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09 junho 2026

Uma "BuenosAires" muito particular - e encantadora

Município pernambucano tem tantas peculiaridades que acabou virando tema de um documentário
(Fotos: Garimpo Filmes e Divulgação)
 
 

Patrícia Cassese

 
Na cidade de Buenos Aires, apenas um habitante nasceu de fato na Argentina. Não, você não leu errado. Ocorre que a "BuenosAires" à qual estamos nos referindo não é a capital do país vizinho, mas, sim, uma cidade localizada no interior de Pernambuco – precisamente, na Zona da Mata norte do estado, a cerca de 80 km do Recife. 

Na verdade, enquanto povoado, o local atendia pelo nome de Jacu, mas, em 1928, com a elevação do status para vila, virou Buenos Aires. Hoje com cerca de 13 mil habitantes, o município pernambucano tem tantas peculiaridades que acabou virando tema de um documentário – que, aliás, estreia no Cine Belas Artes BH neste 11 de junho. 


Dirigido pela cineasta Tuca Siqueira, “BuenosAires” apresenta ao espectador, por meio de uma professora de espanhol (que ministra aulas gratuitas para poucos alunos), o universo rico e deleitante desse lugar tão fora da curva, no qual, para citar um pequeno exemplo, há que mulheres empenhadas em se aperfeiçoar no preparo das empanadas (iguaria típica da Argentina e outros países platinos), para venda. 

Ou, ainda, quem tente reproduzir as casinhas coloridas características do Caminito, em La Boca, ponto turístico obrigatório para quem vai à Buenos Aires argentina (pelo menos na primeira visita). 

Há também o morador – Luzivaldo – que, enquanto fã de carteirinha do lendário jogador que hoje atua no Inter Miami, colocou o nome de Lionel em seu filho mais novo. 

No documentário, Janaína, a mãe do garoto, inclusive assume o arrependimento de não ter atendido ao desejo inicial do marido, que era registrar o rebento como Lionel Messi. Em tempo: um dos sonhos não realizados de Luzivaldo era morar na Argentina.


O futebol também é responsável pelo clima de frenesi que toma conta dos habitantes às vésperas do “clássico” Penãrol X Boca Juniors (não os originais, claro, mas os locais, homônimos ao time uruguaio e ao argentino). No alto falante, anuncia-se uma promoção de camisas da seleção argentina, assim como da brasileira, na loja Zé Paulo Variedades. 

Este comércio, vale dizer, é comandado por um ex-jogador (sim, óbvio, o Zé Paulo) que, apaixonado pelo Boca Juniors, criou o clube homônimo no sertão pernambucano, onde atua como preparador, técnico e massagista, além de também entrar no campo. Sua esquadra enfrenta times como o River Plate da Paraíba ou o já citado Penãrol pernambucano.


Em uma cena, jovens da Buenos Aires brasileira comentam, em tom de crítica, o fato de, por conta do nome da cidade, muitos habitantes do município torcerem entusiasticamente pela seleção argentina, e não pela brasileira, o que seria mais natural. 

Parênteses: isso porque as imagens de “BuenosAires” foram captadas em 2022, ano do Mundial, que, ao fim, foi vencido pelo país banhado pelo Rio da Prata, no confronto com a França. 

Outro momento do longa, mais uma vez ligado ao futebol, mostra torcedores vestidos com a camisa oficial do time azul e branco cantando: “Eu... sou argentino/com muito orgulho/com muito amor”. 

Ah, sim... A cidade pernambucana também tem um La Bombonera, que ostenta, na entrada, uma estátua de Maradona, assim como, nos muros que o delimitam, pinturas retratando ídolos como Messi ou Tévez. 


Para além das semelhanças com a capital argentina, “BuenosAires” também mostra outras características da cidade pernambucana, como o sósia de Roberto Carlos ou a rotina dos que trabalham na colheita da cana de açúcar. 

Mas mesmo aí a adoração pela seleção argentina se infiltra, como na figura de Catita, trabalhador que acorda às quatro da manhã para garantir o futuro da família, e que aparece na telona com a camisa da seleção argentina. 

Não só. Até a tradição cultural mais importante da cidade, o maracatu, surge maculada pela paixão pela bola em campo. Um contraponto é o patriótico Biart, escultor de figuras sacras (lindíssimas), que, lá atrás, sonhou em ser famoso com sua faceta cantor/compositor de rock e reggae – uma de suas músicas, aliás, está presente na trilha. 


Em um momento divertido, o doc fala de uma marcante semelhança entre as duas cidades: a presença incômoda dos mosquitos. Quem levanta o fato é o argentino citado no início da matéria, Leonardo, nascido em La Pampa, mas criado em Bariloche (não por outro motivo, o moço penou para se adaptar ao clima da sua nova morada, dividida com Josi, a “Gringa”). 

Programador de software, ele hoje é profundo conhecedor da história local e sonha em criar o Museu dos Engenhos. A câmera o flagra com seu detector de metais a procurar moedas no solo árido.


