Produção tem narrativa com ritmo lento e contemplativo, com valorização da atmosfera e da fotografia (Fotos: Pandora Filmes)
Mirtes Helena Scalioni
"Um filme-cabeça é uma produção que exige um envolvimento intelectual profundo do espectador. Em vez de focar apenas em entretenimento ou ação direta, aposta em narrativas complexas, metáforas, simbolismos e em grandes questões filosóficas, existenciais, psicológicas ou científicas.
A narrativa é sempre abstrata e não linear, e usa quebra-cabeças temporais, sonhos, alucinações ou finais abertos que dependem da interpretação de quem assiste.
Tem foco em conceitos profundos e explora temas como a natureza da realidade, a identidade humana, a moralidade, o tempo e a solidão. O ritmo é lento e contemplativo, com valorização da atmosfera, da fotografia, dos silêncios e diálogos densos, dando tempo para o espectador absorver as ideias propostas".
A definição, colhida de uma plataforma de Inteligência Artificial, é talvez a que mais se aproxima de "Cartório das Almas", longa brasileiro que ainda não tem data prevista para entrar nos cinemas mineiros.
Dirigido por Leo Bello ("O Espaço Infinito" - 2003), que também assina o roteiro, o filme leva o espectador a um tempo distópico em que as pessoas são praticamente condenadas a viver eternamente. E as que desejam morrer precisam registrar essa opção devidamente justificada em um determinado cartório apropriado.
A história gira em torno de Laura (Gabriela Correa) que, com 126 anos, começa a trabalhar exatamente no departamento que atende os que querem morrer.
Filmado em preto e branco e tendo os descampados do cerrado brasiliense como cenários, não há como negar que "Cartório das Almas" gera certa curiosidade e instiga.
No entanto, a forma lenta e repetitiva como é contada a história dos que desejam a liberdade da morte, acaba por cansar o espectador. Também não fica claro por que a própria Laura, responsável por ajudar tantos a morrer, não pode optar pelo fim da vida.
Há sim reflexões bonitas que são propostas ao longo do filme - como aliás costumam ser as ponderações sobre a finitude - mas elas não chegam a instigar quem está assistindo.
A fotografia de Pedro Maffei e a direção de arte de Maíra Carvalho aparecem quase que como personagens, criando o clima perfeito para a ideia, mas não conseguem salvar o longa.
Necessária nestes tempos em que setores da ciência falam até na possibilidade de interrupção do envelhecimento, a discussão corre o risco de se tornar rasa quando a proposta se mistura com transmutações, gaiolas, ninhos e pássaros. Haja metáforas.
O elenco, perfeito no que propõe o roteiro em termos de longos silêncios e atuações contidas, conta ainda com Wellington Abreu, Chico Sant'Anna, Roustang Carrilho, Maria Carolina Machado e Gabrielle Lopes. A trilha sonora, por sua vez, é tão discreta que quase nem aparece.
A conclusão, ao final desse filme-cabeça, é de que perdeu-se em elucubrações um tema que poderia ser mais profundamente contemplado.
Ficha técnica: Direção e roteiro: Léo Bello Produção: Machado Filmes e Lumiô Filmes Distribuição: Pandora Filmes Duração: 1h17 Classificação: 10 anos País: Brasil Gêneros: fantasia, ficção
Djin Sganzerla criou o roteiro, dirigiu e ainda protagoniza a história de Cleo, uma astrônoma grávida que recebe a visita da meio-irmã indígena (Fotos: Pandora Filmes)
Mirtes Helena Scalioni
Pode-se resumir em cenas separadas o filme "Eclipse", dirigido por Djin Sganzerla (filha de Helena Ignez e Rogério Sganzerla), com roteiro dela e de Vânia Medeiros.
O longa estreou na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e está selecionado para a 33ª edição do San Diego Latino Film Festival. A pré-estreia em BH será nesta sexta-feira (8), no Una Cine Belas Artes, às 20h30, e no dia 13, na Faixa Especial do Centro Cultural Unimed-BH Minas, também às 20h30.
Cena 1: uma linda onça pintada, com sua bocarra aberta, mostra os dentes, esturra ameaçadoramente e depois caminha lentamente até sua imagem desaparecer na mata. Aliás, essa mesma onça reaparece depois em flashes não explicados, até que, numa conversa a certa altura, uma personagem conta à outra sobre a simbologia do animal relacionada à eclipse. Bom saber.
