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21 abril 2026

“Michael” acerta ao transformar espetáculo em emoção

Jaafar Jackson entrega a grande aposta do filme ao interpretar o tio com precisão (Fotos: Universal Pictures)
 
 

Robhson Abreu e Maristela Bretas
Parceiro da Revista PQN, Jornal de Belô e Bloco de Belô


Há filmes que procuram apenas contar uma história. Outros tentam reconstruir um mito. "Michael", no entanto, vai além dessas missões. O longa, dirigido por Antoine Fuqua (responsável por sucessos como a trilogia "O Protetor" 2014, 2018 e 2023 e "Sete Homens e um Destino" - 2016), estreou nesta terça-feira (21) nos cinemas brasileiros e mira no centro de uma das figuras mais complexas e influentes da cultura pop. 

O que se vê é uma tentativa de devolver a Michael Jackson aquilo que o tempo, a fama e o próprio excesso de reverência muitas vezes lhe roubaram, sua dimensão humana. E é aí que o filme encontra sua força mais rara. Não apenas no brilho do ícone, mas na dor, na solidão e na pulsação íntima de um artista que se tornou maior do que a própria imagem.


O grande triunfo da produção, que custou mais de US$ 155 milhões, está na atuação de Jaafar Jackson, sobrinho de Michael e filho de Jermaine, o irmão mais velho e um dos integrantes da primeira geração do The Jackson 5. 

Em sua primeira grande passagem pelo cinema, Jaafar não interpreta o tio como quem reproduz um repertório de gestos conhecidos pelo mundo inteiro, ele o encarna com uma entrega que impressiona pela precisão e pela emoção. 


Há no seu trabalho uma combinação difícil de alcançar como a semelhança física, o domínio corporal, a respiração cênica, o olhar que alterna insegurança e magnetismo. Jaafar não copia Michael. Ele o reconstrói por dentro e dá ao personagem uma presença que vai além da lembrança nostálgica. Seu desempenho carrega o peso de uma herança monumental, mas também a coragem de não se esconder atrás dela.

Nos momentos musicais, Jaafar parece habitar um território em que técnica e encantamento se confundem. A dança não surge como truque, e sim como linguagem. A voz, embora inevitavelmente comparada à do artista original, não soa como simples reprodução. Ela tenta captar o espírito de uma assinatura vocal que moldou gerações. 


Mas é nas passagens mais silenciosas que o ator encontra sua maior potência. Quando o filme desacelera e deixa o espetáculo em segundo plano, Jaafar revela um Michael mais vulnerável, quase ferido pela própria grandeza. É nesses instantes que a performance ganha densidade dramática e faz o filme respirar.

O elenco de apoio também sustenta bem essa construção. Colman Domingo ("Rustin" - 2024), como Joe Jackson, imprime peso e tensão à narrativa, sem jamais diluir a sombra paterna que marcou a trajetória do cantor. Sua presença em cena tem autoridade e desconforto na medida certa. 


Nia Long ("The Banker", 2020) como Katherine Jackson, oferece um contraponto de ternura e resistência, emprestando ao núcleo familiar uma delicadeza que impede o filme de se tornar apenas um desfile de traumas.

Destaque também para Juliano Krue Valdi, que interpreta Michael criança, um garoto muito fofo que deu o tom certo ao personagem no período do surgimento do The Jackson 5. Cada coadjuvante, à sua maneira, ajuda a compor o ambiente em que o cantor e compositor foi forjado, pressionado e, muitas vezes, esmagado.

"Michael" dialoga diretamente com a cultura pop. O filme não trata apenas de um astro, mas de um fenômeno que moldou linguagem, imagem, coreografia, moda e comportamento. Michael Jackson não foi apenas um cantor, ele foi uma gramática estética que atravessou décadas e segue influenciando o entretenimento mundial. 


Revisitá-lo no presente é também uma forma de reavaliar o modo como a cultura pop fabrica ídolos, os consome e depois tenta decifrá-los. Nesse sentido, o longa, que vai dos anos 1960 até 1980, tem algo de ritual e de reparação. 

