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26 março 2026

Leve capa de chuva, "Eles Vão Te Matar" e vai chover sangue

Zazie Beetz é a protagonista da carnificina que domina o filme do início ao fim, mesclada com muita
ação e humor ácido que agradam (Fotos: Warner Bros. Pictures)
 
 

Maristela Bretas

 
Estreia nesta quinta-feira (26) nos cinemas, com direito a muito sangue jorrando, cabeças e membros cortados e efeitos visuais absurdos, a comédia de terror "Eles Vão Te Matar" ("They Will Kill You"). Se "Casamento Sangrento: A Viúva" (2026) já agradou muitos fãs do gênero, esta nova produção vai deixar o público bem inquieto nas cadeiras do cinema, tamanha a violência e a matança. 

Ao mesmo tempo, os ataques são tão espantosos e sem noção que provocam risos e surpresa no espectador durante toda a trama. Sim, "Eles Vão te Matar" é uma comédia de terror com muita ação, com cenas que lembram a franquia "John Wick" (2014 a 2023), e os filmes "Deadpool" (2016) e "Kill Bill" (2003 e 2004). 

E mesmo com toda essa selvageria, o longa, de 95 minutos de duração, é uma boa surpresa e agrada.


A protagonista Asia Reaves (interpretada por Zazie Beetz, de "Coringa" (2019), "Deadpool 2" (2018) e "Trem Bala" (2022), é quase uma ninja que faz John Wick parecer um garoto de jardim de infância aprendendo a ser um assassino. 

Ela luta com facas, adagas, chaves de fenda; atira com revólver e escopeta - uma verdadeira especialista em armas. Fez curso completo de luta e tiro em 10 anos passados numa penitenciária de mulheres.


No filme, Asia e sua irmã Maria (Myha'la) tentam fugir do pai abusador e violento, mas tudo acaba errado e ela acaba presa. Cumprida a pena, Asia encontra emprego no centenário Hotel Virgil, em Nova York, onde vai descobrir que o luxo e a riqueza do local escondem uma seita satânica - e ela é o novo sacrifício. O que seus matadores não contavam era com a "experiência" da jovem em lidar com "situações de risco".

No elenco, temos ainda nomes conhecidos como Patrícia Arquette (a governanta Lilly), e os moradores permanentes e adoradores da entidade vividos por Tom Felton (Kevin), Heather Graham (Sharon), Paterson Joseph (marido de Lilly), entre outros.


Uma mistura de terror, ação e humor ácido que o diretor Kirill Sokolov soube mesclar bem, com cenas absurdas, deixando o filme eletrizante, sanguinário, mas que também provoca comentários, sustos e risadas - até mesmo quando os corpos são cortados ao meio. 

As cenas de lutas são sincronizadas e bem coreografadas, abusando do slow-motion, e a trilha sonora complementa a ação. Sokolov contou com a experiência de dois especialistas em terror na produção - Andy e Barbara Muschietti -, responsáveis pela série "IT: Bem-Vindos a Derry".


Além do banho de sangue da carnificina que deve ter acabado com o estoque da produtora, as mortes são épicas e cheias de surpresas (não vou dar spoiler!). E quando você acha que há um alívio em uma cena dramática ou outra, elas voltam com carga total, a cada andar do misterioso arranha-céu. 

Recomendo conferir no cinema para aproveitar melhor os efeitos visuais. E leve uma capa de chuva para se proteger dos respingos. "Eles Vão Te Matar" é um dos filmes de terror/comédia mais sangrentos, divertidos e melhores do ano até o momento.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Kirill Sokolov
Produção: New Line Cinema e Nocturna
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h35
Classificação: 18 anos
País: EUA
Gêneros: terror, comédia, ação

25 março 2026

Amigos de sempre, Fernanda Montenegro e Ary Fontoura se revelam "Velhos Bandidos"

Comédia conta ainda com as participações de Lázaro Ramos, Vladimir Brichta, Bruna Marquezine e
elenco de telenovelas (Fotos: Laura Campanella)
 
 

Maristela Bretas

 
Comédia leve e divertida com Fernanda Montenegro e Ary Fontoura dando aula de dramaturgia e comicidade ao tratarem um tema que já foi muito explorado no cinema - assalto a banco - incluindo a questão da velhice com um humor que só os anos de experiência deles e de outros idosos do elenco saberiam abordar. Recomendo demais.