Cena 2: Cléo (Djin Sganzerla) é uma astrônoma com seus quarenta e poucos anos, bem casada e grávida, que acaba de descobrir um novo asteroide e está vivendo tempos de muitas atividades na universidade onde trabalha.
Como se viesse para atrapalhar sua felicidade equilibrada e certinha, além do asteroide, ela descobre também uma meia irmã indígena, nascida de uma traição do seu pai.
Cena 3: Tony (Sérgio Guizé) é o marido perfeito de Cléo, que vive enchendo de mimos e cuidados sua mulher. Advogado bem- sucedido, ele forma, com a astrônoma, uma espécie de casal de publicidade de margarina. Os dois moram numa casa bonita e confortável e está sempre rodeado de amigos e brindes.
Cena 4: Lucélia (Selma Egrei) é mãe de Tony e aparece uma única vez no filme, contracenando com a nora na antessala de um consultório médico. As duas conversam sobre generalidades e Lucélia, de passagem, comenta sobre a morte de um de seus filhos, irmão de Tony, fato que parece ter acontecido há bastante tempo.
Vale ressaltar que essa foi a única participação da grande Selma Egrei em todo o longa e que o assunto nunca mais apareceu na trama.
Cena 5: Nalu (Lian Gaia), a meia-irmã indígena de Cléo, acaba se aproximando muito da irmã e as duas, juntas, investigam a vida de Tony. É bom informar que, apesar de ser índia, a moça é craque em informática, agindo praticamente como uma hacker experiente, capaz de invadir celulares e computadores com muita facilidade.
Cena 6: Sr. Roberto (Luiz Melo) aparece quase que de relance como o dono da fazenda onde Nalu trabalha cuidando de cavalos, sempre rejeitando a paquera e enfrentando como pode as investidas do jovem Felipe (Pedro Goifmam), que vem a ser filho do dono.
Cena 7: Cléo vai ao consultório da sua ginecologista (Clarisse Abujamra), onde descobre que seu bebê é uma menina. Essa é também a única aparição de Clarice no filme.
Cena 8: Suspense, perseguição de carros numa estrada de terra e a descoberta de um local secreto frequentado por prostitutas e onde são cometidas atrocidades contra mulheres.
São muitas as formas de se contar uma história e, parece, essa é e será sempre uma opção pessoal de quem dirige. Mas talvez não precisasse de tantas e tão repentinas participações de atores renomados, que entram como meros coadjuvantes em tomadas quase sempre inúteis. Além dos artistas já citados, entraram e saíram rapidinho também Gilda Nomacce, Helena Ignez e Julia Katharine.
Também são estranhas, quase inverossímeis, as ligações entre as cenas e os assuntos. Com todo respeito à origem de Djin Sganzerla, não precisava tantas voltas e rodeios para tratar de temas tão sérios quanto imprescindíveis como ancestralidade, violência contra a mulher, sororidade, estupro de vulnerável, deep web, redes sociais, hipocrisia, dissimulação... Faltou liga.
Ficha técnica:
Direção: Djin Sganzerla Roteiro: Djin Sganzerla e Vana Medeiros Produção: Mercúrio Produções Distribuição: Pandora Filmes Exibição: Una Cine Belas Artes Duração: 1h48 Classificação: 16 anos País: Brasil Gêneros: drama, thriller
Longa francês da diretora Mareike Engelhardt une pesquisa jornalística com construção ficcional (Fotos: Pandora Filmes)
Eduardo Jr.
Chega às telonas a história de um grupo pouco falado no já conhecido conflito religioso do Oriente Médio. O longa francês “Rabia - As Esposas do Estado Islâmico” ("Rabia") é a estreia de Mareike Engelhardt na direção e se baseia em relatos reais para abordar os bastidores das casas de noivas do Daesh. O local recebe mulheres europeias que viajam à Síria para se casar com combatentes, com a promessa de uma vida melhor.
No longa distribuído pela Pandora Filmes, Jessica (Megan Northam) é uma jovem francesa que, junto da amiga Laila (Natacha Krief), parte para a Síria, onde ambas se tornarão esposas do combatente Arkham. No início as cenas são escuras, como se a vida de Jessica tivesse pontos que não podem ser esclarecidos.
