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13 junho 2024

“A Ordem do Tempo” questiona o fluxo da vida e a fragilidade da existência

Obra é inspirada no best-seller homônimo do físico especialista em mecânica quântica, Carlo Rovelli, sobre o fim do mundo (Fotos: Pandora Filmes) 


Silvana Monteiro

Imagine se durante uma celebração entre amigos você descobrisse que o mundo estaria prestes a acabar. Este é o drama italiano "A Ordem do Tempo" (“L’Ordine Del Tempo”), que chega ao Cineart Ponteio, ao Centro Cultural Unimed-BH Minas e ao Una Cine Belas Artes nesta quinta-feira (13). Amigos inseparáveis, que adoram comemorar a beleza e os momentos marcantes da vida, se vêem diante desse dilema. 


A obra, distribuída pela Pandora Filmes, traz uma instigante narrativa inspirada no best-seller de mesmo nome do físico-teórico Carlo Rovelli. Dirigido pela veterana cineasta italiana Liliana Cavani, em colaboração com o roteirista Paolo Costella, o filme apresenta uma perspectiva profunda e intimista sobre a percepção humana de como o tempo é implacável. O tempo é fluxo contínuo? Ele se dá de forma cronológica? Os fatos do presente, passado e futuro estão conexões? E como lidar com ele?


Um dos grandes destaques de "A Ordem do Tempo" é a forma como a autora transmite a temporalidade dos acontecimentos na percepção dos personagens, ora prestes a acabar, ora distante e tenso. Cavani finalizou o longa em 2023, ao completar 90 anos.

A direção de Cavani, reconhecida por seu olhar atento aos dramas humanos, conduz a narrativa com um ritmo pausado e uma atmosfera de tensão latente, permitindo que o público se engaje profundamente com as questões levantadas. 


Entre os sucessos de sua carreira está o polêmico filme "O Porteiro da Noite" (1974), que retrata a relação sadomasoquista entre um ex-oficial de um campo de concentração nazista e uma de suas prisioneiras. 

No elenco, ela conta com a atuação de Alessandro Gassmann, Claudia Gerini, Edoardo Leo, Kseniya Rappoport, Richard Sammel, Valentina Cervi, Francesca Inaudi, Angeliqa Devi, Mariana Tamayo, Fabrizio Rongione, Ángela Molina e Alida Baldari Calabria. 

Ao longo da trama, os amigos e seus cônjuges começam a tecer suposições e a revelar verdades, indagações, emoções e sentimentos guardados. Essa dinâmica de interações e conflitos internos cria um retrato vívido da forma como as pessoas lidam com a iminência do fim.


A atuação é destacada, com os intérpretes conseguindo transmitir a gama de emoções e dilemas experimentados por seus personagens. A construção cuidadosa dos diálogos e a ambientação elegante contribuem para criação de um drama intimista e reflexivo.

Longe de cair em sensacionalismos ou efeitos dramáticos excessivos, o filme mantém uma abordagem contemplativa e introspectiva, explorando as complexidades da percepção do tempo e suas implicações existenciais. 

"A Ordem do Tempo" é um filme que transcende o mero entretenimento, convidando o espectador a refletir sobre a natureza do tempo, a fragilidade da existência e a busca por significado em face da finitude. Uma obra cinematográfica instigante e merecedora de atenção.


Ficha Técnica:
Direção: Liliana Cavani
Roteiro: Liliana Cavani e Paolo Costella, a partir do livro de Carlo Rovelli
Distribuição: Pandora Filmes
Exibição: sala 3 do Cineart Ponteio - sessão de 21h05; sala 2 do Centro Cultural Unimed-BH Minas - sessão às 20h30; sala 2 do Una Cine Belas Artes - sessão às 18h20
Duração: 1h53
Classificação: 14 anos
País: Itália
Gênero: drama

06 junho 2024

"Grande Sertão" não perde em nada para produções hollywoodianas

Luísa Arraes e Caio Blat interpretam Diadorim e Riobaldo, os protagonistas na adaptação da obra literária de Guimarães Rosa (Foto: Helena Barreto)


Larissa Figueiredo 


Com ares de distopia cyberpunk, o filme "Grande Sertão", de Guel Arraes, estreia nos cinemas nesta quinta-feira (6). Adaptação do romance homônimo de Guimarães Rosa, "Grande Sertão: Veredas”, a produção é protagonizada por Luísa Arraes, como Diadorim, e Caio Blat, na pele de Riobaldo. 

O tempo da narrativa oscila entre o passado e o presente de Riobaldo. O roteiro e a montagem preservam as divagações do protagonista sobre o certo e o errado, Deus e o diabo, amor e ódio, e todas as dicotomias que moldam o desenrolar da história. 

