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29 outubro 2026

“O Bosque Selvagem”: uma animação mágica que encanta, assusta e emociona

Stop-motion levou cinco anos para ser criado e pode ser um dos favoritos na disputa por um Oscar em 2027 (Fotos: Laika Studios)
 
 

Maristela Bretas

 
Prepare-se para uma produção fora do convencional, inteiramente em stop-motion, que impressiona pelo cuidado com cada detalhe e merece figurar entre as melhores animações dos últimos anos. Não por acaso, o filme alcançou 100% de aprovação no Rotten Tomatoes. 

Estou falando de “O Bosque Selvagem” ("Wildwood"), o projeto mais ambicioso da Laika Studios que estreia nesta quinta-feira nos cinemas, com distribuição da Imagem Filmes.

A animação surpreende pela criação minuciosa dos personagens, montados e fotografados quadro a quadro, e pelas cenas que encantam o espectador, mas também provocam medo e desconforto pela violência. 

Apesar de muito colorido e de apresentar um roteiro impecável, especialmente para o público adulto, o longa tem uma atmosfera sombria, com cenas envolvendo suicídio, imagens sangrentas e guerra, além de linguagem imprópria. Por isso, é indicado para maiores de 14 anos.


Mas “O Bosque Selvagem” vai muito além da aventura fantástica. É uma história sobre perdas: de um filho, de um irmão, das terras, da dignidade e até do respeito ao coletivo. A trama também encontra espaço para criticar a morosidade da burocracia, que tantas vezes atrasa a vida dos cidadãos sem oferecer soluções para seus problemas. 

A abordagem ganha profundidade ao explorar o luto, o amor materno e os laços familiares, além da luta para proteger a terra deixada pelos ancestrais.

Na cidade de Portland, no estado de Oregon (EUA), os moradores não se arriscam a entrar no misterioso Bosque Impassável, escondido além da ponte que liga a cidade à floresta. Durante um passeio de bicicleta com o irmãozinho Mac, a adolescente Prue McKeel (voz original de Peyton Elizabeth Lee e dublagem brasileira de Giulia Benite) vê o bebê ser levado por uma revoada de corvos comandados por uma feiticeira.


Desesperada para resgatar o irmão, Prue precisa enfrentar um lugar sobre o qual conhece apenas dos avisos do pai, que sempre a proibiu de se aproximar dali. 

Nessa jornada, ela conta com a companhia do amigo Curtis Mehlberg (voz original de Jacob Tremblay e dublagem brasileira de Pedro Burgarelli), um garoto tímido que gosta dela e sonha em se tornar um guerreiro para proteger a si mesmo e a pessoa amada.

Na mata sombria, os dois descobrem um mundo mágico, habitado por animais falantes, bandidos e figuras poderosas e cruéis. Seus habitantes vivem amedrontados, especialmente diante do exército de lobos comandado pela feiticeira Alexandra (Carey Mulligan), conhecida como a “Viúva do Governador”. Consumida pela vingança, ela também carrega a dor de ter perdido o filho.


Prue e Curtis enfrentam inúmeras aventuras e precisam conquistar a confiança dos habitantes da floresta, além de contar com a ajuda de seus anciãos e com os poderes da própria mata. 

A história reúne ainda um elenco de vozes de peso, com nomes como Mahershala Ali, Awkwafina, Angela Bassett, Jake Johnson e Charlie Day, entre outros.

Os números do stop-motion 

Segundo a produtora, o longa levou cinco anos para ser criado, em razão do delicado trabalho artesanal, realizado sem a utilização de inteligência artificial. 

Embora tenha recorrido à computação gráfica (CGI) para o acabamento visual, a animação foi construída a partir da técnica stop-motion, com personagens e cenários físicos fotografados quadro a quadro. 


Os números impressionam: foram mais de 1.155 dias de trabalho, do início à conclusão da produção, que chegou à versão final com 2.804 planos. As gravações aconteceram em 132 cenários práticos, construídos em 117 locações distintas. 

