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19 junho 2026

Os meandros da psiquê humana conduzem "As Correntes"

Longa foca na personagem interpretada por Isabel Aimé Gonzalez-Sola que tem sua vida mudada por
completo após uma viagem à Suíça (Fotos: Filmes do Estação)
 
 

Patrícia Cassese

 
Com um título um tanto quanto emblemático, por remeter, por exemplo, a elos que aprisionam, ou ao fluxo de uma massa de água, “As Correntes”, produção em cartaz no Cine Belas Artes BH, centra seu foco na personagem Lina (Isabel Aimé Gonzalez-Sola), uma jovem estilista (34 anos) que, nos momentos iniciais do filme, está em outro país – a Suíça - para receber um prêmio por seu trabalho. 

Um momento de coroamento, mas que, ao fim, acaba por implodir a ordem que até então pautava sua vida junto ao marido e à filha pequena em seu território de origem, a Argentina.

A cena inicial do filme – cujo roteiro e direção são de Milagros Mumenthaler - mostra justamente a cerimônia de entrega da láurea, que, diga-se, tem um destino inesperado (estamos falando do objeto em si). 


Pouco à frente, o espectador é surpreendido com um inesperado mergulho de Lina nas águas geladas do rio Ródano (pontuando-se que a cena notadamente se passa em período de frio), com a câmara focando também um objeto que ela portava e que fica a flutuar após a imersão da moça. 

A sequência já mostra Lina retornando ao hotel envolta em uma capa térmica e com as roupas que portava antes do pulo envoltas em um saco plástico, embora a cena completa, detalhada, do que houve, só vá aparecer mais adiante no longa-metragem. 

Fato é que a personagem retorna a Buenos Aires e enigmaticamente opta por não compartilhar com o parceiro, Pedro (Esteban Bigliardi, de “Os Delinquentes”, atualmente disponível no Mubi), o ocorrido – ainda que a mudança de comportamento seja evidente. 


Em uma das cenas, por exemplo, o marido insiste em uma conversa a dois para tentar entender a inequívoca alteração nas atitudes cotidianas, dizendo, em dado momento: “Parece que você não voltou” (referindo-se à viagem).

Sim, um certo alheamento é um dos pontos que o coloca em alerta, mas, por outro lado, há detalhes que só o espectador tem acesso, como a aversão que Lina passa a sentir do contato de seu corpo com a água, fazendo-a inclusive evitar lavar os cabelos – a ponto de o couro cabeludo começar a coçar e, em decorrência, apresentar sinais de vermelhidão. Em dado momento, ela inclusive passa a usar xampu seco para esconder do marido o “novo hábito”.  

Na verdade, a própria higiene corporal diária passa a ser feita sem Lina estar diretamente sob o fluxo de um chuveiro. E mesmo no momento do banho da filha (que, por ser pequena, demandaria acompanhamento de um adulto), a estilista sente resistência em adentrar o toilette, esperando que a menina se resolva sozinha. 


Quando a situação começa a fugir do controle, Lina procura uma antiga amiga – desconhecida pelo marido, atestando que há uma face oculta da vida da parceira que muitos desconhecem – para que ela lave suas madeixas. Detalhe: mediante uma inalação sedativa prévia, para que ela esteja desacordada. 

Há um trecho do filme no qual Lina fala a um terapeuta sobre esse pavor à água, citando o medo de ser arrastada, à revelia, por hipotéticas correntes. A fobia ao banho, no entanto, segue sendo um sintoma imperceptível para o marido, ainda que, como já pontuado, outros comportamentos gerem estranheza nos demais personagens. A sogra, por exemplo, certo dia aparece à porta da casa da família, sem avisar, levando comida para o casal e a neta, preocupada com a alimentação ali. 


Um ponto interessante é que se a personagem é apresentada inicialmente como Lina, um diminutivo de seu nome de batismo, Catalina, em dado momento, temos em cena pessoas que a chamam de Cata. Portanto, é como se duas personas habitassem o mesmo corpo, mas cada uma desse as caras para um entorno distinto, com jeitos próprios de ser. 

