Drama com pinceladas de suspense aborda traição conjugal, possessividade e desejo de vingança (Fotos: California Filmes)
Eduardo Jr.
O conhecido rosto do ator francês Omar Sy volta às telonas no próximo dia 28 de maio. “Fora de Controle” ("Dis-moi juste que tu m’aimes"), dirigido por Anne Le Ny, chega aos cinemas brasileiros com trama sobre traição e possessividade. A distribuição é da California Filmes.
Na obra, Julien (Omar Sy) está casado há 15 anos. Mas sua esposa Marie (Élodie Bouchez) sente a relação ameaçada com a volta da ex de Julien, Anaëlle, papel de Vanessa Paradis - a cantora de “Joe Le Taxi”, que conhecemos como “Vou de Taxi”, na voz de Angélica (eu não podia deixar vocês sem essa informação).
A insegurança, a ira e o desejo de vingança por desconfiar que o marido se encontrou com a ex, colocam Marie num affair com seu próprio chefe, Thomas (José Garcia).
Mas o carente e possessivo Thomas começa a perseguir Marie. É aí que o título se justifica. Manipulação, ameaças e suspense psicológico passam, então, a marcar presença no filme.
A semelhança com “Atração Fatal” (1987) se dá pela obsessão de Thomas com Marie. Um toque de modernidade ao inverter os gêneros de perseguidor e perseguido.
Mas claro, guardadas as proporções e a época em que o primeiro filme foi realizado, “Fora de Controle” fica abaixo na temperatura, afinal, é cinema francês, tem seus momentos de resfriamento. E cá pra nós, fica difícil abordar o tema e superar o que a série “Bebê Rena” (2024) estampou na tela.
No frigir dos ovos, esta é uma obra correta. Fotografia que não compromete, inserção de trilha cuidadosa e atuações na medida. Não estaríamos errados em afirmar que é mais drama do que suspense, com boas reviravoltas. Carece de mais emoção, mas pode agradar ao espectador.
Ficha técnica:
Direção e Roteiro: Anne Le Ny Distribuição: Califórnia Filmes Exibição: nos cinemas Duração: 1h51 Classificação: 18 anos
Longa dirigido por Ken Scott foi apresentado pela primeira vez no Festival de Cinema Francês no ano passado (Fotos: California Filmes)
Patrícia Cassese
Certamente, foi de caso pensado. Em meio ao fluxo de filmes que marcaram presença no Festival de Cinema Francês (antigo Varilux) ano passado, mas que só agora efetivamente entram em cartaz, “Era Uma Vez Minha Mãe” ("Ma mère, Dieu et Sylvie Vartan"), roteiro e direção de Ken Scott, estreia às vésperas do Dia das Mães, com potencial para deixar olhos marejados nas sessões.
Claro, filmes sentimentais costumam desagradar parte do público, mas mesmo esse pode – e deve – abrir exceção para fruir sem preconceitos uma história baseada em uma história real (publicada em livro). Deixando mais claro, de uma mãe que luta com todas as forças para que o filho caçula, nascido com uma malformação em um dos pés, possa ter direito a uma vida normal – incluindo a capacidade de andar.
A narrativa tem início em 1963, com o nascimento de Roland Perez (interpretado por mais de um ator, sendo, na fase adulta, por Jonathan Cohen). Nos momentos que precedem o parto, o espectador é apresentado a Esther (Leïla Bekhti), mulher de origem marroquina.
Um exemplo de mãe coragem que, antes de ir para a maternidade, mesmo já com as contrações em curso, deixa tudo arrumado para os filhos mais velhos (são cinco!) e parte sozinha, já que não vê a presença do marido como necessária, em transporte coletivo.
No bloco cirúrgico, ela já percebe que algo não vai bem, pelo olhar dos profissionais presentes. Logo, é informada que o garoto nasceu com um resquício de pé. Uma “deformidade”, palavra que a mãe refuta veementemente. Especialistas dizem que o menino só conseguiria andar com uma órtose – o que ela também descarta.
Esther passa a procurar todos os médicos possíveis, numa via Crúcis insana. Do mesmo modo, alguns charlatões. Ao mesmo tempo, espera por um milagre a cada nascer do sol, montando inclusive um pequeno altar. Neste ínterim, o menino, já uma criança (vivido pelo tão fofo quanto expressivo Naim Naji), vai se arrastando pelo chão da casa na qual vive a família.