Se os homens que morrerem por Allah são recebidos no paraíso, na viagem Jessica e Laila ganham o céu. Conversam durante o voo como duas adolescentes falariam sobre um crush da escola.
Mas depois da chegada na “madafa” (uma espécie de casa onde as mulheres esperam para se casar), essa vida em tons de azul perde a cor. Roupas, joias, celulares e documentos são confiscados.
A casa é comandada pela ambígua “Madame” (Lubna Azabal), uma personagem inspirada em Oum Adam, uma das lideranças femininas mais temidas no grupo jihadista.
E o que as jovens terão dali pra frente será vigilância constante, violência e condições precárias de higiene. E também incerteza, pois o futuro marido Akhram morre em combate.
Como a obra une pesquisa jornalística e dramatização, fica difícil definir se pretende assumir um certo tom documental ou se retrata a opinião da diretora sobre o assunto. O que se segue é uma espiral de desilusão e brutalidade.
À espera das promessas de uma vida melhor, Jessica e Laila enfrentarão lavagem cerebral, com processos internos de radicalização, submissão e perda de identidade.
A protagonista, rebatizada como Rabia, marcada por um passado de abandono e invisibilidade social, revela a Madame que sua ida para a Síria é menos sobre fé e mais sobre a busca desesperada por pertencimento.
Sonho de opressor
A frase “Não quero ser escrava do sistema deles” ecoa como um grito de revolta contra uma sociedade que a negligenciou. Mas chega um pouco tarde, talvez propositalmente, pois o público já foi levado a crer que a jovem trocou uma escravidão por outra ainda pior.
A frase de Paulo Freire de que “o sonho do oprimido é ser opressor”, embora cunhada para o contexto educacional, encontra ecos aqui. A transmutação de Jessica, de vítima para cúmplice, incomoda.
Chega a fazer o espectador mudar sua percepção sobre a garota, até então inocente, sem um norte. Ela delata outras mulheres e até vende uma jovem francesa para o homem que tentou violentá-la.
A chance de redenção surge quando Laila, sua amiga, foge do emir, que se revelou um marido violento e deixa sob responsabilidade dela a filha, fruto daquele relacionamento fracassado. Jessica se vê diante do abismo — uma cidade em ruínas, uma vida despedaçada, e um bebê nos braços como símbolo de uma nova chance ou de um novo ciclo de dor.
"Rabia - As Esposas do Estado Islâmico" é um filme que pode chamar atenção pela ambiguidade do manifesto político com o drama, mas, ao mesmo tempo, não sabe o que pretende ser, e chega impregnado de impressões pessoais.
As camadas do extremismo, do fanatismo religioso, da falta de sororidade, estão ali, emolduradas em uma cenografia dark, sufocante. E o didatismo também. A busca por um lugar onde pertença termina como começou, no vazio. É um filme que incomoda, e talvez por isso mesmo se apresente como necessário.
Ficha Técnica:
Direção: Mareike Engelhardt Roteiro: Mareike Engelhardt e Samuel Doux
Produção: Arte France, Canal+, Eurimages Distribuição: Pandora Filmes Duração: 1h35 Classificação: 16 anos Países: França, Alemanha e Bélgica Gênero: drama
Longa sul-coreano aborda temas semelhantes aos do filme “Parasita” e da série “Adolescência” (Fotos: Pandora Filmes)
Carol Cassese
Carros luxuosos, aparências impecáveis, chefs renomados. Esses são os principais valores dos protagonistas de "Uma Família Normal", thriller sul-coreano dirigido por Hur Jin-ho. No Brasil, a produção chegou às telas no início de maio, surpreendendo positivamente a crítica.
O filme, centrado na história de uma família rica que precisa lidar com as consequências de um crime violento, foi oficialmente lançado em 14 de setembro de 2023, durante o Festival Internacional de Cinema de Toronto, no Canadá.
Logo na primeira cena, vemos um incidente violento no trânsito, que deixa um homem morto e sua filha gravemente ferida. O advogado criminalista Jae-wan (Sol Kyung-gu) é então chamado para defender o assassino (Yoo Su-bin), enquanto seu irmão mais novo, o médico Jae-gyu (Jang Dong-gun), realiza uma cirurgia de emergência na menina ferida.
Os familiares, que costumam sair para jantar em restaurantes luxuosos com as respectivas esposas, logo começam a entrar em conflito, pois defendem pontos de vista aparentemente antagônicos (em especial no que diz respeito ao trágico evento).
