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23 julho 2026

Cine Humberto Mauro realiza mostra com a filmografia completa de Akira Kurosawa até 16 de agosto

Retrospectiva exibe 30 longas e conta com sessões comentadas por especialistas (Crédito: Akira Kurosawa)
 
 

Da Redação

 
O Cine Humberto Mauro realiza mostra dedicada a exibir a filmografia completa de Akira Kurosawa (1910-1998), considerado um dos principais cineastas do Japão. 

A programação inclui sessões comentadas por especialistas e 30 filmes emblemáticos do realizador, como “Rashomon”, (1950), “Os Sete Samurais” (1954), “Trono Manchado de Sangue” (1957), “Dersu Uzala” (1975) e “Ran” (1985), formando um panorama da carreira de Kurosawa ao longo de seis décadas e de séculos da história japonesa. 

A mostra segue até o dia 16 de agosto, com entrada gratuita, sendo a retirada de ingressos antecipados na plataforma Sympla; e  a partir de 1 hora antes de cada exibição, na bilheteria principal do Palácio das Artes.

(Dersu Uzala)

A mostra começou no dia 16 de julho com uma exibição do filme “A Fortaleza Escondida” (1958), épico de aventura, ação, drama e humor que se Inspira nos faroestes do diretor hollywoodiano John Ford. Logo depois,  houve a abertura oficial com uma apresentação de Taiko com o Grupo Raiki Daiko, nos jardins internos do Palácio das Artes. 

A noite se encerrou com a sessão de “Yojimbo, o Guarda-Costas” (1961), seguida por comentário do professor e pesquisador José Ricardo Miranda Júnior – haverá tradução simultânea para a Língua Brasileira de Sinais. 

"Yojimbo, o Guarda-Costas"

A mostra segue com mais sessões comentadas, oferecendo ao público a oportunidade de aprofundar o diálogo com os filmes ao explorar aspectos históricos, estéticos e temáticos que ajudam a iluminar a riqueza da obra de Kurosawa. 

Nesta segunda semana da mostra, no dia 24 de julho (sexta-feira), às 18h30, “O Idiota” (1951) será comentado pelo crítico e pesquisador João Paulo Campos. 

Dia 28 (terça-feira), às 19h, a curadora Layla Braz conversa com o público sobre “Não Lamento Minha Juventude” (1946). Fechando as sessões comentadas, o cineasta Affonso Uchoa participa da exibição de “Dodeskaden - O Caminho da Vida” (1970), às 16h do dia 1º de agosto (sábado).

“Dodeskaden - O Caminho da Vida”

Cineasta inspirador

Com curadoria de Vitor Miranda, programador do Cine Humberto Mauro, a mostra propõe uma aproximação com a obra de Akira Kurosawa a partir de suas múltiplas dimensões: sua relação com a cultura japonesa, sua inventividade formal e sua capacidade de transformar questões humanas específicas de seu país de origem – moral, honra, poder, memória, justiça, violência e responsabilidade coletiva – em experiências cinematográficas de alcance universal. 

Considerado um dos diretores mais influentes da história do cinema, Akira Kurosawa nasceu em Tóquio e viveu uma trajetória que acompanhou o surgimento e a consagração do cinema como forma de arte. 

"O Idiota"

Durante sua infância, o pai levava a família ao cinema para assistir a filmes internacionais, e seu irmão mais velho, Heigo, tornou-se um benshi — narrador que acompanhava ao vivo a exibição de filmes mudos —, com a companhia frequente de Akira. 

Após um período atuando como pintor, ativista e entusiasta da literatura no grupo clandestino Liga dos Artistas Proletários, Kurosawa respondeu, em 1936, a um anúncio de vagas para assistentes de direção no estúdio P.C.L. Film Studios. 

"Não Lamento Minha Juventude"

Lá, trabalhou como aprendiz por sete anos sob a tutela do cineasta Kajiro Yamamoto antes de dirigir seu primeiro longa-metragem, “A Saga do Judô” (1943), aos 33 anos. 

Inspirando-se no teatro, em suas obras favoritas da literatura japonesa e internacional e em cineastas como Sergei Eisenstein, D.W. Griffith e Abel Gance, Kurosawa fundiu essas influências na criação de uma linguagem cinematográfica autoral que seria desenvolvida até seu último filme, a comédia dramática “Madadayo” (1993), lançado quando o cineasta tinha 83 anos.

"Os Sete Samurais"

Arte marcial japonesa

Impulsionado pelo interesse no kendo – arte marcial tradicional japonesa de combate com a espada – durante a infância e pelas conexões familiares de seu pai com samurais reais, Kurosawa destacou-se no gênero jidai-geki com alguns dos épicos de samurai mais reverenciados de todos os tempos — histórias ambientadas no Japão feudal e diversos outros períodos. 

