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31 outubro 2026

"Cartório das Almas", filme-cabeça que não entrega o que propõe sobre eternidade e finitude

Produção tem narrativa com ritmo lento e contemplativo, com valorização da atmosfera e da fotografia
(Fotos: Pandora Filmes)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
"Um filme-cabeça é uma produção que exige um envolvimento intelectual profundo do espectador. Em vez de focar apenas em entretenimento ou ação direta, aposta em narrativas complexas, metáforas, simbolismos e em grandes questões filosóficas, existenciais, psicológicas ou científicas. 

A narrativa é sempre abstrata e não linear, e usa quebra-cabeças temporais, sonhos, alucinações ou finais abertos que dependem da interpretação de quem assiste. 


Tem foco em conceitos profundos e explora temas como a natureza da realidade, a identidade humana, a moralidade, o tempo e a solidão. O ritmo é lento e contemplativo, com valorização da atmosfera, da fotografia, dos silêncios e diálogos densos, dando tempo para o espectador absorver as ideias propostas".

A definição, colhida de uma plataforma de Inteligência Artificial, é talvez a que mais se aproxima de "Cartório das Almas", longa brasileiro que ainda não tem data prevista para entrar nos cinemas mineiros.


Dirigido por Leo Bello ("O Espaço Infinito" - 2003), que também assina o roteiro, o filme leva o espectador a um tempo distópico em que as pessoas são praticamente condenadas a viver eternamente. E as que desejam morrer precisam registrar essa opção devidamente justificada em um determinado cartório apropriado. 

A história gira em torno de Laura (Gabriela Correa) que, com 126 anos, começa a trabalhar exatamente no departamento que atende os que querem morrer. 

Filmado em preto e branco e tendo os descampados do cerrado brasiliense como cenários, não há como negar que "Cartório das Almas" gera certa curiosidade e instiga. 


No entanto, a forma lenta e repetitiva como é contada a história dos que desejam a liberdade da morte, acaba por cansar o espectador. Também não fica claro por que a própria Laura, responsável por ajudar tantos a morrer, não pode optar pelo fim da vida.

Há sim reflexões bonitas que são propostas ao longo do filme - como aliás costumam ser as ponderações sobre a finitude - mas elas não chegam a instigar quem está assistindo. 

A fotografia de Pedro Maffei e a direção de arte de Maíra Carvalho aparecem quase que como personagens, criando o clima perfeito para a ideia, mas não conseguem salvar o longa. 


Necessária nestes tempos em que setores da ciência falam até na possibilidade de interrupção do envelhecimento, a discussão corre o risco de se tornar rasa quando a proposta se mistura com transmutações, gaiolas, ninhos e pássaros. Haja metáforas.

O elenco, perfeito no que propõe o roteiro em termos de longos silêncios e atuações contidas, conta ainda com Wellington Abreu, Chico Sant'Anna, Roustang Carrilho, Maria Carolina Machado e Gabrielle Lopes. A trilha sonora, por sua vez, é tão discreta que quase nem aparece. 

A conclusão, ao final desse filme-cabeça, é de que perdeu-se em elucubrações um tema que poderia ser mais profundamente contemplado.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Léo Bello
Produção: Machado Filmes e Lumiô Filmes
Distribuição: Pandora Filmes
Duração: 1h17
Classificação: 10 anos
País: Brasil
Gêneros: fantasia, ficção

23 setembro 2026

"Fiebre" - Uma viagem febril e delirante de uma criança pelo universo do fantástico

O visual elaborado da produção pode encantar os adultos, mas a narrativa exige atenção redobrada,
o que não combina com crianças (Fotos: Cup Filmes)
 
 

Patrícia Cassese

 
Um dos principais trunfos de “Fiebre: Um Filme Para Crianças que Não Têm Medo do Fogo” é, sem dúvida, o apuro visual, cativante do início ao fim. O filme de Elisa Eliash, uma produção que une Brasil, Chile e Peru, mescla live-action e animação analógica para compartilhar a história de Nino, um garoto cujos olhos não produzem lágrimas – portanto, demanda cuidados constantes da mãe, que trata de ter sempre à mão um colírio para que os olhos do filho não fiquem demasiadamente ressecados.

Nino não sai muito de casa – a mãe teme que ele caia, devido ao problema ocular. No seu recolhimento involuntário, desenha bastante, mais até do que gostaria. Os trabalhos, fixados na parede, ressaltam um percurso imaginativo que será destrinchado ao longo da narrativa: assim, há a figura do avô chinês, as aventuras do pai, uma ilha na Polinésia... 


A figura da mãe surge em cena quando ela está prestes a sair ao encontro com um homem interessado em adquirir uma pintura que guarda em casa desde a infância. Mesmo febril, Nino vai acompanhá-la.