Como não sai à rua, Roland não frequenta a escola – assim, não demora uma assistente social (Madame Fleury) bater à porta cobrando a alfabetização do caçula, como previsto em lei. Esther vai driblando a oficial, mas a situação vai se tornando insustentável.
É nesse momento do longa que um acontecimento prosaico altera para sempre a vida de Roland e de todos do entorno. Graças à irmã e às amigas dela, fãs da cantora Sylvie Vartan, o menino trava contato com essa que é um grande nome da música francesa.
E por ela se encanta, a ponto de emular, com uma canetinha, o espaço que a diva tem como marca entre os dentes da frente. As canções de Vartan embalam a vida familiar até que, um belo dia, Esther recebe, do Marrocos, um cartão-postal do irmão, sugerindo um profissional que poderia definitivamente ajudar o filho a andar.
Com a esperança reabastecida, Esther pede mais um prazo a Madame Fleury, mas uma nova surpresa a aguarda. O senhor Verchepoche, que, na verdade, não era um médico - antes, um curandeiro -, faleceu um mês antes de mãe e filho baterem à sua casa, onde, diga-se, são atendidos pela viúva. No entanto uma luz no fim do túnel se acende – e, por meio dela, a música de Sylvie Vartan continua a ecoar.
Para o público mais jovem, vale a pena situar que, nos anos 60, 70 e mesmo 80, a música francesa e a italiana marcavam forte presença nas rádios e nas trilhas de novelas brasileiras. Sylvie Vartan, hoje com 81 anos, é uma das cantoras cujas músicas – particularmente, “Irrésistiblement” fizeram sucesso no Brasil.
Mas sim, nos dias atuais, a intérprete é mais conhecida pelos que viveram aqueles tempos e pelos amantes/estudiosos do idioma. Provavelmente por conta disso, a distribuição do filme, no Brasil, optou por alterar o título original – “Ma mère, Dieu et Sylvie Vartan” (ou seja, Minha Mãe, Deus e Sylvie Vartan) – por “Era Uma Vez Minha Mãe”.
No entanto, para o público francês, o nome de Vartan está irrevogavelmente atrelado à história de Roland. Reza a prudência não destrinchar muito a importância dessa influência nesse processo, sob a pena de estragar o prazer do público em acompanhar essa história tão incrível, na qual o destino parece ter selado parceria com a mãe daquele menino que, ao nascer, parecia condenado a viver se arrastando.
Roland, registre-se, chegou longe. Virou um advogado de renome. E, para tal, o empenho da mãe foi primordial. Na representação de sua história no cinema, impossível não se apaixonar por Esther, interpretada magistralmente pela já citada Leïla Bekhti.
A todo tempo ela repete para o filho a palavra michkpara, que, na tradução apresentada na tela, significa “eu te dou minha vida”. Nada não habitual para uma mãe, mas é surpreendente a ênfase com a qual Esther assume esse mantra.
Por outro lado, o amor desmedido, desmesurado, também tem seu lado negativo. E, com o passar do tempo, o fato de a vida de mãe e filho ter se amalgamado com tanta intensidade revela o seu ônus.
No frigir dos ovos, além das boas atuações, e da curiosidade de o filme ter se inspirado em uma história real, outros pontos positivos sustentam a experiência de assisti-lo, caso da paleta cromática que marca os enquadramentos, da reconstituição de época, da trilha sonora (com o predomínio da cantora homenageada, óbvio), a maquiagem (que marca o passar do tempo nos personagens) e o fato de a própria Sylvie Vartan interpretar a si própria (no caso, nas cenas em que aparece mais jovem, com a ajuda da tecnologia).
Registre-se, ainda, a presença de Joséphine Japy, uma graça de atriz, conhecida do público francófono local pelo fofo “Amor à Segunda Vista”. Jonathan Cohen, por seu turno, além de já ter tido vários de seus filmes exibidos por aqui, também participou da série “Negócio de Família”, disponível na Netflix.
Outra curiosidade é que a música “Irrésistiblement”, de Sylvie Vartan, também foi recuperada recentemente por outro filme, “Inverno em Paris”, também exibido na capital mineira.
Ficha técnica:
Direção e roteiro: Ken Scott Distribuição: California Filmes Exibição: nos cinemas Duração: 1h42 Classificação: 14 anos Países: França, Canadá Gêneros: drama, comédia
Benjamin Voisin interpreta o francês Meursault, um jovem que não demonstra sentimentos nem com a morte da mãe (Fotos: California Filmes)
Patrícia Cassese
Publicado em 1942, “O Estrangeiro” ("L'Étranger), do franco-argelino Albert Camus (1913 – 1960), não tardou a entrar para o panteão dos clássicos, conquistando mais e mais leitores no curso do tempo, mundo afora.
