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04 agosto 2026

Cinema e gastronomia vão dominar o Mercado Central de BH no Matula Film Festival

4ª edição celebra feiras e mercados populares como espaços de encontro, memória e preservação da
cultura alimentar (Fotos: Divulgação)
 

 
Da Redação

 
O Matula Film Festival – Cinema e Comida chega à sua quarta edição de 6 a 8 de agosto, no Mercado Central de Belo Horizonte, com o tema “Gastronomia de Feira”. 

Durante três dias, o festival celebra feiras e mercados populares como espaços de encontro, memória e preservação da cultura alimentar, com programação que reúne exibições de filmes, mesas de debate, palestras, lançamentos de publicações, cozinhas-show e percursos guiados pelo mercado.

A Mostra de Filmes reúne produções nacionais e internacionais que exploram as múltiplas relações entre comida, cultura, território e identidade. 

Com exibições gratuitas, a programação apresenta documentários, ficções e animações que revelam histórias de produtores, cozinheiros, comunidades, mercados e tradições alimentares, promovendo reflexões sobre patrimônio cultural, sustentabilidade e modos de vida.

 
Professor Carlos Augusto Monteiro (NUPENS/USP) 
e a chef e historiadora Juliana Duarte


Cada dia tem um eixo temático. A quinta-feira (6) abre com “Sabores de Origem: a Feira como Patrimônio Vivo”. O primeiro compromisso é o tour Mercado Vivo, conduzido pelo jornalista gastronômico Nenel Neto, criador do Baixa Gastronomia, que apresenta personagens e lugares do Mercado Central. 

Na sequência, a mesa de abertura “Mercados Vivos: Cultura Alimentar e Futuro” reúne os homenageados desta edição, o professor Carlos Augusto Monteiro (NUPENS/USP) e a chef e historiadora Ju Duarte, ao lado de convidadas do IDEC e da ACT Promoção da Saúde. 

O dia inclui ainda o lançamento da publicação "Queijos Artesanais de Minas", resultado de dois anos de pesquisa da Emater-MG pelas 16 regiões produtoras do estado.

"Galinha Cheia" (Matheus Monstro e Japa)

Às 13 horas, sessão 1 de curtas: "Coração de Junho" (Eduarda Gulman e Irina Cordeiro, SP, 2025, 15 min); "Planeta Fome" (Édier Willian, RO, 2025, 15 min); "Fui na Feira" (Ana Carolina Aliaga e Vitória Marques, SP, 2023, 19 min) e "Galinha Cheia" (Matheus Monstro e Japa, Maceió, 2023, 9 min).

Thaylane Cristina (BH Film Commission) estará às 14 horas na Mesa de debate “Filmando Cidades Alimentares”. A segunda sessão de cinema acontece às 15 horas com o longa "Comida de Mentira", de Rafael Mellim (SP, 2024, 65 min)

"Planeta Fome" (Édier Willian)

Na sexta-feira (7), sob o eixo “Cozinhas Criativas: Tradição, Inovação e Encontro”, a chef Carol Dini comanda a cozinha-show “Da Cidade ao Mercado”, com oficina de fermentados em homenagem a Bergamo, na Itália, cidade convidada desta edição e integrante da Rede de Cidades Criativas da Gastronomia da UNESCO, da qual Belo Horizonte também faz parte. 

A sessão 3 acontece às 13 horas dedicada às Cidades Criativas da Gastronomia Unesco, com a exibição dos filmes: "Heróis do Meio Ambiente" (Gaziantep, Turquia, 2025, 4 min); "Pão Doce de Santa Maria da Feira" (Santa Maria da Feira, Portugal, 2025, 33 min); "Raiz Cultural" (Marcia Mística, Paraty, 2025, 15 min); "Em Quem Você Acredita" (Matosinhos, Portugal, 2025, 3 min) e "Ilha da Gastronomia" (Gustavo Zinder, Florianópolis, 2026, 12 min).

"Fui na Feira" (Ana Carolina Aliaga e Vitória Marques)

Já às 15 horas será a sessão 4 com a exibição de "MAXLAB Mercados em Movimento: Living Matter" (Teresa Sala, Bergamo, Itália, 2023, 26 min) e "Território e Transformação" (Massimo Battaglini, Piemonte, Itália, 2026, 36 min)

O sommelier de cachaças Léo Gomes conduz a degustação comentada "Territórios da Cachaça", com rótulos apresentados no documentário "Cachaça, O Espírito Brasileiro", de Carlos Ribas (BH, 2026, 83 min), que tem pré-estreia na mesma sala, às 16 horas.

"Cachaça, O Espírito Brasileiro" (Carlos Ribas)

O sábado (8), dedicado ao eixo “Memória à Mesa: Cinema, Afeto e Identidade”, começa com o Cortejo Dona Lucinha: integrantes da comunidade do Serro que participaram das filmagens de "O Melhor Queijo do Mundo" conduzem o público pelos corredores do mercado até a sala de cinema, onde o longa de Lucas Assunção tem sua pré-estreia mundial, às 11 horas. 

Outras duas sessões de cinema marcam o último dia do festival. A primeira às 13 horas, com a exibição dos curtas "Diamantina" (Tangente Filmes, Diamantina, 2026, 14 min) e "Quitandas de Minas Novas" (Nereu Jr, Minas Novas, 2025, 16 min). 