Explica alguns fatos da infância e da adolescência do artista - sua paixão por animais, o vitiligo que começa a se manifestar na pele, a obsessão por brinquedos e compras e o início do consumo de remédios.

Não podemos esquecer, no entanto, que a produção do filme é da família Jackson, que deixa de fora do enredo momentos comprometedores e complexos da vida do cantor e de suas relações pessoais e judiciais. A continuação está prevista para 2027 (ainda sem confirmação) que deverá abordar a fase adulta de Michael. 


Sem falar na reconstrução de clipes memoráveis que estão em nossas memórias por décadas como “Thriller”, "Bad", “Beat it”, “Dont' stop til you get enough”, entre outras. 

Algo fantástico para todos nós que só vimos o produto pronto e não como foi feito na época. É emocionante ver um ídolo sendo recriado com tanta emoção e carisma. Dá vontade de ver todo dia!

Com a ambição que exibe a força de seu protagonista e o apelo universal do personagem central, "Michael" entra naturalmente na conversa sobre a temporada de prêmios e com certeza desponta como um nome a ser observado com atenção rumo ao Oscar 2027. 


Filmes biográficos musicais costumam encontrar ressonância na Academia quando combinam transformação física, densidade emocional e apuro técnico. E em "Michael" há material de sobra para isso. 

Se mantiver o impacto que a interpretação de Jaafar Jackson sugere, o filme pode ir muito além da homenagem. Ele poderá se tornar um dos grandes eventos cinematográficos da década, assim como sempre foi o mito Michael Jackson, com uma expectativa dos produtores de atingir US$ 1 bilhão na bilheteria mundial. 


Ficha técnica:
Direção: Antoine Fuqua
Produção: Lionsgate, GK Films
Distribuição: Universal Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h05
Classificação: 12 anos
País: EUA
Gêneros: musical, drama, biografia

19 novembro 2025

"O Sobrevivente" – o show sempre deve se superar

Glen Powell é Ben Richards, um desempregado que participa de um programa de TV ao vivo de vida e morte para conseguir dinheiro e salvar sua família  (Fotos: Paramount Pictures)
 
 

Maristela Bretas


Em 1987, quando surgiu pela primeira vez o personagem Ben Richards, vivido por Arnold Schwarzenegger, a expectativa era maior que o resultado: a bilheteria baixa não fez jus ao filme. Mesmo com efeitos visuais artesanais, porém adequados à época, e a interpretação limitada do protagonista, o longa não rendeu o esperado.

Anos depois, o jogo virou. O filme tornou-se cult por sua ficção distópica e pela crítica à sociedade e ao controle da mídia. Atualmente, voltou a ser procurado na Netflix – especialmente com o lançamento, nesta quinta-feira (20), da nova versão.


Passadas quase quatro décadas, "O Sobrevivente" ("The Running Man") retorna às telas em um reboot que modifica parte da história original e traz como protagonista o atual queridinho de Hollywood, o carismático Glen Powell.

Baseado no romance "O Concorrente", de Stephen King (sob o pseudônimo Richard Bachman), o novo filme mantém a crítica social: um mundo dividido entre ricos vivendo em palácios verticais e marginalizados isolados para além dos muros das grandes cidades. A TV manipula tudo o que é exibido, criando heróis e vilões para uma população faminta por violência.


Assim como no longa de 1987, a audiência é o objetivo máximo — mesmo que, para isso, o público seja bombardeado com cenas de lutas, ataques e mortes, reais ou simuladas, transmitidas como um grande reality show para uma plateia sedenta por sangue e vingança.

A nova história se passa em 2025, em um cenário caótico de um Estados Unidos falido, com o governo manipulando a mídia e os pobres lutando diariamente para sobreviver.

Para salvar a esposa e a filha doente, Ben Richards (Glen Powell) se inscreve no violento game show "The Running Man". Durante 30 dias, os participantes precisam escapar de uma equipe de assassinos profissionais. O vencedor recebe um prêmio milionário em dinheiro.


"O Sobrevivente" apresenta as questões sociais e políticas de forma até mais clara que o original, em meio a muita ação, violência brutal e efeitos visuais competentes. 

