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27 janeiro 2026

"Song Sung Blues": uma história de superação ao som de Neil Diamond

Hugh Jackman e Kate Hudson protagonizam a dupla "Lightning & Thunder" que conquista fama levando aos
palcos um show dedicado ao músico (Fotos: Focus Features)
 
 

Patrícia Cassese

 
Não se trata, claro, de um expediente obrigatório. No entanto, pesquisar ao menos um pouco sobre o filme a que se vai assistir colabora, e muito, para a fruição - principalmente se a produção em questão se debruça sobre fatos reais. É o caso de "Song Sung Blue", que estreia no dia 29 de janeiro deste 2026 nos cinemas do Brasil. 

De pronto, o título já vai dizer muito às pessoas de espírito nostálgico, mesmo que sequer tivessem nascido à época: trata-se do título de uma canção homônima de Neil Diamond que estourou mundialmente no inicinho dos anos 1970 - foi lançada em 1972, dando sequência a uma série de hits emplacados pelo artista norte-americano, hoje octogenário, como "Sweet Caroline" (1969) e "I Am... I Said" (1971).


Vale dizer que, no recente Globo de Ouro, o longa-metragem dirigido por Craig Brewer foi classificado na categoria musical ou comédia, colocando o nome de Kate Hudson - que o protagoniza junto a Hugh Jackman - como candidata a melhor atriz. O prêmio, você se lembra, acabou indo (merecidamente) para Rose Byrne, por "Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria". 

Se entendemos que foi uma imensa forçação de barra dizer que esse último título se enquadra no gênero comédia, é também estranho ver "Song Sung Blue" rotulado de musical. É que, ainda que a música seja a espinha dorsal da empreitada, ela está totalmente vinculada à história real - e não, não há números de dança coreografados, reunindo elenco e figurantes, tal como em "Emilia Perez" (2024), para citar um exemplo recente.


A história real sobre a qual "Song Sung Blue" se baseia é a de um casal de Milwaukee que, no auge do sucesso de Neil Diamond, cria um espetáculo em homenagem ao artista. 

O início flagra justamente o encontro dos dois, nos bastidores de um show que apresenta covers dos artistas em voga na época, como Elvis Presley e James Brown. São performances levadas muito a sério pelos empenhados intérpretes, ainda que em cada um habite o sonho de fazer fama para além daquilo. 

Ao se cruzarem nas coxias, Mike (Jackman), que se apresenta como Don Ho, e Claire (Hudson), que solta a voz a bordo do repertório de Patsy Cline, se aproximam e, em pouco tempo, criam a dupla "Relâmpago & Trovão" (Lightning & Thunder"), que passa a levar aos palcos um show dedicado a Diamond. 


E sim, o relacionamento não se limita apenas ao profissional - não tarda, os dois juntam as escovas de dente, numa ação que arrebanha também os dois filhos de Claire e, eventualmente, a filha de Mike. 

O que ambos não sabem, ali, naquele momento de felicidade, é que a vida reservaria ao casal momentos muito, muito trágicos, incluindo um acidente que muda drasticamente o destino de todos. 

Por outro lado, guarda também surpresas do âmbito do inacreditável, como o da dupla abrir um show para o Pearl Jam, a convite do próprio Eddie Vedder.


É importante frisar que a história incrível desse casal da vida real já havia sido levada à tela por meio de um documentário, dirigido por Greg Kohs - que, fica a dica, está disponível no YouTube. Craig assistiu à produção conduzida por Greg e, impressionado, partiu para contar a história com atores. E sim, as escolhas de elenco são bem acertadas. 

Jackman e Hudson se mostram extremamente empenhados, assim como o elenco de apoio, que traz desde veteranos, como Jim Belushi, a bons expoentes da nova geração, como os jovens Ella Andersen, King Princess (cantora, compositora, instrumentista e produtora) e Hudson Hensley, que fazem os filhos do casal. 

Outro ator que os fãs de "White Lotus" vão se deliciar em rever é Michael Imperioli, que integra a banda que acompanha Mike - na série da HBO, ele marcou presença na segunda temporada, passada na Itália.


Embora não seja um filme pretensioso no sentido de trazer inovações na sétima arte ou ficar marcado na história do cinema, assim como a passar o rodo na temporada de prêmios, "Song Sung Blue" não vai fazer o espectador sentir ter desperdiçado seu tempo nos cinemas. 

Principalmente se, como dissemos no início, adentrar a sala escura sabendo que o que será mostrado ali, na telona, é a representação de um episódio real. 

Isso porque, em determinado momento, quem ignorar essa particularidade certamente vai se fazer uma pergunta do tipo "mas como ele não agiu assim ou assado?". E, óbvio, ninguém consegue perscrutar o que se passa na cabeça do outro.

No frigir dos ovos, "Song Sung Blues" é um filme sobre resiliência. Sobre enfrentar adversidades, provações da vida, e tentar superá-las da maneira que dá, já que a vida assim o exige. 


Tudo isso ao som do repertório de um artista - Neil Diamond - cuja voz potente ressoou muito nas rádios brasileiras, inclusive em versões, como a de Diana (1948 - 2024) para "I Am... I Said". Recentemente, "Porque Brigamos" também ganhou cover (excelente) de Bárbara Eugênia. 