Cada personagem principal recebe um rosto único para cada quadro de animação, o equivalente a 24 rostos por segundo de filme, e cada um deles é preservado no acervo da Laika como uma obra de arte individual.

Os 142.030 rostos substituíveis criados para a animação eram trocados constantemente para transmitir as emoções dos 233 bonecos com o máximo de expressividade e naturalidade.

Para entender a escala de "O Bosque Selvagem":
  • Recorde no stop-motion: uma única cena exigiu 1.124 rostos substituíveis, 555 para Prue e 569 para Curtis. Segundo a Laika, é o maior número já usado em um único plano na história da técnica;
  • Lágrimas: 67 planos mostram lágrimas visíveis, mais de dez vezes o recorde anterior do estúdio, que pertencia a Os Boxtrolls, com apenas seis;

Galeria da preparação do filme

O Bosque Selvagem
  • Do minúsculo ao gigante: o menor boneco, a Mini Septima, tem apenas 4,1 cm de altura. O maior, a General, mede 86 cm do bico à cauda e tem 1,63 m de envergadura, a altura de um adulto;
  • Pena por pena: cada boneco da General carrega 3.794 penas colocadas individualmente;
  • Uma floresta feita à mão: 728 árvores artesanais representam dez espécies do noroeste do Pacífico. A armação mais alta chega a 5,72 m, quase a altura de um sobrado;
  • Do tamanho de dois campos de futebol: as filmagens ocuparam 112 palcos, em uma área de mais de 14.400 m²;
  • De São Paulo a Brasília em arame: a produção usou cerca de 1.151 km de arame de latão, mais que a distância rodoviária entre as duas cidades. Todo o material foi reciclado ao fim das filmagens.

“O Bosque Selvagem” é baseado no livro homônimo escrito por Colin Meloy (vocalista da banda The Decemberists), com ilustrações de sua companheira, Carson Ellis. A obra se tornou um best-seller do The New York Times em 2014. Foi nessa época que o diretor do filme conheceu o casal e se encantou com a história.

A adaptação para o cinema só começou a ganhar forma em 2021, com a participação de Chris Butler no roteiro. Ele também dirigiu “Link Perdido”, produção da Laika Studios vencedora do Globo de Ouro de 2019, disponível no Disney+.


O estúdio é responsável ainda por excelentes animações como “Coraline e o Mundo Secreto” (2009) e “Kubo e as Cordas Mágicas” (2016), esta última também dirigida por Travis Knight. Ambos estão disponíveis nas plataformas Amazon Prime Video, YouTube, Apple TV e Google Play Filmes.

Entre os animadores do stop-motion está o mineiro Thiago Calçado, de Uberaba, que já havia trabalhado com Travis Knight em “Kubo e as Cordas Mágicas” e também foi animador sênior de "Pinóquio", de Guillermo del Toro (2022), vencedor do Oscar de Melhor Animação, e Marcelo Amp, especialista em moldagem e fundição de silicone.

Saiba Mais

Uma obra para sentir

“O Bosque Selvagem” é lindo, mágico e arrebatador. Encanta e choca, provoca espanto e arranca lágrimas. É uma obra em que todos os envolvidos na criação conseguiram transformar bonecos, cenários e movimentos minuciosamente planejados em sentimentos humanos verdadeiros, tratados com força e sensibilidade.

Saí da sessão encantada com a beleza e a criatividade da animação, mas também profundamente tocada pelas dores, pelos afetos e pelas perdas que ela retrata. É impressionante como uma história fantástica, construída quadro a quadro, consegue falar de sentimentos tão reais e universais.

Uma das melhores produções do ano e uma das melhores que assisti nos últimos tempos. O filme foge dos padrões, emociona sem subestimar o espectador e permanece na memória depois que as luzes da sala se acendem. Merece, sem dúvida, disputar — e ganhar — o Oscar de Melhor Animação em 2027.