Há, portanto, uma interessante oposição entre os dois irmãos, que lembra o clássico "O Médico e o Monstro" – o último, claro, representado pela figura do advogado criminalista, que parece sempre privilegiar o dinheiro.
No entanto, assim como acontece na obra original de Robert Louis Stevenson, observamos que, na verdade, as duas figuras podem não ser tão diferentes uma da outra.
As esposas, interpretadas por Kim Hee-ae e Claudia Kim, também discutem entre si. A primeira, Yeon-kyung, casada com o irmão médico, se dirige à cunhada, Ji-su, mais jovem de maneira desdenhosa, comentando sobre sua magreza: “Nem parece que você acabou de ser mãe”.
Por sua vez, a personagem Seon-ju (Choi Ri) demonstra condescendência e de fato evidencia que a estética é um valor primordial para ela – logo em uma das primeiras cenas do filme, Seon-ju afirma que “ainda precisa perder quatro quilos” para se sentir bem consigo mesma.
Ao longo da noite, observamos diversas conversas sobre a “juventude” e o “envelhecimento” de bebidas, o que pode ser compreendido como um comentário sobre a diferença de idade entre as duas mulheres.
O mais grave de toda a situação, porém, é que, enquanto os personagens principais estão no jantar, seus filhos adolescentes cometem um tenebroso ato de violência contra uma pessoa vulnerável.
É a partir desse ocorrido que uma das principais perguntas do longa emerge: qual escolha você tem quando seus filhos são criminosos? Ou, mais especificamente, como um médico e um advogado, representantes de setores tão tradicionais, podem lidar com o impacto social de um crime cometido por membros de suas famílias?
Os personagens, então, passam a discutir as diferentes implicações da ação de seus filhos. Ao longo da história, os familiares mostram diversos traços de suas personalidades, o que torna a trama bastante complexa.
Em um momento de lucidez, a mãe dos dois irmãos, que sofre de Alzheimer, afirma sobre Jae-gyu: “Ele parece bonzinho, mas pode ser muito violento”. Como apontamos anteriormente, a figura do médico gradualmente passa a se aproximar de uma representação monstruosa.
Vale observar que o filme é baseado no romance "The Dinner" ("O Jantar"), do autor holandês Herman Koch, que já inspirou pelo menos outras três versões cinematográficas: "Het Diner" (Holanda, 2013), "I Nostri Ragazzi" (Itália, 2014) e "The Dinner" (Estados Unidos, 2017).
Enquanto o romance se passa inteiramente ao longo de um jantar, o longa de Hur Jin-ho expande a história, ambientada durante vários dias.
Mesmo considerando as particularidades de cada cultura, é interessante pensarmos que há algo de universal nesta história, ou, pelo menos, um número significativo de elementos comuns a sociedades capitalistas.
Nesse sentido, o longa de Hur Jin-ho poderia facilmente se passar no Brasil, onde homens que dirigem carros luxuosos também possuem uma “autorização” para serem violentos, sem graves consequências.
Poderia – e irá se passar: uma versão brasileira da história, intitulada "Precisamos Falar", deve chegar às salas de cinema ainda neste ano. Dirigido por Pedro Waddington e Rebeca Diniz, o filme conta com a presença de Marjorie Estiano e Alexandre Nero no elenco.
Como esperado, segue uma premissa similar a do romance holandês "O Jantar", também explorando o tema da desigualdade de classe.
Ao considerarmos o título da adaptação coreana, lembramos ainda da autora argentina Samanta Schweblin que, em entrevista ao periódico El País, afirmou que “o que chamamos de normalidade” é uma falácia.
No longa, observamos que elementos como um jaleco branco ou um renomado escritório de advocacia definitivamente dizem muito pouco sobre a ética de uma pessoa.
Mesmo que os dois irmãos possam ser significativamente cruéis, as cenas mais angustiantes do longa são centradas nos adolescentes, Seon-ju e Hyung-cheol (Yoo Su-bin)l, que passam horas assistindo a conteúdos violentos nas redes sociais.
Por abordar o impacto nocivo dessas mídias na vida dos mais jovens, o filme também dialoga com a discussão da comentada série "Adolescência", disponível na Netflix.