Certo, talvez o filme peque um pouco na parte final, ao incorrer com força no melodrama - justamente por isso, recomendamos, aos mais sensíveis, levar um pacotinho de lenços de papel. Como se trata de vida real, quem quiser saber o motivo, basta recorrer ao caso real. Mas, ainda assim, recomendamos. 

O talento dos dois atores centrais merece ser conferido - e as músicas do artista reverenciado, clamam por serem cantadas pelo público - mesmo que, óbvio, baixinho, para não atrapalhar quem está do lado.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Craig Brewer
Produção: Focus Features, Davis Entertainment
Distribuição: Universal Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h13
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: musical, drama

25 janeiro 2026

“Dinheiro Suspeito”: suspense da Netflix testa a amizade de Matt Damon e Ben Affleck

Além das duas estrelas, longa policial baseado em história real conta com um bom elenco formado
por atores e atrizes premiados (Fotos: Netflix)
 
 

Maristela Bretas

 
Há atores que dificilmente você imagina fazendo o papel de vilão. Eles já nasceram com cara de mocinho, mesmo quando tentam fazer cara de mal. Ben Affleck é um exemplo disso em "O Contador" (2016). 

Outro que não perde a cara de "filho de vó" é Matt Damon. Como seu papel em "Jason Bourne" (2016), que apresenta o ator bem afiado no papel do superagente. 

A dupla também trabalhou junta em outra produção de sucesso - "AIR: A História Por Trás do Logo" (2023), que conta a criação da linha de tênis para basquete Air Jordan, da Nike.


Agora, no suspense policial "Dinheiro Suspeito" ("The Rip"), um dos lançamentos da Netflix de 2026, como saber qual deles é o vilão? Com mais de duas horas de duração, recheado de reviravoltas e com um bom elenco de apoio, os dois queridinhos de Hollywood entregam boas atuações e muita química. Damon e Affleck são velhos amigos e sócios no Artists Equity, estúdio que produziu o filme. 

O longa conta a história de um grupo de policiais da equipe tática da Divisão de Narcóticos de Miami que descobre um esconderijo com milhões de dólares em dinheiro vivo - uma tentação capaz de virar a cabeça do mais correto dos policiais. 

E agora: entregar o dinheiro ou dividir entre a equipe? A operação pode colocar em xeque a confiança e a união do grupo? Em quem confiar?


A produção é baseada em uma história real sobre uma operação conduzida em 2016 por Chris Casiano, à época chefe da Narcóticos da polícia do Condado de Miami-Dade e amigo do diretor Joe Carnahan. 

Durante uma investigação de tráfico de drogas, a equipe de Casiano encontrou escondido na parede de uma casa a quantia de US$ 24 milhões (R$ 128,9 milhões) em dinheiro vivo e preciso aguardar a chegada de reforços para remover a fortuna.

O filme também presta uma homenagem ao filho de Casiano, Jake William, que morreu aos 11 anos vítima de leucemia e foi a inspiração para o personagem de Matt Damon, que perde um filho para o câncer. 


A atuação do elenco é um dos destaques. Merece atenção a participação da premiada Teyana Taylor, vencedora do Globo de Ouro 2026 como Melhor Atriz Coadjuvante por sua atuação em "Uma Batalha Após a Outra" e agora cotada para disputar o Oscar na mesma categoria. 

Também estão no elenco Steven Yeun ("Minari - Em Busca da Felicidade" - 2021), vencedor do Emmy, do Globo de Ouro e do Critics Choise de 2024 como Melhor Ator; Catalina Sandino Moreno ("Bailarina - Do Universo John Wick" - 2025), indicada ao Oscar de Melhor Atriz em 2005; além de Sasha Calle (a Supergirl de "The Flash" - 2023) e Kyle Chandler ("Manchester a Beira-mar" -2017).

O filme tem mais suspense do que ação, poucas locações, poucos efeitos visuais e sem grandes perseguições. O final é muito bom, mas não chega a surpreender. 


Afinal, como revelou Matt Damon em entrevista de divulgação do filme, "a Netflix solicita a repetição de informações cruciais da trama, até 4 vezes, em produções como 'Dinheiro Suspeito', para garantir a compreensão do público, que assiste a conteúdos distraído com celulares e redes sociais".

Mesmo assim, esses pontos não estão interferindo nos números de "Dinheiro Suspeito". Desde a sua estreia, em 16 de janeiro, o longa vem liderando o ranking global da plataforma e já é considerado o maior lançamento da Netflix em 2026. São mais de 41 milhões de visualizações em quase 90 países. 

Eu gostei e recomendo. Confira e me conte aqui o que achou.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Joe Carnahan
Produção: Artists Equity
Exibição: Netflix
Duração: 1h52
Classificação: 16 anos
País: EUA
Gêneros: suspense, drama, policial, ação

14 janeiro 2026

“Ato Noturno” é a primeira boa surpresa do cinema nacional em 2026

Desejo, risco e moralismo marcam longa dirigido pelos gaúchos Filipe Matzembacher e Marcio Reolon
(Fotos: Avante Filmes e Vulcana Cinema)
 
 

Eduardo Jr.

