04 outubro 2026

“Se Eu Fosse Você 3”: novos rostos, velhos clichês e pouca graça

Cleo Pires e Rafael Infante formam o novo casal da comédia que já teve Tony Ramos e Glória Pires como protagonistas (Fotos: Buena Vista International)
 
 

Maristela Bretas

 
A comédia romântica “Se Eu Fosse Você 3”, que estreia nesta quinta-feira (8), muda o protagonismo para uma dupla mais jovem, mas mantém a fórmula clássica da troca de corpos do primeiro filme, lançado há 20 anos e que ganhou uma continuação em 2009.

No lugar de Tony Ramos (Cláudio) e Glória Pires (Helena), que tiveram ótimas atuações no primeiro filme da franquia, entram Cleo Pires, no papel de Bia, filha do casal original e de Glória Pires na vida real, e o namorido Aquiles, interpretado por Rafael Infante. 

Se a intenção era dar uma rejuvenescida à história, isso não aconteceu, mesmo com a entrada dos novos integrantes. A comédia não convence, mantém muitos clichês e aposta em piadas que pouco funcionam.


O ponto mais fraco é o personagem do comediante Rafael Infante. Ao trocar de corpo, Aquiles parece acreditar que, para ser mulher, precisa adotar estereótipos ultrapassados, com caras, bocas, beicinhos, faniquitos e rebolados, como se toda mulher agisse dessa forma o tempo todo. O roteiro pisou feio na bola com o personagem.

Já Glória Pires consegue entregar um Aquiles mais próximo da postura de um homem comum, meio tosco em alguns momentos, mas convincente. A experiência da atriz conta muito a seu favor. No elenco estão ainda Valentina Daniel, Paulo Rocha, Rosi Campos, Yohama Eshima e Dan Ferreira.


Tony Ramos e Glória Pires, em participações especiais, são boas aparições e dão um toque saudosista ao longa, especialmente quando a situação fica caótica, como nas histórias vividas por eles nos filmes anteriores, que contaram com a direção de Daniel Filho.

Em “Se Eu Fosse Você 3”, dirigido por Anita Barbosa, com supervisão artística de Daniel Filho, Bia e Aquiles vivem uma relação desgastada e, quando estão prestes a se separar, acabam tendo os corpos trocados durante uma noite de raios. Agora, precisam assumir as rotinas profissionais um do outro sem despertar suspeitas entre os colegas de trabalho.


Ele é instrutor de esportes radicais que mal sabe fazer uma vitamina. Ela é uma chef de cozinha que quer conquistar a primeira estrela do restaurante, mas tem medo de altura. Como conciliar duas profissões tão opostas e, ao mesmo tempo, tentar salvar uma relação já desgastada?

O sucesso de 1967 “Ain’t No Mountain High Enough”, com Marvin Gaye e Tammi Terrell, embala vários momentos do longa. A escolha é diferente da dos dois primeiros filmes, que apostaram em canções da Bossa Nova e da MPB.

Os atores até se esforçam, mas este terceiro filme deixa muito a desejar e não apresenta grandes novidades. Nem mesmo as situações absurdas, como as vividas por Tony Ramos no filme original, aparecem com força. O raio caiu pela terceira vez, mas não provocou grandes mudanças: “Se Eu Fosse Você 3” é mais do mesmo, agora com rostos novos.


Ficha técnica
Direção: Anita Barbosa
Produção: Total International e Star Original Productions
Distribuição: Buena Vista International
Duração: 1h32
Exibição: nos cinemas
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gênero: comédia romântica

01 outubro 2026

“Digger”: Tom Cruise irreconhecível em uma sátira provocadora contra os poderosos

Ator interpreta um bilionário do setor petrolífero responsável por um gigantesco acidente ambiental
(Fotos: Warner Bros. Pictures)
 
 

Maristela Bretas

 
Estreia nesta quinta-feira nos cinemas “Digger”, que tem Tom Cruise como principal estrela e já está gerando muita polêmica entre críticos e pessoas que assistiram ao longa-metragem pelo mundo. A narrativa satírica pós-apocalíptica é diferente, pode até parecer estranha em algumas partes, mas é audaciosa e envolvente como um todo.

Especialmente pelas excelentes atuações do elenco, a começar por Tom Cruise, no papel principal. A produção, dirigida pelo premiado Alejandro González Iñárritu, responsável por sucessos como “Birdman” (2014) e “O Regresso” (2015), satiriza o mundo dos poderosos.


Toma como exemplo o setor petrolífero, mas poderia ser qualquer representante do poder econômico, cujo descaso nas decisões e a exploração desmedida da natureza, com a certeza de que sempre estarão livres das consequências, são comportamentos comuns.