Foto: Ricardo Brajterman/Divulgação

É nessas cenas que Blat “encarna” o jagunço, ora louco, ora lúcido, e mostra um total domínio do texto dinâmico, melódico e lírico, assim como na obra literária. 

Já Luisa Arraes, em sua primeira vez sendo dirigida pelo pai, não soou natural como Blat ao adentrar o universo da obra. A complexa personagem Diadorim é a força motriz do enredo e demanda uma profundidade que Arraes não correspondeu, entregando uma performance carregada de artificialidade. 

Intencionalmente ou não, a atriz também atribuiu à personagem trejeitos cômicos e exagerados que decepcionam o público que conheceu Diadorim no romance literário de Guimarães Rosa. 

Foto: Paris Filmes/Divulgação

A interpretação de Eduardo Sterblitch é uma das grandes surpresas do longa de Arraes. O ator e humorista encarou o desafio de trazer Hermógenes às telas. O personagem impiedoso e sinistro que tem pacto com o diabo ganhou um carisma assustadoramente único. Em "Grande Sertão", ele mostra sua genialidade e prova ao grande público sua versatilidade. 

A história se passa numa grande comunidade da periferia brasileira chamada “Grande Sertão”. A luta entre policiais e bandidos assume ares de guerra e traz à tona questões como lealdade, vida e morte, amor e coragem, Deus e o diabo. 

Riobaldo entra para o crime por amor a Diadorim, mas não tem coragem de revelar sua paixão. A identidade de Diadorim é um mistério constante para Riobaldo, que lida com escolhas morais e dilemas éticos, enquanto busca entender seu lugar no mundo e sua própria natureza. 

Foto: Helena Barreto/Divulgação

De forma geral, além do texto lírico, a obra remonta às origens do cinema e traz forte contribuição do teatro. Todos os personagens são hiperbólicos em seus movimentos, falas e expressões. 

O cenário de "Grande Sertão", que na adaptação é uma favela, não perde em nada para produções hollywoodianas, assim como a fotografia e a montagem, altamente coerentes esteticamente com a proposta da adaptação. 

Foto: Helena Barreto/Divulgação

As cenas de ação são extensas na medida certa entre o extraordinário e cansativo, mas bem coreografadas. Elas abordam com profundidade a estrutura das milícias nas comunidades e a retroalimentação do ciclo da violência na “luta” entre bandidos e policiais. 

"Grande Sertão" veio em boa hora. A adaptação é fiel ao livro e renova as discussões elaboradas por Guimarães Rosa em 1956. Por fim, é inegável dizer que o filme pode cativar tanto o público que leu o romance, quanto o que não conhece a obra. 


Ficha técnica:
Direção: Guel Arraes
Roteiro: Guel Arraes e Jorge Furtado
Produção: Paranoid Filmes, coprodução Globo Filmes
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h48
Classificação: 18 anos
País: Brasil
Gêneros: ação, drama
Nota: 4 (0 a 5)

29 maio 2024

“A Filha do Palhaço” - longa explora a afetividade parental entre artistas itinerantes e seus filhos

O drama explora a troca afetiva em que, tanto Joana quanto Renato precisam superar seus preconceitos e traumas do passado para se curarem (Fotos: Embaúba Filmes)


Silvana Monteiro


Filiação e paternidade, convivência familiar, relação entre gerações distintas, conflitos familiares, teatro, arte e transformações artística e humanossocial são temas retratados nesta obra de 2022, que estreia nesta quinta-feira (30), mas que já pode ser conferida na pré-estreia de hoje no Centro Cultural Unimed-BH Minas.

Com produção da Marrevolto Filmes, em associação com a Pique-Bandeira Filmes, e distribuição pela Embaúba Filmes, "A Filha do Palhaço" conquistou o prêmio principal na Mostra de Cinema de Gostoso, além de receber o prêmio do público na Mostra de Tiradentes. 

A narrativa vai muito além do contexto superficial sobre a distância entre um pai comediante e sua filha adolescente. Ao invés disso, o diretor Pedro Diógenes nos apresenta uma história profundamente conflituosa e emotiva, mergulhando nas camadas complexas da afetividade parental e da identidade artística.


O ponto de partida é a relação tensa entre Joana e seu pai, Renato, que só aparece em datas comemorativas.  Essa ausência constante cria uma ferida emocional em Joana, que luta para entender o pai e sua dedicação à carreira como Silvenelly, um personagem cômico inspirado em um ícone da cultura local. 

Conforme o filme avança, vemos os conflitos se transformarem em afeto entre pai e filha. Joana inicialmente encara o trabalho do pai como uma fuga, uma máscara que o impede de se conectar com ela de verdade. Mas à medida que ela acompanha os shows de Silvenelly, seu olhar se desnuda. Ela percebe que aquele trabalho é uma forma de expressão artística e pessoal para Renato, ainda que envolva sacrifícios e até mesmo violência verbal.