 
Filme ousado no pedaço! Estreia no dia 15 de janeiro “Ato Noturno”, longa que é um pouco thriller e um bocado erótico. Dirigido pelos gaúchos Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, a obra mostra um ator e um político que vivem um caso onde o fetiche de ambos é praticar sexo em lugares públicos. 

Distribuído pela Vitrine Filmes, o lançamento ocorre por meio do projeto Sessão Vitrine Petrobrás. 

Matias (Gabriel Faryas) é um ator que deseja mais da carreira. Ao saber que uma grande série vai ser filmada em Porto Alegre, ele passa a desejar o papel. 

E aí se intensificam os atritos com Fábio (Henrique Barreira), o colega de apartamento e de companhia de teatro, que também quer ser protagonista de uma grande produção. 


Um elemento externo é quem bota fogo nessa história: Rafael (Cirillo Luna), que conhece Matias em um aplicativo de paquera. Logo de cara os dois vão dando pistas de que o prazer do casal está associado ao exibicionismo. 

Porém, Rafael é um político, e acredita que esse tipo de conduta é uma grande ameaça às ambições de ambos. É o político que alerta que, ao alcançar a fama, Matias vai precisar se adaptar às situações, omitir sua sexualidade. 


Cegos pelo desejo, eles seguem se arriscando. A direção faz com que Porto Alegre e alguns de seus pontos tradicionais se tornam locações de cenas tórridas, nas quais a escuridão da noite acende o fogo de casais, trios, quartetos…  

As poucas cenas diurnas são, em maioria, em locais abertos, onde a vida civil acontece, silenciosa e hipócrita. E aquilo que é sussurrado demanda atenção do espectador, por haver momentos em que a música é alta e a qualidade dos microfones perde potência. 


Outra leitura possível de ser feita a partir desse detalhe técnico é a da violência da cidade contra algumas identidades e comportamentos, invadindo brutalmente, tal qual o som que atravessa as cenas. 

O espectador é afetado pelo suspense, pelo incômodo, é contaminado pela raiva, é permeado pela ansiedade proposta no roteiro e pelo sexo estampado na tela (natural, quente e sem se descolar da trama). 

Apesar da luz do dia, em que as convenções sociais colocam cada coisa em seu lugar, é no ato noturno que se expressa a verdade, o desejo. 


Não dá pra ficar imune ao filme de Reolon e Matzembacher. Prova disso está nas conquistas que a dupla obteve no Festival do Rio, quando levou três Troféus Redentor: Melhor Ator para o estreante em longas Gabriel Faryas, Melhor Roteiro para Matzembacher e Reolon e Melhor Fotografia para Luciana Baseggio. 

Além disso, a produção ainda foi eleita o Melhor Filme do Prêmio Felix, dedicado a obras com temática LGBTQIAPN+. O cinema nacional também tem espaço para provocação, erotismo e confronto de hipocrisias. Ir ao cinema prestigiar o longa precisa ser seu próximo ato noturno.     


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Filipe Matzembacher e Marcio Reolon
Produção: Avante Filmes, com coprodução da Vulcana Cinema
Distribuição: Vitrine Filmes
Exibição: Cine Una Belas Artes
Duração: 1h57
Classificação: 18 anos
País: Brasil
Gêneros: drama, thriller

06 janeiro 2026

Histórias de perda e reinvenção - Parte 1: “Hamnet” e “Valor Sentimental"



Carol Cassese


A temática da perda e os modos de elaboração do luto estruturam pelo menos quatro filmes recentes que vêm se destacando no circuito internacional, articulando experiências familiares a processos de reconstrução subjetiva. 

O assunto será abordado em duas postagens. Enquanto este post será centrado em "Hamnet" e "Valor Sentimental", o segundo traz breves análises dos longas "Vida Privada" e "Miroirs No. 3".

"Hamnet - A Vida Antes de Hamlet", que estreou nos cinemas estadunidenses em 5 de dezembro e chega às salas brasileiras em 15 de janeiro, é um exemplo notável do tema. 


Dirigido por Chloé Zhao (“Nomadland” - 2021) e inspirado no romance homônimo de Maggie O’Farrell, a produção reflete sobre como a ficcionalização pode ser um mecanismo de enfrentamento ao luto. 

O filme dialoga diretamente com a vida de William Shakespeare e com o modo como sua experiência de perda teria ressoado na criação de Hamlet (sabe-se que Hamnet Shakespeare, filho do dramaturgo, faleceu aos 11 anos).

"Hamnet" estreou no Telluride Film Festival, em agosto de 2025. Posteriormente, a produção foi exibida no Toronto International Film Festival, onde venceu o People’s Choice Award, um dos principais prêmios de público da temporada. 


Em dezembro, o filme integrou a programação de eventos especiais do Main Cinema, em Minneapolis (Estados Unidos), onde tive a oportunidade de acompanhar um debate após a sessão com Katherine Scheil, autora de "Imagining Shakespeare’s Wife: The Afterlife of Anne Hathaway" (vale ressaltar que a sala de cinema estava lotada, em uma manhã de sábado com temperatura de –10 °C). 

A discussão abordou o apagamento histórico de figuras femininas ao longo dos séculos e também evocou a curiosa coincidência em torno do nome Anne Hathaway, esposa de William Shakespeare e homônima da conhecida atriz hollywoodiana. 

