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27 maio 2026

Em "Natal Amargo", Almodóvar transita entre dores, angústias e reflexões

Longa se desenrola mesclando ótimas atuações, uma trilha sonora marcante e ajustada a cada situação
e a paleta colorida de praxe (Fotos: Warner Bros. Pictures)
 
 

Patrícia Cassese

 
Já há algum tempo Pedro Almodóvar vem adotando um tom mais sombrio em suas narrativas fílmicas, o que não se restringe apenas ao roteiro, mas à própria paleta de cores, uma das características fortes do cineasta espanhol, hoje com 76 anos. 

Falado em inglês, “O Quarto ao Lado” (2024), até então mais recente longa do diretor a entrar em circuito, você se lembra, centrava foco em uma mulher – Michelle (Tilda Swinton) - que, acometida por um câncer em estágio terminal, convocava uma amiga, Ingrid (Juliane Moore), para estar próxima quando cometeria eutanásia. 

Em “Natal Amargo” ("Amarga Navidad"), filme que estreia nesta quinta-feira (28) no Cineart Ponteio, Cine Belas BH (Cine Belas Artes) e Cinemark Diamond Mall, a finitude também se faz presente, mas por outro prisma: o de uma mãe que perde um filho, no que é considerada, em justa medida, a pior dor. 


Na verdade, o intrincado tema nem é propriamente a espinha dorsal do filme (ah, sim, há, ainda, a personagem que, por conta do trabalho, não conseguiu se despedir da mãe), mas um ponto que aparece como liga em um roteiro que se vale da metalinguagem. Ou seja, há um filme dentro do filme.

Logo de início, o espectador é apresentado a Elsa (interpretada pela belíssima atriz Bárbara Lennie, que, particularmente na caracterização dessa personagem, fisicamente lembra demais Christiane Torloni em início de carreira). Atormentada por uma forte enxaqueca, que ela relaciona a dias de tempestade, Elsa se dirige a um hospital, acompanhada do namorado, Bonifacio (Patrick Criado), dublê de bombeiro e strip-teaser. 

Ocorre que Elsa é, na verdade, uma personagem que desponta na mente em ebulição de Raúl (o argentino Leonardo Sbaraglia), cineasta que, no momento, se debruça obsessivamente sobre um novo roteiro. Elsa é um alter ego de Raúl que, na verdade, parece ser um alter ego de Almodóvar. Obviamente, não se trata de uma representação realística, a ser interpretada literalmente, biograficamente, mas sim, de modo metafórico. 


Na própria ida da personagem ao hospital, um pouco da trajetória de Elsa é dissecada por meio da enfermeira que a acolhe, e que, em dado momento, percebe que já viu aquele rosto antes, assim como de seu acompanhante, porém em situações distintas.

Neste momento, há uma cena particularmente engraçada, que é quando a moça, já imbuída da informação de que a paciente é uma cineasta, pergunta a Elsa o que é ser “uma diretora de culto” (cult), se significa algo do tipo “seita”. Muito provavelmente, é Almodóvar a brincar com sua própria fama de cult. 

Na esfera da ficção dentro de uma ficção, Elsa é assim considerada no ecossistema da sétima arte de seu país: uma diretora cult. No entanto, para sobreviver, precisa se enveredar pela publicidade, território no qual acabou conhecendo Bonifacio, ao dirigir um filmete sobre underwear masculino.


Vale relembrar, aqui, que Elsa é uma personagem da mente de outro personagem do filme, Raúl, e que espelha a trajetória de seu criador. Pausa também para situar que o próprio Almodóvar já adentrou o universo publicitário, embora, vamos frisar, longe de ter se dobrado a ditames e, assim, abandonado sua matriz inventiva, sua mente em constante ebulição. 

No curso do filme, em suas distintas esferas, Elsa e Raúl se enveredam pelo caminho da autoficção, atualmente bastante em voga na seara literária, por meio de nomes como os dos franceses Édouard Louis e Annie Ernaux. 

Pedro Almodóvar e parte do elenco

E é neste ponto que ergue-se uma questão crucial à narrativa: até que ponto um roteirista (ou dramaturgo, ou escritor) pode, e deve, usar a realidade como calço para a sua obra, ponderando-se que essa transposição inequivocamente leva, a rebote, a inclusão de pessoas do entorno que, ao travarem contato com o resultado, certamente vão se reconhecer ali, como fonte de inspiração? E que, com isso, podem se sentir particularmente atacadas, com um sentimento de invasão de privacidade e de exposição desnecessário, às vezes até mesmo aviltante e dolorida? 

Uma mãe que perdeu um filho pode ser fonte de inspiração direta para um personagem sem ter sido consultada previamente? O impacto de saber que isso aconteceu não agravaria a dimensão de seu luto, sua dor, sua gana por privacidade?