O núcleo dramático do filme reside na troca afetiva, em que tanto Joana quanto Renato precisam superar seus preconceitos e traumas do passado para finalmente se curarem. Enquanto Joana aprende a valorizar o ofício do pai, Renato faz descobertas incríveis sobre suas identidades artística e pessoal, ressignificando sua autopercepção.


Essa afetividade conflituosa é magistralmente retratada por Demick Lopes (Silvenelly, personagem inspirada em Raimundinha de Paulo Diógenes) e Lis Sutter (Joana). Lopes transita com maestria entre os dois lados de Renato - o homem deprimido e inseguro, e o artista confiante e cômico. 

Já Sutter entrega uma estreia avassaladora como Joana, capaz de transmitir toda a dor e a esperança da personagem. Além deles, estão no elenco grandes artistas como Jesuíta Barbosa, Jupyra Carvalho, Ana Luiza Rios, Valéria Vitoriano e outros talentos.

Também a produção de "A Filha do Palhaço" é igualmente impressionante. A recriação dos shows de Silvenelly, com seus figurinos, maquiagens e sotaques característicos, nos transporta diretamente para o universo daquele artista. E a evolução visual de Joana, de uma adolescente ressentida a uma jovem mais madura, espelha perfeitamente seu crescimento emocional.


O detalhe importante de Silvenelly é ser um personagem similar a Raimundinha, famoso ícone do humor cearense criado por Paulo Diógenes, primo de Pedro, falecido em 14 de fevereiro de 2024. Por isso, a distribuição da obra aos cinemas, também se apresenta como uma homenagem póstuma ao artista.

Com um estilo que mescla circo e stand-up, Silvenelly faz piadas sobre o cotidiano local, arrancando risadas e muitas vezes enfrentando a violência da homofobia. "A Filha do Palhaço" aborda seus temas de forma sensível e corajosa, em uma construção, ora tensa, ora cômica, capaz de provocar momentos de reflexão, mas também de tirar gargalhadas de quem o assiste. 

O longa transcende o simples retrato de uma relação pai-filha. Pedro Diógenes nos convida a mergulhar em uma teia de emoções e conflitos, onde a aceitação, a identidade e a importância da conexão afetiva se entrelaçam de forma profunda e emocionante. Um filme obrigatório para quem busca cinema de qualidade e narrativas complexas.


Ficha técnica:
Direção: Pedro Diogenes
Produção: Marrevolto Filmes, em associação com a Pique-Bandeira Filmes
Distribuição: Embaúba Filmes
Exibição: Centro Cultural Unimed-BH Minas - sala 1 (sessão às 18h10) e sala 2 (sessão 18h20)
Duração: 1h44
Classificação: 16 anos
País: Brasil
Gênero: drama

15 maio 2024

Incômodo e indigesto, “A Hora da Estrela” está de volta para reforçar a complexidade de Clarice Lispector

Produção de 1985, protagonizada por Marcélia Cartaxo, retorna ao cinema em versão digitalizada, dentro do projeto Sessão Vitrine Petrobras (Fotos: Vitrine Filmes)


Mirtes Helena Scalioni


Embora muitos considerem impossível, a diretora Suzana Amaral foi lá e fez: transformou em cinema a obra complexa de Clarice Lispector em1985, quando, sob sua direção, “A Hora da Estrela” ganhou quase todos os prêmios do Festival de Brasília, além de ter conquistado o Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim. 

Pois agora o longa volta ao cartaz nos cinemas a partir desta quinta-feira (16), dentro do projeto Sessão Vitrine Petrobras, que está digitalizando e remasterizando películas importantes do cinema nacional. Ele pode ser conferido na sala 3 do Cine Una Belas Artes, sessão de 18h40, com ingressos a R$ 20,00 a inteira e R$ 10,00 a meia.


Não se pode dizer que o filme estrelado magnificamente por Marcélia Cartaxo seja fácil de ver. Não é. O longa, que conta a história de Macabéa, é indigesto e incomoda. 

Causa desconforto e talvez até certa repulsa a trajetória da nordestina de 19 anos que se vê absolutamente sozinha e despreparada numa cidade como São Paulo. Órfã de pai e mãe, desajeitada, ignorante, feia e ingênua, a jovem é mais uma figura invisível na metrópole.


Sem desmerecer o elenco, todo ele correto na medida, Marcélia Cartaxo é a grande responsável pelo brilho do filme. Sua Macabéa, tão tímida quanto estúpida, é quase uma provocação ao espectador com seus silêncios, olhares e posturas submissas. É como se ela pedisse desculpas por existir. 

Seu contraponto é o namorado Olímpico de Jesus, em atuação excelente de José Dumont, com suas tiradas professorais e engraçadas que, no entanto, não fazem o espectador rir.