Ele aplicou o mesmo virtuosismo visual e a narrativa de grande proporção aos seus dramas contemporâneos – gênero gendai-geki –, incluindo “O Anjo Embriagado” (1948) e “Viver” (1952).

"Trono Manchado de Sangue"

Fonte de inspiração para diversos cineastas ocidentais, como Sidney Lumet, Sam Peckinpah, Sergio Leone, Spike Lee e George Lucas – que bebeu de “A Fortaleza Escondida” para criar “Star Wars” (1977) –, Kurosawa está presente também em uma das animações mais queridas de todos os tempos – “Vida de Inseto”, dirigida por John Lasseter e produzida pela Pixar, que tomou emprestada a trama de “Os Sete Samurais”.

A primeira fase significativa da carreira do diretor ocorreu no pós-Segunda Guerra Mundial com “O Anjo Embriagado” e “Cão Danado”, filmes noir que inauguraram sua longa colaboração com o ator Toshiro Mifune – parceiros em 16 filmes no total. 

"A Fortaleza Escondida"

No início da década de 1950, Kurosawa alcançou fama mundial com “Rashomon”, um marco na narrativa não-linear que despertou o interesse internacional pelo cinema japonês. 

Nos anos seguintes, ele manteve um diálogo frutífero com o Ocidente, inspirando-se em autores canônicos como Shakespeare e Dostoiévski, mas também em escritores contemporâneos como Dashiell Hammett. 

Na década de 1960, Kurosawa mudou o foco para obras mais sombrias e pessimistas, situadas no ambiente urbano, como “Céu e Inferno” (1963) e “O Barba Ruiva” (1965), que encerraram sua colaboração com Mifune. 

Nos anos 1970, ele enfrenta uma crise, com a fraca bilheteria de “Dodeskaden - O Caminho da Vida”. Porém, é premiado com o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira por “Dersu Uzala” (que Kurosawa já havia ganho por “Rashomon”), feito em parceria com a produtora soviética Mosfilm. 

“Rashomon”

Na década de 80, com o apoio dos cineastas estadunidenses George Lucas e Francis Ford Coppola, o diretor segue com obras internacionalmente reconhecidas, centrados na queda de figuras heroicas e poderosas, como “Kagemusha, a Sombra de um Samurai” (1980), ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes, e Ran – indicado aos Oscars de Melhor Direção, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte, e vencedor do Oscar de Melhor Figurino.  

Nos anos 90, o cineasta encerra a carreira com “Sonhos” (1990), “Rapsódia em Agosto” (1991) e “Madadayo” — obras contemplativas que fazem um uso tido como visionário das cores. 

"Sonhos"

A programação inclui ainda a exibição do documentário “Uma Mensagem de Kurosawa” (2000), de Hisao Kurosawa, filho do cineasta. A obra revisita a trajetória do realizador por meio de imagens de arquivo, depoimentos e reflexões sobre seu processo criativo.

Com uma filmografia marcada por sequências de ação cuidadosamente coreografadas e uso dramático do clima, Kurosawa foi influenciado e inspirou, em um processo recíproco, o cinema ocidental. 

Mas ele é também lembrado por colocar tais elementos a serviço de uma constante investigação da condição humana, o que o torna parte de uma linhagem de cineastas humanistas que encontraram no cinema uma maneira de observar o mundo e compreender as complexidades da experiência humana.

"Ran"

SERVIÇO:
Data: até 16 de agosto
Local: Cine Humberto Mauro – Palácio das Artes (Avenida Afonso Pena, 1537, Centro – Belo Horizonte)
Classificações indicativas: variáveis
Programação completa no site: www.cinehumbertomauromais.com/programacao
Entrada: gratuita; 50% dos ingressos estarão disponíveis, de forma on-line, a partir do meio-dia da data das sessões, na plataforma Sympla; o restante será distribuído presencialmente na bilheteria principal do Palácio das Artes e nos totens, a partir de 1 hora antes de cada exibição.
Sessão da Meia-Noite: acontece mensalmente, em exibição única, na madrugada de sexta-feira para sábado. Para essa sessão, metade dos ingressos estará disponível de forma on-line a partir das 18h do dia da sessão, pela plataforma Sympla. O restante ficará disponível no Totem de Autoatendimento localizado no hall do Cine Humberto Mauro - uma hora antes da sessão. 

16 julho 2026

"A Odisseia": Christopher Nolan transforma um clássico em um espetáculo monumental

Diretor supera os próprios limites em seu filme mais grandioso, gravado em seis países, totalmente em
IMAX (Fotos: Universal Pictures)
 
 

Maristela Bretas

 
Christopher Nolan reúne novamente um elenco estelar para entregar uma obra épica em todos os sentidos: duração, elenco, efeitos visuais e, ainda, o fato de ser o primeiro longa-metragem totalmente filmado em IMAX 15/65 mm.