O cemitério da cidade (e seus túmulos singelos, pintados com afinco), a agremiação que faz bonito no Carnaval pernambucano, a alegria que emerge em meio às despretensiosas conversas cotidianas nas calçadas (para as quais as cadeiras são trazidas no interior das casas e instaladas nas calçadas, a fanfarra que motiva os jovens a ensaiarem coreografias, exibidas de forma empenhada... 

Outros pontos se incumbem de delinear de forma mais precisa o dia a dia dessa cidade que, ao fim, deixa no espectador a vontade sincera de conhecê-la. E o desenlace não poderia ser embalado por outra música que não a de Biart: “Na velha cidade da lua/na velocidade da luz/você é a nave que me conduz/e no balanço do reggae eu chego lá”. Ou, quizá, no balanço do tango, do maracatu...


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Tuca Siqueira
Produção: Garimpo Filmes
Distribuição: ArtHouse Distribuidora
Exibição: Cine Belas Artes BH
Duração: 1h10
Classificação: 10 anos
País: Brasil
Gênero: documentário

30 maio 2026

Documentário propõe um olhar singular sobre um marco arquitetônico brasileiro, o "Copan"

Projetado por Oscar Niemeyer, edifício paulistano possui 1.160 apartamentos e uma população estimada
em mais de cinco mil pessoas (Fotos: Vitrine Filmes)
 
 

Patrícia Cassese

 
Idealizado nos anos 1950 e finalizado há exatos 60 anos, o Copan, marco icônico da capital paulista, é um desses edifícios cuja fama transcende a localização geográfica.

No caso, não só pelo projeto ter sido assinado por Oscar Niemeyer, mas também pelos números portentosos que ostenta - 1.160 apartamentos (de dimensões variadas, de quitinetes a belas coberturas), distribuídos em 32 andares, e uma população estimada em mais de cinco mil pessoas.

Atualmente, trata-se de um ponto cult da cidade - para citar um exemplo, recentemente, o sorvete de pudim vendido por um dos estabelecimentos situados no térreo viralizou nas redes e, agora, é possível ver filas na porta.


O local também abriga uma unidade da Livraria Megafauna, o badalado restaurante Dona Onça e, numa espécie de viagem no tempo, uma videolocadora. Este ano, a peça "Hamlet" foi encenada por lá, com ingressos esgotados a cada sessão.

Não é de se estranhar, pois, que essa cidade vertical fosse tema para uma produção audiovisual voltada a destrinchar um pouco de suas particularidades. É o que "Copan", documentário de Carine Wallauer (que por lá morou durante sete anos), que está em cartaz no Cine Belas Artes BH, se propõe a fazer, mas majoritariamente por um ângulo bem específico: o dos trabalhadores do condomínio.


Claro, a produção também se fixa em alguns moradores, caso do DJ KL Jay (Racionais MCs), bem como reserva um tempo para apresentar o síndico Affonso Prazeres, que faleceu em dezembro do ano passado, aos 86 anos.

Vale dizer que as filmagens foram feitas em 2022, época em que o Brasil ainda convivia com o flagelo do novo coronavírus - daí o número de pessoas que ainda aparecem em cena de máscara.

Do mesmo modo, período no qual os eleitores se preparavam para ir às urnas, em um país altamente polarizado, dividido entre conceder mais um mandato presidencial a Jair Bolsonaro ou trazer Luiz Inácio Lula da Silva de volta ao poder.


E sim, o clima pré-eleição acaba sendo incorporado ao filme, mostrando representantes da torcida da direita e da esquerda tanto entre os funcionários quanto entre moradores, o que naturalmente acaba por ratificar a miríade de tipos que habita o Copan.

Evidentemente, um documentário só não daria conta de esquadrinhar todos os aspectos do edifício que está para São Paulo como o Conjunto JK para a capital mineira.

Portanto, a diretora teria inequivocamente que escolher um recorte, assim como o cineasta Eduardo Coutinho escolheu para o seu brilhante "Edifício Master" ou o jornalista Chico Felitti para o podcast "A Síndica", que, ao falar sobre o JK, se debruça sobre a finada Maria das Graças - ou, como ele brinca na produção, "Doutora Graça".


Um documentário sobre o Copan poderia enveredar pelos aspectos arquitetônicos. Ou, ainda, sobre a vida íntima de alguns moradores. Também poderia falar sobre o sucesso do sistema AirBnB por lá, assim como pela riqueza e disparidade dos apartamentos, muitos deles temas de matérias em revistas de decoração, como a fabulosa e inspiradora morada da atriz Mika Lins.

Não bastasse, poderia discorrer sobre o momento atual, de total efervescência - basta ver a fila que se forma de pessoas ansiosas para se sentar no empreendimento da chef Janaína Torres, o já citado Dona Onça.

O Copan, pois, comportaria ser abordado por vários aspectos. A diretora escolheu esse, e, com ele, conquistou o "É Tudo Verdade", o maior festival de documentários do país, sendo agraciado na categoria de Melhor Filme Brasileiro.