É preciso ressaltar também a presença da sempre brilhante Fernanda Montenegro como a cartomante picareta Madame Carlota, responsável pela grande mudança na vida de Macabéa que, acreditando em suas previsões, pode ter finalmente a sua hora de estrela. Ao final, pode-se dizer, ninguém sai ileso do filme de Suzana Amaral.


Para quem não leu o livro de Clarice Lispector, vale contar que Macabéa divide um quarto com mais três moças e trabalha como datilógrafa numa firma onde tem como chefes os senhores Pereira e Raimundo, feitos por Denoy de Oliveira e Umberto Magnani. 

Entre as colegas, destaca-se a atirada e sensual Glória (Tamara Taxman), tão bonita quanto antiética. É nesses dois ambientes, além das praças, metrôs e ruas pelas quais transita, que essa heroína brasileira mostra, com sutileza, sua dor de viver.


Ficha Técnica
Direção: Suzana Amaral
Roteiro: Suzana Amaral e Alfredo Oroz
Baseado no romance homônimo de Clarice Lispector
Produção: Raiz Produções e Assunção Hernandes
Distribuição: Sessão Vitrine Petrobras e Vitrine Filmes
País: Brasil
Ano: 1985
Duração: 1h36
Classificação: 12 anos
Gênero: drama

03 maio 2024

Com passeios por Paris, belas canções e uma breve lição de vida “Conduzindo Madeleine” é um filme para lavar a alma

Line Renaud e Dany Boon protagonizam este drama francês com pitadas de romance e violência doméstica (Fotos: California Filmes/Divulgação)


Mirtes Helena Scalioni


Histórias que dão voz ao acaso costumam emocionar, assim como as que tratam de relatos de lembranças de pessoas maduras e solitárias. Claramente inspirado em “Conduzindo Miss Daisy” (1989), o longa francês de Christian Carion, “Conduzindo Madeleine”, que estreia no Cineart Ponteio nesta quinta-feira (9), acrescenta a isso pitadas de romance e violência doméstica. Tudo embalado por uma trilha sonora de lindas canções do jazz e do blues. 

Quando Madeleine Keller, de 92 anos, pede um táxi para levá-la à instituição de idosos onde vai passar o resto de seus dias, o mal-humorado taxista Charles, que só aceita a corrida porque precisa muito do dinheiro, não imagina como aquela tarefa pode mudar sua vida. 


Em atuação brilhante de Line Renaud, a velhinha vai amolecendo aos poucos o coração daquele trabalhador que, beirando os 50 anos, está desiludido e cheio de problemas financeiros. E é passeando por toda a Paris que ele vai descobrindo que, por trás de toda aquela aparente doçura, sua passageira esconde uma trajetória de sofrimento e superação.

Além de se emocionar com os laços que vão sendo lentamente construídos naquela viagem pelas ruas de Paris, com direito a passadinhas por símbolos icônicos da Cidade Luz, o espectador ainda pode observar uma discreta declaração de amor ao teatro e um claro discurso em favor da causa das mulheres submetidas à violência. 


Vale ressaltar a interpretação sutil de Dany Boon como Charles, o 'chauffeur' – como querem os franceses – se deixando levar pela conversa da sua passageira, passando, com leveza, do mutismo e da indiferença para o encantamento, as risadas e a cumplicidade.

Como um bom filme que tem as memórias como fundamento, “Conduzindo Madeleine” apela para um sem-número de oportunos flashbacks, claro. E nas lembranças da protagonista, surge a jovem romântica e sonhadora Madeleine (interpretação de Alice Isaaz) que, aos 16 nos, na década de 1950, se apaixona por um soldado americano Matt (Elie Kaempfen). 


Destaque também para Jéreme Laheurte, que faz Raymond, o jovem e violento marido da moça; Gwendoline Hamon como Denise Keller, a mãe dela, e Thomas Alden como Mathieu.

Acima de tudo, “Conduzindo Madeleine” é um filme delicado, cujo título original, não por acaso, é “Une Belle Course”, que pode ser livremente traduzido do francês para “Uma Bela Corrida” ou "Um Belo Curso".

Com roteiro inteligente e bem construído de Cyril Cely, que intercala romance, amizade e violência de forma perspicaz, elenco afinado e belas tomadas de Paris, essa é aquela típica produção que faz com que o público saia do cinema de alma lavada.


