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26 setembro 2026

"Virtuosas": quando o controle aprende a falar de liberdade

Longa leva para as telonas um retiro VIP que promete aperfeiçoar mulheres em busca de sua melhor
versão (Fotos: Olhar Filmes)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema 

 
E se a promessa de ser uma mulher melhor for, na verdade, aprender a obedecer melhor? É a partir dessa provocação que "Virtuosas", novo terror de Cíntia Domit Bittar, constrói seu desconforto. O filme está em cartaz no Cine Belas Artes estrelado por Bruna Linzmeyer, Maria Galant, Juliana Lourenção, Sarah Motta e Brisa Marques. 

Produzido pela Novelo Filmes e distribuído pela Olhar Filmes e Filmes do Estação, o longa também chega ao circuito comercial depois de conquistar o Goes to Cannes Award 2025, durante o Marché du Film, e o Prêmio Netflix da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.


Na trama, Virgínia Heinzel (Bruna Linzmeyer), uma espécie de coach conhecida nas redes sociais, conduz um retiro que promete transformar mulheres em suas “melhores versões”. Germina (Maria Galant), Lorena Canolo (Juliana Lourenção), Bárbara Rossi (Sarah Motta) e Gorete (Brisa Marques) são selecionadas após uma palestra em que Virgínia esconde rosas embaixo das cadeiras. 

O que parece uma oportunidade de autoconhecimento, porém, logo revela regras cada vez mais rígidas. Virgínia é justamente uma das personagens mais interessantes porque não vende submissão de maneira explícita. Pelo contrário: fala em força, protagonismo e transformação. 


A ideia de que a mulher seria o “pescoço” e o homem, a “cabeça”, parece empoderadora até descobrirmos o que esse poder significa na prática: cozinhar, cuidar da casa, preparar tudo para o marido, aprender a tricotar e cumprir expectativas tradicionalmente associadas ao papel feminino. O velho modelo aparece com uma nova embalagem.

É aí que "Virtuosas" encontra sua melhor discussão: o patriarcado também pode sobreviver quando aprende a falar a linguagem do empoderamento. A ordem deixa de ser simplesmente “obedeça” e passa a ser “melhore”. Se você não consegue cumprir as expectativas, o problema passa a ser você. Em vez de questionar a estrutura, é preciso se adaptar a ela.


A jornalista Germina é quem começa a perceber essa contradição e questionar as regras do retiro. Ao mesmo tempo, a própria Virgínia nem sempre parece disposta a seguir aquilo que exige das participantes. 

A tão prometida “melhor versão” começa a parecer menos uma descoberta pessoal e mais um modelo pronto de mulher. A pergunta, então, se torna inevitável: se alguém já decidiu como você deve ser, que liberdade existe nessa transformação?

O terror funciona justamente porque o medo nasce de situações reconhecíveis. Não é necessário recorrer constantemente ao sobrenatural para provocar desconforto. O que assusta está nas relações de poder, na manipulação e na maneira como determinadas ideias podem ser apresentadas como cuidado, orientação ou autoconhecimento.


As próprias participantes ampliam essa discussão. Lorena, esposa de um deputado, recebe privilégios que as demais não têm, mostrando que até dentro de uma estrutura de controle existem diferentes níveis de poder. A regra, portanto, não é aplicada da mesma maneira para todas. Dependendo da posição social ocupada, algumas mulheres podem encontrar brechas que outras não têm.

É uma ideia interessante, mas também revela uma das limitações do filme. "Virtuosas" apresenta questões bastante provocadoras sobre fé, feminilidade, privilégio, manipulação e poder, porém nem sempre consegue aprofundar todas elas. Algumas ideias aparecem com força, mas são abandonadas antes de alcançar todo o potencial dramático.


O mesmo acontece com algumas personagens. Germina possui uma função clara dentro da investigação das contradições do retiro, enquanto Bárbara e Gorete poderiam ter conflitos próprios mais desenvolvidos. 

Em determinados momentos, elas acabam funcionando principalmente como representações de diferentes tipos de mulheres dentro daquele sistema. Dar maior espaço às experiências individuais dessas personagens poderia tornar o impacto do retiro ainda mais forte.

A comparação com "Corra!" (2017) faz sentido justamente pela aproximação com o terror social. Assim como no filme de Jordan Peele, o horror nasce menos de um monstro do que de relações sociais reconhecíveis que escondem algo perturbador. 


