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20 setembro 2026

"A Ilha Esquecida": quando a amizade é a chave para não esquecer quem amamos

Animação é ambientada nas Filipinas da década de 1990, explorando as histórias do folclore local
(Fotos: DreamWorks Animation)
 
 

Maristela Bretas

 
Uma das melhores animações do ano tem um visual incrível e uma verdadeira explosão de cores para falar sobre amizade: “A Ilha Esquecida” (“Forgotten Island”) está em cartaz nos cinemas, com direção e roteiros de Joel Crawford e Januel Mercado, produção da DreamWorks Animation e distribuição da Universal Pictures.

Apesar de voltado ao público infantil, o filme traz algumas cenas que podem assustar crianças abaixo dos 10 anos, além de diálogos diretos e bastante francos sobre amizade, relacionamentos e as mudanças que fazem parte da vida.


Na trama, ambientada nas Filipinas da década de 1990, conhecemos Jo (voz da cantora H.E.R.) e Raissa (voz da atriz filipina Liza Soberano, que cresceu ouvindo histórias do folclore de seu país), amigas inseparáveis desde a infância.

Recém-formadas no ensino médio e com visões diferentes de futuro, as duas melhores amigas estão prestes a seguir caminhos diferentes. Enquanto Jo permanece nas Filipinas, Raissa se prepara para se mudar para os Estados Unidos.


Durante a celebração de despedida, elas encontram um misterioso portal que há anos procuram e são transportadas para a fantástica ilha de Nakali. O lugar é habitado por criaturas mágicas e mitológicas, como metamorfos, demônios, bruxas e monstros, seres sobre os quais as duas cresceram ouvindo histórias contadas por Lola Fátima (Dolly de Leon), avó de Jo.

Ao descobrirem que o preço para retornar para casa é abrir mão das memórias que construíram juntas ao longo da vida, elas terão de enfrentar um grande desafio. Ao lado de Raww (Dave Franco), um desajeitado cão-lobisomem, elas precisam derrotar a temida Manananggal (voz de Lea Salonga) antes que se esqueçam uma da outra. 

No elenco de dubladores estão ainda Manny Jacinto (Bungi Tiyanak), Jenny Slate (Batiba), Jo Koy (Datu) e Ronny Chieng (Rei Truflle Wuffle).



Amigos há 15 anos, desde as gravações de “Kung Fu Panda 2”, Joel Crawford e Januel Mercado são responsáveis por sucessos como “Gato de Botas 2: O Último Pedido” (2022) e “Os Croods 2: Uma Nova Era” (2021).

A produção acertou também na trilha sonora dinâmica, que reúne composições originais de Nathan Matthew David e vozes de grandes artistas da música internacional e filipina. O destaque fica para o sucesso dos anos 1980 “Don’t You (Forget About Me)”, do Simple Minds, escolhido como tema do filme.

H.E.R. e Liza Soberano também interpretam as canções “BRB” e “Jerk in the Box”, além de faixas com BINI, Lea Salonga e Sophia Laforteza.


Um dos pontos negativos é o pouco aprofundamento na origem de alguns personagens secundários, como os novos amigos da dupla e os próprios vilões. Conhecer melhor suas histórias ajudaria a compreender seus comportamentos e motivações.

Ainda assim, “A Ilha Esquecida” é um filme vibrante, divertido e cheio de fantasia, mas que vai muito além da aventura. A mensagem final, forte e extremamente sensível, mostra como as amizades podem transformar vidas e permanecerem importantes mesmo quando tudo ao redor parece mudar.

Vale muito a pena ser conferido. E prepare o lenço: cai até um cisco no olho.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Joel Crawford e Januel Mercado
Produção: DreamWorks Animation, em parceria com a Snipple Animation
Distribuição: Universal Pictures Brasil
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h43
Classificação: 10 anos
País: EUA
Gêneros: animação, infantil, família

17 setembro 2026

"One Piece: O Grande Pirata do Ouro": o maior tesouro não está no baú

Anime é uma aventura complementar dentro da franquia, pela primeira vez com versão dublada em
português (Fotos: Paris Filmes)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
Depois do sucesso da série na Netflix, os piratas mais loucos do anime chegam dia 24 aos cinemas. "One Piece: O Grande Pirata do Ouro" ou "One Piece: O Filme", como também está sendo chamado, funciona praticamente como uma aventura complementar dentro da franquia, que não exige conhecimento da extensa cronologia.

