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28 outubro 2026

“Naza" espanta o público com o ódio e a tecnologia usados para mortes em massa em Gaza

Longa é um retrato dos sistemas de extermínio utilizados por Israel nos ataques a palestinos e israelenses (Fotos: Vitrine Filmes)
 
 

Eduardo Jr.

 
Na abertura, a mensagem de que rostos e vozes foram alterados para a segurança das fontes ouvidas. É com clima de tensão que o documentário “Naza” se apresenta ao público e pode ser conferido no Cine Belas Artes. 

A aura de produção de risco tem razão de ser: filmado secretamente, durante a noite, nos telhados de Tel Aviv, o trabalho esmiúça os sistemas e tecnologias utilizados por Israel para realizar ataques em massa em Gaza.  

Vencedor do Prêmio Especial do Júri e aplaudido por 24 minutos pelo público no 83º Festival de Veneza, o documentário é uma produção do jornal britânico The Guardian e de James Wilson, com direção dos jornalistas Yuval Abraham e Rachel Szor. 

A dupla é responsável por “Zona de Interesse”, filme vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional de 2024. Aqui no Brasil, a distribuição de "Naza" fica a cargo da Vitrine Filmes.  

Yuval Abraham e Rachel Szor

O documentário aborda a ocupação de Gaza e Cisjordânia por Israel e o massacre promovido pelo Hamas em 2023. É quando a Inteligência Artificial assume o papel de identificar alvos. 

A partir dos depoimentos de 24 ex-integrantes do Serviço de Inteligência Israelense, o longa expõe como uma estrutura de vigilância transforma dados pessoais e celulares em instrumentos de guerra, borrando a fronteira moral do que é um combatente e o que é um civil, destruindo casas ocupadas por crianças e esfacelando a possibilidade de ajuda humanitária. 


O nome “Naza” designa os danos colaterais, o número de civis que morrerão em um ataque. Em vez de contabilizar vidas e pessoas, contabilizam-se números, transformando mortes em estatísticas. Essa lógica, somada ao uso da tecnologia e aos rostos ocultos dos entrevistados, acaba por contribuir para tornar impessoal o ato de matar. 

Como se a responsabilidade pela destruição de famílias inteiras pudesse ser dissolvida no argumento de que é um sistema, apenas um procedimento. 

Sem ver os rostos de quem relata ou de quem sofre as consequências, corre-se o risco de perder a dimensão humana desses assassinatos. Ainda assim, os depoimentos chocam. 


Espantam justamente por revelar como a morte de inocentes pode ser tratada com frieza, mesmo quando as vítimas são pessoas que apenas convivem ou se relacionam com os alvos escolhidos. 

Na noite de Tel Aviv, as conversas nos telhados são emolduradas pelas vidraças dos prédios vizinhos, que parecem separar quem observa e quem é observado. Vidas e rotinas como a de qualquer pessoas que, em segundos podem não estar mais ali. O espectador chega a pressentir um ataque ao ouvir o soar de uma sirene de bombardeio aéreo.  

O documentário acerta na tentativa de colocar o espectador mais próximo daquele drama. Principalmente quando as imagens saem do alto dos prédios e cedem lugar a cenas reais de sobreviventes procurando familiares sob os escombros, entre gritos e corpos soterrados, inertes, estampados na tela sem refresco para quem assiste. 


Afinal, o choque talvez possa resgatar a humanidade que estamos perdendo dia após dia. Aí está a dimensão humana de decisões tomadas por militares mergulhados em ódio e algoritmos. Mais do que denunciar o emprego da tecnologia na guerra, “Naza” questiona a ética de um sistema no qual a eficiência operacional está acima da vida. Provoca ao colocar a morte de civis como dano calculável. 

Talvez o efeito mais perturbador da obra esteja em mostrar que a atrocidade não depende apenas do ódio explícito, mas também de procedimentos transformados em atos burocráticos, códigos, telas que tornam a violência aparentemente impessoal. 

Diante de uma destruição que persiste, o filme convoca o público para, em 80 minutos, reconhecer as vítimas para além das estatísticas. A questionar a normalização de crimes de guerra e de crimes contra a humanidade. 


Ficha técnica:
Direção: Yuval Abraham e Rachel Szor
Produção: Jornal The Guardian, JW Films (Jim Wilson) e mk2 Films
Distribuição: Vitrine Filmes
Idiomas: hebraico e inglês
Exibição: Cine Belas Artes
Duração: 1h20
Classificação: 14 anos
Países: Reino Unido, Estados Unidos
Gênero: documentário

22 outubro 2026

"Mestre Zu", tributo que vira aula de jornalismo, humanidade e Brasil

Documentário é uma homenagem a Zuenir Ventura, grande jornalista e imortal da Academia Brasileira
de Letras (Fotos: Divulgação)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
Mesmo as pessoas que não leram os livros de Zuenir Ventura vão apreciar com gosto o documentário "Mestre Zu", direção de Zelito Viana e Luciana Savaget, em cartaz nos cinemas a partir de 5 de novembro. 

