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09 julho 2026

"A Gente Tenta": entre risos, frustrações e a difícil arte de construir novas histórias

Dorama tem como destaque os atores sul-coreanos Koo Kyo-hwan e Go Youn-jung que formam uma
relação de acolhimento (Fotos: Netflix)
 
 

Silvana Monteiro

 
Para quem gosta de histórias ambientadas nos bastidores do cinema, das produções audiovisuais e de personagens complexos, fica minha indicação de um dorama da Netflix: "A Gente Tenta" ("We Are All Trying Here").

A minissérie acompanha um grupo de cineastas que se reúne regularmente no bar de uma amiga e colega de profissão. Entre projetos frustrados, sonhos adiados, rivalidades, afetos e muita conversa regada a álcool, acompanhamos personagens que tentam sobreviver — e criar — em um mercado audiovisual nem sempre acolhedor.


Os destaques ficam para Hwang Dong-man (interpretado por Koo Kyo-hwan), que há décadas tenta emplacar um roteiro nas grandes produtoras, e Byeon Eun-ah (papel de Go Youn-jung), que carrega um segredo bombástico capaz de ressignificar muitas das relações ao seu redor. 

Go Youn-jung é uma atriz sul-coreana que tem em sua filmografia sucessos séries como "Alquimia das Almas" (2022-2023), "O Amor Pode Ser Traduzido" (2026) e "Em Movimento" (desde 2023). 

Já Koo Kyo-hwan, também sul-coreano, alcançou maior sucesso por sua atuação na série "D.P. Dogs Day (2021-2023, da Netflix, além da participação nos filmes "Jane" (2016) e "Invasão Zumbi 2" (2020).


A dinâmica entre eles dois, que são os mais novos do grupo, e o restante da turma, é construída aos poucos, revelando ressentimentos, admiração, inveja, amizade e sentimentos difíceis de nomear. 

No meio disso tudo, dois atores consagrados do cinema sul-coreano são disputados por sua capacidade de interpretação, mas são colocados, para além do conflito técnico, à prova de suas humanidades. 


O grande mérito da minissérie está nos diálogos, na construção dos acontecimentos e nos temas sensíveis os quais ela aborda. São daqueles que parecem simples à primeira vista, mas continuam pulsando na nossa cabeça e no nosso coração depois que o episódio termina. 

A atuação da dupla principal é impressionante, e a narrativa está repleta de referências sutis a obras consagradas do cinema, um prato cheio para quem gosta de identificar camadas e homenagens. 

A forma como os personagens são desenvolvidos, sem a história de um encobrir a outra, mantendo um ritmo convidativo e interessante, faz querer digerir os capítulos como se faz com um bom prato de comida quando se está faminto. 


Apesar do título modesto em português, a obra é muito mais rica do que parece. Além do humor e dos conflitos profissionais, a série aborda temas como autoria e coautoria, financiamento público para a cultura, maternidade, equidade de gênero no audiovisual e outras questões sensíveis, como o autoextermínio, sem cair em discursos fáceis.

É uma dessas produções que entretêm, fazem rir, provocam reflexão e deixam alguns temas e reflexões ocupando espaço na cabeça por dias. A fotografia também é um grande trunfo. Merece aplausos.


Ficha técnica:
Direção: Cha Young-hun
Roteiro: Park Hae-young
Produção: Netflix
Exibição: Netflix
Duração: 12 episódios
Classificação: 16 anos
País: Coreia do Sul
Gêneros: minissérie, dorama, romance

01 julho 2026

"Anatomia do Caos": relembrar para jamais esquecer

Filme escancara as bizarrices de um governante negacionista que foi responsável por mais de 700 mil
mortes na pandemia de Covid-19 (Fotos: Divulgação)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
Imprescindível. Talvez seja essa a palavra que melhor define "Anatomia do Caos", filme que mostra, com riqueza de detalhes, o que se passou no Brasil a partir da decretação da pandemia de Covid 19 em março de 2020 pela Organização Mundial da Saúde, lembrando que o país era governado por Jair Messias Bolsonaro.

Com roteiro e direção de Dandara Ferreira ("Meu Nome éGal" - 2023), o documentário, que estreia nesta quinta-feira (2) no Cine Belas Artes, é peça importante para que não caia no esquecimento os absurdos inacreditáveis vividos pelos brasileiros naqueles dias.


A começar pelo gigantesco número de mortes - mais de 700 mil - o filme escancara as bizarrices de um governante negacionista, anticiências e adepto de um chamado tratamento preventivo à base de Hidroxicloroquina, comprovadamente ineficaz.

O filme, que ao final faz questão de deixar clara a intenção de ser um documento de interesse público e de finalidade informativa, mostra a instalação e desenvolvimento da CPI da Covid-19 que levou milhões de brasileiros para a frente das TVs todas as manhãs.

Tornou populares figuras como Omar Aziz, Renan Calheiros, Randolfe Rodrigues, Simone Tebet, Osmar Terra, a médica Nise Yamaguchi e o senador Flávio Bolsonaro, sempre pronto a defender o pai.