Em "Virtuosas", o perigo está justamente naquilo que parece familiar: alguém oferecendo acolhimento, transformação e uma suposta oportunidade de mudança enquanto, aos poucos, estabelece as regras que devem ser seguidas.

Mesmo com essas limitações, Cíntia Domit Bittar encontra no gênero uma maneira eficiente de discutir algo que ultrapassa o próprio terror. O filme não apresenta o patriarcado apenas como uma figura masculina autoritária, mas como uma estrutura capaz de se adaptar e mudar de discurso para continuar funcionando.

E essa talvez seja a parte mais incômoda do longa. Uma regra não deixa de ser regra porque foi apresentada como conselho. Controle continua sendo controle quando vem acompanhado de cuidado. E cobrança não se transforma automaticamente em liberdade apenas porque recebeu o nome de empoderamento.


O desfecho segue essa mesma lógica. É duro, brutal e não oferece um alívio fácil ao espectador. A escolha combina com uma narrativa que passou boa parte do tempo discutindo controle e violência, evitando transformar uma experiência tão incômoda em uma conclusão excessivamente confortável.

O roteiro poderia aprofundar melhor algumas das questões que levanta e dar mais complexidade a determinadas personagens, mas "Virtuosas" consegue deixar uma provocação que permanece depois dos créditos: talvez o verdadeiro terror não seja alguém dizer quem você deve ser, mas fazer você acreditar que essa escolha sempre foi sua.


Ficha técnica:
Direção:
Cíntia Domit Bittar
Produção: Novelo Filmes, coprodução Olhar Filmes
Distribuição: Filmes do Estação
Exibição: Cine Belas Artes
Duração: 1h26
Classificação: 16 anos
País: Brasil
Gêneros: Suspense, ficção, terror

18 abril 2026

“The Beauty - Lindos de Morrer”: o que você faria para ter beleza eterna?

Nova série de Ryan Murphy expõe o preço da perfeição em um mundo onde estética e imagem valem
mais que a alma (Fotos: Fox)
 
 

Robhson Abreu

 
Se você tivesse um visual não tão atraente, alguma enfermidade e soubesse que a indústria farmacêutica criou uma fórmula capaz de curar todos os males e ainda te deixar lindo (a), o que faria? Pagaria por essa fórmula milagrosa que custaria uma fortuna? E se soubesse que a fórmula poderia ser sexualmente transmissível, transaria por isso? Tudo em prol da beleza e aceitação social? 

Em tempos de medicamentos milagrosos para emagrecimento parece que a série "Lindos de Morrer" ("The Beauty"), do canal Fox e exibida na plataforma Disney+, não é tão fantasiosa.


Há séries que entretêm e outras que provocam. E, em se tratando de Ryan Murphy (“‘Glee”, "Pose" e "American Horror Story"), as duas sensações caminham juntas. O diretor manteve sua habilidade de trabalhar temas provocativos e universos estilizados, mas com um tom mais reflexivo, sem abrir mão do impacto visual que marca sua carreira.

"The Beauty" é uma série que seduz ao mesmo tempo em que desconforta. O roteiro é simples na superfície e brutal em suas implicações. 

Por meio de uma injeção ou por sexo, qualquer pessoa pode ficar extraordinariamente bonita. Em troca, um preço irreversível. O que poderia soar como fantasia logo se revela um comentário ácido sobre o mundo real.


Inspirada nos quadrinhos de Jeremy Haun e Jason A. Hurley, a narrativa acompanha os detetives Cooper Madsen (Evan Peters, da série "Mare of Easttown" - 2021) e Jordan Bennett (Rebecca Hall, de "Godzilla e Kong: O Novo Império" - 2024) que investigam uma possível conspiração entre o governo e a indústria farmacêutica para lucrar com a disseminação controlada da doença de “ser bonito”. 

Assim, eles investigam mortes que orbitam a fórmula chamada Beauty, enquanto tentam compreender como algo tão desejado pode esconder consequências tão devastadoras.


O elenco amplia a densidade da trama. Peters sustenta o protagonismo com um registro contido, quase silencioso, que cresce em tensão a cada episódio. Rebecca oferece um contraponto emocional, trazendo humanidade a uma história que poderia facilmente se tornar apenas conceitual. 