"Atlas do Queijo Minas Artesanal"

Fecham a programação o lançamento do "Atlas do Queijo Minas Artesanal", bate-papo com Denise e Eduardo Girão, do projeto "Só Queijo Cura", e a mostra Raízes Mineiras.

Ao longo dos três dias, as cozinhas-show da Academia de Chefs do Prepara Gastronomia/Sebrae Minas recebem chefs de diferentes cidades mineiras para preparos feitos com ingredientes do próprio mercado, no circuito “Do Mercado à Mesa – Caminhos do Ingrediente”. 

Também diários são os Caminhos da Matula, roteiro de estabelecimentos do Mercado Central selecionado por Nenel Neto em diálogo com os temas da programação, e o lançamento de publicações sobre cultura alimentar, que inclui ainda Papilex – A História Invisível dos Sabores, de Carol Dini.


Serviço
Matula Film Festival – Cinema e Comida

Data: 6 a 8 de agosto de 2026
Local: Mercado Central de Belo Horizonte, Av. Augusto de Lima, 744, Centro
Programação: www.matulafilmfestival.com.br

03 agosto 2026

"Champagne": sensível e comovente longa holandês convida à celebração antes que a vida se apague

Leo Alkemade e Huub Stapel formam uma ótima parceria que dá leveza, equilíbrio e simplicidade à
narrativa sobre esta jornada de pai e filho (Fotos: Autoral Filmes)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
Mais do que uma história de despedida, o filme holandês "Champagne - Uma Viagem de Pai e Filho" ("Champagne") trata de uma celebração da vida. Aclamado e premiado em seu país de origem, o longa emociona e diverte enquanto acompanha a jornada dos dois pelas estradas da Europa. Classificado como uma comédia dramática, o trabalho do diretor Tim Kamps encontra o tom perfeito para falar de amor.

É preciso salientar que "Champagne..." é um filme, antes de tudo, simples. Logo no início, o espectador toma conhecimento de que o velho Hans (Huub Stapel) e sua mulher Sophie (Beppie Melissen) se ocupam, principalmente, de tomar conta dos netos. 

Ao mesmo tempo, o avô é apresentado como brincalhão, quase irresponsável, e apreciador de bebidas alcoólicas, principalmente de champagne, que ele adora, para preocupação e desespero de toda a família. 


Na verdade, trata-se mesmo é de um road movie. São poucas e ligeiras as primeiras cenas da família. Assim que descobre a doença e o estado terminal de Hans, o filho Maarten (Leo Alkemade) propõe a viagem pelo nordeste da França, exatamente a região vinícola onde nasceu e é cultivado com esmero o champagne. A bebida, como todos sabem, é associada a festejos, alegria e comemorações. Por que não antes da morte?

A relação pouco íntima entre pai e filho fica nítida assim que a viagem começa. Há silêncios que pesam e incomodam e que, aos poucos, vão se transformando em risos, lembranças, revelações. Entre consultas ao mapa, paradas para abastecimento do carro e, principalmente para as refeições, o amor entre os dois parece desabrochar como se eles estivessem se (re)conhecendo. 


Há momentos de descobertas e pura ternura que comovem o espectador. E talvez exatamente pela simplicidade como a história vai se desenvolvendo, "Champagne..." é um filme que pode ser entendido e apreciado em qualquer idioma ou cultura, pois fala do sentimento universal entre pai e filho.

Plasticamente, o longa explora as maravilhas da região, com seus vinhedos infinitos e imagens de pequenas estradas entre as parreiras, onde os dois se perdem em bifurcações e encruzilhadas. Nada mais bonito e simbólico. 


Também há cenas de dezenas de champagnes sendo abertas, inclusive pelo método conhecido como sabrage, em que se abre a garrafa com espada ou facão afiado que arranca o bocal e faz jorrar o líquido com abundância. Impossível não sair do cinema com sede de champagne.

O ator Leo Alkemade se baseou no seu próprio projeto de sair pela estrada com seu pai, que acabou morrendo antes que a viagem se concretizasse. Inspirado, ele escreveu o roteiro junto com Rik van den Bos e, de certa maneira, cumpriu o que tinha prometido ao pai. 

No fundo, "Champagne ..." parece ser mesmo um convite à celebração da vida antes que ela se apague. Não por acaso, no Brasil, o filme entra em cartaz em 6 de agosto, mês em que se celebra o Dia dos Pais.


Ficha técnica:
Direção: Tim Kamps
Roteiro: Leo Alkemade e Rik van den Bos
Produção: Aattache Films e Brabant Films
Distribuição: Autoral Filmes
Exibição: Cine Una Belas Artes
Duração: 1h30
Classificação: 14 anos
País: Holanda
Gêneros: road movie, comédia dramática

31 julho 2026

Maratona: "Toy Story 3" ensina que crescer é aprender a deixar ir

Woody, Buzz Lightyear e os demais enfrentam mudanças que colocam sua amizade à prova (Fotos: Pixar)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
Na sequência de nossa maratona temos "Toy Story 3", que chegou aos cinemas em 2010 com orçamento de US$ 200 milhões e se tornou o primeiro longa de animação a ultrapassar US$ 1 bilhão nas bilheterias mundiais. 

Andy (voz de John Morris) cresceu e está indo para a faculdade. Ele precisa decidir o que fazer com seus antigos brinquedos. Quando Woody, Buzz e a turma vão parar na creche Sunnyside, descobrem que o lugar não é tão perfeito quanto parece. 