São inacreditáveis as muitas falas do presidente da República durante a pandemia. Em live ou entrevistas, ele chama a doença de gripezinha, debocha dos doentes com falta de ar, chama os brasileiros de 'maricas', indica medicamentos que não funcionam e responde mal aos jornalistas quando a pergunta é sobre as mortes.

Todos se lembram da famosa frase "eu não sou coveiro" e da campanha contra as máscaras e vacinas. Ou do discurso dele na ONU, quando disse ter salvado o Brasil que estava à beira do socialismo.

Igualmente inesquecível é o chamado gabinete paralelo, que tinha à frente Osmar Terra, defensor intransigente da imunização de rebanho junto com o desastroso ministro da Saúde, Eduardo Pazzuello.


Outra lembrança importante ativada pelo documentário é a crise de escassez de oxigênio em Manaus, quando milhares de pessoas morreram literalmente por falta de ar.

O Brasil perdeu também grupos indígenas que foram exterminados pela doença levada pelos brancos, mas a CPI pegou fogo mesmo quando o deputado federal Luis Miranda denunciou o que passou a ser chamado de escândalo da Covaxin, quando veio à tona a proposta de pagar muito além do preço de tabela por essa vacina.

Não faltou também menção ao caso da Prevent Sênior, com seus números duvidosos e a surpreendente declaração da médica responsável: "Óbito também é alta".


Com placas indicando o número de mortes aumentando a cada dia, a CPI ouviu também os empresários Carlos Wizard, que defendia o tratamento precoce com Cloroquina enquanto citava versículos bíblicos.

E o impagável e estranhíssimo Luciano Hang, conhecido como "veio da Havan", que marcou presença com suas fanfarronices e convites a motociatas enquanto o Brasil se tornava responsável por 33% das mortes por Covid 19 em todo o mundo.

O tempo costuma apagar tudo, até mesmo as dores mais cruéis. Nesse sentido, "Anatomia do Caos" faz seu papel importante, usando a arte para reativar a memória e para que episódios como esses jamais se repitam. 

Vale ressaltar que, em 2022, Jair Bolsonaro torna-se o primeiro presidente desde a redemocratização a não ser reeleito.


Ficha técnica:
Direção: Dandara Ferreira
Roteiro: Dandara Ferreira e Élcio Verçosa Filho
Produção: Movioca Casa de Conteúdo, Las Margaridas e LabV
Distribuição: Descoloniza Filmes
Exibição: Cine Belas Artes BH
Duração: 1h29
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gêneros: documentário, drama

28 junho 2026

"O Menino da Calça Rosa" reconstrói uma história para alertar sobre a prática do bullying

Samuele Carrino interpreta o jovem Andrea Spezzacatena que tirou a própria vida devido ao assédio
contínuo na escola (Fotos: Divulgação)
 
 

Patrícia Cassese

 
Filmes baseados em episódios da vida real trazem, em seu bojo, a peculiaridade de o público adentrar a sala de exibição de certa forma já sabendo o desenlace da história – bem, claro, salvo no caso daqueles que, por variados motivos, não tomaram conhecimento do fato, principalmente quando este ocorreu em outro país. 

Evidentemente, essa característica – de o que acontece ao fim já ser sabida - não depõe contra a realização de tais iniciativas, pois, assim como há o chamariz de ver como uma história real foi transposta para o écran, há também a pertinência de levar certos episódios à telona para que não sejam esquecidos.

É o caso de “O Menino da Calça Rosa” ("Il Ragazzo Dai Pantaloni Rosa"), de Margherita Ferri, que integrou a programação da 8 ½ Festa do Cinema Italiano Brasil, exibida em vários cinemas do país, inclusive de BH.

Trata-se de uma encenação a partir de um caso real que comoveu a Itália. Em novembro de 2012, pouco após completar 15 anos, Andrea Spezzacatena tirou a própria vida, solapado pela tormenta que atravessava na escola, onde era vítima de bullying e cyberbullying.


Ao transpor o caso para a telona, a diretora permitiu-se entremear os fatos comprovados (após a morte, a mãe do garoto teve acesso ao conteúdo do celular dele e, assim, tomou conhecimento da dimensão do assédio dos colegas, que chegaram a criar um perfil chamado O Menino da Calça Rosa com toques ficcionais.

Por serem menores, à época, os alunos que perpetraram sofrimento e humilhação a Andrea (vivido no longa-metragem pelo expressivo Samuele Carrino) tiveram a identidade preservada. 

De todo modo – e, mesmo como apontamos, já sabendo o desenlace – o filme alcança o que imaginamos ser seu objetivo precípuo, ou seja, ratificar a necessidade de prevenir a prática do bullying. Assim como saber lidar com a questão quando esse já se implantou, tanto no acolhimento de quem procura a direção da escola ou diretamente algum professor para pedir ajuda.