Com versão inédita dublada em português, direção de Junji Shimizu e distribuição da Paris Filmes, não é preciso encarar mais de mil episódios da série ou conhecer a produção para acompanhar a história. Basta gostar de anime, piratas e aventura. E conferir a crítica da série no @cinemanoescurinho clicando no link https://tinyurl.com/yfsj88md


A trama parte da lenda de Woonan, um pirata que teria desaparecido levando consigo um terço de todo o ouro do mundo e escondendo o tesouro em uma ilha misteriosa. 

Anos depois, Luffy e sua tripulação entram nessa busca e acabam enfrentando Eldrago, um pirata que também deseja encontrar a fortuna e possui os poderes de uma Akuma no Mi (fruta sobrenatural do anime e mangá), capazes de transformar sua voz em ondas ultrassônicas.

O tesouro, porém, é apenas a superfície da história. Woonan funciona como uma figura lendária, semelhante ao próprio Gol D. Roger, mostrando como alguém pode continuar influenciando outras pessoas mesmo depois de desaparecer. 


A diferença está no que cada personagem faz com aquilo que recebe como legado. Woonan e Ganzo seguiram caminhos diferentes, e suas escolhas ajudam a mostrar que identidade não nasce pronta: ela também é construída pelas experiências, pelos vínculos e pelas decisões que tomamos.

Essa discussão ganha mais força através de Tobio. O menino possui uma relação de avô e neto com Ganzo e encontra nessa convivência uma referência de afeto, cuidado e família. Ao mesmo tempo, busca entender qual é o seu lugar no mundo. 

É justamente aí que o filme encontra seu ponto mais interessante: pertencimento não depende do lugar onde nascemos nem do que conseguimos possuir, mas das relações que construímos. Tobio não precisa do ouro de Woonan para saber quem é. Precisa sentir que pertence a algum lugar e que existe alguém disposto a caminhar ao seu lado.


A estrutura mais curta faz com que "One Piece: O Grande Pirata do Ouro" não tenha ação o tempo inteiro. As principais sequências acontecem no início e próximo ao final, enquanto boa parte da narrativa se dedica a apresentar a lenda e seus personagens. 

Para quem espera uma aventura acelerada, isso pode causar certa estranheza. Por outro lado, permite que a história trabalhe melhor temas como memória, legado e identidade.

O problema está justamente em alguns personagens que poderiam receber mais atenção. Eldrago é um vilão funcional, mas pouco desenvolvido. Sua obsessão pelo ouro e pelo poder aparece de maneira rápida, sem que o roteiro consiga explorar o que existe por trás dessa ambição. 


A luta contra Luffy, entretanto, compensa parte dessa fragilidade e ganha força nas sequências de ação, especialmente quando projetadas na tela grande.

No fim, "One Piece: O Grande Pirata do Ouro" está menos interessado no ouro do que parece. Woonan representa o legado de uma lenda; Ganzo, as consequências das escolhas; e Tobio, a necessidade de encontrar um lugar e pessoas que dêem sentido à própria existência. 

É uma aventura curta, divertida e acessível, que pode funcionar tanto para fãs da franquia quanto para quem está chegando agora. Porque, no fim das contas, talvez o maior tesouro de "One Piece" seja descobrir quem somos, de onde viemos e, principalmente, com quem queremos compartilhar a nossa jornada.


Mais novidades

Lançado originalmente em 2000 no Japão, “One Piece: O Grande Pirata do Ouro” é o primeiro longa-metragem animado da franquia dublado em português. A parceria entre a Paris Filme e a Toei Animation, produtora da série, prevê a exibição de outros dois nos cinemas ainda em 2026. 

Os próximos serão "One Piece: Aventura na Ilha Espiral", dia 22 de outubro, e "One Piece: O Reino de Chopper na Ilha dos Animais Estranhos", em 3 de dezembro. Em seguida, os três serão incorporados ao catálogo da Netflix.


Ficha técnica:
Direção: Junji Shimizu
Produção: Toei Animation
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 51 minutos
Classificação: 12 anos
País: Japão
Gêneros: animação, aventura, ação

15 setembro 2026

"Morte e Vida Madalena" homenageia a arte de fazer cinema, mas perde a graça em exageros e bizarrices

Comédia encontra graça naquilo que poderia dar errado, e celebra quem não desiste do que ama
(Fotos: Divulgação)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
São tantas as ideias, referências e intenções expostas - e implícitas - sobre o cinema em "Morte e Vida Madalena" que dificilmente o espectador vai conseguir digerir tudo e, realmente, curtir o filme, que estreia nesta quinta-feira nos cinemas.