Agora, precisam escapar de um novo inimigo e encarar a difícil despedida de Andy. O grande mérito do filme está em fechar de maneira emocional a história do jovem e trabalhar com maturidade a passagem da infância para a vida adulta. 

Woody, Buzz e os demais enfrentam mudanças que colocam sua amizade à prova, principalmente o cowboy, que inicialmente só quer manter todos juntos em casa.


O urso de pelúcia Lotso é uma das grandes surpresas da nova animação. Aparentemente fofo, ele carrega um histórico de abandono e ressentimento que o transforma em um líder cruel e totalitário. 

O elenco reúne novamente a maioria dos dubladores do primeiro e do segundo filmes como Tom Hanks (Woody), Tim Allen (Buzz), Joan Cusack (Jessie), Don Rickles (Sr. Cabeça de Batata), Estelle Harris (Sra. Cabeça de Batata), Wallace Shawn (Rex), John Ratzenberger (Porquinho), Laurie Metcalf (Mãe de Andy) e Annie Potts (Betty). 


Mas trouxe também novos nomes como Emily Hahn (Bonnie), Ned Beatty (Lotso), Michael Keaton (o boneco Ken), Jodi Benson (Barbie), Whoopi Goldberg (Stretch), Kristen Schaal (Trixie) e Blake Clark (que substituiu Jim Varney, falecido em 2000 e que fazia a voz de Slinky), entre outros.

Na dublagem brasileira, os personagens ganharam as vozes de Marco Ribeiro, Guilherme Briggs, Mabel Cezar, Pádua Moreira, Alfredo Martins, Carmen Sheila, Marco Antônio Costa, Reginaldo Primo, Carlos Gesteira, Duda Ribeiro, Olavo Cavalheiro, Renata Ferreira, Sheila Dorfman, Fernanda Bullara e Miriam Ficher, respectivamente.


O ponto negativo de "Toy Story 3" está na fórmula repetida. Mais uma vez, os brinquedos são separados e precisam enfrentar uma situação perigosa para conseguirem voltar juntos. 

Bonnie, a nova criança que passa a fazer parte dessa história, também poderia ter recebido mais espaço para desenvolver sua relação com os brinquedos.


Ainda assim, "Toy Story 3" funciona justamente porque entende que crescer também significa aprender a deixar ir. O filme recebeu cinco indicações ao Oscar e venceu Melhor Animação e Melhor Canção Original, além de ter sido indicado a Melhor Filme. 

No fim, a despedida de Andy e dos brinquedos se tornou um dos momentos mais marcantes da Pixar: uma conclusão honesta, que permanece na memória e no coração mesmo quando a vida adulta chega e precisamos seguir nossas próprias escolhas.

Saiba mais sobre os outros filmes da franquia que estão disponíveis no Disney Plus clicando nos links: "Toy Story" (1995), "Toy Story 2" (1999), "Toy Story 4" (2019) e o mais recente, ainda no cinema, "Toy Story 5".


Ficha técnica:
Direção: Lee Unkrich
Produção: Pixar Animation Studio
Distribuição: Buena Vista Pictures Distribution
Exibição: Disney+
Duração: 1h40
Classificação: Livre
País: EUA
Gêneros: animação, aventura, comédia, infantil

30 julho 2026

Maratona "Toy Story 2" — O que importa é ser um brinquedo amado por uma criança

Continuação apresentou melhorias significativas na qualidade da animação, especialmente nas texturas, expressões faciais e movimentação dos personagens  (Fotos: Pixar) 
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
Sequência direta do primeiro filme, "Toy Story 2" chegou aos cinemas em 1999 com a difícil missão de manter a essência do original, explorando o que significa ser um brinquedo por meio da amizade entre Buzz Lightyear e Woody (novamente dublados por Tim Allen e Tom Hanks), ao mesmo tempo em que expande esse universo com uma nova história. 

Com um orçamento de US$ 90 milhões e uma bilheteria mundial de US$ 511,3 milhões, tornou-se a terceira maior arrecadação daquele ano e mais um grande sucesso comercial da Pixar.

A história gira em torno da descoberta de Woody sobre seu passado como estrela de um antigo programa de TV. Ao conhecer Jessie (voz de Joan Cusack), o cavalo Bala no Alvo (efeitos vocais de Frank Welker) e Pete Fedido (Kelsey Grammer), ele passa a questionar se deve permanecer ao lado de Andy e dos velhos amigos ou viver para sempre em um museu. 

Enquanto isso, Buzz e seus amigos embarcam em uma missão para resgatá-lo, invertendo a dinâmica do filme original. Lançada quatro anos após "Toy Story", a continuação apresentou melhorias significativas na qualidade da animação, especialmente nas texturas, iluminação, expressões faciais e movimentação dos personagens. 


Os cenários ficaram mais detalhados e a equipe conseguiu criar sequências mais complexas e dinâmicas, como a perseguição na loja Al's Toy Barn e a emocionante cena no aeroporto. O filme também demonstrou a evolução do RenderMan, software de renderização da Pixar que permitiu imagens mais sofisticadas e maior liberdade criativa para os animadores.

