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09 fevereiro 2026

"O Morro dos Ventos Uivantes" - fotografia exuberante para uma adaptação diferente e sexualizada

Margot Robbie e Jacob Elordi são os protagonistas dessa história de amor impossível e possessivo,
adaptada do clássico literário escrito por Emily Brontë (Fotos: Warner Bros. Pictures) 
 
 

Maristela Bretas

 
A nova versão do clássico literário "O Morro dos Ventos Uivantes" ("Wuthering Heights"), de Emily Brontë, dirigida pela vencedora do Oscar de 2021, Emerald Fennell ("Bela Vingança" - 2020) e estrelada por Margot Robbie (Catherine/Cathy Earnshaw) e Jacob Elordi (Heathcliff), tem uma belíssima fotografia, mas falha em vários quesitos

O longa, que entra em cartaz nos cinemas nesta quinta-feira (12), vem acumulando críticas das mais variadas há dois anos desde que foi anunciado, muitas delas não muito positivas. 

Especialmente pela escolha do casal e a narrativa adotada por Emerald, também roteirista, que afirmou que "estava contando a maior história de amor de todos os tempos de outra forma". 


Uma versão mais sexualizada, explorando pontos mais picantes do romance escrito em 1847 que não haviam sido abordados em outras versões. Um bom exemplo é a frase "Be with me always - take any form - drive me mad" (na tradução "Esteja sempre comigo - assuma qualquer forma - me enlouqueça"). A mudança, no entanto, pode desagradar alguns fãs do clássico.

O filme continua contando a história de Catherine/Cathy Earnshaw e Heathcliff, o órfão adotado pelo pai dela, que nutrem, desde a infância, uma louca paixão não resolvida que segue até a fase adulta. 


Mas Cathy faz de Heathcliff um brinquedo, mesmo sendo apaixonada pelo jovem, que morreria por ela. Do amor juvenil à obsessão, este romance, que se passa no século XIX, vai destruir a vida de ambos.

Ao querer uma vida de luxo e riqueza, Catherine acaba se casando com o vizinho aristocrata Edgar Linton (Shazad Latif) e afasta Heathcliff de sua vida por considerá-lo inferior. Ele vai embora e retorna tempos depois em busca de vingança contra as famílias Earnshaw e Linton. 

Sua volta, no entanto, torna a paixão do casal violenta e obsessiva, provocando o declínio de ambos e de todos ao seu redor.


A narrativa é lenta, sem brilho (exceto pelo figurino da atriz), se prende a momentos de sexo para abordar o "amor impossível" dos jovens. Com isso, deixa "buracos" que desagradam. 

Cathy é o exemplo da aristocracia vitoriana que, mesmo falida, trata Heathcliff como seu "bichinho de estimação" (palavras do pai dela no filme), apesar do amor que sente por ele, mas não assume. 

Outro furo foi o destino de Heathcliff após deixar a fazenda: ele sai da casa de Cathy na condição de empregado quase escravo, e volta rico. O que fez nesse tempo que passou longe? Como conseguiu melhorar tanto de vida? Apenas uma argola na orelha deixa a indicar que se tornou um pirata (será?). 


Margot Robbie entrega uma ótima atuação de garota mimada (quase uma "Barbie" vitoriana com trajes exóticos), mas foge completamente da idade da personagem literária, que era uma adolescente e mais nova que Heathcliff. No filme, ela aparenta ser mais velha que ele (e é, na verdade, sete anos). 

Situação semelhante à do personagem de Jacob Elordi ("Frankenstein" - 2025), que tem uma atuação mediana, sem brilho nem fúria nos olhos, mesmo nos momentos intensos de paixão desenfreada. Como em outras mais de dez adaptações do clássico, Heathcliff é branco, quando deveria ser um jovem cigano negro ou mestiço. 


O mesmo aconteceu com a versão de 1939, com Laurence Olivier e Merle Oberon, dirigida por William Wyller. Não foi a primeira para o cinema, mas é a mais famosa e faturou o Oscar daquele ano como Melhor Fotografia/Preto e Branco. 

Se Emerald Fennell depender da fotografia, o Oscar pode vir e será muito merecido. O excelente trabalho com as imagens envolve e segura o filme, especialmente nos cenários abertos. 

Algumas cenas poderiam ser menores, ficam cansativas às vezes e esticam o filme para uma duração de 2h16 desnecessária pela abordagem adotada.


O elenco coadjuvante entrega boas atuações, especialmente Hong Chau, como Nelly Dean, governanta de Cathy. Assim como os jovens Owen Cooper (da série "Adolescência" - 2025) e Charlotte Mellington, que interpretam Heathcliff e Catherine jovens, Alison Oliver, como Isabella Linton, e Martin Clunes, como o pai de Cathy.