Também foi o único representante latino-americano na competição oficial do CPH:DOX 2025, tido como um dos principais festivais do gênero no mundo. 

Certo, talvez uma certa parte dos espectadores sinta falta de informações adicionais mais específicas, mas, claro, se elas não estão lá, explícitas, é de caso pensado.

Particularmente, senti falta de algumas referências que poderiam situar melhor quem não tem tanta familiaridade com o condomínio. A decisão de colocar a divisão política do Brasil é interessante, mas prefiro os momentos em que ela não está presente em cena, como os flagrantes de momentos comezinhos, caso do funcionário na lida de transportar o lixo, o recanto com redes para descanso, o cafezinho dos funcionários...


A reunião de condomínio e seus inerentes conflitos também é um momento alto do documentário, mas a melhor cena é mesmo a do desfecho. Poética, visualmente linda e com uma trilha sonora que coroa com perfeição o desenlace.
 
Aliás, há frames belíssimos - outro exemplo é a cena da escada externa. No cômputo geral, uma produção que lança um olhar interessante sobre o marco, deixando um gostinho de quero mais no espectador.
 

Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Carine Wallauer
Produção: O PAR
Distribuição: Vitrine Filmes
Exibição: Cine Belas Artes BH
Duração: 1h37
Classificação: 12 anos
Países: Brasil e França
Gênero: documentário

04 maio 2026

"2DIE4: 24 Horas no Limite": Imersão de tirar o fôlego deixa a história para trás

Primeira produção brasileira a apostar na tecnologia IMAX, acompanhando o piloto Felipe Nasr em tempo real (Fotos: Paulo Oliveira)
 
 

Maristela Bretas

 
Há uma ideia potente no centro de “2DIE4: 24 Horas no Limite” — e ela, de fato, acelera forte. O problema é que o filme parece mais interessado em impressionar do que em sustentar o percurso. Primeira produção brasileira a apostar na tecnologia IMAX, o longa dirigido pelos irmãos publicitários André e Salomão Abdala mergulha o espectador na experiência das 24 Horas de Le Mans de 2025.

O filme acompanha o piloto brasileiro Felipe Nasr, quase em tempo real, na prova de resistência mais famosa do automobilismo mundial, considerada a mais antiga e exigente da história.

Nesse aspecto é impossível negar seu impacto: há momentos em que a sensação de estar dentro do cockpit é tão convincente que o cinema praticamente desaparece — sobra apenas a corrida. Isso para uma produção que contou com apenas oito pessoas e levou dois anos para ser realizada.


A fotografia é um espetáculo à parte, especialmente nas cenas captadas ao amanhecer e durante o dia, quando a luz recorta os carros e a pista com precisão. A qualidade de imagem é, sem exagero, impressionante, e justifica plenamente a ambição de ser o primeiro filme brasileiro pensado para esta tecnologia. 

A proposta sensorial funciona: o longa não quer apenas ser visto, quer ser sentido. A produção foi vencedora do Motor Sports Film Award 2025 na categoria Melhor Documentário de Longa-Metragem.

Essa escolha, no entanto, cobra seu preço. Ao estruturar o filme como uma sucessão de “melhores momentos” da corrida, os diretores acertam no ritmo, mas sacrificam muito a construção dramática. O que poderia ser um retrato íntimo da pressão física e psicológica de uma prova de resistência se transforma em algo superficial, quase ilustrativo. 


A tentativa de criar um arco emocional para Nasr — por meio de narrações em off e cenas encenadas de preparação e introspecção — soa artificial. Em vez de aprofundar o personagem, que inegavelmente é um grande piloto, essas inserções lembram discursos motivacionais prontos, quebrando a autenticidade que o restante do filme tenta construir. 

A narrativa passa a imagem de uma pessoa arrogante e dona da verdade, que desmerece o trabalho da equipe e dos demais pilotos, se colocando quase que como única salvação para a vitória. Todos os demais são meros componentes de um filme que foi feito para valorizar Felipe Nasr e a Porsche.


Há também um desequilíbrio na mixagem de som. Embora a trilha sonora seja eficiente e envolvente, seu uso excessivo acaba sabotando a própria experiência. Em diversos momentos, a música se sobrepõe ao ronco dos motores — que deveria ser protagonista — e até mesmo às conversas de bastidores. Para um filme que busca imersão, chega a ser incoerente abafar, por diversas vezes, seus próprios elementos mais orgânicos.

“2DIE4: 24 Horas no Limite” tem seus méritos: ao abrir mão de entrevistas, contextualizações e explicações didáticas, ele aposta na imersão pura, transformando o espectador em participante direto da corrida. Uma associação interessante entre documentário e ficção sensorial, uma ousadia rara no cinema nacional.


Para os fãs de automobilismo, é um prato cheio: tecnicamente arrebatador e capaz de entregar momentos de tirar o fôlego. No entanto, a narrativa da produção é cansativa, com furos que incomodam até mesmo quem acompanha o mundo do automobilismo. 

