora de culto” (cult), se significa algo do tipo “seita”. Muito provavelmente, é Almodóvar a brincar com sua própria fama de cult. 

Na esfera da ficção dentro de uma ficção, Elsa é assim considerada no ecossistema da sétima arte de seu país: uma diretora cult. No entanto, para sobreviver, precisa se enveredar pela publicidade, território no qual acabou conhecendo Bonifacio, ao dirigir um filmete sobre underwear masculino.


Vale relembrar, aqui, que Elsa é uma personagem da mente de outro personagem do filme, Raúl, e que espelha a trajetória de seu criador. Pausa também para situar que o próprio Almodóvar já adentrou o universo publicitário, embora, vamos frisar, longe de ter se dobrado a ditames e, assim, abandonado sua matriz inventiva, sua mente em constante ebulição. 

No curso do filme, em suas distintas esferas, Elsa e Raúl se enveredam pelo caminho da autoficção, atualmente bastante em voga na seara literária, por meio de nomes como os dos franceses Édouard Louis e Annie Ernaux. 

Pedro Almodóvar e parte do elenco

E é neste ponto que ergue-se uma questão crucial à narrativa: até que ponto um roteirista (ou dramaturgo, ou escritor) pode, e deve, usar a realidade como calço para a sua obra, ponderando-se que essa transposição inequivocamente leva, a rebote, a inclusão de pessoas do entorno que, ao travarem contato com o resultado, certamente vão se reconhecer ali, como fonte de inspiração? E que, com isso, podem se sentir particularmente atacadas, com um sentimento de invasão de privacidade e de exposição desnecessário, às vezes até mesmo aviltante e dolorida? 

Uma mãe que perdeu um filho pode ser fonte de inspiração direta para um personagem sem ter sido consultada previamente? O impacto de saber que isso aconteceu não agravaria a dimensão de seu luto, sua dor, sua gana por privacidade?


Em suma, qual o limite ético da autoficção? Até onde ir? Vale a pena passar por cima dos sentimentos de outros para se sobressair e gerar impacto sobre si? E é em torno dessa questão que “Natal Amargo” se desenrola mesclando ótimas atuações, uma trilha sonora marcante e ajustada a cada situação e, claro, a paleta colorida de praxe, porém, em tons mais “fechados”, escuros, como tem sido uma característica dos mais recentes filmes de Almodóvar. Não há nada estourado, gritante, nem em excesso. 


Os ambientes, não obstante abusem do contraste de cores, são extremamente elegantes, sofisticados, cool... um deleite para os olhos, sem resquícios do kitsch (nada contra). Aqui, a arte também se replica neste escaninho, assim como nos figurinos.

Um detalhe digno de nota é que há uma parte do filme que se passa em Lanzarote (ou Lançarote), lugar que o escritor português José Saramago escolheu como morada. Lanzarote pertence às Ilhas Canárias, próximas da costa da África Ocidental, e as paisagens mostradas no filme de Almodóvar são impactantes – em particular, quando Elsa e a personagem Natalia (Milena Smit), que perdeu o filho, caminham em meio às crateras de terra negra escavadas para proteger as videiras cultivadas na ilha – absolutamente deslumbrante. 


Lanzarote, aliás, já havia aparecido em outro filme de Almodóvar, “Abraços Partidos”, de 2009. O local é destino contumaz do diretor espanhol, que já o definiu como “repleto de segredos e mistérios”. 

E já que citamos Milena Smit, lembremos que ela é uma das personagens-chave em outro filme recente de Almodóvar, “Mães Paralelas” (2021). O argentino Leonardo Sbaraglia, por sua vez, é bastante conhecido do público cinéfilo brasileiro, já tendo atuado em filmes de sucesso, como “Relatos Selvagens” (2014), e mesmo dividido o set com Carolina Dieckmann no suspense dramático “O Silêncio do Céu”(2016).


