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30 maio 2026

Documentário propõe um olhar singular sobre um marco arquitetônico brasileiro, o "Copan"

Projetado por Oscar Niemeyer, edifício paulistano possui 1.160 apartamentos e uma população estimada
em mais de cinco mil pessoas (Fotos: Vitrine Filmes)
 
 

Patrícia Cassese

 
Idealizado nos anos 1950 e finalizado há exatos 60 anos, o Copan, marco icônico da capital paulista, é um desses edifícios cuja fama transcende a localização geográfica.

No caso, não só pelo projeto ter sido assinado por Oscar Niemeyer, mas também pelos números portentosos que ostenta - 1.160 apartamentos (de dimensões variadas, de quitinetes a belas coberturas), distribuídos em 32 andares, e uma população estimada em mais de cinco mil pessoas.

Atualmente, trata-se de um ponto cult da cidade - para citar um exemplo, recentemente, o sorvete de pudim vendido por um dos estabelecimentos situados no térreo viralizou nas redes e, agora, é possível ver filas na porta.


O local também abriga uma unidade da Livraria Megafauna, o badalado restaurante Dona Onça e, numa espécie de viagem no tempo, uma videolocadora. Este ano, a peça "Hamlet" foi encenada por lá, com ingressos esgotados a cada sessão.

Não é de se estranhar, pois, que essa cidade vertical fosse tema para uma produção audiovisual voltada a destrinchar um pouco de suas particularidades. É o que "Copan", documentário de Carine Wallauer (que por lá morou durante sete anos), que está em cartaz no Cine Belas Artes BH, se propõe a fazer, mas majoritariamente por um ângulo bem específico: o dos trabalhadores do condomínio.


Claro, a produção também se fixa em alguns moradores, caso do DJ KL Jay (Racionais MCs), bem como reserva um tempo para apresentar o síndico Affonso Prazeres, que faleceu em dezembro do ano passado, aos 86 anos.

Vale dizer que as filmagens foram feitas em 2022, época em que o Brasil ainda convivia com o flagelo do novo coronavírus - daí o número de pessoas que ainda aparecem em cena de máscara.

Do mesmo modo, período no qual os eleitores se preparavam para ir às urnas, em um país altamente polarizado, dividido entre conceder mais um mandato presidencial a Jair Bolsonaro ou trazer Luiz Inácio Lula da Silva de volta ao poder.


E sim, o clima pré-eleição acaba sendo incorporado ao filme, mostrando representantes da torcida da direita e da esquerda tanto entre os funcionários quanto entre moradores, o que naturalmente acaba por ratificar a miríade de tipos que habita o Copan.

Evidentemente, um documentário só não daria conta de esquadrinhar todos os aspectos do edifício que está para São Paulo como o Conjunto JK para a capital mineira.

Portanto, a diretora teria inequivocamente que escolher um recorte, assim como o cineasta Eduardo Coutinho escolheu para o seu brilhante "Edifício Master" ou o jornalista Chico Felitti para o podcast "A Síndica", que, ao falar sobre o JK, se debruça sobre a finada Maria das Graças - ou, como ele brinca na produção, "Doutora Graça".


Um documentário sobre o Copan poderia enveredar pelos aspectos arquitetônicos. Ou, ainda, sobre a vida íntima de alguns moradores. Também poderia falar sobre o sucesso do sistema AirBnB por lá, assim como pela riqueza e disparidade dos apartamentos, muitos deles temas de matérias em revistas de decoração, como a fabulosa e inspiradora morada da atriz Mika Lins.

Não bastasse, poderia discorrer sobre o momento atual, de total efervescência - basta ver a fila que se forma de pessoas ansiosas para se sentar no empreendimento da chef Janaína Torres, o já citado Dona Onça.

O Copan, pois, comportaria ser abordado por vários aspectos. A diretora escolheu esse, e, com ele, conquistou o "É Tudo Verdade", o maior festival de documentários do país, sendo agraciado na categoria de Melhor Filme Brasileiro.