Ficha técnica:
Direção: Travis Knight
Roteiro: Chris Butler
Produção: Estúdios Laika
Distribuição: Imagem Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 2h12
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: animação, drama, aventura
Nota: 5 (0 a 5)

05 maio 2025

"Screamboat - Terror à Bordo": uma canoa furada de muito sangue e violência e pouco riso

Willie, o rato assassino, é a versão repaginada para o terror de "O Vapor Willie", primeira animação do personagem Mickey com imagem e som sincronizados, lançada há 97 anos (Fotos: Imagem Filmes)
 
 

Maristela Bretas

 
Imagine a inocência dos primeiros desenhos animados do Mickey sendo brutalmente subvertida por uma onda de terror slasher. Essa é a premissa ousada e mal-sucedida de "Screamboat - Terror à Bordo", uma reimaginação sombria e sangrenta do clássico curta de animação "O Vapor Willie" ("Steamboat Willie"), que caiu em domínio público e deve estar fazendo o criador, Walt Disney, revirar no túmulo. Especialmente por ser primeira animação do personagem Mickey com imagem e som sincronizados, lançada há 97 anos.

O filme, feito para transgredir o original, do qual ele utiliza imagens até mesmo de Walt Disney, navega por águas turbulentas de violência gráfica, entregando uma experiência chocante, mas ruim. Daquelas produções que dá vontade de parar de assistir nos primeiros 10 minutos de projeção. 


E não porque muda a proposta da animação de 1928, mas por oferecer um protagonista que enjambrado, que parece um boneco de marionete dos Muppets. Só falta aparecerem as cordinhas. Uma figura mal feita, mesmo sendo o rato maligno interpretado por David Howard Thornton, conhecido por seu papel como Art, o Palhaço, da franquia “Terrifier”. 

A atuação de Thornton é boa e salva a produção em parte, mas o personagem é difícil de engolir. Ele não é aterrorizante, é somente muito feio. A maquiagem e as próteses usadas no ator não causam medo, apenas conseguem deixá-lo repulsivo. A produtora de "Screamboat - Terror a Bordo", a Fuzz on the Lens Productions, também é responsável por "Terrifier 2" (2022) e "Terrifier 3" (2024), além de outros longas do gênero. 


Na trama, vários passageiros e tripulantes da última balsa Staten Island da noite em Nova York são caçados pelo rato Willie, que transforma a travessia em um massacre sangrento, matando um a um dos ocupantes das formas mais bizarras e diferentes. Cercados pela água e pelo medo, eles precisam encontrar um jeito de sobreviver até que chegue o socorro. 

O diretor Steven LaMorte (sobrenome bem apropriado) tentou ousar, como seu colega Damien Leone, responsável pelos filmes de Art, o Palhaço, mas errou feio. A proposta de transformar Mickey, um ícone da infância, em uma criatura sinistra com sua inconfundível silhueta, perseguindo um grupo de jovens desprevenidos em um barco a vapor isolado, poderia ser muito melhor aproveitada. 

Mas a condução do roteiro não foi bem sucedida, nem mesmo quando cria familiaridade do cenário de horrores com as cenas infantis do original.


Um ponto que pode ser chamado de positivo é a trilha sonora. Ao remeter para as melodias alegres de "Steamboat Willie", ela ganha tons ameaçadores, reforçando a perversão da inocência. E só.

Os próprios personagens, ao se depararem com a ameaça, parecem conscientes daquela situação absurda. Tomam atitudes tão bobas que chegam a ser cômicas, ideais para uma produção do tipo terror/comédia, que tornam os acontecimentos previsíveis, tirando o suspense e fazendo o longa ficar ainda mais difícil de ver. Além de não provocar risos.

A narrativa, focada na perseguição e nos assassinatos, não aprofunda nos personagens e menos ainda na transformação do Mickey no malvado Willie. O filme parece mais interessado na violência absurda do que em construir um suspense psicológico. 