A qualidade técnica e narrativa da produção foi reconhecida com diversas premiações. "Toy Story 2" venceu o Globo de Ouro de Melhor Filme Musical ou Comédia em 2000 e conquistou vários Annie Awards, considerados os principais prêmios da indústria da animação. Vale lembrar que, naquela época, a categoria de Melhor Filme de Animação ainda não existia, sendo criada apenas alguns anos depois.

O grande mérito da continuação está na introdução de personagens carismáticos como Jessie, Bala no Alvo e Pete Fedido, ao mesmo tempo em que aprofunda a trajetória de Woody. 


O filme questiona o verdadeiro propósito de um brinquedo: ser preservado para sempre como peça de museu ou viver sua existência sendo amado por uma criança. Essa reflexão dá a narrativa uma maturidade emocional que vai muito além da aventura.

Outra novidade está na forma como o longa brinca com referências da cultura pop. A mais famosa delas envolve Buzz Lightyear e Zurg (Andrew Stanton). Durante o resgate de Woody, Buzz encontra seu maior inimigo e os dois recriam uma das cenas mais icônicas da história do cinema. 

Em uma clara homenagem a "Star Wars: Episódio V – O Império Contra-Ataca", Zurg revela a Buzz: "Eu sou seu pai". A piada funciona porque Buzz foi inspirado nos heróis das aventuras espaciais que marcaram as décadas de 1970 e 1980.


O filme também ri de si mesmo quando Buzz encontra uma fileira de outros Buzz Lightyear na loja de brinquedos. A cena satiriza a crise de identidade do primeiro filme ao mostrar que ele acreditava ser único quando, na verdade, era apenas mais um brinquedo produzido em massa. 

A brincadeira ganha força com a entrada de um astronauta semelhante na missão de resgate, criando situações divertidas e reforçando a confusão de identidades.

Um dos temas mais fortes de "Toy Story 2" é a busca por pertencimento e identidade. Diferentemente do primeiro filme, que explorava principalmente a amizade entre Woody e Buzz, a continuação questiona quem os brinquedos são e qual é seu verdadeiro propósito.

Agora amigos, eles não estão mais em conflito. A relação entre os dois amadureceu e serve como base para a narrativa. Enquanto o astronauta lidera a missão para resgatar o caubói, este passa por uma jornada interna ao descobrir que faz parte do antigo programa de televisão, "Woody's Roundup". 


Pela primeira vez, ele percebe que é mais do que o brinquedo favorito de Andy: é uma peça rara, com uma história e um legado próprios. É nesse momento que entram os novos personagens. Jessie carrega as marcas de ter sido abandonada por sua antiga dona e acredita que criar laços com crianças inevitavelmente leva ao sofrimento. Bala no Alvo demonstra uma lealdade incondicional a Woody, reforçando a ideia de pertencimento através dos vínculos. 

Já Pete Fedido representa o extremo oposto: por nunca ter sido escolhido por uma criança, acredita que o melhor destino para um brinquedo é ficar protegido em um museu, onde jamais será esquecido ou descartado.

A partir dessas diferentes perspectivas, Woody é colocado diante de uma escolha difícil. De um lado, a possibilidade de viver para sempre em um museu, sendo admirado e preservado como uma peça histórica. Do outro, continuar ao lado de Andy, sabendo que um dia será deixado para trás quando seu dono crescer.


A trilha sonora ficou novamente a cargo de Randy Newman, que ampliou os temas musicais apresentados no primeiro filme e ajudou a dar uma identidade emocional ainda mais forte à continuação. 

O grande destaque é a canção "When She Loved Me", interpretada por Sarah McLachlan, que recebeu indicação ao Oscar de Melhor Canção Original. A música acompanha a história de Jessie e se tornou uma das cenas mais emocionantes da história da animação, abordando sentimentos como abandono, saudade e passagem do tempo. A trilha também conta com novas versões de "You've Got a Friend in Me" e músicas inspiradas no universo de Woody's Roundup.

O que deixa a desejar é que a trama repete parte da estrutura do primeiro filme, com Woody novamente separado dos demais brinquedos e Buzz assumindo a liderança de uma missão de resgate. 

Além disso, personagens já conhecidos, como Rex (Wallace Shawn), Slinky (Jim Varney), Porquinho (John Ratzenberger) e Betty (Annie Potts), recebem pouco desenvolvimento, ficando em segundo plano para dar espaço aos novos integrantes da história. 


No fim, a mensagem é simples e poderosa: Woody descobre que ser um cowboy famoso, raro ou valioso não importa tanto quanto aquilo que sempre deu sentido à sua existência: brincar, criar memórias e fazer parte da vida de uma criança. Nenhuma coleção, museu ou reconhecimento pode substituir o sentimento de ser amado por seu dono.

É justamente nessa escolha que "Toy Story 2" encontra sua força emocional e se consolida como uma das melhores continuações da história da animação. Saiba mais sobre os outros filmes da franquia que estão disponíveis no Disney Plus clicando nos links: "Toy Story" (1995), "Toy Story 3" (2010), "Toy Story 4" (2019) e o mais recente, ainda no cinema, "Toy Story 5".