Já a trilha sonora original apresenta 12 músicas de Charli XCX com estilos bem provocativos e sensuais, como a dark "House", em parceria de John Cale, a potente "Chains of Love" e a envolvente "Wall of Sound", tocada em momentos especiais dos protagonistas.

"O Morro dos Ventos Uivantes" é um romance dramático que atravessa gerações atraindo milhares de seguidores que ainda vêm na obra escrita por Emily Brontë um modelo de amor impossível que só aumentou com o passar dos anos.


Se escrito hoje seria tema de discussões acaloradas pela relação passional e tóxica, marcada por violência, ciúme, racismo e diferença de classes sociais. E como no filme, só poderia acabar em tragédia. 

Agora é saber se o orçamento de US$ 80 milhões dessa nova adaptação será compensado pela bilheteria, garantindo mais um sucesso para a diretora. Especialmente porque a produtora LuckyChap, da atriz Margot Robbie, recusou uma oferta de US$ 150 milhões feita pela Netflix para que o longa fosse lançado nos cinemas em vez de ir direto para o streaming.

Particularmente, a fotografia foi o que mais me agradou. Assista e comente aqui o que achou.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Emerald Fennell
Produção: Media Rights Capital (MRC), LuckyChap Entertainment, Lie Still
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h16
Classificação: 16 anos
País: EUA
Gêneros: drama, romance

05 fevereiro 2026

"Zafari" é visceral e socialmente selvagem

As cenas são um olhar prolongado sobre o que acontece quando a escassez redefine valores
(Fotos: Vitrine Filmes)
 
 

Silvana Monteiro

 
Em "Zafari", tudo começa com um gesto simples: olhar pela janela. A família observa o hipopótamo recém-chegado ao jardim zoológico vizinho e, sem perceber, passa a medir o tempo pela permanência daquele corpo pesado, quase imóvel, que ocupa o quadro dia após dia, sem pressa.

Lá fora, o animal tem cuidadores e atenção, enquanto dentro das casas, as famílias vivem a falta de tudo, inclusive de paz e equilíbrio. 

A narrativa não se apoia em uma história que avança por viradas claras. O que se constrói é um ambiente. Em uma Caracas atravessada pela falta de comida, água e energia, o hipopótamo vira um ponto de atenção. 

Em meio à escassez generalizada, Zafari é o único que ainda tem o suficiente. Esse detalhe, aparentemente banal, desorganiza tudo.


Ana, a mãe, percorre o prédio decadente em busca de alimento nos apartamentos abandonados. O edifício, que já foi símbolo de conforto, agora funciona entre ruídos e sombras de vidas sem perspectivas. 

À medida que o filme avança, a aflição da falta é vista no rosto dos personagens, enquanto que o animal está ali à espera de ser alimentado e viver plenamente. 


A chegada do hipopótamo, que no início unia os vizinhos em torno de um acontecimento raro, passa a evidenciar fraturas antigas. As diferenças de classe deixam de ser pano de fundo e se tornam conflito direto. 

O animal, sempre observado à distância, passa a ocupar o centro das tensões humanas.

O ritmo lento pode afastar quem espera um enredo mais evidente, mas ele faz sentido dentro da proposta do filme. "Zafari" não traz uma história óbvia que prende de imediato o telespectador. 


As cenas são um olhar prolongado sobre o que acontece quando a escassez redefine valores e quando a convivência entre humanos e animais deixa de ser contemplativa para se tornar brutal. 

E deixa óbvio que quando a luta por sobrevivência dos humanos é visceral, quem paga caro são os animais. Excelente fotografia, uma ótima sonoplastia e uma atuação impecável de Daniela Ramirez.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Mariana Rondón
Produção: Sudaca Films, Paloma Negra Films, Klaxon Cultura Audiovisual, Still Moving, Quijote Films
Distribuição: Vitrine Filmes
Duração: 1h40
Classificação: 12 anos

Países: Brasil, Venezuela, Peru, México, França, Chile e República Dominicana
Gêneros: drama, ficção

31 janeiro 2026

O som da espera e o silêncio do mundo em "A Voz de Hind Rajab"

Filme retrata a noite de angústia de voluntários durante a chamada de uma criança palestina presa dentro
de um carro sob fogo cruzado (Fotos: Divulgação)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema


Mais do que uma estreia, o filme "A Voz de Hind Rajab" ("The Voice of Hind Rajab") em cartaz no Una Cine Belas Artes, reafirma o cinema como espaço de memória, denúncia e responsabilidade histórica. 