Previsivelmente, não tardou a ser adaptado para o teatro e para o cinema – no último caso, por Luchino Visconti, em 1967, com Marcello Mastroianni como protagonista.
A mais recente versão para a sétima arte desta obra, desta vez, dirigida pelo francês François Ozon, está em cartaz no Una Cine Belas Artes e no Centro Cultural Unimed-BH Minas. Lembrando que, ano passado, o título foi exibido em algumas sessões em BH dentro do Festival de Cinema Francês (antigo Varilux).
Agora, Meursault é vivido pelo ótimo Benjamin Voisin, de “Ilusões Perdidas”. O jovem ator, vamos lembrar, teve seu primeiro papel de destaque no cinema pelas mãos do mesmo Ozon, no tocante “Verão de 85”.
Logo no início da trama de “O Estrangeiro”, o personagem central, funcionário de um escritório em Argel (então ainda colônia da França), recebe a notícia do falecimento da mãe, que vivia em um asilo em Marengo, a 80 quilômetros da capital.
Ao contrário do comportamento esperado pela sociedade em situações afins, Meursault não deixa transparecer laivos de inconformismo diante do anúncio. Sequer uma vaga tristeza. Ao contrário, mantém a fleuma e a apatia características de sua personalidade, declinando inclusive da oferta de que o caixão fosse aberto, para que pudesse ver, pela última vez, a genitora.
Em uma sociedade na qual a dor de perder um ente querido é majoritariamente validada por rituais que incluem lágrimas, soluços e manifestações vívidas de inconformismo, a impassibilidade de Meursault chama a atenção dos companheiros de moradia da falecida.
Mais tarde, a indiferença do único filho da sexagenária volta à baila quando Meursault já está no banco dos réus, após assassinar um rapaz árabe a cinco tiros, sendo quatro disparados quando a vítima já estava sem vida.
O episódio que muda irreversivelmente a vida de Meursault, como quem leu o livro bem se recorda, se dá num dia de muito calor em que, a convite de um vizinho, o comerciante Raymond (Pierre Lottin), o protagonista vai à praia com a namorada, Marie (Rebecca Marder).
O rapaz árabe, por sua vez, é irmão da amante de Raymond, uma moça a quem ele recentemente espancara. Portanto, aparece no balneário, junto a amigos, em tom de intimidação e possível vingança ao agressor.
No momento que precede o crime, porém, os rapazes já tinham inclusive se distanciado do ponto da praia onde Raymond, Meursault e companhia estavam. Ocorre que, subitamente, sem um propósito explicitado, Meursault deixa o grupo para, sozinho, dar uma nova caminhada. É quando, metros adiante, ainda na praia, volta a encontrar o hercúleo rapaz, desta vez já sozinho. É quando, sob o brilho do sol inclemente, o crime acontece.
Com sua agudeza particular, François Ozon não deixa de explorar o racismo contra os árabes, em falas como a do advogado de Meursault (diga-se, escolhido à revelia do personagem, já que, por ele, nem teria defesa), que cita o fato de que vários franceses foram anteriormente absolvidos por matar locais, comprovando, assim, uma dinâmica de povos subjugados.
O julgamento do personagem central - que mantém a letargia característica em seu curso, quase como se fosse um espectador do processo, e não o homem sentado no banco dos réus - assume, claro, a metade final da narrativa.
Cumpre dizer que, nesta transposição, Ozon mantém-se bem fiel à obra de Camus, ainda que insira uma licença poética que não vai passar despercebida aos que trazem frescos na memória detalhes da icônica obra.
Trata-se de um momento fugaz em que Meursault lança um olhar fixo ao corpo delineado do rapaz árabe, em particular, à axila do mesmo, o que sutilmente sugere que houve outro motivo para que descarregasse o cartucho no garoto.
Com apenas 29 anos, Benjamin Voisin já mostrou várias vezes a que veio, com um talento que lhe permite dar corpo a personagens densos, de vieses distintos, mas que muito exigem da interpretação. Aqui, surge perfeito como Meursault, um atento e interessado observador do comportamento humano, mas que, apático até a medula, não busca interferir no rumo dos acontecimentos, limitando-se a aceitar o fluxo da vida com resignação e mesmo certo abatimento.