Em suma, qual o limite ético da autoficção? Até onde ir? Vale a pena passar por cima dos sentimentos de outros para se sobressair e gerar impacto sobre si? E é em torno dessa questão que “Natal Amargo” se desenrola mesclando ótimas atuações, uma trilha sonora marcante e ajustada a cada situação e, claro, a paleta colorida de praxe, porém, em tons mais “fechados”, escuros, como tem sido uma característica dos mais recentes filmes de Almodóvar. Não há nada estourado, gritante, nem em excesso. 


Os ambientes, não obstante abusem do contraste de cores, são extremamente elegantes, sofisticados, cool... um deleite para os olhos, sem resquícios do kitsch (nada contra). Aqui, a arte também se replica neste escaninho, assim como nos figurinos.

Um detalhe digno de nota é que há uma parte do filme que se passa em Lanzarote (ou Lançarote), lugar que o escritor português José Saramago escolheu como morada. Lanzarote pertence às Ilhas Canárias, próximas da costa da África Ocidental, e as paisagens mostradas no filme de Almodóvar são impactantes – em particular, quando Elsa e a personagem Natalia (Milena Smit), que perdeu o filho, caminham em meio às crateras de terra negra escavadas para proteger as videiras cultivadas na ilha – absolutamente deslumbrante. 


Lanzarote, aliás, já havia aparecido em outro filme de Almodóvar, “Abraços Partidos”, de 2009. O local é destino contumaz do diretor espanhol, que já o definiu como “repleto de segredos e mistérios”. 

E já que citamos Milena Smit, lembremos que ela é uma das personagens-chave em outro filme recente de Almodóvar, “Mães Paralelas” (2021). O argentino Leonardo Sbaraglia, por sua vez, é bastante conhecido do público cinéfilo brasileiro, já tendo atuado em filmes de sucesso, como “Relatos Selvagens” (2014), e mesmo dividido o set com Carolina Dieckmann no suspense dramático “O Silêncio do Céu”(2016).


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Pedro Almodóvar
Produção: El Deseo, RTVE, Instituto de Crédito Oficial (ICO), Institute of Cinematography and Audiovisual Arts
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: Cineart Ponteio e Cine Belas BH
Duração: 1h51
Classificação: 16 anos
País: Espanha
Gêneros: drama, comédia

26 maio 2026

“Fora de Controle”, lançamento francês com Omar Sy ecoa "Atração Fatal"

Drama com pinceladas de suspense aborda traição conjugal, possessividade e desejo de vingança
(Fotos: California Filmes) 
 
 

Eduardo Jr.

 
O conhecido rosto do ator francês Omar Sy volta às telonas no próximo dia 28 de maio. “Fora de Controle” ("Dis-moi juste que tu m’aimes"), dirigido por Anne Le Ny, chega aos cinemas brasileiros com trama sobre traição e possessividade. A distribuição é da California Filmes.   

Na obra, Julien (Omar Sy) está casado há 15 anos. Mas sua esposa Marie (Élodie Bouchez) sente a relação ameaçada com a volta da ex de Julien, Anaëlle, papel de Vanessa Paradis - a cantora de “Joe Le Taxi”, que conhecemos como “Vou de Taxi”, na voz de Angélica (eu não podia deixar vocês sem essa informação).  


A insegurança, a ira e o desejo de vingança por desconfiar que o marido se encontrou com a ex, colocam Marie num affair com seu próprio chefe, Thomas (José Garcia). 

Mas o carente e possessivo Thomas começa a perseguir Marie. É aí que o título se justifica. Manipulação, ameaças e suspense psicológico passam, então, a marcar presença no filme.    

A semelhança com “Atração Fatal” (1987) se dá pela obsessão de Thomas com Marie. Um toque de modernidade ao inverter os gêneros de perseguidor e perseguido. 


Mas claro, guardadas as proporções e a época em que o primeiro filme foi realizado, “Fora de Controle” fica abaixo na temperatura, afinal, é cinema francês, tem seus momentos de resfriamento. E cá pra nós, fica difícil abordar o tema e superar o que a série “Bebê Rena” (2024) estampou na tela. 

No frigir dos ovos, esta é uma obra correta. Fotografia que não compromete, inserção de trilha cuidadosa e atuações na medida. Não estaríamos errados em afirmar que é mais drama do que suspense, com boas reviravoltas. Carece de mais emoção, mas pode agradar ao espectador.    


Ficha técnica:
Direção e Roteiro: Anne Le Ny
Distribuição: Califórnia Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h51
Classificação: 18 anos
Países: França e Bélgica
Gêneros: suspense, drama

19 maio 2026

Primeiros dias de Cannes: "Fatherland", "Ceniza en La Boca" e outros destaques do festival

Entrada do Festival de Cinema de Cannes (Crédito: Carolina Cassese)
 
 

Carolina Cassese
Correspondente em Cannes

 
A 79ª edição do Festival de Cannes, que se encerra dia 23 de maio, tem movimentado a Croisette com grandes estreias internacionais. Em 12 de maio, a abertura do evento contou com a estreia de "La Vénus Électrique", comédia dramática assinada por Pierre Salvadori e ambientada na Paris dos anos 1920. A cerimônia também ficou marcada pela homenagem a Peter Jackson, que recebeu a Palma de Ouro honorária por sua icônica trajetória. 

