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19 maio 2026

Primeiros dias de Cannes: "Fatherland", "Ceniza en La Boca" e outros destaques do festival

Entrada do Festival de Cinema de Cannes (Crédito: Carolina Cassese)
 
 

Carolina Cassese
Correspondente em Cannes

 
A 79ª edição do Festival de Cannes, que se encerra dia 23 de maio, tem movimentado a Croisette com grandes estreias internacionais. Em 12 de maio, a abertura do evento contou com a estreia de "La Vénus Électrique", comédia dramática assinada por Pierre Salvadori e ambientada na Paris dos anos 1920. A cerimônia também ficou marcada pela homenagem a Peter Jackson, que recebeu a Palma de Ouro honorária por sua icônica trajetória. 

A edição de 2026 presta homenagem a "Thelma & Louise" (1991), clássico de Ridley Scott que retrata o percurso de duas amigas pelos Estados Unidos. O longa inspira a identidade visual oficial do festival neste ano, 35 anos após sua estreia em Cannes. Assim, a presença feminina – e a ideia de resistência – já está marcada na imagem principal do evento.

Ao fim da primeira semana, alguns filmes começam a se destacar entre crítica e público, embora muitos outros longas ainda tenham suas estreias previstas para os próximos dias.

Cartaz de “Thelma e Louise (Crédito: Carolina Cassese)

Entre as produções que mais chamaram atenção neste início de festival destacamos "Fatherland", de Paweł Pawlikowski; "L’Abandon", de Vincent Garenq; "Ceniza en la boca", de Diego Luna; e "Mémoire de Fille", de Judith Godrèche. 

Outras estreias que repercutiram bastante foram "Histoires Parallèles", novo filme de Asghar Farhadi apresentado em competição; o horror "Teenage Sex and Death at Camp Miasma", de Jane Schoenbrun; e "Club Kid", primeiro filme de Jordan Firstman na direção. 

A seguir, apresentamos destaques de algumas das obras que conseguimos assistir e acompanhar a conferência de imprensa:


"Ceniza en la boca" — Diego Luna
Adaptado a partir do romance de Brenda Navarro ("Cinzas na Boca", publicado no Brasil pela editora Dublinense), o filme acompanha Lucila e seu irmão, jovens mexicanos que transitam entre a Cidade do México, Madri e Barcelona após anos de separação da mãe. 

A obra explora questões de pertencimento e relações familiares atravessadas por diversos empecilhos. A première foi marcada por um clima bastante emocionante e contou com a presença de Gael García Bernal, um dos produtores do filme, além de Alfonso Cuarón, outro grande nome do cinema mexicano. 

Diego Luna abraça Alfonso Cuarón em Cannes
(Crédito: Carolina Cassese)

O filme destaca a repetição como uma forma de elaboração do luto; determinadas imagens e até mesmo falas são frequentemente retomadas pela personagem principal, reforçando as oscilações emocionais características de processos complexos. 

Nesse sentido, ressaltamos que o próprio título da obra atribui uma dimensão menos “racional” aos acontecimentos, aproximando a narrativa de experiências subjetivas e espirituais. 

Destaca-se ainda a importância de ver cineastas latino-americanos adaptando obras de escritoras da região, movimento que amplia a circulação internacional dessas narrativas. 


Ficha técnica:
Direção: Diego Luna
Duração: 1h42
País: México
Gênero: drama

"Fatherland" — Paweł Pawlikowski
O novo filme de Pawlikowski acompanha Thomas Mann e sua filha Erika em uma viagem pela Alemanha do pós-guerra, confrontando os efeitos persistentes do nazismo e das divisões ideológicas da Guerra Fria. 

Durante a conferência de imprensa do longa, o diretor, conhecido por "Ida" e "Cold War", comentou que chegou a considerar filmar a obra em cores, mas acabou optando pela fotografia em preto e branco por acreditar que essa estética estaria mais próxima da verdade de seu projeto. 

Saída da coletiva de imprensa de “Fatherland”
(Crédito: Carolina Cassese)

Na mesma coletiva, Sandra Hüller, indicada ao Oscar de Melhor Atriz por "Anatomia de uma Queda" (2024), refletiu sobre o papel no novo filme e afirmou carregar uma culpa histórica ligada à Segunda Guerra Mundial. 