Entre os nomes de peso, Ashton Kutcher ("Jobs" - 2013) assume um papel central e perturbador, enquanto Isabella Rossellini ("Conclave" - 2024) imprime sofisticação e ambiguidade. O elenco conta ainda com Jeremy Pope ("A Inspeção" - 2022) e Anthony Ramos ("Twisters" - 2024), que ajudam a ampliar as camadas sociais e emocionais da narrativa.


Kutcher, como o ambicioso Byron Forst, acredita ter alcançado o que a humanidade sempre quis - a fonte da juventude e da beleza eterna. Mais do que um usuário da Beauty, ele se enxerga como alguém acima dela, quase um criador, alguém capaz de controlar e redefinir os padrões do mundo. 

Essa convicção o leva a ultrapassar limites morais com frieza, eliminando qualquer pessoa que represente ameaça ao seu projeto de poder. Há nele uma dimensão quase messiânica, distorcida por vaidade e ambição, que o aproxima da ideia de um “Deus da beleza”.


Ao mesmo tempo, a construção do personagem evita reduzi-lo a um vilão unidimensional. A narrativa revela fissuras. Quando os efeitos colaterais começam a se intensificar, especialmente entre aqueles contaminados pela transmissão sexual, surge outro lado. 

Aquele que observa as consequências fora de controle, que percebe a falha no sistema que acreditava dominar. É nesse ponto que o personagem expõe traços de humanidade, ainda que tardios, ainda que atravessados por culpa e desespero.


Uma nova IST?

Esse arco reforça um dos temas centrais da série. Beauty promete perfeição, mas escapa ao controle. A mesma tecnologia pode ser interpretada como uma espécie de Infecção Sexualmente Transmissível (IST), transmitida pelo contato íntimo que, ao contrário das doenças combatidas, desperta desejo coletivo. 

Em um mundo que ainda luta para controlar infecções como o HIV, a série inverte a lógica ao apresentar uma doença que muitos querem contrair. O risco deixa de ser evitado e passa a ser buscado. O contágio vira símbolo de status.


No entanto, o acesso seguro depende de um tratamento caro, aplicado por injeção, restrito a quem pode pagar. A tecnologia não é democrática. Para quem não tem recursos, resta uma alternativa informal e arriscada. 

Mas essa escolha cobra seu preço. Os efeitos colaterais funcionam como uma verdadeira caixa de surpresas. Em alguns casos, a transformação pode acontecer dentro do esperado. 

Em outros, o resultado foge completamente ao controle, revelando consequências físicas e emocionais imprevisíveis. A promessa de perfeição convive, o tempo todo, com a possibilidade de fracasso. O que nos faz querer maratonar a temporada.


A Beauty pode ou não dar certo. Essa incerteza sustenta a tensão da narrativa e amplia seu impacto simbólico. A promessa de perfeição vem acompanhada de instabilidade. Cada rosto impecável carrega a possibilidade de colapso.

Há também um diálogo interessante com o cinema recente. "The Beauty" ecoa, em certa medida, às inquietações de "A Substância" (2024), filme protagonizado por Demi Moore. Lembra? Além do conteúdo, a forma também se destaca. A trilha sonora contribui de maneira decisiva para a atmosfera da série. 

Os figurinos seguem a mesma estética, com peças elegantes e contemporâneas. Já as locações apostam em ambientes luxuosos, frios e controlados como clínicas, coberturas e espaços urbanos de alto padrão, que ajudam a construir um universo onde a beleza não é apenas atributo, mas capital.


A série de Murphy, com 11 episódios na primeira temporada, é precisa ao construir um mundo onde a beleza é quase um produto. A fotografia valoriza peles impecáveis, simetrias e brilhos artificiais, criando imagens que remetem a campanhas publicitárias. 

Ao mesmo tempo, há algo deslocado em cada enquadramento, como se aquela perfeição estivesse sempre prestes a se desfazer. 

Em um mundo de muitos influencers em que ser belo é condição nata, "The Beauty - Lindos de Morrer" é um espelho distorcido que reflete com clareza o presente. 

Assim Murphy levanta uma questão direta: você tomaria uma medicação para alcançar a beleza e a juventude eternas, mesmo sabendo dos seus possíveis efeitos colaterais?