Metalinguagem que pretende homenagear e celebrar a arte, o longa dirigido pelo cearense Guto Parente ("Estranho Caminho" - 2023), quase se perde em situações esdrúxulas e irreais, causando mais estranheza do que risos.


Madalena, interpretada por Noá Bonoba, é uma jovem produtora que acaba de perder o pai (Carlos Francisco), com quem ela aprendeu o ofício. Grávida de oito meses, ela decide levar adiante um filme B de ficção científica planejado por ele. 

Mas, como costuma acontecer, falta tudo nessa produção, de dinheiro a profissionais, de material a equipamentos. Junto com ela, está o ex-companheiro Davi (Marcus Curvelo), parcialmente envolvido na tarefa.

"O Futuro a Deus Pertence" é o nome do filme que Madalena e sua turma teimam em fazer, lutando contra tudo e todos. São tantas as dificuldades enfrentadas pela equipe que talvez o roteiro (do próprio diretor) tenha carregado nas tintas. 


Montada toda a tralha necessária para um set de filmagem, com barracas, profissionais, câmeras e trilhos, alguém dá o grito: Davi, o diretor sumiu. E o escolhido para o lugar dele é Oswaldo.

Interpretado por Tavinho Teixeira, o novo comandante da produção se acha um verdadeiro Stanley Kubrick. É um maluco, como todos comentam, "mas está tratado, analisado e medicado". 

Os cenários, que mais parecem cavernas lunares, os figurinos e maquiagens exageradas, acabam caindo na bizarrice, assim como as situações e cenas. Se a intenção era mostrar simplicidade, escassez e improvisos comuns em sets de filmagem, não parece ter sido uma boa ideia. 


Sobram esquisitices e o que fica são algumas tiradas (quase) engraçadas de membros da equipe e uma ou outra canção popular cantada pela equipe nas horas de folga, entre uma e outra cerveja. 

O elenco, formado por atores e atrizes pouco conhecidos no eixo Rio-São Paulo, conta ainda com Nataly Rocha como Natasha, Jenniffer Joingley como Jéssica, David Santos como Nonato, entre outros. 

Consta que algumas das situações vividas pela equipe do filme teriam sido inspiradas em apuros reais sofridos por Ticiana Augusto Lima, sócia do diretor Guto Parente. Pode ser. 

Fica nítida, ao final de "Morte e Vida Madalena" (ou seria de "O futuro a Deus pertence"?), a ideia de resistência dos criadores. Fazer cinema é para poucos mesmo. Mas há outras maneiras mais criativas de homenagear essa arte.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Guto Parente
Produção: Tardo Filmes, coprodução Canal Brasil
Distribuição: Embaúba Filmes
Exibição: Centro Cultural Unimed-BH Minas
Duração: 1h25
Classificação: 12 anos
Países: Brasil e Portugal
Gêneros: comédia dramática, ficção


14 setembro 2026

"Viva Marília": uma celebração que poderia revelar mais por trás da estrela

Documentário sobre Marília Pêra foi codirigido pela filha Esperança Motta
com roteiro do ex-marido Nelson Motta (Fotos: Acervo Pessoal/Marília Pêra)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
“Viva Marília” revisita a trajetória de uma das artistas mais versáteis da cultura brasileira. Em cartaz no Cine Belas Artes, o documentário é dirigido por Zelito Viana, com codireção da filha Esperança Motta e roteiro do ex-marido Nelson Motta. 

Narrado pela própria Marília Pêra, o filme percorre sua carreira por meio de entrevistas, cenas de filmes, novelas, espetáculos e programas de televisão, além de fotografias e registros de seu acervo pessoal. 

Produzido pela Mapa Filmes do Brasil tem coprodução de Globo Filmes, Globo News e Canal Brasil, com distribuição da Mapa Filmes e codistribuição da Bretz Filmes.


O resultado é também uma viagem por diferentes momentos do Brasil, acompanhando uma artista que atravessou décadas sem se limitar a uma única linguagem. Teatro, cinema, televisão, comédia, drama e musicais fizeram parte de uma trajetória marcada pela versatilidade e por mais de 80 prêmios.

Filha dos atores Manuel Pêra e Dinorah Marzullo, Marília cresceu cercada pelo teatro e aprendeu desde cedo os códigos do palco. Essa formação ajuda a entender uma carreira construída na capacidade de transitar entre diferentes personagens e linguagens. 


Mas sua história vai além do sucesso profissional. Durante a ditadura militar, esteve no elenco de “Roda Viva”, de Chico Buarque, espetáculo que sofreu uma invasão violenta em 1968. A agressão aos artistas tornou o palco também um espaço de resistência em um período marcado pela censura e pela repressão.