Os personagens são caricatos, como o próprio Digger, interpretado brilhantemente por Tom Cruise, assim como Compson, presidente dos EUA, vivido por John Goodman; seu vice, papel de Michael Stuhlbarg; e os militares integrantes do gabinete da crise, interpretados por Robert John Burke e Burn Gorman.


Digger Rockwell (Tom Cruise) é um bilionário do setor petrolífero e de minerais que herdou os negócios da família e se acha acima de tudo e de todos. Um acidente de proporções catastróficas coloca vários países da Europa em risco, assim como os negócios das empresas Rockwell e a credibilidade dos EUA. 

Determinado a provar que é o salvador da humanidade, ele embarca em uma missão frenética para evitar que o desastre que ele mesmo desencadeou destrua tudo.

Poderia ser uma história comum, mas o tom satírico adotado pelo diretor Alejandro González Iñárritu acaba virando o jogo, transformando o longa em uma produção envolvente. Não vou contar mais para não dar spoiler. Mas essa forma de narrativa tem provocado debates entre aqueles que gostaram da abordagem e do conjunto da obra e os que detestaram, considerando o filme ruim, confuso e até desnecessário.


Tom Cruise está irreconhecível, envelhecido e adotando um estilo cowboy, com um terno vinho e chapéu, imitando pistoleiros do Velho Oeste, ou usando pijama enquanto planeja a próxima ação para ter aumentar os lucros. 

Digger é um homem de poucos escrúpulos, mas demonstra um lado emotivo quando está com sua preciosa companheira Maggie, uma gata idosa e doente, prestes a morrer.

O ator saiu de sua zona de conforto da franquia “Missão: Impossível” para apostar em mais uma comédia satírica — a primeira foi “Trovão Tropical” (2008) — e acertou muito bem. É uma atuação digna de disputar um Oscar.


Destaque também para o premiado Riz Ahmed, com ótima interpretação do Dr. Ganesh, especialista ambiental das empresas Rockwell. Apesar de ser uma pessoa de conhecimento avançado em sua área e de discordar das decisões do patrão, ele segue o que lhe é mandado para não desagradar quem paga seu salário.

Ahmed é ganhador do Oscar de 2022 como Melhor Curta-Metragem de Live-Action "O Longo Adeus”, que ele escreveu e estrelou. O ator rouba as cenas, inclusive as que faz com Tom Cruise, e mostra uma boa sintonia com o ator.


O mesmo acontece com John Goodman, cujo papel lembra bastante o perfil de presidentes dos EUA por suas decisões armamentistas e religiosas e pela postura de descaso com a população, especialmente a de outros países. 

No elenco temos ainda a também indicada ao Oscar Sandra Hüller, como Emma, irmã de Digger, com boa atuação, e Jesse Plemons, em uma participação que completa a trama.

“Digger” tem ainda, na maquiagem (especialmente a de Tom Cruise) e na trilha sonora de Cosmo Sheldrake, um dos elementos positivos impossíveis de ignorar. As músicas são impactantes e abraçam as imagens, dando mais vida e vigor às cenas. 


Outro destaque é a fotografia de Emmanuel Lubezki, que adota cores pastéis na maior parte da trama e da vida do protagonista, dando o tom envelhecido que o roteiro precisa para ambientar a história, como se fosse um clássico dos anos 1950. Os enquadramentos com muitos closes dos personagens e cenas de baixo para cima reforçam as ações e até a superioridade de alguns personagens.

Filmado inteiramente em VistaVision, o longa-metragem está disponível nos cinemas nos formatos IMAX, XD, D-Box e 2D, além de contar com acessibilidade, em versões dubladas e legendadas.

Mas, como uma boa história, “Digger” é uma comédia satírica com uma reviravolta surpreendente. A mensagem do filme é um tapa na cara da sociedade ao escancarar algo que todos sabem e fingem que não acontece porque não interessa mudar a realidade. Mesmo que isso coloque a humanidade em risco.


Ficha técnica:
Direção: Alejandro González Iñárritu
Roteiro: Alejandro González Iñárritu, coescrito com Alexander Dinelaris & Nicolás Giacobone, e Sabina Berman
Produção: Legendary Pictures, Warner Bros Pictures, M Productions e TC Productions
Distribuição: Warner Bros Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h07
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: ficção, comédia, drama

28 setembro 2026

“A Queda 2” desafia a gravidade — e a paciência do espectador

Dupla de amigas se aventura em atravessar uma perigosa passarela suspensa na Tailândia a 3 mil
metros de altitude (Fotos: Paris Filmes)
 
 

Maristela Bretas

 
Apesar de ser angustiante do início ao fim, o que incomoda mesmo em “A Queda 2: No Limite” (“Fall 2: Deadpoint”) são as decisões estúpidas quando o assunto é correr riscos desnecessários por motivações pessoais. Continuação de “A Queda”, de 2022, o longa aposta novamente em situações extremas, mas exagera na dose ao construir suas personagens.