O longa, dirigido por Cláudio Torres, filho de Fernanda Montenegro, e produzido pela Conspiração, é divertido, sem deixar de lado a emoção. O etarismo é abordado com leveza, de forma divertida, provando que a experiência dos idosos lhes dá uma grande vantagem sobre os "novinhos" e que a idade não pode ser um entrave para a realização dos sonhos.


O filme acompanha o casal de aposentados Marta (Fernanda Montenegro) e Rodolfo (Ary Fontoura), que planejam roubar um banco. Só que, para realizar o crime, eles precisam da participação de um jovem casal de assaltantes, Nancy e Sid, interpretados por Bruna Marquezine e Vladimir Brichta, que foi pego em flagrante tentando roubar a casa deles. 

A forma "diferente" como as vidas dos quatro se cruzam já deixa claro como será o decorrer da trama, que conta com muita ação e cada casal tentando dar um golpe no outro. No meio do caminho, entra uma figura inesperada que pode colocar fim a todo o plano - o obstinado investigador Oswaldo Aranha (Lázaro Ramos).



As estrelas, sem dúvida, são Fernanda Montenegro e Ary Fontoura. Uma dupla carismática, sincronizada e perfeita, que trata a idade avançada não como o fim da vida, e sim, o início de uma nova. No caso de Marta e Rodolfo, com mais dinheiro e muita energia. 

São elesque dão o rumo do filme, levantando a bola para Vladimir Brichta, Lázaro Ramos e Bruna Marquezine chutarem. Uma sintonia que agrada desde o início, com piadas "velhas e boas" que muitos espectadores acima dos 60 vão reconhecer.

A produção não se esqueceu de incluir no elenco artistas que marcaram gerações e hoje estão na Melhor Idade: Reginaldo Faria, Vera Fischer, Teca Pereira, Hamilton Vaz Pereira, Tony Tornado, Laila Garin e Nathalia Timberg.


Em entrevista coletiva de imprensa no Rio de Janeiro, Fernanda Montenegro contou que "Velhos Bandidos" foi um presente que Cláudio Torres deu a ela. "Ele sabe que eu gosto de comédia e tem também os companheiros de cena. Foi um prazer fazer o filme, era divertido. Há uma hora na vida em que a gente não tem mais futuro, sem morbidez, tem só o presente. Eu acho que só tenho o presente. E no presente, eu ter a oportunidade de estar com essa família de opção e ter meu filho me comandando como diretor faz com uma atriz, assim como fez com todo o elenco, é um momento especial", disse. 

Assim como Fernanda, o restante do elenco confirmou que também se divertiu muito durante as gravações.



"Velhos Bandidos" não é um filme para dar gargalhadas, mas as atuações do grande elenco, o plano mirabolante e as situações absurdas e previsíveis que vão sendo criadas pela "improvável quadrilha" são uma promessa de agradar ao público, inclusive o final no estilo novelesco. 

O filme também é uma oportunidade de ver "Fernandona" trabalhar pela primeira vez com Ary, apesar de serem velhos amigos. O mais engraçado é que nenhum dos dois tem cara de vilão - estão mais para mocinhos. Será este o único e último longa dos dois juntos no cinema? Recomendo assistir, um ótimo entretenimento.


Ficha Técnica
Direção e produção: Claudio Torres
Roteiro: Claudio Torres, Fabio Mendes e Renan Flumian
Produção: Conspiração, coprodução da TV Globo, Claro, Star Original Productions
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h33
Classificação: 14 anos
País: Brasil
Gêneros: ação, comédia

19 março 2026

Recomendo – "Casamento Sangrento: A Viúva" eleva o nível com mais terror, ação e pitadas cômicas

Samara Weaving volta a ser alvo de uma caçada mortal, desta vez ao lado da irmã
(Fotos: Searchlight Pictures)
 
 

Maristela Bretas

 
Depois de sobreviver a uma noite de núpcias nada convencional — repleta de sangue e violência intensa — Samara Weaving retorna ao papel de Grace MacCaulley em "Casamento Sangrento: A Viúva" ("Ready or Not 2: Here I Come"). Misturando terror, ação e comédia (o bom e velho “terrir”), o longa estreia nesta quinta-feira (19) nos cinemas.

A sequência retoma os acontecimentos finais do filme de 2019, "Casamento Sangrento". Grace volta a se ver envolvida no mortal jogo de “esconde-esconde”, agora fugindo da seita satânica ligada à família de seu falecido marido, os Le Domas. 

No longa original, ela havia sido oferecida como sacrifício em um ritual macabro e precisava sobreviver até o amanhecer.