Além de abusar em longos minutos de tela preta, que ajudam a confirmar que toda a potência do IMAX foi apenas parcialmente aproveitada, assim como o tema e que a duração de 60 minutos poderia ser menor. “2DIE4: 24 Horas no Limite” acelera com força, mas esquece de construir uma linha de chegada que valha a jornada ao cinema para o público comum.

OBS.: Como parte da divulgação do filme, o carro dirigido por Felipe Nasr pela equipe Porsche Penske Motorsport, o Porsche 963 de número 7, está em exibição no terceiro andar do Boulevard Shopping, em BH.


Ficha técnica:
Direção: André e Salomão Abdala
Produção: Abdala Brothers
Distribuição: 02 Play Filmes
Exibição: sala IMAX do Cineart Boulevard, sala 2 do Cineart Ponteio e sala 3 do Cinemark Pátio Savassi
Duração: 60 minutos
Classificação: livre
País: Brasil
Gênero: documentário

26 abril 2026

Crítica de "Zico, O Samurai de Quintino" – O Legado do Camisa 10 da Gávea

Documentário descreve a construção do mito que fez do atleta uma unanimidade para uma parcela da população que gosta de futebol (Fotos: Divulgação, Peter Wrede e Pedro Curi)
 
 

Wallace Graciano

 
Transportar para a telona a essência de um atleta que é tratado pelo público como uma divindade exige muito mais do que devoção: exige a coragem de, em certa medida, profanar o que, para muitos, é um mito para encontrar o lado mundano. 

E, em "Zico, O Samurai de Quintino", que estreia na próxima quinta-feira, dia 30, o diretor João Wainer explora um arquivo biográfico incomum — que inclui registros em Super-8, fitas VHS tateadas pelo tempo e diários pessoais — para seguir um caminho no qual a reverência e a ousadia narrativa tabelam como Bebeto e Romário certa vez já fizeram. 


O resultado é uma obra que não explora o camisa 10 da Gávea apenas como detentor da pedra mais alta, o que seria um caminho fácil. Ela também expõe sua carne. Esqueça o clubismo. O filme é, acima de tudo, uma obra que prende o cinéfilo apaixonado por futebol. 

Ao descrever a construção do mito que fez de Zico uma unanimidade para uma parcela da população, o diretor usa um ritmo frenético para escapar do academicismo biográfico. Ele vai e volta na narrativa, como um camisa 8 que dita os rumos de um meio-campo, dando fôlego aos acontecimentos sem precisar de uma linearidade para explicar por que o “Galinho de Quintino” chegou ao panteão onde o colocam.


Mas, como dito lá atrás, essa obra não é apenas uma construção de exaltação à figura mítica. Wainer sabe como inserir contrapontos de profundo potencial dramático e histórico, não fugindo de temas como a perseguição política sofrida por seu irmão, Nando, durante a ditadura militar, ou o impacto sociopolítico da fundação do Kashima Antlers no Japão.

E toda essa dualidade de construção do personagem, seja pela doce memória dos torcedores ou pelo sabor amargo da lona, tem um ponto focal que Wainer soube explorar bem: Sandra, esposa do craque há cinco décadas. Ela é o principal fio condutor do relato, sendo a guardiã da memória íntima que humaniza o ídolo.


Por meio dela e dos depoimentos sensíveis dos filhos — que não hesitam em expor as fraturas emocionais causadas pelas constantes ausências de um pai sugado por sua própria grandeza —, o documentário acessa o custo invisível da glória. É nesse terreno de vulnerabilidade que a narrativa ganha a textura que lhe falta em outros momentos. 

A dor lancinante da eliminação na Copa de 1982, o trauma físico imposto pela criminosa entrada de Márcio Nunes em 1985 e o peso do pênalti perdido contra a França em 1986 não são enquadrados apenas como obstáculos superados, mas como feridas abertas. E é nesse ponto que o estoicismo blindado do "Samurai" finalmente cede espaço às angústias do homem nascido em Quintino.


"Zico, O Samurai de Quintino" é um filme que escolhe desafiar seu público. Obviamente que ele afaga a memória coletiva de uma torcida, entregando uma filmagem quase litúrgica para seus devotos e uma introdução eficiente para quem ainda não foi apresentado ao camisa 10 da Gávea. 

Porém, não mergulha na fácil narrativa de exaltação contínua que faz do homem um mito. Se não reinventa a roda do documentário, sabe como explorar a fragilidade do ser humano, tratando com sensibilidade sua memória.

Obs.: De acordo com o perfil do Flamengo na rede social “X” (antigo Twitter), quem for trajado com a camisa do rubro-negro para assistir ao filme pagará meia-entrada. A promoção será válida exclusivamente durante a primeira semana em que a película estiver em cartaz. Consulte os cinemas participantes.