O roteiro é ruim do início ao fim, mesmo quando brinca com a nostalgia, transformando o inocente em algo brutal, provando que até mesmo ícones da infância podem se tornar um sangrento pesadelo. Uma produção totalmente esquecível e dispensável. É dinheiro de ingresso jogado fora. 

Para os apreciadores deste gênero que buscam uma experiência que promete chocar pela violência, "Screamboat: Terror a Bordo" entrega um banho de sangue pelas paredes Além de apresentar mais um personagem reformulado no final e deixar claro que haverá um segundo filme. Que sofrimento!


Ficha técnica:
Direção: Steven LaMorte
Produção: Fuzz on the Lens Productions
Distribuição: Imagem Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h42
Classificação: 18 anos
País: EUA
Gêneros: terror, comédia

03 novembro 2024

"Todo Tempo Que Temos": um drama sobre o amor e suas imperfeições

Florence Pugh e Andrew Garfield são os protagonistas do longa dirigido por John Crowley
(Fotos: Imagem Filmes)


Filipe Matheus
Texto  cedido pelo colaborador Blog Maravilhas de Cinema


Dirigido por John Crowley ("Brooklyn" - 2016), está em cartaz nos cinemas o tão esperado "Todo Tempo Que Temos" ("We Live In Time"), estrelado por Florence Pugh e Andrew Garfield. Embora tenha a ambição de se tornar um clássico do drama romântico, o filme falha ao não explorar a narrativa do casal protagonista de forma profunda.

O longa tenta contar uma história de amor, mas tropeça em situações previsíveis, decepcionando aqueles que buscam uma paixão envolvente. Almut (Pugh) e Tobias (Garfield) se encontram inesperadamente e de imediato, há uma conexão entre eles. 


Essa conexão os leva a um caminho desafiador, onde aprendem a valorizar momentos únicos em uma trama nada convencional sobre o amor. As diferenças entre os dois revelam que a imperfeição é parte essencial da construção de uma relação. Mesmo assim, é possível erguer um futuro juntos, superando erros e buscando a felicidade.

Apesar da originalidade, falta emoção à obra. Não se trata apenas de contar uma história, mas de mostrar como ela realmente existe na prática. A busca por realização, em alguns momentos, parece vaga, diminuindo a força de "Todo Tempo Que Temos" e impedindo-o de brilhar no gênero dramático.


A inclusão de flashbacks não enriquece a narrativa. Em certos momentos, a confusão com o tempo presente é evidente. É fundamental destacar a dramatização do filme. O espectador antecipa como a trama vai se desenrolar, tornando o enredo menos envolvente e frágil em algumas situações.

Apesar do roteiro pouco criativo e recheado de clichês de Nick Payne, o longa conta com as boas atuações e a química perfeita de Florence Pugh e Andrew Garfield. 

Eles dão sustentação suficiente para entregar o esperado, fazendo com que o público se importe com a construção da história, tanto nos bons quanto nos maus momentos enfrentados pelo casal.


Uma curiosidade sobre os protagonistas: ambos atuaram em produções da Marvel, com Pugh como Yelena Belova, em "Viúva Negra" (2021). Garfield foi o Homem-Aranha/Peter Parker nos dois filmes de "O Espetacular Homem-Aranha" (2012 e 2014) e em "Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa" (2021).

Apesar das falhas, "Todo Tempo que Temos" merece ser conferido nos cinemas. O filme oferece uma genuína história de amor, ressaltando a importância das dificuldades na construção de um relacionamento.


Ficha técnica:
Direção: John Crowley
Produção: Studio Canal e Film4
Distribuição: Imagem Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h44
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: drama, romance, comédia dramática

03 abril 2024

"Licença para Enlouquecer": nem uma pandemia atrapalha essa amizade

Trio descobre que é possível viver intensamente, adaptando a vida às novas regras (Fotos: Bruno Carvalho)


Filipe Matheus
Comentando Sucessos


Um filme interessante e perspicaz na abordagem de temas como a importância das mulheres, relacionamentos e a pandemia que parou o mundo a partir de março de 2020. Este é "Licença para Enlouquecer", longa que chega aos cinemas nesta quinta-feira (4), trazendo uma narrativa que soa com intensidade no espectador. 