O marido de Lina não conhece as facetas de Cata, assim como pessoas ligadas a Cata – como a mãe da estilista – não conhecem bem a faceta Lina. A divisão aponta para um transtorno dissociativo, que, numa consulta informal, sem pretensões de diagnósticos precisos, podem surgir como mecanismo de defesa contra traumas na infância. Há, no filme, uma pista para tal.


Exatamente por isso, “As Correntes” vem sendo apresentado como um drama psicológico, e a direção acerta ao recorrer a tons escuros para acompanhar a narrativa de uma personagem que busca, principalmente, fazer com que o passado não contamine de forma irremediável a relação com o marido e, principalmente, com a filha. 

No frigir dos ovos, um filme duro, desconfortável, incômodo, mas que vai interessar ao público afeito ao enigmático mistério da mente humana. 

Em tempo: nascida na Argentina e criada na Suíça, Milagros Mumenthaler chega, com “As Correntes”, a seu segundo longa. O primeiro, “Abrir Puertas y Ventanas”, registre-se, recebeu o Leopardo de Ouro no Festival de Locarno. Aos 49 anos, ela também já foi premiada pelos curtas que assinou.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Milagros Mumenthaler
Produção: Alina Film e Ruda Cine, coprodução RTS Radio Télevision Suisse
Distribuição: Filmes do Estação
Exibição: Cine Belas Artes BH
Duração: 1h44
Classificação: 16 anos
Países: Suíça e Argentina
Gênero: drama

31 outubro 2024

Longa “Malu” reúne atuações impressionantes e diálogos densos

Filme é inspirado na vida da mãe do diretor Pedro Freire e explora a dinâmica de três gerações de mulheres
da família (Fotos: Primeiro Plano)


Carolina Cassese


O filme "Malu", dirigido por Pedro Freire, chega aos cinemas de Belo Horizonte nesta quinta-feira, 31 de outubro. Após sua estreia na Première Brasil do Festival do Rio, o longa foi premiado em diversas categorias e se destacou em eventos renomados como Sundance e New Directors New Films, do Lincoln Center.

Inspirado na vida da atriz Malu Rocha, mãe de Freire, "Malu" explora a complexa dinâmica de uma família formada por três gerações de mulheres: a protagonista Malu (Yara de Novaes), sua mãe conservadora Lili (Juliana Carneiro da Cunha) e sua filha Joana (Carol Duarte), que também trabalha na área das artes cênicas. 


A história aborda temas como os sacrifícios feitos em nome da arte, o peso das expectativas familiares e a resiliência das mulheres diante de adversidades.

Um dos principais destaques do longa é o elenco, em especial a presença marcante de Yara de Novaes. As interações entre as personagens do filme são fortes e surpreendentemente críveis; é como se estivéssemos assistindo a discussões reais de uma família repleta de problemas. 

Ressaltamos que o conturbado diálogo entre as três gerações não reflete apenas as diferenças de personalidade, mas também divergências entre períodos da história brasileira.


Enquanto a matriarca é bastante conservadora, Malu é uma mulher que resistiu à ditadura militar. No presente da história, que se passa na década de 1990, a protagonista explicita críticas ao conservadorismo e constantemente reforça seu sonho de construir um teatro em casa para a comunidade. Por sua vez, Joana possui atitudes mais ponderadas e busca dialogar com a avó e a mãe.


Também vale destacar o fato de que "Malu" é o primeiro longa de Pedro Freire, que já tinha realizado curtas-metragem e participado de eventos como o Festival de Veneza. Nessa estreia, ele é bastante hábil nas transições entre comédia e drama, já que o filme oscila entre conversas descontraídas e momentos significativamente densos.

O espectador provavelmente irá se manter atento à tela até a última cena, considerando que o ritmo da produção também é digno de nota. Ademais, conseguimos nos familiarizar com as personagens, que são construídas com complexidade, sem os maniqueísmos frequentemente observados em produções comerciais.


Em sua trajetória internacional, "Malu" foi exibido em mais de dez festivais e ainda será apresentado em outros eventos, como o New York Latino Film Festival e o Cairo International Film Festival. 