Ficha técnica:
Direção: Ryan Murphy, Alexis Martin Woodall e Michael Uppendahl 
Produção: Fox
Exibição: Disney+ e FX/Hulu
Duração: 1ª temporada - 11 episódios, média de 40 minutos por episódio
Classificação: 18 anos
País: EUA
Gêneros: drama, policial, terror, suspense

26 março 2026

Leve capa de chuva, "Eles Vão Te Matar" e vai chover sangue

Zazie Beetz é a protagonista da carnificina que domina o filme do início ao fim, mesclada com muita
ação e humor ácido que agradam (Fotos: Warner Bros. Pictures)
 
 

Maristela Bretas

 
Estreia nesta quinta-feira (26) nos cinemas, com direito a muito sangue jorrando, cabeças e membros cortados e efeitos visuais absurdos, a comédia de terror "Eles Vão Te Matar" ("They Will Kill You"). Se "Casamento Sangrento: A Viúva" (2026) já agradou muitos fãs do gênero, esta nova produção vai deixar o público bem inquieto nas cadeiras do cinema, tamanha a violência e a matança. 

Ao mesmo tempo, os ataques são tão espantosos e sem noção que provocam risos e surpresa no espectador durante toda a trama. Sim, "Eles Vão te Matar" é uma comédia de terror com muita ação, com cenas que lembram a franquia "John Wick" (2014 a 2023), e os filmes "Deadpool" (2016) e "Kill Bill" (2003 e 2004). 

E mesmo com toda essa selvageria, o longa, de 95 minutos de duração, é uma boa surpresa e agrada.


A protagonista Asia Reaves (interpretada por Zazie Beetz, de "Coringa" (2019), "Deadpool 2" (2018) e "Trem Bala" (2022), é quase uma ninja que faz John Wick parecer um garoto de jardim de infância aprendendo a ser um assassino. 

Ela luta com facas, adagas, chaves de fenda; atira com revólver e escopeta - uma verdadeira especialista em armas. Fez curso completo de luta e tiro em 10 anos passados numa penitenciária de mulheres.


No filme, Asia e sua irmã Maria (Myha'la) tentam fugir do pai abusador e violento, mas tudo acaba errado e ela acaba presa. Cumprida a pena, Asia encontra emprego no centenário Hotel Virgil, em Nova York, onde vai descobrir que o luxo e a riqueza do local escondem uma seita satânica - e ela é o novo sacrifício. O que seus matadores não contavam era com a "experiência" da jovem em lidar com "situações de risco".

No elenco, temos ainda nomes conhecidos como Patrícia Arquette (a governanta Lilly), e os moradores permanentes e adoradores da entidade vividos por Tom Felton (Kevin), Heather Graham (Sharon), Paterson Joseph (marido de Lilly), entre outros.


Uma mistura de terror, ação e humor ácido que o diretor Kirill Sokolov soube mesclar bem, com cenas absurdas, deixando o filme eletrizante, sanguinário, mas que também provoca comentários, sustos e risadas - até mesmo quando os corpos são cortados ao meio. 

As cenas de lutas são sincronizadas e bem coreografadas, abusando do slow-motion, e a trilha sonora complementa a ação. Sokolov contou com a experiência de dois especialistas em terror na produção - Andy e Barbara Muschietti -, responsáveis pela série "IT: Bem-Vindos a Derry".


Além do banho de sangue da carnificina que deve ter acabado com o estoque da produtora, as mortes são épicas e cheias de surpresas (não vou dar spoiler!). E quando você acha que há um alívio em uma cena dramática ou outra, elas voltam com carga total, a cada andar do misterioso arranha-céu. 

Recomendo conferir no cinema para aproveitar melhor os efeitos visuais. E leve uma capa de chuva para se proteger dos respingos. "Eles Vão Te Matar" é um dos filmes de terror/comédia mais sangrentos, divertidos e melhores do ano até o momento.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Kirill Sokolov
Produção: New Line Cinema e Nocturna
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h35
Classificação: 18 anos
País: EUA
Gêneros: terror, comédia, ação

19 março 2026

Recomendo – "Casamento Sangrento: A Viúva" eleva o nível com mais terror, ação e pitadas cômicas

Samara Weaving volta a ser alvo de uma caçada mortal, desta vez ao lado da irmã
(Fotos: Searchlight Pictures)
 
 

Maristela Bretas

 
Depois de sobreviver a uma noite de núpcias nada convencional — repleta de sangue e violência intensa — Samara Weaving retorna ao papel de Grace MacCaulley em "Casamento Sangrento: A Viúva" ("Ready or Not 2: Here I Come"). Misturando terror, ação e comédia (o bom e velho “terrir”), o longa estreia nesta quinta-feira (19) nos cinemas.