Dirigido por Kaouther Ben Hania e distribuído pela Synapse Distribution, o longa parte de um fato real ocorrido em Gaza, em janeiro de 2024, quando Hind Rajab, uma criança palestina de apenas seis anos, ficou presa em um carro sob fogo cruzado após um ataque que matou sua família.

Durante horas, Hind manteve contato com voluntários do serviço de emergência do Crescente Vermelho, pedindo ajuda enquanto se escondia entre os corpos dos parentes. Do outro lado da linha, havia promessas de resgate. Do lado dela, apenas o medo. A ligação termina de forma abrupta, interrompida pelo som de tiros. O socorro nunca chegou.


Desde o início, o filme deixa claro que não está interessado em neutralidade. Ao contrário, assume um posicionamento firme ao expor a violência sistemática contra a população civil palestina, especialmente crianças. 

A narrativa se constrói a partir da espera — do tempo que se arrasta, da angústia que cresce e da sensação de abandono. Ben Hania evita mostrar a violência de forma explícita, mas isso não suaviza a experiência. O horror não é visto: ele é ouvido, sentido e compartilhado com o espectador.

O trabalho de som é decisivo para o impacto do filme. Vozes frágeis, silêncios prolongados e ruídos distantes criam uma atmosfera sufocante, onde cada segundo parece mais pesado que o anterior. 

A interrupção da chamada não é apenas um recurso narrativo, mas um golpe seco, que corta qualquer ilusão de esperança. O público permanece preso à mesma espera que Hind viveu, sem saída emocional possível.


Ao assumir claramente sua posição política, o filme abre mão de nuances mais amplas do conflito. Os personagens não são desenvolvidos como indivíduos complexos, mas aparecem como extensões de um trauma real e coletivo. Essa escolha pode incomodar quem espera um drama mais tradicional, mas faz sentido dentro da proposta: registrar, denunciar e impedir o esquecimento.

O ritmo é duro e cansativo — de propósito. Não há alívio, não há pausa, não há conforto. A experiência é difícil, quase insuportável em alguns momentos, mas esse desgaste é parte essencial do filme. O desconforto não é um efeito colateral: é uma tomada de posição.

Indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e escolhido para representar a Tunísia na corrida pelo Oscar 2026, "A Voz de Hind Rajab" se impõe como um filme necessário, ainda que profundamente incômodo. Não busca agradar, nem entreter. Funciona como documento político e humano, exigindo do espectador mais do que empatia, mas um posicionamento.


Ao colocar uma criança no centro da narrativa, o longa desmonta qualquer discurso que tente justificar o injustificável. Uma ligação interrompida se transforma em um grito que continua ecoando muito depois do fim da sessão.

No fim, o filme expõe uma realidade que insiste em se repetir: enquanto o conflito entre Palestina e Israel segue sendo tratado como disputa geopolítica, quem paga o preço são corpos civis, famílias inteiras e crianças que nunca tiveram escolha. 

Hind Rajab não é uma exceção trágica — é o retrato de uma violência contínua, normalizada e frequentemente silenciada. O cinema aqui não oferece consolo, porque a realidade também não oferece. O que resta é a memória — e a recusa em aceitar o esquecimento como resposta.


Ficha técnica:
Direção: Kaouther Ben Hania
Distribuição: Synapse Distribution
Exibição: Una Cine Belas Artes
Duração: 1h30
Classificação: 14 anos
País: Tunísia
Gêneros: guerra, drama

27 janeiro 2026

"Song Sung Blues": uma história de superação ao som de Neil Diamond

Hugh Jackman e Kate Hudson protagonizam a dupla "Lightning & Thunder" que conquista fama levando aos
palcos um show dedicado ao músico (Fotos: Focus Features)
 
 

Patrícia Cassese

 
Não se trata, claro, de um expediente obrigatório. No entanto, pesquisar ao menos um pouco sobre o filme a que se vai assistir colabora, e muito, para a fruição - principalmente se a produção em questão se debruça sobre fatos reais. É o caso de "Song Sung Blue", que estreia no dia 29 de janeiro deste 2026 nos cinemas do Brasil. 

De pronto, o título já vai dizer muito às pessoas de espírito nostálgico, mesmo que sequer tivessem nascido à época: trata-se do título de uma canção homônima de Neil Diamond que estourou mundialmente no inicinho dos anos 1970 - foi lançada em 1972, dando sequência a uma série de hits emplacados pelo artista norte-americano, hoje octogenário, como "Sweet Caroline" (1969) e "I Am... I Said" (1971).