Falo de “A Odisseia” (“The Odyssey”), em cartaz nos cinemas a partir desta quinta-feira. O diretor e roteirista de sucessos como "Oppenheimer" (2023), "Dunkirk" (2017), "Interestelar" (2014) e "Batman – O Cavaleiro das Trevas" (2008) mostra, mais uma vez, que consegue se superar a cada nova produção.

“A Odisseia” é um espetáculo visual e sonoro que prende o público do início ao fim, mesmo com quase três horas de duração. O IMAX é utilizado com maestria por Nolan, que prometeu recorrer minimamente à Inteligência Artificial — algo que, ao que tudo indica, foi cumprido. 


O filme, escrito e dirigido por Nolan, é baseado no poema épico da Antiguidade atribuído ao poeta grego Homero. O diretor segue de perto a narrativa original, alternando a trajetória de Odisseu e suas aventuras com a vida de Penélope e Telêmaco, que permanecem em Ítaca à espera de seu retorno.

Além da imponência visual, Nolan demonstra grande cuidado na construção de uma narrativa envolvente. Mesmo quem não conhece esse clássico da literatura consegue acompanhar o enredo sem dificuldade, já que as experiências dos personagens vão se encaixando como peças de um quebra-cabeça até a conclusão da história.


Matt Damon, em ótima atuação, interpreta o rei grego Odisseu (ou Ulisses, nome dado pelos romanos), comandante do grupo de soldados que utiliza o gigantesco cavalo de madeira para entrar em Troia e destruir a cidade e seu exército.

A trama começa após essa vitória e acompanha a longa jornada de Odisseu e seus homens para retornar à ilha de Ítaca e reencontrar suas famílias depois de 20 anos afastados — dez deles lutando na Guerra de Troia e o restante tentando voltar para casa.

É uma jornada marcada por novas batalhas contra criaturas da mitologia grega, como o ciclope Polifemo, filho de Poseidon; a feiticeira Circe (Samantha Morton, grande destaque do filme), que transforma humanos em animais; as sereias; e a misteriosa Calipso (Charlize Theron, que poderia ter sido melhor aproveitada).


Odisseu está disposto a enfrentar tudo isso para reencontrar a esposa Penélope (Anne Hathaway) e o filho Telêmaco (Tom Holland), que nunca conheceu. Também precisa recuperar seu trono, cobiçado por dezenas de pretendentes vindos de toda a Grécia, entre eles Antínoo (Robert Pattinson), decidido a se casar com a rainha e ocupar o poder.

O elenco de peso conta ainda com Zendaya (Athena), Elliot Page (Sinon), Jon Bernthal (Menelau), Lupita Nyong’o (Helena de Troia), Bill Irwin (voz do ciclope Polifemo), Mia Goth (Melanto), Himesh Patel (Euríloco), Ben Safdie (Agamenon) e John Leguizamo (o servo cego Eumeu), entre outros.


Não espere, porém, um filme sentimental. Pelo contrário: Nolan expõe a frieza humana tanto nas batalhas campais quanto nas ações dos personagens, levando até mesmo o herói a questionar seus princípios e o sentido da guerra diante de tanta crueldade.

Se a narrativa impressiona, o trabalho técnico eleva ainda mais o filme. A fotografia de Hoyte van Hoytema aproveita ao máximo o formato IMAX para criar imagens de impacto, explorando a beleza das locações e a imponência das batalhas. 

A trilha sonora de Ludwig Göransson confere emoção e intensidade na medida certa, enquanto a montagem mantém o ritmo fluido mesmo em uma produção de quase três horas. 


O desenho de som, aliado aos efeitos visuais discretos e ao uso predominante de recursos práticos, faz com que o espectador se sinta dentro da jornada de Odisseu, transformando a sessão em uma experiência cinematográfica envolvente.

Com orçamento estimado em US$ 250 milhões e filmagens realizadas em seis países — Marrocos (que representa Troia), Grécia, Islândia (o submundo de Hades), Escócia, Itália (palco da ilha de Ítaca) e Estados Unidos —, “A Odisseia” é uma obra cinematográfica monumental e ambiciosa, à altura do próprio Christopher Nolan, e merece ser vista em IMAX.

Uma coisa é certa: o longa entra desde já como fortíssimo candidato a várias estatuetas do Oscar 2027.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Christopher Nolan
Produção: Universal Pictures, Syncopy
Distribuição: Universal Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h52
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: ação, aventura, fantasia

06 julho 2026

"Mestres do Universo" - "Pelos poderes de Grayskull... Eu tenho a força!"