A edição de 2026 presta homenagem a "Thelma & Louise" (1991), clássico de Ridley Scott que retrata o percurso de duas amigas pelos Estados Unidos. O longa inspira a identidade visual oficial do festival neste ano, 35 anos após sua estreia em Cannes. Assim, a presença feminina – e a ideia de resistência – já está marcada na imagem principal do evento.

Ao fim da primeira semana, alguns filmes começam a se destacar entre crítica e público, embora muitos outros longas ainda tenham suas estreias previstas para os próximos dias.

Cartaz de “Thelma e Louise (Crédito: Carolina Cassese)

Entre as produções que mais chamaram atenção neste início de festival destacamos "Fatherland", de Paweł Pawlikowski; "L’Abandon", de Vincent Garenq; "Ceniza en la boca", de Diego Luna; e "Mémoire de Fille", de Judith Godrèche. 

Outras estreias que repercutiram bastante foram "Histoires Parallèles", novo filme de Asghar Farhadi apresentado em competição; o horror "Teenage Sex and Death at Camp Miasma", de Jane Schoenbrun; e "Club Kid", primeiro filme de Jordan Firstman na direção. 

A seguir, apresentamos destaques de algumas das obras que conseguimos assistir e acompanhar a conferência de imprensa:


"Ceniza en la boca" — Diego Luna
Adaptado a partir do romance de Brenda Navarro ("Cinzas na Boca", publicado no Brasil pela editora Dublinense), o filme acompanha Lucila (Anna Díaz) e seu irmão Diego (Sergio Bautista), jovens mexicanos que transitam entre a Cidade do México, Madri e Barcelona após anos de separação da mãe Isabel (Adriana Paz). 

A obra explora questões de pertencimento e relações familiares atravessadas por diversos empecilhos. A première foi marcada por um clima bastante emocionante e contou com a presença de Gael García Bernal, um dos produtores do filme, além de Alfonso Cuarón, outro grande nome do cinema mexicano. 

Diego Luna abraça Alfonso Cuarón em Cannes
(Crédito: Carolina Cassese)

O filme destaca a repetição como uma forma de elaboração do luto; determinadas imagens e até mesmo falas são frequentemente retomadas pela personagem principal, reforçando as oscilações emocionais características de processos complexos. 

Nesse sentido, ressaltamos que o próprio título da obra atribui uma dimensão menos “racional” aos acontecimentos, aproximando a narrativa de experiências subjetivas e espirituais. 

Destaca-se ainda a importância de ver cineastas latino-americanos adaptando obras de escritoras da região, movimento que amplia a circulação internacional dessas narrativas. 


Ficha técnica:
Direção: Diego Luna
Duração: 1h42
País: México
Gênero: drama

"Fatherland" — Paweł Pawlikowski
O novo filme de Pawlikowski acompanha Thomas Mann e sua filha Erika em uma viagem pela Alemanha do pós-guerra, confrontando os efeitos persistentes do nazismo e das divisões ideológicas da Guerra Fria. 

Durante a conferência de imprensa do longa, o diretor, conhecido por "Ida" e "Cold War", comentou que chegou a considerar filmar a obra em cores, mas acabou optando pela fotografia em preto e branco por acreditar que essa estética estaria mais próxima da verdade de seu projeto. 

Saída da coletiva de imprensa de “Fatherland”
(Crédito: Carolina Cassese)

Na mesma coletiva, Sandra Hüller, indicada ao Oscar de Melhor Atriz por "Anatomia de uma Queda" (2024), refletiu sobre o papel no novo filme e afirmou carregar uma culpa histórica ligada à Segunda Guerra Mundial. 

Nesse sentido, a atriz reforçou a importância de manter o sentimento presente, inclusive como uma forma de responsabilidade social. Ressaltamos que a recepção crítica de Fatherland tem sido bastante positiva: o The Times, por exemplo, destacou a densidade emocional e intelectual da obra; por sua vez, o Daily Telegraph chamou atenção para a direção precisa de Pawlikowski e a fotografia de Łukasz Żal.


Ficha técnica:
Direção: Pawel Pawlikowski
Duração: 1h22
Países: Alemanha, Polônia, Itália, França, Reino Unido
Gênero: drama

"L’Abandon" — Vincent Garenq
Exibido fora de competição, o filme é inspirado nos últimos dias do professor Samuel Paty (Antoine Reinartz) antes de seu assassinato em 2020, em um contexto marcado pelo crescimento de tensões religiosas e a desinformação presente nas redes sociais. A obra acompanha o isolamento progressivo do professor diante de tensões institucionais e falhas que antecedem a tragédia.