Vale dizer que, no recente Globo de Ouro, o longa-metragem dirigido por Craig Brewer foi classificado na categoria musical ou comédia, colocando o nome de Kate Hudson - que o protagoniza junto a Hugh Jackman - como candidata a melhor atriz. O prêmio, você se lembra, acabou indo (merecidamente) para Rose Byrne, por "Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria". 

Se entendemos que foi uma imensa forçação de barra dizer que esse último título se enquadra no gênero comédia, é também estranho ver "Song Sung Blue" rotulado de musical. É que, ainda que a música seja a espinha dorsal da empreitada, ela está totalmente vinculada à história real - e não, não há números de dança coreografados, reunindo elenco e figurantes, tal como em "Emilia Perez" (2024), para citar um exemplo recente.


A história real sobre a qual "Song Sung Blue" se baseia é a de um casal de Milwaukee que, no auge do sucesso de Neil Diamond, cria um espetáculo em homenagem ao artista. 

O início flagra justamente o encontro dos dois, nos bastidores de um show que apresenta covers dos artistas em voga na época, como Elvis Presley e James Brown. São performances levadas muito a sério pelos empenhados intérpretes, ainda que em cada um habite o sonho de fazer fama para além daquilo. 

Ao se cruzarem nas coxias, Mike (Jackman), que se apresenta como Don Ho, e Claire (Hudson), que solta a voz a bordo do repertório de Patsy Cline, se aproximam e, em pouco tempo, criam a dupla "Relâmpago & Trovão" (Lightning & Thunder"), que passa a levar aos palcos um show dedicado a Diamond. 


E sim, o relacionamento não se limita apenas ao profissional - não tarda, os dois juntam as escovas de dente, numa ação que arrebanha também os dois filhos de Claire e, eventualmente, a filha de Mike. 

O que ambos não sabem, ali, naquele momento de felicidade, é que a vida reservaria ao casal momentos muito, muito trágicos, incluindo um acidente que muda drasticamente o destino de todos. 

Por outro lado, guarda também surpresas do âmbito do inacreditável, como o da dupla abrir um show para o Pearl Jam, a convite do próprio Eddie Vedder.


É importante frisar que a história incrível desse casal da vida real já havia sido levada à tela por meio de um documentário, dirigido por Greg Kohs - que, fica a dica, está disponível no YouTube. Craig assistiu à produção conduzida por Greg e, impressionado, partiu para contar a história com atores. E sim, as escolhas de elenco são bem acertadas. 

Jackman e Hudson se mostram extremamente empenhados, assim como o elenco de apoio, que traz desde veteranos, como Jim Belushi, a bons expoentes da nova geração, como os jovens Ella Andersen, King Princess (cantora, compositora, instrumentista e produtora) e Hudson Hensley, que fazem os filhos do casal. 

Outro ator que os fãs de "White Lotus" vão se deliciar em rever é Michael Imperioli, que integra a banda que acompanha Mike - na série da HBO, ele marcou presença na segunda temporada, passada na Itália.


Embora não seja um filme pretensioso no sentido de trazer inovações na sétima arte ou ficar marcado na história do cinema, assim como a passar o rodo na temporada de prêmios, "Song Sung Blue" não vai fazer o espectador sentir ter desperdiçado seu tempo nos cinemas. 

Principalmente se, como dissemos no início, adentrar a sala escura sabendo que o que será mostrado ali, na telona, é a representação de um episódio real. 

Isso porque, em determinado momento, quem ignorar essa particularidade certamente vai se fazer uma pergunta do tipo "mas como ele não agiu assim ou assado?". E, óbvio, ninguém consegue perscrutar o que se passa na cabeça do outro.

No frigir dos ovos, "Song Sung Blues" é um filme sobre resiliência. Sobre enfrentar adversidades, provações da vida, e tentar superá-las da maneira que dá, já que a vida assim o exige. 


Tudo isso ao som do repertório de um artista - Neil Diamond - cuja voz potente ressoou muito nas rádios brasileiras, inclusive em versões, como a de Diana (1948 - 2024) para "I Am... I Said". Recentemente, "Porque Brigamos" também ganhou cover (excelente) de Bárbara Eugênia. 

Certo, talvez o filme peque um pouco na parte final, ao incorrer com força no melodrama - justamente por isso, recomendamos, aos mais sensíveis, levar um pacotinho de lenços de papel. Como se trata de vida real, quem quiser saber o motivo, basta recorrer ao caso real. Mas, ainda assim, recomendamos. 