Ou na percepção da dinâmica da classe (já que, muitas vezes, por vergonha ou medo, o alvo recolhe-se ao silêncio), assim como no tratamento e eventual punição (de educativa à expulsão) de quem o pratica e no investimento na prevenção futura. 

O assunto é premente. Para se ter uma ideia, pesquisa nacional realizada pelo Departamento de Educação dos EUA apontou que 100% dos estudantes ouvidos relataram ter vivenciado, testemunhado ou tido conhecimento de atos de bullying durante o ano letivo de 2021-2022. 

No Brasil, em matéria da Agência Brasil, quatro em cada dez estudantes brasileiros de 13 a 17 anos afirmam já ter sido alvos de bullying, e 27,2% dos alunos nessa faixa etária já sofreram alguma forma de humilhação duas ou mais vezes.  


Os dados foram divulgados em março de 2026, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), e se referem a depoimentos coletados em 2024 em escolas de todo o Brasil. 

Vale dizer que Teresa Manes, a mãe de Andrea (vivida, no filme, pela belíssima Claudia Pandolfi), desde a morte do filho se dedica a percorrer escolas do país ministrando palestras para conscientizar jovens e educadores sobre as consequências do bullying. 

Também fundou a Associazione Italiana Prevenzione Bullismo e escreveu o livro “Andrea, para além da calça rosa” (tradução livre). Por seu empenhado trabalho, aliás, em 2022 foi agraciada com a ordem Cavaleiro do Mérito da República por Sergio Mattarella, o presidente da República Italiana. 


Em tempo: a calça rosa citada no título do filme e em outros pontos desta matéria refere-se à peça de vestuário que Andrea ganhou de presente de sua mãe. 

Na verdade, a calça era originalmente da cor vinho, mas uma lavagem na máquina fez com que o tingimento esmaecesse, deixando a peça com um tom rosado – inacreditavelmente, ainda hoje atrelada ao sexo feminino.

Assistir a “O Menino da Calça Rosa” é, pois, uma experiência dolorosa, da qual ninguém sai inalterado. Não se surpreenda ao se flagrar pesquisando o caso a fundo e se afundar na cadeira refletindo como uma prática tão destrutiva e perversa, com um potencial tão significativo de acabar com uma vida e, na esteira, dilacerar famílias inteiras, possa seguir arrebanhando adeptos. De todo modo, uma experiência necessária.


Ficha técnica:
Direção: Margherita Ferri
Roteiro: Roberto Proia
Produção: Eagle Pictures, Weekend Films
Distribuição: Weekend Films
Duração: 1h54
Classificação: 16 anos
País: Itália
Gênero: drama

23 junho 2026

BH recebe 13ª edição da “8 ½ Festa do Cinema Italiano por Generali”

(Divulgação)
 
 

Da Redação

 
A partir do dia 25 de junho, a "8 ½ Festa do Cinema Italiano por Generali" dá início à sua 13ª edição no Brasil, que prossegue até 1º de julho. Em Belo Horizonte, a programação será exibida no Cine Belas Artes BH e no Centro Cultural Unimed-BH Minas. 

Em 2026, o convidado especial do Festival é Federico Ferrone, que dirige, ao lado de Michele Manzolini um dos destaques dessa edição: “Os Irmãos Segreto”. 

O documentário ítalo-brasileiro acompanha a trajetória de Pasquale, Gaetano e Alfonso Segreto, três irmãos imigrantes italianos que se tornaram os pioneiros do cinema no Brasil. A versão brasileira do filme, vale dizer, tem narração do ator Paulo Betti.

"Os Irmãos Segreto", de Federico Ferrone
e Michele Manzolini
 
A programação reúne 10 filmes, com destaque também para o clássico “Caro Diário”, de Nanni Moretti. O longa, que tem Moretti também como protagonista, será exibido em cópia restaurada. 

A produção recebeu o David di Donatello de Melhor Filme e Melhor Música (Nicola Piovani), em 1994, e foi indicado à Palma de Ouro e premiado com Melhor Direção em Cannes, no mesmo ano. 

Caro Diário”, de Nanni Moretti

Outro destaque é o drama de época “Modi - Três Dias Nas Asas da Loucura”, de Johnny Depp, que marca o retorno do astro à direção depois de 29 anos. O filme conta com Al Pacino e Riccardo Scamarcio no elenco. 

Com roteiro de Jerzy e Mary Olson-Kromolowski, o longa adapta a peça teatral “Modigliani”(1980), de Dennis McIntyre, que conta, com humor e liberdade, a história do escultor e pintor italiano Amedeo Modigliani, conhecido como Modi.

Fuori”, de Mario Martone

O longa “Fuori”, de Mario Martone, é uma biografia dramática inspirada na escritora italiana Goliarda Sapienza; foi indicado à Palma de Ouro, no Festival de Cannes 2025. A produção explora o universo feminino na sua complexidade, entre um aparente caos e uma profunda intensidade emocional, com uma interpretação magistral de Valeria Golino. 

Roma, 1980. A escritora Goliarda Sapienza é presa por roubo de joias, mas o encontro com jovens presidiárias se torna, para ela, uma experiência de renascimento.