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Pedro Almodóvar
Produção: El Deseo, RTVE, Instituto de Crédito Oficial (ICO), Institute of Cinematography and Audiovisual Arts
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: Cineart Ponteio, Cine Belas BH, Centro Cultural Unimed-BH Minas e Cinemark Diamond Mall
Duração: 1h51
Classificação: 16 anos
País: Espanha
Gêneros: drama, comédia

13 maio 2026

Instigante e criativo, "Eu Não Te Ouço" é um convite ao diálogo no país da intolerância


Márcio Vito faz ótima interpretação dos dois papéis do filme: o caminhoneiro e o patriota do caminhão
(Fotos: Amaia Distribuidora)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
Certamente muitos vão se lembrar do estranhíssimo caso do manifestante que, revoltado, se agarrou a um caminhão cujo motorista se recusou a parar e se juntar a ele na tentativa de bloquear as estradas e paralisar o país. Era novembro de 2022, a eleição presidencial estava encerrada, mas parte dos brasileiros não aceitou o resultado. 

O vídeo do homem de camisa e boné amarelos se segurando de braços abertos como um Cristo à frente de um caminhão viralizou nas redes sociais e não faltaram memes do caroneiro patriota passeando pelas estradas de várias partes do mundo.

Reprodução


Foi mesmo uma sacada genial do ator e diretor Caco Ciocler, que decidiu transformar essa história bizarra em um interessante road movie, em que um motorista de caminhão e seu passageiro preso ao veículo  tentam manter alguma conversa. 

Mas por estarem separados pelo vidro, a prosa dos dois se transforma num diálogo de surdos e ninguém se entende, enquanto os temas vão além da política, passando por filosofia, Deus, o diabo, família, filosofia, escolhas, cotidiano etc etc. 

O longa "Eu Não Te Ouço", que estreia dia 14 de maio no UNA Cine Belas Artes, encerra a chamada Trilogia Política de Ciocler, que antes dirigiu "Partida" (2019) e "O Melhor Lugar do Mundo É Agora" (2021).


Outra sacada incrível de Caco Ciocler, que aliás assina também o roteiro com Isabel Teixeira e Márcio Vito, foi se colocar no filme como um documentarista. Do início ao fim, apenas por meio da sua voz, ele levanta assuntos, pergunta, provoca e instiga motorista e patriota, que expõem seus pontos de vista em monólogos entrecortados, enquanto o caminhão desliza pela rodovia, se desviando de outros veículos apressados e enfrentando os inevitáveis baques dos buracos do asfalto. 

Para falar do artista Márcio Vito é preciso um capítulo à parte. Em mais um atrevimento dos roteiristas e do diretor, a ideia de fazer com que o mesmo ator fizesse ambos os papéis, foi um acerto e tanto. E Vito se sai muito bem, intercalando o motorista e o patriota, interpretando textos que vão do cômico à reflexão séria e necessária. 


Não por acaso, ele recebeu o troféu de Melhor Ator na Mostra Novos Rumos do Festival do Rio. Mais do que merecido. O duplo papel acaba por tornar-se outra metáfora do longa, como se o filme quisesse mostrar como somos ao mesmo tempo diferentes e humanamente iguais.

Mais um acerto de "Eu Não Te Ouço": como se passa apenas e tão somente na estrada e em movimento, o barulho infernal da rodovia torna-se uma instigante trilha sonora, com suas freadas, ronco de motores e buzinas. 

Enfim, ao retomar o estranho caso do caroneiro patriota, Caco Ciocler provoca o espectador e o faz refletir sobre a falta de diálogo, a polarização nefasta e a intolerância que impera no país. Quem sabe o filme possa ser um convite a - quem sabe? - (re)construir este Brasil?


Ficha técnica:
Direção: Caco Ciocler
Roteiro: Caco Ciocler, Isabel Teixeira e Márcio Vito
Produção: AMAIA Filmes, coprodução UNO Filmes, 555 Studios e Schifiguer
Distribuição: AMAIA Distribuidora
Exibição: Una Cine Belas Artes
Duração: 1h11
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gêneros: road movie, comédia

30 abril 2026

Mais atual do que nunca: "O Diabo Veste Prada 2" mostra que o poder nunca sai de moda

Esperada sequência mantém o elenco original, além de trazer participações especiais de novas celebridades (Fotos: 20th Century Studios)
 
 

Patrícia Cassese

 
Passados 20 anos da estreia nas telas, os cinemas de todo o Brasil recebem nesta quinta-feira (30) a esperada sequência "O Diabo Veste Prada 2" ("The Devil Wears Prada 2"), que tem como epicentro o retorno de Andrea Sachs (Anne Hathaway) à redação da "Runway", ainda capitaneada por Miranda (Meryl Streep).