Vale notar que, no século XVI, os nomes Hamnet e Hamlet eram usados de maneira intercambiável, o que reforça a proximidade simbólica entre a experiência biográfica do dramaturgo e sua criação literária.


Além da forte recepção no circuito de festivais, a produção protagonizada por Jessie Buckley e Paul Mescal já aparece entre os títulos mais comentados do circuito de premiações, sendo frequentemente mencionado em projeções para grandes disputas. 

A atuação de Buckley, que recentemente levou o prêmio de Melhor Atriz no Critics Choice Awards, e o trabalho de Zhao vêm sendo apontados como destaques relevantes da temporada. 

Ao se inscrever no campo da ficção histórica, a adaptação do livro de O'Farrell propõe uma reflexão sobre a recriação do passado e a mescla entre fatos, imaginação e elaboração estética. 

Dessa maneira, Hamnet se alinha a uma tendência crescente no cinema e na literatura contemporânea, em que narrativas históricas são revisitadas a partir de perspectivas criativas.


VALOR SENTIMENTAL

Também em destaque na temporada de premiações, "Valor Sentimental" (ainda em circulação nos cinemas brasileiros), obra do diretor norueguês Joachim Trier, é centrada no retorno de um pai, cuja presença reabre feridas ligadas à memória familiar. 

Assim como ocorre em "Hamnet", o filme propõe reflexões sobre o retrato ficcional de acontecimentos trágicos, mostrando como a recriação de experiências difíceis pode, de maneira complexa e não linear, auxiliar na elaboração de traumas.


Como mencionamos na introdução, o novo filme do diretor norueguês Joachim Trier, que assinou produções como "Oslo, 31 de Agosto" (2011) e "A Pior Pessoa do Mundo" (2021), é centrado nos efeitos conturbados de um reencontro familiar. 

Mais especificamente, a narrativa acompanha um cineasta, interpretado por Stellan Skarsgård, e suas duas filhas, vividas por Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas, em meio a tensões ligadas à memória e a feridas que permanecem abertas. 


Nesse contexto, o filme introduz ainda a personagem de Elle Fanning, uma atriz americana convidada a interpretar ficcionalmente episódios dolorosos da história da família – gesto que desloca a experiência do trauma para o campo da representação. 

Aqui, é interessante pensar como a presença da personagem de Fanning opera também como uma alusão a um processo enfrentado por muitos diretores da cena independente: a passagem por um crivo hollywoodiano, seja em termos de reconhecimento crítico ou validação dentro de um mercado desigual. 

Bastante aclamado pela crítica, o longa estreou na competição oficial do Festival de Cannes 2025, onde venceu o Grand Prix (Grande Prêmio do Júri). 


31 dezembro 2025

Em "Jovens Mães", irmãos Dardenne lançam foco sobre a gravidez na adolescência

Filme retrata uma questão que, infelizmente, é presente entre jovens em todos os países do mundo,
numa fase em que estão descobrindo a sexualidade (Fotos: Christine Plenus)
 
 

Patrícia Cassese

 
Com uma chancela de respeito - a assinatura dos irmãos Dardenne tanto na direção quanto no roteiro -, entra em cartaz na cidade o filme "Jovens Mães", que, vale dizer, integrou a programação do Festival de Cinema Francês desse ano, porém, com poucas sessões. Em cena, cinco representantes do que o título - que, na tradução brasileira, mantém o original, "Jeunes Mères" - já revela ao espectador. 

Mais preciso que o uso da palavra "jovem", na verdade, seria "adolescente", posto que a câmera dos belgas Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne flagra a maternidade em uma faixa etária na qual a inocência da infância ainda se mescla às descobertas do mundo adulto. 


São cinco, as jovens mães do filme, e, à exceção de uma, as demais dividem o tempo de duração do longa. Um denominador comum é que nenhuma ali vem de uma vida propriamente fácil. Ao contrário, alguns relatos de episódios da infância são de causar calafrios.

De todo modo, na retratação de uma questão que, infelizmente, é presente em todos os países do mundo - a gravidez acidental na vida de pessoas numa fase em que estão, na verdade, descobrindo a sexualidade, "Jovens Mães" apresenta uma situação que já de pronto mostra a distância entre os ditos países do primeiro mundo e os mais pobres. 


É que as cinco meninas estão provisoriamente abrigadas em uma casa de acolhimento na qual as funcionárias tratam de explicar, com paciência e medida insistência, os cuidados básicos com os bebês para quem pouco tempo atrás certamente brincava de boneca. 

Entre eles, a limpeza do umbigo, o banho ou a melhor forma de dar mamadeira - posto que, ali, dado o estresse inerente à situação, nem todas têm leite para alimentar seus rebentos. Importante dizer que as garotas do filme foram mães por opção, uma vez que, sim, havia a alternativa de se submeter a um aborto. 


No entanto, em casos como o de Jessica (Babette Verbeek), o bater o martelo em manter a gravidez se deu no bojo do sonho de construção de uma união dela com o pai do bebê. Uma ilusão que, mundo afora, muitas adolescentes acalentam.

Mesmo com a escolha do aborto afastada pelas cinco quando ainda havia tempo, resta, a elas, uma última decisão: entregar o filho para uma família ou assumir a maternidade (inclusive, a maternidade solo) nessa etapa tão complexa da vida.