Assim como no primeiro filme, Jonathan Frank e Scott Mann assinam o roteiro, enquanto a direção desta vez fica por conta dos irmãos Michael e Peter Spierig. A estreia está prevista para esta quinta-feira nos cinemas, com distribuição da Paris Filmes.


As cenas de perigo, favorecidas por uma ótima fotografia, são tão tensas que chegam a dar “gastura” e revolta em quem está assistindo. Impossível não se perguntar como alguém se propõe a entrar em uma aventura como esta. No caso deste longa, assim como no anterior, eu chamaria de burrice.

Jax Hunter (Harriet Slater) está de luto pela morte da irmã Shiloh, personagem do primeiro filme. Apesar de ser uma jovem que não gosta de se arriscar, ela se une a Luce (Arsema Thomas), uma antiga amiga da irmã, para atravessar a perigosa passarela suspensa do Monte Kwan, na Tailândia. 

O objetivo é chegar até uma estátua de dragão cuja lenda diz ser capaz de devorar os medos de quem a encontra.


O problema é que a dupla acaba presa em uma estreita prancha, a mais de 3 mil metros de altitude, após um deslizamento de rochas. Separadas de seu guia, o misterioso Jon (Tom Brittney), resta a Jax enfrentar seus medos para sobreviver e ajudar a amiga.

As decisões e atitudes da dupla amadora aventureira beiram o absurdo. Por mais que sejam alertadas, elas insistem em continuar a jornada insana. 

Em alguns momentos, chega a dar raiva das protagonistas. E os roteiristas ainda deixam de lado questões básicas, as jovens não sentem fome, sede e cansaço, mesmo depois de três dias penduradas na montanha.


Pelo contrário, elas ainda encontram forças — e põe força nisso — para fazer malabarismos a 3 mil metros de altitude. Também conseguem dormir tranquilamente em uma prancha de uns 50 centímetros de largura (estou chutando o tamanho). Os roteiristas exageraram na dose.

Há ainda uma cena de Jax na ponte, nos momentos finais do filme, que os diretores simplesmente eliminaram e que poderia ter sido bem explorada. De repente, a protagonista já está em outro cenário, deixando para o espectador imaginar o que aconteceu.



Em compensação, os cenários abertos são muito bem explorados pela fotografia, assim como o som, especialmente o das rochas caindo, da prancha ruindo e das correntes se movimentando. Ponto positivo também para as atuações de Harriet Slater e Arsema Thomas. Já Tom Brittney entrega um papel bem canastrão.

“A Queda 2: No Limite”, no fim, é uma repetição de seu antecessor, com mais efeitos gráficos e decisões ainda mais irritantes. E, para completar, o final já abre caminho para um terceiro longa-metragem. Aguardemos. Tomara que seja melhor e consiga recuperar a força do primeiro.


Ficha técnica:
Direção:
Michael e Peter Spierig
Roteiro: Jonathan Frank e Scott Mann
Produção: Capston Pictures e Frawless
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h40
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: suspense, ação, aventura

26 setembro 2026

"Virtuosas": quando o controle aprende a falar de liberdade

Longa leva para as telonas um retiro VIP que promete aperfeiçoar mulheres em busca de sua melhor
versão (Fotos: Olhar Filmes)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema 

 
E se a promessa de ser uma mulher melhor for, na verdade, aprender a obedecer melhor? É a partir dessa provocação que "Virtuosas", novo terror de Cíntia Domit Bittar, constrói seu desconforto. O filme está em cartaz no Cine Belas Artes estrelado por Bruna Linzmeyer, Maria Galant, Juliana Lourenção, Sarah Motta e Brisa Marques. 

Produzido pela Novelo Filmes e distribuído pela Olhar Filmes e Filmes do Estação, o longa também chega ao circuito comercial depois de conquistar o Goes to Cannes Award 2025, durante o Marché du Film, e o Prêmio Netflix da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.


Na trama, Virgínia Heinzel (Bruna Linzmeyer), uma espécie de coach conhecida nas redes sociais, conduz um retiro que promete transformar mulheres em suas “melhores versões”. Germina (Maria Galant), Lorena Canolo (Juliana Lourenção), Bárbara Rossi (Sarah Motta) e Gorete (Brisa Marques) são selecionadas após uma palestra em que Virgínia esconde rosas embaixo das cadeiras. 

