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16 março 2026

Brasil sai sem prêmios, mas ganha prestígio; “Uma Batalha Após a Outra” vence o Oscar 2026

Filme protagonizado por Leonardo DiCaprio teve disputa acirrada com "Pecadores" e "Frankenstein" em número de estatuetas conquistadas (Fotos: Divulgação)
 
 

Maristela Bretas

 
Com seis prêmios conquistados entre 13 indicações, incluindo o principal da noite, Melhor Filme, “Uma Batalha Após a Outra” foi o grande vencedor da 98ª edição do Oscar 2026. 

A produção, dirigida por Paul Thomas Anderson, também levou as estatuetas de Melhor Direção, Melhor Direção de Elenco, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Edição.

O segundo filme mais premiado da noite foi “Pecadores”, que liderava a lista de indicações com 16 nomeações, mas só levou quatro estatuetas. As duas produções são da Warner Bros. Pictures.

Na sequência, em número de prêmios o vencedor foi “Frankenstein”, da Netflix, com três. Apesar de contar com cinco indicações, o Brasil não venceu em nenhuma categoria.

"Uma Batalha Após a Outra"
(Crédito: Warner Bros Pictures)

Cerimônia

A cerimônia começou com uma montagem reunindo cenas dos filmes indicados a Melhor Filme. Em seguida, o comediante Conan O’Brien, fantasiado de Gladys Lilly — personagem de Amy Madigan em “A Hora do Mal” — surgiu fugindo de um grupo de crianças, em referência a uma cena do longa.

Ao chegar ao palco do Dolby Theatre, em Los Angeles, já sem a fantasia, o apresentador iniciou oficialmente a transmissão, apresentando cada um dos indicados com comentários bem-humorados e irônicos.

"A Hora do Mal"
(Crédito: Warner Bros. Pictures)

A primeira estatueta da noite foi entregue por Zoe Saldana, que anunciou Amy Madigan como vencedora de Melhor Atriz Coadjuvante em "A Hora do Mal". 

A atriz também revelou o ganhador de Melhor Animação, “Guerreiras do K-Pop”, produção que já vinha acumulando prêmios ao longo da temporada. 

Na categoria Melhor Curta de Animação, o vencedor foi “The Girl Who Cried Pearls”, animação canadense em stop-motion.

O primeiro número musical da cerimônia foi “I Lied to You”, do filme “Pecadores”, cuja apresentação encantou a plateia ao reproduzir fielmente uma das cenas do longa.

"Guerreiras do K-Pop"
(Crédito: Netflix)


“Frankenstein” também marcou presença ao conquistar três prêmios técnicos: Melhor Direção de Arte, Melhor Figurino e Melhor Maquiagem e Cabelo.

Wagner Moura, Gwyneth Paltrow, Delroy Lindo e Chase Infiniti entregaram o prêmio de Melhor Direção de Elenco, categoria que estreou nesta edição do Oscar. A vencedora foi Cassandra Kulukundis, por “Uma Batalha Após a Outra”. Essa era uma das categorias nas quais o Brasil concorria.

Um dos momentos curiosos da noite aconteceu na categoria Melhor Curta-Metragem, que terminou em empate — algo raro na história do Oscar. As estatuetas foram para o norte-americano “The Singers” e para a produção franco-americana “Two People Exchanging Saliva”.

Sean Penn - "Uma Batalha Após a Outra"
(Crédito: Warner Bros. Pictures)

Kieran Culkin anunciou o vencedor de Melhor Ator Coadjuvante, prêmio concedido a Sean Penn, por “Uma Batalha Após a Outra”. O ator não compareceu à cerimônia.

Os atores Chris Evans e Robert Downey Jr. entregaram o prêmio de Melhor Roteiro Adaptado a Paul Thomas Anderson, também diretor do filme vencedor da noite. Na categoria Melhor Roteiro Original, sem grandes surpresas, Ryan Coogler venceu por “Pecadores”.

"Pecadores"
(Crédto: Warner Bros. Pictures)

Homenagens póstumas

Como em edições anteriores, o Oscar prestou homenagem aos profissionais do cinema falecidos em 2025. Billy Crystal conduziu o momento inicial, lembrando o diretor Rob Reiner e sua esposa, Michele Singer Reiner. 

Rachel McAdams falou sobre as perdas femininas no cinema, destacando especialmente Diane Keaton, de quem era amiga pessoal.