A sequência retoma os acontecimentos finais do filme de 2019, "Casamento Sangrento". Grace volta a se ver envolvida no mortal jogo de “esconde-esconde”, agora fugindo da seita satânica ligada à família de seu falecido marido, os Le Domas. 

No longa original, ela havia sido oferecida como sacrifício em um ritual macabro e precisava sobreviver até o amanhecer.


Desta vez, porém, Grace não está sozinha. Ela conta com a ajuda da irmã mais nova, Faith (Kathryn Newton), com quem não tinha contato há anos. Juntas, as duas enfrentam uma nova caçada, agora promovida por outros integrantes do grupo.

Samara Weaving está ainda melhor, retomando com segurança e intensidade a protagonista que conquistou o público. Kathryn Newton também se destaca, entregando uma atuação convincente. 


A química entre as duas funciona tanto nos momentos de tensão familiar — marcados por mágoas do passado — quanto nas cenas de ação, quando precisam lutar pela própria sobrevivência. A partir daí, o sangue literalmente escorre pela tela e a violência atinge níveis ainda mais brutais.

O elenco conta também com Elijah Wood, no papel — literalmente — do “advogado do Diabo”; Shawn Hatosy (em ótima atuação) e Sarah Michelle Gellar como os irmãos Titus e Ursula Danforth, herdeiros do milionário Chester Danforth, líder da seita, vivido por David Cronenberg. Mesmo com participação pequena, o diretor e roteirista, aos 83 anos, tem presença marcante.


Completam o elenco Néstor Carbonell, como Ignacio El Caído, ao lado de seus filhos Felipe (Juan Pablo Romero) e Francesca (Maia Jae); Olivia Cheng, como a imponente Wan Chen Xing; Antony Hall, como Wan Cheng Fu; além dos irmãos Madhu (Varun Saranga) e Viraj Rajan (Nadeem Umar-Khitab).

Para os fãs do primeiro filme, a sequência deve agradar bastante, especialmente pelos efeitos visuais que elevam a violência a um nível quase absurdo — sem abrir mão de boas doses de humor.


"Casamento Sangrento: A Viúva" é ação intensa do início ao fim, com explosões de corpos e sangue espirrando para todos os lados. O diretor não poupa ninguém e mantém o ritmo acelerado até os minutos finais. Vale conferir nos cinemas.

Fica a dica: tente assistir também ao primeiro filme, disponível nas plataformas Netflix e Disney+.


Ficha técnica:
Direção:
Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett
Roteiro: Guy Busick, Ryan Murphy
Produção: Seachrlight Pictures
Distribuição: 20th Century Studios e Disney Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h48
Classificação: 18 anos
País: EUA
Gêneros: suspense, terror, comédia

16 março 2026

Brasil sai sem prêmios, mas ganha prestígio; “Uma Batalha Após a Outra” vence o Oscar 2026

Filme protagonizado por Leonardo DiCaprio teve disputa acirrada com "Pecadores" e "Frankenstein" em número de estatuetas conquistadas (Fotos: Divulgação)
 
 

Maristela Bretas

 
Com seis prêmios conquistados entre 13 indicações, incluindo o principal da noite, Melhor Filme, “Uma Batalha Após a Outra” foi o grande vencedor da 98ª edição do Oscar 2026. 

A produção, dirigida por Paul Thomas Anderson, também levou as estatuetas de Melhor Direção, Melhor Direção de Elenco, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Edição.

O segundo filme mais premiado da noite foi “Pecadores”, que liderava a lista de indicações com 16 nomeações, mas só levou quatro estatuetas. As duas produções são da Warner Bros. Pictures.

Na sequência, em número de prêmios o vencedor foi “Frankenstein”, da Netflix, com três. Apesar de contar com cinco indicações, o Brasil não venceu em nenhuma categoria.

