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04 junho 2026

"Cordélicos": uma viagem no tempo onde até os ETs dançam forró

Laser, cangaceiros, sanfona e muito humor: conheça a origem do temido vilão Cabra da Peste
(Fotos: Retrato Filmes)
 
 

Maristela Bretas


Quem disse que cangaceiros, extraterrestres, viagens no tempo e muito forró não combinam? "Cordélicos - A Origem do Cabra da Peste", animação brasileira em 2D atualmente em cartaz no Cine Belas Artes BH, prova justamente o contrário. Baseado na série animada "Cordélicos", lançada em 2022, o longa leva para as telonas uma aventura tão improvável quanto divertida.

Criado por Ale McHaddo, que assina direção, roteiro e também o desenho de alguns personagens, o filme mergulha de cabeça na literatura de cordel, na cultura popular nordestina e em um vocabulário repleto de regionalismos.

O resultado é uma mistura de humor, faroeste, ficção científica e aventura, onde alienígenas aparecem aos montes — alguns deles tocando sanfona e triângulo como se tivessem acabado de chegar de uma festa junina intergaláctica.


A animação ganha ainda mais energia com a trilha sonora produzida pela Music Solution, recheada de forró e ritmos nordestinos que ajudam a dar identidade própria à história.

A trama começa em 1933, no sertão de Juazeiro do Norte, no Ceará, aos pés da famosa estátua de Padre Cícero. É ali que conhecemos os Cordélicos, um grupo de cinco amigos cangaceiros liderados por Capitão Rocha, dublado por Bruno Garcia. Com ele estão Sivirino, ou simplesmente Siv, dublado por Tadeu Mello, Bonita (Raissa Xavier), Rivonilda, a Rimbi (Carol Goes) e o inseparável jegue Corisco.

Como toda boa aventura de cangaceiros, não falta perseguição. O grupo vive fugindo do insistente cabo PM Firmino, dublado por Marcelo Mansfield, e de seus dois ajudantes atrapalhados. Mas o que parecia ser apenas mais uma correria pelo sertão muda completamente quando os amigos encontram um misterioso portal temporal.


Em poucos segundos, eles saltam de 1933 para o ano 3333 e descobrem um futuro dominado pelo temido Cabra da Peste, também com a voz de Marcelo Mansfield. O vilão governa o chamado Neo Nordeste com mão de ferro e pretende usar os cangaceiros para montar um exército capaz de dominar o mundo.

Daí em diante, vale tudo: armas a laser, naves espaciais, criaturas alienígenas, perseguições futuristas e até citações de personalidades como Guimarães Rosa e Gilberto Gil, lembradas pelo Capitão Rocha ao longo da jornada. Entre uma confusão e outra, os Cordélicos precisam encontrar uma maneira de voltar para casa e impedir os planos do tirano intertemporal.


Para aumentar ainda mais a diversão, o cantor Falcão surge em participação especial como o hilário Falcão Espacial, ajudando os heróis tanto no passado quanto no futuro. Explicar exatamente como tudo isso acontece talvez seja impossível. Como diria Chicó, de "O Auto da Compadecida": "Não sei, só sei que foi assim".

Com visual simpático, humor acessível para crianças e diversas referências que os adultos vão captar, "Cordélicos - A Origem do Cabra da Peste" é uma animação que celebra a criatividade brasileira ao misturar elementos da cultura nordestina com ficção científica sem perder sua identidade. Uma aventura arretada para toda a família.

Se você sair aperreado do cinema querendo mais, a boa notícia é que as aventuras continuam na série "Cordélicos", que conta com uma temporada de 26 episódios disponíveis no Prime Video e na Apple TV.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Ale McHaddo
Produção: 44 Filmes, coprodução SPCine e Prefeitura de São Paulo
Distribuição: Retrato Filmes
Exibição: Cine Belas Artes BH - sala 3
Duração: 1h12
Classificação: 10 anos
País: Brasil
Gêneros: animação, comédia

17 maio 2026

“Surda”: o filme que obriga o espectador a ouvir o silêncio da exclusão

Drama espanhol, escrito e dirigido por Eva Libertad, tem a primeira atriz surda, Miriam Garlo, a vencer
um prêmio Goya (Fotos: Distinto Films, Nexus CreaFilms, A Contracorriente)
 
 

Silvana Monteiro

 
“Surda” ("Sorda"), dirigido por Eva Libertad, é uma obra que retrata a vida de uma mulher com deficiência auditiva que está à espera de uma menina. Prestes a se tornar mãe, as dimensões desse acontecimento tornam-se ainda mais profundas e conectam relações afetivas em torno da chegada e do futuro da criança. 