Barbra Streisand emocionou o público ao lembrar o amigo e parceiro Robert Redford, com quem atuou no clássico “Nosso Amor de Ontem” (1973). Ela destacou a importância do ator dentro e fora das telas e encerrou a homenagem cantando “The Way We Were”, música vencedora do Oscar na época.

"Frankenstein"
(Crédito: Netflix)

Sigourney Weaver e Pedro Pascal também participaram da cerimônia com uma apresentação bem-humorada sobre extraterrestres no cinema, com direito à presença de Groku na plateia. 

Eles anunciaram o prêmio de Melhor Direção de Arte, vencido por “Frankenstein”. Já “Avatar: Fogo e Cinzas” conquistou Melhores Efeitos Visuais.

O polêmico e emocionante “Quartos Vazios” venceu Melhor Documentário em Curta-Metragem, prêmio anunciado por Jimmy Kimmel, que também revelou o vencedor de Melhor Documentário, “Mr. Nobody Against Putin”.

"Avatar: Fogo e Cinzas"
(Crédito: 20th Century Studios)

“Pecadores” levou sua segunda estatueta ao vencer Melhor Trilha Sonora Original. O prêmio foi entregue pelas atrizes Kristen Wiig, Maya Rudolph, Melissa McCarthy e Rose Byrne, que também anunciaram “F1 – O Filme” como vencedor de Melhor Som.

A quarta estatueta de “Uma Batalha Após a Outra” foi entregue por Bill Pullman e seu filho, Lewis Pullman, na categoria Melhor Edição.

Demi Moore anunciou Autumn Durald como vencedora de Melhor Fotografia por “Pecadores”, tornando-se a primeira mulher negra a conquistar o prêmio. Ela foi aplaudida de pé por diversas mulheres presentes na plateia. O brasileiro Adolpho Veloso também concorria na categoria por seu trabalho em “Sonhos de Trem”.

"F1 - O Filme"
(Crédito: Warner Bros Pictures)

Ao lado de Priyanka Chopra, Javier Bardem iniciou sua participação pedindo o fim da guerra e destacando a importância da Palestina. Em seguida, anunciou “Valor Sentimental” como vencedor de Melhor Filme Internacional, superando o brasileiro “O Agente Secreto”.

Lionel Richie subiu ao palco para confirmar “Golden”, da animação “Guerreiras do K-Pop”, como Melhor Canção Original, garantindo a segunda estatueta para a produção.

Paul Thomas Anderson também venceu Melhor Direção, prêmio entregue por Robert Pattinson e Zendaya, consolidando “Uma Batalha Após a Outra” como o grande destaque da noite.

"O Agente Secreto"
(Crédito: Cinemascópio Produções)

O prêmio de Melhor Ator ficou com Michael B. Jordan, por sua dupla atuação em “Pecadores”. O brasileiro Wagner Moura também estava entre os indicados, ao lado de Leonardo DiCaprio.

Na categoria Melhor Atriz, Jessie Buckley foi premiada por sua atuação em “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”.

Por fim, Ewan McGregor e Nicole Kidman anunciaram o momento mais esperado da noite: “Uma Batalha Após a Outra” como Melhor Filme do Oscar 2026, encerrando a cerimônia consagrando a produção como a grande vencedora da edição.

Jessie Buckley - “Hamnet: A Vida Antes
de Hamlet” (Crédito:  Focus Feature)

Confira os vencedores por categoria:

MELHOR FILME
"Uma Batalha Após a Outra"

MELHOR DIREÇÃO
Paul Thomas Anderson - "Uma Batalha Após a Outra"

MELHOR ATRIZ
Jessie Buckley - "Hamnet: A Vida Antes de Hamlet"

MELHOR ATOR
Michael B. Jordan - "Pecadores"


MELHOR FOTOGRAFIA
"Pecadores"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Amy Madigan - "A Hora do Mal"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Sean Penn - "Uma Batalha Após a Outra"

MELHORES EFEITOS VISUAIS
"Avatar: Fogo e Cinzas"

MELHOR ANIMAÇÃO
"Guerreiras do K-Pop"

"Quartos Vazios"
(Crédito: Divulgação)

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Quartos Vazios"

MELHOR SOM
"F1 - O Filme"

MELHOR EDIÇÃO
"Uma Batalha Após a Outra"

MELHOR DOCUMENTÁRIO
"Mr. Nobody Against Putin"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Frankenstein"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Golden', de "Guerreiras do K-Pop"


"Valor Sentimental"
(Crédito: Mubi)

MELHOR FILME INTERNACIONAL
"Valor Sentimental" - Noruega

MELHOR FIGURINO
"Frankenstein"