Desta vez, porém, Grace não está sozinha. Ela conta com a ajuda da irmã mais nova, Faith (Kathryn Newton), com quem não tinha contato há anos. Juntas, as duas enfrentam uma nova caçada, agora promovida por outros integrantes do grupo.

Samara Weaving está ainda melhor, retomando com segurança e intensidade a protagonista que conquistou o público. Kathryn Newton também se destaca, entregando uma atuação convincente. 


A química entre as duas funciona tanto nos momentos de tensão familiar — marcados por mágoas do passado — quanto nas cenas de ação, quando precisam lutar pela própria sobrevivência. A partir daí, o sangue literalmente escorre pela tela e a violência atinge níveis ainda mais brutais.

O elenco conta também com Elijah Wood, no papel — literalmente — do “advogado do Diabo”; Shawn Hatosy (em ótima atuação) e Sarah Michelle Gellar como os irmãos Titus e Ursula Danforth, herdeiros do milionário Chester Danforth, líder da seita, vivido por David Cronenberg. Mesmo com participação pequena, o diretor e roteirista, aos 83 anos, tem presença marcante.


Completam o elenco Néstor Carbonell, como Ignacio El Caído, ao lado de seus filhos Felipe (Juan Pablo Romero) e Francesca (Maia Jae); Olivia Cheng, como a imponente Wan Chen Xing; Antony Hall, como Wan Cheng Fu; além dos irmãos Madhu (Varun Saranga) e Viraj Rajan (Nadeem Umar-Khitab).

Para os fãs do primeiro filme, a sequência deve agradar bastante, especialmente pelos efeitos visuais que elevam a violência a um nível quase absurdo — sem abrir mão de boas doses de humor.


"Casamento Sangrento: A Viúva" é ação intensa do início ao fim, com explosões de corpos e sangue espirrando para todos os lados. O diretor não poupa ninguém e mantém o ritmo acelerado até os minutos finais. Vale conferir nos cinemas.

Fica a dica: tente assistir também ao primeiro filme, disponível nas plataformas Netflix e Disney+.


Ficha técnica:
Direção:
Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett
Roteiro: Guy Busick, Ryan Murphy
Produção: Seachrlight Pictures
Distribuição: 20th Century Studios e Disney Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h48
Classificação: 18 anos
País: EUA
Gêneros: suspense, terror, comédia

02 março 2026

“Cara de Um, Focinho de Outro” emociona ao misturar aventura, tecnologia e alerta ecológico

Em nova animação da Pixar, humanos e animais dividem o protagonismo, cada um apresentando seu
lado de uma história (Fotos: Disney Pictures)
 
 

Maristela Bretas

 
Emocionante e divertido, uma animação para a família toda. A Pixar Animation entrega, com “Cara de Um, Focinho de Outro” (“Hoppers”), mais uma bela produção capaz de fazer rir e chorar, levando ao público — dos seis aos 100 anos — uma mensagem bastante atual: é preciso cuidar e preservar a natureza e aprender a viver em harmonia com ela.

O filme estreia nos cinemas no dia 5 de março, em versões dubladas e legendadas, mas já pode ser conferido em várias salas das redes Cineart, Cinemark e Cinépolis BH.


Humanos e animais dividem o protagonismo, cada um apresentando seu lado de uma história que gira em torno de um pequeno lago nos arredores de uma cidade. No passado, Mabel Tanaka (Piper Curda) já era defensora dos animais, mesmo quando toda a população a criticava.

A única que a compreendia era sua avó, a Sra. Tanaka (Karen Huie), que morava perto do lago. Foi ela quem ensinou à neta a importância de ouvir os sons da natureza para entendê-la melhor, além de ajudá-la a lidar com a própria raiva e a controlar suas emoções.


Na adolescência, não poderia ser diferente. Ao descobrir que o pequeno refúgio natural onde viveu seus melhores dias de infância seria destruído pelo “avanço do progresso”, Mabel decide recorrer a uma tecnologia revolucionária para se conectar aos animais que ali habitavam e que precisaram fugir.

Ela transfere sua consciência para o corpo de um castor robótico, o que lhe permite explorar o universo animal — suas aventuras, alegrias, emoções e conflitos. 

A partir daí, promove uma verdadeira revolução dos bichos, enfrentando Jerry (Jon Hamm), o prefeito da cidade, determinado a acabar com o lago dos castores. Mas tudo tem seu preço, e a situação pode acabar ameaçando também a existência dos humanos.


Nomes conhecidos de Hollywood participam da aventura como dubladores. Meryl Streep dá voz à Rainha dos Insetos — na versão brasileira, Renata Sorrah estreia na dublagem. 