"Uma Batalha Após a Outra"
(Crédito: Warner Bros Pictures)

Cerimônia

A cerimônia começou com uma montagem reunindo cenas dos filmes indicados a Melhor Filme. Em seguida, o comediante Conan O’Brien, fantasiado de Gladys Lilly — personagem de Amy Madigan em “A Hora do Mal” — surgiu fugindo de um grupo de crianças, em referência a uma cena do longa.

Ao chegar ao palco do Dolby Theatre, em Los Angeles, já sem a fantasia, o apresentador iniciou oficialmente a transmissão, apresentando cada um dos indicados com comentários bem-humorados e irônicos.

"A Hora do Mal"
(Crédito: Warner Bros. Pictures)

A primeira estatueta da noite foi entregue por Zoe Saldana, que anunciou Amy Madigan como vencedora de Melhor Atriz Coadjuvante em "A Hora do Mal". 

A atriz também revelou o ganhador de Melhor Animação, “Guerreiras do K-Pop”, produção que já vinha acumulando prêmios ao longo da temporada. 

Na categoria Melhor Curta de Animação, o vencedor foi “The Girl Who Cried Pearls”, animação canadense em stop-motion.

O primeiro número musical da cerimônia foi “I Lied to You”, do filme “Pecadores”, cuja apresentação encantou a plateia ao reproduzir fielmente uma das cenas do longa.

"Guerreiras do K-Pop"
(Crédito: Netflix)


“Frankenstein” também marcou presença ao conquistar três prêmios técnicos: Melhor Direção de Arte, Melhor Figurino e Melhor Maquiagem e Cabelo.

Wagner Moura, Gwyneth Paltrow, Delroy Lindo e Chase Infiniti entregaram o prêmio de Melhor Direção de Elenco, categoria que estreou nesta edição do Oscar. A vencedora foi Cassandra Kulukundis, por “Uma Batalha Após a Outra”. Essa era uma das categorias nas quais o Brasil concorria.

Um dos momentos curiosos da noite aconteceu na categoria Melhor Curta-Metragem, que terminou em empate — algo raro na história do Oscar. As estatuetas foram para o norte-americano “The Singers” e para a produção franco-americana “Two People Exchanging Saliva”.

Sean Penn - "Uma Batalha Após a Outra"
(Crédito: Warner Bros. Pictures)

Kieran Culkin anunciou o vencedor de Melhor Ator Coadjuvante, prêmio concedido a Sean Penn, por “Uma Batalha Após a Outra”. O ator não compareceu à cerimônia.

Os atores Chris Evans e Robert Downey Jr. entregaram o prêmio de Melhor Roteiro Adaptado a Paul Thomas Anderson, também diretor do filme vencedor da noite. Na categoria Melhor Roteiro Original, sem grandes surpresas, Ryan Coogler venceu por “Pecadores”.

"Pecadores"
(Crédto: Warner Bros. Pictures)

Homenagens póstumas

Como em edições anteriores, o Oscar prestou homenagem aos profissionais do cinema falecidos em 2025. Billy Crystal conduziu o momento inicial, lembrando o diretor Rob Reiner e sua esposa, Michele Singer Reiner. 

Rachel McAdams falou sobre as perdas femininas no cinema, destacando especialmente Diane Keaton, de quem era amiga pessoal.

Barbra Streisand emocionou o público ao lembrar o amigo e parceiro Robert Redford, com quem atuou no clássico “Nosso Amor de Ontem” (1973). Ela destacou a importância do ator dentro e fora das telas e encerrou a homenagem cantando “The Way We Were”, música vencedora do Oscar na época.

"Frankenstein"
(Crédito: Netflix)

Sigourney Weaver e Pedro Pascal também participaram da cerimônia com uma apresentação bem-humorada sobre extraterrestres no cinema, com direito à presença de Groku na plateia. 

Eles anunciaram o prêmio de Melhor Direção de Arte, vencido por “Frankenstein”. Já “Avatar: Fogo e Cinzas” conquistou Melhores Efeitos Visuais.

O polêmico e emocionante “Quartos Vazios” venceu Melhor Documentário em Curta-Metragem, prêmio anunciado por Jimmy Kimmel, que também revelou o vencedor de Melhor Documentário, “Mr. Nobody Against Putin”.

"Avatar: Fogo e Cinzas"
(Crédito: 20th Century Studios)

“Pecadores” levou sua segunda estatueta ao vencer Melhor Trilha Sonora Original. O prêmio foi entregue pelas atrizes Kristen Wiig, Maya Rudolph, Melissa McCarthy e Rose Byrne, que também anunciaram “F1 – O Filme” como vencedor de Melhor Som.