MELHOR DIREÇÃO DE ELENCO
Cassandra Kulukundis - "Uma Batalha Após a Outra"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Pecadores"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Uma Batalha Após a Outra"

MELHOR CURTA-METRAGEM (empate)
"The Singers"
"Two People Exchanging Saliva"

MELHOR ANIMAÇÃO DE CURTA-METRAGEM
"The Girl Who Cried Pearls"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL
"Pecadores"

MELHOR MAQUIAGEM E CABELO
"Frankenstein"

"Sonhos de Trem"
(Crédito: Netflix")

05 março 2026

NÃO É NÃO – "A Noiva" surpreende ao defender os direitos das mulheres em tempos de Frankenstein

Christian Bale e Jessie Buckley entregam ótimas atuações e formam um casal que chega a ser simpático
aos olhos do público (Fotos: Warner Bros. Pictures)
 
 

Maristela Bretas

 
Maggie Gyllenhaal foi extremamente ousada ao escrever e dirigir "A Noiva" ("The Bride!), apostando forte no feminismo sem levantar bandeiras explícitas, mas deixando bem claro, nos diálogos e nas atitudes revolucionárias da protagonista, a revolta contra o desprezo, a violência e o descaso aplicados às mulheres.

Mostrando realidades que nós, mulheres, vivemos diariamente, a diretora abusa do burlesco sem ser vulgar e da violência crua envolvendo os personagens principais. Como diria o parceiro do blog, Marcos Tadeu, do @jornalistadecinema: “se 'Coringa: Delírio a Dois' (2024) tivesse seguido este caminho, seria arrasador”.


A escolha de Jessie Buckley ("A Filha Perdida" - 2021, também escrito e dirigido por Maggie Gyllenhaal) para interpretar a Noiva de Frankenstein foi outro grande acerto da produção. 

Ao lado dela, Christian Bale entrega uma excelente atuação e a sincronia do casal funciona muito bem. O público chega a torcer por eles, mesmo com toda a loucura da relação.

A atriz está impecável, assim como em "Hamnet - A Vida Antes de Hamlet", forte candidato ao Oscar 2026 de Melhor Filme. Ela também entra na disputa por uma estatueta como Melhor Atriz.


O filme começa em Chicago, na década de 1930, e acompanha a história de origem da Noiva, uma jovem assassinada ressuscitada nos mesmos moldes de Frankenstein.

Cansado da solidão, o famoso monstro procura a Dra. Euphronius (Annette Bening) para criar uma companheira para ele, saída do mundo dos mortos. Juntos, eles trazem a jovem de volta à vida, nascendo assim a criatura batizada de “A Noiva”, uma mulher revolucionária, além do seu tempo.

Numa época marcada pela violência, pela criminalidade e, especialmente, pelo desprezo às mulheres, o estranho casal vive uma paixão além do tempo — selvagem e explosiva — recheada de ação, mortes e fugas alucinantes.


Um Road movie que prende do início ao fim, sem perder a coerência. Com um fator que explica, já nos primeiros minutos de exibição, as mudanças repentinas de humor e comportamento da Noiva.

A diretora reforça sua posição de defensora feminista ao creditar à escritora Mary Shelley — autora de Frankenstein — o motivo de o filme ser protagonizado por uma mulher e reforçar tanto seus direitos. 

A protagonista usa até mesmo a frase, tão atual, “NÃO É NÃO” quando os abusos acontecem, mesmo colocando sua sobrevivência e a de seu parceiro em risco.


Não bastassem os direitos violados da Noiva, outras mulheres vivem a mesma situação, como a detetive Myrna Mallow, interpretada pela ótima Penélope Cruz. Num mundo totalmente dominado pelos homens — o da polícia —, ela precisa conviver com situações constrangedoras. 

Como ser chamada de secretária pelo colega detetive Jake Wiles (Peter Sarsgaard) e ver suas ordens serem ignoradas por outros policiais, só por ser mulher.

Christian Bale entrega um Frankenstein diferente, que quer alguém para dividir a vida. Apaixonado e romântico, ele também mostra que pode deixar seu lado cruel aflorar se sua amada estiver em perigo.


E quem disse que monstro não pode ser sensível e ter bom gosto? O maior prazer de Frankie é assistir a musicais no cinema de um ator que acompanha há anos — Ronnie Reed, papel de Jake Gyllenhaal —, numa clara referência a Fred Astaire. O filme, inclusive, faz referências a outros dançarinos famosos de Hollywood na época.