Glen Powell se destaca como o trabalhador desempregado, revoltado com os abusos das corporações e o descaso com quem não pertence à elite. Para os fãs, as cenas do galã apenas de toalha são um colírio e estão entre as divertidas do filme.

De temperamento explosivo, Ben não consegue manter empregos e acaba chamando a atenção de Dan Killian, o produtor do programa, interpretado por Josh Brolin. O ator entrega um vilão frio, preocupado apenas em “ver o circo pegar fogo” e aumentar os lucros do show número um da emissora.


O elenco traz ainda nomes conhecidos como William H. Macy, em participação especial como um rebelde; Colman Domingo, vivendo o sádico showman Bobby T.; Michael Cera, como o revolucionário Elton Parrakis; e Lee Pace, interpretando o caçador assassino Ewan MacCone, entre outros.

À medida que a trama avança, o diretor Edgar Wright intensifica a raiva e o desprezo de Ben Richards por uma sociedade hipócrita e imoral. O personagem quer justiça para sua família e para aqueles que foram esquecidos — nem que, para isso, precise “tocar o terror e ligar o f#d#-se” para o programa e seus responsáveis.


Além das sequências de ação e perseguição, "O Sobrevivente" conta com uma excelente trilha sonora composta por Steven Price, incluindo uma clássica canção de ninar em nova versão, logo nos primeiros minutos.

Resta saber se, ao contrário do original, o filme conseguirá atingir bons números de bilheteria para compensar os US$ 110 milhões investidos na produção. Ou se será reconhecido apenas após alguns anos, assim como a boa atuação de Glen Powell.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Edgar Wright
Produção: Paramount Pictures, Complete Fiction Films, Genre Films
Distribuição: Paramount Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h14
Classificação: 18 anos
País: EUA
Gêneros: ficção, suspense, ação

14 fevereiro 2025

“Sing Sing” - A arte de transformar vidas no sistema prisional

Colman Domingo entrega mais uma brilhante atuação, desta vez como um detento que encontra um novo propósito com o teatro (Fotos: Diamond Films)


Filipe Matheus
Parceiro do blog Maravilha de Cinema


Colman Domingo está em cartaz nos cinemas como protagonista do longa “Sing Sing”, dirigido por Greg Kwedar e distribuído pela Diamond Films. O filme traz um retrato sensível da realidade prisional, evidenciando o poder transformador da arte na vida das pessoas. 

A trama acompanha Divine G (Domingo, de "Rustin" - 2024), um homem injustamente condenado que encontra um novo propósito ao atuar no grupo de teatro formado por detentos. 


Para esses homens, a arte se torna um símbolo de resistência e liberdade, mostrando que mesmo atrás das grades, ainda é possível ressignificar a própria história.

Um dos pontos altos da produção é a transformação pelo teatro, principalmente na vida de Clarence Maclin, um novo detento cauteloso e desconfiado. Aos poucos, a arte vai mudando sua trajetória e a de outros integrantes do grupo.


Trazendo ainda mais autenticidade à narrativa, Clarence “Divine Eye” Maclin, Sean “Dino” Johnson e Jon-Adrian “JJ” Velazquez interpretam a si mesmos, compartilhando suas próprias experiências como ex-encarcerados e ex-alunos do programa de teatro prisional da organização Rehabilitation Through the Arts (RTA).

Com uma abordagem poética, a obra reforça que a esperança é inerente ao ser humano. E que o passado não define futuro. Ao evidenciar a importância da arte dentro do sistema prisional, o filme é uma inspiração para mudanças e reforça o valor da cultura de ressocialização, provando que sempre existe luz no fim do túnel.


A trilha sonora do filme é composta por Bryce Dessner, uma peça fundamental na narrativa. Além de “Like a Bird”, que concorre ao Oscar 2025 como Melhor Canção Original, sucessos como "Blades" e "The Void" não apenas acompanham a trajetória dos personagens, mas também tocam profundamente o espectador.