Também foi o único representante latino-americano na competição oficial do CPH:DOX 2025, tido como um dos principais festivais do gênero no mundo. 

Certo, talvez uma certa parte dos espectadores sinta falta de informações adicionais mais específicas, mas, claro, se elas não estão lá, explícitas, é de caso pensado.

Particularmente, senti falta de algumas referências que poderiam situar melhor quem não tem tanta familiaridade com o condomínio. A decisão de colocar a divisão política do Brasil é interessante, mas prefiro os momentos em que ela não está presente em cena, como os flagrantes de momentos comezinhos, caso do funcionário na lida de transportar o lixo, o recanto com redes para descanso, o cafezinho dos funcionários...


A reunião de condomínio e seus inerentes conflitos também é um momento alto do documentário, mas a melhor cena é mesmo a do desfecho. Poética, visualmente linda e com uma trilha sonora que coroa com perfeição o desenlace.
 
Aliás, há frames belíssimos - outro exemplo é a cena da escada externa. No cômputo geral, uma produção que lança um olhar interessante sobre o marco, deixando um gostinho de quero mais no espectador.
 

Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Carine Wallauer
Produção: O PAR
Distribuição: Vitrine Filmes
Exibição: Cine Belas Artes BH
Duração: 1h37
Classificação: 12 anos
Países: Brasil e França
Gênero: documentário

27 maio 2026

Em "Natal Amargo", Almodóvar transita entre dores, angústias e reflexões

Longa se desenrola mesclando ótimas atuações, uma trilha sonora marcante e ajustada a cada situação
e a paleta colorida de praxe (Fotos: Warner Bros. Pictures)
 
 

Patrícia Cassese

 
Já há algum tempo Pedro Almodóvar vem adotando um tom mais sombrio em suas narrativas fílmicas, o que não se restringe apenas ao roteiro, mas à própria paleta de cores, uma das características fortes do cineasta espanhol, hoje com 76 anos. 

Falado em inglês, “O Quarto ao Lado” (2024), até então mais recente longa do diretor a entrar em circuito, você se lembra, centrava foco em uma mulher – Michelle (Tilda Swinton) - que, acometida por um câncer em estágio terminal, convocava uma amiga, Ingrid (Juliane Moore), para estar próxima quando cometeria eutanásia. 

Em “Natal Amargo” ("Amarga Navidad"), filme que estreia nesta quinta-feira (28) no Cineart Ponteio, Cine Belas BH (Cine Belas Artes), Centro Cultural Unimed-BH Minas e Cinemark Diamond Mall, a finitude também se faz presente, mas por outro prisma: o de uma mãe que perde um filho, no que é considerada, em justa medida, a pior dor. 


Na verdade, o intrincado tema nem é propriamente a espinha dorsal do filme (ah, sim, há, ainda, a personagem que, por conta do trabalho, não conseguiu se despedir da mãe), mas um ponto que aparece como liga em um roteiro que se vale da metalinguagem. Ou seja, há um filme dentro do filme.

Logo de início, o espectador é apresentado a Elsa (interpretada pela belíssima atriz Bárbara Lennie, que, particularmente na caracterização dessa personagem, fisicamente lembra demais Christiane Torloni em início de carreira). Atormentada por uma forte enxaqueca, que ela relaciona a dias de tempestade, Elsa se dirige a um hospital, acompanhada do namorado, Bonifacio (Patrick Criado), dublê de bombeiro e strip-teaser. 

Ocorre que Elsa é, na verdade, uma personagem que desponta na mente em ebulição de Raúl (o argentino Leonardo Sbaraglia), cineasta que, no momento, se debruça obsessivamente sobre um novo roteiro. Elsa é um alter ego de Raúl que, na verdade, parece ser um alter ego de Almodóvar. Obviamente, não se trata de uma representação realística, a ser interpretada literalmente, biograficamente, mas sim, de modo metafórico. 