“A Noiva” acerta em vários quesitos — direção, roteiro, efeitos visuais, maquiagem e cabelo, elenco excelente e trilha sonora, entregue à compositora premiada Hildur Guðnadóttir. Tem tudo para concorrer a várias premiações este ano e disputar um Oscar em 2027. 

Gostei muito do longa de Maggie Gyllenhaal. A roteirista e diretora deu um olhar diferente e mais ousado para a história da noiva de Frankenstein, já contada em várias outras produções. Vale conferir. 


Ficha técnica:
Direção: Maggie Gyllenhaal
Produção: First Love Films e In The Current Company
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h07
Classificação: 16 anos
País: EUA
Gêneros: ficção, drama, terror, suspense, romance

09 fevereiro 2026

"O Morro dos Ventos Uivantes" - fotografia exuberante para uma adaptação diferente e sexualizada

Margot Robbie e Jacob Elordi são os protagonistas dessa história de amor impossível e possessivo,
adaptada do clássico literário escrito por Emily Brontë (Fotos: Warner Bros. Pictures) 
 
 

Maristela Bretas

 
A nova versão do clássico literário "O Morro dos Ventos Uivantes" ("Wuthering Heights"), de Emily Brontë, dirigida pela vencedora do Oscar de 2021, Emerald Fennell ("Bela Vingança" - 2020) e estrelada por Margot Robbie (Catherine/Cathy Earnshaw) e Jacob Elordi (Heathcliff), tem uma belíssima fotografia, mas falha em vários quesitos

O longa, que entra em cartaz nos cinemas nesta quinta-feira (12), vem acumulando críticas das mais variadas há dois anos desde que foi anunciado, muitas delas não muito positivas. 

Especialmente pela escolha do casal e a narrativa adotada por Emerald, também roteirista, que afirmou que "estava contando a maior história de amor de todos os tempos de outra forma". 


Uma versão mais sexualizada, explorando pontos mais picantes do romance escrito em 1847 que não haviam sido abordados em outras versões. Um bom exemplo é a frase "Be with me always - take any form - drive me mad" (na tradução "Esteja sempre comigo - assuma qualquer forma - me enlouqueça"). A mudança, no entanto, pode desagradar alguns fãs do clássico.

O filme continua contando a história de Catherine/Cathy Earnshaw e Heathcliff, o órfão adotado pelo pai dela, que nutrem, desde a infância, uma louca paixão não resolvida que segue até a fase adulta. 


Mas Cathy faz de Heathcliff um brinquedo, mesmo sendo apaixonada pelo jovem, que morreria por ela. Do amor juvenil à obsessão, este romance, que se passa no século XIX, vai destruir a vida de ambos.

Ao querer uma vida de luxo e riqueza, Catherine acaba se casando com o vizinho aristocrata Edgar Linton (Shazad Latif) e afasta Heathcliff de sua vida por considerá-lo inferior. Ele vai embora e retorna tempos depois em busca de vingança contra as famílias Earnshaw e Linton. 

Sua volta, no entanto, torna a paixão do casal violenta e obsessiva, provocando o declínio de ambos e de todos ao seu redor.


A narrativa é lenta, sem brilho (exceto pelo figurino da atriz), se prende a momentos de sexo para abordar o "amor impossível" dos jovens. Com isso, deixa "buracos" que desagradam. 

Cathy é o exemplo da aristocracia vitoriana que, mesmo falida, trata Heathcliff como seu "bichinho de estimação" (palavras do pai dela no filme), apesar do amor que sente por ele, mas não assume. 

Outro furo foi o destino de Heathcliff após deixar a fazenda: ele sai da casa de Cathy na condição de empregado quase escravo, e volta rico. O que fez nesse tempo que passou longe? Como conseguiu melhorar tanto de vida? Apenas uma argola na orelha deixa a indicar que se tornou um pirata (será?). 


Margot Robbie entrega uma ótima atuação de garota mimada (quase uma "Barbie" vitoriana com trajes exóticos), mas foge completamente da idade da personagem literária, que era uma adolescente e mais nova que Heathcliff. No filme, ela aparenta ser mais velha que ele (e é, na verdade, sete anos). 

Situação semelhante à do personagem de Jacob Elordi ("Frankenstein" - 2025), que tem uma atuação mediana, sem brilho nem fúria nos olhos, mesmo nos momentos intensos de paixão desenfreada. Como em outras mais de dez adaptações do clássico, Heathcliff é branco, quando deveria ser um jovem cigano negro ou mestiço. 