Ficha Técnica
Direção: João Wainer
Roteiro: Thiago Iacocca
Produção: Vudoo Filmes e Guará Entretenimento, com a coprodução da Globo Filmes, SporTV, Pontos de Fuga, Investimage e Clube de Regatas do Flamengo
Distribuição: Downtown Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h43
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gênero: documentário
Avaliação: 4,5 (0 a 5)

29 março 2026

Com o talento e atrevimento de sempre, Elza Cataldo nos apresenta "O Silêncio de Eva"

Documentário conta a história da atriz mineira Eva Nil, natural de Cataguases, que brilhou nas telas nos
anos de 1920 (Fotos: Divulgação)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
A cineasta Elza Cataldo é mesmo uma diretora teimosa - quase pirracenta. Em plena pandemia, ela juntou numa mesma casa, uma turma de gente tão teimosa quanto ela para filmar "O Silêncio de Eva", documentário sobre a atriz mineira Eva Nil, que, a partir da pequena e efervescente Cataguases, na Zona da Mata, brilhou nas telas nos anos de 1920. E, no auge do sucesso, simplesmente desistiu da carreira sem justificativa aparente, para continuar a trabalhar no estúdio de fotografia do pai. 

A ideia da cabeça criativa de Elza era reproduzir a casa onde a jovem artista viveu com seu pai, o imigrante italiano Pedro Comello, e sua mãe Maria, só que em BH, mais precisamente no bairro São Pedro, onde vivem o casal de artistas Inês Peixoto e Eduardo Moreira e a filha Bárbara Luz. 


Figura enigmática do cinema mudo brasileiro, Eva Nil corria o risco de ser apagada como tantas mulheres, se Elza Cataldo não tivesse entrado também na pesquisa que vinha sendo feita por Inês Peixoto, encantada com a história de pioneirismo, coragem e - por que não dizer - mistério que envolviam a jovem que saiu da fama sem dar satisfação a ninguém. 

Entre outros profissionais que embarcaram na canoa sob o remo de Elza, está também a produtora e roteirista Christiane Tassis, que ao final da sessão de pré-estreia do doc no Una Cine Belas Artes, comemorou: "Ainda bem que não desistimos como fez a Eva".

(Crédito: Una Cine Belas Artes)

A trupe de Elza Cataldo tem mesmo muito a celebrar. O documentário intercala entrevistas com historiadores e professores de cinema com cenas da família de artistas de Belo Horizonte. 

Enquanto folheiam álbuns de fotos e recortes, os três vão revelando ao público histórias saborosas da vida e da arte de Eva, egípcia de nascimento, que teria chegado ao Brasil com seu pai fotógrafo aos cinco anos de idade. 

As conversas e comentários dos especialistas entregam também o caráter libertário, quase rebelde, daquela jovem atrevida da efervescente Cataguases. Para se ter ideia, ela e o pai chegaram a ter uma produtora e, em 1925, foram sócios de Humberto Mauro na pioneira Minas Film.


Chama à atenção a atuação de Bárbara Luz, adolescente que interpreta Eva Nil nas cenas em que a família de BH se transforma na família de Cataguases. Bela e expressiva, Bárbara encanta o espectador na difícil tarefa de representar uma atriz dos anos de 1920, quando a interpretação se dava apenas pelas expressões faciais e, principalmente, pelo olhar. 

Destaque para a equipe de maquiagem, que também merece aplausos por reproduzir com fidelidade a make da época, com suas faces brancas e boquinhas vermelhas.


Com roteiro assinado pela própria Elza, com Inês Peixoto e Christiane Tassis, responsáveis também pela produção, "O Silêncio de Eva" tem tudo para desvendar a vida e a arte de mais uma mulher antes que sua história seja apagada como outras. 

Certamente, o público vai se deixar levar também pelas informações do time de entrevistados brilhantes do documentário, não só dos especialistas, mas também dos moradores de Cataguases, orgulhosos por ter em mãos, ainda hoje, fotos antigas feitas pelo Estúdio Comello, muitas delas "assinadas" pelo capricho e talento de Eva Nil. 

Ao final, caberá ao público agradecer a coragem e a pirraça de Elza Cataldo por ela não ter desistido.


Ficha técnica:
Direção, roteiro e produção: Elza Cataldo
Produção: Persona Filmes e Encripta
Exibição: Una Cine Belas Artes - sala 1 sessão 18h30
Duração: 1h46
Classificação: 10 anos
País: Brasil
Gênero: Documentário

04 fevereiro 2026

“Matriz de Arte & Fé" – documentário conta a história e o esplendor da Matriz de Santo Antônio de Santa Bárbara

Filme foi viabilizado por meio da Lei Paulo Gustavo e nasce também de uma relação pessoal do diretor
com a cidade (Fotos: Divulgação)
 
 

Da Redação

 
A Matriz de Santa Bárbara, em Minas Gerais, acaba de ganhar um documentário especial: “Matriz de Arte & Fé – A História e o Esplendor da Matriz de Santo Antônio de Santa Bárbara”, que vai contar a trajetória e os aspectos artísticos e culturais desta importante igreja mineira do período Barroco. 

