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04 novembro 2026

"Assalto à Brasileira": quando a realidade do país supera qualquer roteiro de comédia

Filme é baseado em um fato ocorrido em Londrina no ano de 1987 que ganhou repercussão nacional
pelo número de reféns (Fotos: +Galeria
)
 
 

Maristela Bretas

 
Não importa a época, a cidade ou mesmo os fatos. O certo é que o brasileiro é um ser que precisa ser estudado pela ciência. E "Assalto à Brasileira", que estreia nos cinemas nesta quinta-feira, é a prova de que até mesmo uma ação criminosa pode fazer vítimas mudarem de lado, apoiarem bandidos e ainda transformá-los em heróis.

Londrina, 10 de dezembro de 1987. O Brasil, recém-saído da Ditadura Militar, era presidido por José Sarney e vivia uma de suas piores crises econômicas. Os remarcadores de preços disputavam espaço nas prateleiras com os consumidores, numa corrida para ver quem chegava primeiro aos produtos antes que as etiquetas fossem trocadas.


O povo sofria com a hiperinflação, a falta de dinheiro e os juros bancários extorsivos. É nesse contexto que sete rapazes desempregados e fortemente armados resolvem assaltar a agência do Banestado, a maior da cidade, exigindo 30 milhões de cruzados (cerca de US$ 10 milhões na época) e fazendo mais de 300 reféns.

Liderada por Moreno (Christian Malheiros) e Barba (Robson Nunes), a quadrilha não tem um plano decente para a ação criminosa e nem sabe como escapar depois que a polícia chega ao local. Alguns integrantes mal sabiam segurar um revólver. 


Tinha tudo para dar errado, até que entra em cena Paulo (Murilo Benício, de "Divórcio", 2017), um jornalista recém-demitido que estava no local tentando receber sua rescisão e acaba virando refém. 

Ele assume o papel de mediador para evitar que a situação piore ainda mais e passa a orientar a quadrilha sobre como agir para que todos saiam vivos do local, com o dinheiro e sem ferir ninguém.

Do lado de fora, o caricato comandante Fonseca (Paulo Miklos, numa ótima atuação) fica responsável por conduzir as tensas negociações. É um cenário caótico, que vai do drama dos reféns ao completo despreparo da polícia e dos assaltantes, agora orientados por um repórter que enxerga na situação sua grande matéria jornalística.


O caso é tão surreal que, a todo momento, os meliantes afirmam aos reféns que não são bandidos, apenas cidadãos desesperados. Esse é um dos pontos cômicos da trama, muito bem explorado pelo diretor José Eduardo Belmonte ("Uma Família Feliz", 2024), que consegue transformar o clima e a relação entre todos que estão dentro e fora da agência.

Se, no assalto verdadeiro, uma multidão de mais de cinco mil pessoas se concentrou em frente ao banco, torceu pelos assaltantes e até aplaudiu quando eles saíram com os reféns, imagine essa história adaptada para o cinema com este elenco! Era como se os bandidos tivessem virado mocinhos e estivessem vingando o povo que sofria nas mãos do sistema bancário.


Adaptado do livro homônimo do jornalista Domingos Pellegrini, com roteiro de L.G. Bayão, "Assalto à Brasileira" é uma comédia policial baseada em fatos reais. A frase que aparece no início do filme resume bem a proposta: "Pense em um absurdo. Ele já aconteceu antes no Brasil".

Um dos maiores roubos a banco do país é transformado em quase uma comédia, com diálogos inacreditáveis, tanto dos bandidos quanto dos reféns. Tem até pedidos de desculpas, distribuição de dinheiro e flertes.

Murilo Benício é carismático e mantém o estilo de outras produções, dominando as cenas. Ele forma uma boa parceria nos diálogos com Christian Malheiros, cujo personagem tem tudo, menos cara de ladrão. 


Malheiros é conhecido também por seu papel em "Maníaco do Parque" (2024), disponível no Prime Vídeo. Já o humorista Robson Nunes trabalhou com o diretor José Eduardo Belmonte em "O Auto da Boa Mentira" (2021).

Outros integrantes da quadrilha também entregam ótimas cenas de humor, em especial Matheus Macena. Fazem parte ainda do grupo os atores Vertin Moura, Vinícius Marinho e Ariclenes Barroso. O elenco conta ainda com Fernanda de Freitas, Yohama Eshima, Laura Luz, Mila Ribeiro, Augusto Madeira, Débora Duboc, Luiz Thunderbird e Fernando Rubro, entre outros.