Nesse sentido, a atriz reforçou a importância de manter o sentimento presente, inclusive como uma forma de responsabilidade social. Ressaltamos que a recepção crítica de Fatherland tem sido bastante positiva: o The Times, por exemplo, destacou a densidade emocional e intelectual da obra; por sua vez, o Daily Telegraph chamou atenção para a direção precisa de Pawlikowski e a fotografia de Łukasz Żal.


Ficha técnica:
Direção: Pawel Pawlikowski
Duração: 1h22
Países: Alemanha, Polônia, Itália, França, Reino Unido
Gênero: drama

"L’Abandon" — Vincent Garenq
Exibido fora de competição, o filme é inspirado nos últimos dias do professor Samuel Paty antes de seu assassinato em 2020, em um contexto marcado pelo crescimento de tensões religiosas e a desinformação presente nas redes sociais. A obra acompanha o isolamento progressivo do professor diante de tensões institucionais e falhas que antecedem a tragédia.

Nesse processo, o filme se destaca pela forma como trabalha o olhar das crianças diante de assuntos extremamente sérios, criando um contraste forte entre a espontaneidade infantil e planos arquitetados de maneira brutal. A história é muito bem construída e consegue prender a atenção justamente por desenvolver essa tensão de forma gradual ao longo da narrativa. 


Embora trate de um caso específico do contexto francês, o filme também dialoga com uma questão muito mais ampla e presente em diferentes partes do mundo: a rapidez com que discursos de ódio se propagam por meio das plataformas digitais. 

É muito possível, por exemplo, estabelecer um paralelo entre o filme e a série "Adolescência" (2025), da Netflix, que também aborda como as relações sociais têm sido profundamente afetadas por ambientes digitais caracterizados pela instantaneidade e desinformação.


Ficha técnica:
Direção: Vincent Garenq
Duração: 1h40
País: França
Gênero: drama

"Mémoire de Fille" — Judith Godrèche ("Un Certain Regard")
Inspirado no romance autobiográfico de Annie Ernaux, vencedora do Nobel de Literatura de 2022, o filme revisita lembranças da juventude feminina a partir de uma narrativa não linear, explorando a reconstrução subjetiva de um verão que a francesa passou em um acampamento. 

Apesar do desafio de adaptar uma obra marcada pela introspecção, o filme consegue transmitir reflexões muito presentes na escrita de Ernaux, em especial no que diz respeito ao diálogo entre experiência pessoal e coletiva. 

A incorporação de marcos históricos importantes, como a repercussão de "O Segundo Sexo", obra mais célebre de Simone de Beauvoir, também reforça essa dimensão mais ampla da narrativa. 


Além disso, chama atenção a sensibilidade com que o filme aborda experiências corporais femininas, incluindo alterações no período menstrual e o impacto dos transtornos alimentares na vida de uma adolescente. 

Destaca-se ainda o fato de que o olhar da protagonista para outras mulheres ocupa um papel importante no filme: inicialmente marcado por insegurança e sensação de ameaça, seu ponto de vista passa gradualmente a buscar referências de inspiração. 

Esse é um exemplo de como o cinema consegue acrescentar diferentes camadas às narrativas, já que, nessas cenas, nada precisa ser verbalizado pela personagem para que sua transformação se torne perceptível.


Ficha técnica:
Direção:
Judith Godrèche
Duração: 1h17
País: França
Gênero: drama

No que diz respeito à programação completa deste ano, vale ressaltar que não há um longa dirigido por um cineasta brasileiro na seleção oficial do festival. Ainda assim, o país marca presença em 2026 com uma das maiores delegações da década, reunindo profissionais do audiovisual, produtores, distribuidores e representantes da indústria cinematográfica em diferentes espaços do evento. 

As vitórias de "O Agente Secreto" no ano passado – Melhor Direção (Kleber Mendonça Filho) e Melhor Ator (Wagner Moura) – também foram importantes para consolidar ainda mais a presença do cinema brasileiro no cenário internacional. 

Agora, resta acompanhar os próximos lançamentos de 2026 e torcer para que histórias de contextos diversos sigam encontrando espaço no circuito cinematográfico.


Ruas de Cannes durante o Festival de Cinema (Crédito: Carolina Cassese)