O elenco da sequência (comandada por David Frankel, mesmo diretor do primeiro) conta novamente com outros atores centrais do filme de 2006 - Emily Blunt (a secretária Emily) e Stanley Tucci (Nigel, assessor de Miranda). Um pequeno detalhe: o tempo parece não ter passado para eles. 

Por outro lado, acopla Kenneth Brannagh (marido de Miranda), Lucy Liu (a bilionária Sasha Barnes) e Patrick Brammall (o novo namorado de Andrea), entre outros. 

Os fãs do filme original certamente se lembram do enredo, mas vamos lá, colocar em repasse. Nele, a jovem jornalista Andrea Sachs acalenta a pretensão de trabalhar em uma revista prodigiosa de Nova York, onde almeja fazer reportagens de vulto. 


No entanto, acaba parando na "Runway" (uma publicação de moda não estava de modo algum em seu radar), e contratada para ser a segunda secretária da toda-poderosa Miranda (a primeira é Emily), mulher a quem todos temem, evitando mesmo pegar o mesmo elevador que ela. 

Em um ambiente de extrema vaidade e luxo, Andrea corta um dobrado para atender aos infinitos caprichos da chefe (como ser desafiada a conseguir um original de um novo volume da saga Harry Potter antes da publicação) e, não bastasse, tentar manter o namoro e as amizades em dia. 

Em meio a tudo isso, diante do olhar implacável e rascante de Miranda, entende que, para continuar por ali, precisa também mudar seu modo de se comportar e, principalmente, de se vestir. Não é spoiler lembrar que, após a temporada de moda de Paris, Andrea acaba entendendo que seu ciclo por ali está encerrado, partindo para novos desafios profissionais.


"O Diabo Veste Prada 2" tem início com o nome de Andrea Sachs sendo anunciado como o vencedor entre os concorrentes a um prestigioso prêmio jornalístico. A noite, que deveria ser motivo de júbilo, porém, é arruinada pela demissão de vários jornalistas do veículo, Andrea inclusa. 

Pior: a demissão é feita por Whatsapp, ou seja, da maneira mais impessoal possível - trabalhadores de todo o mundo sabem que a tática tem sido comum nesses novos tempos. Com lágrimas nos olhos, ela sobe ao palco e, após receber o citado prêmio, faz um discurso potente que rapidamente viraliza.

Entre os que o visualizam o vídeo está Irv Ravitz (Tibor Feldman), dono do grupo que detém a "Runway", e seu filho, Jay, vivido por B.J. Novak. Entendem, ali, que estão diante de uma oportunidade e tanto: contratar Andrea Sachs para comandar um núcleo de reportagens especiais, visando deter a queda no prestígio da revista. 


Apenas "se esquecem" de contar o plano a Miranda. Ao ver uma entusiasmada Andrea adentrar a redação assim, do nada, a ficha - tanto a de Miranda quanto a de Nigel - demora a cair. E eis que Andrea se vê mais uma vez lutando para conquistar a aprovação da ex-chefe.

E onde entra Emily nessa história? Bem, a antiga secretária, que nunca perdoou Andrea por ir em seu lugar na Semana de Moda de Paris, agora trabalha para a Dior e namora um ricaço disposto a atender todos os desejos da bela. Se o mundo dá voltas, Emily é um exemplo. Agora mais poderosa que Miranda, ela no fundo acalenta um sonho muito particular quanto a "Runway".

"O Diabo Veste Prada" (Foto: Divulgação)

O filme de 2006

Lançado em 2003, o livro "O Diabo Veste Prada", de Lauren Weisberger, não tardou a se tornar best-seller - e muito do interesse pela leitura veio do fato de a autora ter trabalhado por algum tempo como assistente da toda poderosa Anna Wintour, figura mítica do mundo da moda. 

Como não poderia deixar de ser, ficou evidente que, mesmo com pinceladas ficcionais, a editora de moda descrita na obra - a temida Miranda Priestly - era uma representação da poderosa editora da "Vogue" norte-americana, enquanto a, digamos assim, mocinha da história, Andrea Sachs, uma jovem jornalista à procura de emprego em Nova Iorque; a da própria Weisberger. Na esfera ficcional, a "Vogue", porém, virou "Runway".

Em um caminho quase orgânico no mercado, o êxito de vendas do livro despertou a atenção dos estúdios cinematográficos e, em 2006, estreava o filme de mesmo nome, dirigido por David Frankel. 