"Assalto à Brasileira" consegue reproduzir acontecimentos reais de um momento delicado do país, equilibrando ação, tensão e humor ácido, às vezes até inocente, com atuações imprevisíveis dos protagonistas. 


Para completar a história, nada como uma boa trilha sonora, composta por Diogo Poças e Leo Mendes, que inclui músicas de Rita Lee, Ira!, Titãs e até do lendário Odair José.

Premiações

O longa também recebeu três prêmios no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro de 2025: Melhor Ator, para Murilo Benício; Melhor Ator Coadjuvante, para Christian Malheiros; e Melhor Filme pelo Júri Popular. Também foi exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Festival de Cinema Brasileiro de Paris.

No fim das contas, "Assalto à Brasileira" confirma que, quando o assunto é a realidade do país, nenhum roteirista precisa exagerar muito para criar uma boa comédia. Não perca as cenas pós-créditos.


Ficha técnica:
Direção: José Eduardo Belmonte
Roteiro: LG Bayão e Domingos Pellegrini
Produção: Santa Rita Filmes, com coprodução +Galeria e Telefilms
Distribuição: Galeria Distribuidora
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h30
Classificação: 12 anos
País: Brasil
Gêneros: comédia, policial, ação

03 novembro 2026

"Três Horas Para Viver": Rodrigo Santoro sai no tapa com Jack Reacher em uma corrida eletrizante contra o tempo

Owen Wilson e Alan Ritchson formam uma dupla bem humorada tentando fugir de uma quadrilha enquanto transportam um órgão para transplante (Fotos: Diamond Films)  
 
 

Maristela Bretas

 
Um órgão para transplante. Uma jornada insana para salvar uma vida em apenas três horas e uma dupla disposta a tudo para chegar a tempo. Mesmo que, para isso, precise enfrentar uma quadrilha de mafiosos.

Esta é a história de "Três Horas Para Viver" ("Runner"), filme em cartaz nos cinemas que conta com um trio de protagonistas bastante versátil. A começar pelo brasileiro Rodrigo Santoro ("O Tradutor"- 2019 e "O Último Azul" - 2025), como um vilão que enfrenta o "parrudo" Alan Ritchson (da série "Reacher" - exibida desde 2022 no Prime Vídeo) e o engraçado Owen Wilson ("Uma Noite no Museu 3" - 2015 e "Zoolander 2" - 2016).


Os três protagonizam perseguições eletrizantes em alta velocidade, muita ação, tiroteios, pancadaria e até algumas cenas de emoção, numa corrida contra o tempo em que o que realmente importa é quem vai ficar com a carga.

Na trama, o ex-soldado e transportador de elite Hank Malone (Alan Ritchson) precisa levar Ben Bishop (Owen Wilson) a um hospital, junto com um fígado que será transplantado em uma menina de sete anos. O prazo máximo para que o órgão não seja perdido é de três horas.


O que parecia uma operação simples se complica quando entra em cena Damián Zaldívar (Santoro), líder de uma organização criminosa que, junto com sua quadrilha, está disposto a fazer qualquer coisa para colocar as mãos no órgão. Os três protagonistas, no entanto, têm motivos pessoais para querer completar sua missão.

Ritchson mantém o perfil de seu personagem na série, Jack Reacher (difícil não associá-lo ao agente fortão), mas também consegue entregar emoção. Além disso, forma uma dupla muito engraçada e carismática com o veterano Owen Wilson, conhecido por seus marcantes papéis cômicos.


Rodrigo Santoro recebeu um personagem bastante canastrão e exagerado, que só não deu errado graças ao talento do ator. Ele consegue mesclar violência e humor, até mesmo quando fala três idiomas em uma só frase (uma verdadeira sopa de letrinhas). O brasileiro mostra que sabe contornar as limitações de um roteiro e dar brilho ao personagem.

Dá para imaginar uma briga entre Ritchson e Santoro, no mano a mano (e com algumas facas)? Até parece injusto, mas o brasileiro dá uma boa surra no grandão. Ponto para a interpretação de Ritchson, que mostrou que até os brutos apanham!


Outro ponto positivo é a direção de Scott Waugh, que soube dosar ação e humor sem perder uma das principais características de seu trabalho: apostar na pancadaria, com cenas de luta bem coreografadas, mesmo que absurdas.

"Três Horas Para Viver" perde um pouco o ritmo quando entram as cenas mais emotivas e o excesso de clichês, mas nada que chegue a desagradar ao público. É aquele típico filme de Sessão da Tarde que vale a pena assistir.