O documentário recupera ainda episódios que ajudam a dimensionar sua relação com outros nomes importantes da cultura brasileira, como Elis Regina, com quem disputou o papel principal do musical Como Vencer na Vida sem Fazer Força. 


Mais do que uma antiga disputa profissional, a história revela a admiração entre duas artistas que fizeram da presença em cena uma de suas principais marcas.

É justamente na maneira de contar essa história que está o principal problema de “Viva Marília”. O filme é extremamente chapa-branca e, ao optar quase sempre pela celebração, deixa pouco espaço para outras visões sobre a atriz. 

A condução da narrativa por Marília dá ao documentário um caráter íntimo, mas também limita os contrapontos. Faltam vozes capazes de tensionar a memória, questionar escolhas e apresentar outras perspectivas sobre a mulher e a profissional. 


Sua vida familiar, os três filhos — Ricardo Graça Mello, Esperança Motta e Nina Morena — e os diferentes relacionamentos que marcaram sua vida também aparecem de maneira bastante superficiais.

Ainda assim, o documentário cumpre um papel importante ao preservar a memória de uma artista que ajudou a construir o imaginário cultural brasileiro. As imagens de arquivo revelam não apenas a passagem do tempo, mas a transformação de Marília diante das câmeras e no palco. 

O problema é que em “Viva Marília” tudo é muito literal: a carreira é apresentada, os momentos importantes são recuperados e os personagens que fizeram parte dessa trajetória são lembrados, mas quase sempre falta o próximo passo — a reflexão. 


O filme poderia questionar mais, provocar mais e explorar as contradições de uma mulher e de uma artista tão complexa. Em vez disso, prefere reafirmar aquilo que já sabemos sobre Marília Pêra.

“Viva Marília” funciona, portanto, como um registro afetivo e uma oportunidade de reencontro com uma grande atriz, mas poderia ser muito mais. Ao transformar sua trajetória quase exclusivamente em celebração, o documentário acaba contando quem foi Marília Pêra, mas pouco se arrisca a perguntar quem ela foi de fato.


Ficha técnica:
Direção: Zelito Viana
Produção: Mapa Filmes do Brasil
Distribuição: Mapa Filmes, codistribuição Bretz Filmes
Exibição: Cine Belas Artes
Duração: 1h20
Classificação: livre
País: Brasil
Gênero: documentário

10 setembro 2026

"Homem-Aranha: Um Novo Dia" coloca Peter Parker diante do seu maior inimigo: a solidão

Quarto filme do super-herói amplia as conexões do personagem com outros núcleos do Universo Cinematográfico Marvel (Fotos: Sony Pictures)
 
 

Maristela Bretas


Em “Homem-Aranha: Um Novo Dia” (“Spider-Man: Brand New Day”), em cartaz nos cinemas, sob a direção de Destin Daniel Cretton, encontramos o Amigo da Vizinhança vivendo integralmente para defender Nova York. 

Quatro anos depois dos acontecimentos de “Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa” (2021), ninguém mais se lembra que ele é Peter Parker (novamente vivido por Tom Holland) — nem mesmo aqueles que mais amava.

Mas o pior para o super-herói é acompanhar de longe a vida da amada MJ (Zendaya) e do melhor amigo Ned Leeds (Jacob Batalon), que também não se lembram dele. 


Peter, agora adulto e mais maduro, tornou-se um Homem-Aranha mais experiente, sem perder o carisma e o jeito doce de bom menino que sempre o diferenciaram dos demais Vingadores.

Direcionando toda sua energia para o combate ao crime, ele passa a trabalhar ao lado da polícia e da detetive Jean DeWolff (Liza Colón-Zayas). A solidão e o afastamento das pessoas que ama, porém, começam a cobrar um preço alto.

O corpo e a mente do Homem-Aranha sofrem transformações que aumentam seus poderes, mas também provocam alterações de comportamento e agressividade, colocando em risco quem está ao seu redor. 


Tudo se complica com o surgimento de uma nova ameaça, capaz de controlar a mente das pessoas. É Jean Grey (Sadie Sink, de “Stranger Things”), uma jovem mutante com poderes que ainda não faz parte dos X-Men e sequer teve contato com o Professor Charles Xavier. 

Após um trauma familiar, ela procura respostas e acaba se tornando uma das adversárias mais perigosas já enfrentadas pelo herói.

Esse é um dos pontos positivos de “Homem-Aranha: Um Novo Dia”: o filme amplia as conexões do personagem com outros núcleos do Universo Cinematográfico Marvel. 
                      