Ficha técnica:
Direção: Christian Carion
Distribuição: California Filmes
Exibição: Cineart Ponteio, sessão às 19h15
Duração: 1h31
Classificação: 12 anos
País: França
Gênero: drama

26 abril 2024

"Plano 75" expõe o envelhecimento e a finitude da vida

No drama japonês, governo oferece incentivo financeiro e logístico para os cidadãos com mais de 75 anos que desejarem se submeter à eutanásia (Fotos: Sato Company)


Silvana Monteiro


Dirigido por Chie Hayakawa, chega aos cinemas brasileiros o filme japonês "Plano 75". O longa aborda as crises etária e de saúde enfrentadas pelo Japão, devido ao envelhecimento da população e à baixa taxa de natalidade. 

Em tempos de discussão sobre “Tio Paulo” um senhor supostamente já sem vida, conduzido pela sobrinha até uma agência bancária para fazer um empréstimo, situação esclarecida posteriormente, o tema é bem atual. Na reportagem, o dinheiro do empréstimo seria usado na reforma da casa do idoso para torná-la mais acessível e aconchegante, já que devido ao uso de cadeiras de rodas, ele passou a morar na garagem do imóvel.


Num futuro próximo, o governo japonês introduz o programa Plan 75, oferecendo incentivo financeiro e logístico para os cidadãos com mais de 75 anos que desejam se submeter à eutanásia. 

Os idosos que optarem pelo procedimento voluntário devem receber uma quantia considerável em troca. Esse dinheiro pode ser utilizado pela pessoa antes de sua morte em qualquer projeto ou deixado como herança para seus familiares. 

A questão é que, para aceitar as condições do plano, a pessoa não precisa do aval de nenhum parente ou responsável, tudo é facilitado para que ela consiga assinar o contrato de adesão. 

Maria's Friend (Sheryl Ichikawa) é uma cuidadora imigrante das Filipinas que trabalha no Japão e aparenta ter cerca de 40 anos; Hiromu (Hayato Isomura) trabalha como atendente em uma repartição do governo e aparenta ter 30 e poucos anos; e Michi (Chieko Baisho) ainda faz faxina aos 78 anos.


Explorando acontecimentos na vida desses três personagens e de suas conexões pessoais e sociais, o filme mostra as angústias em torno da vida do trabalhador que busca uma estabilidade econômica, assim como os idosos que tentam equilibrar o social e o emocional.  

A interpretação no filme é marcante, especialmente a atuação da veterana Chieko Baisho, que entrega uma performance crua e comovente, transmitindo a solidão e a fragilidade da personagem. Os demais atores também desempenham bem seus papéis, destacando-se Hayato com sua leveza e empatia ao receber os idosos em suas angústias e dificuldades. 

A fotografia do filme, assinada por Hideho Urata, é notável. Ela cria uma atmosfera melancólica, refletindo a temática perturbadora do envelhecimento da população e da eutanásia. As imagens capturam os contrastes entre a beleza serena da paisagem e a angústia dos personagens, contribuindo para a narrativa visual da obra.


A direção de Chie Hayakawa se volta à contemplação e à delicadeza dos temas abordados. O filme apresenta uma série de histórias interconectadas, mostrando diferentes perspectivas em relação ao Plano 75. Hayakawa consegue transmitir a urgência e a complexidade do assunto, bem como abordar questões éticas e morais relacionadas à eutanásia.

O filme desafia o espectador a refletir sobre o envelhecimento da população e as escolhas difíceis que podem surgir em um futuro próximo. A obra cria uma distopia perturbadora que levanta questões sobre a dignidade humana, a responsabilidade do governo e o valor da vida. Embora seja um filme delicado e contemplativo, também carrega uma raiva palpável em relação à crueldade disfarçada de compaixão.


São bem interessantes e reflexivas as cenas em que, além da solidão e fragilidade transmitidas pela personagem de Michi, ela se encontra com suas amigas idosas. Os diálogos demonstram sonhos e questionamentos marcados pela temporalidade da vida e dos acontecimentos. 

Mesmo em um cenário que aborda a dureza da luta pela vida, no papel da arrumadeira Maria, e da própria busca de Michi por “um final” menos preocupante, o filme pode oferecer espaço para discutir o papel do cuidado e da empatia na sociedade. Isso é destacado em pequenos gestos de compaixão que podem fazer a diferença na vida das pessoas, especialmente daquelas que se encontram em situações vulneráveis. 

Mesmo sem grandes arroubos e plot twists, "Plano 75" é uma produção impactante, que oferece uma crítica social contundente e convida o público a refletir sobre dilemas éticos e morais, como envelhecimento, longevidade, etarismo, saúde da pessoa idosa e finitude da vida.


Ficha técnica
Direção:
Chie Hayakawa
Produção e Distribuição: Sato Company
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h53
Classificação: 14 anos
Países: Japão, França, Filipinas
Gêneros: drama, suspense

22 abril 2024

“Clube Zero” provoca com questões alimentares e alienação

Filme da diretora austríaca Jessica Hausner apresenta uma fotografia geometricamente trabalhada enquanto a trama desenrola temas pesados (Fotos Pandora Filmes)


Eduardo Jr.