Ficha técnica:
Direção: Scott Waugh
Roteiro: Miles Hubley e Tommy White
Produção: Broken Road Productions e Industry Entertainment
Distribuição: Diamond Films Brasil
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h38
Classificação: 16 anos
Países: EUA e Austrália
Gêneros: ação, suspense, comédia

02 novembro 2026

"Ana, En Passant" dialoga com diferentes gerações de mulheres negras

Animação ambientada em Belo Horizonte celebra a força e a representatividade do cinema nacional
(Fotos: Embaúba Filmes)
 
 

Marcos Tadeu
Parceiro do blog Jornalista de Cinema

 
Depois de abrir a Mostra Competitiva do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e passar por diversos festivais internacionais, “Ana, En Passant”, de Fernanda Salgado, chega no dia 5 de novembro ao circuito comercial. A animação conquistou o Prêmio Zózimo Bulbul de Melhor Longa-Metragem, concedido por um júri indicado pela Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN) e pelo Centro Afrocarioca de Cinema. 

O reconhecimento destaca obras que ampliam as possibilidades de representação e autoria negra no cinema e ganha ainda mais relevância por se tratar de uma animação dirigida por uma mulher. 

Após a morte da avó, Ana (dublada por Jéssica Pierina), uma jovem negra franco-brasileira, se vê perdida entre o luto e a sensação de não pertencer completamente a lugar nenhum. Em busca das próprias raízes, segue pistas deixadas pela avó (voz de Zezé Motta) e viaja a Belo Horizonte, cidade ligada à sua história familiar.   


Lá, encontra Alice (também dublada por Jéssica Pierina), que mora no antigo apartamento da avó. A partir desse encontro, mergulha em afetos e conexões ancestrais que a levam a repensar suas origens e o lugar que ocupa no mundo.

A protagonista é construída a partir desse deslocamento. Com descendências francesa e brasileira, Ana carrega diferentes referências culturais, mas nenhuma delas parece responder completamente onde é seu lugar. 

A morte da avó intensifica essa sensação ao representar também a perda de uma das principais ligações com sua origem. A viagem, portanto, não é apenas uma busca pelas raízes, mas uma tentativa de compreender a própria formação.


Alice estabelece uma relação diferente com esse mesmo espaço. Ela ocupa um lugar carregado de histórias e cria uma ligação inesperada entre passado e presente. A casa deixa de ser apenas um endereço para se tornar um ponto de encontro entre diferentes trajetórias.

O carteiro André, dublado por Carlos Francisco, ator mineiro conhecido por trabalhos como “Marte Um” (2022) e “O Agente Secreto” (2025), amplia essa rede de relações. Ele funciona como mediador entre pessoas e tempos distintos, além de possuir uma ligação própria com a avó de Ana. Sua função vai além da entrega das cartas: também carrega experiências que o conectam àquela comunidade.


Fellipe, amigo de Alice, apresenta outra dimensão dessas relações. Seu percurso está ligado à maneira como formamos vínculos no presente. Ele erra, reconhece seus erros e demonstra disposição para reparar suas atitudes. 

É um personagem interessante justamente por mostrar que também construímos quem somos a partir da forma como tratamos e somos tratados pelos outros. Por isso, sua presença poderia ganhar mais espaço. A relação com Alice e a aproximação com a protagonista poderiam acrescentar novas camadas à narrativa. 

O mesmo acontece com outros personagens secundários, que possuem características próprias, mas acabam funcionando apenas como apoio à trajetória central. Não chega a comprometer a experiência, mas deixa a sensação de que algumas relações poderiam ter sido aprofundadas.


Um dos destaques está na construção visual. Cartas, envelopes, papéis, carimbos e escritas não são apenas elementos de cena. Esses objetos fazem parte da própria linguagem da obra. 

Em vez da velocidade das mensagens instantâneas, a produção recupera o tempo entre escrever e receber, criando uma atmosfera de espera, expectativa e imaginação. A carta carrega não apenas palavras, mas também as marcas de quem a escreveu.

Essa escolha transforma a correspondência em um elo entre ausências e aproximações. As cartas permitem que a protagonista estabeleça contato com uma história que não viveu diretamente, enquanto a materialidade do papel reforça a tentativa de preservar aquilo que poderia desaparecer com o tempo.


A direção encontra na animação uma maneira de representar sentimentos que dificilmente seriam traduzidos apenas pelo realismo. Desenho, dança, papelaria e diferentes técnicas visuais se combinam para criar uma estética autoral, em que a linguagem não apenas ilustra a história, mas participa da forma como os personagens percebem o mundo.

É raro encontrar uma animação tão disposta a experimentar. A obra se distancia dos modelos mais convencionais associados às grandes produções e coloca uma nova perspectiva no centro de uma história sobre família, origem e descoberta pessoal.