O mesmo aconteceu com a versão de 1939, com Laurence Olivier e Merle Oberon, dirigida por William Wyller. Não foi a primeira para o cinema, mas é a mais famosa e faturou o Oscar daquele ano como Melhor Fotografia/Preto e Branco. 

Se Emerald Fennell depender da fotografia, o Oscar pode vir e será muito merecido. O excelente trabalho com as imagens envolve e segura o filme, especialmente nos cenários abertos. 

Algumas cenas poderiam ser menores, ficam cansativas às vezes e esticam o filme para uma duração de 2h16 desnecessária pela abordagem adotada.


O elenco coadjuvante entrega boas atuações, especialmente Hong Chau, como Nelly Dean, governanta de Cathy. Assim como os jovens Owen Cooper (da série "Adolescência" - 2025) e Charlotte Mellington, que interpretam Heathcliff e Catherine jovens, Alison Oliver, como Isabella Linton, e Martin Clunes, como o pai de Cathy.

Já a trilha sonora original apresenta 12 músicas de Charli XCX com estilos bem provocativos e sensuais, como a dark "House", em parceria de John Cale, a potente "Chains of Love" e a envolvente "Wall of Sound", tocada em momentos especiais dos protagonistas.

"O Morro dos Ventos Uivantes" é um romance dramático que atravessa gerações atraindo milhares de seguidores que ainda vêm na obra escrita por Emily Brontë um modelo de amor impossível que só aumentou com o passar dos anos.


Se escrito hoje seria tema de discussões acaloradas pela relação passional e tóxica, marcada por violência, ciúme, racismo e diferença de classes sociais. E como no filme, só poderia acabar em tragédia. 

Agora é saber se o orçamento de US$ 80 milhões dessa nova adaptação será compensado pela bilheteria, garantindo mais um sucesso para a diretora. Especialmente porque a produtora LuckyChap, da atriz Margot Robbie, recusou uma oferta de US$ 150 milhões feita pela Netflix para que o longa fosse lançado nos cinemas em vez de ir direto para o streaming.

Particularmente, a fotografia foi o que mais me agradou. Assista e comente aqui o que achou.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Emerald Fennell
Produção: Media Rights Capital (MRC), LuckyChap Entertainment, Lie Still
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h16
Classificação: 16 anos
País: EUA
Gêneros: drama, romance

06 janeiro 2026

Histórias de perda e reinvenção - Parte 1: “Hamnet” e “Valor Sentimental"



Carol Cassese


A temática da perda e os modos de elaboração do luto estruturam pelo menos quatro filmes recentes que vêm se destacando no circuito internacional, articulando experiências familiares a processos de reconstrução subjetiva. 

O assunto será abordado em duas postagens. Enquanto este post será centrado em "Hamnet" e "Valor Sentimental", o segundo traz breves análises dos longas "Vida Privada" e "Miroirs No. 3".

"Hamnet - A Vida Antes de Hamlet", que estreou nos cinemas estadunidenses em 5 de dezembro e chega às salas brasileiras em 15 de janeiro, é um exemplo notável do tema. 


Dirigido por Chloé Zhao (“Nomadland” - 2021) e inspirado no romance homônimo de Maggie O’Farrell, a produção reflete sobre como a ficcionalização pode ser um mecanismo de enfrentamento ao luto. 

O filme dialoga diretamente com a vida de William Shakespeare e com o modo como sua experiência de perda teria ressoado na criação de Hamlet (sabe-se que Hamnet Shakespeare, filho do dramaturgo, faleceu aos 11 anos).

"Hamnet" estreou no Telluride Film Festival, em agosto de 2025. Posteriormente, a produção foi exibida no Toronto International Film Festival, onde venceu o People’s Choice Award, um dos principais prêmios de público da temporada. 


Em dezembro, o filme integrou a programação de eventos especiais do Main Cinema, em Minneapolis (Estados Unidos), onde tive a oportunidade de acompanhar um debate após a sessão com Katherine Scheil, autora de "Imagining Shakespeare’s Wife: The Afterlife of Anne Hathaway" (vale ressaltar que a sala de cinema estava lotada, em uma manhã de sábado com temperatura de –10 °C). 

A discussão abordou o apagamento histórico de figuras femininas ao longo dos séculos e também evocou a curiosa coincidência em torno do nome Anne Hathaway, esposa de William Shakespeare e homônima da conhecida atriz hollywoodiana. 