Uma sátira sobre modinhas alimentares e os perigos do enfraquecimento dos laços entre pais e filhos no mundo moderno. Esta pode ser uma das definições de “Clube Zero”. A produção austríaca, indicada à Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2023, chega os cinemas brasileiros no dia 25 de abril, distribuído pela Pandora Filmes. 

Dirigido por Jessica Hausner, o longa apresenta uma fotografia geometricamente trabalhada, com cores vibrantes, enquanto a trama desenrola temas pesados. É a perfeição diante dos olhos escondendo verdades dolorosas. Uma proposta de um jogo provocativo para o espectador. 


Na trama, Miss Novak, protagonizada por Mia Wasikowska ("A Ilha de Bergman" - 2022 e "A Despedida" - 2021) é uma professora de nutrição recém-chegada a uma escola de alta classe. A admiração dos alunos por ela é percebida logo nas primeiras cenas. Mas o método baseado em comer cada vez menos se torna uma ameaça à tranquilidade da instituição de ensino e dos pais.  

O espectador acompanha algumas cenas como se observasse câmeras de vigilância, posicionadas nas quinas, no alto. E, aos poucos, elas se aproximam, enquanto exibem o método de conquista dos adolescentes e o desenvolvimento daquele conceito estranho de nutrição. 


Mesmo sem aprofundar em alguns pontos, o longa pode fazer o público concordar com a proposta em alguns momentos, por serem utilizados argumentos baseados em defesa ambiental e na conquista de uma imagem socialmente aceitável.

Rapidamente se nota que ali pode estar nascendo uma seita. O grupo vive o conceito de “alimentação consciente” como o elemento que os torna parte integrante de alguma coisa (algo que, como sabemos, todo adolescente deseja). 

A expressão doce da professora Novak contrasta com os temas que a obra tenta pincelar (bulimia, distanciamento dos pais e falta de capacidade dos jovens para contestar verdades consolidadas). 


E a adesão dos jovens é tanta que, eles mesmos, se tornam multiplicadores daquelas regras, pressionando e excluindo quem não segue a cartilha. A repulsa que o público vai experimentando ao longo do filme vai sendo dissolvida no núcleo familiar do aluno bolsista, que inicialmente não adere àquela proposta e come livremente. 

O personagem Ben (vivido por Samuel DeClan Anderson) escolheu participar daquela disciplina para obter a pontuação necessária para uma bolsa integral na escola. Filho de mãe solteira, é pelo alívio financeiro da mãe (papel comovente de Amanda Lawrence), que ele se permite seguir a manada. A mãe de Ben é o ponto de sensatez na obra. E ela invade, com cores e verdade, o ambiente alienado e asséptico dos pais ricos. 


E aí a acidez da diretora Jessica Hausner ganha mais volume. A posição da educadora, a falta de capacidade cognitiva dos pais e a forma escolhida para tentar resgatar os filhos daquela lavagem cerebral expõem uma realidade social que parece ter escala mundial. E é preciso ter estômago pra encarar essa mensagem (e algumas cenas finais também). 

Na construção da história dessa seita, na qual o ato de fé consiste em abrir mão daquilo que nos mantém de pé, vivos, a diretora volta seus olhos para a religião, para provocar o espectador com uma das obras mais conhecidas de toda a história. Resta saber se o público vai engolir essa brincadeira. 


Ficha técnica:
Direção:
Jessica Hausner
Distribuição: Pandora Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h50
Classificação: 18 anos
Países: Alemanha, Áustria, Catar, Dinamarca, França, Reino Unido
Gêneros: drama, suspense

17 abril 2024

"Guerra Civil" é uma homenagem ao fotojornalismo com fortes referências ao perigo do extremismo

Wagner Moura interpreta um jornalista que percorre os EUA com outros jornalistas mostrando o conflito que divide o país
(Fotos: A24/Divulgação)


Maristela Bretas


Uma superprodução que merece entrar numa disputa ao Oscar 2025 por roteiro, direção, interpretação e, em especial, fotografia, mesmo mostrando, sem filtro, as atrocidades de uma batalha fictícia. Este é "Guerra Civil", longa que estreia nesta quinta-feira (18) nos cinemas e já é sucesso de bilheteria nas salas dos EUA.

O filme faz referências bem claras ao ataque ocorrido no país, em 2021, com a invasão ao Capitólio. Ao mesmo tempo em que mostra como a desinformação e o extremismo de direita podem levar um país ao caos quando disputam ou tentam retornar ao poder. Lembra a situação semelhante ocorrida no Brasil em janeiro de 2023.


