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12 julho 2026

"Nós Acreditamos em Vocês": quando a Justiça coloca a palavra das vítimas em julgamento

Drama belga expõe a difícil fronteira entre a dúvida e a proteção das vítimas contra abusos domésticos
(Fotos: Filmes do Estação)
 
 

Patrícia Cassese

 
À exceção de uma pequena cena externa, logo em seu início, a narrativa do filme belga “Nós Acreditamos em Vocês” ("On Vous Croit"), de Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys, se passa totalmente no curso de uma audiência judicial, na qual o que está em jogo é a permissão para a reaproximação (ou não) de um pai – vivido por Lauren Cappelutto - de seus dois filhos, uma adolescente e um garoto, esse, ainda criança. Mais que isso, ele pode conquistar a guarda das crianças.

A questão é que não só a Alice (Myriem Akheddiou), ex-esposa do sujeito e mãe dos dois, é absolutamente contrária à hipótese de que este contato seja restabelecido, quanto os próprios rebentos têm verdadeira aversão a tal – na verdade, ambos entram em pane diante da mera possibilidade de compartilhar o mesmo ar que o genitor, o que obrigatoriamente aconteceria (acontece) na audiência.   


O motivo de tal ojeriza é compartilhado em pequenas pílulas com o espectador no curso do citado compromisso: sobre o pai paira a suspeita de atos desprezíveis, incluindo a molestação do filho. 

Aliás, a mãe, assim como sua advogada, sustenta que uma situação fisiológica a qual o garoto está lidando no momento, e que o faz eventualmente faltar à escola, por ter muito nela de constrangedor, seria derivada justamente do aventado abuso. 

Ocorre que o processo perpetrado contra o pai ainda não foi julgado, e é nesta brecha jurídica que ele tenta descredibilizar a mãe, com a ajuda de uma jovem (muito jovem) advogada.


Interessante apontar que tanto a advogada da mãe quanto a do pai são mulheres, assim como a juíza que vai deliberar sobre o caso. Assim, no centro do embate, temos quatro mulheres contra dois homens – além do pai dos garotos, o advogado destinado pelo estado para analisar o que seria hipoteticamente melhor para os dois menores de idade.

Colocado também na condição de juiz, o espectador vai sendo informado das versões a partir do momento em que, na audiência, as partes envolvidas ganham o direito à palavra. 

Ou seja, o público não presenciou nada (não há cenas de flashbacks), e, portanto, não tem como saber de que lado está a verdade, mas, para embasar a sentença, precisa ser convencido pelos argumentos apresentados por uma das partes.


E é aí que temos o “clássico” processo de descredibilização da mulher, fenômeno que transcende fronteiras geográficas, religiosas e culturais e se espraia pelos quatro cantos do planeta. 

No caso de Alice, a própria advogada do reclamante chama atenção pela tentativa de desmoralizar uma companheira de sexo – talvez inclusive pela especificidade, aqui já apontada, de ser jovem demais, portanto, certamente sem ainda ter experimentado o desafio de ser mãe. 

Um componente importante, então, passa a ser o conjunto de expressões manifestadas por cada personagem, inclusive as corporais, assim como a argumentação. Neste quesito, que bela interpretação, a de Myriem Akheddiou.


Em um momento em que a violência – inclusive a sexual – doméstica tem sido cada vez mais denunciada, com índices assustadores, “Nós Acreditamos em Vocês” cumpre a missão de alertar quanto à importância de uma análise acurada de cada caso, visto que nem sempre as provas são assim, tão evidentes. 

E, afinal, estamos falando de seres (crianças, adolescentes) que, na maioria das vezes, inclusive pela dependência emocional e financeira, não têm como se defender de abusos que vão mostrar suas consequências pelo resto de suas existências.


Ficha técnica:
Direção: Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys
Produção: Makintosh Films
Distribuição: Filmes do Estação
Duração: 1h18
Exibição: em breve no streaming 
Classificação: 14 anos
País: Bélgica
Gênero: drama

03 maio 2024

Com passeios por Paris, belas canções e uma breve lição de vida “Conduzindo Madeleine” é um filme para lavar a alma

Line Renaud e Dany Boon protagonizam este drama francês com pitadas de romance e violência doméstica (Fotos: California Filmes/Divulgação)


Mirtes Helena Scalioni


Histórias que dão voz ao acaso costumam emocionar, assim como as que tratam de relatos de lembranças de pessoas maduras e solitárias. Claramente inspirado em “Conduzindo Miss Daisy” (1989), o longa francês de Christian Carion, “Conduzindo Madeleine”, que estreia no Cineart Ponteio nesta quinta-feira (9), acrescenta a isso pitadas de romance e violência doméstica. Tudo embalado por uma trilha sonora de lindas canções do jazz e do blues. 

Quando Madeleine Keller, de 92 anos, pede um táxi para levá-la à instituição de idosos onde vai passar o resto de seus dias, o mal-humorado taxista Charles, que só aceita a corrida porque precisa muito do dinheiro, não imagina como aquela tarefa pode mudar sua vida. 


Em atuação brilhante de Line Renaud, a velhinha vai amolecendo aos poucos o coração daquele trabalhador que, beirando os 50 anos, está desiludido e cheio de problemas financeiros. E é passeando por toda a Paris que ele vai descobrindo que, por trás de toda aquela aparente doçura, sua passageira esconde uma trajetória de sofrimento e superação.

Além de se emocionar com os laços que vão sendo lentamente construídos naquela viagem pelas ruas de Paris, com direito a passadinhas por símbolos icônicos da Cidade Luz, o espectador ainda pode observar uma discreta declaração de amor ao teatro e um claro discurso em favor da causa das mulheres submetidas à violência. 


Vale ressaltar a interpretação sutil de Dany Boon como Charles, o 'chauffeur' – como querem os franceses – se deixando levar pela conversa da sua passageira, passando, com leveza, do mutismo e da indiferença para o encantamento, as risadas e a cumplicidade.

Como um bom filme que tem as memórias como fundamento, “Conduzindo Madeleine” apela para um sem-número de oportunos flashbacks, claro. E nas lembranças da protagonista, surge a jovem romântica e sonhadora Madeleine (interpretação de Alice Isaaz) que, aos 16 nos, na década de 1950, se apaixona por um soldado americano Matt (Elie Kaempfen). 


Destaque também para Jéreme Laheurte, que faz Raymond, o jovem e violento marido da moça; Gwendoline Hamon como Denise Keller, a mãe dela, e Thomas Alden como Mathieu.

Acima de tudo, “Conduzindo Madeleine” é um filme delicado, cujo título original, não por acaso, é “Une Belle Course”, que pode ser livremente traduzido do francês para “Uma Bela Corrida” ou "Um Belo Curso".

Com roteiro inteligente e bem construído de Cyril Cely, que intercala romance, amizade e violência de forma perspicaz, elenco afinado e belas tomadas de Paris, essa é aquela típica produção que faz com que o público saia do cinema de alma lavada.


Ficha técnica:
Direção: Christian Carion
Distribuição: California Filmes
Exibição: Cineart Ponteio, sessão às 19h15
Duração: 1h31
Classificação: 12 anos
País: França
Gênero: drama