Vale notar que, no século XVI, os nomes Hamnet e Hamlet eram usados de maneira intercambiável, o que reforça a proximidade simbólica entre a experiência biográfica do dramaturgo e sua criação literária.


Além da forte recepção no circuito de festivais, a produção protagonizada por Jessie Buckley e Paul Mescal já aparece entre os títulos mais comentados do circuito de premiações, sendo frequentemente mencionado em projeções para grandes disputas. 

A atuação de Buckley, que recentemente levou o prêmio de Melhor Atriz no Critics Choice Awards, e o trabalho de Zhao vêm sendo apontados como destaques relevantes da temporada. 

Ao se inscrever no campo da ficção histórica, a adaptação do livro de O'Farrell propõe uma reflexão sobre a recriação do passado e a mescla entre fatos, imaginação e elaboração estética. 

Dessa maneira, Hamnet se alinha a uma tendência crescente no cinema e na literatura contemporânea, em que narrativas históricas são revisitadas a partir de perspectivas criativas.


VALOR SENTIMENTAL

Também em destaque na temporada de premiações, "Valor Sentimental" (ainda em circulação nos cinemas brasileiros), obra do diretor norueguês Joachim Trier, é centrada no retorno de um pai, cuja presença reabre feridas ligadas à memória familiar. 

Assim como ocorre em "Hamnet", o filme propõe reflexões sobre o retrato ficcional de acontecimentos trágicos, mostrando como a recriação de experiências difíceis pode, de maneira complexa e não linear, auxiliar na elaboração de traumas.


Como mencionamos na introdução, o novo filme do diretor norueguês Joachim Trier, que assinou produções como "Oslo, 31 de Agosto" (2011) e "A Pior Pessoa do Mundo" (2021), é centrado nos efeitos conturbados de um reencontro familiar. 

Mais especificamente, a narrativa acompanha um cineasta, interpretado por Stellan Skarsgård, e suas duas filhas, vividas por Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas, em meio a tensões ligadas à memória e a feridas que permanecem abertas. 


Nesse contexto, o filme introduz ainda a personagem de Elle Fanning, uma atriz americana convidada a interpretar ficcionalmente episódios dolorosos da história da família – gesto que desloca a experiência do trauma para o campo da representação. 

Aqui, é interessante pensar como a presença da personagem de Fanning opera também como uma alusão a um processo enfrentado por muitos diretores da cena independente: a passagem por um crivo hollywoodiano, seja em termos de reconhecimento crítico ou validação dentro de um mercado desigual. 

Bastante aclamado pela crítica, o longa estreou na competição oficial do Festival de Cannes 2025, onde venceu o Grand Prix (Grande Prêmio do Júri). 


11 dezembro 2025

"Sexa" acerta na direção, mas não aprofunda nos temas ligados aos 60+

Primeiro longa dirigido por Glória Pires aborda o medo do envelhecimento e o preconceito da sociedade
(Fotos: Helena Barreto/Divulgação)
 
 

Marcos Tadeu
Blog Jornalista de Cinema

 
Glória Pires faz sua estreia por trás das câmeras dirigindo o longa "Sexa", também protagonizado por ela, que entrou em cartaz nos cinemas nesta quinta-feira. 

A produção revela uma artista que não apenas atua com força, mas também assume com segurança a condução narrativa de um filme sensível e bem-humorado. 

"Sexa" reúne um elenco cheio de rostos conhecidos: Thiago Martins, Isabel Fillardis, Danilo Mesquita, Eri Johnson, Rosamaria Murtinho, Dan Ferreira e Déa Lúcia, em um projeto produzido pela Giros Filmes em parceria com a Audaz Filmes e distribuído pela Elo Estúdios.


A história acompanha Bárbara (Glória Pires), uma revisora de 60 anos que enfrenta o medo do envelhecimento e compartilha suas dúvidas e descobertas com a melhor amiga, Cristina (Isabel Fillardis). 

Após sucessivas frustrações afetivas, ela acredita ter encerrado a vida amorosa até conhecer Davi (Thiago Martins), um viúvo bem mais jovem que a faz revisitar suas certezas. 

A partir desse encontro, acompanhamos a protagonista mergulhar em seus próprios desejos, inseguranças e no embate entre o que sente e o que a sociedade espera dela. 

A diferença geracional entre o casal é tratada com naturalidade, revelando como carregamos frases que reforçam padrões rígidos de envelhecimento, como “tenho idade para ser sua mãe/avó”. 


Essas barreiras externas acabam alimentando uma autocrítica dura, marcada pelo medo de “não acompanhar”, pela comparação com a juventude e pelo receio do julgamento. 