Em cena, Meryl Streep dava vida a Miranda, enquanto Anne Hathaway, a Andrea (Andy) Sachs. O elenco se completava com atores de talento mais que reconhecido, como Emily Blunt e Stanley Tucci, além de trazer participações especiais de celebridades como Gisele Bündchen.


Temas atuais

O novo filme ganha muitos pontos ao abordar como as coisas mudaram no mundo nestas duas décadas entre um filme e outro - e aí não estamos falando só das demissões cada vez mais impessoais, mas de avanços tecnológicos, IA... 

Um ponto tratado é o próprio declínio das revistas impressas - alguns vão se lembrar dos (bons) tempos em que algumas edições ou títulos costumavam simplesmente esgotar nas bancas. 

Outro ponto que conversa bastante com a realidade é quando o herdeiro de Irv contrata profissionais que nada sabem do mercado, mas que ostentam ares de consultores, detentores da sabedoria quando a pauta é tentar salvar a empresa. 

Não bastasse, "O Diabo Veste Prada 2" aborda uma opção recorrente no "mundo real" do trabalho quando a ideia é "salvar" empresas: demitir os funcionários mais antigos de casa, portanto, os mais velhos.


A questão corte de despesas nas empresas, aliás, traz um momento particularmente divertido, quando Miranda está para embarcar no avião rumo à Semana de Moda de Milão. Sim. Se no primeiro filme o destino fashionista era Paris, neste, é a meca italiana, com direito a belas imagens do Lago de Como e de um frame particularmente belíssimo: o de Meryl Streep em uma galeria Vittorio Emanuele II vazia. 

Mas a cena mais emblemática do longa é a que se passa em um estúdio no qual o famoso afresco "A Santa Ceia", de Michelangelo, foi reproduzido. Evidentemente, as filmagens não poderiam jamais, em tempo algum, serem feitas junto à obra-prima original, que se encontra na igreja Santa Maria delle Grazie. 

No entanto, é o simbolismo da obra (pintada entre 1495 e 1498) e o contexto em que aparece em cena que verdadeiramente importam. Em meio à discussão sobre os novos tempos, diante do irrefreável avanço tecnológico, o capolavoro de Michelangelo, que atravessa os séculos mantendo seu misticismo e o poder de atrair milhares de interessados em visitá-lo (as reservas devem ser feitas com meses de antecedência), está a lembrar que as máquinas jamais vão substituir de todo o talento do homem, tampouco alcançar o status de arte.

Lady Gaga e Doechii (Divulgação)

No quesito participações especiais, os fashionistas não vão sair de "O Diabo Veste Prada 2" entendiados... Além de Donatella Versace e Lady Gaga, tem Heidi Klum, Marc Jacobs, Stefano Gabbana, Domenico Dolce e a belíssima modelo canadense Winnie Harlow, porta-voz do vitiligo, entre outros não menos glamourosos.

Outro ponto de destaque do longa é a trilha sonora com músicas inéditas de Lady Gaga, especialmente no dueto com a rapper Doechii na faixa dançante "Runway". Apesar dos rumores, foi desmentido o dueto de Gaga com Madonna, que só retorna na conhecida "Vogue", do primeiro filme. 

A seleção musical conta ainda com Dua Lipa na música "End of An Era"; Raye cantando "Worth It"; SZA interpretando "Saturn"; Olivia Dean, com "Nice To Each Other"; Miley Cyrus e Brittany Howard fazendo dueto em "Walk of Fame", entre outros intérpretes do pop. 

Com tantos ingredientes na receita, "O Diabo Veste Prada 2" tem artilharia para agradar a variados públicos, dos fãs de moda aos adeptos do bom entretenimento. E é óbvio que parte desse acerto se deve, como já pontuado, ao talento dos atores envolvidos - afinal, Meryl Streep não veio ao mundo a passeio. 


E se nesses 20 anos as caras de Miranda Priestley continuaram por aí, circulando em memes e gifs populares nas redes, certamente não será diferente desta vez - até porque, ela repete bordões, frases e olhares do filme matricial, para delírio dos espectadores.

Como não dá para não colocar um porém, esse fica por conta de o frenesi que a personagem Andrea exibe no curso da parte 2 da história uma familiaridade com o universo dos ricos e poderosos, bem como com os figurinos de grifes inalcançáveis aos meros mortais. Mesmo sendo um pouco dissonantes ao perfil intelectual que a "saga" inicialmente propõe para caracterizar a jornalista. 