A Última Rodada”, de Francesco Sossai

A Última Rodada”, de Francesco Sossai, é um dos filmes mais premiados desta edição. No Festival de Cannes 2025, foi exibido na mostra Un Certain Regard e venceu oito prêmios no David di Donatello Awards, incluindo Melhor Filme e Melhor Direção. 

O longa é um road movie cômico e ao mesmo tempo poético, que acompanha a viagem etílica de dois cinquentões e de um estudante de arquitetura. A viagem improvisada entre bares e estradas vazias acaba transformando a visão de mundo do rapaz.

Primavera”, de Damiano Michieletto

Primavera”, de Damiano Michieletto, marca a estreia de Michieletto, aclamado diretor de ópera, em longas-metragens. Com roteiro de Ludovica Rampoldi e Michieletto. 

Na história, Cecilia, uma violinista de 20 anos, vive confinada em um orfanato para meninas e passa a questionar sua realidade quando conhece o compositor Antonio Vivaldi. A produção é baseada no romance “Stabat Mater”, de Tiziano Scarpa, de 2008.

O Negociador”, de Alessandro Tonda

O Negociador”, de Alessandro Tonda, é um thriller dramático de 2025, ano em que se completou 20 anos da morte de Nicola Calipari. Alto dirigente do SISMI (Serviço de Informações e Segurança Militar), apelidado de Il Nibbio, ele perdeu a vida durante uma operação de inteligência destinada à libertação da jornalista Giuliana Sgrena, raptada no Iraque por uma célula terrorista. O longa narra os 28 dias que antecederam sua morte durante a operação.

O Menino da Calça Rosa, de Margherita Ferri

O Menino da Calça Rosa”, de Margherita Ferri, é um dos filmes italianos mais vistos de 2025, com mais de um milhão e meio de espectadores. O longa é baseado na história real de Andrea Spezzacatena, um jovem de 15 anos, que tirou a própria vida, tornando-se o primeiro caso conhecido em Itália de suicídio de um menor provocado por homofobia, bullying e cyberbullying.

O caso teve início após suas calças vermelhas ficarem cor-de-rosa após uma lavagem errada e ele começar a ser perseguido na escola. A produção se baseia no livro da mãe de Andrea, “Andrea Além das Calças Cor-de-Rosa”.

Três Vezes Adeus”, de Isabel Coixet

Baseado no livro homônimo de Michela Murgia, o drama “Três Vezes Adeus”, de Isabel Coixet, conta com Alba Rohrwacher e Elio Germano no elenco. 

Depois de uma discussão que parece banal, Marta e Antonio separam-se. Ela fecha-se em si própria, marcada por uma súbita falta de apetite; ele, chef em ascensão, refugia-se no trabalho, mas sem conseguir esquecê-la. 

Agnus Dei”, de Massimiliano Camaiti

O documentário “Agnus Dei”, de Massimiliano Camaiti, exibido no Festival de Veneza, acompanha a rotina do Mosteiro de Santa Cecília em Trastevere, no coração de Roma, onde uma tradição secular se renova todos os anos: em janeiro, dois cordeiros recém-nascidos, após serem adornados e abençoados, são confiados aos cuidados de uma das freiras de clausura.

Ela cuida deles com a ternura de uma mãe, amamentando-os e alimentando-os. A presença dos animais tem um propósito específico: com a lã deles, as freiras tecem o pálio que o Papa usa no dia 29 de junho, na Solenidade de São Pedro e São Paulo. No entanto, no Ano Santo de 2025, enquanto o rito ocorria, o Papa adoece subitamente.


SERVIÇO:
“8 ½ Festa do Cinema Italiano por Generali”

Data: 25 de junho a 1º de julho
Locais: Cine Belas Artes BH e Centro Cultural Unimed-BH Minas
Preço dos ingressos: o mesmo já praticado pelas salas
Programação: https://br.festadocinemaitaliano.com/programa-e-locais/belo-horizonte e no site do Centro Cultural Unimed-BH Minas
Informações: https://festadocinemaitaliano.com.br/

19 junho 2026

Os meandros da psiquê humana conduzem "As Correntes"

Longa foca na personagem interpretada por Isabel Aimé Gonzalez-Sola que tem sua vida mudada por
completo após uma viagem à Suíça (Fotos: Filmes do Estação)
 
 

Patrícia Cassese

 
Com um título um tanto quanto emblemático, por remeter, por exemplo, a elos que aprisionam, ou ao fluxo de uma massa de água, “As Correntes”, produção em cartaz no Cine Belas Artes BH, centra seu foco na personagem Lina (Isabel Aimé Gonzalez-Sola), uma jovem estilista (34 anos) que, nos momentos iniciais do filme, está em outro país – a Suíça - para receber um prêmio por seu trabalho. 

Um momento de coroamento, mas que, ao fim, acaba por implodir a ordem que até então pautava sua vida junto ao marido e à filha pequena em seu território de origem, a Argentina.