Entre as cinco, talvez o caso que mais afete o espectador seja o de Jessica, que, na reta final da gravidez, tenta se reconectar com a mãe, Morgane (India Hair), que, no passado, a abandonou ainda recém-nascida. Vale muito pontuar o talento da jovem atriz belga que a interpreta, e que dá conta de transmitir o desespero que invade a menina ali, sozinha. 

De todo modo, ela não está disposta a repetir a decisão de sua genitora. Detalhe: a idade da atriz que interpreta Morgane dá indícios que ela também foi mãe na adolescência, mostrando como esse ciclo se repete na sociedade, não obstante os avanços de métodos contraceptivos.


Ariane (Janaina Halloy Fokan, atriz de apenas 16 anos) é outro caso que comove, pelo fato de a garota também vir de uma família esfacelada - a mãe mantém um relacionamento tóxico (apesar de jurar para a filha que colocou um ponto final, o namorado sempre retorna para buscar objetos). 

Não bastasse isso, o envolvimento com drogas que faz a polícia volta e meia bater à sua porta. É nela que a possibilidade de entregar a criança à adoção fala mais alto.

A situação de Julie (Elsa Houben) é um pouco diferente das colegas, sendo ela a única cujo pai do bebê segue não só presente, mas mantendo o intuito de formar uma família. Mesmo assim, ambos lidam com a falta de perspectiva de ter um teto, assim como com o fantasma do vício em drogas. Julie também narra a experiência de um abuso praticado dentro de casa. 


Como ela, Perla (Lucie Larvelle, ótima presença em cena), ao dar continuidade à gravidez, acreditou que o bebê seria o ponto de partida para a construção de uma célula familiar. 

Sua situação não vai deixar o espectador incólume, inclusive quando ela coloca em repasse a relação com a mãe e uma maldade cometida por essa que a marcou para sempre. Além do fato de ser uma adolescente mãe solteira, Perla ainda tem que lidar com o racismo. 

A quinta adolescente do roteiro tem uma presença mais breve na trama. Naïma (Samia Hilmi), mãe da Selma e a mais serena das adolescentes.


Detalhe: "Jovens Mães" foi o título indicado pela Bélgica para o Oscar 2026, na categoria Filme Estrangeiro. Certo, foi eliminado na lista de pré-selecionados, mas isso de forma alguma tira a importância da narrativa que, como salientado no início, fala de uma questão que preocupa não só as autoridades ou pessoas envolvidas em situações similares, mas também aos mais conscientes mundo afora.

Além de mostrar como o acolhimento - familiar ou externo - é imprescindível em tais casos, uma vez que a insegurança e a pouca experiência intrínsecas à idade pode levar a decisões bastante equivocadas, passíveis de virarem traumas para toda uma vida.


Ficha técnica:
Direção:
Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne
Produção: Les Films du Fleuve, Archipel 35, The Reunion (Delphine Tomson, Denis Freyd)
Distribuição: Vitrine Filmes
Exibição: Cine Una Belas Artes e Centro Cultural Unimed-BH Minas
Duração: 1h46
Classificação: 16 anos
Países: Bélgica e França
Gênero: drama

12 dezembro 2025

"Sorry, Baby" reflete sobre o impacto de uma agressão sexual na vida de uma mulher

A cineasta e roteirista franco-americana Eva Victor também protagoniza este drama que narra sua própria experiência no passado (Fotos: A24)
 
 

Patrícia Cassese

 
No dia 19 de novembro deste ano, a Organização Mundial da Saúde divulgou dados apontando que cerca de 840 milhões de mulheres em todo o mundo já sofreram algum episódio de violência doméstica ou sexual ao longo da vida. 

Na ocasião, Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da agência especializada da ONU, lembrou que, por trás de cada um desses corpos que compõem a estatística, uma vida foi alterada para sempre. 

O número, claro, pode ser muito maior, já que muitas vítimas sequer denunciam as agressões sofridas. Em cartaz no Cineart Ponteio e demais cinemas, "Sorry, Baby", primeiro longa-metragem da cineasta e roteirista franco-americana Eva Victor, tem como espinha dorsal justamente um caso de abuso. 


No caso, impetrado por um homem do círculo de convívio da vítima - o orientador da tese da personagem central, a estudante Agnes, interpretada pela própria Eva, hoje com 31 anos.

Embora o início da narrativa flagre a personagem passados alguns anos do fatídico episódio, não demora para que o espectador tenha a contextualização dos eventos que antecederam esse momento. 

Agnes é abusada pelo professor/orientador Preston Decker (Louis Cancelmi) durante um encontro na casa do docente, teoricamente articulado por uma revisão de alguns pontos do trabalho da garota - o qual, aliás, ele tece elogios. A câmara não mostra exatamente o que acontece ali dentro. 


O detalhamento possível (posto que um acontecimento desse impacto não raro turva a mente da vítima) chega ao público por meio do relato de Agnes à amiga com a qual divide a casa, Lydie (Naomi Ackie). 

De todo modo, a diretora marca pontos ao, no momento em que a violência se desenrola, fixa a câmera diante da parte frontal da residência de Decker, passando a sinalizar a passagem das horas pela variação cromática que marca o dia. 