Bárbara vive esse conflito de forma tão crível que se torna fácil se reconhecer nela, apesar de o filme poder explorar ainda mais essas camadas internas. 

Existem momentos dramáticos baseados principalmente na ideia de que uma relação com alguém mais jovem não dará certo, pois ele poderia escolher alguém da própria idade e não uma mulher sexagenária.


O grande mérito da obra está em desmontar, com delicadeza, o etarismo afetivo. A relação entre uma mulher de 60 anos e um homem de 35 surge com espontaneidade, mas é atravessada por um tabu social que recai quase exclusivamente sobre mulheres. 

Enquanto romances entre homens mais velhos e mulheres jovens são normalizados, o oposto ainda causa desconforto. 

O filme confronta esse padrão ao afirmar que afeto, desejo e recomeço não têm prazo de validade e que mulheres maduras continuam potentes, inteiras e dignas de viver histórias de amor.


Glória Pires também acerta no humor, usando referências populares — como o meme “não sou capaz de opinar” — de forma inteligente, sem enfraquecer o tema central. 

Há cuidado na construção da individualidade da protagonista e na forma como ela ressignifica sua autoestima e seu corpo. A personagem Bárbara tem vida própria, vai à boate, sai com a amiga, e se permite viver.

O ponto menos desenvolvido fica por conta do arco envolvendo o filho dela, interpretado por Danilo Mesquita. Ele surge como um jovem pai controlador, moralista e dependente da mãe, especialmente nas decisões sobre a educação do filho dele. 


Embora esse conflito traga questões importantes como machismo estrutural, padrões familiares e as diferenças etárias, algumas soluções do roteiro soam abruptas. A mudança do personagem acontece de forma rápida demais, enfraquecendo a potência dessa parte da narrativa.

O filme também poderia explorar mais atividades que os sessentões realizam, no sentido de mostrar seu bem-estar e sua rotina, algo que seja cotidiano e orgânico. 

Sabemos que a vida é imprevisível e cheia de surpresas, mas parece haver certo receio de mostrar que pessoas acima dos 60 anos são ativas, lúcidas e têm desejos e vontades como qualquer outra.


No conjunto, "Sexa" se estabelece como um filme que celebra mulheres nesta faixa de idade e reafirma seu direito ao amor e ao recomeço, mesmo quando a sociedade insiste em dizer o contrário. 

É uma obra que emociona pela honestidade, diverte com sutileza e abre conversas necessárias, apesar de aprofundar pouco em algumas reflexões. Mas entrega uma conclusão limpa e coerente com o que propõe.


Ficha técnica:
Direção: Glória Pires
Produção: Giros Filmes e Audaz Filmes, coprodução da Paramount Pictures e Riofilme
Distribuição: Elo Studios
Exibição: Cinemark Pátio Savassi
Duração: 1h30
Classificação: 14 anos
País: Brasil
Gêneros: comédia, romance

13 novembro 2025

"Meu Pior Vizinho" - o inferno está do outro lado da parede

A fina folha que separa os apartamentos de Lee Ji-hoon e Lee Ji-hoon pode mudar suas vidas
(Fotos: Sato Company)
 
 

Silvana Monteiro


Em “Meu Pior Vizinho”, Lee Seung-jin (interpretado por Lee Ji-hoon) aluga um apartamento daqueles bem pequenos, colado, parede-parede com uma designer e artista plástica Han Seung-yeon (papel de Hong Ra-ni).

A questão é que ambos começam a se irritar com o barulho um do outro. Ele, como músico que precisa treinar para um teste musical e ela fazendo suas artes. A convivência vai ficando impossível até que um acontecimento os faz sair do controle. O que era inimizade vai virar amizade ou outra coisa? 


Com roteiro de Park So-hee, Lee Woo-chul e Kim Ho-jung, o filme revisita o original francês ("Blind Date", 2015) com o olhar próprio dos Kdramas.

O elenco é liderado por Lee Ji-hoon, estreando nas telonas após papéis de destaque em “River Where the Moon Rises” (2021) e “Rookie Historian Goo Hae-Ryung” (2019), e por Han Seung-yeon, ex-integrante do KARA, já conhecida por trabalhos como “Show Me the Ghost” (2021) e “Hello, My Twenties!” (2016). O excelente ator Ko Kyu-pil ("Twelve") completa o trio, no papel de Ku Ji-woo.