He-Man devolve a infância aos fãs, mas também prova que nostalgia sozinha não sustenta um reino,
ainda mais Eternia (Fotos: Sony Pictures)
 
 

Robhson Abreu
Parceiro do Jornal de Belô e Revista PQN

 
Muito antes de os super-heróis dominarem as plataformas de streaming e as bilheterias do cinema, um guerreiro de cabelos loiros, espada em punho e força sobre-humana já mobilizava milhões de crianças brasileiras diante da televisão. 

Exibido diariamente no "Xou da Xuxa", na segunda metade da década de 1980, He-Man e os Mestres do Universo transformou-se em um dos maiores fenômenos de audiência da programação infantil brasileira. 

O sucesso foi tão avassalador que ultrapassou as telas, impulsionou a venda de brinquedos, álbuns de figurinhas e inspirou uma canção gravada pelo grupo infantil Trem da Alegria que, até hoje, permanece viva na memória afetiva de quem cresceu naquela época.

He-Man, o guardião musculoso e bronzeado de Eternia, já ocupava um lugar privilegiado no imaginário de uma geração que transformou o príncipe Adam, o Castelo de Grayskull, Mentor, Teela, a Feiticeira e o temido Esqueleto e sua gangue em personagens inesquecíveis. 

He-Man, série animada de TV (Reprodução)

Quase quatro décadas depois, essa mesma geração, hoje formada por homens e mulheres acima dos 50 anos, volta a encontrar seus heróis nas telonas com o aguardado live-action de "Mestres do Universo" ("Masters of the Universe"), em cartaz nos cinemas da rede Cineart.

Reviver um clássico da cultura pop nunca é tarefa simples. A memória afetiva costuma ser implacável com qualquer adaptação. O diretor Travis Knight ("Bumblebee", 2018) demonstra desde a primeira sequência que conhece o peso dessa responsabilidade. 

Em vez de apostar apenas no apelo nostálgico, constrói uma aventura que respeita o legado da animação e, ao mesmo tempo, entrega um espetáculo visual compatível com as grandes produções contemporâneas. 

Eternia finalmente ganha a grandiosidade que os fãs imaginaram durante décadas, com cenários monumentais, figurinos ricos em detalhes e efeitos especiais que valorizam o universo criado pela Mattel.


O roteiro, assinado por Chris Butler ("Link Perdido", 2019), em parceria com David Callaham ("Homem-Aranha no Aranhaverso", 2018), além dos irmãos Aaron e Adam Nee ("A Cidade Perdida", 2022), preserva a essência dos personagens enquanto atualiza a narrativa para um público mais amplo. 

Algumas passagens poderiam ser mais desenvolvidas e certos conflitos se resolvem com rapidez excessiva, mas a história encontra um bom equilíbrio entre ação, emoção e fidelidade ao material original.

Boas atuações

Nicholas Galitzine ("Uma Ideia de Você", 2024), dublado em português por Garcia Júnior (voz original do herói na TV) entrega um Príncipe Adam convincente e um He-Man fisicamente imponente, transmitindo a evolução do jovem herdeiro até assumir plenamente o papel de defensor de Eternia. 


Mas quem domina boa parte da narrativa é Jared Leto ("Casa Gucci", 2021). Seu Esqueleto está ótimo, reunindo sarcasmo, inteligência e uma presença ameaçadora que transforma cada aparição em um dos grandes momentos do filme. 

O vilão acaba roubando a cena em diversos momentos, confirmando que grandes aventuras também dependem de antagonistas memoráveis.

O elenco de apoio também merece destaque. Idris Elba ("O Esquadrão Suicida", 2021) imprime autoridade, experiência e carisma ao Mentor de Armas, tornando Duncan um dos personagens mais sólidos da produção. 

Sua interpretação transmite a confiança de quem conhece cada batalha travada em Eternia e entende o peso de preparar o verdadeiro campeão de Grayskull, o tímido príncipe Adam.


Outro nome que chama a atenção do público brasileiro é Camila Mendes ("Música", 2024). Filha de pais brasileiros, a atriz assume o papel de Teela com personalidade, coragem e protagonismo. Sua personagem está longe de ocupar uma posição secundária. 

Ela participa das principais sequências de ação, demonstra independência e estabelece uma relação convincente com Adam, tornando-se uma das figuras mais importantes da narrativa.

Morena Baccarin ("Deadpool & Wolverine", 2024) empresta elegância e serenidade à Feiticeira de Grayskull, enquanto Alison Brie ("Bela Vingança", 2020) constrói uma Maligna fria, calculista, lora e ambiciosa, ampliando o clima de tensão que envolve a disputa pelo destino de Eternia.