Autor de "Mal Secreto: Inveja", "Chico Mendes: Crime e Castigo", "Cidade Partida" e do best-seller "1968 - O Ano Que Não Terminou", o jornalista, que trabalhou em todos os grandes veículos de comunicação do Brasil, é mais do que um repórter de boa escrita. 

Membro da Academia Brasileira de Letras desde 2015, Zuenir é o grande pensador do Brasil, talvez o maior escritor das questões urbanas, sociais e políticas do País.


Como fica claro no filme, o mineiro Zuenir Carlos Ventura, nascido em Além Paraíba em 1931, é das raras pessoas que alcançam a unanimidade. De jornalistas a publicitários, de cineastas a alunos, de acadêmicos a artistas, todos concordam com a capacidade do mestre de ser rigoroso, exigente e, ao mesmo tempo, leve, generoso e engraçado. E, segundo muitos, irônico e sarcástico.

O documentário, que, além dos colegas, conta com a participação dos filhos Mauro e Elisa Ventura, começa com um encontro descontraído de amigos que, em volta da mesa, se perguntam: sobre qual Zuenir vamos falar neste filme? Qual deles será focalizado? 


E, pelo andamento da produção, fica evidente que, senão todos, muitos e variados "zuenirs" foram lembrados e reverenciados. Fica claro também, pela emoção de alguns dos entrevistados, que é praticamente impossível falar dele sem prestar-lhe uma homenagem. 

Miriam Leitão, Nelson Motta, Arthur Dapieve, Gerson Camarotti, Ana Maria Machado, Xexéu, Ancelmo Goes, Joaquim Ferreira dos Santos, Regina Zappa, Lula Vieira e Heloisa Teixeira são alguns dos profissionais que contam saborosas e reveladoras histórias vividas com Zuenir. 

O jornalista carregava com certo humor o estranho nome que lhe foi dado pelos pais, que lhe rendeu confusões hilárias ao longo da sua vida. Frequentemente era confundido com um nome de mulher.


Quando saiu de Minas para Nova Friburgo (RJ) onde passou parte da adolescência, ele trabalhou como ajudante do pai, pintor de paredes, faxineiro de boteco, boy de banco e caixeiro de camisaria. Mais tarde, já no Rio, virou estudante de Línguas Neolatinas enquanto morava na casa de uma tia em Vila Isabel, onde dividia um quarto de duas camas com dois primos. 

Zuenir conta também que sua vida foi marcada sempre por grandes coincidências, desde o encontro com Mary Akierstein na cantina da escola, com quem se casou e viveu a vida toda, até a forma como passou de arquivista a repórter do jornal Tribuna da Imprensa, comandado por Carlos Lacerda, antes de ser enviado especial a Paris para acompanhar João Goulart em seu exílio após o golpe de 1964.


Mas não só de coincidências e histórias saborosas foi a vida de Zuenir. Preso durante a ditadura militar, ele amargou cadeia por três meses, deixando em pânico a família e os amigos. Mas, para não perder o otimismo, dizia que, em vez de castigado, saiu premiado da prisão, pois teve como companheiro de cela ninguém menos do que o psicanalista Hélio Pellegrino.

Como não trata apenas do profissional, mas também do amigo, colega e professor de muitos, "Mestre Zu" é um documentário emocionante e inteligente. A forma como escreveu suas premiadas reportagens que se tornaram livros, e a ideia de trazer do Acre para sua casa no Rio de Janeiro um menino de 9 anos ameaçado de morte, dão a medida do homem Zuenir. Até os 13 anos, Genésio viveu sob a tutela do jornalista.


Engrandecem e humanizam também o filme a confissão do biografado de que, por duas vezes, sofreu um dilema ético ao noticiar a morte de dois amigos - Pedro Nava e Leon Hirshman. 

Outras pérolas que valem o documentário são o relato dos quatro dias que passou num sítio com Fernando Veríssimo para a produção do livro "Conversa Sobre o Tempo", de Arthur Dapieve, e sobre a carta histórica que recebeu - e publicou - do cineasta Glauber Rocha elogiando a ditadura de Geisel e Golbery do Couto e Silva. 

Enfim, "Mestre Zu" é, sob todos os aspectos, imperdível e necessário para se compreender o Brasil.