Ficha técnica:
Direção: John Lasseter, Ash Brannon, Lee Unkrich
Produção: Pixar Animation Studio
Distribuição: Buena Vista Pictures Distribution
Exibição: Disney+
Duração: 1h32
Classificação: Livre
País: EUA
Gêneros: animação, aventura, comédia, infantil

29 julho 2026

Maratona - "Toy Story": o que importa é ser brinquedo e compartilhar

Obra apresentou ao mundo uma nova forma de contar histórias animadas, ajudando a redefinir os rumos
deste gênero no cinema (Fotos: Pixar)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
Quem diria que uma história protagonizada por brinquedos poderia se transformar em um fenômeno de público e crítica? Lançado em 1995, "Toy Story - Um Mundo de Aventuras" não apenas conquistou espectadores de todas as idades, como também marcou definitivamente a história do cinema.

Levando cerca de quatro anos para ser produzido foi o primeiro longa-metragem da Pixar e também a primeira animação da história inteiramente realizada por computação gráfica (CGI).
 
Sob a direção de John Lasseter e com roteiro assinado por Joss Whedon, Andrew Stanton, Joel Cohen, Pete Docter e Alec Sokolow, a obra apresentou ao mundo uma nova forma de contar histórias animadas, ajudando a redefinir os rumos deste gênero no cinema.


Por trás desse avanço artístico, havia também uma base científica fundamental. Nomes como Ed Catmull e Alvy Ray Smith, cofundadores da Pixar Animation Studios, foram essenciais nesse processo. 

Catmull, especialista em computação gráfica, ajudou a desenvolver e aprimorar sistemas de imagem digital e a estruturar o pipeline de produção 3D que tornou o filme possível. 

Já Alvy Ray Smith contribuiu com fundamentos matemáticos e visuais que permitiram a criação de imagens digitais consistentes em larga escala. Sem esse tipo de engenharia, "Toy Story" simplesmente não existiria.

O resultado foi um sucesso imediato. Com um orçamento considerado modesto para os padrões de Hollywood — cerca de US$ 30 milhões — o filme arrecadou impressionantes US$ 394,4 milhões nas bilheterias mundiais. O desempenho consolidou o estúdio como uma das maiores forças da animação e abriu caminho para uma nova era do cinema animado.


Na história, o cowboy Woody (voz de Tom Hanks) é o brinquedo favorito de Andy e o líder entre os brinquedos do quarto. Sua rotina muda completamente quando Buzz Lightyear (Tim Allen), um moderno patrulheiro espacial, chega como presente de aniversário. 

O que começa como rivalidade logo se transforma em uma grande aventura, cheia de perigos, descobertas e amizade, enquanto tentam encontrar o caminho de volta para casa. 

No meio da jornada, eles cruzam com Sid (Erik von Detten), o vizinho de Andy, um garoto que desmonta brinquedos e cria invenções estranhas com suas peças. Presos na casa do destruidor, Woody e Buzz precisam encontrar uma forma de escapar antes que seja tarde demais.


O grande mote do longa está justamente na relação entre Woody e Buzz. Acostumado a ser o brinquedo favorito de Andy, o cowboy vê a chegada do astronauta como uma ameaça e faz de tudo para afastá-lo, chegando a provocar a queda dele pela janela. 

A atitude de Woody provoca revolta nos outros brinquedos, que passam a condená-lo pelo ocorrido. A partir daí, os dois são forçados a conviver e a enfrentar seus conflitos.

Existe aqui um interessante contraste entre gerações. Woody representa os brinquedos tradicionais, ligados ao Velho Oeste e a uma ideia mais artesanal de diversão. Já Buzz simboliza a modernidade, a tecnologia e o fascínio infantil por aventuras espaciais.


Esse choque fica ainda mais evidente na forma como Buzz acredita ser, de fato, um patrulheiro espacial, incapaz de aceitar sua condição de brinquedo.

É nesse ponto que surge uma das subtramas mais fortes do filme. Enquanto Woody insiste repetidamente em afirmar para Buzz “você é um brinquedo”, o astronauta luta para sustentar sua fantasia de missão espacial. O momento em que tenta voar para escapar da casa de Sid é o ponto de virada emocional da narrativa. 

Ao som de “I Will Go Sailing No More”, ele finalmente confronta a realidade e compreende que não é um herói espacial e sim mais uma das diversões de Andy. É uma cena melancólica e surpreendentemente madura para uma animação infantil, tratando identidade, aceitação e propósito com rara sensibilidade.


A partir desse conflito, "Toy Story" revela seu tema mais profundo: pertencimento e identidade. Esses dois conceitos não aparecem de forma abstrata, mas como experiências vividas dentro da própria dinâmica do grupo dos brinquedos. 

O filme constrói isso de maneira simples e precisa: quem pertence ao grupo nem sempre se sente pertencente, e quem é aceito pelo grupo nem sempre se reconhece dentro dele.

Woody é o principal exemplo dessa tensão. No início, ocupa uma posição de estabilidade como líder e brinquedo favorito de Andy. Existem harmonia e reconhecimento naquele universo. Porém, a chegada de Buzz desestabiliza essa estrutura. 

Depois do conflito com a queda do astronauta, Woody passa a ser visto com desconfiança pelos outros brinquedos. Ele continua fisicamente dentro do grupo, mas perde o reconhecimento emocional. Está presente, mas já não pertence plenamente. Esse deslocamento mostra que pertencimento não é automático: ele depende de confiança, validação e reconhecimento coletivo.


Buzz, por outro lado, vive o movimento inverso. Ele chega como um estranho, mas é rapidamente aceito pelos outros brinquedos. Sua aceitação, porém, não se baseia em quem ele realmente é, mas na imagem que representa: um brinquedo avançado e admirável. Ou seja, ele pertence ao grupo sem compreender esse pertencimento.