A partir de "Uma Família Normal", compreendemos que meninas, em especial as mais ricas, também podem incorporar ideais violentos – mesmo que figuras do sexo masculino sejam, ainda, as principais responsáveis por agressões.
Logo, é importante considerarmos que, assim como o gênero (fator bem explorado em "Adolescência"), a classe é um elemento fundamental para a compreensão das violências contemporâneas.
Além disso, não é surpreendente que o filme de Hur Jin-ho tenha sido comparado à "Parasita", de Bong Joon-ho, já que as duas produções sul-coreanas evidenciam muitas disparidades do sistema econômico vigente e, ainda, abordam conflitos familiares.
Nesse sentido, "Uma Família Normal" confirma a força do cinema contemporâneo do país, que tem apresentado histórias densas e uma estética singular.
Contando com um ritmo eletrizante e atuações surpreendentes, o filme de Hur Jin-ho perturba o espectador do começo ao fim, suscitando reflexões sobre a banalização das desigualdades.
Essa história, significativa para tantas culturas, ilustra que, muitas vezes, os cidadãos “normais” (ou “de bem”, como diríamos por aqui) operam primordialmente a partir de uma lógica desequilibrada e egocêntrica.
Ficha técnica: Direção e roteiro: Hur Jin-ho Distribuição: Pandora Filmes Exibição: em breve no streaming Duração: 1h49 Classificação: 16 anos País: Coreia do Sul Gênero: drama
Filme acompanha um grupo de negros e brancos que escapa do naufrágio de um navio negreiro e vai precisar mudar seu modelo de convivência (Fotos: Hugo Azevedo/Divulgação)
Último trabalho do cineasta luso-brasileiro José Barahona, "Sobreviventes" revisita a disputa do poder em meados do século XIX, após um naufrágio de um navio negreiro. O longa está em cartaz no Cine Una Belas Artes, com produção da Refinaria Filmes (Brasil) e David & Golias (Portugal).
A questão da escravidão é um tema que ainda assombra e se faz presente no século XXI de formas diferentes, mas com resquícios do passado. Barahona entrega um filme histórico e necessário ao tocar nas principais feridas do povo brasileiro.
A colonização do Brasil por Portugal é um exemplo de exploração econômica, violência contra os povos indígenas, implantação de um sistema escravocrata e a tentativa de imposição da cultura europeia.
O filme acompanha um grupo de homens e mulheres, negros e brancos, que, após escaparem de um terrível naufrágio de um navio negreiro, encontram-se isolados em uma ilha deserta, no Oceano Atlântico, no século XIX. Para sobreviverem, eles agora enfrentam um dilema: reproduzir as hierarquias do passado ou construir um novo modelo de convivência.
Temos todos os tipos de personagens, apesar de algumas vezes caricatos: João Salvador (o escravo), o branco que tenta manter a autoridade, o arrependido, o cruel, mulheres desvalorizadas e somente usadas para reprodução. Impossível não comparar a sociedade que temos hoje com a do passado.
A fotografia em preto e branco de Hugo Azevedo ajuda a fazer o contraste entre raças e seus discursos e ideologias. Um dos maiores acertos da obra é mostrar como, mesmo em uma situação difícil, as pessoas ainda querem manter o domínio sobre as outras.
Podemos até lembrar do longa “O Poço”, do diretor espanhol Galder Gaztelu-Urrutia, que discute política e fome em uma prisão vertical.
O maior trunfo de Barahona em sua obra é a maneira como ele, em determinado momento, subverte a lógica em relação à escravidão, transformando escravo em senhor e escravizando o homem branco. Tudo isso em uma narrativa densa e dolorosa, mostrando o maior defeito do ser humano: a crueldade.
O cineasta, que era um português branco, faz um filme para negros, para levar o público a pensar e repensar como a escravidão chegou ao Brasil e se impôs sobre outros povos. A colonização e a descolonização mostradas no longa são escancaradas de maneiras diversa e didática, sem enrolação.
O elenco dá um show de atuação, estrelado pelo mineiro Paulo Azevedo, Miguel Damião, Allex Miranda, Roberto Bomtempo, Zia Soares, Ângelo Torres e Anabela Moreira. Eles conseguem fazer o público ter empatia por seus personagens e, ao mesmo tempo, sentir raiva deles.
A trilha sonora original é assinada por Philippe Seabra, da banda Plebe Rude, e conta com a participação especial de Milton Nascimento em uma das faixas do filme, ampliando sua dimensão simbólica e afetiva.