Dave Franco interpreta Titus, auxiliar da professora Sam (Kathy Najimy), que também trabalha com Diane (voz de Vanessa Bayer no original e de Thaís Fersoza na versão em português). 

Destaque para George (Bobby Moynihan), o Rei dos castores e Mamíferos, com sua coroa e varinha, liderando toda a comunidade com pompa e personalidade e que se torna o melhor amigo de Mabel.

O elenco conta ainda com Melissa Villaseñor (Ellen), Ego Nwodim (Rainha dos Peixes), Sam Richardson (Conner), Aparna Nancherla (Nisha), Nichole Sakura (Rainha dos Répteis), Isiah Whitlock Jr. (Rei dos Pássaros), Steve Purcell (Rei dos Anfíbios).


Entre correrias, gritos e confusões no reino animal, “Cara de Um, Focinho de Outro” aposta em um humor afiado ao tratar da destruição da natureza pelo homem e de como ela pode revidar quando menos se espera. 

A história lembra um pouco “Avatar” — como a própria protagonista menciona — ao utilizar a tecnologia para transferir mentes humanas para robôs, que passam a funcionar como canal de comunicação com os animais reais.

Visualmente, a animação é impecável, com imagens vibrantes, cenários bem detalhados e personagens que conquistam o público de imediato — até mesmo os vilões. 


Alguns personagens podem assustar crianças muito pequenas, especialmente os reis e rainhas de determinadas espécies quando declaram guerra aos humanos. Ainda assim, o filme equilibra bem tensão e humor, mantendo o tom leve e reflexivo.

Mais uma vez, a Pixar mostra que sabe contar histórias que divertem, emocionam e, principalmente, fazem pensar, agora sem deixar de lado a presença da tecnologia como uma aliada.
 

Ficha técnica:
Direção: Daniel Chong
Roteiro: Jesse Andrews e Daniel Chong
Produção: Pixar Animation Studios e Walt Disney Pictures
Distribuição: Disney Pictures e Disney+
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h45
Classificação: Livre
País: EUA
Gêneros: animação, aventura, comédia

17 fevereiro 2026

"Uma Batalha Após a Outra" escancara o patriotismo, o delírio e as feridas da imigração na América

Leonardo DiCaprio protagoniza um libertador acidental que tenta reacender a esperança em meio ao
colapso de seu país (Fotos: Warner Bros. Pictures)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
Com 13 indicações ao Oscar 2026, nove indicações ao Globo de Ouro e 14 ao Critics Choice Awards está em exibição na HBO Max um dos lançamentos mais aclamados do ano: "Uma Batalha Após a Outra" ("One Battle After Another"). 

A produção foi lançada na plataforma como parte do selo Do Cine pra HBO Max, responsável por levar as principais estreias do cinema para o streaming.

O novo filme de Paul Thomas Anderson, estrelado por Leonardo DiCaprio, Benicio Del Toro, Regina Hall, Teyana Taylor, Sean Penn, Alana Haim e Chase Infiniti, é uma mistura explosiva de ação, sátira política e drama social.


Na trama, Perfídia Beverly Hills (Teyana Taylor), uma revolucionária intensa, desaparece logo após dar à luz, deixando o companheiro Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio) responsável por criar a filha, Willa (Chase Infiniti). 

Anos depois, o temido Coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn) ressurge em busca de vingança e coloca pai e filha na mira.

Os dois são forçados a fugir, enfrentar verdades que sempre evitaram e aprender a confiar um no outro. Com a ajuda do misterioso Sensei Sérgio (Benicio Del Toro), embarcam em uma jornada que mistura adrenalina, conflitos sociais e um país prestes a desabar.


A obra mergulha de cabeça nas contradições dos Estados Unidos, esse lugar que se vende como “terra das oportunidades”, mas onde imigrantes vivem presos entre esperança e medo. 

Anderson transforma isso em narrativa: ali, ser imigrante é lutar duas vezes contra as dificuldades da vida e contra o preconceito de quem acredita que só “o americano de verdade” merece espaço. 

DiCaprio encarna um libertador acidental, alguém que tenta reacender a esperança em meio ao colapso. A ideia de revolução aparece como um grito contido, nascido do cansaço de quem percebe que o país só funciona para poucos.


O elenco brilha, especialmente na química entre DiCaprio e Chase Infiniti, que entregam momentos de pura sintonia. O ator vive um personagem dúbio, que oscila entre lucidez e loucura e é justamente nesse desequilíbrio que o filme encontra força. 