Ficha técnica:
Direção: Zelito Viana
Codireção: Luciana Savaget
Produção: Mapa Filmes do Brasil com coprodução da GloboNews, Riofilme e Niterói Audiovisual
Distribuição: Bretz Filmes e Mapa Filmes do Brasil
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h10
Classificação: livre
País: Brasil
Gênero: documentário

10 outubro 2026

Cine Humberto Mauro mostra esplendor da China que poucos conhecem

Serão apresentadas dez produções audiovisuais chinesas abordando a história, a cultura e o desenvolvimento tecnológico do país (Crédito: China Media Group)
  
 

Da Redação

 
Nos dias 13, 15, 17, 20, 22 e 24 de outubro (terças-feiras, quintas e sábados), com entrada sempre gratuita, o Cine Humberto Mauro, no Palácio das Artes, recebe a mostra “Ciclo China em Perspectiva”. Serão exibidas dez produções audiovisuais chinesas feitas entre 2023 e 2025, entre longas-metragens, curtas e uma série.

Os documentários percorrem diferentes dimensões da vida e da sociedade chinesas, destacando também a herança milenar e o desenvolvimento tecnológico, revelando facetas diversas de uma sociedade que já existe há cerca de 4 mil anos e se consolida cada vez mais no cenário global. 

A China é o segundo país mais populoso e segundo mais rico do mundo. Em 2026 é celebrado o Ano Cultural Brasil–China, marco que amplia as possibilidades de encontro e intercâmbio entre os dois países por meio da arte e da cultura. 


Em Minas Gerais, as comemorações ganham um significado ainda mais especial: o Estado completa 30 anos do acordo de irmanamento com a Província de Jiangsu, estabelecendo uma trajetória de aproximação que se renova, neste ano, por meio de diferentes ações culturais e institucionais. 

A programação começou no dia 1º de outubro, Dia Nacional da China, e segue até o fim do mês, com exibições regulares as terças e quintas-feiras, às 16h, e aos sábados, às 15h, incluindo documentários e programas audiovisuais chineses.

Além de abordar tradições milenares, patrimônio arquitetônico, gastronomia, paisagens e memória histórica, os filmes também acompanham a juventude, o desenvolvimento das cidades, a inovação tecnológica e os desafios da China contemporânea. 

"O Esplendor das Cidades”

No dia 13 (terça-feira), às 16 horas, será exibida a série "Milagre" (2025), de Shen Yan, dividida em quatro episódios: "Encontro na Floresta", uma emocionante história sobre o vínculo entre mãe e filho e a proteção dos animais; "Wing Chun", que conta a história de Chang Hongji, uma criança apaixonada pela dança em Nanyang, na província de Henan, que se tornou um ator de teatro de dança capaz de, em uma mesma expressão artística, unir as artes marciais e a dança. 

Os outros dois episódios são "Superando Obstáculos" - uma mãe, para ajudar o filho desempregado, mas enfrenta repetidos obstáculos devido à idade, à falta de habilidades específicas e às barreiras linguísticas; e "Vidas em Ascensão", uma história sobre crescimento, luta e emoções entrelaçadas, que se desenrola de 2011 a 2025 envolvendo a faxineira de um prédio comercial em Shenzhen e um jovem, mostrando como eles passam do primeiro encontro ao apoio mútuo e, finalmente, ao crescimento conjunto.

“Canção do Rio Amarelo” 

Entre os destaques da curadoria está o longa-metragem “Canção do Rio Amarelo” (2024), de Fan Zhiyuan, que será exibido no dia 15 de outubro. O filme acompanha o curso milenar e impetuoso do Rio Amarelo, traçando um amplo panorama da trajetória da civilização chinesa, desde suas origens até seu desenvolvimento ao longo dos séculos. 

A obra explora em profundidade os principais elementos culturais intimamente ligados ao Rio Amarelo em diferentes períodos históricos — da Pré-História às dinastias Qin e Han, passando pelas dinastias Tang e Song, Ming e Qing, até a era moderna. 

"Sabores da China"

Já no dia 17 (sábado), haverá sessão dupla. O público poderá fazer um mergulho na culinária do país asiático assistindo o curta "China através do seu Patrimônio Cultural Imaterial - Província de Fujian". Na sequência, o filme “Sabores da China” (2025), de Cai Yaqian, Gao Yue e Tu Xiaohe, é uma grande celebração da gastronomia chinesa, na qual chefes de diferentes regiões do país competem e demonstram suas habilidades culinárias. 

Por meio de técnicas criativas e inovadoras, são apresentados pratos marcados por fortes características regionais, que revelam o cotidiano, as tradições, as trocas e a riqueza cultural presentes nas gastronomias locais. 

"Registros das Artes e Ofícios da China: Os Robôs"

No dia 20 haverá também sessão dupla a partir das 16 horas com o curta "Registros das Artes e Ofícios da China: Os Robôs", que reúne diversos robôs inovadores e os engenheiros responsáveis por seu desenvolvimento, combinando análises de especialistas com apresentações artísticas. 