A sequência encerra-se com a noite já caída, quando Agnes sai apressada e extremamente nervosa da casa, preocupada em amarrar os cadarços de suas botas e sem olhar para trás. 


Corroborando as palavras do diretor da OMS, citadas no início da matéria, naquele dia, a vida de Agnes é, pois, alterada para sempre. Ao contrário das mulheres que silenciam, porém, ela resolve sim, se submeter a um exame de corpo de delito até para ter subsídios em uma eventual denúncia contra o agressor. 

As perguntas protocolares do médico - sim, um homem - encarregado do atendimento já deixam claro que Agnes não vai encontrar, ali, a guarida necessária. 

Mais tarde, ao tentar levar o caso à própria instituição de ensino, a jovem se depara com outra barreira: horas antes, a pretexto de ir morar em Nova Iorque, o agressor se desligou do quadro de funcionários da universidade. Assim, como o relato da dicente se dá após a saída dele, eventuais sanções profissionais não podem mais ser aplicadas por lá.


Em um misto de raiva, dor, impotência, Agnes chega a pensar em soluções extremas, embora não leve o plano que lhe acorre à cabeça a cabo. Resta-lhe, pois, seguir tocando a vida, ainda que as implicações do ocorrido sigam assombrando a garota, num compasso demarcado com muita sagacidade pela diretora. 

Inclusive na escolha dos figurinos pós-evento, severos, marcados por tons sombrios, fechados, e de modelagem ampla, inclusive "masculinizada" - como se fosse uma saída inconsciente para que seu corpo deixe de provocar desejo nos homens.

Neste percurso, várias nuances de uma agressão sexual são abordadas de forma muito competente. Caso da reconexão de Agnes com a possibilidade de afeto, ativada quando, no meio de um trajeto, se depara com um filhote de gato. Ou seja, um ser que demanda cuidados. 


Ou, ainda, de uma situação inusitada e específica que envolve o felino. Da mesma maneira, quando ela entende ser o momento de tentar reativar a pulsão sexual, que foi bruscamente interrompida. 

Há uma cena particularmente curiosa, quando a jovem, escolhida para compor um corpo de jurados, pede ao tribunal que seja dispensada, por ter vivido uma situação de violência que pode influenciar em suas deliberações. 

Ao ser instada a falar mais detalhes, ela pontua que não quer compartilhar o episódio que sofreu com estranhos. No entanto, em outra cena, é a um estranho - um homem que vende sanduíches - que a socorre em um ataque de pânico que ela resolve se abrir um pouco. Aliás, atenção para esse diálogo, muito contundente e assertivo.


A palavra "sorry", do título, é proferida durante o filme mais de uma vez, inclusive na já referida situação envolvendo o gato. Mas é no final, quando Agnes estabelece uma conversa com um interlocutor muito particular (não dá para citar pormenores), é que o filme endossa o que já de certa forma já estava no cerne da conversa com o vendedor de sanduíches, com a amiga de vida e mesmo com o vizinho de casa. 

Se não há nada que possa afastar o mal de nosso caminho, que pelo menos seja possível encontrar pessoas que possam nos ajudar a reunir forças para seguir adiante.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Eva Victor
Produção: High Frequency Entertainment, Big Beach, Tango Entertainment, Pastel
Distribuição: Mares Filmes e Alpha Filmes
Exibição: Cineart Ponteio e rede Cinemark
Duração: 1h44
Classificação: 14 anos
Países: Espanha, França
Gêneros: drama, comédia

09 dezembro 2025

Delicado e poético, "Livros Restantes" é uma sincera homenagem à literatura

Denise Fraga em excelente desempenho entrega uma protagonista quase onipresente (Fotos: H2O Films)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
Embora apresente algumas surpresas no decorrer da trama, não se pode dizer que "Livros Restantes" seja um filme carregado de reviravoltas e plot twists, assim como não se pode considerá-lo suspense pelo fato de, em algum momento, a ação levar o espectador a se perguntar: houve mesmo um crime? 

Mas, talvez por isso, o longa dirigido por Márcia Paraíso e que estreia nos cinemas brasileiros dia 11 de dezembro mereça ser visto. É, no mínimo, uma história peculiar e curiosa, com cenas filmadas no Brasil e em Portugal. 

Tendo Denise Fraga em excelente performance como protagonista quase onipresente, o filme começa de um jeito lento e morno, como costumam ser os dias e noites praianos. 


Afinal, estamos em Florianópolis, mais precisamente num recanto chamado Barra da Lagoa, onde a professora Ana Catarina está se despedindo da família e de amigos, pois está de partida para Portugal onde - presume-se - ela vai continuar seus estudos e, como faz questão de dizer, contar apenas consigo mesma.

Aos poucos, o público se familiariza com o jeito sensível de Aninha - como é conhecida por todos na ilha - e, embora cause algum estranhamento, não é assim tão grave, esquisito ou indelicado o que ela se propõe a fazer logo no início. 


Depois de esvaziar a casa, tirar móveis, objetos e animais domésticos, ela descobre que sobraram cinco livros na sua estante de madeira. Como estão autografados e com dedicatórias, a professora decide devolver cada um deles às pessoas que, em algum momento da vida, lhe deram os tais livros de presente.