Essa escolha ganha força porque a experiência negra não aparece de maneira única ou limitada. Os personagens estabelecem relações diferentes com os lugares que ocupam, com as pessoas que encontram e com as histórias que carregam. 


São caminhos distintos para discutir como cada indivíduo constrói sua própria maneira de existir e de se relacionar com o mundo. Talvez o principal ponto a desenvolver esteja justamente na quantidade de possibilidades abertas por essas relações. Algumas poderiam render conflitos e descobertas maiores, mas são resolvidas rapidamente. 

É uma limitação que não compromete o conjunto, embora deixe a sensação de que determinados personagens poderiam permanecer mais tempo em cena. Ainda assim, o longa encontra beleza justamente no que é íntimo. 

Ao transformar cartas, afetos e encontros em imagens, Fernanda Salgado constrói uma animação sobre compreender o passado sem ficar presa a ele. 


Ao partir em busca de suas origens, Ana encontra diferentes formas de olhar para si mesma e entende que pertencer não é necessariamente encontrar um único lugar para chamar de seu, mas reconhecer as relações e experiências que ajudam a formar quem somos.  

Em um cinema de animação muitas vezes associado a grandes estúdios e fórmulas conhecidas, “Ana, En Passant” reafirma a força de uma obra autoral, particular e disposta a experimentar. 

É justamente essa intimidade, capaz de falar sobre identidade e pertencimento a partir de uma história tão própria, que pode fazer a animação atravessar fronteiras e encontrar novos públicos pelo mundo.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Fernanda Salgado
Produção: Apiário Estudio Criativo, coprodução Sardinha em Lata e Midralgar
Distribuição: Embaúba Filmes
Exibição: Cine Belas Artes
Duração: 1h30
Classificação: 12 anos
Países: Brasil, Portugal, França
Gêneros: animação, drama

31 outubro 2026

"Cartório das Almas", filme-cabeça que não entrega o que propõe sobre eternidade e finitude

Produção tem narrativa com ritmo lento e contemplativo, com valorização da atmosfera e da fotografia
(Fotos: Pandora Filmes)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
"Um filme-cabeça é uma produção que exige um envolvimento intelectual profundo do espectador. Em vez de focar apenas em entretenimento ou ação direta, aposta em narrativas complexas, metáforas, simbolismos e em grandes questões filosóficas, existenciais, psicológicas ou científicas. 

A narrativa é sempre abstrata e não linear, e usa quebra-cabeças temporais, sonhos, alucinações ou finais abertos que dependem da interpretação de quem assiste. 


Tem foco em conceitos profundos e explora temas como a natureza da realidade, a identidade humana, a moralidade, o tempo e a solidão. O ritmo é lento e contemplativo, com valorização da atmosfera, da fotografia, dos silêncios e diálogos densos, dando tempo para o espectador absorver as ideias propostas".

A definição, colhida de uma plataforma de Inteligência Artificial, é talvez a que mais se aproxima de "Cartório das Almas", longa brasileiro que ainda não tem data prevista para entrar nos cinemas mineiros.


Dirigido por Leo Bello ("O Espaço Infinito" - 2003), que também assina o roteiro, o filme leva o espectador a um tempo distópico em que as pessoas são praticamente condenadas a viver eternamente. E as que desejam morrer precisam registrar essa opção devidamente justificada em um determinado cartório apropriado. 

A história gira em torno de Laura (Gabriela Correa) que, com 126 anos, começa a trabalhar exatamente no departamento que atende os que querem morrer. 

Filmado em preto e branco e tendo os descampados do cerrado brasiliense como cenários, não há como negar que "Cartório das Almas" gera certa curiosidade e instiga. 


No entanto, a forma lenta e repetitiva como é contada a história dos que desejam a liberdade da morte, acaba por cansar o espectador. Também não fica claro por que a própria Laura, responsável por ajudar tantos a morrer, não pode optar pelo fim da vida.

Há sim reflexões bonitas que são propostas ao longo do filme - como aliás costumam ser as ponderações sobre a finitude - mas elas não chegam a instigar quem está assistindo. 

A fotografia de Pedro Maffei e a direção de arte de Maíra Carvalho aparecem quase que como personagens, criando o clima perfeito para a ideia, mas não conseguem salvar o longa. 


Necessária nestes tempos em que setores da ciência falam até na possibilidade de interrupção do envelhecimento, a discussão corre o risco de se tornar rasa quando a proposta se mistura com transmutações, gaiolas, ninhos e pássaros. Haja metáforas.