Ao lado do Teioso aparecem Frank Castle, o Justiceiro (Jon Bernthal), Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo) e Yelena Belova/Viúva Negra (Florence Pugh), que acabam se tornando importantes aliados na batalha. 

O encontro com o Justiceiro, principalmente, dá ao longa um tom mais urbano e próximo das histórias de crime que fazem parte da origem do personagem nos quadrinhos.

No elenco também estão nomes conhecidos da franquia, como Marisa Tomei, novamente como tia May; Michael Mando, como Mac Gargan/Escorpião; e Tramell Tillman, como Bill Metzger, ligado ao Departamento de Controle de Danos. 



A trilha sonora é outro destaque. Michael Giacchino, responsável pelas partituras dos três filmes anteriores de Tom Holland como Homem-Aranha, retorna com uma composição que acompanha tanto a ação quanto o momento mais solitário de Peter. 

As músicas escolhidas ajudam a criar uma identidade mais urbana e contemporânea para o longa, com nomes como Tame Impala, Bad Bunny, TV on the Radio, Chaka Khan, Cannons e Steve Lacy.

Mais que um filme de super-herói, com teias, explosões, lutas, perseguições pelas ruas de Nova York e acrobacias no ar, “Homem-Aranha: Um Novo Dia” aposta no amadurecimento de Peter Parker e nas consequências de sua escolha de dedicar a vida ao combate ao crime. 


O personagem ganhou experiência, força e confiança como Homem-Aranha, mas perdeu justamente aquilo que fazia sua vida como Peter Parker valer a pena.

Em nenhum dos filmes anteriores do personagem a ideia de que "com grandes poderes vêm grandes responsabilidades" parece tão presente quanto aqui. 

Peter precisa entender que ser herói não significa abrir mão de tudo que o torna humano. Por trás da máscara ainda existe um homem que sente falta de ter amigos, de amar e de ser lembrado.


E é justamente aí que Tom Holland encontra um dos melhores momentos de sua atuação como Peter Parker. Mais solitário, cansado e emocionalmente machucado, ele mostra um herói que já não precisa aprender a balançar entre os prédios, mas ainda necessita descobrir como viver sem as pessoas que perdeu. O Homem-Aranha está mais forte. Peter Parker, nem tanto.

Mesmo sabendo que não pode simplesmente voltar ao passado, o público torce para que Peter encontre novamente seu caminho até MJ e consiga recuperar a amizade com Ned. Afinal, o Homem-Aranha pode viver sozinho por algum tempo, mas Peter Parker não precisa — e talvez nem consiga — continuar assim.


Como toda boa franquia que ainda movimenta multidões, o filme deixa portas abertas para novas aventuras. Até o momento, o longa arrecadou mundialmente mais de US$ 2,4 bilhões, tornando-se a terceira maior bilheteria da história do cinema. 

A cena pós-créditos reforça a promessa de que o Homem-Aranha voltará, enquanto a presença de personagens como a Viúva Negra, Hulk, Justiceiro e Jean Grey amplia ainda mais as possibilidades para o futuro do Universo Marvel.  

O longa também prepara terreno para acontecimentos maiores, como “Vingadores: Doomsday”, com estreia em dezembro de 2026, e “Vingadores: Guerras Secretas”, previsto para dezembro de 2027. Jean Grey ainda terá participação no novo filme dos X-Men, que deverá estrear em 2028.



No fim, “Homem-Aranha: Um Novo Dia” entrega aquilo que os fãs esperam — ação, humor, referências aos quadrinhos e grandes encontros —, mas ganha força justamente quando deixa as explosões de lado para mostrar a solidão de Peter. 

Porque, antes de ser um dos maiores heróis da Marvel, ele continua sendo um garoto que queria fazer a coisa certa.

Talvez esse seja o verdadeiro “novo dia” do título: não o nascimento de um novo Homem-Aranha, mas o começo de uma nova fase para Peter Parker, que finalmente precisa aprender que salvar o mundo não significa necessariamente abrir mão de ter uma vida. 

Para quem ainda não assistiu, este é um dos melhores filmes da franquia atual.