O aspecto fantástico começa a adentrar a cena quando o menino pede à mãe que lhe conte novamente a história da tela. Apesar de estar em cima da hora, a mulher cede à insistência do filho e relembra Pablo, artista adolescente e misantropo que, quando ela registrava apenas nove anos de idade, habitava o mesmo prédio, até subitamente desaparecer sem deixar rastros. 

Bem, ao menos para as pessoas do entorno, já que, a menina o encontra preso em um quadro a óleo descoberto no apartamento dele, o qual trata de pendurar em seu quarto. É na representação artística que Pablo dá sequência à sua existência, crescendo junto à garota.


Fascinado, Nino é informado pela mãe que é possível adentrar a pintura. Ao mesmo tempo, ela alerta: se entrar é fácil, sair... Imerso no já citado estado febril, Nino em dado momento ignora o alerta materno e profere as palavras mágicas que o transportam para um mundo metafísico, no qual os cenários podem mudar radicalmente a partir do momento em que da sua boca as palavras-chave voltam a sair e mediante representações visuais concretas, como fotos, desenhos e postais. 

Para citar um exemplo, não tarda a ele se ver imerso no filme italiano que, pouco antes, estava sendo exibido na TV de sua casa. O enredo mostra uma família (mãe e crianças) notadamente sem muitos recursos financeiros em meio aos bombardeios de uma guerra que ameaçam fazer a casa desabar. 


É neste momento, aliás, que ele encontra uma companheira de jornada, Dina. Juntos, os dois procuram comida e água, até desembarcarem em uma comunidade aborígene localizada nas cercanias de um vulcão prestes a entrar em erupção. 

Por sinal, temos aí um dos vários apontamentos da simbologia do fogo que aparece no subtítulo em português, para além, claro, da febre que perpassa o corpo do personagem principal, da presença de um sol inclemente ou do que emana de um fósforo.

Ao fim, há uma referência aos pais e mães que contam histórias para seus filhos, revelando uma homenagem aos que não reprimem a imaginação ilimitada dessa fase da vida, a infância, e que, pela realidade concreta, muitas vezes não deixa vestígios na vida adulta. 


A intenção é ótima, assim como digna de nota a associação do estado febril ao percurso delirante de Nino (sozinho ou junto à amiga imaginária Dina). Tal qual, como assinalado no início, o invólucro visual é de assoberbar, e é fácil prever que vai encantar adultos. 

O único porém fica por conta de uma provável não aderência do público-alvo (crianças) à história, pelo menos daquele que pertence à chamada primeira infância. Inicialmente, por conta de a narrativa exigir atenção redobrada, sem tempo para desvios ou desconcentração. 

Por outro lado, há citações que adentram terrenos arenosos, como a menção à morte iminente provocada pela erupção do vulcão. De todo modo, é uma aposta interessante. Se a criança não entender de todo o contexto, sairá impressionada pelo esmero visual. Já os pais, certamente serão cooptados.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Elisa Eliash
Produção: La Forma Cine e Válvula Films (Chile), coproduzido pela Klaxon (Brasil) e Films Bastardia y Tiempo Libre (Peru)
Distribuição: Cup Filmes
Duração: 1h24
Classificação: Livre
Países: Chile, Brasil e Peru
Gêneros: infantil, live-action, animação, ficção

04 junho 2026

"Cordélicos": uma viagem no tempo onde até os ETs dançam forró

Laser, cangaceiros, sanfona e muito humor: conheça a origem do temido vilão Cabra da Peste
(Fotos: Retrato Filmes)
 
 

Maristela Bretas


Quem disse que cangaceiros, extraterrestres, viagens no tempo e muito forró não combinam? "Cordélicos - A Origem do Cabra da Peste", animação brasileira em 2D atualmente em cartaz no Cine Belas Artes BH, prova justamente o contrário. Baseado na série animada "Cordélicos", lançada em 2022, o longa leva para as telonas uma aventura tão improvável quanto divertida.

Criado por Ale McHaddo, que assina direção, roteiro e também o desenho de alguns personagens, o filme mergulha de cabeça na literatura de cordel, na cultura popular nordestina e em um vocabulário repleto de regionalismos.

O resultado é uma mistura de humor, faroeste, ficção científica e aventura, onde alienígenas aparecem aos montes — alguns deles tocando sanfona e triângulo como se tivessem acabado de chegar de uma festa junina intergaláctica.


A animação ganha ainda mais energia com a trilha sonora produzida pela Music Solution, recheada de forró e ritmos nordestinos que ajudam a dar identidade própria à história.