A  segunda produção é o documentário "China Rumo ao Futuro", de Wei Keran (2025), que acompanha três observadores de diferentes áreas profissionais em uma jornada pelos quatro principais agrupamentos urbanos da China. 

A produção revela como essas regiões estão promovendo um desenvolvimento mais integrado e harmonioso, superando barreiras geográficas e recorrendo à  inteligência artificial para melhorar a qualidade de vida da população e enfrentar os desafios do envelhecimento

"O Esplendor das Cidades”

"O Esplendor das Cidades” (2024), dirigido por Zhang Jie, Zhang Zhicheng e Zou Lin será exibido dia 22 de outubro (quinta-feira), mostra  detalhes das cidades chinesas de Suzhou, Hangzhou, Changsha, Kunming, Xangai e Zhuhai. 

Apresentadores percorrem mercados, vielas e margens de rios, revelando os encantos e a personalidade única de cada cidade. Convidados famosos compartilham memórias e histórias de sua infância, enquanto historiadores e especialistas locais ajudam a traçar os caminhos históricos e culturais que moldaram essas cidades ao longo do tempo. 

Destaque também para “Ecos de Xizang” (2023), da China Global Television Network, que será exibido no último dia da mostra, 24 de outubro (sábado), a partir das 15 horas. O curta-metragem acompanha a vida de um grupo diversificado de jovens de diferentes áreas profissionais no Planalto Qinghai-Xizang – região cuja altitude média é de 4 mil metros acima do nível do mar. 

Eles mostram como a juventude contemporânea está criando novas conexões entre suas raízes culturais tradicionais e as tendências globais.

"Patrimônio Arquitetônico Milenar"

Encerrando a programação, a série "Patrimônio Arquitetônico Milenar", de Zhu Jun (2024). Do Templo do Céu, onde os antigos buscavam “dialogar” com o Céu, à Torre de Madeira, construída sem um único prego e que permanece de pé há mais de mil anos; do Templo Suspenso, erguido à beira de um penhasco, ao Templo Foguang, a “joia da Dinastia Tang”; e ao Palácio Yongle, um precioso patrimônio taoista que passou por uma histórica “realocação integral”.

O documentário explora a arquitetura tradicional chinesa sob diferentes perspectivas — dos conceitos construtivos às técnicas de edificação, da busca estética à preservação, transmissão e inovação. Revela a extraordinária engenhosidade dos antigos mestres da construção, a sabedoria de uma arquitetura baseada na harmonia entre o ser humano e a natureza e a impressionante capacidade de preservação de obras que permanecem de pé há séculos e até milênios.

"Canção do Rio Amarelo"

A mostra “Ciclo China em Perspectiva” é realizada pelo Ministério da Cultura, a partir de uma parceria entre a Superintendência de Relacionamento Nacional e Internacional da Secretaria-Geral do Estado de Minas Gerais, o China Media Group e a Fundação Clóvis Salgado. A ação é viabilizada por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. 

O China Media Group (CMG), que cedeu os filmes para exibição, é um conglomerado estatal de mídia do país, criado em 2018, que produz e distribui conteúdos televisivos, documentários, notícias, entretenimento e programas culturais.

"Sabores da China"

Serviço
Mostra “Ciclo China em Perspectiva”
Local: Cine Humberto Mauro - Palácio das Artes (Avenida Afonso Pena, 1537, Centro - Belo Horizonte)
Datas: 13, 15, 17, 20, 22 e 24 de outubro (terças-feiras, quintas e sábados)
Horários: Variáveis
Classificações: Os filmes são livres para todos os públicos
Entrada: gratuita; 50% dos ingressos estarão disponíveis, de forma on-line, a partir do meio-dia da data das sessões, na plataforma Sympla; o restante dos ingressos será distribuído presencialmente na bilheteria principal do Palácio das Artes e nos totens, a partir de 1 hora antes de cada exibição.

14 setembro 2026

"Viva Marília": uma celebração que poderia revelar mais por trás da estrela

Documentário sobre Marília Pêra foi codirigido pela filha Esperança Motta
com roteiro do ex-marido Nelson Motta (Fotos: Acervo Pessoal/Marília Pêra)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
“Viva Marília” revisita a trajetória de uma das artistas mais versáteis da cultura brasileira. Em cartaz no Cine Belas Artes, o documentário é dirigido por Zelito Viana, com codireção da filha Esperança Motta e roteiro do ex-marido Nelson Motta. 

Narrado pela própria Marília Pêra, o filme percorre sua carreira por meio de entrevistas, cenas de filmes, novelas, espetáculos e programas de televisão, além de fotografias e registros de seu acervo pessoal. 