A cena inicial do filme – cujo roteiro e direção são de Milagros Mumenthaler - mostra justamente a cerimônia de entrega da láurea, que, diga-se, tem um destino inesperado (estamos falando do objeto em si). 


Pouco à frente, o espectador é surpreendido com um inesperado mergulho de Lina nas águas geladas do rio Ródano (pontuando-se que a cena notadamente se passa em período de frio), com a câmara focando também um objeto que ela portava e que fica a flutuar após a imersão da moça. 

A sequência já mostra Lina retornando ao hotel envolta em uma capa térmica e com as roupas que portava antes do pulo envoltas em um saco plástico, embora a cena completa, detalhada, do que houve, só vá aparecer mais adiante no longa-metragem. 

Fato é que a personagem retorna a Buenos Aires e enigmaticamente opta por não compartilhar com o parceiro, Pedro (Esteban Bigliardi, de “Os Delinquentes”, atualmente disponível no Mubi), o ocorrido – ainda que a mudança de comportamento seja evidente. 


Em uma das cenas, por exemplo, o marido insiste em uma conversa a dois para tentar entender a inequívoca alteração nas atitudes cotidianas, dizendo, em dado momento: “Parece que você não voltou” (referindo-se à viagem).

Sim, um certo alheamento é um dos pontos que o coloca em alerta, mas, por outro lado, há detalhes que só o espectador tem acesso, como a aversão que Lina passa a sentir do contato de seu corpo com a água, fazendo-a inclusive evitar lavar os cabelos – a ponto de o couro cabeludo começar a coçar e, em decorrência, apresentar sinais de vermelhidão. Em dado momento, ela inclusive passa a usar xampu seco para esconder do marido o “novo hábito”.  

Na verdade, a própria higiene corporal diária passa a ser feita sem Lina estar diretamente sob o fluxo de um chuveiro. E mesmo no momento do banho da filha (que, por ser pequena, demandaria acompanhamento de um adulto), a estilista sente resistência em adentrar o toilette, esperando que a menina se resolva sozinha. 


Quando a situação começa a fugir do controle, Lina procura uma antiga amiga – desconhecida pelo marido, atestando que há uma face oculta da vida da parceira que muitos desconhecem – para que ela lave suas madeixas. Detalhe: mediante uma inalação sedativa prévia, para que ela esteja desacordada. 

Há um trecho do filme no qual Lina fala a um terapeuta sobre esse pavor à água, citando o medo de ser arrastada, à revelia, por hipotéticas correntes. A fobia ao banho, no entanto, segue sendo um sintoma imperceptível para o marido, ainda que, como já pontuado, outros comportamentos gerem estranheza nos demais personagens. A sogra, por exemplo, certo dia aparece à porta da casa da família, sem avisar, levando comida para o casal e a neta, preocupada com a alimentação ali. 


Um ponto interessante é que se a personagem é apresentada inicialmente como Lina, um diminutivo de seu nome de batismo, Catalina, em dado momento, temos em cena pessoas que a chamam de Cata. Portanto, é como se duas personas habitassem o mesmo corpo, mas cada uma desse as caras para um entorno distinto, com jeitos próprios de ser. 

O marido de Lina não conhece as facetas de Cata, assim como pessoas ligadas a Cata – como a mãe da estilista – não conhecem bem a faceta Lina. A divisão aponta para um transtorno dissociativo, que, numa consulta informal, sem pretensões de diagnósticos precisos, podem surgir como mecanismo de defesa contra traumas na infância. Há, no filme, uma pista para tal.


Exatamente por isso, “As Correntes” vem sendo apresentado como um drama psicológico, e a direção acerta ao recorrer a tons escuros para acompanhar a narrativa de uma personagem que busca, principalmente, fazer com que o passado não contamine de forma irremediável a relação com o marido e, principalmente, com a filha. 

No frigir dos ovos, um filme duro, desconfortável, incômodo, mas que vai interessar ao público afeito ao enigmático mistério da mente humana. 

Em tempo: nascida na Argentina e criada na Suíça, Milagros Mumenthaler chega, com “As Correntes”, a seu segundo longa. O primeiro, “Abrir Puertas y Ventanas”, registre-se, recebeu o Leopardo de Ouro no Festival de Locarno. Aos 49 anos, ela também já foi premiada pelos curtas que assinou.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Milagros Mumenthaler
Produção: Alina Film e Ruda Cine, coprodução RTS Radio Télevision Suisse
Distribuição: Filmes do Estação
Exibição: Cine Belas Artes BH
Duração: 1h44
Classificação: 16 anos
Países: Suíça e Argentina
Gênero: drama

15 junho 2026

"Criadas" propõe quebrar paredes que perpetuam as desigualdades raciais, sociais e de gênero

Entre os maiores méritos da obra está a atuação das protagonistas Ana Flávia Cavalcanti e Mawusi Tulani (Fotos: Vitrine Filmes)
 
 

Silvana Monteiro

 
Em "Criadas", Carol Rodrigues constrói um drama que parte da intimidade de uma casa para investigar estruturas profundas da sociedade brasileira na pele de mulheres, a maioria delas negras. 