O astronauta vive uma crise de identidade, não se vê como brinquedo, mas como um patrulheiro espacial em missão. Isso cria uma ironia central: ele é aceito por todos, mas não se reconhece e vai precisar se desconstruir até que aceite sua realidade.

No fundo, "Toy Story" fala de algo profundamente humano: não basta fazer parte de um grupo para se sentir pertencente, e não basta ser reconhecido pelos outros para compreender a si mesmo. 


É nesse encontro entre perda de lugar e descoberta de si que o filme encontra sua força emocional mais profunda — e é aí que deixa de ser apenas um marco tecnológico para se tornar uma história sobre o que significa existir dentro de um mundo que também precisa te reconhecer.

Mas a conclusão dessa jornada vai além da identidade individual. O que "Toy Story" realmente revela é que o pertencimento só se completa quando existe aceitação — de si e do outro. É nesse ponto que Woody e Buzz deixam de ser apenas opostos e passam a ser parceiros.

Se no início representam choque de gerações, egos e visões de mundo, ao longo da narrativa constroem algo mais forte do que suas diferenças: uma amizade baseada na transformação mútua. 

Woody aprende a dividir espaço, perder o controle e reconhecer o valor do outro. Buzz, por sua vez, aprende a se aceitar sem abrir mão da coragem e do sentido de propósito que o define.


Não se trata apenas de estar no mesmo lugar, mas de construir um lugar em conjunto. A canção “Amigo Estou Aqui” sintetiza essa virada emocional de forma definitiva. 

Mais do que um tema musical, ela traduz apoio, presença e permanência mesmo diante das diferenças. Woody e Buzz descobrem que a força não está em competir por atenção, mas em caminhar lado a lado.

No fim, "Toy Story" não fala apenas sobre brinquedos de uma criança. Fala sobre vínculos que se formam quando dois mundos diferentes aprendem a coexistir, se transformar e se reconhecer. E é aí que tudo se fecha com simplicidade e força: amizade é quando o outro deixa de ser ameaça — e passa a ser parte de quem você é. 

Saiba mais sobre os outros filmes da franquia que estão disponíveis no Disney Plus clicando nos links: "Toy Story 2" (1999), "Toy Story 3" (2010), "Toy Story 4" (2019) e o mais recente, ainda no cinema, "Toy Story 5".


Ficha técnica:
Direção: John Lasseter
Produção: Pixar Animation Studio
Distribuição: Buena Vista Pictures Distribution
Exibição: Disney+
Duração: 1h17
Classificação: Livre
País: EUA
Gêneros: animação, aventura, comédia, infantil

28 julho 2026

Uma cinebiografia à altura para celebrar Sarah Bernhardt

Diva do cinema francês das décadas de 1910 e 1920 recebeu uma atuação sensível e vibrante da atriz
Sandrine Kiberlain (Fotos: Imovision)
 
 

Patrícia Cassese

 
Uma das maiores divas da arte da interpretação francesa ganhou, recentemente, uma cinebiografia à sua altura dirigida por Guillaume Nicloux, “A Divina Sarah Bernhardt” ("Sarah Bernhardt, La Divine") que traz Sandrine Kiberlain nas vestes da atriz falecida em março de 1923, aos 78 anos. 

Com cenas que perpassam três períodos importantes da vida da estrela, o longa centra-se principalmente em sua intempestiva paixão pelo colega de profissão Lucien Guitry, interpretado por Laurent Lafitte. 

Uma observação: tanto ele quanto Sandrine são figuras conhecidas pelo público brasileiro que acompanha com atenção a cinematografia francesa contemporânea. 

Lafitte, por exemplo, está em “A Mulher Mais Rica do Mundo”, exibido recentemente, enquanto Kiberlain, em “Vizinhos Bárbaros”, de Julie Delpy, que acaba de aportar no catálogo da Netflix – e, conselho, vale muito a pena assistir.


Mas voltemos a “A Divina Sarah Bernhardt”. No curso da história, o espectador acessa os momentos de fragilidade da retratada (como a dependência doentia do amor de Julien), seu sofrimento psicológico (que a leva por várias vezes a praticar a autolesão), seu temperamento avant-garde (Sarah se relaciona com homens e mulheres e não se furta a enumerar as dezenas de amantes), seu viés feminista (aboliu o corselete e fala da ausência de mulheres dramaturgas) e, principalmente, sua sagacidade e seu fino humor. A extravagância se reflete até na escolha dos animais que habitam sua casa, casa de um lêmure ou de uma cobra.


No início, a narrativa flagra a atriz às vésperas de se submeter à amputação de uma perna. Cônscia dos ricos da cirurgia, e com todo temor advindo dessa constatação, ela se mantém afiada, fazendo piadas sobre mais uma parte do corpo perdida (já teve extraídos um rim e um pulmão).

Logo depois ao retroceder no tempo, a história trata de explicar o pedido de perdão feito a Lucien também nas cenas iniciais, assim como mostra aspectos como o modo inconsequente o qual o único filho arruína o patrimônio por ela conquistado, bem como a relação muito particular com Sacha, filho de Lucien. Detalhe: só mais adiante o público vai entender por que, na época da amputação, os dois não se falavam mais.