O elenco, perfeito no que propõe o roteiro em termos de longos silêncios e atuações contidas, conta ainda com Wellington Abreu, Chico Sant'Anna, Roustang Carrilho, Maria Carolina Machado e Gabrielle Lopes. A trilha sonora, por sua vez, é tão discreta que quase nem aparece. 

A conclusão, ao final desse filme-cabeça, é de que perdeu-se em elucubrações um tema que poderia ser mais profundamente contemplado.


Ficha técnica:
Direção e roteiro:
Léo Bello
Produção: Machado Filmes e Lumiô Filmes
Distribuição: Pandora Filmes
Duração: 1h17
Classificação: 10 anos
País: Brasil
Gêneros: fantasia, ficção

29 outubro 2026

“O Bosque Selvagem”: uma animação mágica que encanta, assusta e emociona

Stop-motion levou cinco anos para ser criado e pode ser um dos favoritos na disputa por um Oscar em 2027 (Fotos: Laika Studios)
 
 

Maristela Bretas

 
Prepare-se para uma produção fora do convencional, inteiramente em stop-motion, que impressiona pelo cuidado com cada detalhe e merece figurar entre as melhores animações dos últimos anos. Não por acaso, o filme alcançou 100% de aprovação no Rotten Tomatoes. 

Estou falando de “O Bosque Selvagem” ("Wildwood"), o projeto mais ambicioso da Laika Studios que estreia nesta quinta-feira nos cinemas, com distribuição da Imagem Filmes.

A animação surpreende pela criação minuciosa dos personagens, montados e fotografados quadro a quadro, e pelas cenas que encantam o espectador, mas também provocam medo e desconforto pela violência. 

Apesar de muito colorido e de apresentar um roteiro impecável, especialmente para o público adulto, o longa tem uma atmosfera sombria, com cenas envolvendo suicídio, imagens sangrentas e guerra, além de linguagem imprópria. Por isso, é indicado para maiores de 14 anos.


Mas “O Bosque Selvagem” vai muito além da aventura fantástica. É uma história sobre perdas: de um filho, de um irmão, das terras, da dignidade e até do respeito ao coletivo. A trama também encontra espaço para criticar a morosidade da burocracia, que tantas vezes atrasa a vida dos cidadãos sem oferecer soluções para seus problemas. 

A abordagem ganha profundidade ao explorar o luto, o amor materno e os laços familiares, além da luta para proteger a terra deixada pelos ancestrais.

Na cidade de Portland, no estado de Oregon (EUA), os moradores não se arriscam a entrar no misterioso Bosque Impassável, escondido além da ponte que liga a cidade à floresta. Durante um passeio de bicicleta com o irmãozinho Mac, a adolescente Prue McKeel (voz original de Peyton Elizabeth Lee e dublagem brasileira de Giulia Benite) vê o bebê ser levado por uma revoada de corvos comandados por uma feiticeira.


Desesperada para resgatar o irmão, Prue precisa enfrentar um lugar sobre o qual conhece apenas dos avisos do pai, que sempre a proibiu de se aproximar dali. 

Nessa jornada, ela conta com a companhia do amigo Curtis Mehlberg (voz original de Jacob Tremblay e dublagem brasileira de Pedro Burgarelli), um garoto tímido que gosta dela e sonha em se tornar um guerreiro para proteger a si mesmo e a pessoa amada.

Na mata sombria, os dois descobrem um mundo mágico, habitado por animais falantes, bandidos e figuras poderosas e cruéis. Seus habitantes vivem amedrontados, especialmente diante do exército de lobos comandado pela feiticeira Alexandra (Carey Mulligan), conhecida como a “Viúva do Governador”. Consumida pela vingança, ela também carrega a dor de ter perdido o filho.


Prue e Curtis enfrentam inúmeras aventuras e precisam conquistar a confiança dos habitantes da floresta, além de contar com a ajuda de seus anciãos e com os poderes da própria mata. 

A história reúne ainda um elenco de vozes de peso, com nomes como Mahershala Ali, Awkwafina, Angela Bassett, Jake Johnson e Charlie Day, entre outros.

Os números do stop-motion 

Segundo a produtora, o longa levou cinco anos para ser criado, em razão do delicado trabalho artesanal, realizado sem a utilização de inteligência artificial. 

Embora tenha recorrido à computação gráfica (CGI) para o acabamento visual, a animação foi construída a partir da técnica stop-motion, com personagens e cenários físicos fotografados quadro a quadro. 


Os números impressionam: foram mais de 1.155 dias de trabalho, do início à conclusão da produção, que chegou à versão final com 2.804 planos. As gravações aconteceram em 132 cenários práticos, construídos em 117 locações distintas. 