Sandra (Mawusi Tulani) está em busca de lembranças de sua mãe. Por isso ela procura Mariana (Ana Flávia Cavalcanti), sua prima, que vive no lugar em que sua mãe atuou como trabalhadora doméstica. 

O reencontro entre elas é permeado de conflitos necessários para ressignificar as relações. Por ser a herdeira de uma mulher que viveu o trabalho doméstico, Sandra traz em si uma força motriz com maior sensibilidade. 


A atuação das duas funciona como o eixo de uma narrativa que examina as diferentes experiências de mulheres negras situadas em posições sociais distintas, revelando como raça, classe e pertencimento produzem trajetórias marcadas por privilégios e vulnerabilidades desiguais. 

Embora ambas compartilhem origens, raça e afetos, suas experiências são atravessadas por formas distintas de reconhecimento social. Mariana, filha da patroa, alcança uma condição de relativa mobilidade e circula por espaços onde sua identidade racial é frequentemente relativizada ou invisibilizada por olhares brancos. 

Sandra, mulher negra retinta, ocupa uma posição de destaque profissional, mas continua submetida às formas mais explícitas do racismo estrutural e do machismo corporativo. O contraste entre as duas personagens permite ao filme abordar questões como colorismo, trabalho doméstico, mobilidade social e desigualdade racial sem recorrer a soluções simplificadoras.


A casa onde a narrativa se desenvolve torna-se uma metáfora do próprio Brasil. Seus cômodos guardam memórias, silêncios e hierarquias que atravessam gerações. 

As paredes não delimitam apenas espaços físicos, mas também fronteiras simbólicas entre quem serve e quem é servido, entre quem herda privilégios e quem precisa constantemente justificar sua presença. 

A ancestralidade ocupa papel central na narrativa. Os fantasmas que percorrem a casa não são apenas recursos sobrenaturais; representam memórias coletivas que insistem em permanecer. 

O passado não aparece como lembrança distante, mas como uma presença concreta que interfere no presente e desafia as protagonistas a compreenderem quem são. 


Nesse sentido, a busca pelo eu se confunde com a necessidade de reconhecer as marcas deixadas pela história, pela família e pelas relações raciais que moldam suas identidades.

O roteiro também amplia a discussão ao abordar relações afetivas fora da lógica heteronormativa. A sexualidade de Mariana traz, de modo breve, à reflexão sobre pertencimento, liberdade e construção identitária. O filme traz à tona os questionamentos de uma relação interracial. 

Entre os maiores méritos da obra está a atuação das protagonistas. Ana Flávia Cavalcanti entrega uma Mariana complexa, marcada por contradições e zonas de desconforto. 


Sua interpretação evita respostas fáceis e evidencia uma personagem constantemente tensionada entre consciência social e reprodução de privilégios. Já Mawusi Tulani oferece à Sandra uma presença de grande força dramática. 

Sua composição transita entre firmeza e vulnerabilidade, conferindo humanidade a uma mulher que precisa enfrentar diariamente estruturas de discriminação sem perder a capacidade de afeto. 

O encontro entre as duas atrizes constitui o coração emocional do filme de sustentar os debates sociais sem reduzir as personagens a meros instrumentos discursivos.


A trilha sonora, composta por excelentes canções brasileiras de grande sensibilidade, amplia essa dimensão afetiva. A fotografia é maravilhosa e nos leva à memória de um ambiente ancestral e afetivo. "Criadas" propõe uma reflexão ampla sobre o Brasil contemporâneo. 

Embora seja um pouco longo, trata-se de um filme que, mesmo quando sacrifica a sutileza em favor da pedagogia, demonstra coragem ao enfrentar temas historicamente silenciados e ao colocar duas mulheres negras no centro de uma narrativa sobre memória, identidade e transformação.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Carol Rodrigues
Produção: Gato do Parque Cinematográfica, em coprodução com Telecine, Canal Brasil, NayMovie, Cinefilm, Volta Filmes e Netas de Esméria
Distribuição: Vitrine Filmes
Exibição: Cine Belas Artes BH
Duração: 1h45
Classificação: 14 anos
País: Brasil
Gênero: drama

10 junho 2026

O Som do Perigo: quando o jazz encontra o crime em "O Afinador"

Leo Woodall é um talentoso afinador de pianos que descobre outra utilização mais rentável para suas habilidades (Fotos: Paris Filmes)
 
 

Maristela Bretas

 
"O Afinador" ("Tuner") é um filme envolvente sobre um jovem que, devido a uma grave deficiência auditiva, vê o sonho de seguir carreira como pianista ser interrompido. Sem abandonar completamente a música, ele transforma seu talento em uma nova profissão: a de afinador de pianos. O longa estreia nesta quinta-feira nas salas Cineart Ponteio e Del Rey.

