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14 maio 2026

“O Rei da Internet”: filme revive a era da conexão discada e a ascensão do hacker que parou o Brasil

João Guilherme Ávila entrega ótima atuação sobre a vida do jovem que aplicou golpes financeiros que
lesaram milhares de pessoas nos anos 2000 (Fotos: Clube Filmes)
 
 

Maristela Bretas

 
Anos 2000. Internet discada, conexão lenta, barulho do modem e jovens esperando dar meia-noite para finalmente entrar na rede sem ocupar a linha telefônica da casa. Era um período em que pouco se falava sobre crimes digitais, roubo de dados ou invasões virtuais. 

Foi justamente nesse cenário que surgiu Daniel Nascimento (João Guilherme Ávila, ator de séries de TV e dos filmes "Fala Sério, Mãe!" - 2017 e "Tudo por Um Popstar" - 2018), adolescente que descobriu um talento incomum para driblar sistemas e acabou se tornando um dos hackers mais famosos do país. 

Essa é a trama de “O Rei da Internet”, longa inspirado em fatos reais que estreou nesta quinta-feira (14) nos cinemas, com direção de Fabrício Bittar e distribuição da Manequim Filmes.


Daniel é apresentado como um jovem de classe média que sofre bullying e agressões constantes na escola. A vida dele começa a mudar quando ganha dos pais um computador equipado com o clássico Windows 98 e entrada para disquete, com conexão discada. 

Fascinado pela máquina e pela recém-popularizada internet doméstica, ele mergulha no universo da informática de forma autodidata.

Mesmo enfrentando as limitações técnicas da época, Daniel aprende rapidamente. Estuda por revistas especializadas, faz cursos de computação — embora demonstre saber mais que os próprios colegas — e logo percebe que consegue invadir sistemas nacionais e internacionais com facilidade impressionante.


O que começa como curiosidade adolescente logo se transforma em uma perigosa escalada criminosa. Primeiro vieram invasões a sites de revistas e empresas. Depois, ataques maiores, incluindo sistemas estratégicos e, posteriormente, o setor bancário. 

Daniel passa então a desviar dinheiro de milhares de contas, chamando a atenção de uma poderosa organização criminosa liderada por Fábio, personagem de Marcelo Serrado, que chegou a movimentar 62 milhões de reais à época.

Com dinheiro fácil entrando sem parar, o jovem abandona a casa dos pais e mergulha em uma rotina de luxo, ostentação e excessos. Antes mesmo dos 17 anos, já era considerado um dos maiores hackers do Brasil — até virar alvo de uma das primeiras grandes operações da Polícia Federal contra crimes virtuais.


Um dos maiores acertos do filme está justamente no mergulho nostálgico nos anos 2000. “O Rei da Internet” recria com eficiência o nascimento da cultura digital brasileira: os computadores caríssimos para a maior parte da população, as gambiarras para melhorar a conexão, as revistas de informática, os chats, os disquetes e, claro, o inesquecível som da internet discada conectando. Para quem viveu aquela época, o longa desperta memória afetiva imediata.

Narrada em primeira pessoa por Daniel, a história mantém ritmo ágil e envolvente até sua prisão. Mesmo sendo responsável por crimes que prejudicaram milhares de pessoas e empresas, o protagonista consegue despertar certa empatia do público. 

Muito graças à atuação segura de João Guilherme, mesmo com 24 anos interpretando um garoto de 15/16 anos. O ator entrega um Daniel impulsivo, inconsequente e seduzido pela possibilidade de conquistar tudo aquilo que jamais teve.


O elenco de apoio também funciona bem, com Emílio de Mello e Bia Seidl interpretando os pais de Daniel; Kaik Pereira (o amigo e parceiro Nilson), Adriano Garib (Moretti); Caio Horowicz (o hacker Noturno); Miguel Nader (o segurança Muralha); Enrico Cardoso (Peota); Clarissa Müller (Letícia); Débora Ozório (a namorada de Daniel, Carol); Davi Xiang Li (Augusto) e André Silberg (Mauricio). Participações especiais de Tânia Alves e Eri Johnson.

“O Rei da Internet” reúne ingredientes capazes de prender diferentes públicos: ação, suspense, golpes milionários, violência, bullying, festas extravagantes, drogas, sexo, carros de luxo e dinheiro fácil. Mas, acima de tudo, o filme funciona como retrato de uma geração que descobria a internet ao mesmo tempo em que ainda desconhecia os perigos daquele novo universo digital.


Hacker do Bem

Anos depois, Daniel Nascimento reconstruiu a própria trajetória e passou a atuar como consultor de segurança digital. Em 2015, contou sua história no livro “DNpontocom: A Vida Secreta e Glamourosa de um Ex-hacker”, escrito em parceria com Sandra Rossi. Daniel, que pode ser adquirido na Amazon.

Em entrevistas a TVs e jornais, afirmou que, aos 15 anos, não tinha dimensão real do impacto de seus crimes — e que nunca ficou rico porque gastava tudo em festas, compras e ostentação. Mas que pagou por seus crimes, tornando-se conhecido como um “hacker do bem” com seu trabalho.

“O Rei da Internet”, adaptado do livro, provoca nostalgia e mostra como um adolescente aparentemente comum conseguiu transformar talento, revolta e ambição em uma trajetória meteórica — e perigosa — dentro do submundo digital brasileiro. Confira o longa no cinema e comente aqui o que achou.


Ficha técnica:
Direção: Fabrício Bittar
Roteiro: Fabrício Bittar e Vinícius Perez
Produção: Clube Filmes, coprodução Maquiagem Filmes e Telecine
Distribuição: Manequim Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h15
Classificação: 18 anos
País: Brasil
Gêneros: drama, policial, biografia