O que parece uma oportunidade de autoconhecimento, porém, logo revela regras cada vez mais rígidas. Virgínia é justamente uma das personagens mais interessantes porque não vende submissão de maneira explícita. Pelo contrário: fala em força, protagonismo e transformação. 


A ideia de que a mulher seria o “pescoço” e o homem, a “cabeça”, parece empoderadora até descobrirmos o que esse poder significa na prática: cozinhar, cuidar da casa, preparar tudo para o marido, aprender a tricotar e cumprir expectativas tradicionalmente associadas ao papel feminino. O velho modelo aparece com uma nova embalagem.

É aí que "Virtuosas" encontra sua melhor discussão: o patriarcado também pode sobreviver quando aprende a falar a linguagem do empoderamento. A ordem deixa de ser simplesmente “obedeça” e passa a ser “melhore”. Se você não consegue cumprir as expectativas, o problema passa a ser você. Em vez de questionar a estrutura, é preciso se adaptar a ela.


A jornalista Germina é quem começa a perceber essa contradição e questionar as regras do retiro. Ao mesmo tempo, a própria Virgínia nem sempre parece disposta a seguir aquilo que exige das participantes. 

A tão prometida “melhor versão” começa a parecer menos uma descoberta pessoal e mais um modelo pronto de mulher. A pergunta, então, se torna inevitável: se alguém já decidiu como você deve ser, que liberdade existe nessa transformação?

O terror funciona justamente porque o medo nasce de situações reconhecíveis. Não é necessário recorrer constantemente ao sobrenatural para provocar desconforto. O que assusta está nas relações de poder, na manipulação e na maneira como determinadas ideias podem ser apresentadas como cuidado, orientação ou autoconhecimento.


As próprias participantes ampliam essa discussão. Lorena, esposa de um deputado, recebe privilégios que as demais não têm, mostrando que até dentro de uma estrutura de controle existem diferentes níveis de poder. A regra, portanto, não é aplicada da mesma maneira para todas. Dependendo da posição social ocupada, algumas mulheres podem encontrar brechas que outras não têm.

É uma ideia interessante, mas também revela uma das limitações do filme. "Virtuosas" apresenta questões bastante provocadoras sobre fé, feminilidade, privilégio, manipulação e poder, porém nem sempre consegue aprofundar todas elas. Algumas ideias aparecem com força, mas são abandonadas antes de alcançar todo o potencial dramático.


O mesmo acontece com algumas personagens. Germina possui uma função clara dentro da investigação das contradições do retiro, enquanto Bárbara e Gorete poderiam ter conflitos próprios mais desenvolvidos. 

Em determinados momentos, elas acabam funcionando principalmente como representações de diferentes tipos de mulheres dentro daquele sistema. Dar maior espaço às experiências individuais dessas personagens poderia tornar o impacto do retiro ainda mais forte.

A comparação com "Corra!" (2017) faz sentido justamente pela aproximação com o terror social. Assim como no filme de Jordan Peele, o horror nasce menos de um monstro do que de relações sociais reconhecíveis que escondem algo perturbador. 


Em "Virtuosas", o perigo está justamente naquilo que parece familiar: alguém oferecendo acolhimento, transformação e uma suposta oportunidade de mudança enquanto, aos poucos, estabelece as regras que devem ser seguidas.

Mesmo com essas limitações, Cíntia Domit Bittar encontra no gênero uma maneira eficiente de discutir algo que ultrapassa o próprio terror. O filme não apresenta o patriarcado apenas como uma figura masculina autoritária, mas como uma estrutura capaz de se adaptar e mudar de discurso para continuar funcionando.

E essa talvez seja a parte mais incômoda do longa. Uma regra não deixa de ser regra porque foi apresentada como conselho. Controle continua sendo controle quando vem acompanhado de cuidado. E cobrança não se transforma automaticamente em liberdade apenas porque recebeu o nome de empoderamento.


O desfecho segue essa mesma lógica. É duro, brutal e não oferece um alívio fácil ao espectador. A escolha combina com uma narrativa que passou boa parte do tempo discutindo controle e violência, evitando transformar uma experiência tão incômoda em uma conclusão excessivamente confortável.

O roteiro poderia aprofundar melhor algumas das questões que levanta e dar mais complexidade a determinadas personagens, mas "Virtuosas" consegue deixar uma provocação que permanece depois dos créditos: talvez o verdadeiro terror não seja alguém dizer quem você deve ser, mas fazer você acreditar que essa escolha sempre foi sua.