Interpretado por Leo Woodall, Niki White é um protagonista carismático e complexo. Mas quem realmente domina as cenas sempre que aparece é Dustin Hoffman, no papel de Harry Horowitz, um renomado ex-pianista e mentor do jovem. 


A química entre os dois funciona perfeitamente. Hoffman traz um humor ácido e afiado ao personagem, enquanto Woodall entrega uma atuação sensível, especialmente nos momentos em que a dor e o desconforto causados pelos sons intensos evidenciam a condição auditiva de Niki.

O trabalho sonoro é um dos grandes trunfos do longa. O diretor utiliza os sons — e até a ausência deles — para ampliar a tensão, intensificando cenas de suspense e ação que mantêm o público constantemente atento.


A rotina da dupla consiste em afinar pianos para clientes ricos e influentes, até que uma situação inesperada leva Niki a descobrir uma habilidade bastante incomum: sua audição diferenciada o torna capaz de ouvir os mecanismos internos de cofres e ajudar a abri-los. 

O talento chama a atenção de uma quadrilha especializada em invadir mansões de luxo, liderada por Uri (Lior Raz), que rapidamente o recruta para o grupo.


A trama lembra, em alguns aspectos, "Em Ritmo de Fuga" (2017), de Edgar Wright. Assim como o personagem de Ansel Elgort naquele filme, Niki também convive com limitações auditivas, mas transforma essa condição em uma habilidade excepcional dentro de um universo criminal.

Em paralelo, Niki conhece Ruthie (Havana Rose Liu), uma estudante de composição musical que o faz descobrir o amor. Mas sua nova vida dupla acabará colocando em risco não apenas seu futuro, mas também todas as pessoas que ama.


Dirigido por Daniel Roher, que assina o roteiro ao lado de Robert Ramsey, "O Afinador" mistura suspense, romance e drama em uma narrativa eficiente, ainda que siga caminhos já conhecidos. O resultado é um entretenimento bem construído, impulsionado por uma excelente trilha sonora que certamente agradará aos amantes da música.

E os fãs de jazz têm um motivo extra para prestar atenção: o lendário pianista e tecladista Herbie Hancock faz uma rápida, mas especial, participação no filme. Também fazem parte do elenco, Tovah Feldshuh (esposa de Harry) e Jean Reno em uma aparição importante.

"O Afinador" passou por importantes festivais internacionais entre 2025 e 2026, incluindo Sundance, TIFF Toronto International Film Festival, BFI London Film Festival e Telluride Film Festival, consolidando sua trajetória antes de chegar ao público.


Ficha técnica:
Direção: Daniel Roher
Roteiro: Daniel Roher e Robert Ramsey
Produção: Black Bear
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: salas Cineart Ponteio e Del Rey
Duração: 1h49
Classificação: 16 anos
País: Canadá
Gêneros: romance, suspense, drama, ação

27 maio 2026

Em "Natal Amargo", Almodóvar transita entre dores, angústias e reflexões

Longa se desenrola mesclando ótimas atuações, uma trilha sonora marcante e ajustada a cada situação
e a paleta colorida de praxe (Fotos: Warner Bros. Pictures)
 
 

Patrícia Cassese

 
Já há algum tempo Pedro Almodóvar vem adotando um tom mais sombrio em suas narrativas fílmicas, o que não se restringe apenas ao roteiro, mas à própria paleta de cores, uma das características fortes do cineasta espanhol, hoje com 76 anos. 

Falado em inglês, “O Quarto ao Lado” (2024), até então mais recente longa do diretor a entrar em circuito, você se lembra, centrava foco em uma mulher – Michelle (Tilda Swinton) - que, acometida por um câncer em estágio terminal, convocava uma amiga, Ingrid (Juliane Moore), para estar próxima quando cometeria eutanásia. 

Em “Natal Amargo” ("Amarga Navidad"), filme que estreia nesta quinta-feira (28) no Cineart Ponteio, Cine Belas BH (Cine Belas Artes), Centro Cultural Unimed-BH Minas e Cinemark Diamond Mall, a finitude também se faz presente, mas por outro prisma: o de uma mãe que perde um filho, no que é considerada, em justa medida, a pior dor. 


Na verdade, o intrincado tema nem é propriamente a espinha dorsal do filme (ah, sim, há, ainda, a personagem que, por conta do trabalho, não conseguiu se despedir da mãe), mas um ponto que aparece como liga em um roteiro que se vale da metalinguagem. Ou seja, há um filme dentro do filme.

Logo de início, o espectador é apresentado a Elsa (interpretada pela belíssima atriz Bárbara Lennie, que, particularmente na caracterização dessa personagem, fisicamente lembra demais Christiane Torloni em início de carreira). Atormentada por uma forte enxaqueca, que ela relaciona a dias de tempestade, Elsa se dirige a um hospital, acompanhada do namorado, Bonifacio (Patrick Criado), dublê de bombeiro e strip-teaser. 