No elenco temos como protagonistas o brasileiro Wagner Moura (Joel), Kirsten Dunst (Lee) e Cailee Spaeny (Jessie), jornalistas que percorrem os Estados Unidos durante o intenso conflito que envolve toda a nação. O país se vê dividido entre o governo oficial, com sede em Washington, e grupos separatistas de importantes estados, como Califórnia, Texas e Flórida.

A violência toma conta das ruas, a população é massacrada e a imprensa perseguida. O presidente fascista, interpretado por Nick Offerman, se tranca na Casa Branca, protegido por soldados, e ilude seus seguidores com informações de que ele tem o controle da situação e a vitória é certa, "em nome da pátria, de Deus e dos americanos de bem".


Este é o cenário que o trio, acompanhado pelo experiente correspondente de guerra, Sammy (Stephen McKinley Henderson), vai enfrentar ao atravessar as zonas de conflito de uma ponta a outra dos EUA. 

Ao mesmo tempo, vai se deparar também com comunidades totalmente alienadas ao que está ocorrendo. O elenco bem afinado conta ainda com boas interpretações de Jesse Plemons (marido na vida real de Dunst), Nelson Lee (Tony), Sonoya Mizuno (Anya), entre outros.


O diretor e roteirista Alex Garland mostra Américas completamente opostas, mas violentas e cruéis em ambos os lados do conflito. A violência marca o longa do início ao fim, como esperado de uma produção do gênero, com muitas mortes e torturas. 

Mas ele soube explorar com excelência essas imagens por meio do fotojornalismo. "Guerra Civil" dá um show neste quesito, especialmente nas fotos em preto e branco, que expõem de maneira mais real a dor, a crueldade, o espanto, a morte, a perda e o desalento.

Cabe às fotojornalistas Lee e Jessie capturarem a essência do conflito e suas intérpretes, Kirsten Dunst e Cailee Spaeny, entregam um ótimo trabalho. Wagner Moura não fica para trás, no papel do jornalista que tenta manter o foco da cobertura dos fatos, mas se abalando quando ele e seu grupo de tornam alvo e sofrem as consequências do conflito. Os efeitos visuais também são muito bons, em especial os dos ataques dos envolvidos da disputa.


O roteiro de "Guerra Civil" é uma homenagem ao jornalismo e aos jornalistas que fazem coberturas de conflitos, correndo os mesmos riscos dos combatentes. O próprio Alex Garland defendeu em entrevista ao jornal "The Guardian" que "jornalistas não são um luxo, são uma necessidade. É importante que a imprensa seja livre, respeitada e confiável".

O filme, apesar de ser uma ficção de guerra, se aproxima muito da vida real. E qualquer país, onde o extremismo e a desinformação predominem, está sujeito a passar por esta situação. "Guerra Civil" é um longa que vale a pena conferir, de preferência em uma sala Imax, para aproveitar melhor a experiência cinematográfica da produção.


Ficha técnica
Direção e roteiro: Alex Garland
Produção: A24
Distribuição: Diamond Films
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h50
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: guerra, drama, ficção

06 abril 2024

"A Saudade que Fica" é amor transcendental e o poder transformador da arte e do cinema

Drama japonês dirigido por Michihito Fujii emociona e nos faz questionar os limites entre a vida e a morte (Fotos: Netflix)


Silvana Monteiro


Procura um filme que, com certeza, vai te fazer chorar? Então vale a pena conferir "A Saudade que Fica" ("The Parades"). Dirigido por Michihito Fujii e exibido na Netflix, o longa japonês aborda temas como amor transcendental, separação terrena, luto, perdão e cura dos traumas materiais e espirituais, com sensibilidade e profundidade.

A narrativa nos faz questionar os limites entre a vida e o que ocorre após morrermos. Como seria se pudéssemos continuar algumas atividades após a morte? E se fosse possível proteger os entes queridos, pedir perdão ou perceber aspectos que não foram vistos em nossa personalidade?


Após uma calamidade devastadora, Minako (Masami Nagasawa) procura pelo filho desaparecido, até descobrir que está morta. Ela embarca em uma jornada emocional em busca de seu filho, Ryo. Sua inquietação é marcada por sua incapacidade de interagir com os vivos, o que intensifica sua dor.

Minako é resgatada e levada a um bucólico "parque de diversões” de um vilarejo remoto, onde encontra outros espíritos “vivenciando” situações que os mantêm ligados a esta dimensão. A conexão entre eles resulta em uma colaboração mútua e ajuda emocional. Será que Minako vai encontrar Ryo? Ele está vivo? Onde ele está? Como vai ser esse encontro?


Aos poucos, de uma forma surpreendente, o enredo vai revelando acontecimentos paralelos à peregrinação noturna dessas almas. É interessante como não se formam vilões e nem heróis. O drama humaniza as ações e reações, o que o torna especial. 