Na própria ida da personagem ao hospital, um pouco da trajetória de Elsa é dissecada por meio da enfermeira que a acolhe, e que, em dado momento, percebe que já viu aquele rosto antes, assim como de seu acompanhante, porém em situações distintas.

Neste momento, há uma cena particularmente engraçada, que é quando a moça, já imbuída da informação de que a paciente é uma cineasta, pergunta a Elsa o que é ser “uma diretora de culto” (cult), se significa algo do tipo “seita”. Muito provavelmente, é Almodóvar a brincar com sua própria fama de cult. 

Na esfera da ficção dentro de uma ficção, Elsa é assim considerada no ecossistema da sétima arte de seu país: uma diretora cult. No entanto, para sobreviver, precisa se enveredar pela publicidade, território no qual acabou conhecendo Bonifacio, ao dirigir um filmete sobre underwear masculino.


Vale relembrar, aqui, que Elsa é uma personagem da mente de outro personagem do filme, Raúl, e que espelha a trajetória de seu criador. Pausa também para situar que o próprio Almodóvar já adentrou o universo publicitário, embora, vamos frisar, longe de ter se dobrado a ditames e, assim, abandonado sua matriz inventiva, sua mente em constante ebulição. 

No curso do filme, em suas distintas esferas, Elsa e Raúl se enveredam pelo caminho da autoficção, atualmente bastante em voga na seara literária, por meio de nomes como os dos franceses Édouard Louis e Annie Ernaux. 

Pedro Almodóvar e parte do elenco

E é neste ponto que ergue-se uma questão crucial à narrativa: até que ponto um roteirista (ou dramaturgo, ou escritor) pode, e deve, usar a realidade como calço para a sua obra, ponderando-se que essa transposição inequivocamente leva, a rebote, a inclusão de pessoas do entorno que, ao travarem contato com o resultado, certamente vão se reconhecer ali, como fonte de inspiração? E que, com isso, podem se sentir particularmente atacadas, com um sentimento de invasão de privacidade e de exposição desnecessário, às vezes até mesmo aviltante e dolorida? 

Uma mãe que perdeu um filho pode ser fonte de inspiração direta para um personagem sem ter sido consultada previamente? O impacto de saber que isso aconteceu não agravaria a dimensão de seu luto, sua dor, sua gana por privacidade?


Em suma, qual o limite ético da autoficção? Até onde ir? Vale a pena passar por cima dos sentimentos de outros para se sobressair e gerar impacto sobre si? E é em torno dessa questão que “Natal Amargo” se desenrola mesclando ótimas atuações, uma trilha sonora marcante e ajustada a cada situação e, claro, a paleta colorida de praxe, porém, em tons mais “fechados”, escuros, como tem sido uma característica dos mais recentes filmes de Almodóvar. Não há nada estourado, gritante, nem em excesso. 


Os ambientes, não obstante abusem do contraste de cores, são extremamente elegantes, sofisticados, cool... um deleite para os olhos, sem resquícios do kitsch (nada contra). Aqui, a arte também se replica neste escaninho, assim como nos figurinos.

Um detalhe digno de nota é que há uma parte do filme que se passa em Lanzarote (ou Lançarote), lugar que o escritor português José Saramago escolheu como morada. Lanzarote pertence às Ilhas Canárias, próximas da costa da África Ocidental, e as paisagens mostradas no filme de Almodóvar são impactantes – em particular, quando Elsa e a personagem Natalia (Milena Smit), que perdeu o filho, caminham em meio às crateras de terra negra escavadas para proteger as videiras cultivadas na ilha – absolutamente deslumbrante. 


Lanzarote, aliás, já havia aparecido em outro filme de Almodóvar, “Abraços Partidos”, de 2009. O local é destino contumaz do diretor espanhol, que já o definiu como “repleto de segredos e mistérios”. 

