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Obra dirigida por Cacá Diegues que consagrou Zezé Motta é relançada nos cinemas de mais de 23 cidades brasileiras (Fotos: Divulgação) |
Patrícia Cassese
É sempre uma boa notícia quando um título icônico da cinematografia brasileira volta em cartaz com cópia restaurada. O exemplo da vez é “Xica da Silva”, um clássico. Dirigido por Cacá Diegues, com Zezé Motta no papel da mítica personagem, o filme - lançado em 1976 – foi, conforme informam os créditos iniciais deste relançamento, restaurado digitalmente em resolução 4K.
Vinte e três cidades brasileiras vão exibir esta versão remasterizada. O filme poderá ser conferido em BH nas salas do Cine Belas Artes e do Centro Cultural Unimed-BH Minas.
Dentro da diretriz de evitar a manipulação dos materiais originais em película, o processo utilizou arquivos digitais. Sendo esses provenientes do escaneamento do negativo original de imagem em 35mm, que, informa a produção, à época do processamento, apresentava sujeiras, fungos e rasgos de todos os rolos. Os louros da iniciativa cabem à Sessão Vitrine Petrobrás.
Detalhes técnicos à parte, o filme é daqueles que dispensam muitas apresentações, principalmente aqui, em Minas, visto se tratar de uma história hoje bastante conhecida (ainda que apontamentos vejam graves distorções no retratamento dessa mulher, filha de um homem branco de origem portuguesa e uma africana), ambientada na segunda metade do século XVIII, nas proximidades do Arraial do Tijuco – hoje, Diamantina.
O ponto de partida é a chegada, na região, de João Fernandes de Oliveira (Walmor Chagas), novo contratador de diamantes nomeado pelo regente, preocupado com possíveis desvios na extração do ouro e de diamantes em plagas locais.
Não demora e o contratador é impactado pela beleza e sensualidade da figura da escrava Xica da Silva – sim, você sabe, vivida pela diva Zezé Motta -, a ponto de logo querer comprá-la. Os dois se tornam publicamente amantes, desafiando o tradicionalismo e o preconceito vigente à época.
Obstinado, João Fernandes não poupa esforços para satisfazer os caprichos da sedutora moça, a começar por lhe conceder a almejada carta de alforria – o que, vale dizer, não permite a Xica da Silva o livre acesso a todos os lugares frequentados pela elite branca.
Mais que isso, o contratador manda trazer perucas e tecidos dos mais caros para Xica da Silva, além de emular um mar, para que ela, assim, possa ter a sensação de uma viagem de barco.
Em se tratando de um filme feito há 50 anos, naturalmente alguns aspectos certamente vão provocar uma certa estranheza, mesmo para aqueles que o revisitaram mais amiúde. É pertinente supor que, se fosse filmado hoje, o próprio tom interpretativo dos atores seria distinto – mesmo lembrando que Diegues optou por um tom farsesco.
Portanto, é necessário pensar “Xica da Silva” como um documento importante da produção cinematográfica brasileira dos anos 1970, em tempos nos quais os recursos eram – óbvio – mais limitados.
Um documento, que, por seu turno, se empenha em flagrar um período extremamente doloroso da história brasileira, o da escravidão, quando seres humanos violentamente tirados de seus países de origem eram separados de suas famílias e trazidos em condições sub-humanas para o Brasil, sendo comercializados, escravizados e, diante de patrões contrariados, submetidos a rituais de tortura inenarráveis, alguns dos quais aparecem sublinhados na tela, numa representação que busca explicitar – para o público de 1976, assim como para o de agora - o horror.
Por outro lado, a ambição da escrava que usa de sua sexualidade para catapultar sua posição na sociedade incomoda bastante, principalmente por, de acordo com alguns historiadores, não corresponder aos fatos. Aqui, não cabe estender no quesito figura histórica X personagem tecida pelo imaginário, embora uma pesquisa aprofundada em sites confiáveis possa ser proveitosa.
A própria historiadora e escritora Mary del Priore lançou, este ano, pela Editora José Olympio, obra no qual desmonta a imagem hiper sexualizada de Xica da Silva: “Meu Nome é Francisca: Uma História de Chica da Silva” (em tempo: a grafia com ch é considerada historicamente como a correta).
Com o olhar de que a história real não corresponde ao mito, o espectador, pois, pode rever o filme atentando-se para o talento incontestável de Zezé Motta, aproveitando para rever grandes atores que já partiram, como José Wilker e Walmor Chagas – para não falar da presença em cena de Elke Maravilha, linda. Além de relembrar uma das grandes produções de Cacá Diegues, falecido em 2025.
Como assinalamos, é um filme icônico, um documento. E que bom, então, que volta em cartaz nos cinemas marcando a importância da preservação da memória.
Ficha técnica:
Direção: Cacá Diegues Roteiro: Cacá Diegues e João Felício dos Sanros
Distribuição: Vitrine Filmes
Exibição: Cine Belas Artes e Centro Cultural Unimed-BH Minas
Duração: 1h47
Classificação: 16 anos
País: Brasil
Ano: 1976 (RELANÇAMENTO)
Gêneros: comédia, história






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