Em busca da espada do poder

O rei Randor, interpretado por James Purefoy (série "Pennyworth", 2019–2022), e a rainha Marlena, vivida pela atriz Charlotte Riley (minissérie "Peaky Blinders", 2014), enviam Adam aos 10 anos para a Terra, a fim de protegê-lo da invasão liderada por Esqueleto. 

Em um portal mágico aberto pela Feiticeira, o jovem príncipe viaja em uma dimensão e acaba caindo em Oklahoma City, nos Estados Unidos. Durante a travessia, a Espada do Poder se separa dele, e esse é o acontecimento que desencadeia toda a história. 

Quinze anos depois e já com 25 anos de idade, Adam usa o nome Glenn. Ele trabalha no setor de recursos humanos de uma empresa e divide um apartamento com o desconfiado Hussein interpretado por Christian Vunipola ("Nascida Para Cantar", 2024). 

Diariamente ele procura na internet o rumo da Espada do Poder para voltar a Eternia, até encontrá-la e se meter em confusões. 


Ao voltar para casa, Glenn/Adam é perseguido pelo Homem-Fera, interpretado pelo ator Gary Martin ("Minions", 2015). Fiel escudeiro de Esqueleto, ele persegue o príncipe pelas ruas da cidade é uma das principais sequências de ação da primeira parte do filme. E é justamente nesse momento que a bela Teela reaparece para salvar Adam e ajudá-lo a retornar a Eternia.

Esse é um dos principais diferenciais do filme em relação ao desenho do Xou da Xuxa. Na animação, Adam sempre viveu em Eternia e já era o príncipe do reino. No live-action, os roteiristas optaram por construir uma história de origem, mostrando o herói crescendo longe de seu planeta natal antes de assumir definitivamente a força de He-Man. 

Os fãs mais antigos certamente perceberão a ausência de alguns personagens fundamentais na animação original. O tigre Pacato aparece pouco durante o filme até sua aguardada transformação em Gato Guerreiro. 

Embora a escolha prepare o terreno para os próximos capítulos da franquia, fica a sensação de que um dos personagens mais carismáticos de Mestres do Universo merecia maior participação. 


Outro que aparece somente no final do longa é o atrapalhado Gorpo. O pequeno mago, inseparável companheiro de He-Man em praticamente toda a série animada dos anos 1980, sequer integra a aventura principal. 

Para quem acompanhou o desenho desde a infância, sua ausência provoca estranhamento e deixa evidente que a produção preferiu guardar personagens importantes como estratégia para uma futura continuação. Com certeza ele daria maior leveza à história com suas confusões.

Boa trilha sonora

Outro acerto importante em Mestres do Universo está na trilha sonora composta por Daniel Pemberton ("Enola Holmes", 2020, e "Ferrari", 2023). Em vez de viver apenas das lembranças da série animada, o compositor cria uma identidade própria para o filme, alternando momentos épicos e passagens mais emocionais que ampliam a força dramática da história. 

O principal destaque é "Eternia", composta por Pemberton em parceria com o guitarrista Brian May. A faixa abre o filme e ganha uma versão estendida nos créditos finais. O solo de guitarra de May dá à música uma identidade que remete ao rock épico dos anos 1980, uma escolha inspirada na trilha de Flash Gordon (1980), também marcada pela participação do Queen.


Ainda assim, fica a sensação de uma oportunidade perdida. Para o público brasileiro, especialmente aquele que hoje integra a geração 50+, uma discreta homenagem à música composta por Michael Sulivan e Paulo Massadas e gravada pelo Trem da Alegria teria sido um presente inesquecível. A canção ajudou a popularizar He-Man no Brasil e permanece viva na memória afetiva de milhões de fãs. 

Bastaria uma breve referência instrumental, talvez durante os créditos finais, para estabelecer uma conexão emocional ainda mais forte com quem descobriu os heróis de Eternia nas manhãs da eterna rainha dos baixinhos. Nas redes sociais, a Amazon MGM Studios soltou um trailer com a música He-Man, o que levou muito marmanjo aos cinemas.

A produtora fez uma aposta ambiciosa ao investir em uma franquia que marcou profundamente a infância de milhões de pessoas. O resultado demonstra que ainda existe espaço para grandes clássicos quando recebem planejamento, respeito ao material original e qualidade técnica. 

O estúdio deixa claro que pretende transformar "Mestres do Universo" em uma nova franquia cinematográfica.


Vale a pena permanecer na sala até o encerramento completo dos créditos. A cena extra não está ali apenas para cumprir uma tradição de Hollywood. Ela abre caminho para uma continuação e apresenta um importante gancho envolvendo Adora, a irmã gêmea de Adam, a She-Ra, que luta pela honra de Grayskull. 