O lançamento será nos dias 7 e 8 de fevereiro, às 20 horas, no Cine Vitória, espaço histórico da cidade que hoje abriga a Câmara Municipal de Santa Bárbara. A entrada será gratuita, com vagas limitadas. 

Os ingressos poderão ser reservados clicando no linkA partir do dia 09/02, o filme estará disponível gratuitamente no site: https://matrizartefe.com.br


Com 30 minutos de duração, o documentário, primeira obra da produtora mineira Thema Audiovisual, articula pesquisa histórica e entrevistas com especialistas para refletir sobre o papel simbólico, cultural e artístico da Matriz ao longo do tempo e sua permanência na vida da cidade.

Segundo Bruno dos Anjos, diretor do documentário e da Thema Audiovisual, a produção se mostrou muito interessante desde a etapa de pesquisa. "O período histórico em que a Igreja Matriz de Santo Antônio foi construída, assim como seus símbolos e elementos artísticos, remetem a uma era fundamental da formação cultural de Minas Gerais".


O filme foi viabilizado por meio da Lei Paulo Gustavo, a partir de edital da Prefeitura de Santa Bárbara, e nasce também de uma relação pessoal de Bruno dos Anjos com a cidade. "Por ser santabarbarense, o projeto é uma tentativa de projetar um pouco do encantamento que esse templo exerceu sobre mim desde a infância — especialmente a pintura atribuída a Manuel da Costa Ataíde, um dos principais nomes da arte colonial brasileira".

O processo de produção envolveu pesquisa histórica, levantamento iconográfico, gravações e entrevistas com pesquisadores e professores da UFMG que são referência na área. "Um dos principais desafios foi organizar esse material de modo a construir uma narrativa cinematográfica, já que a proposta era realizar um filme, e não um conteúdo didático ou uma videoaula", explica Bruno dos Anjos.


   

A produção se desenvolveu ao longo de aproximadamente 10 meses, desde a pesquisa inicial até a finalização. "Optamos por uma linguagem que vai na contramão das tendências audiovisuais contemporâneas, privilegiando um ritmo mais reflexivo e contemplativo, em diálogo com a própria estética barroca que o filme aborda".

Para a equipe de produção, a experiência foi criativamente estimulante e abriu a possibilidade de desenvolver uma série dedicada a outros monumentos do Barroco Mineiro. "No momento, o objetivo é levar o documentário ao maior público possível, o que inclui a participação em festivais e a circulação em plataformas digitais e multimídia", concluiu.


Ficha técnica:
Direção:
Bruno dos Anjos
Produção: Thema Audiovisual
Apoio: Prefeitura Municipal de Santa Bárbara e Ministério da Cultura
Exibição: Youtube e no site https://matrizartefe.com.br
Duração: 30 minutos
Classificação: Livre
País: Brasil
Gêneros: documentário, história

08 dezembro 2025

"3 Atos de Moisés", um doc para inspirar sonhos e tocar o impossível

Documentário, dirigido por Eduardo Boccaletti, reflete as fases mais importantes da vida do pianista de
Juiz de Fora (Fotos: L. Barreto)
 
 

Silvana Monteiro

 
Há documentários que se limitam a registrar fatos, outros que tentam emocionar, e alguns poucos que conseguem transformar uma biografia em experiência única. 

O documentário sobre Moisés Mattos, um músico que sai da Zona da Mata mineira para ganhar os palcos do mundo como pianista, pertence a essa categoria rara. 

A produção constrói sua narrativa em três momentos que dialogam entre si como movimentos de uma mesma peça musical, sempre fiel à ideia de que a arte pode atravessar barreiras que a sociedade insiste em erguer. Para quem escreve esta crítica, a música é a verdadeira linguagem universal. 


Torna-se então, muito mais poderosa ao ser a ponte de transformação e a realização de um homem cujas interseccionalidades, como a cor da pele, a origem e a orientação sexual, lhe conferem uma perspectiva ainda mais profunda.

O percurso de Moisés é filmado com a sobriedade de quem entende que nem todo início precisa de brilho para ter grandeza. O jovem que praticava em teclas imaginárias é mostrado sem exageros, e o filme encontra força justamente na simplicidade dos gestos cotidianos que antecedem o talento. 

Há um cuidado em revelar o artista antes da fama, sem pressa de coroá-lo e sem necessidade de dramatizar o que, por si só, já é dramático.

Ao longo do documentário, a música toma esse lugar como linguagem. O espectador acompanha o amadurecimento de Moisés em salas de estudo, recitais, processos seletivos e oportunidades que surgem quase sempre acompanhadas de novos desafios. 


A produção sugere, sem sublinhar demais, como a carreira artística no Brasil é atravessada por desigualdades que pedem não só habilidade, mas persistência, disciplina e uma confiança quase irracional no próprio destino. 

É nessa camada silenciosa que o filme encontra sua potência. É um enredo que pode levar o espectador à percepção de que a vida de um artista não se escreve apenas nos palcos, mas nos bastidores invisíveis e nas marcas que o moldam.