“Sobreviventes” é um tipo de filme raro de se ver. Ele abre debates sobre a colonização e como o poder e a política funcionam até em uma ilha deserta com pessoas usando suas dores e diferenças para chegar a um objetivo, apelando até mesmo para a violência e a crueldade.
Ficha técnica:
Direção: José Barahona Produção: Refinaria Filmes (Brasil) e David & Golias (Portugal) Distribuição: Pandora Filmes Exibição: Cine Una Belas Artes - sala 3, sessão 19h40 Duração: 1h51 Classificação: 16 anos Países: Brasil e Portugal Gênero: drama
Protagonista, interpretado na medida por Chico Díaz, tenta fugir do seu passado entrando num trem misterioso (Fotos: Pandora Filmes)
Mirtes Helena Scalioni
É possível imaginar, mesmo sem nunca ter dirigido um filme, que retratar a obra de Murilo Rubião no cinema é tarefa difícil, quase impossível, mesmo que seja apenas uma homenagem.
Ao que parece, Eder Santos tentou fazer isso, mesmo caindo na tentação de realizar um longa pesado, até certo ponto incompreensível, obscuro e misterioso, muitas vezes pecando pelo excesso de metáforas.
Definitivamente, "Girassol Vermelho", livremente inspirado no mineiro Rubião, considerado o precursor do realismo fantástico, não é um filme fácil de assistir. O longa poderá ser conferido a partir do dia 3 de abril nos cinemas.
Se alguém se der ao trabalho de ler a sinopse do filme antes de vê-lo, vai ficar sabendo que Romeu, personagem interpretado na medida por Chico Díaz, tenta fugir do seu passado, entra num trem misterioso, mas para em algum lugar onde, desde o início, é questionado, maltratado e torturado por um sistema opressor que o espectador imagina - apenas imagina - qual seja. Um governo autoritário? A própria consciência de Romeu? Realidade ou pesadelo?
Os personagens vão entrando na história - que não é história - aos poucos. Da mulher de vermelho interpretada por Luiza Lemmertz que faz a dama fatal que atrai o homem para uma armadilha, até uma espécie de Grande Irmão, feito por Daniel Oliveira e que só aparece numa tela.
Até os indefectíveis homens e mulheres da lei - interpretados por Bárbara Paz, Renato Parara e outros. Também não faltam cenas que parecem ser julgamentos, em que as testemunhas acusam Romeu de ser o homem que pergunta, que questiona, que quer saber.
Saliente-se que o calvário do personagem central se passa em um mesmo local, uma espécie de galpão industrial, constantemente envolto em fumaça - ou seria névoa?
Com cara de filme experimental, "Girassol Vermelho" parece pecar pelas cenas longas, como a de um jantar onde todos estão sufocados dentro de sacos plásticos, menos Romeu, enquanto garçons servem e retiram pratos e copos.
Se o objetivo era causar estranheza, o filme codirigido por Thiago Villas Boas atinge sua meta com louvor. Mas dificilmente vai conseguir conquistar o público médio de cinema.
Mesmo reconhecendo que não se pode esperar algo verossímil a partir da obra de Murilo Rubião, que encantou e encanta leitores mundo afora com seus contos ao mesmo tempo belos e absurdos. No caso do longa, sobraram absurdos, faltou beleza.
PS: há uma única menção ao conto "A Casa do Girassol Vermelho", de Murilo Rubião, bem no início do filme, quando uma mulher lê um primeiro parágrafo para Romeu, assim que ele entra no trem.
Ficha técnica:
Direção: Eder Santos e codireção de Thiago Villas Boas Roteiro: Mônica Cerqueira Distribuição: Pandora Filmes Exibição: nos cinemas Duração: 1h50 Classificação: 16 anos País: Brasil Gênero: drama
François Ozon volta às telonas com um drama para prender o público com mistérios intrigantes (Fotos: Pandora Filmes)
Eduardo Jr.
No outono caem as folhas que mascaram as árvores, e o clima festivo e solar do verão começa a esmaecer. Em "Quando Chega o Outono" ("Quand Vint L'Automne") novo filme de François Ozon, essa metáfora nos provoca sobre as máscaras de cada personagem e a opção por não jogar luz sobre determinados atos. O longa chega aos cinemas brasileiros dia 27 de março, com distribuição da Pandora Filmes.