Isso ampliará o universo da franquia, além de deixar evidente que novas aventuras já fazem parte dos planos da Amazon MGM Studios, embora a confirmação oficial dependa muito do desempenho nas bilheterias e do streaming.

"Mestres do Universo" está longe de ser apenas um exercício de nostalgia. O filme emociona quem cresceu repetindo o juramento diante da Espada do Poder, mas também apresenta esse universo para uma nova geração que só conhece a música do Trem da Alegria. 

Talvez essa seja sua maior qualidade. Mostrar que alguns heróis envelhecem muito bem e que certas lembranças continuam tão poderosas quanto no primeiro dia em que entraram na nossa vida.


Ficha técnica:
Direção: Travis Knight
Produção: Amazon MGM Studios
Distribuição: Sony Pictures
Exibição: salas da rede Cineart: Boulevard, Cidade e Del Rey
Duração: 2h13
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: ação, aventura, fantasia

25 junho 2026

"Supergirl": nem Milly Alcock nem o adorável Krypto conseguem salvar uma heroína sem roteiro

Super-heroína inspiradora que marcou os quadrinhos estreia nova versão nas telonas (Fotos: DC Studios)
 
 

Maristela Bretas

 
Depois do bom recomeço promovido por "Superman", a DC Studios dá um passo atrás com "Supergirl", que estreia hoje nos cinemas. Desta vez, quem acaba prejudicada é justamente a prima do Homem de Aço. 

A talentosa Milly Alcock, destaque da série "A Casa do Dragão", entrega uma atuação convincente, mas esbarra em uma personagem difícil de conquistar o público.

O maior problema não está na atriz, e sim na construção de Kara. Em vez da heroína inspiradora que marcou os quadrinhos e outras adaptações para a TV e o cinema, surge uma jovem amarga, impulsiva e movida quase exclusivamente pela vingança. 

Em diversos momentos, suas atitudes se aproximam mais das de uma vilã do que das de uma super-heroína. Confesso que, para mim, Melissa Benoist continua sendo a melhor intérprete da personagem.


Quem realmente rouba a cena é Krypto. O fiel e atrapalhado cão de Kara é, de longe, o elemento mais divertido do filme. Sempre que aparece, quebra o clima pesado da narrativa e conquista facilmente a simpatia do público. 

Se existe um verdadeiro protagonista carismático nesta produção, ele tem quatro patas. e tem sua origem revelada no filme.

A trama ganha algum fôlego com a chegada de Ruthye Marye Knoll (Eve Ridley), uma jovem que também busca vingança. A relação entre as duas movimenta a história, embora o roteiro não aprofunde suficientemente suas motivações.


Entre os personagens masculinos, Superman (David Corenswet) faz uma participação importante ao conectar os acontecimentos deste filme aos de "Superman" (2025), dirigido por James Gunn, onde Supergirl apareceu pela primeira vez neste novo universo.

Do lado dos vilões, Matthias Schoenaerts ("Operação Red Sparrow" - 2018) interpreta Krem com competência, ainda que sem grandes surpresas e com características pouco marcantes. Já Jason Momoa retorna ao universo da DC em um papel diferente. 


Depois de viver o herói em "Aquaman" (2018), agora assume o personagem Lobo, um caçador de recompensas intergaláctico de visual extravagante e garras afiadas. A mudança soa forçada, e Momoa praticamente repete o mesmo estilo irreverente e desleixado que costuma apresentar em outros personagens.

O roteiro também decepciona. A história aposta em longas sequências de ação, excesso de computação gráfica e efeitos digitais para sustentar uma narrativa que oferece poucas novidades. As cenas de pancadaria ocupam boa parte do tempo, mas pouco acrescentam ao desenvolvimento dos personagens, tornando o filme repetitivo e previsível.


Curiosamente, enquanto "Superman" optou por suavizar a violência, "Supergirl" segue o caminho oposto. Kara demonstra uma crueldade que chega a incomodar, especialmente para quem conhece a personagem dos quadrinhos. 

Como uma das minhas heroínas preferidas da DC, esperava encontrar uma protagonista mais humana, inspiradora e empática, não alguém capaz de matar.

A trilha sonora, por outro lado, merece destaque. "Garota de Ipanema" volta a marcar presença, acompanhada de outras boas escolhas musicais que ajudam a criar alguns dos melhores momentos da produção.


No fim das contas, "Supergirl" certamente vai dividir opiniões. Milly Alcock faz o que pode com o material que recebeu, enquanto Krypto conquista o público sem esforço. Mas isso não basta para esconder um roteiro frágil e uma protagonista que perdeu justamente a principal qualidade que sempre a diferenciou: o carisma. 

Se quiser consolidar seu novo universo cinematográfico, a DC precisará rever alguns conceitos antes dos próximos filmes de seus heróis.