A quarta estatueta de “Uma Batalha Após a Outra” foi entregue por Bill Pullman e seu filho, Lewis Pullman, na categoria Melhor Edição.

Demi Moore anunciou Autumn Durald como vencedora de Melhor Fotografia por “Pecadores”, tornando-se a primeira mulher negra a conquistar o prêmio. Ela foi aplaudida de pé por diversas mulheres presentes na plateia. O brasileiro Adolpho Veloso também concorria na categoria por seu trabalho em “Sonhos de Trem”.

"F1 - O Filme"
(Crédito: Warner Bros Pictures)

Ao lado de Priyanka Chopra, Javier Bardem iniciou sua participação pedindo o fim da guerra e destacando a importância da Palestina. Em seguida, anunciou “Valor Sentimental” como vencedor de Melhor Filme Internacional, superando o brasileiro “O Agente Secreto”.

Lionel Richie subiu ao palco para confirmar “Golden”, da animação “Guerreiras do K-Pop”, como Melhor Canção Original, garantindo a segunda estatueta para a produção.

Paul Thomas Anderson também venceu Melhor Direção, prêmio entregue por Robert Pattinson e Zendaya, consolidando “Uma Batalha Após a Outra” como o grande destaque da noite.

"O Agente Secreto"
(Crédito: Cinemascópio Produções)

O prêmio de Melhor Ator ficou com Michael B. Jordan, por sua dupla atuação em “Pecadores”. O brasileiro Wagner Moura também estava entre os indicados, ao lado de Leonardo DiCaprio.

Na categoria Melhor Atriz, Jessie Buckley foi premiada por sua atuação em “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”.

Por fim, Ewan McGregor e Nicole Kidman anunciaram o momento mais esperado da noite: “Uma Batalha Após a Outra” como Melhor Filme do Oscar 2026, encerrando a cerimônia consagrando a produção como a grande vencedora da edição.

Jessie Buckley - “Hamnet: A Vida Antes
de Hamlet” (Crédito:  Focus Feature)

Confira os vencedores por categoria:

MELHOR FILME
"Uma Batalha Após a Outra"

MELHOR DIREÇÃO
Paul Thomas Anderson - "Uma Batalha Após a Outra"

MELHOR ATRIZ
Jessie Buckley - "Hamnet: A Vida Antes de Hamlet"

MELHOR ATOR
Michael B. Jordan - "Pecadores"


MELHOR FOTOGRAFIA
"Pecadores"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Amy Madigan - "A Hora do Mal"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Sean Penn - "Uma Batalha Após a Outra"

MELHORES EFEITOS VISUAIS
"Avatar: Fogo e Cinzas"

MELHOR ANIMAÇÃO
"Guerreiras do K-Pop"

"Quartos Vazios"
(Crédito: Divulgação)

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Quartos Vazios"

MELHOR SOM
"F1 - O Filme"

MELHOR EDIÇÃO
"Uma Batalha Após a Outra"

MELHOR DOCUMENTÁRIO
"Mr. Nobody Against Putin"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Frankenstein"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Golden', de "Guerreiras do K-Pop"


"Valor Sentimental"
(Crédito: Mubi)

MELHOR FILME INTERNACIONAL
"Valor Sentimental" - Noruega

MELHOR FIGURINO
"Frankenstein"

MELHOR DIREÇÃO DE ELENCO
Cassandra Kulukundis - "Uma Batalha Após a Outra"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Pecadores"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Uma Batalha Após a Outra"

MELHOR CURTA-METRAGEM (empate)
"The Singers"
"Two People Exchanging Saliva"

MELHOR ANIMAÇÃO DE CURTA-METRAGEM
"The Girl Who Cried Pearls"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL
"Pecadores"

MELHOR MAQUIAGEM E CABELO
"Frankenstein"

"Sonhos de Trem"
(Crédito: Netflix")

05 março 2026

NÃO É NÃO – "A Noiva" surpreende ao defender os direitos das mulheres em tempos de Frankenstein

Christian Bale e Jessie Buckley entregam ótimas atuações e formam um casal que chega a ser simpático
aos olhos do público (Fotos: Warner Bros. Pictures)
 
 

Maristela Bretas

 
Maggie Gyllenhaal foi extremamente ousada ao escrever e dirigir "A Noiva" ("The Bride!), apostando forte no feminismo sem levantar bandeiras explícitas, mas deixando bem claro, nos diálogos e nas atitudes revolucionárias da protagonista, a revolta contra o desprezo, a violência e o descaso aplicados às mulheres.