Nesse processo, o filme se destaca pela forma como trabalha o olhar das crianças diante de assuntos extremamente sérios, criando um contraste forte entre a espontaneidade infantil e planos arquitetados de maneira brutal. A história é muito bem construída e consegue prender a atenção justamente por desenvolver essa tensão de forma gradual ao longo da narrativa. 


Embora trate de um caso específico do contexto francês, o filme também dialoga com uma questão muito mais ampla e presente em diferentes partes do mundo: a rapidez com que discursos de ódio se propagam por meio das plataformas digitais. 

É muito possível, por exemplo, estabelecer um paralelo entre o filme e a série "Adolescência" (2025), da Netflix, que também aborda como as relações sociais têm sido profundamente afetadas por ambientes digitais caracterizados pela instantaneidade e desinformação.


Ficha técnica:
Direção: Vincent Garenq
Duração: 1h40
País: França
Gênero: drama

"Mémoire de Fille" — Judith Godrèche ("Un Certain Regard")
Inspirado no romance autobiográfico de Annie Ernaux, vencedora do Nobel de Literatura de 2022, o filme revisita lembranças da juventude feminina a partir de uma narrativa não linear, explorando a reconstrução subjetiva de um verão que a francesa passou em um acampamento. 

Apesar do desafio de adaptar uma obra marcada pela introspecção, o filme consegue transmitir reflexões muito presentes na escrita de Ernaux, em especial no que diz respeito ao diálogo entre experiência pessoal e coletiva. 

A incorporação de marcos históricos importantes, como a repercussão de "O Segundo Sexo", obra mais célebre de Simone de Beauvoir, também reforça essa dimensão mais ampla da narrativa. 


Além disso, chama atenção a sensibilidade com que o filme aborda experiências corporais femininas, incluindo alterações no período menstrual e o impacto dos transtornos alimentares na vida de uma adolescente. 

Destaca-se ainda o fato de que o olhar da protagonista para outras mulheres ocupa um papel importante no filme: inicialmente marcado por insegurança e sensação de ameaça, seu ponto de vista passa gradualmente a buscar referências de inspiração. 

Esse é um exemplo de como o cinema consegue acrescentar diferentes camadas às narrativas, já que, nessas cenas, nada precisa ser verbalizado pela personagem para que sua transformação se torne perceptível.


Ficha técnica:
Direção:
Judith Godrèche
Duração: 1h17
País: França
Gênero: drama

No que diz respeito à programação completa deste ano, vale ressaltar que não há um longa dirigido por um cineasta brasileiro na seleção oficial do festival. Ainda assim, o país marca presença em 2026 com uma das maiores delegações da década, reunindo profissionais do audiovisual, produtores, distribuidores e representantes da indústria cinematográfica em diferentes espaços do evento. 

As vitórias de "O Agente Secreto" no ano passado – Melhor Direção (Kleber Mendonça Filho) e Melhor Ator (Wagner Moura) – também foram importantes para consolidar ainda mais a presença do cinema brasileiro no cenário internacional. 

Agora, resta acompanhar os próximos lançamentos de 2026 e torcer para que histórias de contextos diversos sigam encontrando espaço no circuito cinematográfico.


Ruas de Cannes durante o Festival de Cinema (Crédito: Carolina Cassese)

17 maio 2026

“Surda”: o filme que obriga o espectador a ouvir o silêncio da exclusão

Drama espanhol, escrito e dirigido por Eva Libertad, tem a primeira atriz surda, Miriam Garlo, a vencer
um prêmio Goya (Fotos: Distinto Films, Nexus CreaFilms, A Contracorriente)
 
 

Silvana Monteiro

 
“Surda” ("Sorda"), dirigido por Eva Libertad, é uma obra que retrata a vida de uma mulher com deficiência auditiva que está à espera de uma menina. Prestes a se tornar mãe, as dimensões desse acontecimento tornam-se ainda mais profundas e conectam relações afetivas em torno da chegada e do futuro da criança. 

O longa está em exibição no Una Cine Belas Artes, com as sessões contando com legenda descritiva diretamente na tela, além de recursos de audiodescrição e Libras disponíveis pelo aplicativo Conecta. 

O filme traça o centro da narrativa para aquilo que cerca Angela (Miriam Garlo): os constrangimentos cotidianos, os ruídos sociais produzidos pelo capacitismo e a exaustão de existir em espaços que ainda operam sob a lógica da exclusão. 


A maternidade surge atravessada por medo, desejo de autonomia, afeto e insegurança, compondo uma experiência profundamente humana e distante das representações higienizadas que o cinema costuma oferecer. Nesse ponto, é lindo de ver como a obra explora a sororidade e a rede de apoio como ferramentas importantes para uma vivência mais inclusiva.