Com estética caprichada e interpretações convincentes, em particular, de Sandrine, “A Divina Sarah Bernhardt” comove o público, tendo também como mérito o fato de narrar pormenores da vida deste ícone francês, que, aliás, chegou a se apresentar no Brasil três vezes. (NR. - Aliás, foi em apresentação de “La Tosca”, no Rio de Janeiro, em 1905, que a atriz sofreu a queda que lesionou seu joelho de modo a anos mais tarde ser necessária a citada amputação da perna). 

Em cena, abundam referências aos ícones com os quais Sarah Bernhardt conviveu em seu tempo, caso de Émile Zola, Victor Hugo (que a presenteou com um crânio humano) e Alexandre Dumas, de quem encenou “A Dama das Camélias”.


Todas as observações levantadas até aqui já sustentam e incentivam a ida ao cinema. Para os que já conhecem a história da diva, vale ver a representação ajustada ao quilate da homenageada, enquanto para os que pouco sabem, ou mesmo os que sequer ouviram falar, uma excelente oportunidade para travar contato com essa que é conhecida como a primeira celebridade global da história, em tempos em que o mundo nem sonhava em um dia estar assim, tão conectado.

Para além do talento inato, Sarah Bernhardt é o clássico exemplo de uma mulher avant la lettre. Motivos mais que suficientes para fazê-la merecer biografias, cinebiografias e tudo o que mais houver para celebrar sua persona e contribuir para a memória da vida de pessoas tão fora da curva.


Ficha técnica:
Direção: Guillaume Nicloux
Distribuição: Imovision
Duração: 1h38
Classificação: 16 anos
País: França
Gêneros: drama, romance, cinebiografia

23 julho 2026

Cine Humberto Mauro realiza mostra com a filmografia completa de Akira Kurosawa até 16 de agosto

Retrospectiva exibe 30 longas e conta com sessões comentadas por especialistas (Crédito: Akira Kurosawa)
 
 

Da Redação

 
O Cine Humberto Mauro realiza mostra dedicada a exibir a filmografia completa de Akira Kurosawa (1910-1998), considerado um dos principais cineastas do Japão. 

A programação inclui sessões comentadas por especialistas e 30 filmes emblemáticos do realizador, como “Rashomon”, (1950), “Os Sete Samurais” (1954), “Trono Manchado de Sangue” (1957), “Dersu Uzala” (1975) e “Ran” (1985), formando um panorama da carreira de Kurosawa ao longo de seis décadas e de séculos da história japonesa. 

A mostra segue até o dia 16 de agosto, com entrada gratuita, sendo a retirada de ingressos antecipados na plataforma Sympla; e  a partir de 1 hora antes de cada exibição, na bilheteria principal do Palácio das Artes.

(Dersu Uzala)

A mostra começou no dia 16 de julho com uma exibição do filme “A Fortaleza Escondida” (1958), épico de aventura, ação, drama e humor que se Inspira nos faroestes do diretor hollywoodiano John Ford. Logo depois,  houve a abertura oficial com uma apresentação de Taiko com o Grupo Raiki Daiko, nos jardins internos do Palácio das Artes. 

A noite se encerrou com a sessão de “Yojimbo, o Guarda-Costas” (1961), seguida por comentário do professor e pesquisador José Ricardo Miranda Júnior – haverá tradução simultânea para a Língua Brasileira de Sinais. 

"Yojimbo, o Guarda-Costas"

A mostra segue com mais sessões comentadas, oferecendo ao público a oportunidade de aprofundar o diálogo com os filmes ao explorar aspectos históricos, estéticos e temáticos que ajudam a iluminar a riqueza da obra de Kurosawa. 

Nesta segunda semana da mostra, no dia 24 de julho (sexta-feira), às 18h30, “O Idiota” (1951) será comentado pelo crítico e pesquisador João Paulo Campos. 

Dia 28 (terça-feira), às 19h, a curadora Layla Braz conversa com o público sobre “Não Lamento Minha Juventude” (1946). Fechando as sessões comentadas, o cineasta Affonso Uchoa participa da exibição de “Dodeskaden - O Caminho da Vida” (1970), às 16h do dia 1º de agosto (sábado).

“Dodeskaden - O Caminho da Vida”

Cineasta inspirador

Com curadoria de Vitor Miranda, programador do Cine Humberto Mauro, a mostra propõe uma aproximação com a obra de Akira Kurosawa a partir de suas múltiplas dimensões: sua relação com a cultura japonesa, sua inventividade formal e sua capacidade de transformar questões humanas específicas de seu país de origem – moral, honra, poder, memória, justiça, violência e responsabilidade coletiva – em experiências cinematográficas de alcance universal. 

Considerado um dos diretores mais influentes da história do cinema, Akira Kurosawa nasceu em Tóquio e viveu uma trajetória que acompanhou o surgimento e a consagração do cinema como forma de arte. 

"O Idiota"

Durante sua infância, o pai levava a família ao cinema para assistir a filmes internacionais, e seu irmão mais velho, Heigo, tornou-se um benshi — narrador que acompanhava ao vivo a exibição de filmes mudos —, com a companhia frequente de Akira. 

Após um período atuando como pintor, ativista e entusiasta da literatura no grupo clandestino Liga dos Artistas Proletários, Kurosawa respondeu, em 1936, a um anúncio de vagas para assistentes de direção no estúdio P.C.L. Film Studios. 