Quando Moisés retorna ao país, o filme abandona qualquer traço de triunfalismo. O reencontro com sua comunidade e com o passado não é tratado como redenção, mas como reconhecimento. Nesse contexto ele vê uma chance de enxergar, com distância, o preço e o alcance da própria vida. 


O desfecho tem a delicadeza de um gesto que fecha um ciclo sem apagar as cicatrizes que o compõem. Nada é espetacularizado; a emoção nasce do que permanece dito nas entrelinhas.

O documentário se destaca pela honestidade estética e pela recusa em transformar Moisés em símbolo fácil. Ele é retratado como o que sempre foi: um artista que avançou não porque o mundo se abriu para ele, mas porque ele insistiu em atravessá-lo. 

A obra, ao reunir seus três momentos, desenha também um retrato de um país com barreiras, sim, mas também com beleza e talento. “3 Atos de Moisés” é, no fim, um lembrete de que os sonhos não começam nos aplausos, mas no caminho que se faz até recebê-los. É uma obra linda, capaz de emocionar crianças, jovens, adultos e idosos.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Eduardo Boccaletti
Produção: É Pra Ontem Filmes, com as produtoras associadas Catiripapo Filmes e Tarannà Films
Distribuição: Pipa Pictures
Exibição: Cine Una Belas Artes
Duração: 1h13
Classificação: 10 anos
País: Brasil
Gênero: documentário

03 dezembro 2025

"Futebol de Cegos: O Jogo Mais Difícil" humaniza o esporte e traz luz às batalhas cotidianas

Documentário acompanha os bastidores da Seleção Brasileira de futebol de cegos na preparação para
os Jogos Paralímpicos de 2024 (Fotos: Bushatsky Filmes)
 
 

Wallace Graciano


Se você é fã ou não do esporte bretão, sabe que qualquer narrativa feita sobre futebol deve fugir de mostrar o placar como cerne de sua construção. Afinal, mais do que a bola na rede, paramos nosso dia a dia para entender da gênese ao resultado. 

E é isso que se percebe em "Futebol de Cegos: O Jogo Mais Difícil", dirigido por André Bushatsky, em parceria com o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB). O filme não apenas acompanha os bastidores da Seleção Brasileira de futebol de cegos na preparação para os Jogos Paralímpicos de 2024 em Paris, mas constrói uma narrativa de precisão cirúrgica, permitindo que a audiência, mesmo leiga na modalidade, seja imediatamente cativada por sua estrutura, seus desafios e, sobretudo, sua humanidade.


O documentário de André Bushatsky, que já está disponível no Globoplay e na SporTV, nos convida a imergir em uma sensibilidade rara ao equilibrar informação e emoção, independente de onde você está o acompanhando. 

O filme se recusa terminantemente a reduzir seus protagonistas a ídolos distantes ou símbolos isolados de "superação", uma das palavras que este autor acha mais insuportáveis, já que todos são atletas e humanos, merecendo ser tratados como tal. 


Em vez disso, ele mergulha nas dificuldades cotidianas, nos recomeços, nas lesões e nos treinos intensos nas quadras e em seus entornos, incluindo os especiais na praia em João Pessoa que pavimentaram o caminho do Brasil para se tornar uma referência mundial. 

Para além, o rigor metodológico do documentário é outro ponto que o eleva. O filme não assume o conhecimento prévio do espectador. Ele se dedica a explicar o jogo, seus fundamentos, as especificidades sonoras (como a presença dos guias, o uso das balizas humanas e a importância quase coreográfica da escuta). A produção sabe que a curiosidade do público é alta. 


"Futebol de Cegos: O Jogo Mais Difícil" é um filme que ensina sem ser didático demais, emociona sem ser apelativo e se torna envolvente porque entende que o coração do esporte reside nas pessoas que o tornam possível. É uma jornada que vale a pena ser assistida, como sugere o próprio diretor, porque "tem tudo, você vai se divertir."

É um documentário que, paradoxalmente, amplia a visão de quem assiste, mostrando que, quando se apaga a luz, o que permanece é aquilo que sempre deveria estar no centro do esporte: talento, esforço, emoção e uma profunda humanidade.


A seleção campeã

Para aqueles que não acompanham futebol, esta é seleção que já trouxe para casa cinco medalhas de ouro consecutivas (Atenas 2004, Pequim 2008, Londres 2012, Rio 2016 e Tóquio 2020):

Fábio Vasconcelos - Técnico
Ricardo Alves “Ricardinho” - Ala ofensivo
Raimundo Nonato - Ala ofensivo, pivô
Luan Lacerda - Goleiro
Jeferson Gonçalves “Jefinho” - atacante
Cássio Reis - Fixo, ala defensivo
Jardiel Vieira - Ala ofensivo
Jonatan Silva - Pivô
Maicon Júnior - Ala defensivo
Matheus Costa - Goleiro
Tiago “Paraná” da Silva - Ala defensivo


Ficha técnica:
Direção e roteiro: André Bushatsky
Produção: Bushatsky Filmes
Exibição: SportTV e Globoplay
Duração: 1h17
Classificação: livre
País: Brasil
Gêneros: documentário, esporte
Nota: 5 (0 a 5)

27 novembro 2025

Premiado documentário “Apolo” traz aos cinemas paternidade trans e violência institucional

Casal também faz do longa um registro para o filho que vai chegar, apresentando o mundo que o espera
(Fotos: Divulgação)
    
 

Eduardo Jr.