Obs. O filme não tem cenas pós créditos.


Ficha técnica:
Direção: Craig Gillespie
Produção: DC Studios
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h50
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: ação, aventura, ficção

11 maio 2026

“O Gênio do Crime”: aventura divertida aposta no carisma dos detetives mirins

Gordo, Edmundo, Pituca e Beré formam o quarteto que vai investigar a falsificação de figurinhas da
Copa do Mundo (Fotos: Pivô Audiovisual)
 
 

Maristela Bretas

 
“O Gênio do Crime”, que estreia nesta quinta-feira nos cinemas, aposta na combinação de aventura, mistério, humor e amizade para conquistar o público infantojuvenil — e também os adultos que cresceram acompanhando histórias de detetives mirins. 

Adaptado da clássica obra literária de João Carlos Marinho, o longa apresenta a Turma do Gordo em uma investigação cheia de reviravoltas envolvendo a falsificação de uma figurinha rara do álbum da Copa do Mundo de 2026.


A trama acompanha João, mais conhecido como Gordo (Francisco Galvão), Edmundo (Samuel Estevam) e Pituca (Breno Kaneto), trio inseparável que ganha o reforço da inteligente e destemida Berenice, a Beré (Bella Alelaf). 

Juntos, eles tentam descobrir quem está produzindo as figurinhas falsas que ameaçam levar à falência a editora Escanteio, comandada pelo Sr. Tomé, personagem de Ailton Graça.

Na tentativa de salvar a empresa, Sr. Tomé acaba se unindo aos adolescentes, que também contam com a ajuda — nem sempre eficiente — do famoso detetive televisivo Mister Mistério, interpretado por Marcos Veras. 


Convencido de que não precisa de ninguém para solucionar casos, o personagem rende alguns dos momentos mais engraçados do filme, funcionando como um alívio cômico que conversa bem com o público infantil.

Ambientado em São Paulo, o longa segue uma linha semelhante à de “Detetives do Prédio Azul” (D.P.A.), fenômeno criado por Flávia Lins e Silva para a TV e posteriormente levado aos cinemas. Assim como na produção carioca, aqui o protagonismo infantil é o grande motor da narrativa, conduzindo uma investigação repleta de pistas, suspeitos e descobertas.


Cada integrante do grupo possui características bem definidas. Gordo é inteligente, curioso e apaixonado por histórias de investigação, especialmente pelo programa de Mister Mistério. Edmundo é o atleta da turma, fanático por futebol e figurinhas, além de ser justamente quem encontra a rara figurinha do Vini Jr., prêmio que garante assistir à final da Copa do Mundo. 

Já Pituca se destaca pelo jeito atrapalhado, carismático e sempre bem-humorado, responsável por boa parte das situações cômicas. A chegada de Beré traz equilíbrio ao grupo: ela é corajosa, observadora e rapidamente se torna peça fundamental na solução do caso.


Os jovens atores funcionam muito bem juntos. Têm naturalidade, carisma e falam diretamente com o público da mesma faixa etária, tornando crível a dinâmica dos “detetives mirins”. O filme acerta especialmente ao construir personagens que se comportam como adolescentes reais, com inseguranças, disputas, amizades e descobertas típicas da idade.

Dirigido por Lipe Binder e produzido por Tiago Mello, “O Gênio do Crime” consegue equilibrar aventura, suspense, ação e humor em um ritmo leve e acessível. 

Ao mesmo tempo, aborda temas importantes sem perder o tom divertido, como a transição da infância para a adolescência, o bullying relacionado ao peso de João, os primeiros interesses amorosos e as mudanças naturais nas amizades.


O elenco conta ainda com atores conhecidos da TV e do cinema que garantem o suporte necessário para a obra: Douglas Silva, Rafael Losso, Marcelo Goes, Fafá Rennó, Favel Andrade, Estevam Nabote, Thelmo Fernandes e Larissa Nunes.

Mesmo sendo um filme essencialmente familiar, há uma cena específica que sugere um crime que pode assustar crianças menores. Ainda assim, o saldo é bastante positivo. 

Com uma narrativa ágil, personagens simpáticos e clima de sessão da tarde, “O Gênio do Crime” tem potencial para iniciar uma nova franquia nacional voltada ao público jovem — algo raro e necessário no cinema brasileiro atual.