Produzido pela Mapa Filmes do Brasil tem coprodução de Globo Filmes, Globo News e Canal Brasil, com distribuição da Mapa Filmes e codistribuição da Bretz Filmes.


O resultado é também uma viagem por diferentes momentos do Brasil, acompanhando uma artista que atravessou décadas sem se limitar a uma única linguagem. Teatro, cinema, televisão, comédia, drama e musicais fizeram parte de uma trajetória marcada pela versatilidade e por mais de 80 prêmios.

Filha dos atores Manuel Pêra e Dinorah Marzullo, Marília cresceu cercada pelo teatro e aprendeu desde cedo os códigos do palco. Essa formação ajuda a entender uma carreira construída na capacidade de transitar entre diferentes personagens e linguagens. 


Mas sua história vai além do sucesso profissional. Durante a ditadura militar, esteve no elenco de “Roda Viva”, de Chico Buarque, espetáculo que sofreu uma invasão violenta em 1968. A agressão aos artistas tornou o palco também um espaço de resistência em um período marcado pela censura e pela repressão.

O documentário recupera ainda episódios que ajudam a dimensionar sua relação com outros nomes importantes da cultura brasileira, como Elis Regina, com quem disputou o papel principal do musical Como Vencer na Vida sem Fazer Força. 


Mais do que uma antiga disputa profissional, a história revela a admiração entre duas artistas que fizeram da presença em cena uma de suas principais marcas.

É justamente na maneira de contar essa história que está o principal problema de “Viva Marília”. O filme é extremamente chapa-branca e, ao optar quase sempre pela celebração, deixa pouco espaço para outras visões sobre a atriz. 

A condução da narrativa por Marília dá ao documentário um caráter íntimo, mas também limita os contrapontos. Faltam vozes capazes de tensionar a memória, questionar escolhas e apresentar outras perspectivas sobre a mulher e a profissional. 


Sua vida familiar, os três filhos — Ricardo Graça Mello, Esperança Motta e Nina Morena — e os diferentes relacionamentos que marcaram sua vida também aparecem de maneira bastante superficiais.

Ainda assim, o documentário cumpre um papel importante ao preservar a memória de uma artista que ajudou a construir o imaginário cultural brasileiro. As imagens de arquivo revelam não apenas a passagem do tempo, mas a transformação de Marília diante das câmeras e no palco. 

O problema é que em “Viva Marília” tudo é muito literal: a carreira é apresentada, os momentos importantes são recuperados e os personagens que fizeram parte dessa trajetória são lembrados, mas quase sempre falta o próximo passo — a reflexão. 


O filme poderia questionar mais, provocar mais e explorar as contradições de uma mulher e de uma artista tão complexa. Em vez disso, prefere reafirmar aquilo que já sabemos sobre Marília Pêra.

“Viva Marília” funciona, portanto, como um registro afetivo e uma oportunidade de reencontro com uma grande atriz, mas poderia ser muito mais. Ao transformar sua trajetória quase exclusivamente em celebração, o documentário acaba contando quem foi Marília Pêra, mas pouco se arrisca a perguntar quem ela foi de fato.


Ficha técnica:
Direção: Zelito Viana
Produção: Mapa Filmes do Brasil
Distribuição: Mapa Filmes, codistribuição Bretz Filmes
Exibição: Cine Belas Artes
Duração: 1h20
Classificação: livre
País: Brasil
Gênero: documentário

01 julho 2026

"Anatomia do Caos": relembrar para jamais esquecer

Filme escancara as bizarrices de um governante negacionista que foi responsável por mais de 700 mil
mortes na pandemia de Covid-19 (Fotos: Divulgação)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
Imprescindível. Talvez seja essa a palavra que melhor define "Anatomia do Caos", filme que mostra, com riqueza de detalhes, o que se passou no Brasil a partir da decretação da pandemia de Covid 19 em março de 2020 pela Organização Mundial da Saúde, lembrando que o país era governado por Jair Messias Bolsonaro.

Com roteiro e direção de Dandara Ferreira ("Meu Nome éGal" - 2023), o documentário, que estreia nesta quinta-feira (2) no Cine Belas Artes, é peça importante para que não caia no esquecimento os absurdos inacreditáveis vividos pelos brasileiros naqueles dias.


A começar pelo gigantesco número de mortes - mais de 700 mil - o filme escancara as bizarrices de um governante negacionista, anticiências e adepto de um chamado tratamento preventivo à base de Hidroxicloroquina, comprovadamente ineficaz.

O filme, que ao final faz questão de deixar clara a intenção de ser um documento de interesse público e de finalidade informativa, mostra a instalação e desenvolvimento da CPI da Covid-19 que levou milhões de brasileiros para a frente das TVs todas as manhãs.