Cada personagem principal recebe um rosto único para cada quadro de animação, o equivalente a 24 rostos por segundo de filme, e cada um deles é preservado no acervo da Laika como uma obra de arte individual.

Os 142.030 rostos substituíveis criados para a animação eram trocados constantemente para transmitir as emoções dos 233 bonecos com o máximo de expressividade e naturalidade.

Para entender a escala de "O Bosque Selvagem":
  • Recorde no stop-motion: uma única cena exigiu 1.124 rostos substituíveis, 555 para Prue e 569 para Curtis. Segundo a Laika, é o maior número já usado em um único plano na história da técnica;
  • Lágrimas: 67 planos mostram lágrimas visíveis, mais de dez vezes o recorde anterior do estúdio, que pertencia a Os Boxtrolls, com apenas seis;

Galeria da preparação do filme

O Bosque Selvagem
  • Do minúsculo ao gigante: o menor boneco, a Mini Septima, tem apenas 4,1 cm de altura. O maior, a General, mede 86 cm do bico à cauda e tem 1,63 m de envergadura, a altura de um adulto;
  • Pena por pena: cada boneco da General carrega 3.794 penas colocadas individualmente;
  • Uma floresta feita à mão: 728 árvores artesanais representam dez espécies do noroeste do Pacífico. A armação mais alta chega a 5,72 m, quase a altura de um sobrado;
  • Do tamanho de dois campos de futebol: as filmagens ocuparam 112 palcos, em uma área de mais de 14.400 m²;
  • De São Paulo a Brasília em arame: a produção usou cerca de 1.151 km de arame de latão, mais que a distância rodoviária entre as duas cidades. Todo o material foi reciclado ao fim das filmagens.

“O Bosque Selvagem” é baseado no livro homônimo escrito por Colin Meloy (vocalista da banda The Decemberists), com ilustrações de sua companheira, Carson Ellis. A obra se tornou um best-seller do The New York Times em 2014. Foi nessa época que o diretor do filme conheceu o casal e se encantou com a história.

A adaptação para o cinema só começou a ganhar forma em 2021, com a participação de Chris Butler no roteiro. Ele também dirigiu “Link Perdido”, produção da Laika Studios vencedora do Globo de Ouro de 2019, disponível no Disney+.


O estúdio é responsável ainda por excelentes animações como “Coraline e o Mundo Secreto” (2009) e “Kubo e as Cordas Mágicas” (2016), esta última também dirigida por Travis Knight. Ambos estão disponíveis nas plataformas Amazon Prime Video, YouTube, Apple TV e Google Play Filmes.

Entre os animadores do stop-motion está o mineiro Thiago Calçado, de Uberaba, que já havia trabalhado com Travis Knight em “Kubo e as Cordas Mágicas” e também foi animador sênior de "Pinóquio", de Guillermo del Toro (2022), vencedor do Oscar de Melhor Animação, e Marcelo Amp, especialista em moldagem e fundição de silicone.

Saiba Mais

Uma obra para sentir

“O Bosque Selvagem” é lindo, mágico e arrebatador. Encanta e choca, provoca espanto e arranca lágrimas. É uma obra em que todos os envolvidos na criação conseguiram transformar bonecos, cenários e movimentos minuciosamente planejados em sentimentos humanos verdadeiros, tratados com força e sensibilidade.

Saí da sessão encantada com a beleza e a criatividade da animação, mas também profundamente tocada pelas dores, pelos afetos e pelas perdas que ela retrata. É impressionante como uma história fantástica, construída quadro a quadro, consegue falar de sentimentos tão reais e universais.

Uma das melhores produções do ano e uma das melhores que assisti nos últimos tempos. O filme foge dos padrões, emociona sem subestimar o espectador e permanece na memória depois que as luzes da sala se acendem. Merece, sem dúvida, disputar — e ganhar — o Oscar de Melhor Animação em 2027.


Ficha técnica:
Direção: Travis Knight
Roteiro: Chris Butler
Produção: Estúdios Laika
Distribuição: Imagem Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h12
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: animação, drama, aventura
Nota: 5 (0 a 5)

28 outubro 2026

“Naza" espanta o público com o ódio e a tecnologia usados para mortes em massa em Gaza

Longa é um retrato dos sistemas de extermínio utilizados por Israel nos ataques a palestinos e israelenses (Fotos: Vitrine Filmes)
 
 

Eduardo Jr.

 
Na abertura, a mensagem de que rostos e vozes foram alterados para a segurança das fontes ouvidas. É com clima de tensão que o documentário “Naza” se apresenta ao público e pode ser conferido no Cine Belas Artes. 