O talento dos dois atores centrais merece ser conferido - e as músicas do artista reverenciado, clamam por serem cantadas pelo público - mesmo que, óbvio, baixinho, para não atrapalhar quem está do lado.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Craig Brewer
Produção: Focus Features, Davis Entertainment
Distribuição: Universal Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h13
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: musical, drama

25 janeiro 2026

“Dinheiro Suspeito”: suspense da Netflix testa a amizade de Matt Damon e Ben Affleck

Além das duas estrelas, longa policial baseado em história real conta com um bom elenco formado
por atores e atrizes premiados (Fotos: Netflix)
 
 

Maristela Bretas

 
Há atores que dificilmente você imagina fazendo o papel de vilão. Eles já nasceram com cara de mocinho, mesmo quando tentam fazer cara de mal. Ben Affleck é um exemplo disso em "O Contador" (2016). 

Outro que não perde a cara de "filho de vó" é Matt Damon. Como seu papel em "Jason Bourne" (2016), que apresenta o ator bem afiado no papel do superagente. 

A dupla também trabalhou junta em outra produção de sucesso - "AIR: A História Por Trás do Logo" (2023), que conta a criação da linha de tênis para basquete Air Jordan, da Nike.


Agora, no suspense policial "Dinheiro Suspeito" ("The Rip"), um dos lançamentos da Netflix de 2026, como saber qual deles é o vilão? Com mais de duas horas de duração, recheado de reviravoltas e com um bom elenco de apoio, os dois queridinhos de Hollywood entregam boas atuações e muita química. Damon e Affleck são velhos amigos e sócios no Artists Equity, estúdio que produziu o filme. 

O longa conta a história de um grupo de policiais da equipe tática da Divisão de Narcóticos de Miami que descobre um esconderijo com milhões de dólares em dinheiro vivo - uma tentação capaz de virar a cabeça do mais correto dos policiais. 

E agora: entregar o dinheiro ou dividir entre a equipe? A operação pode colocar em xeque a confiança e a união do grupo? Em quem confiar?


A produção é baseada em uma história real sobre uma operação conduzida em 2016 por Chris Casiano, à época chefe da Narcóticos da polícia do Condado de Miami-Dade e amigo do diretor Joe Carnahan. 

Durante uma investigação de tráfico de drogas, a equipe de Casiano encontrou escondido na parede de uma casa a quantia de US$ 24 milhões (R$ 128,9 milhões) em dinheiro vivo e preciso aguardar a chegada de reforços para remover a fortuna.

O filme também presta uma homenagem ao filho de Casiano, Jake William, que morreu aos 11 anos vítima de leucemia e foi a inspiração para o personagem de Matt Damon, que perde um filho para o câncer. 


A atuação do elenco é um dos destaques. Merece atenção a participação da premiada Teyana Taylor, vencedora do Globo de Ouro 2026 como Melhor Atriz Coadjuvante por sua atuação em "Uma Batalha Após a Outra" e agora cotada para disputar o Oscar na mesma categoria. 

Também estão no elenco Steven Yeun ("Minari - Em Busca da Felicidade" - 2021), vencedor do Emmy, do Globo de Ouro e do Critics Choise de 2024 como Melhor Ator; Catalina Sandino Moreno ("Bailarina - Do Universo John Wick" - 2025), indicada ao Oscar de Melhor Atriz em 2005; além de Sasha Calle (a Supergirl de "The Flash" - 2023) e Kyle Chandler ("Manchester a Beira-mar" -2017).

O filme tem mais suspense do que ação, poucas locações, poucos efeitos visuais e sem grandes perseguições. O final é muito bom, mas não chega a surpreender. 


Afinal, como revelou Matt Damon em entrevista de divulgação do filme, "a Netflix solicita a repetição de informações cruciais da trama, até 4 vezes, em produções como 'Dinheiro Suspeito', para garantir a compreensão do público, que assiste a conteúdos distraído com celulares e redes sociais".

Mesmo assim, esses pontos não estão interferindo nos números de "Dinheiro Suspeito". Desde a sua estreia, em 16 de janeiro, o longa vem liderando o ranking global da plataforma e já é considerado o maior lançamento da Netflix em 2026. São mais de 41 milhões de visualizações em quase 90 países. 

Eu gostei e recomendo. Confira e me conte aqui o que achou.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Joe Carnahan
Produção: Artists Equity
Exibição: Netflix
Duração: 1h52
Classificação: 16 anos
País: EUA
Gêneros: suspense, drama, policial, ação

14 janeiro 2026

“Ato Noturno” é a primeira boa surpresa do cinema nacional em 2026

Desejo, risco e moralismo marcam longa dirigido pelos gaúchos Filipe Matzembacher e Marcio Reolon
(Fotos: Avante Filmes e Vulcana Cinema)
 
 

Eduardo Jr.