A trama começa em 1933, no sertão de Juazeiro do Norte, no Ceará, aos pés da famosa estátua de Padre Cícero. É ali que conhecemos os Cordélicos, um grupo de cinco amigos cangaceiros liderados por Capitão Rocha, dublado por Bruno Garcia. Com ele estão Sivirino, ou simplesmente Siv, dublado por Tadeu Mello, Bonita (Raissa Xavier), Rivonilda, a Rimbi (Carol Goes) e o inseparável jegue Corisco.

Como toda boa aventura de cangaceiros, não falta perseguição. O grupo vive fugindo do insistente cabo PM Firmino, dublado por Marcelo Mansfield, e de seus dois ajudantes atrapalhados. Mas o que parecia ser apenas mais uma correria pelo sertão muda completamente quando os amigos encontram um misterioso portal temporal.


Em poucos segundos, eles saltam de 1933 para o ano 3333 e descobrem um futuro dominado pelo temido Cabra da Peste, também com a voz de Marcelo Mansfield. O vilão governa o chamado Neo Nordeste com mão de ferro e pretende usar os cangaceiros para montar um exército capaz de dominar o mundo.

Daí em diante, vale tudo: armas a laser, naves espaciais, criaturas alienígenas, perseguições futuristas e até citações de personalidades como Guimarães Rosa e Gilberto Gil, lembradas pelo Capitão Rocha ao longo da jornada. Entre uma confusão e outra, os Cordélicos precisam encontrar uma maneira de voltar para casa e impedir os planos do tirano intertemporal.


Para aumentar ainda mais a diversão, o cantor Falcão surge em participação especial como o hilário Falcão Espacial, ajudando os heróis tanto no passado quanto no futuro. Explicar exatamente como tudo isso acontece talvez seja impossível. Como diria Chicó, de "O Auto da Compadecida": "Não sei, só sei que foi assim".

Com visual simpático, humor acessível para crianças e diversas referências que os adultos vão captar, "Cordélicos - A Origem do Cabra da Peste" é uma animação que celebra a criatividade brasileira ao misturar elementos da cultura nordestina com ficção científica sem perder sua identidade. Uma aventura arretada para toda a família.

Se você sair aperreado do cinema querendo mais, a boa notícia é que as aventuras continuam na série "Cordélicos", que conta com uma temporada de 26 episódios disponíveis no Prime Video e na Apple TV.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Ale McHaddo
Produção: 44 Filmes, coprodução SPCine e Prefeitura de São Paulo
Distribuição: Retrato Filmes
Exibição: Cine Belas Artes BH - sala 3
Duração: 1h12
Classificação: 10 anos
País: Brasil
Gêneros: animação, comédia

21 dezembro 2025

"Avatar: Fogo e Cinzas" - novo capítulo deixa apagada a grande novidade

No campo técnico, o filme segue sendo um espetáculo, como nos dois filmes anteriores do diretor James Cameron (Fotos: 20th Century Studios)
 
 

Marcos Tadeu
Blog Jornalista de Cinema

 
"Avatar: Fogo e Cinzas" ("Avatar: Fire and Ash"), em cartaz nos cinemas, chega com a missão de manter vivo e relevante o universo criado por James Cameron em 2009, que teve sua continuação somente 13 anos depois, em 2022, com "Avatar: O Caminho da Água". 

A grande promessa deste terceiro capítulo é a introdução do Povo das Cinzas, um grupo de Na’vi que vive em regiões vulcânicas de Pandora, além da ampliação dos conflitos internos do planeta. 


O elenco também cresce, com reforços como Oona Chaplin, Edie Falco, David Thewlis e Trinity Jo-Li Bliss, o que aumenta a expectativa por um olhar mais denso sobre esse mundo.

A proposta inicial funciona. Levar a história para um território dominado pelo fogo sugere um clima mais tenso e a chance de explorar disputas culturais e morais entre os próprios Na’vi. O problema é que o filme não sustenta essa ideia. 


O Povo das Cinzas aparece pouco, é pouco desenvolvido e acaba reduzido a uma ameaça genérica. Falta tempo (apesar das 3h15 de filme) ou interesse em mostrar sua cultura, seus conflitos e suas motivações, o que enfraquece bastante o impacto dessa “grande novidade”.

Outro ponto que pesa é a sensação de déjà-vu. A estrutura do roteiro repete fórmulas já vistas nos filmes anteriores, com conflitos que se alongam demais e cenas que impressionam visualmente, mas que pouco fazem a história avançar. 

O tempo de duração joga contra o longa, criando momentos de cansaço e a sensação de que faltou coragem para enxugar e arriscar mais.