A aura de produção de risco tem razão de ser: filmado secretamente, durante a noite, nos telhados de Tel Aviv, o trabalho esmiúça os sistemas e tecnologias utilizados por Israel para realizar ataques em massa em Gaza.  

Vencedor do Prêmio Especial do Júri e aplaudido por 24 minutos pelo público no 83º Festival de Veneza, o documentário é uma produção do jornal britânico The Guardian e de James Wilson, com direção dos jornalistas Yuval Abraham e Rachel Szor. 

A dupla é responsável por “Zona de Interesse”, filme vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional de 2024. Aqui no Brasil, a distribuição de "Naza" fica a cargo da Vitrine Filmes.  

Yuval Abraham e Rachel Szor

O documentário aborda a ocupação de Gaza e Cisjordânia por Israel e o massacre promovido pelo Hamas em 2023. É quando a Inteligência Artificial assume o papel de identificar alvos. 

A partir dos depoimentos de 24 ex-integrantes do Serviço de Inteligência Israelense, o longa expõe como uma estrutura de vigilância transforma dados pessoais e celulares em instrumentos de guerra, borrando a fronteira moral do que é um combatente e o que é um civil, destruindo casas ocupadas por crianças e esfacelando a possibilidade de ajuda humanitária. 


O nome “Naza” designa os danos colaterais, o número de civis que morrerão em um ataque. Em vez de contabilizar vidas e pessoas, contabilizam-se números, transformando mortes em estatísticas. Essa lógica, somada ao uso da tecnologia e aos rostos ocultos dos entrevistados, acaba por contribuir para tornar impessoal o ato de matar. 

Como se a responsabilidade pela destruição de famílias inteiras pudesse ser dissolvida no argumento de que é um sistema, apenas um procedimento. 

Sem ver os rostos de quem relata ou de quem sofre as consequências, corre-se o risco de perder a dimensão humana desses assassinatos. Ainda assim, os depoimentos chocam. 


Espantam justamente por revelar como a morte de inocentes pode ser tratada com frieza, mesmo quando as vítimas são pessoas que apenas convivem ou se relacionam com os alvos escolhidos. 

Na noite de Tel Aviv, as conversas nos telhados são emolduradas pelas vidraças dos prédios vizinhos, que parecem separar quem observa e quem é observado. Vidas e rotinas como a de qualquer pessoas que, em segundos podem não estar mais ali. O espectador chega a pressentir um ataque ao ouvir o soar de uma sirene de bombardeio aéreo.  

O documentário acerta na tentativa de colocar o espectador mais próximo daquele drama. Principalmente quando as imagens saem do alto dos prédios e cedem lugar a cenas reais de sobreviventes procurando familiares sob os escombros, entre gritos e corpos soterrados, inertes, estampados na tela sem refresco para quem assiste. 


Afinal, o choque talvez possa resgatar a humanidade que estamos perdendo dia após dia. Aí está a dimensão humana de decisões tomadas por militares mergulhados em ódio e algoritmos. Mais do que denunciar o emprego da tecnologia na guerra, “Naza” questiona a ética de um sistema no qual a eficiência operacional está acima da vida. Provoca ao colocar a morte de civis como dano calculável. 

Talvez o efeito mais perturbador da obra esteja em mostrar que a atrocidade não depende apenas do ódio explícito, mas também de procedimentos transformados em atos burocráticos, códigos, telas que tornam a violência aparentemente impessoal. 

Diante de uma destruição que persiste, o filme convoca o público para, em 80 minutos, reconhecer as vítimas para além das estatísticas. A questionar a normalização de crimes de guerra e de crimes contra a humanidade. 


Ficha técnica:
Direção: Yuval Abraham e Rachel Szor
Produção: Jornal The Guardian, JW Films (Jim Wilson) e mk2 Films
Distribuição: Vitrine Filmes
Idiomas: hebraico e inglês
Exibição: Cine Belas Artes
Duração: 1h20
Classificação: 14 anos
Países: Reino Unido, Estados Unidos
Gênero: documentário

22 outubro 2026

"Mestre Zu", tributo que vira aula de jornalismo, humanidade e Brasil

Documentário é uma homenagem a Zuenir Ventura, grande jornalista e imortal da Academia Brasileira
de Letras (Fotos: Divulgação)
 
 

Mirtes Helena Scalioni

 
Mesmo as pessoas que não leram os livros de Zuenir Ventura vão apreciar com gosto o documentário "Mestre Zu", direção de Zelito Viana e Luciana Savaget, em cartaz nos cinemas a partir de 5 de novembro. 