O longa está em exibição no Una Cine Belas Artes, com as sessões contando com legenda descritiva diretamente na tela, além de recursos de audiodescrição e Libras disponíveis pelo aplicativo Conecta. 

O filme traça o centro da narrativa para aquilo que cerca Angela (Miriam Garlo): os constrangimentos cotidianos, os ruídos sociais produzidos pelo capacitismo e a exaustão de existir em espaços que ainda operam sob a lógica da exclusão. 


A maternidade surge atravessada por medo, desejo de autonomia, afeto e insegurança, compondo uma experiência profundamente humana e distante das representações higienizadas que o cinema costuma oferecer. Nesse ponto, é lindo de ver como a obra explora a sororidade e a rede de apoio como ferramentas importantes para uma vivência mais inclusiva.

A atuação de Miriam Garlo sustenta essa dimensão com impressionante precisão. Sua Angela nunca é reduzida à fragilidade nem convertida em um estático símbolo heróico.  Para imergir o telespectador na condição da protagonista, de forma empática, o filme mergulha na intensidade de sua comunicação por meio da língua de sinais. 


Ao longo da trama é possível sentir desconforto nos pequenos gestos e uma contenção emocional que torna cada cena mais densa. Há sempre uma tentativa de trazer a compreensão de que vulnerabilidade não elimina potência, e essa percepção atravessa toda a construção da personagem.

Tecnicamente, “Surda” trabalha o som de maneira inteligente e sensorial. O desenho sonoro alterna presenças, abafamentos e vazios para aproximar o espectador da percepção de Angela sem recorrer a truques manipulativos. 


A fotografia acompanha essa proposta com enquadramentos íntimos, luz naturalista e uma câmera que frequentemente permanece próxima do rosto da protagonista, captando tensões mínimas e silêncios que dizem mais do que qualquer diálogo. A direção evita excessos dramáticos e aposta em uma mise-en-scène sóbria, permitindo que os conflitos emerjam do cotidiano.

Outro mérito do longa está na forma como aborda as interseccionalidades. A narrativa articula maternidade, trabalho, vida afetiva com Hector (Álvaro Cervantes), amizades e deficiência, sem transformar nenhum desses elementos em dramalhão. A relação com o marido evidencia como o amor não resolve sozinho as barreiras de comunicação e acessibilidade.  


“Surda” provoca ao expor o quanto a sociedade ainda condiciona pertencimento à adaptação forçada de quem é diferente. Ao abandonar metáforas simplistas de superação, Eva Libertad entrega uma obra madura, sensível e tecnicamente consistente, capaz de transformar silêncio em linguagens cinematográfica e social.

Premiações

O longa foi vencedor de três prêmios Goya, considerado o Oscar da Espanha, com Miriam Garlo fazendo história como a primeira mulher surda a vencer, pela categoria de Melhor Atriz Revelação. Eva Libertad também foi premiada, como Melhor Diretora Estreante, e Álvaro Cervantes venceu Melhor Ator Coadjuvante. 

Também foi premiado em Seattle, Málaga e Guadalajara. Além dos prêmios Platino de Melhor Filme de Estreia e Melhor Ator Coadjuvante.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Eva Libertad
Produção: Distinto Films, Nexus CreaFilms e A Contracorriente Films
Distribuição: Retrato Filmes
Exibição: Una Cine Belas Artes - sala 1 - 18h30
Duração: 1h38
Classificação: 12 anos
País: Espanha
Gênero: drama

13 março 2026

Do céu ao inferno: a viagem emocional de "Sirât"

Longa espanhol reflete a jornada física e emocional que os personagens atravessam pelo deserto
(Fotos: Divulgação)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
Em ritmo de Oscar 2026, ainda dá tempo para assistir no cinema e agora em plataformas de streaming o longa "Sirât", dirigido por Óliver Laxe. Com roteiro do próprio diretor e de Santiago Fillol, é um dos indicados nas categorias de Melhor Filme Internacional (concorrendo com "O Agente Secreto") e Melhor Som. 