"Não Lamento Minha Juventude"

Lá, trabalhou como aprendiz por sete anos sob a tutela do cineasta Kajiro Yamamoto antes de dirigir seu primeiro longa-metragem, “A Saga do Judô” (1943), aos 33 anos. 

Inspirando-se no teatro, em suas obras favoritas da literatura japonesa e internacional e em cineastas como Sergei Eisenstein, D.W. Griffith e Abel Gance, Kurosawa fundiu essas influências na criação de uma linguagem cinematográfica autoral que seria desenvolvida até seu último filme, a comédia dramática “Madadayo” (1993), lançado quando o cineasta tinha 83 anos.

"Os Sete Samurais"

Arte marcial japonesa

Impulsionado pelo interesse no kendo – arte marcial tradicional japonesa de combate com a espada – durante a infância e pelas conexões familiares de seu pai com samurais reais, Kurosawa destacou-se no gênero jidai-geki com alguns dos épicos de samurai mais reverenciados de todos os tempos — histórias ambientadas no Japão feudal e diversos outros períodos. 

Ele aplicou o mesmo virtuosismo visual e a narrativa de grande proporção aos seus dramas contemporâneos – gênero gendai-geki –, incluindo “O Anjo Embriagado” (1948) e “Viver” (1952).

"Trono Manchado de Sangue"

Fonte de inspiração para diversos cineastas ocidentais, como Sidney Lumet, Sam Peckinpah, Sergio Leone, Spike Lee e George Lucas – que bebeu de “A Fortaleza Escondida” para criar “Star Wars” (1977) –, Kurosawa está presente também em uma das animações mais queridas de todos os tempos – “Vida de Inseto”, dirigida por John Lasseter e produzida pela Pixar, que tomou emprestada a trama de “Os Sete Samurais”.

A primeira fase significativa da carreira do diretor ocorreu no pós-Segunda Guerra Mundial com “O Anjo Embriagado” e “Cão Danado”, filmes noir que inauguraram sua longa colaboração com o ator Toshiro Mifune – parceiros em 16 filmes no total. 

"A Fortaleza Escondida"

No início da década de 1950, Kurosawa alcançou fama mundial com “Rashomon”, um marco na narrativa não-linear que despertou o interesse internacional pelo cinema japonês. 

Nos anos seguintes, ele manteve um diálogo frutífero com o Ocidente, inspirando-se em autores canônicos como Shakespeare e Dostoiévski, mas também em escritores contemporâneos como Dashiell Hammett. 

Na década de 1960, Kurosawa mudou o foco para obras mais sombrias e pessimistas, situadas no ambiente urbano, como “Céu e Inferno” (1963) e “O Barba Ruiva” (1965), que encerraram sua colaboração com Mifune. 

Nos anos 1970, ele enfrenta uma crise, com a fraca bilheteria de “Dodeskaden - O Caminho da Vida”. Porém, é premiado com o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira por “Dersu Uzala” (que Kurosawa já havia ganho por “Rashomon”), feito em parceria com a produtora soviética Mosfilm. 

“Rashomon”

Na década de 80, com o apoio dos cineastas estadunidenses George Lucas e Francis Ford Coppola, o diretor segue com obras internacionalmente reconhecidas, centrados na queda de figuras heroicas e poderosas, como “Kagemusha, a Sombra de um Samurai” (1980), ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes, e Ran – indicado aos Oscars de Melhor Direção, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte, e vencedor do Oscar de Melhor Figurino.  

Nos anos 90, o cineasta encerra a carreira com “Sonhos” (1990), “Rapsódia em Agosto” (1991) e “Madadayo” — obras contemplativas que fazem um uso tido como visionário das cores. 

"Sonhos"

A programação inclui ainda a exibição do documentário “Uma Mensagem de Kurosawa” (2000), de Hisao Kurosawa, filho do cineasta. A obra revisita a trajetória do realizador por meio de imagens de arquivo, depoimentos e reflexões sobre seu processo criativo.

Com uma filmografia marcada por sequências de ação cuidadosamente coreografadas e uso dramático do clima, Kurosawa foi influenciado e inspirou, em um processo recíproco, o cinema ocidental. 

Mas ele é também lembrado por colocar tais elementos a serviço de uma constante investigação da condição humana, o que o torna parte de uma linhagem de cineastas humanistas que encontraram no cinema uma maneira de observar o mundo e compreender as complexidades da experiência humana.

"Ran"

SERVIÇO:
Data: até 16 de agosto
Local: Cine Humberto Mauro – Palácio das Artes (Avenida Afonso Pena, 1537, Centro – Belo Horizonte)
Classificações indicativas: variáveis
Programação completa no site: www.cinehumbertomauromais.com/programacao
Entrada: gratuita; 50% dos ingressos estarão disponíveis, de forma on-line, a partir do meio-dia da data das sessões, na plataforma Sympla; o restante será distribuído presencialmente na bilheteria principal do Palácio das Artes e nos totens, a partir de 1 hora antes de cada exibição.
Sessão da Meia-Noite: acontece mensalmente, em exibição única, na madrugada de sexta-feira para sábado. Para essa sessão, metade dos ingressos estará disponível de forma on-line a partir das 18h do dia da sessão, pela plataforma Sympla. O restante ficará disponível no Totem de Autoatendimento localizado no hall do Cine Humberto Mauro - uma hora antes da sessão.