Mas vamos relevar esse "detalhe". Se a vida demanda momentos de lazer e diversão, e o cinema entra muitas vezes como uma boa opção para tal, ir a "Diabo Veste Prada 2" é decisão acertada. Um entretenimento de primeira.


Ficha técnica:
Direção: David Frankel
Roteiro: Aline Brosh McKenna
Produção: Walt Disney Pictures e 20th Century Studios
Distribuição: Disney Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2 horas
Classificação: 12 anos
País: EUA
Gêneros: comédia, drama

25 fevereiro 2026

"A Miss" lança um olhar atual sobre o universo dos concursos de beleza

Dois gêmeos, dois desejos diferentes e uma mãe controladora que vive em função da imagem
(Fotos: Olhar Filmes)
 
 

Patrícia Cassese

 
"A Miss", primeiro longa-metragem da carreira do também dramaturgo e roteirista fluminense (nascido em São Gonçalo) Daniel Porto, cita, em seu título, um tema cuja abordagem serve de gancho para tratar assuntos na ordem do dia, como as questões de gênero. 

Passado no bairro carioca do Grajaú, o filme flagra uma família formada por Iêda (Helga Nemetik), uma mãe solo, endurecida pela vida, e seus dois filhos gêmeos, Martha (Maitê Padilha) e Alan (Pedro David), então com 17 anos. 


Na juventude, Iêda (o nome certamente é uma alusão a Ieda Maria Vargas, primeira brasileira a vencer o Miss Universo, em 1963, e falecida ano passado) participou, por influência da mãe, de concursos de beleza, o que, conscientemente ou não, a fez desejar que a filha (cujo nome faz referência a ícones como Martha Vasconcellos e Martha Rocha) siga o mesmo caminho. 

Ocorre que a adolescente não quer menos que maior distância possível desse mundo no qual a individualidade é solapada por ditames anacrônicos aos tempos atuais, como a magreza excessiva. Quem não se lembra da lenda das célebres duas polegadas a mais de Martha Rocha, que por anos pautou o imaginário do país? 


E é aí que entra em cena a solução inesperada para o impasse: em "A Miss", enquanto Martha tem repúdio por um mundo no qual a alimentação tem que ser regrada e a postura, perfeita, lapidada por caminhadas com livros sobre a cabeça; o personagem de Alan passa a externar seu fascínio por tudo o que cerca o universo do glamour feminino. 

E, assim, com o apoio de Athena (Alexandre Lino), que divide com Iêda a condução de um salão de beleza de bairro, Alan parte para encarar a etapa que vai escolher a representante do Grajaú rumo ao momento seguinte - a eleição da miss Rio de Janeiro. Uma artimanha que, diga-se de passagem, até dado momento, se desenrola sem conhecimento da mãe.


Apresentado, no material de divulgação enviado à imprensa, como uma "dramédia contemporânea que propõe um olhar sensível e bem-humorado sobre as relações familiares e a liberdade de ser quem se é", "A Miss" traz boas surpresas, como a voz (e a participação) da cantora Ellen de Lima, defendendo "A Canção das Misses", assim como um elenco visivelmente comprometido. 

No entanto, ao fim, fica a impressão de que a questão da identidade de Alan poderia ter sido mais trabalhada dentro da trama, dada a atualidade do tema. 

Outro ponto é que alguns momentos de intenção cômica não são efetivamente tão engraçados assim, portanto, poderiam ter sido limados na edição final, sem prejuízo da proposta como um todo - caso da ingestão de remédios para controlar a ansiedade ou da cena da ponta acesa de um cigarro.


Festivais

Em tempo: o material de apresentação do filme informa, ainda, que, antes de chegar ao circuito comercial brasileiro, "A Miss" foi exibido no Actrum International Film Festival (Espanha) e no 18º OMOVIES – Festival Internacional de Cinema LGBTQIA+ (Itália). 

Também integra a programação do 39º Queergestreift Film Festival Konstanz (Alemanha). O roteiro de "A Miss" foi desenvolvido no laboratório francês do Festival Varilux de Cinema Francês. A distribuição é da Olhar Filmes.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Daniel Porto
Distribuição: Olhar Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h45
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gêneros: drama, comédia