No campo técnico, o filme segue sendo um espetáculo. O design de Pandora, as criaturas, os ambientes vulcânicos e a imersão sonora continuam em altíssimo nível, com destaque para o trabalho de som liderado por Brent Burge e Gwendolyn Yates Whittle, os efeitos visuais supervisionados por Eric Saindon e a equipe de VFX conduzida por Simon Franglen, que também assina a trilha sonora. 

É um conjunto que funciona perfeitamente para criar impacto sensorial, embora, desta vez, ele sirva mais como sustentação estética do que como motor narrativo.

O maior problema está na forma como os conflitos são resolvidos. O filme insiste em soluções baseadas em laços familiares, perdão e revelações emocionais que diluem a tensão. Em vez de assumir consequências mais duras, a narrativa frequentemente recua, transformando embates que poderiam ser mais fortes em resultados seguros e previsíveis.


No fim, "Avatar: Fogo e Cinzas" entrega exatamente o que se espera da franquia em termos de espetáculo visual e experiência de cinema. Para os fãs, isso pode ser o suficiente. Mas, narrativamente, fica a sensação de oportunidade perdida. 

A nova mitologia não se desenvolve como deveria, o roteiro se apoia demais no que já funcionou antes e falta ousadia para levar Pandora a caminhos realmente novos. Vale pela grandiosidade, mas deixa a impressão de que esse fogo poderia queimar bem mais alto.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: James Cameron
Produção: 20th Century Studios e Lightstorm Entertainment
Distribuição: Disney Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 3h15
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: ação, fantasia, ficção, drama

18 novembro 2025

"Angel’s Egg": uma experiência cinematográfica para um público seleto

Obra do renomado Mamoru Oshii completa 40 anos e foi remasterizada em 4K (Fotos: Sato Company)
 
 

Jean Piter Miranda

 
Considerado por muitos um clássico da animação japonesa, “Angel’s Egg” (1985) chega aos cinemas brasileiros. A obra que completa 40 anos foi remasterizada em 4K. 

A história se passa em um mundo pós-apocalíptico onde uma menina solitária protege um ovo gigante. Entretanto, as coisas mudam quando surge um homem enigmático que busca cumprir uma missão. 

A animação tem pouco mais de 70 minutos. Um tempo que parece muito maior já que a história é bem lenta. A cidade onde a história se passa é escura e melancólica. Há água por todos os lados e a chuva se faz presente em quase todas as cenas. 


São pouco diálogos e muito silêncio. Nos primeiros 20 minutos, só há sons ambientes enquanto a menina anda de um lado para o outro carregando o ovo. 

Os primeiros diálogos só ocorrem quando surge um homem misterioso, que chega em uma espécie de tanque de guerra. Ele carrega consigo algo que parece uma cruz e, ao mesmo tempo, também se assemelha a uma espada. A partir disso, faz companhia para a menina durante o restante da história. 

Os dois seguem andando pela cidade, passando por construções que são, no mínimo, enigmáticas. Eles se deparam com fósseis, esqueletos de criaturas que habitavam o local. 


Um dos pontos altos da animação são as reflexões propostas pelo homem. Ele fala de fé, de deus, da criação, sobre o que é real ou não, em uma narrativa que passa pela lenda da arca de Noé. 

Há outros personagens na história, como os pescadores que correm atrás de sombras de peixes gigantes. São zumbis? São fantasmas? Uma nave arredondada que parece um grande olho. São muitas informações que surgem lentamente entre poucos diálogos e nenhuma explicação. 


"Angel’s Egg" é uma obra filosófica, para contemplar e refletir. Por isso é para poucos. Agrada quase ninguém e vai agradar menos ainda nos dias atuais, onde tudo é muito acelerado. 

Em tempos de Reels, micro-vídeos, feed que desliza de segundo em segundo, é difícil ver um filme que se arrasta em silêncio e não entrega respostas prontas. 

A obra é do renomado Mamoru Oshii, mesmo autor de “Ghost in the Shell” (1995). É uma boa pedida para quem gosta de animes, mangás, e de toda a cultura japonesa. Uma experiência audiovisual de beleza singular que há 40 anos foi lançada em VHS e que agora poderá ser vista na tela grande.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Mamoru Oshii
Conceitos visuais: Yoshitaka Amano
Distribuição: Sato Company
Exibição: Cineart Cidade - sessão 18h35
Duração: 1h11
Classificação: 10 anos
País: Japão (1985 - remasterizado)
Gêneros: fantasia, animação

16 setembro 2025

Cinemas de BH recebem retrospectiva inédita de 22 produções do Estúdio Ghibli

Ghibli Fest será dividido em duas partes: em setembro deste ano e no
primeiro semestre de 2026 (Fotos: Sato Company)
 
 

Da Redação

 
Em uma celebração dupla, a Sato Company, reconhecida pela distribuição de filmes asiáticos no Brasil, comemora seus 40 anos de história trazendo aos cinemas brasileiros uma retrospectiva inédita dos longas do Estúdio Ghibli. 