Tornou populares figuras como Omar Aziz, Renan Calheiros, Randolfe Rodrigues, Simone Tebet, Osmar Terra, a médica Nise Yamaguchi e o senador Flávio Bolsonaro, sempre pronto a defender o pai.


São inacreditáveis as muitas falas do presidente da República durante a pandemia. Em live ou entrevistas, ele chama a doença de gripezinha, debocha dos doentes com falta de ar, chama os brasileiros de 'maricas', indica medicamentos que não funcionam e responde mal aos jornalistas quando a pergunta é sobre as mortes.

Todos se lembram da famosa frase "eu não sou coveiro" e da campanha contra as máscaras e vacinas. Ou do discurso dele na ONU, quando disse ter salvado o Brasil que estava à beira do socialismo.

Igualmente inesquecível é o chamado gabinete paralelo, que tinha à frente Osmar Terra, defensor intransigente da imunização de rebanho junto com o desastroso ministro da Saúde, Eduardo Pazzuello.


Outra lembrança importante ativada pelo documentário é a crise de escassez de oxigênio em Manaus, quando milhares de pessoas morreram literalmente por falta de ar.

O Brasil perdeu também grupos indígenas que foram exterminados pela doença levada pelos brancos, mas a CPI pegou fogo mesmo quando o deputado federal Luis Miranda denunciou o que passou a ser chamado de escândalo da Covaxin, quando veio à tona a proposta de pagar muito além do preço de tabela por essa vacina.

Não faltou também menção ao caso da Prevent Sênior, com seus números duvidosos e a surpreendente declaração da médica responsável: "Óbito também é alta".


Com placas indicando o número de mortes aumentando a cada dia, a CPI ouviu também os empresários Carlos Wizard, que defendia o tratamento precoce com Cloroquina enquanto citava versículos bíblicos.

E o impagável e estranhíssimo Luciano Hang, conhecido como "veio da Havan", que marcou presença com suas fanfarronices e convites a motociatas enquanto o Brasil se tornava responsável por 33% das mortes por Covid 19 em todo o mundo.

O tempo costuma apagar tudo, até mesmo as dores mais cruéis. Nesse sentido, "Anatomia do Caos" faz seu papel importante, usando a arte para reativar a memória e para que episódios como esses jamais se repitam. 

Vale ressaltar que, em 2022, Jair Bolsonaro torna-se o primeiro presidente desde a redemocratização a não ser reeleito.


Ficha técnica:
Direção: Dandara Ferreira
Roteiro: Dandara Ferreira e Élcio Verçosa Filho
Produção: Movioca Casa de Conteúdo, Las Margaridas e LabV
Distribuição: Descoloniza Filmes
Exibição: Cine Belas Artes BH
Duração: 1h29
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gêneros: documentário, drama

09 junho 2026

Uma "BuenosAires" muito particular - e encantadora

Município pernambucano tem tantas peculiaridades que acabou virando tema de um documentário
(Fotos: Garimpo Filmes e Divulgação)
 
 

Patrícia Cassese

 
Na cidade de Buenos Aires, apenas um habitante nasceu de fato na Argentina. Não, você não leu errado. Ocorre que a "BuenosAires" à qual estamos nos referindo não é a capital do país vizinho, mas, sim, uma cidade localizada no interior de Pernambuco – precisamente, na Zona da Mata norte do estado, a cerca de 80 km do Recife. 

Na verdade, enquanto povoado, o local atendia pelo nome de Jacu, mas, em 1928, com a elevação do status para vila, virou Buenos Aires. Hoje com cerca de 13 mil habitantes, o município pernambucano tem tantas peculiaridades que acabou virando tema de um documentário – que, aliás, estreia no Cine Belas Artes BH neste 11 de junho. 


Dirigido pela cineasta Tuca Siqueira, “BuenosAires” apresenta ao espectador, por meio de uma professora de espanhol (que ministra aulas gratuitas para poucos alunos), o universo rico e deleitante desse lugar tão fora da curva, no qual, para citar um pequeno exemplo, há que mulheres empenhadas em se aperfeiçoar no preparo das empanadas (iguaria típica da Argentina e outros países platinos), para venda. 

Ou, ainda, quem tente reproduzir as casinhas coloridas características do Caminito, em La Boca, ponto turístico obrigatório para quem vai à Buenos Aires argentina (pelo menos na primeira visita). 

Há também o morador – Luzivaldo – que, enquanto fã de carteirinha do lendário jogador que hoje atua no Inter Miami, colocou o nome de Lionel em seu filho mais novo. 