 
Filme ousado no pedaço! Estreia no dia 15 de janeiro “Ato Noturno”, longa que é um pouco thriller e um bocado erótico. Dirigido pelos gaúchos Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, a obra mostra um ator e um político que vivem um caso onde o fetiche de ambos é praticar sexo em lugares públicos. 

Distribuído pela Vitrine Filmes, o lançamento ocorre por meio do projeto Sessão Vitrine Petrobrás. 

Matias (Gabriel Faryas) é um ator que deseja mais da carreira. Ao saber que uma grande série vai ser filmada em Porto Alegre, ele passa a desejar o papel. 

E aí se intensificam os atritos com Fábio (Henrique Barreira), o colega de apartamento e de companhia de teatro, que também quer ser protagonista de uma grande produção. 


Um elemento externo é quem bota fogo nessa história: Rafael (Cirillo Luna), que conhece Matias em um aplicativo de paquera. Logo de cara os dois vão dando pistas de que o prazer do casal está associado ao exibicionismo. 

Porém, Rafael é um político, e acredita que esse tipo de conduta é uma grande ameaça às ambições de ambos. É o político que alerta que, ao alcançar a fama, Matias vai precisar se adaptar às situações, omitir sua sexualidade. 


Cegos pelo desejo, eles seguem se arriscando. A direção faz com que Porto Alegre e alguns de seus pontos tradicionais se tornam locações de cenas tórridas, nas quais a escuridão da noite acende o fogo de casais, trios, quartetos…  

As poucas cenas diurnas são, em maioria, em locais abertos, onde a vida civil acontece, silenciosa e hipócrita. E aquilo que é sussurrado demanda atenção do espectador, por haver momentos em que a música é alta e a qualidade dos microfones perde potência. 


Outra leitura possível de ser feita a partir desse detalhe técnico é a da violência da cidade contra algumas identidades e comportamentos, invadindo brutalmente, tal qual o som que atravessa as cenas. 

O espectador é afetado pelo suspense, pelo incômodo, é contaminado pela raiva, é permeado pela ansiedade proposta no roteiro e pelo sexo estampado na tela (natural, quente e sem se descolar da trama). 

Apesar da luz do dia, em que as convenções sociais colocam cada coisa em seu lugar, é no ato noturno que se expressa a verdade, o desejo. 


Não dá pra ficar imune ao filme de Reolon e Matzembacher. Prova disso está nas conquistas que a dupla obteve no Festival do Rio, quando levou três Troféus Redentor: Melhor Ator para o estreante em longas Gabriel Faryas, Melhor Roteiro para Matzembacher e Reolon e Melhor Fotografia para Luciana Baseggio. 

Além disso, a produção ainda foi eleita o Melhor Filme do Prêmio Felix, dedicado a obras com temática LGBTQIAPN+. O cinema nacional também tem espaço para provocação, erotismo e confronto de hipocrisias. Ir ao cinema prestigiar o longa precisa ser seu próximo ato noturno.     


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Filipe Matzembacher e Marcio Reolon
Produção: Avante Filmes, com coprodução da Vulcana Cinema
Distribuição: Vitrine Filmes
Exibição: Cine Una Belas Artes
Duração: 1h57
Classificação: 18 anos
País: Brasil
Gêneros: drama, thriller

06 janeiro 2026

Histórias de perda e reinvenção - Parte 1: “Hamnet” e “Valor Sentimental"



Carol Cassese


A temática da perda e os modos de elaboração do luto estruturam pelo menos quatro filmes recentes que vêm se destacando no circuito internacional, articulando experiências familiares a processos de reconstrução subjetiva. 

O assunto será abordado em duas postagens. Enquanto este post será centrado em "Hamnet" e "Valor Sentimental", o segundo traz breves análises dos longas "Vida Privada" e "Miroirs No. 3".

"Hamnet - A Vida Antes de Hamlet", que estreou nos cinemas estadunidenses em 5 de dezembro e chega às salas brasileiras em 15 de janeiro, é um exemplo notável do tema. 


Dirigido por Chloé Zhao (“Nomadland” - 2021) e inspirado no romance homônimo de Maggie O’Farrell, a produção reflete sobre como a ficcionalização pode ser um mecanismo de enfrentamento ao luto. 

O filme dialoga diretamente com a vida de William Shakespeare e com o modo como sua experiência de perda teria ressoado na criação de Hamlet (sabe-se que Hamnet Shakespeare, filho do dramaturgo, faleceu aos 11 anos).