Ele brinca com o absurdo, faz piadas sobre o caos ao redor e, ao mesmo tempo, revela um homem movido por propósito. Teyana Taylor, Chase Infiniti e Regina Hall (Deandra) se destacam igualmente, sustentando a narrativa com intensidade e carisma.


No meio desse circo político, DiCaprio surge como o único que parece entender o tamanho da farsa. Enquanto os poderosos se vestem de generais e transformam o país numa caricatura, ele atravessa o caos com aquele olhar cansado de quem já entendeu que nada faz sentido. 

Seu personagem vira o guia involuntário do espectador, tenta ajudar, organizar, salvar, mas tudo ao redor é tão absurdo que sua lucidez vira quase cômica. Ele representa o americano que vê o sistema desmoronar, consciente demais para acreditar nas mentiras e cansado demais para ainda lutar contra elas.


Sean Penn, como o Coronel Lockjaw, é o retrato vivo do extremismo: um homem que acredita tanto na própria virilidade e patriotismo que não enxerga o vazio por trás disso. É uma mistura perigosa de insegurança, grosseria e ignorância vendida como coragem.  

O personagem expõe a base do preconceito e a incapacidade de lidar com a própria fragilidade. Ele é o símbolo da América que defende seus ideais com unhas e dentes, mesmo que isso signifique destruir tudo em nome deles.


O principal problema está no ritmo: há momentos que disparam e outros que se arrastam, especialmente quando o longa tenta equilibrar ação com discurso político. A crítica aos supremacistas brancos, embora necessária e poderosa, às vezes soa repetitiva e excessivamente explicativa, perdendo a sutileza que Anderson domina tão bem.

Mesmo assim, “Uma Batalha Após a Outra” é um dos filmes mais provocativos de 2025, uma obra para ver e rever, cada vez descobrindo novas camadas. 

Anderson entrega um retrato ácido e hilário da América contemporânea, cheia de contradições, egos e delírios. Um espelho incômodo de um país que insiste em lutar contra os próprios fantasmas.


Ficha técnica:
Direção: Paul Thomas Anderson
Produção: Warner Bros. Pictures
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Exibição: HBO Max
Duração: 2h42
Classificação: 16 anos
País: EUA
Gêneros: comédia, drama, ação

03 janeiro 2026

"Anaconda" - Selton Mello rouba a cena nesta comédia em plena selva amazônica

Jack Black, Paul Rudd e seus amigos tentam fazer o remake de um sucesso do passado sobre uma
cobra gigante que ataca uma equipe de filmagem (Fotos: Sony Pictures)
 
 

Maristela Bretas

 
Em cartaz nos cinemas, "Anaconda" surge como uma comédia escancaradamente absurda que entende perfeitamente o próprio ridículo — e faz disso sua maior virtude. Protagonizado por Jack Black, Paul Rudd e Selton Mello, o filme aposta na paródia, no humor e em referências pop para garantir boas risadas do início ao fim.

O grande destaque, sem dúvida, é Selton Mello. No papel do domador de cobras Carlos Santiago, o ator brasileiro rouba a cena sempre que aparece. Seu personagem carrega um jeitão que remete ao Chicó de "O Auto da Compadecida" (2000 e 2024), mas sem o medo crônico que marcou aquele papel. 


Aqui, Selton entrega falas e expressões tipicamente brasileiras, com um timing cômico afiadíssimo, sem dever nada a Jack Black ou Paul Rudd. A química entre os três funciona de forma surpreendentemente natural e é um dos pilares do filme.

Há momentos tão ridículos que ultrapassam o limite do bom senso — e é justamente aí que o humor acerta. As piadas são atuais, repletas de comentários metalinguísticos bem sacados, e não têm receio de zombar do próprio cinema, da indústria e até da produtora e distribuidora Sony Pictures. 

O diretor assume o tom de paródia do início ao fim, transformando o filme em uma sátira consciente do original.


Este remake também reserva surpresas para quem conhece ou, como eu, gosta de produções trashs absurdas com animais perigosos, como o "Anaconda" de 1997, que foi muito criticada à época, mas que diverte justamente pelo exagero e tem público cativo. 

Na época, o elenco contava com Jennifer Lopez, Ice Cube, Jon Voight, Eric Stoltz, Jonathan Hyde e Owen Wilson, e a trama também se passava na Amazônia, envolvendo uma equipe de documentaristas perseguida por uma cobra gigante. 

Classificado como terror, o filme sempre flertou com o lado cômico por conta de seu absurdo — algo que o novo "Anaconda" assume sem vergonha alguma.