Há quatro décadas, a excelência na animação do estúdio japonês encanta gerações com histórias atemporais, personagens cativantes e uma profunda conexão com a cultura asiática.

O Ghibli Fest terá 22 títulos no total e será dividido em duas partes. A primeira com exibição em várias salas de BH, de 18 de setembro a 1º de outubro. 

"A Viagem de Chihiro"

Serão 14 filmes que marcaram gerações, com histórias profundas, emocionantes e visualmente encantadoras, dentre eles, dois indicados e um vencedor do Oscar. A segunda parte terá oito títulos, com estreia prevista para o primeiro semestre de 2026.

Essa é uma chance única de vivenciar grandes clássicos da animação mundial na tela grande, com toda a beleza e profundidade que só o cinema pode proporcionar. A seleção promete encantar gerações de fãs e conquistar novos públicos com narrativas poéticas e temas universais. 

"Meu Amigo Totoro"

Prepare-se para reviver (ou descobrir) a magia de um dos estúdios mais amados da história da animação mundial. Entre os títulos selecionados para a Parte 1 da Mostra, estão obras que definiram a identidade do estúdio e se tornaram referências mundiais na animação. 

“A Viagem de Chihiro” (2001), vencedor do Oscar de Melhor Animação e sucesso internacional, conta a jornada da jovem Chihiro por um mundo mágico repleto de deuses, espíritos e desafios que refletem o crescimento pessoal. Dirigido pelo mestre Hayao Miyazaki, o filme foi selecionado recentemente como o 9º Melhor Filme do Século XXI pela New York Times. 

"O Castelo Animado"

Já “Meu Amigo Totoro” (1988) apresenta as irmãs Satsuki e Mei e sua amizade com o espírito da floresta Totoro, em uma celebração da infância e da natureza que se tornou símbolo da produtora.

“O Castelo Animado” (2004) envolve o público em uma fantasia romântica onde uma jovem amaldiçoada encontra refúgio no castelo ambulante de um excêntrico mago, em uma obra que combina imaginação e crítica à guerra. 

A programação também inclui “Ponyo: Uma Amizade que Veio do Mar” (2008), inspirado no conto da Pequena Sereia e que mistura magia, infância e ecologia. Além de “O Serviço de Entregas da Kiki” (1989), um delicado retrato do amadurecimento de uma jovem bruxa em busca de independência. 

"Porco Rosso: O Último Herói Romântico"

O aventureiro “Porco Rosso: O Último Herói Romântico” (1992) leva o espectador à Itália entre guerras, onde um piloto amaldiçoado com aparência de porco vive aventuras aéreas carregadas de lirismo. 

Outro título aclamado é “Vidas ao Vento” (2013), inspirado na vida do engenheiro Jirô Horikoshi, que reflete sobre sonhos, amor e sacrifícios em meio ao Japão em transformação.

As preocupações ambientais do estúdio aparecem desde cedo, como em “Nausicaä do Vale do Vento” (1984), obra visionária que influenciou a fundação do Ghibli e narra a luta de uma princesa pela harmonia entre humanidade e natureza. 

"Nausicaä do Vale do Vento"

O romance juvenil também tem espaço em “Sussurros do Coração” (1995), que acompanha a estudante Shizuku em uma história de amadurecimento e autodescoberta. 

Já “Pom Poko: A Grande Batalha dos Guaxinins” (1994) traz uma sátira ecológica, enquanto “Meus Vizinhos, os Yamadas” (1999) diverte com seu traço estilizado e retrato bem-humorado da vida familiar japonesa.

Com um olhar mais maduro e intimista, “Memórias de Ontem” (1991) alterna presente e passado para refletir sobre infância e escolhas adultas. Produzido originalmente para a TV, “Eu Posso Ouvir o Oceano” (1993) traz uma visão realista sobre juventude, amizade e primeiros amores. 

"Sussurros do Coração"

E encerrando a seleção da primeira parte, “Da Colina Kokuriko” (2011) apresenta um romance ambientado no Japão dos anos 1960, onde um grupo de estudantes luta para preservar sua escola em meio às transformações sociais do pós-guerra.

O Ghibli Fest - Parte 1 oferece ao público brasileiro a chance rara de vivenciar esses clássicos na tela grande, com toda a beleza que só o cinema pode proporcionar. É uma verdadeira celebração da arte, da imaginação e da emoção — marcas registradas do Estúdio Ghibli ao longo de quatro décadas.