O diretor francês, que já filmou comédias, suspenses e musicais, agora oferece um drama que se debruça sobre a complexidade das relações humanas, promovendo um jogo sobre os segredos, traumas e atitudes de cada um perante determinadas situações. Destaque também para a bela fotografia, que explora muito bem as paisagens e cores fortes do Outono.
Na trama, as histórias de duas famílias se entrelaçam por conta de acontecimentos que deixam o público em suspense. De um lado está Michelle (personagem da ótima Hélène Vincent). Moradora de um vilarejo da Borgonha, ela está ansiosa para passar alguns dias na companhia do neto, Lucas (Garlan Erlos).
Quem vai levar o garoto para a casa da avó é a mãe dele, Valérie (Ludivine Sagnier, que trabalhou com Ozon em "Swimming Pool - À Beira da Piscina" - 2003). Na casa próxima está Marie Claude (Josiane Balasko), melhor amiga de Michelle, que a ajuda a colher cogumelos para o almoço das visitas.
A relação entre Michelle e Valérie não é nada boa, e piora quando a filha vai parar num hospital após acidentalmente comer cogumelos envenenados na casa da mãe. Quem apoia a avó de Lucas neste episódio é Marie-Claude, cujo filho acaba de sair da prisão, o misterioso Vincent (Pierre Lottin), personagem central no andamento da trama.
Vincent conhece Valérie desde a infância e vai atrás dela para tentar ajudar Michelle, que o acolheu e ofereceu trabalho ao ex-presidiário. Mas o encontro entre os dois é o ponto que vai movimentar a vida de todas as personagens.
Por que mãe e filha têm uma relação tão difícil? Existe de fato um culpado nos eventos do filme? Será que as consequências foram todas planejadas ou são apenas frutos do destino? Proteger alguém é algo que se faz naturalmente ou por interesse? Será que a inocência das pessoas apenas parece estar presente ou é genuína? Ozon provoca o espectador a refletir sobre os mistérios ali contidos, questionar, duvidar - e até julgar, afinal, é o que todos fazemos.
Atos do passado, culpa, solidão, amizade, manipulação, crime, segredos, velhice, afeto, redenção... Tudo isso compõe o pacote de reflexões que François Ozon nos lança nesta obra. E as respostas podem estar não no fim, mas no início do filme (fica a dica).
Assim como na estação em que as folhas caem, reduzindo a sombra da copa das árvores, em "Quando Chega o Outono" resta aos personagens aceitar que não há sombra que os impeça de encarar seus próprios segredos.
Ficha Técnica:
Direção: François Ozon Roteiro: François Ozon e Philippe Piazzo Duração: 1h42 Produção: Foz Distribuição: Pandora Filmes Classificação: 14 anos País: França Gêneros: drama, suspense
Com imagens em preto e branco, longa aborda a criação, por duas irmãs, de um dispositivo que permite obter informações do futuro (Fotos: Pandora Filmes)
Eduardo Jr.
Estreia no dia 13 de março o longa “Máquina do Tempo” ("Lola", 2022), dirigido por Andrew Legge e distribuído pela Pandora Filmes. A obra aborda a criação de uma máquina que permite obter informações do futuro e, com isso, é utilizada por suas descobridoras para interferir na Segunda Guerra Mundial.
A estética pode ser lida como ponto positivo ou negativo da obra. A filmagem no estilo “found footage” (ou “filmagem encontrada”, traduzindo do inglês) está presente em cenas que simulam gravações feitas pelas protagonistas, as irmãs Thomasina (Emma Appleton) e Martha (Stefanie Martini).
O longa foi realizado com câmeras e lentes autênticas da década de 1930 e processado em um tanque de revelação de 16mm da era soviética. Por isso as imagens em preto e branco, granuladas – e, por vezes, escuras demais, impactando a leitura das cenas pelo espectador.
Na trama, as duas irmãs constroem uma máquina que intercepta transmissões de rádio e TV do futuro. Após o fascínio com a produção cultural que ainda surgiria (entre as descobertas estão The Kinks e David Bowie), vem a ideia de utilizar a tecnologia como elemento transformador do cenário provocado pela Segunda Guerra, ocorrida entre 1939 e 1945.
