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28 maio 2026

"A Revolução dos Bichos" revela que não há limites nem escrúpulos para adaptações

Animação dirigida por Andy Serkis é uma repaginação piorada da obra de George Orwell (Fotos: Angel Studios)
 
 

Silvana Monteiro

 
Com estética peculiar e diálogos estranhamente bestializados "A Revolução dos Bichos" ("Animal Farm") se distancia da essência crítica criada por George Orwell e se aproxima de uma versão piorada da própria obra que pretendia revisitar. 

A animação, que estreou nesta quinta-feira nos cinemas, revela-se um produto moldado para impacto imediato, amplificado por sombras excessivas e frases feitas muito mais para vídeos curtos do que para o cinema. 

O romance original discute como um grupo de animais organiza um novo sistema baseado em igualdade e justiça coletiva. Aos poucos, porém, o ideal revolucionário passa a ser ameaçado pela ascensão autoritária de dois animais de uma espécie, os quais concentram o poder e transformam o local em um regime totalitário. 

Já no filme dirigido por Andy Serkis a situação se inverte quando a fazenda é vendida e os animais vão ser retirados dela. 


Nesse ponto, a tirania é bem estética e a escolha de inserir Lucky como ponto afetivo revela justamente esse movimento. O filme parece desconfiar da inteligência das pessoas e cria uma âncora emocional didática para conduzir o espectador por uma narrativa que, no livro, dispensava mediações tão evidentes, influenciando na perda da força visceral da história. Obviamente que é legal ter um contraponto afetivo, mas no contexto dessa adaptação, fica muito simplista.

Há ainda uma contradição curiosa na própria aparência da animação. Em muitos momentos, a animação lembra produções infantis genéricas dos anos 1990, revestidas por um acabamento tosco. O filme alterna entre humor escatológico, referências contemporâneas e discursos políticos, sem representar uma obra tecnicamente bem equilibrada.


Essa indecisão também atravessa Napoleon o porco que lidera a distorção dos objetivos de um grupo. No livro, ele era assustador justamente porque compreendia o poder como administração fria e absoluta da realidade. Aqui, surge quase como caricatura performática. Até a manipulação ideológica perde sofisticação: slogans substituem contradições; frases de efeito ocupam o espaço onde antes havia reflexão político-social. 

Talvez o aspecto mais interessante do filme seja involuntário. Esta adaptação parece menos uma leitura de Orwell e mais um retrato da atual dificuldade de lidar com profundidade sem convertê-la em entretenimento acelerado. 


No fim, o ponto positivo desta animação é que, de tão previsível e espetacularizada, mesmo quem nunca leu o livro ou nunca viu as demais adaptações, vai conseguir assistir e talvez, querer de fato ler a obra original para contrapor ou confirmar algo visto no filme.

O roteiro de "A Revolução dos Bichos" deixa a história pouco atrativa para crianças e abobada demais para adultos. É um filme que nos mostra a incapacidade de limites para adaptações. Adaptar não é o problema, como fazer isso de forma mais interessante? Fica a pergunta.


Ficha técnica:
Direção: Andy Serkis
Produção: Angel Studios, Aniventure, Cinesite e The Imaginarium Studios
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h36
Classificação: 10 anos
Países: Reino Unido, Canadá e EUA
Gêneros: animação, fantasia