“Da Colina Kokuriko”

Confira a lista completa dos filmes da primeira parte:

- "A Viagem de Chihiro" - 2001 (DUB/LEG) - Vencedor do Oscar - classificação: livre
- "Meu Amigo Totoro" - 1988 (DUB/LEG) - classificação: livre
- "O Castelo Animado" - 2004 (DUB/LEG) - Indicado ao Oscar - classificação: livre
- "Ponyo: Uma Amizade que Veio do Mar" - 2008 (DUB/LEG) - classificação: livre
- "O Serviço de Entregas da Kiki" - 1989 (DUB/LEG) - classificação: livre
- "Porco Rosso: O Último Herói Romântico" - 1992 (DUB/LEG) - classificação: 14 anos
- "Vidas ao Vento" - 2013 (DUB/LEG) - Indicado ao Oscar - classificação: 12 anos
- "Nausicaä do Vale do Vento" - 1984 (LEG) - classificação: 12 anos
- "Sussurros do Coração" - 1995 (DUB/LEG) - classificação: livre
- "Pom Poko: A Grande Batalha dos Guaxinins" - 1994 (DUB/LEG) - classificação: 10 anos
- "Meus Vizinhos, os Yamadas" - 1999 (DUB/LEG) - classificação: 10 anos
- "Memórias de Ontem" - 1991 (DUB/LEG) - classificação: 10 anos
- "Eu Posso Ouvir o Oceano" - 1993 (DUB/LEG) - classificação: 10 anos
- "Da Colina Kokuriko" - 2011 (LEG) - classificação: 10 anos

"Princesa Mononoke"

Para o Ghibli Fest - Parte 2, que estreia no primeiro semestre do próximo ano, serão oito títulos: 

- Contos de Terramar (2006)
- O Castelo no Céu (1986)
- Princesa Mononoke (1997)
- O Reino dos Gatos (2002)
- O Mundo dos Pequeninos (2010)
- O Conto da Princesa Kaguya (2013)
- As Memórias de Marnie (2014)
- Túmulo dos Vagabundos (1998)


Ficha técnica
Ghibli Fest
Programação:

Parte 1 - 14 títulos - de 18 de setembro a 1º de outubro de 2025
Parte 2 - 8 títulos - estreia no primeiro semestre de 2026)
Produção: Estúdio Ghibli
Distribuição: Sato Company
Exibição: salas Cineart Cidade, Cinemark BH Shopping, Centro Cultural Unimed-BH Minas e Cine Una Belas Artes
Classificação: variável
Gêneros: animação, fantasia, aventura


03 junho 2025

“A Lenda de Ochi” uma fábula de pertencimento de espécies distintas

Helena Zengel é uma jovem que enfrenta todos para ajudar uma criatura mística bebê a reencontrar sua
família (Fotos: A24)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema


Dirigido e roteirizado por Isaiah Saxon, está em cartaz no cinema o filme "A Lenda de Ochi" ("The Legend of Ochi"), produzido pelo estúdio A24, que conta com um elenco formado por Helena Zengel, Willem Dafoe, Emily Watson e Finn Wolfhard.

Conhecemos Yuri (Helena Zengel), uma jovem que desafia os medos de sua vila ao ajudar o filhote de um Ochi, uma criatura mística que aterroriza a região. Ao atravessar a floresta, ela descobre um mundo mágico e aprende sobre coragem, empatia e conexão com a natureza.


O ponto mais forte do filme está na rivalidade entre humanos e os Ochi. Segundo a lenda, eles são criaturas demoníacas, caçadoras, piores que lobos. Tudo muda quando Yuri, a única menina da vila, encontra um Ochi bebê e assume o risco de cuidar dele e levá-lo para casa. 

É interessante como a protagonista e a criaturinha aprendem a se comunicar e desenvolvem uma linguagem própria. Ambos precisam dessa noção de pertencimento: mesmo morando com o pai, Yuri não se sente parte da família e sofre com a ausência da mãe, enquanto o pequeno Ochi sente falta da sua família como um todo.


O antagonismo surge em Maxim (Dafoe), o pai, que, vestido com roupas de soldados antigos — armadura, escudo e faca —, faz de tudo para manter vivo dentro de casa o ódio pela criatura. Ele escolhe sempre a intolerância e impõe sua autoridade quase como um militar. A violência e o silêncio são suas formas de controle, e fica evidente que Yuri é maltratada por ele.

Tecnicamente, o longa é um deleite visual. A fotografia de Evan Prosofsky valoriza as paisagens, as criaturas, o universo fantástico e um ar meio vintage que ajuda a contar a história. A trilha sonora de David Longstreth reforça o tom intimista e sombrio do lugar, mas com uma camada emocional afetiva. 