Ficha técnica:
Direção:
Cíntia Domit Bittar
Produção: Novelo Filmes, coprodução Olhar Filmes
Distribuição: Filmes do Estação
Exibição: Cine Belas Artes
Duração: 1h26
Classificação: 16 anos
País: Brasil
Gêneros: Suspense, ficção, terror

25 setembro 2026

“Papaya” - O poder de mudar o mundo começa nas nossas raízes

Longa de animação conta a saga de uma semente de mamão que quer conhecer o mundo e sonha em poder voar
(Fotos: Boulevard Filmes)
 
 

Eduardo Jr.

 
Uma produção nacional que vale a pena conferir. "Papaya", em cartaz no Cine Belas Artes, marcou história como a primeira animação brasileira selecionada para o Festival Internacional de Cinema de Berlim, mesmo sem levar prêmios oficiais.

O longa-metragem de estreia da diretora e roteirista Priscilla Kellen conta a saga de uma semente de mamão que sonha em poder voar. A distribuição é da Cajuína Audiovisual e da Sessão Vitrine Petrobras, projeto voltado à democratização do cinema brasileiro.

Depois do impacto e do sucesso de "Flow", animação da Letônia que levou pra casa um Oscar e um Globo de Ouro em 2025, o público brasileiro já pode se apaixonar por mais um longa sem diálogos, e mesmo assim muito expressivo.


Colorida e com gráficos que lembram xilogravuras, a obra promete estimular a compreensão do público infantil - e também trazer mensagens para os adultos. 

Na abertura, o espectador é ambientado ao universo de “Papaya” com sons da natureza. A câmera vai subindo por uma raiz, e a vida parece se formar ao som de uma trilha suave. 

Essa música, que parece típica para acalmar um recém-nascido, se mostra coerente quando uma semente de mamão se encontra com uma gota de leite de um seio cor de mamão. 


Assim como essa sementinha, inúmeras outras se alimentam. Mas a primeira delas (cujo destino traçado no nascimento é ser nossa heroína) é arrancada do seio frutífero quando um pássaro aparece para se alimentar daquilo que é o lar de Papaya, a semente pretinha e esperta. 

Curiosa, ela vai em direção à luz que entra por uma fresta aberta na fruta e descobre que o tal pássaro pode voar. Essa habilidade a encanta, é quase um chamado. Num piscar de olhos, ela está no colo da mãe natureza. Tão encantador quanto esta cena é o forrozinho que toca ao fundo. 

Neste primeiro contato com o mundo exterior, tudo é estímulo. Se até uma joaninha, pequena e escura, pode bater suas asas por aí, uma semente de mamão também deve ter esse direito, ora bolas! Mas não. 


Mamãe natureza não deixa, pois há uma grande diferença entre voar e germinar. A saída para não estagnar e criar raízes é se movimentar, se aproximar do amigo sol, que faz suas irmãs sementes brotarem e crescerem.

É quando se intensifica a saga de Papaya, indo além do destino pré-determinado e tentando caminhar com as próprias pernas (ou voar como as pétalas de dente-de- leão). 

Mas nessa aventura ela vai descobrir a hostilidade do arame cercando o egoísmo da propriedade privada, as torres de eletricidade ferindo a paisagem, o ronco das máquinas que fazem tristes as sementes do agronegócio. 


A animação de Priscila Kellen traz uma poesia delicada. Está na sutileza de, no final do arco-íris, reencontrar a esperança quando o sonho de ganhar o mundo te afasta de casa. Na percepção de que se reconectar com suas origens é importante. Na mensagem de que florescer onde você foi plantado é vitória.

Em um Brasil que se fez, também, graças a um êxodo rural, uma animação que aborda a mudança, o sonho, e que vem embrulhada em uma trilha sonora com sanfona, pandeiro e tarol tem muita chance de conquistar corações brasileiros. 

Como atrativos, o longa tem ainda a coprodução de Alê Abreu, que dirigiu “O Menino e o Mundo” (2013), indicado ao Oscar 2016; a ótima trilha sonora de Talita del Collado e a participação da cantora Tulipa Ruiz.  


Brotando em festivais

“Papaya” teve sua primeira exibição em 2025 no Festival de Brasília, integrando a mostra Festivalzinho. O longa também passou pela Première Brasil do Festival do Rio 2025, pela 24ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, pela Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, além de exibição especial na COP30, em Belém. 

Também teve sessões na Mostra de Cinema de Tiradentes, na CineOP e no Olhar de Cinema de Curitiba em junho deste ano. É o primeiro longa-metragem de animação do Brasil a integrar a competitiva mostra Generation KPlus do Festival de Berlim de 2026. 