A opção pelo preto & branco mostra-se perfeitamente acertada, gerando imagens em que os contrastes de luz e sombra criam quadros belíssimos. Talvez um pequeno reparo possa ser feito em relação à percepção de que o calor descrito com tanto detalhamento e intensidade no livro de Camus (como nas frases “havia já duas horas que o dia deitara sua âncora neste oceano de metal fervente “ou “a ardência do sol queimava-me as faces e senti o suor amontoar-se nas minhas sobrancelhas”) não apareça na tela de modo mais demarcado, o que poderia ser alcançado, por exemplo, com o efeito de roupas empapadas ou suor escorrendo pelo rosto dos personagens.
Nada, porém, que interfira no deleite de ver um clássico de volta ao cinema com a condução de um expoente como Ozon, e com elenco tão empenhado. Portanto, vá ao cinema – e, se possível, aproveite para ler ou reler o livro.
Ficha técnica:
Direção e roteiro: François Ozon Distribuição: California Filmes Exibição: Una Cine Belas Artes e Centro Cultural Unimed-BH Minas Duração: 2h02 Classificação: 16 anos Países: França, Bélgica e Marrocos Gêneros: drama, crime
Longa é baseado na biografia de Mohamend Bida, ex-chefe de segurança da embaixada da França no Afeganistão na época da ocupação (Fotos: California Filmes)
Eduardo Jr.
As cenas do Talibã tomando Cabul e retirando direitos das mulheres são de 2021, mas devem estar frescas na memória de muita gente. O que pouco se viu e se fala é sobre a negociação e a retirada de franceses do Afeganistão.
Este é o mote de “13 Dias, 13 Noites” ("13 Jours, 13 Nuits"), do diretor Martin Bourboulon ("Os Três Mosqueteiros: D'Artagnan" - 2023). Distribuído pela California Filmes, o longa estreia nos cinemas brasileiros no dia 26 de março.
A obra é baseada no livro autobiográfico do comandante Mohamend Bida, que foi chefe de segurança da embaixada da França em território afegão na época.
A história mostra franceses e afegãos buscando abrigo e tentando deixar o território. A missão de Bida é levar o grupo de quase 500 pessoas até o aeroporto para escaparem de uma Cabul dominada pelo Talibã.
Sim, é um filme de guerra. Mas não se engane com as cenas em dias claros ou com a tela preenchida por cores. Por trás disso está a tensão que deixa o espectador na ponta da cadeira.
As conversas sussurradas, os personagens que surgem e não se sabe se são de confiança… tudo é motivo para esperar o pior.
O protagonista Bida (vivido Roschdy Zem) canaliza essa tensão, que aparentemente impacta até sua vida pessoal. Não por acaso apresenta um semblante carregado e quase nenhum sorriso.
Ele é quem se esforça para proteger agentes ameaçados pelo Talibã, que enfrenta o perfil burocrata do embaixador e tenta garantir a sobrevivência do maior número possível de cidadãos.
Alcançar esse objetivo demanda negociar com colegas militares, dialogar com o inimigo, enfrentar conversas que podem ser encerradas a bala, e superar traições e artifícios que podem deflagrar uma guerra entre países.
Ação e suspense se unem ao contexto político para criar uma obra muito interessante. O longa foi indicado ao Cesar na categoria de Melhor Montagem. Mais um incentivo para ir aos cinemas e conferir a produção.
Ficha Técnica: Direção: Martin Bourboulon Roteiro: Martin Bourboulon e Alexandre Smia, com colaboração de Trân-Minh Nam Produção: Chapter 2 e coprodução de Pathé Films e M6 Films Distribuição: California Filmes Duração: 1h52 Países: França e Bélgica Gêneros: biografia, drama, ação, guerra
Paulo Miklos e Carol Bresolin formam o casal que vive uma relação abusiva durante a pandemia (Fotos: California Filmes)
Silvana Monteiro
"Carcaça" se apresenta como um suspense psicológico ambientado em um cenário pandêmico, mas rapidamente se transforma em um labirinto de pesadelos e decisões questionáveis. Dirigido por André Borelli, o filme aposta em uma atmosfera claustrofóbica e na tensão entre um casal isolado, formado por Paulo Miklos e Carol Bresolin.