A montagem de Paul Rogers é lenta, gradual, sem pressa e eficaz em seu ritmo. Aos poucos, ele revela quem são os personagens e, principalmente, mostra suas transformações. A evolução deles acontece por meio das ações. 

Aqui, o diretor está mais interessado em fazer um cinema independente e experimental do que em aprofundar a história tradicional.

É impossível assistir ao filme sem lembrar de criaturas encantadoras que sempre aparecem para ensinar algo, como os Gremlins, os Goonies, Stitch e, especialmente, E.T. (há cenas que chegam quase a ser uma cópia do sucesso de Steven Spielberg). 

Há também um forte conflito geracional, e essas figuras mágicas ajudam os personagens humanos a enxergar novos caminhos.


Talvez o maior ponto fraco do filme seja a falta de aprofundamento no passado de Maxim. O que o transformou nesse homem autoritário? Como era sua vida familiar antes de se tornar essa figura armada e amargurada? São perguntas que ficam em aberto.

A "Lenda de Ochi" é uma fábula sobre ligação entre espécies distintas, contada de forma contundente, direta ao ponto. O filme diverte e faz pensar sobre quem escolhemos como família e qual lugar ocupamos no mundo.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Isaiah Saxon
Produção: Estúdio A24
Distribuição: Paris Filmes
Exibição: Cinemark Diamond Mall
Duração: 1h36
Classificação: 12 anos
País: EUA
Gêneros: aventura, fantasia

15 abril 2025

"Nas Terras Perdidas" se perde em roteiro confuso e protagonistas sem química

Milla Jovovich e Dave Bautista são os protagonistas deste novo filme pós-apocalíptico dirigido por Paul W. S. Anderson (Fotos: Diamond Filmes)
 
 
Maristela Bretas
   
O diretor Paul W.S. Anderson claramente tentou fundir a ação frenética de "Resident Evil" com o cenário pós-apocalíptico de "Mad Max" para criar "Nas Terras Perdidas" ("In The Lost Lands"). Infelizmente, o resultado é um filme confuso, sustentado por um roteiro fraco, com diálogos superficiais, quase esquecível. 

Nem mesmo os efeitos visuais, que deveriam ser um dos pilares de uma produção de ação e fantasia, que em muitos momentos lembra um faroeste, conseguem salvar a obra. Mais uma vez Anderson coloca sua esposa Milla Jovovich como protagonista, dividindo a tela com Dave Bautista, mas a química entre eles é zero.


Jovovich permanece presa ao estilo que a consagrou na franquia "Resident Evil", entregando uma atuação sem profundidade, focada em combates contra ameaças sobrenaturais.

Sua personagem, assim como em trabalhos anteriores, comunica-se predominantemente através da ação, carecendo de desenvolvimento verbal - usa no máximo dez palavras em cada frase.

Bautista não fica longe. Embora seu físico seja imponente para o papel de caçador, ele é melhor como lutador do que numa interpretação dramática, seguindo a trajetória de outros atletas que tentam a carreira no cinema. 

Alguns conseguiram encontrar seu nicho, o que ainda não aconteceu com Bautista. Ele acertou um pouco na comicidade na franquia "Guardiões da Galáxia".


Na história, a bruxa Gray Alys, interpretada por Milla, viaja para as Terras Perdidas em busca de um poder mágico que deverá passar para a rainha (Amara Okereke) que permitirá que ela se transforme em um lobisomem. Gray encontra em seu caminho o caçador Boyce (Bautista) que vai guiá-la até o reino das criaturas sombrias.

O problema maior da história é que ela é toda fragmentada. O filme falha em estabelecer adequadamente seus personagens e o contexto em que se inserem. 

A origem da bruxa, o passado do caçador e a natureza do lobisomem permanecem envoltos em mistério, deixando o espectador desorientado quanto às motivações e ao significado da jornada. 


Adaptado de um conto de 1992 de George R.R. Martin, autor da aclamada série "Game of Thrones", o longa pode até fazer sentido para os fãs do escritor, mas para o público geral, a condução da trama é pouco convidativa.

As sequências de lutas, apesar de cumprirem minimamente seu propósito, sofrem com efeitos visuais que ficam aquém das expectativas, mesmo com alguns bons cenários.

"Nas Terras Perdidas" se revela uma experiência cinematográfica difícil de ser assistida até o final, que também é bem insatisfatório. Mas poderá agradar aos admiradores do conto original e fãs dos atores. Eu não recomendo.