Mostrando realidades que nós, mulheres, vivemos diariamente, a diretora abusa do burlesco sem ser vulgar e da violência crua envolvendo os personagens principais. Como diria o parceiro do blog, Marcos Tadeu, do @jornalistadecinema: “se 'Coringa: Delírio a Dois' (2024) tivesse seguido este caminho, seria arrasador”.


A escolha de Jessie Buckley ("A Filha Perdida" - 2021, também escrito e dirigido por Maggie Gyllenhaal) para interpretar a Noiva de Frankenstein foi outro grande acerto da produção. 

Ao lado dela, Christian Bale entrega uma excelente atuação e a sincronia do casal funciona muito bem. O público chega a torcer por eles, mesmo com toda a loucura da relação.

A atriz está impecável, assim como em "Hamnet - A Vida Antes de Hamlet", forte candidato ao Oscar 2026 de Melhor Filme. Ela também entra na disputa por uma estatueta como Melhor Atriz.


O filme começa em Chicago, na década de 1930, e acompanha a história de origem da Noiva, uma jovem assassinada ressuscitada nos mesmos moldes de Frankenstein.

Cansado da solidão, o famoso monstro procura a Dra. Euphronius (Annette Bening) para criar uma companheira para ele, saída do mundo dos mortos. Juntos, eles trazem a jovem de volta à vida, nascendo assim a criatura batizada de “A Noiva”, uma mulher revolucionária, além do seu tempo.

Numa época marcada pela violência, pela criminalidade e, especialmente, pelo desprezo às mulheres, o estranho casal vive uma paixão além do tempo — selvagem e explosiva — recheada de ação, mortes e fugas alucinantes.


Um Road movie que prende do início ao fim, sem perder a coerência. Com um fator que explica, já nos primeiros minutos de exibição, as mudanças repentinas de humor e comportamento da Noiva.

A diretora reforça sua posição de defensora feminista ao creditar à escritora Mary Shelley — autora de Frankenstein — o motivo de o filme ser protagonizado por uma mulher e reforçar tanto seus direitos. 

A protagonista usa até mesmo a frase, tão atual, “NÃO É NÃO” quando os abusos acontecem, mesmo colocando sua sobrevivência e a de seu parceiro em risco.


Não bastassem os direitos violados da Noiva, outras mulheres vivem a mesma situação, como a detetive Myrna Mallow, interpretada pela ótima Penélope Cruz. Num mundo totalmente dominado pelos homens — o da polícia —, ela precisa conviver com situações constrangedoras. 

Como ser chamada de secretária pelo colega detetive Jake Wiles (Peter Sarsgaard) e ver suas ordens serem ignoradas por outros policiais, só por ser mulher.

Christian Bale entrega um Frankenstein diferente, que quer alguém para dividir a vida. Apaixonado e romântico, ele também mostra que pode deixar seu lado cruel aflorar se sua amada estiver em perigo.


E quem disse que monstro não pode ser sensível e ter bom gosto? O maior prazer de Frankie é assistir a musicais no cinema de um ator que acompanha há anos — Ronnie Reed, papel de Jake Gyllenhaal —, numa clara referência a Fred Astaire. O filme, inclusive, faz referências a outros dançarinos famosos de Hollywood na época.

“A Noiva” acerta em vários quesitos — direção, roteiro, efeitos visuais, maquiagem e cabelo, elenco excelente e trilha sonora, entregue à compositora premiada Hildur Guðnadóttir. Tem tudo para concorrer a várias premiações este ano e disputar um Oscar em 2027. 

Gostei muito do longa de Maggie Gyllenhaal. A roteirista e diretora deu um olhar diferente e mais ousado para a história da noiva de Frankenstein, já contada em várias outras produções. Vale conferir. 


Ficha técnica:
Direção: Maggie Gyllenhaal
Produção: First Love Films e In The Current Company
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h07
Classificação: 16 anos
País: EUA
Gêneros: ficção, drama, terror, suspense, romance