Sirât significa “caminho” em árabe, e reflete a jornada física e emocional que os personagens atravessam. Distribuído pela Retrato Filmes, o filme é coproduzido por Pedro e Agustín Almodóvar, referência do cinema espanhol realista.


A história acompanha Luis (Sergi López), um pai desesperado à procura da filha desaparecida, e seu filho Esteban (Bruno Núñez Arjona), que divide a jornada e o peso emocional da busca. 

Pelo caminho, eles encontram jovens envolvidos em raves e festas — Bigui (Richard Bellamy), Stef (Stefania Gadda), Josh (Joshua Liam Henderson), Tonin (Tonin Janvier) e Jade (Jade Oukid) —, criando um clima de comunidade efêmera e tensão que atravessa todo o deserto.

O local se torna cenário de um “inferno” particular, marcado pelo calor, isolamento e aridez, mas também de pequenas descobertas e momentos de transcendência. São espaços quase mágicos onde o corpo e a mente se entregam à música e aos trances das raves, transformando a vulnerabilidade em força.


O trabalho de som é um destaque absoluto. Laia Casanovas, Amanda Villavieja e Yasmina Praderas, primeira equipe totalmente feminina indicada ao Oscar na categoria, criam uma experiência imersiva. 

Sons, batidas e silêncios subjetivos colocam o espectador dentro do corpo e da mente dos personagens, amplificando cada passo no deserto, cada tensão e cada emoção. 

O transe funciona como um catalisador de autoconhecimento e libertação, mostrando a dor e a força humana como experiências quase ritualísticas.


O filme, porém, não é feito para agradar pela simpatia ou carisma dos personagens. Luis e Esteban são apresentados com honestidade crua e o mistério sobre o desaparecimento da filha permanece, deixando perguntas sem respostas. 

É uma produção que provoca, causa estranheza e exige do espectador sensibilidade para sentir o que os personagens sentem.

No fim, "Sirât" é uma experiência intensa de céu e inferno, um filme que mistura transcendência, medo e beleza árida do deserto. Ele não se esquece facilmente, mantendo na mente o eco de suas imagens, sons e emoções muito tempo depois do fim da sessão.


Ficha técnica:
Direção: Oliver Laxe
Produção: El Desom 4A4 Productions
Distribuição: Retrato Filmes
Exibição: Cinemark Pátio Savassi, Centro Cultural Unimed-BH Minas, Una Cine Belas Artes. Disponível para compra ou aluguel nas plataformas Prime Vídeo, Apple TV e MUBI
Duração: 1h55
Classificação: 16 anos
País: Espanha
Gêneros: suspense, aventura, drama

17 junho 2025

“Prédio Vazio” tenta desbravar o campo do terror urbano no cinema brasileiro

Longa ambientado na cidade de Guarapari mescla o horror com o folclore (Fotos: Retrato Filmes)
 
 

Eduardo Jr.

 
Primeira história de Rodrigo Aragão a se passar em ambiente urbano, “Prédio Vazio”, distribuído pela Retrato Filmes que está em exibição no Centro Cultural Unimed-BH Minas, é uma tentativa de colocar uma obra como referência do gênero terror-ficção no cinema nacional.  

O diretor capixaba é conhecido pelas produções “Mangue Negro”, “A Noite do Chupacabras” e “O Cemitério das Almas Perdidas", todas ambientadas longe das grandes cidades. 

Aragão também é renomado por mesclar o horror com o folclore, criando narrativas que destacam a cultura e a identidade regional do Espírito Santo.


Neste longa de terror, uma jovem embarca de Belo Horizonte para Guarapari (ES) para procurar a mãe desaparecida no último dia de carnaval. Ao encontrar o prédio onde ela morava, a garota é envolvida pelo perigo, pois o sobrenatural habita o edifício que parecia vazio após o término do feriado.  

O que o espectador pode perceber, no geral, é ousadia. Embora no início seja algo morno, que flerta com o trash em razão da luz estourada e das cenas apresentadas, o filme é, na verdade, uma identidade assumida - uma identidade composta de exagero. 


Grandes quantidades de sangue não demoram a ocupar a tela, e a sensação de que o mal é, também, humano, fica clara na boa atuação de Gilda Nomacce, que dá vida a uma zeladora digna de toda a nossa desconfiança. 