Ficha técnica:
Direção: Paul W.S. Anderson
Produção: Constantin Productions
Distribuição: Diamond Films
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h41
Classificação: 16 anos
País: EUA
Gêneros: ação, aventura, fantasia

19 março 2025

Disney acerta em CGI de animais, mas peca como musical em "Branca de Neve"

Rachel Zegler e Gal Gadot dividem o protagonismo do novo live-action  da Disney dirigido por Mark Webb (Fotos: Walt Disney Pictures)


Maristela Bretas


Os irmãos Grimm, autores da famosa obra "Branca de Neve e os Sete Anões" não devem estar nada satisfeitos em seus túmulos com a nova produção da Disney, "Branca de Neve" ("Disney's Snow White"), que estreia nesta quinta-feira (20) nos cinemas. 

Não bastassem as muitas polêmicas nas redes sociais (uma delas até envolvendo o filho do diretor, que não gostou do filme), a produção deverá deixar muito espectador que acompanhou o desenho na infância, como eu, decepcionado com este novo live-action.


Apesar de ter classificação livre, o longa é um musical, com algumas belas canções, mas cansativo e até chato em certos momentos, o que não deve prender a atenção das crianças. 

Para elas, o atrativo serão os bichinhos animados que vivem na floresta encantada. Eles são fofos e carismáticos, têm vida no olhar e movimentos, ao contrário do que houve com os animais de "O Rei Leão" (2019). 

Desta vez o estúdio acertou, o cervo, os coelhinhos, os passarinhos e o simpático ouriço valem o filme. Outro ponto que agrada, o visual com cores vivas e alegres, contrastando com o reino tomado pelas sombras após a Rainha Má assumir o poder. Muitas cenas são reproduções bem próximas do desenho.

Desenho" Branca de Neve e os Sete Anões",
 de 1937 (Walt Disney Pictures)

A produção também recupera algumas canções de "Branca de Neve e os Sete Anões", de 1937, como "Heigh Ho" (conhecida em português como "Eu Vou"), que marcou gerações e foi a primeira animação da Disney. Esta é uma versão com poucos recursos, mas com encanto, que vale muito a pena conferir. Está disponível no Disney+.

Para quem não conhece a história, Branca de Neve era uma princesa que tinha uma vida feliz, até perder seus pais e virar uma escrava de sua madrasta má que tenta matá-la por inveja de sua beleza. Na floresta onde se esconde, conhece novos amigos que vão ajudá-la a recuperar o reino.


Mas parou por aí. Falei em polêmicas e uma delas é sobre a comparação da beleza de Branca de Neve, interpretada pela colombiana Rachel Zegler ("Amor, Sublime Amor" - 2021), com a da Rainha Má, papel de Gal Gadot ("Mulher Maravilha" - 2017). 

A explicação do "Espelho, Espelho Meu" é tão míope quanto ele e só funcionou para os produtores. Gadot é muito mais bonita, mas não convence cantando. 

Já Zegler não tem uma beleza tão grande, mas vai ganhando a simpatia do público a partir do meio da animação e está mais à vontade cantando muito bem e entregando boa interpretação. Além de formar um par romântico simpático com o ladrão e rebelde Jonathan (Andrew Burnap).


Por trás da história de fantasia, há uma abordagem, às vezes sutil, outras nem tanto, dos sentimentos e traumas dos personagens. Branca de Neve vive o dilema de não conseguir se tornar a líder que seu pai, o rei, disse que ela seria um dia. Mas tem coragem e bom coração, briga por seus direitos e pelo reino e não depende de um príncipe no cavalo branco para salvá-la. 

A Rainha Má, por sua vez, é caricata, histérica e dependente de um espelho mágico (Patrick Page) para se sentir eternamente bela e poderosa. A empatia da personagem é zero, salva apenas pela interpretação de Gadot, mas até nisso perdeu para sua antecessora que foi mais marcante.


Sem falar nos sete anões, cada um com seu dilema, especialmente Dunga (Andrew Barth Feldman). Mas todos são bem simpáticos, até mesmo o rabugento Zangado (Martin Klebba). 

Além deles temos Dengoso (Tituss Burgess), Atchim (Jason Kravits), Mestre (Jeremy Swift), Feliz (George Salazar) e Soneca (Andy Grotelueschen). Mais uma polêmica, uma vez que todos foram criados por computação gráfica, no lugar de usar pessoas com nanismo. 

Para quem já esteve nos parques da Disney, uma das cenas com os Sete Anões é a reprodução do brinquedo Seven Dwarfs Mine Train, no Magic Kingdom, em Orlando, que é ótimo. Agora é conferir nos cinemas e contar pra gente o que achou do novo "Branca de Neve".


Ficha técnica:
Direção: Marc Webb
Produção: Walt Disney Pictures
Distribuição: Disney Pictures
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h49
Classificação: Livre
País: EUA
Gêneros: fantasia, musical, aventura