A atuação de Miriam Garlo sustenta essa dimensão com impressionante precisão. Sua Angela nunca é reduzida à fragilidade nem convertida em um estático símbolo heróico.  Para imergir o telespectador na condição da protagonista, de forma empática, o filme mergulha na intensidade de sua comunicação por meio da língua de sinais. 


Ao longo da trama é possível sentir desconforto nos pequenos gestos e uma contenção emocional que torna cada cena mais densa. Há sempre uma tentativa de trazer a compreensão de que vulnerabilidade não elimina potência, e essa percepção atravessa toda a construção da personagem.

Tecnicamente, “Surda” trabalha o som de maneira inteligente e sensorial. O desenho sonoro alterna presenças, abafamentos e vazios para aproximar o espectador da percepção de Angela sem recorrer a truques manipulativos. 


A fotografia acompanha essa proposta com enquadramentos íntimos, luz naturalista e uma câmera que frequentemente permanece próxima do rosto da protagonista, captando tensões mínimas e silêncios que dizem mais do que qualquer diálogo. A direção evita excessos dramáticos e aposta em uma mise-en-scène sóbria, permitindo que os conflitos emerjam do cotidiano.

Outro mérito do longa está na forma como aborda as interseccionalidades. A narrativa articula maternidade, trabalho, vida afetiva com Hector (Álvaro Cervantes), amizades e deficiência, sem transformar nenhum desses elementos em dramalhão. A relação com o marido evidencia como o amor não resolve sozinho as barreiras de comunicação e acessibilidade.  


“Surda” provoca ao expor o quanto a sociedade ainda condiciona pertencimento à adaptação forçada de quem é diferente. Ao abandonar metáforas simplistas de superação, Eva Libertad entrega uma obra madura, sensível e tecnicamente consistente, capaz de transformar silêncio em linguagens cinematográfica e social.

Premiações

O longa foi vencedor de três prêmios Goya, considerado o Oscar da Espanha, com Miriam Garlo fazendo história como a primeira mulher surda a vencer, pela categoria de Melhor Atriz Revelação. Eva Libertad também foi premiada, como Melhor Diretora Estreante, e Álvaro Cervantes venceu Melhor Ator Coadjuvante. 

Também foi premiado em Seattle, Málaga e Guadalajara. Além dos prêmios Platino de Melhor Filme de Estreia e Melhor Ator Coadjuvante.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Eva Libertad
Produção: Distinto Films, Nexus CreaFilms e A Contracorriente Films
Distribuição: Retrato Filmes
Exibição: Una Cine Belas Artes - sala 1 - 18h30
Duração: 1h38
Classificação: 12 anos
País: Espanha
Gênero: drama

14 maio 2026

“O Rei da Internet”: filme revive a era da conexão discada e a ascensão do hacker que parou o Brasil

João Guilherme Ávila entrega ótima atuação sobre a vida do jovem que aplicou golpes financeiros que
lesaram milhares de pessoas nos anos 2000 (Fotos: Clube Filmes)
 
 

Maristela Bretas

 
Anos 2000. Internet discada, conexão lenta, barulho do modem e jovens esperando dar meia-noite para finalmente entrar na rede sem ocupar a linha telefônica da casa. Era um período em que pouco se falava sobre crimes digitais, roubo de dados ou invasões virtuais. 

Foi justamente nesse cenário que surgiu Daniel Nascimento (João Guilherme Ávila, ator de séries de TV e dos filmes "Fala Sério, Mãe!" - 2017 e "Tudo por Um Popstar" - 2018), adolescente que descobriu um talento incomum para driblar sistemas e acabou se tornando um dos hackers mais famosos do país. 

Essa é a trama de “O Rei da Internet”, longa inspirado em fatos reais que estreou nesta quinta-feira (14) nos cinemas, com direção de Fabrício Bittar e distribuição da Manequim Filmes.


Daniel é apresentado como um jovem de classe média que sofre bullying e agressões constantes na escola. A vida dele começa a mudar quando ganha dos pais um computador equipado com o clássico Windows 98 e entrada para disquete, com conexão discada. 

Fascinado pela máquina e pela recém-popularizada internet doméstica, ele mergulha no universo da informática de forma autodidata.

Mesmo enfrentando as limitações técnicas da época, Daniel aprende rapidamente. Estuda por revistas especializadas, faz cursos de computação — embora demonstre saber mais que os próprios colegas — e logo percebe que consegue invadir sistemas nacionais e internacionais com facilidade impressionante.


O que começa como curiosidade adolescente logo se transforma em uma perigosa escalada criminosa. Primeiro vieram invasões a sites de revistas e empresas. Depois, ataques maiores, incluindo sistemas estratégicos e, posteriormente, o setor bancário. 

Daniel passa então a desviar dinheiro de milhares de contas, chamando a atenção de uma poderosa organização criminosa liderada por Fábio, personagem de Marcelo Serrado, que chegou a movimentar 62 milhões de reais à época.