Ficha técnica:
Direção: Destin Daniel Cretton
Roteiro: Chris McKenna e Erik Sommers
Produção: Columbia Pictures, Sony Pictures Marvel Studios
Distribuição: Sony Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h30
Classificação: 12 anos
País: EUA
Gêneros: ação, aventura

08 setembro 2026

“Minha Melhor Amiga": quando a amizade vira reencontro com a própria vida

Comédia nacional reúne no elenco principal as atrizes e amigas de longas datas na vida real Mônica
Martelli e Ingrid Guimarães (Fotos: Desirée do Valle)
 
 

Marcos Tadeu
Blog Jornalista de Cinema

 
O que acontece quando duas melhores amigas chegam aos 50 anos e percebem que a vida está mudando — e que talvez seja hora de mudar com ela? É a partir dessa pergunta que “Minha Melhor Amiga”, nova comédia dirigida por Susana Garcia, coloca Mônica Martelli e Ingrid Guimarães lado a lado em uma história sobre amizade, amadurecimento, maternidade e a descoberta de que nunca é tarde para recomeçar.

Distribuída pela Paris Filmes, a produção chega aos cinemas quebrando o recorde de maior abertura de um filme nacional de todos os tempos. O filme está em exibição em 1.531 telas de 773 cinemas, em 436 cidades brasileiras, superando “Minha Mãe É Uma Peça 3” (2019), segunda maior bilheteria do cinema nacional nos últimos dez anos.

Estrelado por Mônica Martelli e Ingrid Guimarães, o filme, rodado no Rio de Janeiro, Sevilha (Espanha) e Lisboa (Portugal), é dirigido por Susana Garcia, que já possui uma trajetória muito ligada à comédia brasileira e ao cinema protagonizado por mulheres.


Susana Garcia dirigiu “Minha Mãe É Uma Peça 3”, “Minha Vida em Marte” (2018), com Mônica Martelli e o falecido ator Paulo Gustavo, e “Minha Irmã e Eu” (2023), com Ingrid Guimarães e Tatá Werneck. Seus filmes anteriores somaram mais de 20 milhões de ingressos vendidos, segundo a Paris Filmes.

Na história, conhecemos Júlia (Ingrid Guimarães) e Clara (Mônica Martelli), que chegam aos 50 anos diante de uma nova fase da vida. Entre os efeitos da menopausa e a saída das filhas de casa - Manu (Giulia Benite) e Isadora (Gabi Amaral) -, as duas se encontram por acaso em um aeroporto e descobrem que as meninas estão no mesmo voo para Portugal onde farão um intercâmbio.


O encontro dá início a uma amizade inesperada. Ao viajarem para visitar as filhas, Júlia e Clara deixam a rotina de lado e se envolvem em uma série de aventuras, com viagens, festas, romances, shows e situações inusitadas. Ao longo da jornada, as duas passam a questionar escolhas, relações e a própria maneira de enxergar as filhas.

O que começa como uma viagem para acompanhar as jovens se transforma em uma oportunidade de redescobrir a própria vida e perceber que nunca é tarde para mudar os planos.

No longa, feito por mulheres para mulheres, podemos ver como o conceito de sororidade, palavra muito usada hoje em dia, cabe nessa obra de Susana Garcia. A definição está associada à ideia de irmandade entre mulheres, valorizando a cooperação, o respeito e o fortalecimento umas das outras, especialmente diante de situações de desigualdade, preconceito ou violência.


Segundo o Dicionário Michaelis, amizade é o vínculo estabelecido entre pessoas por meio de uma relação de afeição, simpatia, estima e confiança. Mais do que uma simples convivência, a amizade pressupõe proximidade, respeito, lealdade e reciprocidade, criando um laço afetivo que se constrói e se fortalece ao longo do tempo.

Isso fica claro dentro e fora da tela. Podemos ver como Mônica e Ingrid, de fato, conseguem representar esse conceito, cada uma com sua personalidade, e como as duas, juntas, em meio a tantos anos de amizade, estabelecem uma relação de respeito e simpatia.

O filme acerta ao aproximar o público de Mônica e Ingrid. A sinergia entre ambas e todas as histórias, confusões, perrengues, crises e conflitos trazem o telespectador para perto dessa amizade tão bem construída ao longo de vários anos, que vai além do roteiro do filme.


Algumas curiosidades ajudam a dar o tom da narrativa: a história nasceu da amizade real das protagonistas. Em vez de simplesmente interpretarem duas amigas, Ingrid e Mônica levaram para a ficção experiências que  efetivamente viveram juntas, como a viagem real com as filhas adolescentes pela Europa, que serviu de inspiração para a história.

Apesar de a cena da “chave não está aqui” provocar boas risadas, senti falta das filhas no carro e de como essa parte do roteiro poderia ter sido mais bem trabalhada, incluindo as jovens no perrengue das mães. Um sofrimento a quatro poderia ser mais divertido.