O espectador pode se lembrar de alguns títulos do passado diante da proposta de “Máquina do Tempo”: conhecer canções que não existem naquele mundo pode remeter a “Yesterday” (2019), filme em que o protagonista se torna ‘autor’ de clássicos dos Beatles, já que ninguém conhecia os quatro rapazes de Liverpool.
Ver o futuro e intervir no que está para acontecer pode lembrar “Minority Report” (2002). Já a temática de alterar a realidade sem pensar nas consequências disso no futuro pode trazer à tona memórias de “Efeito Borboleta” (2004).
É interessante ver na tela duas mulheres se colocando como donas do jogo, acompanhar o romance que se põe no fundo, e mais ainda, ser apresentado a cenários hipotéticos acerca do conflito entre a Alemanha de Hitler e o restante da Europa. Mas para além do resultado da guerra, todo mundo sai perdendo - afinal, o que seria de um mundo em que não há um David Bowie?
Esta ficção científica é uma provocativa produção irlandês-britânica, que vem chamando a atenção. O filme, que é a estreia de Andrew Legge na direção de longas, foi indicado ao prêmio Swatch de Melhor Primeiro Filme no Festival de Locarno em 2022.
Se podemos dar alguma dica sobre este filme, lá vai: não perca, pois não dá pra voltar no tempo e rever essa obra tão interessante.
Ficha técnica:
Direção: Andrew Legge Roteiro: Andrew Legge e Angeli Macfarlane Distribuição: Pandora Filmes Exibição: nos cinemas Duração: 1h19 Classificação: 14 anos Países: Irlanda, Reino Unido Gêneros: Ficção científica, guerra, drama
Diretor Ruy Guerra ousa ao criar um jogo de suspenses e paranoias entre protagonistas (Fotos: Pandora Filmes)
Eduardo Jr.
O cineasta Ruy Guerra está de volta aos cinemas. Aos 93 anos, ele estreia nesta quinta-feira (13/02) “Aos Pedaços”, longa finalizado em 2020 em que luz e sombra emolduram magistralmente um thriller psicológico ousado. A distribuição é da Pandora Filmes. O filme está em exibição no UNA Cine Belas Artes.
Na trama, Eurico Cruz (personagem vivido por Emilio de Mello) se divide entre duas mulheres, com o mesmo nome. Ana (Simone Spoladore) mora em uma casa na praia, enquanto Anna (Christiana Ubach), mora em uma casa idêntica, em uma área deserta.
Ao receber um bilhete anunciando sua morte, assinado por “A”, a paranoia do protagonista se intensifica. Mais ainda diante da presença de Eleno (Julio Adrião). A presença de uma garrafa nas mãos do trôpego Eurico faz o espectador pensar em delírios, e depois, duvidar das alucinações.
Aí está uma das ousadias do diretor: neste jogo de suspenses e paranoias, ele deixa aberta a possibilidade de uma vingança das duas por saberem que não são únicas na vida de Eurico. Estariam as duas mulheres cientes da existência uma da outra?
A relação do protagonista com uma delas é mais misteriosa. Com outra, provocativa. E as duas atrizes vão desenrolando na tela possíveis motivações para tramar contra o marido. E a Eurico cabe transitar entre a passividade e o desespero, até solucionar sua angústia.
As interpretações mais teatralizadas podem agradar ou não ao espectador, mas sustentam o aspecto artístico, experimental e atrevido de Ruy Guerra.
Para além da trama, está a fotografia. Pablo Baião apresenta um preto e branco em enquadramentos hipnotizantes. A música de Fracktura, narração de Arnaldo Antunes e desenho de som de Bernardo Uzeda completam o pacote.
Não por acaso o filme foi premiado no Festival de Gramado com Kikitos de Melhor Fotografia, Melhor Som e Melhor Diretor.
Este não é um filme que se resume em uma palavra. É uma grande viagem, é instigante, é bonito, questiona a realidade, e talvez seja ainda mais, a depender da experiência do espectador. Mas além de tudo, é a oportunidade de valorizar mais um grande talento do cinema brasileiro.
Ficha técnica:
Direção: Ruy Guerra Roteiro: Ruy Guerra e Luciana Mazzotti Produção: Kinossauros Filmes, Tacacá Filmes Distribuição: Pandora Filmes Exibição: UNA Cine Belas Artes - sala 1, sessão das 18h30 Duração: 1h33 Classificação: 16 anos País: Brasil Gêneros: thriller psicológico, drama