O diretor Hsu Chien é conhecido por seus trabalhos em filmes como "Um Dia Cinco Estrelas" (2023), "Desapega!" (2023) e "Quem Vai Ficar com Mário" (2021).


Na trama, Sara (Mônica Carvalho), Lia (Danielle Winits) e Leia (Michelle Muniz) precisam se adaptar a um novo estilo de vida com a chegada da Covid-19, com reuniões por Zoom, encontros virtuais e distanciamento social da quarentena. 

Além das exigências do condomínio, o síndico Carlos (Nelson Freitas) tem uma relação conturbada com as meninas. Com o tempo, ele acaba se envolvendo nas loucuras do trio, embarcando para uma grande aventura na praia de Maragogi, em Alagoas.


Destaque para a interpretação de Michelle Muniz, cuja personagem evidencia a força da mulher e aborda a importância do amor próprio nos dias atuais, demonstrando que os rótulos impostos pela sociedade e os relacionamentos tóxicos não determinam o valor e a relevância da mulher em nossa sociedade.

Além das três protagonistas e Nelson Freitas, o elenco é formado por atores conhecidos de novelas e do cinema, como Luiza Tomé, André Mattos, Henri Castelli, Jennifer Setti, Thaíssa Carvalho, Brendha Haddad e Bruno Moreira.


Um ponto negativo é a viagem das amigas em tempos de pandemia, algo que não seria possível na realidade. Isso confunde o enredo do filme, que, apesar de destacar a história das amigas, carece de uma narrativa mais desenvolvida. Esta comédia brasileira poderia ganhar mais força e autenticidade ao abordar esses importantes temas de forma aprofundada.

No longa, a cultura local também é explorada, com destaque para a música, danças e a deslumbrante paisagem do litoral de Alagoas que desperta o desejo de conhecer e vivenciar essa experiência.


A dinâmica entre os personagens também funciona bem. Cada um possui sua própria história para contar, refletindo a realidade de muitas pessoas que buscam autoaceitação, realização profissional, relacionamentos sólidos com familiares e amigos. E, acima de tudo, entendem a importância de viver a vida com intensidade, pois ela é única.

Para quem quer uma produção divertida, "Licença para Enlouquecer" é imperdível ao mostrar a importância da amizade e como é possível adaptar a vida às novas regras e hábitos quando necessário.


Ficha técnica
Direção: Hsu Chien
Roteiro: Mônica Carvalho, Michele Muniz e Marcelo Corrêa
Produção: Yva Filmes
Distribuição: Pipa Pictures e codistribuição da Imagem Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h40
País: Brasil
Gêneros: comédia nacional

22 outubro 2023

"Uma Fada Veio Me Visitar" - uma comédia feita só para os fãs da Xuxa

Longa é um novo remake da obra homônima infanto-juvenil da escritora Thalita Rebouças (Fotos: Blad Meneghel)


Marcos Tadeu
Blog Narrativa Cinematográfica


Após quase 14 anos sem atuar no cinema, Xuxa Meneghel ressurge em "Uma Fada Veio Me Visitar", um remake da obra homônima de Thalita Rebouças, agora com nova roupagem, diferente da comédia "É Fada" (2016), que teve Kéfera Buchmann como protagonista. O longa é dirigido por Vivianne Jundi ("Detetives do Prédio Azul 2: O Mistério Italiano" - 2018), com o roteiro assinado pela escritora, em parceria com Patrícia Andrade. 

O filme é leve e divertido, mas apresenta erros que comprometem ao buscar unir dois públicos como uma forma de reconquistar audiência - os nostálgicos que acompanharam a carreira de Xuxa e os adolescentes da chamada geração Z. 