Numa espécie de miolo do filme, enquanto o espectador vai sendo lentamente apresentado à família de Ana, alguns assuntos sempre considerados espinhosos chegam à tona. 


E o que emerge das conversas à mesa, entre camarões, moquecas e brindes, pode não agradar, ferir e machucar. São os chamados segredos de família, passíveis de ocorrer em todos os agrupamentos familiares, independente da nacionalidade deles.

Além de Denise Fraga e Augusto Madeira - que faz o ex-marido dela, Carlos Henrique -, os demais atores e atrizes são desconhecidos do grande público e tudo indica que a diretora foi buscá-los na região. 

Para citar os mais frequentes, estão lá Renato Turnes, Vanderleia Will, Manuela Campagna, Marcinho Gonzaga, Andrea Buzato, Paulo Vasilescu, Severo Cruz, Joana dos Santos, Adriano de Brito e Leandro Batz, variando entre familiares e amigos da protagonista. 


Outro ponto alto de "Livros Restantes" é a trilha sonora. Em sua maioria, são canções conhecidas que pontuam aqui e ali, embalando ora cenas de ternura e amizade, ora de crises e brigas. 

Mas o que chama a atenção é uma música cuja autoria é atribuída a Zininho e que aparece no filme em duas versões: às vezes como um samba, deliciosamente tocado e cantado nos momentos festivos; outras vezes em ritmo de fado, criando toda aquela atmosfera de tristeza e saudade. Genial. 

Por falar em Portugal, é preciso registrar que o livreiro que atende a protagonista numa livraria em Portugal é o maestro Antônio Vitorino de Almeida. 


A beleza do filme está exatamente nos reencontros que Ana Catarina programa e promove para devolver os livros que restaram em sua estante. 

Até porque, em alguns casos, o tempo acabou por distanciá-la de algumas dessas pessoas e algumas não fazem mais parte do seu círculo de amigos. Houve até quem se modificasse tanto a ponto de não ser mais a mesma pessoa de antes. 

Nesses encontros, nem sempre bem sucedidos, é que parece estar o grande motivo do longa de Márcia Paraíso: fazer uma ode ao livro, uma verdadeira louvação à literatura, E isso é feito de uma forma tão delicada e bonita que é como se o público estivesse diante de um poema.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Márcia Paraíso
Produção: Plural Filmes e coprodução Filmógrafo
Distribuição: H2O Films
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h44
Classificação: 14 anos
Países: Brasil e Portugal
Gênero: drama

06 dezembro 2025

"A Natureza das Coisas Invisíveis": a complexidade da existência humana pelo olhar de duas crianças

Longa aborda a importância de permitir que crianças participem das conversas sobre a finitude da vida
(Fotos: Vitrine Filmes)
 
 

Patrícia Cassese

 
Para usar uma expressão em voga no momento, há tantas camadas no longa-metragem "A Natureza das Coisas Invisíveis", em cartaz no Cine Una Belas Artes, que certamente o processo de decupagem na recepção do conteúdo vai acompanhar o público por um bom tempo após o fim da sessão. 

De pronto, é preciso dizer que trata-se de um filme que aborda um tema muito, muito intrincado: a finitude da vida. Não bastasse, o faz principalmente pelo olhar de duas crianças, ambas com dez anos de idade. São elas: Glória (Laura Brandão) e Sofia (Serena), ambas excelentes, espontâneas e visivelmente comprometidas e entregues. 

Mas, que fique claro, o primeiro longa-metragem de Rafaela Camelo trata a questão com toda a delicadeza possível nesse árido caminho, de modo que se algumas lágrimas teimarem em escorrer pelo rosto, provavelmente serão mais por outro tipo de emoção que a relacionada à tristeza.


A cena inicial desse que é descrito como um coming of age* nos leva a um banheiro de uma escola, com seus tradicionais rabiscos na parede. Discretamente, pela fresta de uma porta, uma garota - Glória - aguarda as demais saírem para, só então, sair da cabine. 

Já no frame seguinte, um indicativo de que o filme também transitará por outra esfera que não apenas a da realidade, do crível - mas é melhor não estragar a surpresa. Se frequentar a escola não faz o cotidiano de Glória ser diferente de boa parte das crianças do país, o outro turno do dia, sim. 

Isso pelo fato de sua mãe, a enfermeira Antônia (Larissa Mauro), não tendo com quem deixar a menina, acaba costumeiramente arrastando-a para o seu trabalho, em um hospital.

Uma das cenas mostra que a presença de Glória já é familiar aos pacientes, bastante idosos, que a recebem como um raio de sol que adentra a penumbra do cotidiano hospitalar. A menina também transita com naturalidade por outros ambientes da instituição, como um quarto de pertences "esquecidos" por lá. 


No entanto, a rotina daquele dia específico é quebrada com a chegada de outra criança, Sofia, que adentra o local praticamente sem fôlego, trazendo consigo a bisavó, Francisca (Aline Marta Maia), que sofreu uma queda em casa.

O acidente, na verdade, é uma intercorrência em meio a uma série de problemas que a idosa vem enfrentando nos últimos tempos, mediante o avanço da demência que a assola. Neste episódio, um ponto que chama atenção é o fato de, no momento da queda, Bisa estar em casa apenas com uma criança, sendo que seu estado demandaria, claro, a presença de um adulto. 