As tramas intricadas e os planos mirabolantes do cineasta Michael (interpretado por Lily Franky), as observações e escritos do jovem Akira (Kentaro Sakaguchi), a contemplação familiar de Kaori (Shinobu Terajima), o passado conturbado de Shori (Ryūsei Yokohama) e as angústias da jovem Nana (Nana Mori) são apresentados com uma sensibilidade tão envolvente que até os eventos mais intensos são suavizados para o espectador.


O ponto alto reside nas narrativas entrelaçadas, que se desdobram como histórias dentro da história. Através de uma sessão de cinema e da produção de um filme, as narrativas desses espíritos são revividas, reinterpretadas e libertas. Um plot twist arrebatador diferencia o filme das abordagens convencionais sobre temas espíritas.

A fotografia é espetacular com destaque para as cenas que mostram o mar e o ambiente confortavelmente iluminado e bucólico onde se encontram os espíritos.


Apesar das mais de duas horas de filme, as referências entre nossas vidas e a construção e finalização de uma obra cinematográfica deixam tudo mais leve e saboroso. 

"A Saudade que Fica" é um testemunho do poder do cinema em explorar temas profundos e complexos, oferecendo uma perspectiva única sobre a vida, a morte e o que pode existir além. Sente-se confortavelmente e prepare os lenços.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Michihito Fujii
Produção: Babel Label
Exibição: Netflix
Duração: 2h12
Classificação: 14 anos
País: Japão
Gêneros: drama, família

04 abril 2024

"Uma Família Feliz" - Não se deixe enganar pelas aparências

Grazi Massafera e Reynaldo Gianecchini protagonizam este thriller nacional muito bem produzido
 (Fotos: Globo Filmes)


Marcos Tadeu
Narrativa Cinematográfica


Grazi Massafera e Reynaldo Gianecchini são as estrelas do ótimo longa "Uma Família Feliz", que estreia nesta quinta-feira (4) nos cinemas brasileiros, sob a direção de José Eduardo Belmonte. Ele conta com o escritor e roteirista Raphael Montes (da série "Bom Dia, Verônica") como diretor-assistente. O filme, com produção da Barry Company, tem coprodução com a Globo Filmes e Telecine e distribuição da Pandora Filmes.

Na trama, conhecemos Eva (Massafera), uma artista que cria bebês realistas como forma de arte, enquanto Vicente (Gianecchini) é um corretor bem-sucedido no mercado de ações. O casal tem duas filhas fofas, Ângela e Sara, e Eva está à espera de Lucas. A artista se depara com a angústia da depressão pós-parto em meio a uma vida burguesa supostamente perfeita.


Desde o início, a fotografia e o design de produção destacam como essa família aparenta viver bem e feliz, com um ambiente limpo, jantares fartos, coisas grandes e um carro espaçoso - um modelo de vida perfeita que toda família deseja ter. 

No entanto, as coisas começam a desmoronar quando ferimentos são encontrados no pequeno Lucas e em uma das filhas, levando Eva a questionar sua conduta como mãe e suas relações com os filhos. 

O bebê começa a preferir o pai e rejeita até o leite de Eva. A matriarca, apresentada com uma potência corporal marcante na história, decide tomar medidas para descobrir quem está prejudicando sua família, transitando entre a loucura e a vida perfeita mostrada para a sociedade. 


Grazi Massafera entrega uma de suas melhores atuações após o sucesso na série de TV "Verdades Secretas", com sua personagem Larissa. Reynaldo Gianecchini como Vicente é o típico "paizão", porém passivo-agressivo com sua esposa. A combinação dos dois funciona muito bem e eleva ainda mais a qualidade da obra. 

O filme possui todos os elementos de suspense e mistério de um thriller americano, com o final no começo, um mistério a ser resolvido e as entrelinhas das relações entre os personagens transmitindo muito com poucas palavras. 


Além disso, a questão de uma família burguesa e idealizada com pompa, mas disfuncional devido aos seus mistérios e entrelinhas é outro charme da história. 

No fim das contas, trata-se de questionar que nem tudo é o que parece e que as aparências realmente enganam. Belmonte conduz esses elementos com maestria em uma sinfonia de pompa e caos ao mesmo tempo.

"Uma Família Feliz" sem dúvida entra para a lista dos bons thrillers nacionais e, arrisco dizer, em listas de melhores do ano para aqueles que apreciam o cinema brasileiro. Um filme que questiona os ricos e seus modelos familiares, que vale o ingresso, a pipoca e a discussão pós-filme.


Ficha técnica:
Direção: José Eduardo Belmonte
Roteiro e história original: Raphael Montes
Produção: Barry Company, coprodução da Globo Filmes e Telecine
Distribuição: Pandora Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h57
Classificação: 16 anos
País: Brasil
Gêneros: suspense, drama