No documentário, Janaína, a mãe do garoto, inclusive assume o arrependimento de não ter atendido ao desejo inicial do marido, que era registrar o rebento como Lionel Messi. Em tempo: um dos sonhos não realizados de Luzivaldo era morar na Argentina.


O futebol também é responsável pelo clima de frenesi que toma conta dos habitantes às vésperas do “clássico” Penãrol X Boca Juniors (não os originais, claro, mas os locais, homônimos ao time uruguaio e ao argentino). No alto falante, anuncia-se uma promoção de camisas da seleção argentina, assim como da brasileira, na loja Zé Paulo Variedades. 

Este comércio, vale dizer, é comandado por um ex-jogador (sim, óbvio, o Zé Paulo) que, apaixonado pelo Boca Juniors, criou o clube homônimo no sertão pernambucano, onde atua como preparador, técnico e massagista, além de também entrar no campo. Sua esquadra enfrenta times como o River Plate da Paraíba ou o já citado Penãrol pernambucano.


Em uma cena, jovens da Buenos Aires brasileira comentam, em tom de crítica, o fato de, por conta do nome da cidade, muitos habitantes do município torcerem entusiasticamente pela seleção argentina, e não pela brasileira, o que seria mais natural. 

Parênteses: isso porque as imagens de “BuenosAires” foram captadas em 2022, ano do Mundial, que, ao fim, foi vencido pelo país banhado pelo Rio da Prata, no confronto com a França. 

Outro momento do longa, mais uma vez ligado ao futebol, mostra torcedores vestidos com a camisa oficial do time azul e branco cantando: “Eu... sou argentino/com muito orgulho/com muito amor”. 

Ah, sim... A cidade pernambucana também tem um La Bombonera, que ostenta, na entrada, uma estátua de Maradona, assim como, nos muros que o delimitam, pinturas retratando ídolos como Messi ou Tévez. 


Para além das semelhanças com a capital argentina, “BuenosAires” também mostra outras características da cidade pernambucana, como o sósia de Roberto Carlos ou a rotina dos que trabalham na colheita da cana de açúcar. 

Mas mesmo aí a adoração pela seleção argentina se infiltra, como na figura de Catita, trabalhador que acorda às quatro da manhã para garantir o futuro da família, e que aparece na telona com a camisa da seleção argentina. 

Não só. Até a tradição cultural mais importante da cidade, o maracatu, surge maculada pela paixão pela bola em campo. Um contraponto é o patriótico Biart, escultor de figuras sacras (lindíssimas), que, lá atrás, sonhou em ser famoso com sua faceta cantor/compositor de rock e reggae – uma de suas músicas, aliás, está presente na trilha. 


Em um momento divertido, o doc fala de uma marcante semelhança entre as duas cidades: a presença incômoda dos mosquitos. Quem levanta o fato é o argentino citado no início da matéria, Leonardo, nascido em La Pampa, mas criado em Bariloche (não por outro motivo, o moço penou para se adaptar ao clima da sua nova morada, dividida com Josi, a “Gringa”). 

Programador de software, ele hoje é profundo conhecedor da história local e sonha em criar o Museu dos Engenhos. A câmera o flagra com seu detector de metais a procurar moedas no solo árido.


O cemitério da cidade (e seus túmulos singelos, pintados com afinco), a agremiação que faz bonito no Carnaval pernambucano, a alegria que emerge em meio às despretensiosas conversas cotidianas nas calçadas (para as quais as cadeiras são trazidas no interior das casas e instaladas nas calçadas, a fanfarra que motiva os jovens a ensaiarem coreografias, exibidas de forma empenhada... 

Outros pontos se incumbem de delinear de forma mais precisa o dia a dia dessa cidade que, ao fim, deixa no espectador a vontade sincera de conhecê-la. E o desenlace não poderia ser embalado por outra música que não a de Biart: “Na velha cidade da lua/na velocidade da luz/você é a nave que me conduz/e no balanço do reggae eu chego lá”. Ou, quizá, no balanço do tango, do maracatu...


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Tuca Siqueira
Produção: Garimpo Filmes
Distribuição: ArtHouse Distribuidora
Exibição: Cine Belas Artes BH
Duração: 1h10
Classificação: 10 anos
País: Brasil
Gênero: documentário

30 maio 2026

Documentário propõe um olhar singular sobre um marco arquitetônico brasileiro, o "Copan"

Projetado por Oscar Niemeyer, edifício paulistano possui 1.160 apartamentos e uma população estimada
em mais de cinco mil pessoas (Fotos: Vitrine Filmes)
 
 

Patrícia Cassese

 
Idealizado nos anos 1950 e finalizado há exatos 60 anos, o Copan, marco icônico da capital paulista, é um desses edifícios cuja fama transcende a localização geográfica.