Autor de "Mal Secreto: Inveja", "Chico Mendes: Crime e Castigo", "Cidade Partida" e do best-seller "1968 - O Ano Que Não Terminou", o jornalista, que trabalhou em todos os grandes veículos de comunicação do Brasil, é mais do que um repórter de boa escrita. 

Membro da Academia Brasileira de Letras desde 2015, Zuenir é o grande pensador do Brasil, talvez o maior escritor das questões urbanas, sociais e políticas do País.


Como fica claro no filme, o mineiro Zuenir Carlos Ventura, nascido em Além Paraíba em 1931, é das raras pessoas que alcançam a unanimidade. De jornalistas a publicitários, de cineastas a alunos, de acadêmicos a artistas, todos concordam com a capacidade do mestre de ser rigoroso, exigente e, ao mesmo tempo, leve, generoso e engraçado. E, segundo muitos, irônico e sarcástico.

O documentário, que, além dos colegas, conta com a participação dos filhos Mauro e Elisa Ventura, começa com um encontro descontraído de amigos que, em volta da mesa, se perguntam: sobre qual Zuenir vamos falar neste filme? Qual deles será focalizado? 


E, pelo andamento da produção, fica evidente que, senão todos, muitos e variados "zuenirs" foram lembrados e reverenciados. Fica claro também, pela emoção de alguns dos entrevistados, que é praticamente impossível falar dele sem prestar-lhe uma homenagem. 

Miriam Leitão, Nelson Motta, Arthur Dapieve, Gerson Camarotti, Ana Maria Machado, Xexéu, Ancelmo Goes, Joaquim Ferreira dos Santos, Regina Zappa, Lula Vieira e Heloisa Teixeira são alguns dos profissionais que contam saborosas e reveladoras histórias vividas com Zuenir. 

O jornalista carregava com certo humor o estranho nome que lhe foi dado pelos pais, que lhe rendeu confusões hilárias ao longo da sua vida. Frequentemente era confundido com um nome de mulher.


Quando saiu de Minas para Nova Friburgo (RJ) onde passou parte da adolescência, ele trabalhou como ajudante do pai, pintor de paredes, faxineiro de boteco, boy de banco e caixeiro de camisaria. Mais tarde, já no Rio, virou estudante de Línguas Neolatinas enquanto morava na casa de uma tia em Vila Isabel, onde dividia um quarto de duas camas com dois primos. 

Zuenir conta também que sua vida foi marcada sempre por grandes coincidências, desde o encontro com Mary Akierstein na cantina da escola, com quem se casou e viveu a vida toda, até a forma como passou de arquivista a repórter do jornal Tribuna da Imprensa, comandado por Carlos Lacerda, antes de ser enviado especial a Paris para acompanhar João Goulart em seu exílio após o golpe de 1964.


Mas não só de coincidências e histórias saborosas foi a vida de Zuenir. Preso durante a ditadura militar, ele amargou cadeia por três meses, deixando em pânico a família e os amigos. Mas, para não perder o otimismo, dizia que, em vez de castigado, saiu premiado da prisão, pois teve como companheiro de cela ninguém menos do que o psicanalista Hélio Pellegrino.

Como não trata apenas do profissional, mas também do amigo, colega e professor de muitos, "Mestre Zu" é um documentário emocionante e inteligente. A forma como escreveu suas premiadas reportagens que se tornaram livros, e a ideia de trazer do Acre para sua casa no Rio de Janeiro um menino de 9 anos ameaçado de morte, dão a medida do homem Zuenir. Até os 13 anos, Genésio viveu sob a tutela do jornalista.


Engrandecem e humanizam também o filme a confissão do biografado de que, por duas vezes, sofreu um dilema ético ao noticiar a morte de dois amigos - Pedro Nava e Leon Hirshman. 

Outras pérolas que valem o documentário são o relato dos quatro dias que passou num sítio com Fernando Veríssimo para a produção do livro "Conversa Sobre o Tempo", de Arthur Dapieve, e sobre a carta histórica que recebeu - e publicou - do cineasta Glauber Rocha elogiando a ditadura de Geisel e Golbery do Couto e Silva. 

Enfim, "Mestre Zu" é, sob todos os aspectos, imperdível e necessário para se compreender o Brasil.


Ficha técnica:
Direção: Zelito Viana
Codireção: Luciana Savaget
Produção: Mapa Filmes do Brasil com coprodução da GloboNews, Riofilme e Niterói Audiovisual
Distribuição: Bretz Filmes e Mapa Filmes do Brasil
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h10
Classificação: livre
País: Brasil
Gênero: documentário