Além de Melhor Canção Original, o longa foi indicado ao Oscar 2025 nas categorias de Melhor Roteiro Adaptado, e Melhor Ator, um reconhecimento à atuação de Colman Domingo. 


O lançamento do filme foi simultâneo nos cinemas e nas prisões dos Estados Unidos, em parceria com a A24. Baseado no programa RTA, conta com o apoio da ONG Edovo, que disponibiliza tablets em centenas de unidades correcionais dos EUA, promovendo educação e reintegração. 

Outro ponto de destaque de "Sing Sing": todos os envolvidos da equipe receberam o mesmo salário, além de participações de propriedade no filme. Não deixe de conferir nos cinemas. 


Ficha técnica:
Direção: Greg Kwedar
Distribuição: Diamond Films
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h47
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gênero: drama

09 fevereiro 2024

"A Cor Púrpura" acerta no elenco, mas é inconstante

Musical é um remake adaptado da obra literária de Alice Walker, como na peça da Broadway de 2005 (Fotos: Warner Bros. Pictures)


Larissa Figueiredo


Baseado no livro homônimo de Alice Walker, "A Cor Púrpura" ("The Color Purple") conta a história de famílias afro-americanas na Geórgia durante o século XX. O musical, em cartaz nos cinemas, nos apresenta Celie, uma jovem negra de 14 anos que encontra conforto em meio ao sofrimento da pobreza e racismo na companhia de Nettie (Halle Bailey, de "A Pequena Sereia" - 2023), sua irmã mais nova e melhor amiga.  

Em certo dia, Celie (interpretada por Fantasia Barrino na fase adulta) é trocada por uma vaca e alguns ovos e entregue a Albert (Colman Domingo, de "Rustin" - 2023) um homem grosseiro da cidade. Enquanto isso, Nettie, exausta dos avanços sexuais do pai e do novo marido da irmã, foge prometendo manter contato por carta com Celie. É por meio dessas correspondências que a história se desenrola.


Com direção de Blitz Bazawule, o remake de "A Cor Púrpura" tem uma grandiosa equipe de produtores, que inclui Steven Spielberg, diretor da primeira versão de 1985, que não era musical e foi indicada a 11 Oscars sem, no entanto, ter recebido nenhum. O filme pode ser conferido na HBO Max.

Também na produção estão Quincy Jones (um dos produtores do primeiro filme), Oprah Winfrey, que participou do longa há quase 40 anos no papel de Sofia (agora interpretada por Danielle Brooks, que concorre ao Oscar como Melhor Atriz Coadjuvante) e Scott Sanders.


O elenco, totalmente negro (excelente escolha) conta ainda com Taraji P. Henson ("Estrelas Além do Tempo" - 2017), como a cantora Shug Avery; Corey Hawkins ("Infiltrado na Klan" - 2018); Aunjanue Ellis ("King Richard: Criando Campeãs" - 2021), Louis Gossett Jr. e até mesmo Whoopi Goldberg, que faz uma ponta como parteira e interpretou Celle no longa de 1985. Os cantores H.E.R. e Jon Batiste também participam do time.

Além de retratar abusos e sofrimento, o filme explora a redescoberta da vida e a poderosa união entre mulheres, tanto na ligação entre as irmãs quanto na importância que Shug e Sofia vão representar na vida de Celle.


Embora permaneça fiel à obra literária de Alice Walker, o musical adota a estrutura da peça adaptada para a Broadway em 2005, organizando a produção em blocos que combinam diálogos, canções, diversas coreografias. Conta também com as participações de Fantasia Barrino e Danielle Brooks repetindo seus papéis.

As performances musicais parecem interromper o ritmo do filme, que se apresenta inconstante e com falhas na edição e montagem. Apesar disso, o musical impacta pelo visual e pela força da interpretação de seus atores, que possuem grande potência vocal e é o destaque do longa. 

Os figurinos e a ambientação também são pontos positivos e fortalecem a obra. Inevitável a comparação entre as duas versões cinematográficas.


Ficha técnica:
Direção: Blitz Bazawule
Produção: Warner Bros. Pictures, Amblin Entertainment, SGS Productions, Harpo Films
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h20
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: musical, drama