Conflitos emocionais

Júlia, uma jornalista, se depara com um ambiente de trabalho que descarta as mulheres mais maduras para colocar rostos jovens em suas mídias e no mercado. Ela se encontra em conflito, com medo de ficar perdida profissionalmente e também emocionalmente.

Já Clara tem uma visão bonita de um casamento que acabou há muito tempo, mas que precisa encontrar novas formas de viver a vida e de lutar pelo que acredita. Sempre fica a sensação de que ela é muito velha para viver novas experiências e de que não irá conseguir acompanhar a modernidade.

O filme talvez deixe a desejar por apenas “pincelar” vários conflitos que afetam o universo feminino no campo profissional e afetivo, como o das mães acima dos 50 anos. 


O roteiro poderia explorar mais momentos dramáticos. O que se vê, no geral, são as personagens interpretando quem são. As atrizes não precisam sair de sua zona de conforto. Não que isso seja um problema, mas não mostra nada diferente do que já vimos em seus filmes anteriores.

Mesmo com essas ressalvas, “Minha Melhor Amiga” cumpre aquilo que promete: divertir, emocionar e lembrar que a vida não termina quando os filhos crescem, quando um casamento acaba ou quando os 50 chegam. Pelo contrário. Pode ser justamente aí que começa uma nova história.

É um filme solar, leve, para sair do cinema com o coração quentinho e querendo encontrar o seu melhor amigo ou amiga. Porque amizade verdadeira é isso: estar ao lado nos melhores momentos, dividir as confusões, enfrentar os perrengues e, principalmente, lembrar ao outro que nunca é tarde para viver aquilo que ainda falta. 

As diferenças e os embates só reforçam esse laço que podemos levar para o resto da vida, para o que der e vier.


Ficha técnica:
Direção: Susana Garcia
Produção: Paris Entretenimento
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h58
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gênero: comédia

06 setembro 2026

"O Convite": comédia sim, mas com jeito de lição de autoajuda

Filme acompanha o que seria um simples encontro de dois casais vizinhos, mas que acaba se transformando em uma grande confusão (Fotos: O2 Play)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
Difícil resistir a uma comédia rica e instigante como "O Convite" ("The Invite"), em cartaz no Cineart Ponteio, Centro Cultural Unimed-BH Minas e Cine Belas Artes. Com elenco perfeito e roteiro ágil e inteligente, o filme acompanha o que seria um simples encontro de dois casais vizinhos, mas que acaba se transformando em confusões, revelações e constrangimentos. 

Com roteiro de Rashida Jones e Will McCormack e direção de Olivia Wilde ("Não Se Preocupe Querida" - 2022), o longa começa provocando altas gargalhadas antes de se transformar numa conversa séria quase incômoda para o público.


Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia Wilde) vivem uma rotina insuportável e facilmente identificada pelo espectador desde as primeiras cenas do filme. Ele é professor de música numa pequena escola, anda de bicicleta e tem sérios problemas de coluna. 

Ela é a típica dona de casa, cujas funções se limitam a limpar, lavar e preparar as refeições. Os diálogos entre os dois são ríspidos, limitam-se a temas práticos, pequenas brigas e não há nenhum carinho. Descobre-se logo que eles têm uma filha, mas ela não aparece ao longo da trama.


Tudo muda quando Angela, numa tentativa de quebrar a rotina, convida um casal vizinho que está há pouco tempo morando no prédio. Por trás do convite, está algo mais além da simples cortesia. 

Ela e Joe estão curiosos para saber mais sobre as transas ruidosas dos dois que só conhecem de cumprimentos e gentilezas no elevador. Há, no ar, uma nítida inveja dos gemidos, sussurros e gritos ouvidos do apartamento ao lado.

A entrada em cena de Piña (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton) ilumina o filme. Ele, quase discreto, e ela, loiríssima, esbanjando sensualidade, transformam o apartamento de Angela e Joe. O elenco, aliás, é a grande sacada de "O Convite".  


A exuberante Piña deixa claro, desde o início, que é moderna e ousada. É sexóloga e faz questão de relatar as experiências de sexo grupal que ela e o marido costumam ter, para delírio dos anfitriões. 

E a diretora Olivia Wilde, como Angela, brilha como a mulher carente, desiludida e curiosa. Também carente, mas mais afoito, o personagem Joe, feito por Seth Rogen, é o grande responsável pelas gargalhadas do público.

Outra sacada que faz toda a diferença é, sem dúvida, o cenário. Tudo se passa, praticamente, em apenas dois cômodos da casa: a sala e o pequeno escritório de Joe, como se fosse o palco de um teatro. 