“Meu Pior Vizinho” tem uma fotografia sofisticada, talvez seu ponto mais forte, mas falta-lhe o pulso emocional que costuma mover boas comédias românticas. A obra até acena para temas como moradia, solidão, convivência e afeto, porém não os desenvolve com a profundidade que prometem.

O filme acaba escorregando no clichê dos doramas coreanos, repetindo a velha fórmula requentada: dois desconhecidos divididos por uma parede, irritação inicial, situações caóticas e, supostamente, um vínculo que deveria nascer daí. 


O problema é que não dá tempo para o envolvimento real do casal. As relações acontecem no automático, quase por convenção do gênero, e isso esvazia o impacto emocional — justamente o que se espera de uma história desse tipo.

No fim, sobra a estética: bonita, cuidada, às vezes até mais sensível do que o próprio roteiro. Falta, porém, a centelha que transforma uma narrativa previsível em algo capaz de tocar o público. Há charme, há intenção, mas há pouco risco. Nada de novo sob o sol. O resultado é um filme agradável de assistir, mas incapaz de deixar marcas.


Ficha técnica:
Direção:
Lee Woo-chul
Distribuição: Sato Company
Exibição: Cinemark Pátio Savassi
Duração: 1h52
Classificação: 14 anos
País: Coreia do Sul
Gêneros: romance, comédia

16 agosto 2025

"Meu Ano em Oxford": quando o amor desafia o tempo e veste a beleza dos jardins ingleses e da poesia

Longa com Sofia Carson e Corey Mylchreest se destaca por seu cuidado visual e sua atmosfera envolvente (Fotos: Netflix)


Silvana Monteiro

 
"Não há tempo consumido
nem tempo a economizar
O tempo é todo vestido

de amor e tempo de amar."
Carlos Drummond de Andrade
 
Os versos do poeta mineiro abrem com perfeição o caminho para falar de outro tipo de poesia: a cinematográfica. E mais que isso: uma poesia que atravessa os corredores da literatura e se manifesta nas imagens de "Meu Ano em Oxford" ("My Oxford Year").

O filme, adaptado do romance de Julia Whelan e lançado em 2024, acaba de entrar na coleção da Netflix e é dos mesmos produtores de "A Culpa é das Estrelas" (2014).


A história gira em torno de Anna de La Vega, uma jovem norte-americana vivida por Sofia Carson, que se muda para Oxford, na Inglaterra, para cursar seu tão sonhado mestrado. 

Lá, ela conhece Jamie Davenport, interpretado por Corey Mylchreest, um professor-adjunto carismático, admirado e temido por sua fama de amores efêmeros. 

O encontro entre os dois rende mais do que trocas intelectuais: nascem sentimentos atribulados, atravessados por obstáculos, escolhas difíceis e um segredo que vira a perspectiva da história de cabeça para baixo.

Apesar de o enredo seguir a linha clássica dos romances de formação com tintas dramáticas e reviravoltas já conhecidas do público, o filme se destaca por seu cuidado visual e sua atmosfera envolvente. 


Destaque para a fotografia 

A fotografia é um espetáculo à parte. Oxford é retratada em toda sua glória: bibliotecas de madeira antiga com vitrais coloridos, salões silenciosos onde a luz atravessa o tempo, jardins palaciais em flor e uma paleta que remete ao romantismo vitoriano.

Mas o que realmente marca a experiência de "Meu Ano em Oxford" é a sensibilidade com que trata a relação entre amor e tempo. Afinal, quantos dias são necessários para um amor valer à pena? 

O filme não responde com fórmulas prontas, mas convida à reflexão. Em tempos acelerados, é um lembrete delicado de que há sentimentos que não se medem em anos, e que o amor pode ser eterno mesmo quando breve.


Anna se reinventa ao longo da trama, e é isso que torna o filme mais interessante do que apenas a história romântica. É uma narrativa sobre recomeços, amadurecimento e coragem. E sim, é um clichê, mas daqueles que acolhem, emocionam e aquecem o coração.

"Meu Ano em Oxford" é um romance que, mesmo querendo aprofundar em uma complexidade sobre a duração da vida, consegue ser raso, mas sem deixar de oferecer beleza, esperança e a certeza de que, como dizia Drummond, "amar é mesmo o sumo da vida".

E ficam a pergunta e a resposta que intitulam a poesia do nosso grande escritor: "O tempo passa? Não passa. Para o amor, não passa".


Ficha técnica:
Direção: Iain Morris
Produção: Temple Hill Entertainment
Exibição: Netflix
Duração: 1h53
Classificação: 12 anos
País: EUA
Gêneros: romance, comédia