E ela se confirma como uma aliada dos espíritos malignos que promovem o terror no assustador edifício. E mais que isso, é executante de atos brutais. Mas não se trata de um banho de sangue sem motivo. O diretor traz uma explicação e um final interessante para a trama. 


Para o espectador, vale destacar que não encontrar neste longa uma cópia da estética hollywoodiana é algo positivo. O sangue, os cenários, os efeitos criados artesanalmente e a violência executada por corpos reais, é sinal de coragem do cineasta - e pode acabar ganhando o público. 

Um sinal do valor deste filme está no reconhecimento obtido até aqui, como o Prêmio Retrato Filmes, na 28ª Mostra de Tiradentes, que garantiu investimento e contrato de distribuição para o longa. 


Ficha técnica:
Direção, roteiro e efeitos especiais: Rodrigo Aragão
Produção: Fábula Filmes
Distribuição: Retrato Filmes
Exibição: Centro Cultural Unimed-BH Minas
Duração: 1h20
Classificação: 16 anos
País: Brasil
Gêneros: terror, ficção

11 abril 2025

"Cidade dos Sonhos", de David Lynch, retorna aos cinemas em versão restaurada

Naomi Watts e Laura Harring são as protagonistas deste clássico do cinema contemporâneo lançado
em 2001 (Fotos: Divulgação)


Da Redação


Uma grande oportunidade de assistir a um clássico do cinema contemporâneo dirigido por David Lynch. Neste sábado, 12 de abril, 20 salas de cinema diferentes localizadas em 14 cidades brasileiras, recebem a pré-estreia de "Cidade dos Sonhos" (“Mulholland Drive”). 

Em Belo Horizonte, o Cine Una Belas Artes e o Centro Cultural Unimed-BH Minas foram os escolhidos para esta exibição especial. Os ingressos já podem ser adquiridos por meio dos sites ou bilheterias dos próprios cinemas.

O filme, lançado originalmente em 2001, é uma oportunidade para rever ou conhecer, agora em alta definição, uma das obras mais aclamadas do cinema moderno. A estreia nos cinemas acontece dia 17 de abril.


Na trama, Betty/Diane Selwyn (papel de Naomi Watts) é uma jovem aspirante a atriz que viaja para Hollywood e se vê emaranhada numa intriga secreta com Rita/Camila Rhodes (Laura Harring), uma mulher que escapou por pouco de ser assassinada, e que agora se encontra com amnésia devido a um acidente de carro. 

O mundo de Diane se torna um pesadelo e as duas passam a procurar pistas por Los Angeles sobre o que ocorreu com Rita e desvendar sua identidade. O elenco conta ainda com Justin Theroux, Billy Ray Cyrus, Ann Miller, Robert Forster, Patrick Fischler, entre outros. A bela trilha sonora ficou a cargo do compositor Angelo Badalamenti.


Com distribuição da Retrato Filmes, as pré-estreias representam não apenas a volta de uma obra-prima ao circuito cinematográfico, mas também a renovação do diálogo entre o cinema e o público que poderá redescobrir um dos maiores filmes do século XXI de forma única.

O relançamento de "Cidade dos Sonhos" nos cinemas é uma celebração da obra-prima de David Lynch, que volta às telas com uma nova remasterização digital, oferecendo aos espectadores uma experiência visual e sonora inédita. 


A versão restaurada em 4K traz uma clareza impressionante para a cinematografia única de Lynch, revelando detalhes sutis da obra que antes passavam despercebidos. Uma mixagem sonora aprimorada intensifica a atmosfera de mistério e tensão que caracteriza o filme, tornando-se uma experiência cinematográfica imersiva e inesquecível.  

"Cidade dos Sonhos" conquistou o troféu de Melhor Direção no Festival de Cannes de 2001, entregue a David Lynch, e no ano seguinte foi indicado na mesma categoria ao Oscar. Além da direção, o filme é elogiado pela fotografia, trilha sonora e montagem.


Ficha Técnica
Direção e roteiro: David Lynch
Produção: Studio Canal, The Picture Factory, Les Films Alain Sarde, Asymmtrical Productions, Touchstone Television e Imagine Television
Distribuição: Retrato Filmes
Duração: 1h27
Exibição: Cine Una Belas Artes e Centro Cultural Unimed-BH Minas
Classificação: 16 anos
Países: EUA e França
Gêneros: drama, fantasia, suspense