Com dinheiro fácil entrando sem parar, o jovem abandona a casa dos pais e mergulha em uma rotina de luxo, ostentação e excessos. Antes mesmo dos 17 anos, já era considerado um dos maiores hackers do Brasil — até virar alvo de uma das primeiras grandes operações da Polícia Federal contra crimes virtuais.


Um dos maiores acertos do filme está justamente no mergulho nostálgico nos anos 2000. “O Rei da Internet” recria com eficiência o nascimento da cultura digital brasileira: os computadores caríssimos para a maior parte da população, as gambiarras para melhorar a conexão, as revistas de informática, os chats, os disquetes e, claro, o inesquecível som da internet discada conectando. Para quem viveu aquela época, o longa desperta memória afetiva imediata.

Narrada em primeira pessoa por Daniel, a história mantém ritmo ágil e envolvente até sua prisão. Mesmo sendo responsável por crimes que prejudicaram milhares de pessoas e empresas, o protagonista consegue despertar certa empatia do público. 

Muito graças à atuação segura de João Guilherme, mesmo com 24 anos interpretando um garoto de 15/16 anos. O ator entrega um Daniel impulsivo, inconsequente e seduzido pela possibilidade de conquistar tudo aquilo que jamais teve.


O elenco de apoio também funciona bem, com Emílio de Mello e Bia Seidl interpretando os pais de Daniel; Kaik Pereira (o amigo e parceiro Nilson), Adriano Garib (Moretti); Caio Horowicz (o hacker Noturno); Miguel Nader (o segurança Muralha); Enrico Cardoso (Peota); Clarissa Müller (Letícia); Débora Ozório (a namorada de Daniel, Carol); Davi Xiang Li (Augusto) e André Silberg (Mauricio). Participações especiais de Tânia Alves e Eri Johnson.

“O Rei da Internet” reúne ingredientes capazes de prender diferentes públicos: ação, suspense, golpes milionários, violência, bullying, festas extravagantes, drogas, sexo, carros de luxo e dinheiro fácil. Mas, acima de tudo, o filme funciona como retrato de uma geração que descobria a internet ao mesmo tempo em que ainda desconhecia os perigos daquele novo universo digital.


Hacker do Bem

Anos depois, Daniel Nascimento reconstruiu a própria trajetória e passou a atuar como consultor de segurança digital. Em 2015, contou sua história no livro “DNpontocom: A Vida Secreta e Glamourosa de um Ex-hacker”, escrito em parceria com Sandra Rossi. Daniel, que pode ser adquirido na Amazon.

Em entrevistas a TVs e jornais, afirmou que, aos 15 anos, não tinha dimensão real do impacto de seus crimes — e que nunca ficou rico porque gastava tudo em festas, compras e ostentação. Mas que pagou por seus crimes, tornando-se conhecido como um “hacker do bem” com seu trabalho.

“O Rei da Internet”, adaptado do livro, provoca nostalgia e mostra como um adolescente aparentemente comum conseguiu transformar talento, revolta e ambição em uma trajetória meteórica — e perigosa — dentro do submundo digital brasileiro. Confira o longa no cinema e comente aqui o que achou.


Ficha técnica:
Direção: Fabrício Bittar
Roteiro: Fabrício Bittar e Vinícius Perez
Produção: Clube Filmes, coprodução Maquiagem Filmes e Telecine
Distribuição: Manequim Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h15
Classificação: 18 anos
País: Brasil
Gêneros: drama, policial, biografia

09 maio 2026

“Era Uma Vez Minha Mãe”, um filme sobre esse amor desmesurado

Longa dirigido por Ken Scott foi apresentado pela primeira vez no Festival de Cinema Francês no ano
passado  (Fotos: California Filmes)
 
 

Patrícia Cassese

 
Certamente, foi de caso pensado. Em meio ao fluxo de filmes que marcaram presença no Festival de Cinema Francês (antigo Varilux) ano passado, mas que só agora efetivamente entram em cartaz, “Era Uma Vez Minha Mãe” ("Ma mère, Dieu et Sylvie Vartan"), roteiro e direção de Ken Scott, estreia às vésperas do Dia das Mães, com potencial para deixar olhos marejados nas sessões. 

Claro, filmes sentimentais costumam desagradar parte do público, mas mesmo esse pode – e deve – abrir exceção para fruir sem preconceitos uma história baseada em uma história real (publicada em livro). Deixando mais claro, de uma mãe que luta com todas as forças para que o filho caçula, nascido com uma malformação em um dos pés, possa ter direito a uma vida normal – incluindo a capacidade de andar.


A narrativa tem início em 1963, com o nascimento de Roland Perez (interpretado por mais de um ator, sendo, na fase adulta, por Jonathan Cohen). Nos momentos que precedem o parto, o espectador é apresentado a Esther (Leïla Bekhti), mulher de origem marroquina. 