"Hamnet" estreou no Telluride Film Festival, em agosto de 2025. Posteriormente, a produção foi exibida no Toronto International Film Festival, onde venceu o People’s Choice Award, um dos principais prêmios de público da temporada. 


Em dezembro, o filme integrou a programação de eventos especiais do Main Cinema, em Minneapolis (Estados Unidos), onde tive a oportunidade de acompanhar um debate após a sessão com Katherine Scheil, autora de "Imagining Shakespeare’s Wife: The Afterlife of Anne Hathaway" (vale ressaltar que a sala de cinema estava lotada, em uma manhã de sábado com temperatura de –10 °C). 

A discussão abordou o apagamento histórico de figuras femininas ao longo dos séculos e também evocou a curiosa coincidência em torno do nome Anne Hathaway, esposa de William Shakespeare e homônima da conhecida atriz hollywoodiana. 

Vale notar que, no século XVI, os nomes Hamnet e Hamlet eram usados de maneira intercambiável, o que reforça a proximidade simbólica entre a experiência biográfica do dramaturgo e sua criação literária.


Além da forte recepção no circuito de festivais, a produção protagonizada por Jessie Buckley e Paul Mescal já aparece entre os títulos mais comentados do circuito de premiações, sendo frequentemente mencionado em projeções para grandes disputas. 

A atuação de Buckley, que recentemente levou o prêmio de Melhor Atriz no Critics Choice Awards, e o trabalho de Zhao vêm sendo apontados como destaques relevantes da temporada. 

Ao se inscrever no campo da ficção histórica, a adaptação do livro de O'Farrell propõe uma reflexão sobre a recriação do passado e a mescla entre fatos, imaginação e elaboração estética. 

Dessa maneira, Hamnet se alinha a uma tendência crescente no cinema e na literatura contemporânea, em que narrativas históricas são revisitadas a partir de perspectivas criativas.


VALOR SENTIMENTAL

Também em destaque na temporada de premiações, "Valor Sentimental" (ainda em circulação nos cinemas brasileiros), obra do diretor norueguês Joachim Trier, é centrada no retorno de um pai, cuja presença reabre feridas ligadas à memória familiar. 

Assim como ocorre em "Hamnet", o filme propõe reflexões sobre o retrato ficcional de acontecimentos trágicos, mostrando como a recriação de experiências difíceis pode, de maneira complexa e não linear, auxiliar na elaboração de traumas.


Como mencionamos na introdução, o novo filme do diretor norueguês Joachim Trier, que assinou produções como "Oslo, 31 de Agosto" (2011) e "A Pior Pessoa do Mundo" (2021), é centrado nos efeitos conturbados de um reencontro familiar. 

Mais especificamente, a narrativa acompanha um cineasta, interpretado por Stellan Skarsgård, e suas duas filhas, vividas por Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas, em meio a tensões ligadas à memória e a feridas que permanecem abertas. 


Nesse contexto, o filme introduz ainda a personagem de Elle Fanning, uma atriz americana convidada a interpretar ficcionalmente episódios dolorosos da história da família – gesto que desloca a experiência do trauma para o campo da representação. 

Aqui, é interessante pensar como a presença da personagem de Fanning opera também como uma alusão a um processo enfrentado por muitos diretores da cena independente: a passagem por um crivo hollywoodiano, seja em termos de reconhecimento crítico ou validação dentro de um mercado desigual. 

Bastante aclamado pela crítica, o longa estreou na competição oficial do Festival de Cannes 2025, onde venceu o Grand Prix (Grande Prêmio do Júri). 


31 dezembro 2025

Em "Jovens Mães", irmãos Dardenne lançam foco sobre a gravidez na adolescência

Filme retrata uma questão que, infelizmente, é presente entre jovens em todos os países do mundo,
numa fase em que estão descobrindo a sexualidade (Fotos: Christine Plenus)
 
 

Patrícia Cassese

 
Com uma chancela de respeito - a assinatura dos irmãos Dardenne tanto na direção quanto no roteiro -, entra em cartaz na cidade o filme "Jovens Mães", que, vale dizer, integrou a programação do Festival de Cinema Francês desse ano, porém, com poucas sessões. Em cena, cinco representantes do que o título - que, na tradução brasileira, mantém o original, "Jeunes Mères" - já revela ao espectador. 

Mais preciso que o uso da palavra "jovem", na verdade, seria "adolescente", posto que a câmera dos belgas Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne flagra a maternidade em uma faixa etária na qual a inocência da infância ainda se mescla às descobertas do mundo adulto. 


São cinco, as jovens mães do filme, e, à exceção de uma, as demais dividem o tempo de duração do longa. Um denominador comum é que nenhuma ali vem de uma vida propriamente fácil. Ao contrário, alguns relatos de episódios da infância são de causar calafrios.