A produção foi bastante elogiada numa crítica publicada pela revista Variety, que destacou as atuações e a singularidade da história: “Malu é magnificamente interpretado. Um primeiro longa-metragem emocionalmente impactante e pessoal”.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Pedro Freire
Produção: Bubbles Project e TvZero e coprodução RioFilme, Telecine e Canal Brasil
Distribuição: Filmes do Estação e RioFilme
Exibição: Cineart Ponteio e Centro Cultural Unimed-BH Minas 
Duração: 1h40
Classificação: 16 anos
País: Brasil
Gênero: drama

05 julho 2024

“Orlando, Minha Biografia Política” adapta obra de Virgínia Woolf com mistura de gêneros

Livro da escritora inglesa ganha eco entre as novas gerações com longa de diretor trans (Fotos: Filmes do Estação)


Eduardo Jr.


Paul B. Preciado estreia na direção cinematográfica de mãos dadas com Virginia Woolf. O livro “Orlando”, da escritora inglesa, foi adaptado e chega às telonas sem se encaixar em um único gênero. “Orlando, Minha Biografia Política” é ficção e é documentário. 

Algo muito coerente, se considerarmos que o diretor, filósofo e ativista trans, que nasceu Beatriz e se tornou um dos principais pensadores contemporâneos das novas políticas do corpo, gênero e sexualidade, também desafia a binaridade. A distribuição é da Filmes do Estação.  Em Belo Horizonte, o longa pode ser conferido no Cine UNA Belas Artes.


No livro, lançado em 1928, o protagonista um dia acorda no corpo de uma mulher, dando início aos questionamentos acerca dos comportamentos e diferenças entre gêneros. O longa de Preciado também segue a premissa da transformação, mas parte de uma carta do diretor para a escritora (falecida em 1941), dizendo que Orlando saiu das páginas, está vivo, e se transformando diariamente

O elenco, composto de 25 pessoas trans e não binárias, desfila na tela, hora atuando, hora fazendo relatos pessoais. Ao vestir um acessório de época é como se estivessem personificando o protagonista das páginas da escritora inglesa. Soma-se à fala desses atores a narração de trechos do livro, o que expõe a fragilidade do diretor em construir um desenvolvimento imagético. Cenas monótonas de algo que já está sendo contado puxam pra baixo a energia do filme. 


A força fica por conta da mensagem. O texto vai imprimindo na compreensão do público que, se a cada dia nos modificamos em relação ao ontem, as pessoas trans também estão realizando uma transformação, no entanto, não encontram aprovação social. Ao contrário, na época do "Orlando" de Virginia Woolf, atravessar as fronteiras de gênero era um atestado de necessidade de tratamento psiquiátrico, uma doença a ser curada. Alguma semelhança com os dias atuais?  

O mérito da obra talvez resida na coragem de apresentar de tal maneira os escritos das páginas de Virginia. As dores, a libertação, os desafios e a beleza da vitória dessas 25 pessoas/atores/atrizes provando que são herdeiros de uma história apagada, reforçam a noção de que, assim como o Orlando de 1928, outras existências também vão atravessar gerações. 


O longa também pode garantir uma vida longa, se depender de reconhecimento. Vencedor do Teddy Award e do Prêmio Especial do Júri da mostra Encounters no Festival de Berlim de 2023, o filme chega às telonas do país como vencedor da categoria Melhor Documentário do Prêmio Félix, honraria do Festival do Rio que destaca narrativas LGBTQIAPN+ no audiovisual. 

Também foi escolhido como Melhor Longa-Metragem Internacional do Festival Mix Brasil, além de participar do Festival Varilux. Se não é só documentário e nem é só ficção, pode ser descrito como um filme interessante.   


Ficha técnica:
Diretor e roteiro: Paul B. Preciado
Produção: Les Films du Poisson, 24 Imagens e Canal Arte França
Distribuição: Filmes do Estação
Exibição: Cine UNA Belas Artes - sala 3, sessão às 20h30
Duração: 1h38
Classificação: 14 anos
País: França
Gêneros: drama, documentário