 
“O que eu era antes de eu ser?”. A provocação nos primeiros segundos de tela, que parece vinda de um bebê ainda no ventre, dá o tom do documentário brasileiro “Apolo”. 

O filme, produzido pela Capuri Filmes e distribuído pela Biônica Filmes, chega aos cinemas dia 27 de novembro e marca a estreia da atriz Tainá Müller na direção, realizada em parceria com a atriz e artista musical Ísis Broken, que também estreia como diretora e é protagonista da obra. 

O casal transgênero Ísis e Lourenzo apresentam o dia a dia da gestação de Apolo. A espera pelo bebê e a busca por cuidados arremessa na vida do casal uma série de episódios de preconceito e transfobia. Tudo porque a normatividade não está preparada para ver o pai, um homem trans, gerar uma criança.

Além de normalizar diferentes configurações familiares, alertar sobre práticas discriminatórias endossadas pelo Estado e valorizar o amor livre, o casal também faz do longa um registro para o filho que vai chegar, apresentando o mundo que o espera.    


E o mundo que Apolo vai encontrar é retratado de forma crua, sem filtros. Apesar de os parentes de Ísis e Lourenzo acolherem o casal, em outros ambientes as experiências vividas geram revolta no espectador (aquele com um mínimo de humanidade). 

São situações que vão do não reconhecimento do nome social no sistema de saúde à violência de chamar uma pessoa gestante de “coisa”.   

Só quando o casal deixa o interior e se muda para a capital São Paulo é que o atendimento especializado humanizado se apresenta. Uma demonstração de que o Estado precisa educar e preparar os profissionais para exercer a empatia, principalmente os que estão fora dos grandes centros urbanos. 

Outro desconforto da obra reside no campo da imagem. Os enquadramentos para os depoimentos soam infantis. Obviamente, são planejados, mas os personagens centralizados parecem ter posições demarcadas, demonstrando estarem pouco à vontade com a câmera observando as conversas. 


Apesar desses pontos, o documentário é sintonizado na esperança. A mesma esperança que muitas mulheres chefes de família (como a avó, a tia e a mãe de Ísis) cultivam a cada dia. 

A fotografia com luz mais quente, as referências à espiritualidade que sustenta o casal e a metáfora do amor no centro do universo são elementos que riscam da obra o clichê do relato de dor de quem é colocado à margem. 

O roteiro e a montagem também demonstram sabedoria. A exemplo da sequência da visita à família, carregada de euforia, seguida dos desafios da vida a dois, da primeira casa, de administrar um futuro em transformação.  

O diálogo está sempre presente no documentário. E é ele quem se veste de solução, até para dilemas pessoais, como a interrupção do uso de hormônios por Lourenzo durante a gestação. 

A situação mexe com o corpo dele, que vislumbra uma regressão no processo de transição e se vê desafiado sobre a amamentação. A conversa sincera com Ísis facilmente se configura como um dos momentos mais emocionantes da obra — eu disse ‘um dos’, pois a obra reserva cenas importantes até o final. 


Em suma, esta é uma obra que fixa imagens que a sociedade não está habituada a ver. Propõe reflexões sobre nossa postura diante do afeto LGBTQIAPN+. Nos apresenta alguns dos dramas de um casal transgênero e expõe violências institucionais que precisam ser tratadas para, então, viabilizar um futuro de respeito e igualdade. 

A estreia ainda vai acontecer, mas os prêmios já começaram a chegar. “Apolo” Foi premiado no Festival do Rio nas categorias Melhor Longa-Metragem Documentário e Melhor Trilha Sonora Original, realizada pelo músico Plínio Profeta. 

No 33º Festival Mix Brasil de Cultura e Diversidade, a produção conquistou o Coelho de Prata (Prêmio do Público) de Melhor Longa Nacional e uma Menção Honrosa do Júri na categoria de Melhor Longa-Metragem. 

“Apolo” e sua proposta de fazer refletir merece ser visto na telona. Cada um de nós precisa responder ao questionamento inicial do filme e outros, do tipo: um casal trans não pode amar? O bebê nascido de um casal trans também merece sofrer as mesmas violências que o pai e a mãe? Se somos uma sociedade que despreza e maltrata o que difere da gente, quem somos nós?    


Ficha Técnica:
Direção: Tainá Müller e Isis Broken
Roteiro: Tainá Müller, Tatiana Lohmann, Isis Broken, Lourenzo Duvale
Produção: Capuri, Biônica Filmes e Puro Corazón
Distribuição: Biônica Filmes
Duração: 1h22
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gênero: documentário