Na versão atual, acompanhamos Griff (Paul Rudd), um ator de meia-idade em crise e desempregado, e Doug (Jack Black), um cineasta frustrado por ter sua carreira resumida a vídeos de casamento. 

Amigos de infância, eles decidem realizar um antigo sonho: viajar até a selva amazônica para produzir um reboot independente de seu filme favorito, "Anaconda".

Para a empreitada, contam com a ajuda de Carlos Santiago e Heitor, sua cobra “domesticada” (parece piada pronta), além da atriz Claire Simons (Thandiwe Newton), recém-saída de um divórcio, e do cinegrafista Kenny Trent (Steve Zahn), que não dispensa “umas biritas” turbinadas. 

Tudo corre bem até que uma anaconda gigante resolve entrar em cena, ao mesmo tempo em que o grupo acaba envolvido em uma perseguição policial a garimpeiros ilegais de ouro.


Curiosamente, apesar do título, a cobra aparece pouco. O protagonismo fica mesmo com o elenco humano, enquanto a anaconda funciona quase como um elemento catalisador do caos. 

O filme também se diverte citando com cenas que remetem a clássicos do cinema de aventura e ação, como a franquia "Jurassic Park - O Parque dos Dinossauros" (1993), quando a cobra gigante persegue o grupo e é acompanhada pelo retrovisor do carro.

Ou "Tubarão" (1975), quando ela circunda o barco da equipe no rio. Até mesmo a cena de Jack Black engolido por uma cobra gigante em "Jumanji - Próxima Fase" (2019) é lembrada. 


"Anaconda" é, acima de tudo, uma produção leve e despretensiosa, que entende seu lugar como entretenimento. Jack Black e Paul Rudd sustentam bem o humor, mas é Selton Mello quem dá um charme especial à narrativa, funcionando como uma âncora cômica e cultural. 

Não é um filme para ser levado a sério — e nem quer ser. Vale a pena justamente por isso: uma diversão honesta, autoconsciente e eficaz para quem busca boas risadas no cinema.


Ficha técnica:
Direção:
Tom Gormican
Roteiro: Tom Gormican e Kevin Etten
Produção e Distribuição: Sony Pictures
Duração: 1h40
Exibição: nos cinemas
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: comédia, ação, aventura

13 novembro 2025

"Meu Pior Vizinho" - o inferno está do outro lado da parede

A fina folha que separa os apartamentos de Lee Ji-hoon e Lee Ji-hoon pode mudar suas vidas
(Fotos: Sato Company)
 
 

Silvana Monteiro


Em “Meu Pior Vizinho”, Lee Seung-jin (interpretado por Lee Ji-hoon) aluga um apartamento daqueles bem pequenos, colado, parede-parede com uma designer e artista plástica Han Seung-yeon (papel de Hong Ra-ni).

A questão é que ambos começam a se irritar com o barulho um do outro. Ele, como músico que precisa treinar para um teste musical e ela fazendo suas artes. A convivência vai ficando impossível até que um acontecimento os faz sair do controle. O que era inimizade vai virar amizade ou outra coisa? 


Com roteiro de Park So-hee, Lee Woo-chul e Kim Ho-jung, o filme revisita o original francês ("Blind Date", 2015) com o olhar próprio dos Kdramas.

O elenco é liderado por Lee Ji-hoon, estreando nas telonas após papéis de destaque em “River Where the Moon Rises” (2021) e “Rookie Historian Goo Hae-Ryung” (2019), e por Han Seung-yeon, ex-integrante do KARA, já conhecida por trabalhos como “Show Me the Ghost” (2021) e “Hello, My Twenties!” (2016). O excelente ator Ko Kyu-pil ("Twelve") completa o trio, no papel de Ku Ji-woo.


“Meu Pior Vizinho” tem uma fotografia sofisticada, talvez seu ponto mais forte, mas falta-lhe o pulso emocional que costuma mover boas comédias românticas. A obra até acena para temas como moradia, solidão, convivência e afeto, porém não os desenvolve com a profundidade que prometem.

O filme acaba escorregando no clichê dos doramas coreanos, repetindo a velha fórmula requentada: dois desconhecidos divididos por uma parede, irritação inicial, situações caóticas e, supostamente, um vínculo que deveria nascer daí. 


O problema é que não dá tempo para o envolvimento real do casal. As relações acontecem no automático, quase por convenção do gênero, e isso esvazia o impacto emocional — justamente o que se espera de uma história desse tipo.