Eis que a mãe da menina, Simone (Camila Márdila, sempre excelente), entra em cena e ficamos sabendo que, assim como Antônia, ela também é uma mãe solo. A necessidade imperiosa de trabalhar a obriga a deixar a filha sozinha com sua avó - não por outro motivo, de cara demonstra receio de perder a guarda da criança por conta do acidente.

Além da coincidência da idade e da configuração familiar, as duas meninas também vêm de experiências marcantes. Glória é uma garota transplantada (recebeu um coração). 


Já Sofia, uma criança trans - e palmas para a diretora por tratar esse tema com extrema sensibilidade e naturalidade, sem transformá-lo em um ponto crucial da trama, que, na verdade, enverga, como já dito, pelos mistérios que rondam a nossa finitude. 

De todo modo, para interpretar Sofia, Rafaela Camelo fez questão de escolher uma atriz que tivesse lugar de fala, ou seja, uma criança trans - o que já é um avanço e tanto. 

Em meio a tantos pontos comuns, uma característica que diferencia as duas é justamente a visão da morte. Acostumada ao ambiente hospitalar, Sofia vê a partida dos pacientes com uma espécie de "tristeza conformada". 


Assim, mexer nos tais pertences esquecidos por lá, vestir roupas de quem partiu, é um ato que vê com extrema naturalidade, ao contrário de Sofia. Como a garota chegou ao hospital com a blusa manchada de sangue, Glória toma a iniciativa de mostrar a ela uma blusa de criança por lá disponível.  

O que para ela é uma solução óbvia, assusta a outra menina, que acredita em energias emanadas por aqueles que já partiram. Fato é que não só as duas estabelecem amizade, como as respectivas mães também. E, quando Bisa tem alta, Antônia se oferece para acompanhar sua recuperação no sítio para o qual a idosa será levada.

Não, não é meramente um gesto de altruísmo, posto que Simone nem teria como pagá-la. É que a enfermeira entende ser essa uma boa saída para a filha não passar o período fora da escola num ambiente no qual a luta pela vida é muitas vezes atravessada pela derrota. 

E é nesse ponto que o "A Natureza das Coisas Invisíveis" ganha uma espécie de ponto de virada, aliás, pontuada pela voz de Milton Nascimento, entoando "Fazenda". 


Assim, do ambiente hospitalar "frio" e asséptico, marcado por sondas, acessos e medidores, a exuberância da vida no campo irrompe. E o vento que balança as folhas é um indicativo emblemático. O verde ocupa a tela, bem como a fauna costumeira da vida campestre, como patinhos e outros animais. 

No material de divulgação do filme, a diretora diz que a divisão do longa em duas partes seria "uma metáfora estrutural". "Como se, naquele ponto, o filme da forma que vinha sendo apresentado tivesse que morrer para outro se formar”. 

Na casa propriamente dita, uma edificação singela como tantas dispersas interior afora, a fé marca forte presença por meio dos santos reunidos num altar, ao lado de figuras como a do Preto Velho, estampando o sincretismo religioso que pauta o país.


A presença das mulheres da redondeza exalta a importância da sororidade, bem como a cumplicidade orgânica que se estabelece entre elas, também típica do interior do Brasil - no caso, em Goiás. Na vivência do sítio, o aspecto sobrenatural se acentua, seja por meio das diversas práticas advindas de crenças populares quanto pelos ditames religiosos. 

Em uma das cenas, a expressão no rosto de Antônia deixa evidente seu ceticismo quando a alguns expedientes que por ali são culturalmente introjetados. No entanto, ela se deixa levar, seja por respeito ou pelo espírito de "pagar para ver". Ou por ambos. Afinal, que se arvoraria a, em situações difíceis, não tentar recorrer ao que se apresenta?

Ao fim e ao cabo, nos 90 minutos de percurso da empreitada, Rafaela Camelo mostra que sua estreia no formato longa se deu com o pé direito, para usar uma expressão também popular no país. 


Na beleza do intangível, no âmbito do imponderado, nas dúvidas que assolam o percurso do ser humano na Terra, e mesmo com uma pitada do fantástico, "A Natureza das Coisas Invisíveis" enreda o espectador com tal força que o acender das luzes da sala de cinema, após a cena final, ao som de Fernando Mendes, vai flagrar muita gente com os olhos marejados. Como dito no inicinho desse texto.

*Coming of age é o nome que se dá a filmes que acompanham a transição da infância para a adolescência, por vezes também para a vida adulta.

Curiosidade

- Estudos recentes indicam que no Brasil cerca de 1,3 milhão de crianças já enfrentaram a perda de pelo menos um dos pais ou de um morador do domicílio, o que reforça a magnitude desse impacto.

- Essas circunstâncias aumentam os riscos de ansiedade, depressão, dificuldades escolares e outros desfechos negativos de longo prazo. 


Ficha técnica:
Direção e Roteiro:
Rafaela Camelo
Produção: Moveo Films
Distribuição: Vitrine Filmes
Exibição: Cine Una Belas Artes
Duração: 1h30
Classificação: 12 anos
Países: Brasil e Chile
Gênero: drama