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| Projetado por Oscar Niemeyer, edifício paulistano possui 1.160 apartamentos e uma população estimada em mais de cinco mil pessoas (Fotos: Vitrine Filmes) |
Patrícia Cassese
Idealizado nos anos 1950 e finalizado há exatos 60 anos, o
Copan, marco icônico da capital paulista, é um desses edifícios cuja fama
transcende a localização geográfica.
No caso, não só pelo projeto ter sido assinado por Oscar
Niemeyer, mas também pelos números portentosos que ostenta - 1.160 apartamentos
(de dimensões variadas, de quitinetes a belas coberturas), distribuídos em 32
andares, e uma população estimada em mais de cinco mil pessoas.
Atualmente, trata-se de um ponto cult da cidade - para citar
um exemplo, recentemente, o sorvete de pudim vendido por um dos
estabelecimentos situados no térreo viralizou nas redes e, agora, é possível
ver filas na porta.
O local também abriga uma unidade da Livraria Megafauna, o
badalado restaurante Dona Onça e, numa espécie de viagem no tempo, uma
videolocadora. Este ano, a peça "Hamlet" foi encenada por lá, com
ingressos esgotados a cada sessão.
Não é de se estranhar, pois, que essa cidade vertical fosse
tema para uma produção audiovisual voltada a destrinchar um pouco de suas
particularidades. É o que "Copan", documentário de Carine Wallauer
(que por lá morou durante sete anos), que está em cartaz no Cine Belas Artes
BH, se propõe a fazer, mas majoritariamente por um ângulo bem específico: o dos
trabalhadores do condomínio.
Claro, a produção também se fixa em alguns moradores, caso
do DJ KL Jay (Racionais MCs), bem como reserva um tempo para apresentar o
síndico Affonso Prazeres, que faleceu em dezembro do ano passado, aos 86 anos.
Vale dizer que as filmagens foram feitas em 2022, época em
que o Brasil ainda convivia com o flagelo do novo coronavírus - daí o número de
pessoas que ainda aparecem em cena de máscara.
Do mesmo modo, período no qual os eleitores se preparavam
para ir às urnas, em um país altamente polarizado, dividido entre conceder mais
um mandato presidencial a Jair Bolsonaro ou trazer Luiz Inácio Lula da Silva de
volta ao poder.
E sim, o clima pré-eleição acaba sendo incorporado ao filme,
mostrando representantes da torcida da direita e da esquerda tanto entre os
funcionários quanto entre moradores, o que naturalmente acaba por ratificar a
miríade de tipos que habita o Copan.
Evidentemente, um documentário só não daria conta de
esquadrinhar todos os aspectos do edifício que está para São Paulo como o
Conjunto JK para a capital mineira.
Portanto, a diretora teria inequivocamente que escolher um
recorte, assim como o cineasta Eduardo Coutinho escolheu para o seu brilhante
"Edifício Master" ou o jornalista Chico Felitti para o podcast
"A Síndica", que, ao falar sobre o JK, se debruça sobre a finada
Maria das Graças - ou, como ele brinca na produção, "Doutora Graça".
Um documentário sobre o Copan poderia enveredar pelos
aspectos arquitetônicos. Ou, ainda, sobre a vida íntima de alguns moradores.
Também poderia falar sobre o sucesso do sistema AirBnB por lá, assim como pela
riqueza e disparidade dos apartamentos, muitos deles temas de matérias em
revistas de decoração, como a fabulosa e inspiradora morada da atriz Mika Lins.
Não bastasse, poderia discorrer sobre o momento atual, de
total efervescência - basta ver a fila que se forma de pessoas ansiosas para se
sentar no empreendimento da chef Janaína Torres, o já citado Dona Onça.
O Copan, pois, comportaria ser abordado por vários aspectos.
A diretora escolheu esse, e, com ele, conquistou o "É Tudo Verdade", o maior
festival de documentários do país, sendo agraciado na categoria de Melhor Filme
Brasileiro.
Também foi o único representante latino-americano na
competição oficial do CPH:DOX 2025, tido como um dos principais festivais do
gênero no mundo.
Certo, talvez uma certa parte dos espectadores sinta falta de
informações adicionais mais específicas, mas, claro, se elas não estão lá,
explícitas, é de caso pensado.
Particularmente, senti falta de algumas referências que
poderiam situar melhor quem não tem tanta familiaridade com o condomínio. A
decisão de colocar a divisão política do Brasil é interessante, mas prefiro os
momentos em que ela não está presente em cena, como os flagrantes de momentos
comezinhos, caso do funcionário na lida de transportar o lixo, o recanto com
redes para descanso, o cafezinho dos funcionários...
A reunião de condomínio e seus inerentes conflitos também é
um momento alto do documentário, mas a melhor cena é mesmo a do desfecho.
Poética, visualmente linda e com uma trilha sonora que coroa com perfeição o
desenlace.
Aliás, há frames belíssimos - outro exemplo é a cena da
escada externa. No cômputo geral, uma produção que lança um olhar interessante
sobre o marco, deixando um gostinho de quero mais no espectador.
Direção e roteiro: Carine Wallauer
Produção: O PAR
Distribuição: Vitrine Filmes
Exibição: Cine Belas Artes BH
Duração: 1h37
Classificação: 12 anos
Países: Brasil e França
Gênero: documentário