Infelizmente, a produção tropeça no que poderia ser seu maior trunfo: a descoberta e a libertação. O longa-metragem já está disponível nas plataformas de aluguel Vivo Play, Prime Vídeo, Claro Vídeo, Google Play, Apple, Net Now, Youtube e Total Play.
A trama, repleta de armadilhas narrativas, não serve para aprofundar a história ou conectar os pontos de maneira eficaz. Em vez disso, cria expectativas que se frustram repetidamente. A sinopse — “Durante uma pandemia, uma jovem descobre o segredo sombrio de seu parceiro possessivo, desencadeando uma luta desesperada por liberdade” — promete um mergulho nos segredos obscuros de um relacionamento abusivo em meio ao isolamento, mas não cumpre esse promissor objetivo.
O que se vê na tela é uma sucessão de cenas oníricas que diluem a tensão, desviando-se do que se espera de um suspense consistente. A repetição exaustiva de sequências de pesadelo, onde a protagonista acorda abruptamente, mina a imersão e torna a narrativa previsível.
Para os aficionados por fotografia, assistir ao filme no mudo pode ser uma experiência satisfatória. O preto e branco bem trabalhado serve como pano de fundo para a falta de contexto narrativo.
Embora a escolha da monocromia seja acertada, sua conexão com a história é frágil, marcada por lapsos e vácuos narrativos. As cenas em planos detalhe, plongée e contra-plongée que exploram as sensações dos protagonistas oferecem momentos visualmente interessantes, mas não o suficiente para sustentar a narrativa.
A ausência de um contexto pandêmico claro — seja Covid-19 ou outra doença — desperdiça a oportunidade de explorar as angústias e paranoias específicas de uma determinada crise sanitária.
O segredo do personagem masculino carece de profundidade, não justificando o suspense pretendido. A hesitação do roteiro em explicitar esse segredo cria um vazio que dificulta a conexão do espectador com a angústia da protagonista. O resultado é uma sucessão de cenas que repetem os mesmos artifícios na tentativa de hipnotizar e intrigar, mas sem sucesso.
A câmera, sob um olhar masculino, fetichiza a protagonista, Carol Bresolin, por meio de closes e ângulos que sugerem uma tentativa de aprofundar questões sociais relacionadas aos relacionamentos abusivos. Contudo, essa abordagem se desdobra como um mosaico desencaixado, sem uma história sólida para sustentá-la e sem transmitir uma mensagem social coerente.
"Carcaça" se perde em suas próprias ambições, resultando em um suspense inconsistente e superficial. A falta de coesão entre as escolhas narrativas e visuais, a repetição exaustiva de pesadelos e a objetificação da protagonista tornam a experiência frustrante.
Em termos técnicos, o formato teatral, juntamente com as fisionomias cênicas e microexpressões de Miklos e Bresolin, ainda conseguem capturar a atenção.
E sim, mulheres, corram de segredos sombrios em parceiros abusivos.
Ficha técnica:
Direção: André Borelli Distribuição: Califórnia Filmes Exibição: nas plataformas de aluguel Total Play, Apple TV, Youtube, Vivo Play, Prime Video, Claro-Vídeo, Claro-TV, Google Play Duração: 1h10 Classificação: 18 anos País: Brasil Gênero: suspense psicológico
Stephen Fry e Lena Dunham são pai e filha numa viagem para reconstruir as raízes da família (Fotos: Divulgação)
Jean Piter Miranda
Voltar à terra dos antepassados e conhecer suas origens. Para muitos, isso é mera curiosidade. Para outros, é prioridade. Como é o caso da jornalista estadunidense Ruth (Lena Dunham). Ela viaja com o pai, Edek Rothwax (Stephen Fry), para a Polônia, a fim de reconstruir as raízes de sua família.
Essa é a história contada em “Tesouro” ("Treasure"), filme alemão produzido em parceria com outros países europeus que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (28).
O ano é 1990. Ruth e o pai saem de Nova York rumo à Varsóvia, na Polônia. Ela está empolgada para conhecer o lugar onde sua família viveu. Só que seu pai não. E tem um motivo. Edek é sobrevivente do Holocausto e as memórias que ele tem do lugar não são nada boas. Na verdade, ele nem quer relembrar.
Esse conflito de expectativas cria situações engraçadas durante a estadia da dupla na Polônia. Ruth tem tudo planejado, roteiro de onde quer visitar e porque quer ir em cada lugar. Edek, por sua vez, tenta a todo custo sabotar os planos da filha para não ter que revisitar os lugares que lhe trazem lembranças ruins.