Ocorre que Elsa é, na verdade, uma personagem que desponta na mente em ebulição de Raúl (o argentino Leonardo Sbaraglia), cineasta que, no momento, se debruça obsessivamente sobre um novo roteiro. Elsa é um alter ego de Raúl que, na verdade, parece ser um alter ego de Almodóvar. Obviamente, não se trata de uma representação realística, a ser interpretada literalmente, biograficamente, mas sim, de modo metafórico. 


Na própria ida da personagem ao hospital, um pouco da trajetória de Elsa é dissecada por meio da enfermeira que a acolhe, e que, em dado momento, percebe que já viu aquele rosto antes, assim como de seu acompanhante, porém em situações distintas.

Neste momento, há uma cena particularmente engraçada, que é quando a moça, já imbuída da informação de que a paciente é uma cineasta, pergunta a Elsa o que é ser “uma diretora de culto” (cult), se significa algo do tipo “seita”. Muito provavelmente, é Almodóvar a brincar com sua própria fama de cult. 

Na esfera da ficção dentro de uma ficção, Elsa é assim considerada no ecossistema da sétima arte de seu país: uma diretora cult. No entanto, para sobreviver, precisa se enveredar pela publicidade, território no qual acabou conhecendo Bonifacio, ao dirigir um filmete sobre underwear masculino.


Vale relembrar, aqui, que Elsa é uma personagem da mente de outro personagem do filme, Raúl, e que espelha a trajetória de seu criador. Pausa também para situar que o próprio Almodóvar já adentrou o universo publicitário, embora, vamos frisar, longe de ter se dobrado a ditames e, assim, abandonado sua matriz inventiva, sua mente em constante ebulição. 

No curso do filme, em suas distintas esferas, Elsa e Raúl se enveredam pelo caminho da autoficção, atualmente bastante em voga na seara literária, por meio de nomes como os dos franceses Édouard Louis e Annie Ernaux. 

Pedro Almodóvar e parte do elenco

E é neste ponto que ergue-se uma questão crucial à narrativa: até que ponto um roteirista (ou dramaturgo, ou escritor) pode, e deve, usar a realidade como calço para a sua obra, ponderando-se que essa transposição inequivocamente leva, a rebote, a inclusão de pessoas do entorno que, ao travarem contato com o resultado, certamente vão se reconhecer ali, como fonte de inspiração? E que, com isso, podem se sentir particularmente atacadas, com um sentimento de invasão de privacidade e de exposição desnecessário, às vezes até mesmo aviltante e dolorida? 

Uma mãe que perdeu um filho pode ser fonte de inspiração direta para um personagem sem ter sido consultada previamente? O impacto de saber que isso aconteceu não agravaria a dimensão de seu luto, sua dor, sua gana por privacidade?


Em suma, qual o limite ético da autoficção? Até onde ir? Vale a pena passar por cima dos sentimentos de outros para se sobressair e gerar impacto sobre si? E é em torno dessa questão que “Natal Amargo” se desenrola mesclando ótimas atuações, uma trilha sonora marcante e ajustada a cada situação e, claro, a paleta colorida de praxe, porém, em tons mais “fechados”, escuros, como tem sido uma característica dos mais recentes filmes de Almodóvar. Não há nada estourado, gritante, nem em excesso. 


Os ambientes, não obstante abusem do contraste de cores, são extremamente elegantes, sofisticados, cool... um deleite para os olhos, sem resquícios do kitsch (nada contra). Aqui, a arte também se replica neste escaninho, assim como nos figurinos.

Um detalhe digno de nota é que há uma parte do filme que se passa em Lanzarote (ou Lançarote), lugar que o escritor português José Saramago escolheu como morada. Lanzarote pertence às Ilhas Canárias, próximas da costa da África Ocidental, e as paisagens mostradas no filme de Almodóvar são impactantes – em particular, quando Elsa e a personagem Natalia (Milena Smit), que perdeu o filho, caminham em meio às crateras de terra negra escavadas para proteger as videiras cultivadas na ilha – absolutamente deslumbrante. 


Lanzarote, aliás, já havia aparecido em outro filme de Almodóvar, “Abraços Partidos”, de 2009. O local é destino contumaz do diretor espanhol, que já o definiu como “repleto de segredos e mistérios”. 

E já que citamos Milena Smit, lembremos que ela é uma das personagens-chave em outro filme recente de Almodóvar, “Mães Paralelas” (2021). O argentino Leonardo Sbaraglia, por sua vez, é bastante conhecido do público cinéfilo brasileiro, já tendo atuado em filmes de sucesso, como “Relatos Selvagens” (2014), e mesmo dividido o set com Carolina Dieckmann no suspense dramático “O Silêncio do Céu”(2016).


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Pedro Almodóvar
Produção: El Deseo, RTVE, Instituto de Crédito Oficial (ICO), Institute of Cinematography and Audiovisual Arts
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: Cineart Ponteio, Cine Belas BH, Centro Cultural Unimed-BH Minas e Cinemark Diamond Mall
Duração: 1h51
Classificação: 16 anos
País: Espanha
Gêneros: drama, comédia