Um exemplo de mãe coragem que, antes de ir para a maternidade, mesmo já com as contrações em curso, deixa tudo arrumado para os filhos mais velhos (são cinco!) e parte sozinha, já que não vê a presença do marido como necessária, em transporte coletivo. 

No bloco cirúrgico, ela já percebe que algo não vai bem, pelo olhar dos profissionais presentes. Logo, é informada que o garoto nasceu com um resquício de pé. Uma “deformidade”, palavra que a mãe refuta veementemente. Especialistas dizem que o menino só conseguiria andar com uma órtose – o que ela também descarta.


Esther passa a procurar todos os médicos possíveis, numa via Crúcis insana. Do mesmo modo, alguns charlatões. Ao mesmo tempo, espera por um milagre a cada nascer do sol, montando inclusive um pequeno altar. Neste ínterim, o menino, já uma criança (vivido pelo tão fofo quanto expressivo Naim Naji), vai se arrastando pelo chão da casa na qual vive a família. 

Como não sai à rua, Roland não frequenta a escola – assim, não demora uma assistente social (Madame Fleury) bater à porta cobrando a alfabetização do caçula, como previsto em lei. Esther vai driblando a oficial, mas a situação vai se tornando insustentável.

É nesse momento do longa que um acontecimento prosaico altera para sempre a vida de Roland e de todos do entorno. Graças à irmã e às amigas dela, fãs da cantora Sylvie Vartan, o menino trava contato com essa que é um grande nome da música francesa. 


E por ela se encanta, a ponto de emular, com uma canetinha, o espaço que a diva tem como marca entre os dentes da frente. As canções de Vartan embalam a vida familiar até que, um belo dia, Esther recebe, do Marrocos, um cartão-postal do irmão, sugerindo um profissional que poderia definitivamente ajudar o filho a andar.

Com a esperança reabastecida, Esther pede mais um prazo a Madame Fleury, mas uma nova surpresa a aguarda. O senhor Verchepoche, que, na verdade, não era um médico - antes, um curandeiro -, faleceu um mês antes de mãe e filho baterem à sua casa, onde, diga-se, são atendidos pela viúva. No entanto uma luz no fim do túnel se acende – e, por meio dela, a música de Sylvie Vartan continua a ecoar.

Para o público mais jovem, vale a pena situar que, nos anos 60, 70 e mesmo 80, a música francesa e a italiana marcavam forte presença nas rádios e nas trilhas de novelas brasileiras. Sylvie Vartan, hoje com 81 anos, é uma das cantoras cujas músicas – particularmente, “Irrésistiblement” fizeram sucesso no Brasil. 


Mas sim, nos dias atuais, a intérprete é mais conhecida pelos que viveram aqueles tempos e pelos amantes/estudiosos do idioma. Provavelmente por conta disso, a distribuição do filme, no Brasil, optou por alterar o título original – “Ma mère, Dieu et Sylvie Vartan” (ou seja, Minha Mãe, Deus e Sylvie Vartan) – por “Era Uma Vez Minha Mãe”. 

No entanto, para o público francês, o nome de Vartan está irrevogavelmente atrelado à história de Roland. Reza a prudência não destrinchar muito a importância dessa influência nesse processo, sob a pena de estragar o prazer do público em acompanhar essa história tão incrível, na qual o destino parece ter selado parceria com a mãe daquele menino que, ao nascer, parecia condenado a viver se arrastando. 


Roland, registre-se, chegou longe. Virou um advogado de renome. E, para tal, o empenho da mãe foi primordial. Na representação de sua história no cinema, impossível não se apaixonar por Esther, interpretada magistralmente pela já citada Leïla Bekhti.

A todo tempo ela repete para o filho a palavra michkpara, que, na tradução apresentada na tela, significa “eu te dou minha vida”. Nada não habitual para uma mãe, mas é surpreendente a ênfase com a qual Esther assume esse mantra. 

Por outro lado, o amor desmedido, desmesurado, também tem seu lado negativo. E, com o passar do tempo, o fato de a vida de mãe e filho ter se amalgamado com tanta intensidade revela o seu ônus.     


No frigir dos ovos, além das boas atuações, e da curiosidade de o filme ter se inspirado em uma história real, outros pontos positivos sustentam a experiência de assisti-lo, caso da paleta cromática que marca os enquadramentos, da reconstituição de época, da trilha sonora (com o predomínio da cantora homenageada, óbvio), a maquiagem (que marca o passar do tempo nos personagens) e o fato de a própria Sylvie Vartan interpretar a si própria (no caso, nas cenas em que aparece mais jovem, com a ajuda da tecnologia).

Registre-se, ainda, a presença de Joséphine Japy, uma graça de atriz, conhecida do público francófono local pelo fofo “Amor à Segunda Vista”. Jonathan Cohen, por seu turno, além de já ter tido vários de seus filmes exibidos por aqui, também participou da série “Negócio de Família”, disponível na Netflix. 