"Tesouro" pode ser considerado um “Road movie”, um filme de estrada. Porque é isso que Ruth e Edek fazem. Eles vão de Varsóvia à Lódz, cidade natal de Edek, e visitam Auschwitz e outros lugares.
A grande diferença é que, nos tradicionais filmes de viagem, as imagens são sempre amplas, abertas, para mostrar as cidades, os pontos turísticos. Em "Tesouro", as cenas são quase sempre feitas em ambientes internos.
A escolha por filmagens em locais mais fechados é bem acertada, pois remete aos anos 1990. Isso somado a uma fotografia um tanto mais escura e com pouca cor, além dos cenários com móveis, roupas e carros da época. Dá o ar de que realmente estamos na Polônia de décadas atrás.
O personagem de Edek é mais simpático, mais cativante. Ruth não tem o mesmo humor e isso fica compreensivo ao longo da história. Há o choque cultural de Ruth por não ter crescido na Polônia, principalmente com relação ao idioma.
Ao contrário do que muitos imaginam, nem todo mundo na Europa fala o inglês. Isso é bem abordado no filme, assim como diferentes hábitos e costumes.
Outro ponto interessante do longa é o não mostrar cenas de violência nos campos de concentração. Recurso que poderia ter sido utilizado nas lembranças Edek, mas que a direção optou por não empregar.
A simples referência ao Holocausto já trás ao espectador essas imagens. Semelhante ao que foi feito em “Zona de Interesse” (2013), onde o tema é abordado, mas sem cenas explícitas do massacre dos judeus na Segunda Guerra Mundial.
"Tesouro" tem momentos cômicos e dramáticos, com bons diálogos e pequenas surpresas. Provocam boas reflexões sobre família, filhos, casamento e outras coisas que dão sentido à vida. É um filme lento e, para muitos, pode até ser cansativo. Mas, no fim, cumpre seu propósito. Não promete muito e conta bem a história que propõe.
O longa é uma adaptação do livro “Too Many Men”, da escritora australiana Lily Brett. Romance premiado de 1999, inspirado em fatos reais e que, infelizmente, até o momento, ainda não foi lançado no Brasil. Sendo assim, quem quiser conhecer essa história, ir ao cinemas ver "Tesouro" é uma boa pedida.
Ficha técnica:
Direção e roteiro: Julia von Heinz Distribuição: California Filmes Exibição: nos cinemas Duração: 1h51 Classificação: 14 anos Países: França, Alemanha, EUA, Bélgica, Polônia, Hungria Gêneros: drama, comédia
Line Renaud e Dany Boon protagonizam este drama francês com pitadas de romance e violência doméstica (Fotos: California Filmes/Divulgação)
Mirtes Helena Scalioni
Histórias que dão voz ao acaso costumam emocionar, assim como as que tratam de relatos de lembranças de pessoas maduras e solitárias. Claramente inspirado em “Conduzindo Miss Daisy” (1989), o longa francês de Christian Carion, “Conduzindo Madeleine”, que estreia no Cineart Ponteio nesta quinta-feira (9), acrescenta a isso pitadas de romance e violência doméstica. Tudo embalado por uma trilha sonora de lindas canções do jazz e do blues.
Quando Madeleine Keller, de 92 anos, pede um táxi para levá-la à instituição de idosos onde vai passar o resto de seus dias, o mal-humorado taxista Charles, que só aceita a corrida porque precisa muito do dinheiro, não imagina como aquela tarefa pode mudar sua vida.
Em atuação brilhante de Line Renaud, a velhinha vai amolecendo aos poucos o coração daquele trabalhador que, beirando os 50 anos, está desiludido e cheio de problemas financeiros. E é passeando por toda a Paris que ele vai descobrindo que, por trás de toda aquela aparente doçura, sua passageira esconde uma trajetória de sofrimento e superação.
Além de se emocionar com os laços que vão sendo lentamente construídos naquela viagem pelas ruas de Paris, com direito a passadinhas por símbolos icônicos da Cidade Luz, o espectador ainda pode observar uma discreta declaração de amor ao teatro e um claro discurso em favor da causa das mulheres submetidas à violência.
Vale ressaltar a interpretação sutil de Dany Boon como Charles, o 'chauffeur' – como querem os franceses – se deixando levar pela conversa da sua passageira, passando, com leveza, do mutismo e da indiferença para o encantamento, as risadas e a cumplicidade.