E já que citamos Milena Smit, lembremos que ela é uma das personagens-chave em outro filme recente de Almodóvar, “Mães Paralelas” (2021). O argentino Leonardo Sbaraglia, por sua vez, é bastante conhecido do público cinéfilo brasileiro, já tendo atuado em filmes de sucesso, como “Relatos Selvagens” (2014), e mesmo dividido o set com Carolina Dieckmann no suspense dramático “O Silêncio do Céu”(2016).


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Pedro Almodóvar
Produção: El Deseo, RTVE, Instituto de Crédito Oficial (ICO), Institute of Cinematography and Audiovisual Arts
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: Cineart Ponteio, Cine Belas BH, Centro Cultural Unimed-BH Minas e Cinemark Diamond Mall
Duração: 1h51
Classificação: 16 anos
País: Espanha
Gêneros: drama, comédia

10 novembro 2025

Documentário "Lar" lança olhar sensível sobre o conceito de “família”

Filme mineiro observa o cotidiano de famílias LGBTQIAPN+ em Belo Horizonte e escuta falas sobre convivência, adoção e criação de laços (Fotos Embaúba Filmes)
 
 

Eduardo Jr.

 
“Filmes são gestos simples e complexos, que podem revelar muito de quem somos”. A frase apresentada em certo momento do documentário “Lar”, que estreia dia 13 de novembro nos cinemas, dá uma ideia do que é o longa dirigido por Leandro Wenceslau e distribuído pela Embaúba Filmes.  

A produção observa o cotidiano de famílias LGBTQIAPN+ em Belo Horizonte e escuta falas sobre convivência, adoção e criação de laços. Ao mesmo tempo, o diretor/narrador traz suas próprias vivências e embala em sentimentos sua obra. 


O diretor queria ter um filho com o marido, mas não sabia como. Até que um casal de professoras universitárias compartilhou com ele as experiências sobre a construção da família, que fizeram Wenceslau entender que, das mais diferentes formas, se edifica um núcleo familiar. Ele decidiu conhecer outras famílias LGBTQIAPN+, e teve a ideia de fazer o filme. 

Em "Lar", o cotidiano simples acaba revelando momentos e sentimentos marcantes. Pais e mães se abrem sobre os desafios de viver em família. Jovens adotados falam sobre pais viciados, abandono e sobre o misto de raiva e culpa que sentem por terem ido para um abrigo. 

Mesmo acolhidos por novas famílias e recebendo afeto, as memórias e percepções do passado os acompanham, provando que o convívio não se faz só de alegrias. 


Na tela, a direção se mostra inteligente. As imagens do Parque Municipal, em Belo Horizonte, casadas com um dos relatos de Wenceslau, deixam claro que, desde cedo, já havia uma busca por se conhecer, se entender como pessoa, como filho e sobre o exercício do papel de pai. 

Sutilmente, a busca por acolhimento se concretiza para o público por meio da construção imagética proposta no filme. Mais precisamente na cena da criança que relaxa, contemplando o céu e o telhado sobre sua cabeça. 

Os passeios e refeições em grupo também estão ali, democráticos, disponíveis aos mais diversos tipos de família. Seja com uma mãe trans, com os avós cisgênero, com dois pais… lar está muito além do laço sanguíneo. 


A sociedade precisa se despir da crença de que há um padrão de família a ser considerado. A conversa sobre a atuação das escolas diante de determinadas composições familiares é um dos pontos altos do documentário "Lar". 

Em síntese, a fala de uma das personagens traduz o que se vê na tela. Família é estar próximo. Apesar dos desencontros, dos traumas e das feridas que o tempo não apaga, a conexão com o mundo pode renascer. 

O documentário deixa claro: lar não é somente abrigo, é reconstrução. É onde se aprende a cair e levantar, a dividir o peso e a força, a controlar e a deixar ir. É no movimento entre rupturas e recomeços que se revela o verdadeiro sentido de pertencimento.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Leandro Wenceslau
Produção: Estalo Criativo
Distribuição: Embaúba Filmes
Exibição: Cine Una Belas Artes
Duração: 1h16
Classificação: livre
País: Brasil
Gênero: documentário