Na história, conhecemos Luna (Antônia Périssé, filha de Heloísa Périssé), uma adolescente rebelde, grossa e antissocial com as pessoas ao seu redor, que tem dificuldades de se socializar na escola. Um dia, ela recebe a visita da Fada Tatu (Xuxa Meneghel), "de castigo" por quatro décadas no reino das fadas por seus erros, que tem como missão ajudar a jovem a fazer boas amizades. 

O problema é que a fada tenta se aproximar de Luna usando uma linguagem que não dialoga com o público de hoje. Tatu está cheia de referências dos anos 1980 e 1990, que não fazem parte do cotidiano de uma adolescente de 2023. e vai precisar se adaptar às mudanças dos últimos 40 anos, como internet, celular e as próprias roupas.


Um exemplo disso é quando Xuxa aparece como She-Ra e fala de sua importância para Luna. A personagem não compreende a referência, e o filme deixa claro que muitas das figuras icônicas mostradas pela fada são mais uma maneira de homenagear a Rainha dos Baixinhos, não só no visual, mas também na trilha sonora do que uma história de fantasia para adolescentes.

O roteiro é preguiçoso e constantemente precisa de situações arranjadas para que Luna e Lara (Vitória Valentin), a aluna mais popular do colégio que sempre desdenhou da protagonista, se tornem melhores amigas. Mesmo sendo escrito por Thalita Rebouças, parece haver uma necessidade constante de adaptá-lo a Xuxa e ao seu estilo de trabalho.


Podemos comparar com o filme "Didi: O Cupido Trapalhão" (2003). Didi (Renato Aragão) tem a missão de unir casais e consegue se misturar bem na Terra. Já em "Uma Fada Veio Me Visitar" fica a impressão de que Xuxa está em uma frequência completamente diferente do restante do elenco. 

Se a Fada Tatu fosse interpretada por uma atriz mais jovem, como Larissa Manoela, Maísa ou Camila Queiroz, que são mais adequadas à realidade das redes sociais e da era da internet, talvez o público adolescente se sentisse mais representado.

Outro ponto que deixa a desejar é não haver um antagonista claro. Lara pode assumir esse papel em algum momento, mas quando o problema da inimizade é resolvido, não há mais o que fazer e o filme fica monótono e tedioso.


As fadas interpretadas por Zezeh Barbosa (Fadona), Dani Calabresa (Faducha) e Livia Inhudes (Fadagiária) são a parte divertida da produção. Trazem humor e mostram como Tatu desafia as leis das fadas. No entanto, essas personagens foram subutilizadas. Também o passado de Tatu e as regras do mundo da fantasia onde ela vivia são pouco explicadas.

O ponto positivo é a mensagem do filme, que aborda adolescentes em busca de amor e reconhecimento. Isso é explorado de maneira interessante, especialmente nas situações de bullying que Luna enfrenta na escola. No entanto, a influência da fada acaba deixando o tema principal em segundo plano.

"Uma Fada Veio Me Visitar" deixa dúvidas sobre o público ao qual se destina. Os adolescentes se sentirão representados na tela? Os conflitos mostrados no longa refletem a realidade dos adolescentes de hoje? Essa é uma reflexão que vale ser feita. Parece estar mais voltado para os fãs que curtiram Xuxa no passado do que para os novos adolescentes, mesmo sendo roteirizado por uma escritora cujas obras são voltadas para jovens. 


Ficha técnica:
Direção: Vivianne Jundi
Produção: Bronze Filmes e coprodução Paramount Pictures e Rubi Produtora
Distribuição: Imagem Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h42
Classificação: 10 anos
País: Brasil
Gênero: comédia

02 outubro 2023

Sylvester Stallone e Jason Statham não conseguem salvar "Os Mercenários 4"

Produção deixa muito a desejar e tem a pior bilheteria de estreia da franquia (Fotos: Lionsgate/Divulgação)


Maristela Bretas


O mais fraco dos quatro filmes. Depois de seu antecessor, era esperado que "Os Mercenários 4" ("Expend4bles") fosse um dos melhores da franquia ou, pelo menos, mantivesse uma bilheteria de estreia tão boa quanto os demais. Mas o que aconteceu foi exatamente o contrário. 