No fim, sobra a estética: bonita, cuidada, às vezes até mais sensível do que o próprio roteiro. Falta, porém, a centelha que transforma uma narrativa previsível em algo capaz de tocar o público. Há charme, há intenção, mas há pouco risco. Nada de novo sob o sol. O resultado é um filme agradável de assistir, mas incapaz de deixar marcas.


Ficha técnica:
Direção:
Lee Woo-chul
Distribuição: Sato Company
Exibição: Cinemark Pátio Savassi
Duração: 1h52
Classificação: 14 anos
País: Coreia do Sul
Gêneros: romance, comédia

04 novembro 2025

“Quando o Céu se Engana”: um caos celestial divertido sobre erros e acertos

Keanu Reeves interpreta um anjo insatisfeito com seu trabalho que quer mudar a vida de seus protegidos (Fotos: Lionsgate)
 
 

Maristela Bretas

 
Para quem curte uma comédia leve sobre caos celestial, crise existencial, duas pessoas vivendo situações sociais opostas e um anjo cheio de boa vontade, mas atrapalhado, vale conferir “Quando o Céu se Engana” ("Good Fortune"), que estreia nesta quinta-feira (6) nos cinemas.

No filme, Keanu Reeves troca as armas e os ternos de John Wick por asas, ainda que pequenas e um tanto amassadas. Ele interpreta Gabriel, um anjo da guarda "basiquinho", encarregado de proteger motoristas distraídos que insistem em checar o celular enquanto dirigem por Los Angeles. É uma função burocrática, repetitiva e desinteressante para alguém que sonha com promoções celestiais.


Cansado de salvar motoristas distraídos e de preencher relatórios espirituais sobre “intervenções mínimas”, Gabriel decide provar que pode fazer mais. O problema é que, ao tentar “melhorar” a vida dos humanos que protege, ele bagunça completamente o sistema celestial — e a vida de dois homens na Terra.

O primeiro é Arj, vivido por Aziz Ansari, que também assina o roteiro, a direção e a produção do longa. Ele é um cara honesto, espirituoso, mas completamente sem sorte — dorme no carro, vive de bicos e tenta manter a dignidade em meio à precariedade moderna. Com tantos pontos contra, Arj não vê sentido para sua vida e Gabriel acompanha tudo isso com preocupação.


O segundo protegido é Jeff, interpretado por Seth Rogen, um milionário superficial que tem tudo, mas vive entediado e não se preocupa com o mundo normal, apenas como seus carros importados e banhos especiais.

Em um momento de “excesso de zelo celestial”, Gabriel decide trocar as vidas dos dois para que saibam as dificuldades e os prazeres que suportam. Arj acorda na mansão de Jeff, e este, em pânico, se vê vivendo em um carro velho, cheiro de batata frita fria e tendo de procurar empregos de baixa remuneração para sobreviver.

“Quando o Céu se Engana” é uma comédia de erros divina em que as boas intenções de Gabriel podem levá-lo a uma reavaliação profissional por parte de sua chefe, Martha, interpretada por Sandra Oh. A ponto de ele precisar viver as dificuldades de ser humano.


Humor afiado com toque filosófico

Aziz Ansari acerta ao equilibrar comédia absurda com reflexão existencial. A troca de corpos, um clichê clássico do cinema, aqui ganha novas camadas:
- O rico descobre o valor das pequenas coisas;
- O pobre percebe que o dinheiro pode ser uma prisão disfarçada;
- E o anjo percebe que talvez os humanos não precisem de salvação, mas de empatia.

O humor é rápido, inteligente e muitas vezes autodepreciativo. A cena em que Gabriel tenta “corrigir” a confusão usando um aplicativo de mensagens para anjos é puro caos tecnológico celestial — com Keanu Reeves entregando uma das atuações mais cômicas (e estranhamente doces) de sua carreira.


Crítica social com boas risadas

O longa também fala sobre classes sociais, culpa, ego espiritual e a eterna busca humana (e divina) por propósito. Ansari faz humor com a desigualdade sem parecer cínico, e Reeves traz um anjo confuso, frustrado e adorável — quase um funcionário público do além.

Seth Rogen, por sua vez, interpreta o milionário Jeff com aquele equilíbrio perfeito entre arrogância e ingenuidade, tornando sua “queda terrena” uma das partes mais divertidas do filme.

