09 maio 2026

“Era Uma Vez Minha Mãe”, um filme sobre esse amor desmesurado

Longa dirigido por Ken Scott foi apresentado pela primeira vez no Festival de Cinema Francês no ano
passado  (Fotos: California Filmes)
 
 

Patrícia Cassese

 
Certamente, foi de caso pensado. Em meio ao fluxo de filmes que marcaram presença no Festival de Cinema Francês (antigo Varilux) ano passado, mas que só agora efetivamente entram em cartaz, “Era Uma Vez Minha Mãe” ("Ma mère, Dieu et Sylvie Vartan"), roteiro e direção de Ken Scott, estreia às vésperas do Dia das Mães, com potencial para deixar olhos marejados nas sessões. 

Claro, filmes sentimentais costumam desagradar parte do público, mas mesmo esse pode – e deve – abrir exceção para fruir sem preconceitos uma história baseada em uma história real (publicada em livro). Deixando mais claro, de uma mãe que luta com todas as forças para que o filho caçula, nascido com uma malformação em um dos pés, possa ter direito a uma vida normal – incluindo a capacidade de andar.


A narrativa tem início em 1963, com o nascimento de Roland Perez (interpretado por mais de um ator, sendo, na fase adulta, por Jonathan Cohen). Nos momentos que precedem o parto, o espectador é apresentado a Esther (Leïla Bekhti), mulher de origem marroquina. 

Um exemplo de mãe coragem que, antes de ir para a maternidade, mesmo já com as contrações em curso, deixa tudo arrumado para os filhos mais velhos (são cinco!) e parte sozinha, já que não vê a presença do marido como necessária, em transporte coletivo. 

No bloco cirúrgico, ela já percebe que algo não vai bem, pelo olhar dos profissionais presentes. Logo, é informada que o garoto nasceu com um resquício de pé. Uma “deformidade”, palavra que a mãe refuta veementemente. Especialistas dizem que o menino só conseguiria andar com uma órtose – o que ela também descarta.


Esther passa a procurar todos os médicos possíveis, numa via Crúcis insana. Do mesmo modo, alguns charlatões. Ao mesmo tempo, espera por um milagre a cada nascer do sol, montando inclusive um pequeno altar. Neste ínterim, o menino, já uma criança (vivido pelo tão fofo quanto expressivo Naim Naji), vai se arrastando pelo chão da casa na qual vive a família. 

Como não sai à rua, Roland não frequenta a escola – assim, não demora uma assistente social (Madame Fleury) bater à porta cobrando a alfabetização do caçula, como previsto em lei. Esther vai driblando a oficial, mas a situação vai se tornando insustentável.

É nesse momento do longa que um acontecimento prosaico altera para sempre a vida de Roland e de todos do entorno. Graças à irmã e às amigas dela, fãs da cantora Sylvie Vartan, o menino trava contato com essa que é um grande nome da música francesa. 


E por ela se encanta, a ponto de emular, com uma canetinha, o espaço que a diva tem como marca entre os dentes da frente. As canções de Vartan embalam a vida familiar até que, um belo dia, Esther recebe, do Marrocos, um cartão-postal do irmão, sugerindo um profissional que poderia definitivamente ajudar o filho a andar.

Com a esperança reabastecida, Esther pede mais um prazo a Madame Fleury, mas uma nova surpresa a aguarda. O senhor Verchepoche, que, na verdade, não era um médico - antes, um curandeiro -, faleceu um mês antes de mãe e filho baterem à sua casa, onde, diga-se, são atendidos pela viúva. No entanto uma luz no fim do túnel se acende – e, por meio dela, a música de Sylvie Vartan continua a ecoar.

Para o público mais jovem, vale a pena situar que, nos anos 60, 70 e mesmo 80, a música francesa e a italiana marcavam forte presença nas rádios e nas trilhas de novelas brasileiras. Sylvie Vartan, hoje com 81 anos, é uma das cantoras cujas músicas – particularmente, “Irrésistiblement” fizeram sucesso no Brasil. 


Mas sim, nos dias atuais, a intérprete é mais conhecida pelos que viveram aqueles tempos e pelos amantes/estudiosos do idioma. Provavelmente por conta disso, a distribuição do filme, no Brasil, optou por alterar o título original – “Ma mère, Dieu et Sylvie Vartan” (ou seja, Minha Mãe, Deus e Sylvie Vartan) – por “Era Uma Vez Minha Mãe”. 

No entanto, para o público francês, o nome de Vartan está irrevogavelmente atrelado à história de Roland. Reza a prudência não destrinchar muito a importância dessa influência nesse processo, sob a pena de estragar o prazer do público em acompanhar essa história tão incrível, na qual o destino parece ter selado parceria com a mãe daquele menino que, ao nascer, parecia condenado a viver se arrastando. 


Roland, registre-se, chegou longe. Virou um advogado de renome. E, para tal, o empenho da mãe foi primordial. Na representação de sua história no cinema, impossível não se apaixonar por Esther, interpretada magistralmente pela já citada Leïla Bekhti.

A todo tempo ela repete para o filho a palavra michkpara, que, na tradução apresentada na tela, significa “eu te dou minha vida”. Nada não habitual para uma mãe, mas é surpreendente a ênfase com a qual Esther assume esse mantra. 

Por outro lado, o amor desmedido, desmesurado, também tem seu lado negativo. E, com o passar do tempo, o fato de a vida de mãe e filho ter se amalgamado com tanta intensidade revela o seu ônus.     


No frigir dos ovos, além das boas atuações, e da curiosidade de o filme ter se inspirado em uma história real, outros pontos positivos sustentam a experiência de assisti-lo, caso da paleta cromática que marca os enquadramentos, da reconstituição de época, da trilha sonora (com o predomínio da cantora homenageada, óbvio), a maquiagem (que marca o passar do tempo nos personagens) e o fato de a própria Sylvie Vartan interpretar a si própria (no caso, nas cenas em que aparece mais jovem, com a ajuda da tecnologia).

Registre-se, ainda, a presença de Joséphine Japy, uma graça de atriz, conhecida do público francófono local pelo fofo “Amor à Segunda Vista”. Jonathan Cohen, por seu turno, além de já ter tido vários de seus filmes exibidos por aqui, também participou da série “Negócio de Família”, disponível na Netflix. 

Outra curiosidade é que a música “Irrésistiblement”, de Sylvie Vartan, também foi recuperada recentemente por outro filme, “Inverno em Paris”, também exibido na capital mineira.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Ken Scott
Distribuição: California Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h42
Classificação: 16 anos
Países: França, Canadá
Gênero: drama

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