Assim como a sementinha Papaya, a obra de Priscilla Kellen também quer voar, voar e voar. Vale a pena ir ao cinema e ajudar na decolagem deste filme. 


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Priscilla Kellen
Produção: Boulevard Filmes, Birdo Studios, coprodução Alê Abreu
Distribuição: Cajuína Audiovisual e Vitrine Filmes
Exibição: Cine Belas Artes
Duração: 1h14
Classificação: livre
País: Brasil
Gênero: animação


23 setembro 2026

"Fiebre" - Uma viagem febril e delirante de uma criança pelo universo do fantástico

O visual elaborado da produção pode encantar os adultos, mas a narrativa exige atenção redobrada,
o que não combina com crianças (Fotos: Cup Filmes)
 
 

Patrícia Cassese

 
Um dos principais trunfos de “Fiebre: Um Filme Para Crianças que Não Têm Medo do Fogo” é, sem dúvida, o apuro visual, cativante do início ao fim. O filme de Elisa Eliash, uma produção que une Brasil, Chile e Peru, mescla live-action e animação analógica para compartilhar a história de Nino, um garoto cujos olhos não produzem lágrimas – portanto, demanda cuidados constantes da mãe, que trata de ter sempre à mão um colírio para que os olhos do filho não fiquem demasiadamente ressecados.

Nino não sai muito de casa – a mãe teme que ele caia, devido ao problema ocular. No seu recolhimento involuntário, desenha bastante, mais até do que gostaria. Os trabalhos, fixados na parede, ressaltam um percurso imaginativo que será destrinchado ao longo da narrativa: assim, há a figura do avô chinês, as aventuras do pai, uma ilha na Polinésia... 


A figura da mãe surge em cena quando ela está prestes a sair ao encontro com um homem interessado em adquirir uma pintura que guarda em casa desde a infância. Mesmo febril, Nino vai acompanhá-la.

O aspecto fantástico começa a adentrar a cena quando o menino pede à mãe que lhe conte novamente a história da tela. Apesar de estar em cima da hora, a mulher cede à insistência do filho e relembra Pablo, artista adolescente e misantropo que, quando ela registrava apenas nove anos de idade, habitava o mesmo prédio, até subitamente desaparecer sem deixar rastros. 

Bem, ao menos para as pessoas do entorno, já que, a menina o encontra preso em um quadro a óleo descoberto no apartamento dele, o qual trata de pendurar em seu quarto. É na representação artística que Pablo dá sequência à sua existência, crescendo junto à garota.


Fascinado, Nino é informado pela mãe que é possível adentrar a pintura. Ao mesmo tempo, ela alerta: se entrar é fácil, sair... Imerso no já citado estado febril, Nino em dado momento ignora o alerta materno e profere as palavras mágicas que o transportam para um mundo metafísico, no qual os cenários podem mudar radicalmente a partir do momento em que da sua boca as palavras-chave voltam a sair e mediante representações visuais concretas, como fotos, desenhos e postais. 

Para citar um exemplo, não tarda a ele se ver imerso no filme italiano que, pouco antes, estava sendo exibido na TV de sua casa. O enredo mostra uma família (mãe e crianças) notadamente sem muitos recursos financeiros em meio aos bombardeios de uma guerra que ameaçam fazer a casa desabar. 


É neste momento, aliás, que ele encontra uma companheira de jornada, Dina. Juntos, os dois procuram comida e água, até desembarcarem em uma comunidade aborígene localizada nas cercanias de um vulcão prestes a entrar em erupção. 

Por sinal, temos aí um dos vários apontamentos da simbologia do fogo que aparece no subtítulo em português, para além, claro, da febre que perpassa o corpo do personagem principal, da presença de um sol inclemente ou do que emana de um fósforo.

Ao fim, há uma referência aos pais e mães que contam histórias para seus filhos, revelando uma homenagem aos que não reprimem a imaginação ilimitada dessa fase da vida, a infância, e que, pela realidade concreta, muitas vezes não deixa vestígios na vida adulta. 


A intenção é ótima, assim como digna de nota a associação do estado febril ao percurso delirante de Nino (sozinho ou junto à amiga imaginária Dina). Tal qual, como assinalado no início, o invólucro visual é de assoberbar, e é fácil prever que vai encantar adultos. 

O único porém fica por conta de uma provável não aderência do público-alvo (crianças) à história, pelo menos daquele que pertence à chamada primeira infância. Inicialmente, por conta de a narrativa exigir atenção redobrada, sem tempo para desvios ou desconcentração. 