No caso, não só pelo projeto ter sido assinado por Oscar Niemeyer, mas também pelos números portentosos que ostenta - 1.160 apartamentos (de dimensões variadas, de quitinetes a belas coberturas), distribuídos em 32 andares, e uma população estimada em mais de cinco mil pessoas.

Atualmente, trata-se de um ponto cult da cidade - para citar um exemplo, recentemente, o sorvete de pudim vendido por um dos estabelecimentos situados no térreo viralizou nas redes e, agora, é possível ver filas na porta.


O local também abriga uma unidade da Livraria Megafauna, o badalado restaurante Dona Onça e, numa espécie de viagem no tempo, uma videolocadora. Este ano, a peça "Hamlet" foi encenada por lá, com ingressos esgotados a cada sessão.

Não é de se estranhar, pois, que essa cidade vertical fosse tema para uma produção audiovisual voltada a destrinchar um pouco de suas particularidades. É o que "Copan", documentário de Carine Wallauer (que por lá morou durante sete anos), que está em cartaz no Cine Belas Artes BH, se propõe a fazer, mas majoritariamente por um ângulo bem específico: o dos trabalhadores do condomínio.


Claro, a produção também se fixa em alguns moradores, caso do DJ KL Jay (Racionais MCs), bem como reserva um tempo para apresentar o síndico Affonso Prazeres, que faleceu em dezembro do ano passado, aos 86 anos.

Vale dizer que as filmagens foram feitas em 2022, época em que o Brasil ainda convivia com o flagelo do novo coronavírus - daí o número de pessoas que ainda aparecem em cena de máscara.

Do mesmo modo, período no qual os eleitores se preparavam para ir às urnas, em um país altamente polarizado, dividido entre conceder mais um mandato presidencial a Jair Bolsonaro ou trazer Luiz Inácio Lula da Silva de volta ao poder.


E sim, o clima pré-eleição acaba sendo incorporado ao filme, mostrando representantes da torcida da direita e da esquerda tanto entre os funcionários quanto entre moradores, o que naturalmente acaba por ratificar a miríade de tipos que habita o Copan.

Evidentemente, um documentário só não daria conta de esquadrinhar todos os aspectos do edifício que está para São Paulo como o Conjunto JK para a capital mineira.

Portanto, a diretora teria inequivocamente que escolher um recorte, assim como o cineasta Eduardo Coutinho escolheu para o seu brilhante "Edifício Master" ou o jornalista Chico Felitti para o podcast "A Síndica", que, ao falar sobre o JK, se debruça sobre a finada Maria das Graças - ou, como ele brinca na produção, "Doutora Graça".


Um documentário sobre o Copan poderia enveredar pelos aspectos arquitetônicos. Ou, ainda, sobre a vida íntima de alguns moradores. Também poderia falar sobre o sucesso do sistema AirBnB por lá, assim como pela riqueza e disparidade dos apartamentos, muitos deles temas de matérias em revistas de decoração, como a fabulosa e inspiradora morada da atriz Mika Lins.

Não bastasse, poderia discorrer sobre o momento atual, de total efervescência - basta ver a fila que se forma de pessoas ansiosas para se sentar no empreendimento da chef Janaína Torres, o já citado Dona Onça.

O Copan, pois, comportaria ser abordado por vários aspectos. A diretora escolheu esse, e, com ele, conquistou o "É Tudo Verdade", o maior festival de documentários do país, sendo agraciado na categoria de Melhor Filme Brasileiro.


Também foi o único representante latino-americano na competição oficial do CPH:DOX 2025, tido como um dos principais festivais do gênero no mundo. 

Certo, talvez uma certa parte dos espectadores sinta falta de informações adicionais mais específicas, mas, claro, se elas não estão lá, explícitas, é de caso pensado.

Particularmente, senti falta de algumas referências que poderiam situar melhor quem não tem tanta familiaridade com o condomínio. A decisão de colocar a divisão política do Brasil é interessante, mas prefiro os momentos em que ela não está presente em cena, como os flagrantes de momentos comezinhos, caso do funcionário na lida de transportar o lixo, o recanto com redes para descanso, o cafezinho dos funcionários...


A reunião de condomínio e seus inerentes conflitos também é um momento alto do documentário, mas a melhor cena é mesmo a do desfecho. Poética, visualmente linda e com uma trilha sonora que coroa com perfeição o desenlace.
 
Aliás, há frames belíssimos - outro exemplo é a cena da escada externa. No cômputo geral, uma produção que lança um olhar interessante sobre o marco, deixando um gostinho de quero mais no espectador.
 

Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Carine Wallauer
Produção: O PAR
Distribuição: Vitrine Filmes
Exibição: Cine Belas Artes BH
Duração: 1h37
Classificação: 12 anos
Países: Brasil e França
Gênero: documentário