Ficha técnica:
Direção: Lipe Binder
Roteiro: Ana Reber
Produção: Boutique Filmes, coprodução com a Globo Filmes e Paris Entretenimento
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h30
Classificação: 10 anos
País: Brasil
Gêneros: aventura, ação, infantojuvenil

07 maio 2026

“Mortal Kombat 2” entrega lutas brutais e nostalgia gamer sem pedir desculpas

Sequência traz Karl Urban no papel de Johnny Cage, personagem conhecido da franquia que foi resgatado
pelo novo roteirista (Fotos: New Line Cinema)
 
 

Maristela Bretas

 
Passados cinco anos desde o lançamento do primeiro filme, estreia nesta quinta-feira nos cinemas Mortal Kombat 2, sequência feita sob medida para agradar aos fãs da clássica franquia dos videogames. E ela sabe exatamente o que quer entregar: violência exagerada, nostalgia e lutas coreografadas como se o controle estivesse nas mãos do público.

Desta vez, o protagonismo sai de cena para dar espaço ao ex-lutador e ator decadente Johnny Cage, vivido por Karl Urban. Mesmo em baixa na carreira, Cage é convocado para integrar os guerreiros da Terra na batalha final contra o impiedoso Shao Kahn, interpretado por Martyn Ford, que ameaça destruir o Reino da Terra e escravizar seus habitantes.


Personagem clássico dos games, Johnny Cage foi resgatado pelo novo roteirista, Jeremy Slater, que substituiu a dupla Dave Callaham e Greg Russo, responsável pelo longa de 2021 (disponível no HBO Max). A mudança funciona muito bem. 

Cage mantém o perfil debochado, arrogante e narcisista dos games, sempre se achando o homem mais bonito do grupo, mas que faz de tudo para escapar da pancadaria.

A valentia só aparece quando perde de seus inseparáveis óculos escuros de astro dos anos 1990. Karl Urban entende perfeitamente o tom do personagem e transforma Cage no grande alívio cômico do filme. 


Seus comentários absurdos arrancam risadas constantes, inclusive dos próprios companheiros de equipe, que frequentemente parecem tão incrédulos quanto o público diante das besteiras que ele fala.

A trama começa após Shao Kahn conquistar dois reinos. Agora, o Reino da Terra é o próximo alvo. Para dominar tudo, porém, ele precisa vencer o torneio Mortal Kombat contra os guardiões liderados por Raiden e reforçados pelo imprevisível Johnny Cage.

Além de Urban, o elenco ganha duas novidades importantes: Adeline Rudolph, como a princesa Kitana, e Tati Gabrielle, no papel de Jade, guerreira fiel ao exército de Shao Kahn. Até mesmo Ed Boon cocriador do game, faz uma rápida participação para agradar aos fãs mais atentos.


O diretor Simon McQuoid também retorna, acompanhado de boa parte do elenco do primeiro longa: Lewis Tan (Cole Young), Tadanobu Asano (Lord Raiden), Hiroyuki Sanada (Hanzo Hasashi/Scorpion), Joe Taslim (Bi-Han/Sub-Zero), Jessica McNamee (Sonya Blade), Josh Lawson (Kano), Ludi Lin (Liu Kang), Mehcad Brooks (Jax), Damon Herriman (Quan Chi), Chin Han (Shang Tsung), Desmond Chiam (Rei Jerrod, entre outros.

E ninguém deve se apegar demais às mortes do filme anterior. Assim como nos jogos, personagens ressuscitam sem cerimônia — embora nem todos retornem do lado certo da luta.


O sangue continua sendo protagonista absoluto. Decapitações, corpos esmagados, crânios destruídos e litros de violência gráfica transformam “Mortal Kombat 2” em um dos filmes mais brutais inspirados em videogames dos últimos tempos. 

Ainda assim, o longa encontra espaço para equilibrar o exagero com humor e fan service. As cenas de luta são o grande destaque. Coreografadas com precisão quase cirúrgica, elas reproduzem movimentos clássicos dos games e evocam a nostalgia dos fliperamas para quem cresceu nos anos 1990 tentando decorar fatalidades.


Simon McQuoid também aproveita muito bem os recursos de IMAX, principalmente no desenho de som e nos efeitos visuais. Há detalhes escondidos em cenários, golpes e enquadramentos que os jogadores mais antigos certamente vão identificar antes mesmo da batalha final começar. E, claro, a icônica música-tema da franquia aparece no momento certo para incendiar a sessão.

“Mortal Kombat 2” não está preocupado em construir uma narrativa complexa ou profunda. Sua missão é entregar entretenimento barulhento, violento e nostálgico — e nisso o filme acerta em cheio.

A franquia, aliás, está longe de terminar. Os produtores já confirmaram o desenvolvimento do terceiro longa, mantendo diretor e roteirista. Agora resta esperar pelo próximo round. Confira o filme e comente aqui o que achou.


Ficha técnica:
Direção:
Simon McQuoid
Roteiro: Jeremy Slater
Produção: New Line Cinema e Broken Road Productions
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h56
Classificação: 18 anos
País: EUA
Gêneros: aventura, ação