Por outro lado, há citações que adentram terrenos arenosos, como a menção à morte iminente provocada pela erupção do vulcão. De todo modo, é uma aposta interessante. Se a criança não entender de todo o contexto, sairá impressionada pelo esmero visual. Já os pais, certamente serão cooptados.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Elisa Eliash
Produção: La Forma Cine e Válvula Films (Chile), coproduzido pela Klaxon (Brasil) e Films Bastardia y Tiempo Libre (Peru)
Distribuição: Cup Filmes
Duração: 1h24
Classificação: Livre
Países: Chile, Brasil e Peru
Gêneros: infantil, live-action, animação, ficção

22 setembro 2026

CineBH completa 20 anos transformando a capital mineira em território do cinema

Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte vai ocupar oito espaços da capital mineira, com acesso gratuito (Fotos: Leo Lara/Universo Produção)
 
 

Da Redação

 
De hoje a 27 de setembro, Belo Horizonte recebe a 20ª CineBH - Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte e o 17º Brasil CineMundi – Encontro Internacional de Coprodução. 

A abertura será realizada no Grande Teatro do Cine Theatro Brasil, com a pré-estreia nacional de "Se Eu Fosse Vivo... Vivia", novo longa-metragem do cineasta mineiro André Novais Oliveira, produzido pela Filmes de Plástico. 

O filme marca a estreia de Conceição Evaristo como atriz e também uma das homenageadas, juntamente com a cineasta paraguaia Paz Encin. Duas mulheres com trajetórias fundamentais para a cultura latino-americana contemporânea.

(Fotos: Aline Macedo e Cristian Nuñez)

A celebração dos 20 anos inclui a Retrospectiva CineBH 20 Anos, que recupera filmes exibidos em diferentes momentos da Mostra, e o Cine-Concerto Central do Brasil, realizado em parceria com o Cine Theatro Brasil, que acontece dia 23, às 20 horas. 

Na apresentação, o clássico de Walter Salles será exibido na íntegra, com seus diálogos e efeitos sonoros, enquanto a trilha musical será executada ao vivo.

A programação vai ocupar oito espaços da capital mineira, com acesso gratuito a sessões, debates, atividades formativas, encontros profissionais, homenagens e ações especiais.

Programa A Escola Vai ao Cinema

Formação audiovisual

Ao longo de 20 edições, a CineBH exibiu 1.751 filmes em 1.216 sessões de cinema, beneficiou mais de 50 mil alunos por meio do programa Cine-Expressão – A Escola Vai ao Cinema e certificou mais de 3.800 participantes em seus programas de formação audiovisual. 

A realização também deu origem ao Brasil CineMundi – Encontro Internacional de Coprodução, que, em 17 edições, apresentou 486 projetos brasileiros de longa-metragem, promoveu 3.074 encontros de negócios e contribuiu para que 158 projetos se transformassem em filmes finalizados e lançados comercialmente.

Esses números expressam uma trajetória construída a partir da continuidade. Desde a primeira edição, a CineBH compreendeu que uma mostra de cinema não deveria se limitar à exibição de filmes. 

Brasil CineMundi

Era necessário criar condições para que as obras encontrassem seus públicos, promover o debate sobre os desafios da produção e da circulação, formar novos espectadores e profissionais e aproximar diferentes gerações, territórios e modos de fazer cinema.

História cultural

Criada em 2007 com a reabertura provisória do Cine Santa Tereza, a Mostra CineBH construiu uma atuação permanente na exibição, formação, reflexão e internacionalização do audiovisual e chega à 20ª edição reafirmando Belo Horizonte como capital do cinema latino-americano.

Quando em 2007 a primeira CineBH abriu as portas do Cine Santa Tereza (fechado desde 1980), não inaugurava apenas um novo festival. Recolocava em funcionamento um cinema fechado havia 27 anos, devolvia ao público um espaço que fazia parte da história cultural e afetiva de Belo Horizonte. 

Cine Santa Tereza - Mostra CineBH de 2007

Era o início de uma trajetória baseada em uma convicção: o cinema precisa estar presente na vida da cidade, ao alcance das pessoas e em diálogo permanente com seu tempo.

Duas décadas depois, a CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte chega à 20ª edição como uma realização que articula exibição, formação, reflexão, encontro com o público, valorização da produção local e conexão do cinema brasileiro com a indústria audiovisual internacional. 

Expansão da produção cinematográfica

A CineBH foi criada pela Universo Produção em um contexto no qual a produção cinematográfica brasileira se expandia, mas ainda enfrentava grandes dificuldades para chegar ao público. 