Keanu Reeves prova que pode ser engraçado sem perder a alma, Aziz Ansari reafirma seu talento como contador de histórias. “Quando o Céu se Engana” é uma comédia leve, espirituosa e cheia de coração, que lembra o público de que errar — mesmo no céu — faz parte do aprendizado. Entrega exatamente o que promete: uma bagunça divina com coração humano.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Aziz Ansari
Produção: Lionsgate
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h39
Classificação: 12 anos
País: EUA
Gênero: comédia

24 setembro 2025

"Zoopocalipse - Uma Aventura Animal" mistura terror infantil, referências clássicas e muito humor

Animação aborda união em meio às diferenças entre espécies ameaçadas por um apocalipse alienígena
(Fotos: Diamond Films)
 
 

Maristela Bretas

 
Repleta de referências a clássicos do cinema como "ET - O Extraterrestre" (1982) e "Tubarão" (1975) e produções de terror, estreia nesta quinta-feira (25) nos cinemas "Zoopocalipse - Uma Aventura Animal" ("Night of the Zoopocalypse"). 

A coprodução canadense, francesa e belga tem a direção de dois veteranos da animação: Ricardo Curtis ("Os Incríveis" - 2004 e "Monstros S.A." - 2001) e Rodrigo Perez-Castro ("Festa no Céu" - 2014 e "O Touro Ferdinando" - 2018). O resultado é uma obra divertida e vibrante, feita para toda a família.


A trama explora temas como união, diversidade e pertencimento para contar a história de Gracie, uma lobinha entediada com sua vida "pouco animal", dublada em português por Viih Tube.  

Ela e seus amigos do Zoológico Colepepper veem suas pacatas e até monótonas rotinas virarem de cabeça pra baixo quando um meteoro atinge o local e transforma os animais em zumbis semelhantes a geleias coloridas.


Com a maioria dos habitantes do zoo controlados por um coelhinho (que lembra bastante o Bola de Neve, de "Pets – A Vida Secreta dos Bichos" - 2016) agora possuído por um alienígena com planos de dominação mundial, cabe a Gracie tentar salvar a todos, especialmente sua alcateia.

Para isso, ela precisará contar com a ajuda de um grupo bem improvável: Dan, um leão-da-montanha rabugento e de poucos amigos; Xavier (dublado por Ed Gama), um lêmure cinéfilo que sabe tudo sobre filmes de terror; Frida, uma capivara destemida; Felix, um babuíno atrapalhado; Ash, um avestruz cheio de estilo; e Lu, uma filhote de hipopótamo pigmeu rosa muito fofa e tagarela. 


Juntos, precisam deixar instintos e diferenças de lado para enfrentar a ameaça alienígena. Dá para imaginar um leão da montanha faminto tendo que proteger um filhotinho rechonchudo de hipopótamo (quase um toucinho)?

Entre planos mirabolantes — nem sempre bem-sucedidos — e tentativas de fuga, o grupo vai aprendendo a confiar uns nos outros e a se unir, sob a liderança da esperta Gracie, para evitar o apocalipse animal. 


O mais engraçado de todos é Xavier, que usa seus conhecimentos adquiridos assistindo filmes de terror durante a madrugada na clínica veterinária para prever os movimentos dos inimigos. 

É por meio dele que são inseridos cenas e trechos icônicos de músicas inesquecíveis de clássicos, tornando a animação ainda mais divertida e nostálgica. 

O elenco de dubladores brasileiros reúne nome como Luiz Feier, Manolo Rey, Valentina Pawlowna, Jorge Vasconcellos, Carina Eiras, Mauro Horta, Mariangela Cantú, Eduardo Drummond, Jessica Dannemann, Marianna Alexandre, Maurício Berger, Rafinha Lima e Telma da Costa. 


Apesar de ser uma comédia com ritmo de aventura, o longa traz algumas cenas de ataques e mutações que podem assustar crianças menores "Zoopocalipse - Uma Aventura Animal" mistura terror infantil, referências clássicas e muito humor de 10 anos. Por isso, vale a atenção dos pais quanto à classificação indicativa.

Mas a emoção e o humor bem dosados, reforçados pelas cores vibrantes e personagens carismáticos, fazem de "Zoopocalipse - Uma Aventura Animal" um filme de terror leve, capaz de divertir e emocionar públicos de todas as idades.


Ficha técnica:
Direção: Ricardo Curtis e Rodrigo Perez-Castro
Roteiro: Steven Hoban e James Kee
Produção: Mac Guff Productions, Copperheart Entertainment, UMedia Productions
Distribuição: Diamond Films
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h31
Classificação: 10 anos
Países: Canadá, França e Bélgica
Gêneros: animação, aventura, comédia, família