De todo modo, na retratação de uma questão que, infelizmente, é presente em todos os países do mundo - a gravidez acidental na vida de pessoas numa fase em que estão, na verdade, descobrindo a sexualidade, "Jovens Mães" apresenta uma situação que já de pronto mostra a distância entre os ditos países do primeiro mundo e os mais pobres. 


É que as cinco meninas estão provisoriamente abrigadas em uma casa de acolhimento na qual as funcionárias tratam de explicar, com paciência e medida insistência, os cuidados básicos com os bebês para quem pouco tempo atrás certamente brincava de boneca. 

Entre eles, a limpeza do umbigo, o banho ou a melhor forma de dar mamadeira - posto que, ali, dado o estresse inerente à situação, nem todas têm leite para alimentar seus rebentos. Importante dizer que as garotas do filme foram mães por opção, uma vez que, sim, havia a alternativa de se submeter a um aborto. 


No entanto, em casos como o de Jessica (Babette Verbeek), o bater o martelo em manter a gravidez se deu no bojo do sonho de construção de uma união dela com o pai do bebê. Uma ilusão que, mundo afora, muitas adolescentes acalentam.

Mesmo com a escolha do aborto afastada pelas cinco quando ainda havia tempo, resta, a elas, uma última decisão: entregar o filho para uma família ou assumir a maternidade (inclusive, a maternidade solo) nessa etapa tão complexa da vida.


Entre as cinco, talvez o caso que mais afete o espectador seja o de Jessica, que, na reta final da gravidez, tenta se reconectar com a mãe, Morgane (India Hair), que, no passado, a abandonou ainda recém-nascida. Vale muito pontuar o talento da jovem atriz belga que a interpreta, e que dá conta de transmitir o desespero que invade a menina ali, sozinha. 

De todo modo, ela não está disposta a repetir a decisão de sua genitora. Detalhe: a idade da atriz que interpreta Morgane dá indícios que ela também foi mãe na adolescência, mostrando como esse ciclo se repete na sociedade, não obstante os avanços de métodos contraceptivos.


Ariane (Janaina Halloy Fokan, atriz de apenas 16 anos) é outro caso que comove, pelo fato de a garota também vir de uma família esfacelada - a mãe mantém um relacionamento tóxico (apesar de jurar para a filha que colocou um ponto final, o namorado sempre retorna para buscar objetos). 

Não bastasse isso, o envolvimento com drogas que faz a polícia volta e meia bater à sua porta. É nela que a possibilidade de entregar a criança à adoção fala mais alto.

A situação de Julie (Elsa Houben) é um pouco diferente das colegas, sendo ela a única cujo pai do bebê segue não só presente, mas mantendo o intuito de formar uma família. Mesmo assim, ambos lidam com a falta de perspectiva de ter um teto, assim como com o fantasma do vício em drogas. Julie também narra a experiência de um abuso praticado dentro de casa. 


Como ela, Perla (Lucie Larvelle, ótima presença em cena), ao dar continuidade à gravidez, acreditou que o bebê seria o ponto de partida para a construção de uma célula familiar. 

Sua situação não vai deixar o espectador incólume, inclusive quando ela coloca em repasse a relação com a mãe e uma maldade cometida por essa que a marcou para sempre. Além do fato de ser uma adolescente mãe solteira, Perla ainda tem que lidar com o racismo. 

A quinta adolescente do roteiro tem uma presença mais breve na trama. Naïma (Samia Hilmi), mãe da Selma e a mais serena das adolescentes.


Detalhe: "Jovens Mães" foi o título indicado pela Bélgica para o Oscar 2026, na categoria Filme Estrangeiro. Certo, foi eliminado na lista de pré-selecionados, mas isso de forma alguma tira a importância da narrativa que, como salientado no início, fala de uma questão que preocupa não só as autoridades ou pessoas envolvidas em situações similares, mas também aos mais conscientes mundo afora.

Além de mostrar como o acolhimento - familiar ou externo - é imprescindível em tais casos, uma vez que a insegurança e a pouca experiência intrínsecas à idade pode levar a decisões bastante equivocadas, passíveis de virarem traumas para toda uma vida.


Ficha técnica:
Direção:
Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne
Produção: Les Films du Fleuve, Archipel 35, The Reunion (Delphine Tomson, Denis Freyd)
Distribuição: Vitrine Filmes
Exibição: Cine Una Belas Artes e Centro Cultural Unimed-BH Minas
Duração: 1h46
Classificação: 16 anos
Países: Bélgica e França
Gênero: drama