O fechamento progressivo dos cinemas de rua, a concentração das salas em shopping centers e o preço dos ingressos haviam afastado parte da população da experiência coletiva do cinema. 

Cine Belas Artes

Belo Horizonte, que chegou a contar com cerca de 120 cinemas de rua e de bairro, viu desaparecer espaços que eram referências de convivência, descoberta e vida comunitária. 

Criar a CineBH significava responder a essa transformação, aproximando novamente o cinema brasileiro do público e devolvendo a experiência cinematográfica aos espaços da cidade.

“A CineBH começou abrindo as portas de um cinema que estava fechado havia quase três décadas. Aquele gesto mostrava que não queríamos apenas realizar uma programação em Belo Horizonte, mas participar da vida da cidade, reconhecer sua história e criar novas possibilidades de encontro entre os filmes e o público”, afirma Raquel Hallak, diretora da Universo Produção e coordenadora-geral da CineBH.

Cine Sesc Palladium

Com o passar dos anos, a Mostra ampliou sua presença territorial. Cine Santa Tereza, Praça Duque de Caxias, Palácio das Artes, Cine Humberto Mauro, Sesc Palladium, Centro Cultural Banco do Brasil, Cine Theatro Brasil, Cine Belas Artes, Minas Tênis Clube, Teatro Sesiminas, Praça da Liberdade e outros espaços culturais passaram a integrar um circuito que aproximou o cinema de diferentes regiões e públicos.

Projetos brasileiros 

Integrado à CineBH desde 2010, o Brasil CineMundi nasceu para aproximar projetos brasileiros de produtores, distribuidores, agentes de vendas, fundos, festivais, laboratórios, canais, plataformas e outros representantes da indústria audiovisual mundial. 

Consolidou-se como evento de mercado do cinema brasileiro e como ambiente de desenvolvimento, formação, intercâmbio e internacionalização.


Em 2026, o encontro registrou o recorde de 375 inscrições e selecionou 37 projetos brasileiros, provenientes de 11 estados. A programação reúne mais de 200 profissionais da indústria audiovisual e representantes de 15 países em atividades de desenvolvimento, sessões de pitching, consultorias, encontros de negócios, masterclasses e debates.

Já a mostra A Cidade em Movimento, criada em 2016, apresenta filmes realizados na capital e na Região Metropolitana, com o objetivo de aproximar realizadores, coletivos, comunidades e público. Neste ano, completa a 11ª edição com o tema “Abecedário da Existência” e a apresentação de 17 filmes.

Cinema latino-americano

Com o tema “Cinema Latino-Americano: o que será?”, a 20ª CineBH propõe uma reflexão sobre as condições de criação, produção e circulação dos filmes no continente e sobre os futuros possíveis para suas cinematografias. 

Mostra Retrospectiva 20 Anos

Mostra Território

Mostra Vertentes

A edição reúne 102 filmes, entre 49 longas e 53 curtas-metragens, produções brasileiras de 18 estados e obras de 13 países, distribuídas em 69 sessões de cinema, além da programação on-line.

As competições Horizonte e Território apresentam 12 longas-metragens de sete países: Brasil, México, Argentina, Chile, Cuba, Colômbia e Venezuela. A programação inclui ainda as mostras Vertentes, Praça, CineMundi, Homenagem e Diálogos Históricos, A Cidade em Movimento, Curtas Contemporâneos, Retrospectiva CineBH 20 Anos, Olhares da Argentina, Mostrinha e Cine-Expressão – A Escola Vai ao Cinema.

A programação apresenta também os livros “Territórios do Cinema – CineBH 20 Anos” e “O Cinema Brasileiro no Mundo – Brasil CineMundi 17 Edições”. As publicações reúnem artigos, reflexões, dados, registros históricos e diferentes perspectivas sobre cinema, cidade, formação, mercado, coprodução, internacionalização e circulação.


SERVIÇO:
20ª CineBH - Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte e 17º Brasil CineMundi - Encontro Internacional de Coprodução
Data: 22 a 27 de setembro de 2026
Programação: gratuita
Locais: Fundação Clóvis Salgado (Cine Humberto Mauro, Sala Juvenal Dias, Teatro João Ceschiatti e Jardim Interno), Cine Theatro Brasil Vallourec (Grande-Teatro, Teatro de Câmara, Galerias 5º e 6º andar, Terraço), Cine Belas Artes, Cenro Cultural Unimed-BH Minas, Cine Santa Tereza, Teatro Sesiminas, Casa da Mostra e Praça da Liberdade
Informações: Site oficial do evento: www.cinebh.com.br ou pelo telefone (31) 3282-2366