Como um bom filme que tem as memórias como fundamento, “Conduzindo Madeleine” apela para um sem-número de oportunos flashbacks, claro. E nas lembranças da protagonista, surge a jovem romântica e sonhadora Madeleine (interpretação de Alice Isaaz) que, aos 16 nos, na década de 1950, se apaixona por um soldado americano Matt (Elie Kaempfen).
Destaque também para Jéreme Laheurte, que faz Raymond, o jovem e violento marido da moça; Gwendoline Hamon como Denise Keller, a mãe dela, e Thomas Alden como Mathieu.
Acima de tudo, “Conduzindo Madeleine” é um filme delicado, cujo título original, não por acaso, é “Une Belle Course”, que pode ser livremente traduzido do francês para “Uma Bela Corrida” ou "Um Belo Curso".
Com roteiro inteligente e bem construído de Cyril Cely, que intercala romance, amizade e violência de forma perspicaz, elenco afinado e belas tomadas de Paris, essa é aquela típica produção que faz com que o público saia do cinema de alma lavada.
Ficha técnica:
Direção: Christian Carion Distribuição: California Filmes Exibição: Cineart Ponteio, sessão às 19h15 Duração: 1h31 Classificação: 12 anos País: França Gênero: drama
Um terror sanguinário, completamente oposto às histórias fofinhas do famoso ursinho amarelo que gosta de um pote de mel e seus simpáticos amigos. A partir desta quinta-feira (10) estreia nos cinemas "Ursinho Pooh: Sangue e Mel" ("Winnie-The-Pooh: Blood and Honey"), um longa macabro do gênero slasher com muita violência, mas com enredo esquecível.
A obra apresenta a relação de Christopher Robin (Nikolai Leon), que foi para a faculdade e esqueceu seus animais de infância - Pooh (Craig David Dowsett) e Leitão (Chris Cordell).
Se sentindo traídos e abandonados, eles perdem suas personalidades amigáveis e se tornam selvagens e violentos, atacando e matando quem entrar em sua floresta.
O roteiro é ruim, com desenvolvimento preguiçoso e não aprofunda na relação do passado entre Christopher, Pooh e Leitão. O diretor Rhys Frake-Waterfield pouco se preocupa em mostrar os vilões em alguma situação difícil em que eles podem se dar mal. Quando acontece, a dupla consegue se recuperar e continua a matança.
Nenhuma atuação do elenco consegue convencer. As máscaras borrachudas e os poucos diálogos pioram a situação, fazendo com que os personagens se tornem descartáveis - se forem mudados por qualquer outro, não fará a menor diferença.
Se a intenção do diretor era vender a ideia de que tudo o que acontece no filme faz parte da fantasia de Christopher, essas máscaras de borracha e os trajes só tornam mais difícil gostar do longa.
"Ursinho Pooh: Sangue e Mel" é só um terror genérico que não entretém e pode desagradar até mesmo quem gosta deste tipo de filme. Para piorar, está confirmada uma continuação e a possibilidade de que outros clássicos como Bambi e Peter Pan, também possam receber versões macabras.
Onde perdemos Pooh?
Em 1920, o escritor Alan Alexander Milne (A. A. Milne) criou o adorado ursinho de pelúcia Winnie-The-Pooh e seus amigos, incluindo Christopher Robin (nome do filho de Milne), que se tornaram famosos por meio das produções da Disney.
Durante anos, a empresa manteve os direitos autorais da coleção, até que em 2022, o primeiro livro de Pooh entrou em domínio público em outros países. No Brasil isso só ocorrerá em 2027.
A partir daí, qualquer pessoa poderia usar, distribuir e adaptar a história sem a necessidade de permissão ou pagamento de royalties. Rhys Frake-Waterfield decidiu usar os personagens Pooh e Leitão em suas versões mais macabras que pouco se assemelham à beleza dos clássicos personagens. E promete outras produções bizarras para adultos com personagens infantis.
Mesmo com orçamento baixo (em torno de US$ 100 mil), tendo sido gravado em dez dias e entregando uma qualidade duvidosa, "Ursinho Pooh: Sangue e Mel", lançado em fevereiro deste ano em outros países como México e Estados Unidos, atingiu uma bilheteria alta. Como aconteceu com “Terrifier 2”. Prova que o slasher, mesmo ruim, ainda consegue ser lucrativo.