Outra curiosidade é que a música “Irrésistiblement”, de Sylvie Vartan, também foi recuperada recentemente por outro filme, “Inverno em Paris”, também exibido na capital mineira.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Ken Scott
Distribuição: California Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h42
Classificação: 14 anos
Países: França, Canadá
Gêneros: drama, comédia

08 maio 2026

"Eclipse": um jeito muito estranho de se contar uma história necessária

Djin Sganzerla criou o roteiro, dirigiu e ainda protagoniza a história de Cleo, uma astrônoma grávida que
recebe a visita da meio-irmã indígena (Fotos: Pandora Filmes)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
Pode-se resumir em cenas separadas o filme "Eclipse", dirigido por Djin Sganzerla (filha de Helena Ignez e Rogério Sganzerla), com roteiro dela e de Vânia Medeiros. 

O longa estreou na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e está selecionado para a 33ª edição do San Diego Latino Film Festival. A pré-estreia em BH será nesta sexta-feira (8), no Una Cine Belas Artes, às 20h30, e no dia 13, na Faixa Especial do Centro Cultural Unimed-BH Minas, também às 20h30.

Cena 1: uma linda onça pintada, com sua bocarra aberta, mostra os dentes, esturra ameaçadoramente e depois caminha lentamente até sua imagem desaparecer na mata. Aliás, essa mesma onça reaparece depois em flashes não explicados, até que, numa conversa a certa altura, uma personagem conta à outra sobre a simbologia do animal relacionada à eclipse. Bom saber. 


Cena 2: Cléo (Djin Sganzerla) é uma astrônoma com seus quarenta e poucos anos, bem casada e grávida, que acaba de descobrir um novo asteroide e está vivendo tempos de muitas atividades na universidade onde trabalha. 

Como se viesse para atrapalhar sua felicidade equilibrada e certinha, além do asteroide, ela descobre também uma meia irmã indígena, nascida de uma traição do seu pai. 

Cena 3: Tony (Sérgio Guizé) é o marido perfeito de Cléo, que vive enchendo de mimos e cuidados sua mulher. Advogado bem- sucedido, ele forma, com a astrônoma, uma espécie de casal de publicidade de margarina. Os dois moram numa casa bonita e confortável e está sempre rodeado de amigos e brindes.


Cena 4: Lucélia (Selma Egrei) é mãe de Tony e aparece uma única vez no filme, contracenando com a nora na antessala de um consultório médico. As duas conversam sobre generalidades e Lucélia, de passagem, comenta sobre a morte de um de seus filhos, irmão de Tony, fato que parece ter acontecido há bastante tempo. 

Vale ressaltar que essa foi a única participação da grande Selma Egrei em todo o longa e que o assunto nunca mais apareceu na trama.

Cena 5: Nalu (Lian Gaia), a meia-irmã indígena de Cléo, acaba se aproximando muito da irmã e as duas, juntas, investigam a vida de Tony. É bom informar que, apesar de ser índia, a moça é craque em informática, agindo praticamente como uma hacker experiente, capaz de invadir celulares e computadores com muita facilidade.


Cena 6: Sr. Roberto (Luiz Melo) aparece quase que de relance como o dono da fazenda onde Nalu trabalha cuidando de cavalos, sempre rejeitando a paquera e enfrentando como pode as investidas do jovem Felipe (Pedro Goifmam), que vem a ser filho do dono.

Cena 7: Cléo vai ao consultório da sua ginecologista (Clarisse Abujamra), onde descobre que seu bebê é uma menina. Essa é também a única aparição de Clarice no filme.

Cena 8: Suspense, perseguição de carros numa estrada de terra e a descoberta de um local secreto frequentado por prostitutas e onde são cometidas atrocidades contra mulheres.


São muitas as formas de se contar uma história e, parece, essa é e será sempre uma opção pessoal de quem dirige. Mas talvez não precisasse de tantas e tão repentinas participações de atores renomados, que entram como meros coadjuvantes em tomadas quase sempre inúteis. Além dos artistas já citados, entraram e saíram rapidinho também Gilda Nomacce, Helena Ignez e Julia Katharine. 

Também são estranhas, quase inverossímeis, as ligações entre as cenas e os assuntos. Com todo respeito à origem de Djin Sganzerla, não precisava tantas voltas e rodeios para tratar de temas tão sérios quanto imprescindíveis como ancestralidade, violência contra a mulher, sororidade, estupro de vulnerável, deep web, redes sociais, hipocrisia, dissimulação... Faltou liga.


Ficha técnica:
Direção: Djin Sganzerla
Roteiro: Djin Sganzerla e Vana Medeiros
Produção: Mercúrio Produções
Distribuição: Pandora Filmes
Exibição: Una Cine Belas Artes
Duração: 1h48
Classificação: 16 anos
País: Brasil
Gêneros: drama, thriller