Sem nenhuma cena de nudez e com raros beijos e abraços, o longa deixa transparecer o tesão que começa a brotar entre eles, enquanto os vizinhos relatam suas histórias mirabolantes. São os momentos mais engraçados do filme.

Classificado como comédia dramática, "O Convite" peca pelo final, discursivo e com cara de autoajuda. O fechamento não chega a comprometer o filme, mas uma solução mais sutil talvez levasse o longa a um outro patamar. 

Afinal, há outras formas menos explícitas que podem levar o espectador à reflexão sem fazê-lo parar de rir, como se, depois da piada, o convocasse à seriedade. Merecia um final mais criativo.


Ficha técnica:
Direção: Olivia Wilde
Produção: Annapurna Pictures
Distribuição: O2 Play
Exibição: Cineart Ponteio, Centro Cultural Unimed-BH Minas e Cine Belas Artes
Duração: 1h47
Classificação: 16 anos
País: EUA
Gêneros: comédia, drama

04 setembro 2026

Grace Passô estreia na direção com "Nosso Segredo", filme metafórico que flerta com o sobrenatural

Produção de Ricardo Alves Jr. foi filmada em Belo Horizonte e tem trilha sonora original do pianista Amaro Freitas (Fotos: Vitrine Filmes)
 
 

Eduardo Jr.

 
Em cartaz nos cinemas o primeiro longa dirigido por Grace Passô, "Nosso Segredo", que integra a Sessão Vitrine Petrobrás. O filme acompanha uma família negra que tenta se reerguer após uma perda recente. 

Enquanto cada um foge do luto à sua maneira, o filho caçula guarda um segredo capaz de encarar as raízes de suas dores e, juntos, descobrirem um novo caminho.

Com produção de Ricardo Alves Jr. e filmado em Belo Horizonte, o filme tem trilha sonora original de Amaro Freitas, o criativo e celebrado pianista brasileiro.  


Já na primeira cena o espectador recebe a informação de que aspectos sobrenaturais podem estar por vir. Mas a dica não é sinal de fácil compreensão da obra, que exige enorme capacidade interpretativa de quem assiste. 

Os integrantes da família são apresentados gradativamente, e é fácil questionar se há, de fato, alguma ligação entre eles. Ponto positivo para a tentativa de retratar como as pessoas estão isoladas umas das outras naquela família. 

E aqui, do outro lado da tela, fica uma certa angústia por não entendermos determinados comportamentos ou a profundidade daquelas personagens. 


Uma das poucas (talvez a única) dicas da salvação para esta família venha do texto, no momento em que um dos filhos escuta de uma amiga que é preciso demonstrar afeto para aquelas com quem convive.

Depois disso o espectador é arrastado novamente para o campo da incompreensão ao ver uma casa que parece se manifestar de maneira sobrenatural.  

E dentro do espaço quase claustrofóbico da casa, no grupo formado por pai, esposa, avó e netos, fica claro que a personagem que talvez tenha as respostas é a criança. O longa deixa transparecer que ela se comunica com um amigo imaginário. 


E aí a busca pelo "quem é/o que é" o causador dos ruídos e eventos estranhos na casa vai conduzindo a história, até chegarmos ao final, que pode explicar ou tirar do sério quem ficou ali, acompanhando a história por 103 minutos que parecem não acabar.  

Se este texto não diz muito ao espectador, é porque o longa também se vale de linguagem metafórica para transmitir o desejo da diretora. Os festivais mostram que essa mensagem provocou algum efeito. 


Selecionado para a Mostra Perspectives, dedicada a cineastas que estão em seu primeiro longa-metragem no Festival Internacional de Berlim (Berlinale), "Nosso Segredo" conquistou no Festival de Gramado o Kikito de Melhor Filme, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte. 

Claro, o cinema não precisa entregar tudo mastigado para o espectador. E assim como não há obrigação de se trazer obras de fácil compreensão ou embaladas em rótulos como "terror" ou "suspense", os prêmios conquistados também não garantem que a obra vai agradar ou que será lembrada nas listas de melhores filmes nacionais. 


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Grace Passô
Produção: Entre Filmes, coprodução Globo Filmes, Desvia Filmes, Quarta-Feira Filmes, Foi Bonita a Festa e Grãos da Imagem
Distribuição: Vitrine Filmes
Exibição: Cineart Cidade, Centro Cultural Unimed BH-Minas e Cine Belas Artes
Duração: 1h43
Classificação: 14 anos
Países: Brasil e Portugal
Gêneros: drama, família, fantasia