Ficha técnica: Direção e roteiro: Rhys Frake-Waterfield Produção: Jagged Edge Productions e ITN Films Distribuição: California Filmes Exibição: nos cinemas Duração: 1h24 Classificação: 18 anos País: Reino Unido Gênero: terror
Filme dirigido por Darren Aronofsky concorre a três estatuetas do Oscar 2023, incluindo o de Melhor Ator (Fotos: Califórnia Filmes)
Wallace Graciano
Culpa é um dos fardos mais torturantes que carregamos em nossa vida. Seja qual for o motivo que causa tamanho desconforto, ela está presente em nossa vida e muitos não sabem como lidar. E é justamente esse o ponto que norteia “A Baleia” ("The Whale", no título original), que estreia nesta quinta-feira (23) nos cinemas de todo o país.
Com uma interpretação magnífica de Brendan Fraser, o filme de Darren Aronofsky ("Mãe" - 2017), que é adaptado de uma peça homônima, não cativa e destoa na parte estética, mas tem personagens intensos, que tiram seu ar.
Não à toa, garantiu três indicações ao Oscar (Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Cabelo e Maquiagem), chegando com grande potencial de conquista nas três. Abaixo, mostraremos o porquê, além de contar nossas impressões sobre o filme.
Qual é a história de “A Baleia”?
“A Baleia” conta a história de Charlie (Brendan Fraser), um professor de redação que enfrenta uma obesidade mórbida. De uma inteligência afiada, ele tem percepção exata de como o mundo o encara, com preconceitos e escárnio.
Não à toa, sequer tem coragem de ligar a câmera de seu notebook enquanto ministra aulas online. Porém, sua condição física esconde traumas do passado. Ele carrega a culpa de ter abandonado sua filha em troca de um amor homossexual, que não conseguiu ir adiante devido a uma tragédia.
Com esse psicológico frágil, usa a comida como muleta emocional para esconder a dor e a frustração por seus erros, perdas e decepções. Somente a enfermeira Liz (Hong Chau, indicada ao Oscar) o visita, sendo sua amiga e eterna confidente. Ela o vê de forma nua e crua. Sabe do seu passado e presente.
Após vê-lo ter um princípio de infarto, a profissional da saúde insiste para que ele se interne, o que é prontamente negado por Charlie, que teme contrair uma dívida, devido à ausência de sistema universal de saúde nos Estados Unidos.
Sabendo que sua vida está nos últimos dias, inclusive sob avaliação da própria Liz, Charlie tenta se reaproximar da filha, Ellie (Sadie Sink, de “Stranger Things”) para tentar redimir os erros do passado. E é nesse contexto que a trama se desenvolve.
O que achamos de "A Baleia"?
Por ser baseado em uma peça (escrita por Samuel D. Hunter, que também é o roteirista do longa), trata-se de uma obra que não tem muitos ambientes ao seu redor. Basicamente, toda a construção da trama se dá em um cenário: a casa de Charlie.
Para alguns espectadores, pode ser sufocante, mas o filme, assim, consegue colocar uma lupa na culpa e dor do protagonista. Ele é lento, pois foca demais nas camadas de Charlie, além de desenvolver os personagens sem muita celeridade.
Porém, o que o faz cativante ao público é justamente essa condução que nos tira do conforto, intercalando as condições físicas precárias do personagem com suas relações pessoais tão deturpadas quanto.
E Brendan Fraser faz isso com maestria. Se outrora foi um ator considerado galã, principalmente após sua atuação em “A Múmia” (1999), agora consegue nos envolver com cada ato, fazendo com que uma simples queda por mobilidade reduzida traga um contexto peculiar.
Ainda que os diálogos com Liz, Ellie e o missionário Thomas (Ty Simokins) não tenham o ritmo acelerado que muitos gostam, eles nos prende por apresentar todas as nuances que cercam o protagonista e seus traumas.
Ou seja, vá ao cinema focando nas atuações dos personagens e no que elas podem nos trazer. Essas interpretações fazem com que a estética, enredo e trilha virem meros detalhes na trama.
Quais são as indicações ao Oscar de “A Baleia”?
Melhor Ator:Brendan Fraser;
Melhor Atriz Coadjuvante:Hong Chau;
Melhor Cabelo e Maquiagem
Ficha técnica:
Direção: Darren Aronofsky Roteirista e autor da obra: Samuel D. Hunter Produção: A24 e Protozoa Pictures Distribuição: Califórnia Filmes Exibição: nos cinemas Duração:1h57 Classificação: 16 anos País: EUA Gênero: drama Nota: 4,5 (5)