A produção, dirigida por Scott Waugh, tem tido uma arrecadação abaixo da média esperada, tanto nos EUA quanto no restante do mundo desde a sua estreia dia 21 de setembro. Na sessão que fui no dia da estreia em BH havia umas dez pessoas no cinema.


Não levando em conta a história (que nunca foi o destaque de todos os filmes),este quarto capítulo perdeu em tudo: cenas de ação, elenco e até na parte cômica. 

Apesar de ainda ser a estrela, Sylvester Stallone (Barney Ross) aparece pouco, deixando o brilho e quase todo o protagonismo para o parceiro Jason Statham (Christmas), que também é um dos produtores.

O mercenário Barney Ross está tão desmotivado para continuar o grupo quanto Stallone parece estar para continuar a franquia, fazendo a linha "vou me aposentar em breve". 

Já Statham está em ritmo acelerado, com várias produções blockbusters, apesar de muitas delas deixarem a desejar, como "Megatubarão 2", lançado este ano. Mesmo assim, são eles que carregam o filme.


Outro ponto que pesou contra o longa foi o elenco. Do grupo original, além dos dois, sobraram apenas Dolph Lundgren e Randy Couture. Saíram o divertido Terry Crews e o grande lutador, Jet Li. 

Seria difícil superar os elencos de grandes nomes de filmes de ação e luta que participaram de "Os Mercenários 2" (2012 ) e "Os Mercenários 3"  (2014). 


No filme 2 estavam Bruce Willis, Jean-Claude Van Damme e o lendário Chuck Norris. Já o terceiro episódio ganhou mais ícones, como Harrison Ford, Arnold Schwarzenegger, Mel Gibson, Antônio Banderas, Wesley Snipes e alguns lutadores de UFC, como Ronda Rousey. Uma coisa que não faltou em nenhum dos três filmes anteriores foi muito tiro, porrada e bomba.

Para "Os Mercenários 4" ressuscitaram Megan Fox ,que mantém as mesmas caras e bocas e interpretação fraca; trouxeram Andy Garcia para ser o chefe que determina as missões do grupo, lugar antes ocupado por Bruce Willis -  mais deslocado impossível. 


Para garantir a parte de luta com Statham, temos o ator e lutador tailandês Tony Jaa, de "Velozes e Furiosos 7" (2015) e o ator e coordenador de dublês Indonésio, Iko Uwais ("Star Wars - O Despertar da Força" - 2015). 

Já 50 Cent ("Nocaute" - 2015) foi pouco aproveitado, assim como Jacob Scipio ("Bad Boys - Para Sempre" - 2020), que interpreta o filho de Galgo (papel de Antonio Banderas no filme três), com os mesmos trejeitos, porém sem a mesmo charme e tiradas engraçadas.


Na história, os mercenários, com nova formação e ainda sob o comando de Barney Ross, são convocados para uma missão que pode ser fatal: desmascarar um perigoso vilão e impedir que ele inicie uma Terceira Guerra Mundial. 

Bem clichê, mas poderia ter funcionado se fosse melhor trabalhada. Mesmo aumentando a violência, o sangue jorrando e as lutas, os efeitos visuais e o roteiro não sustentam o longa. "Os Mercenários 4" decepciona e é quase esquecível, podendo se tornar o último da franquia, dependendo da arrecadação na bilheteria.


Ficha técnica:
Direção: Scott Waugh
Produção: Lionsgate, Millennium Films, California Filmes e Nu Image
Distribuição: Imagem Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h43
Classificação:18 anos
País: EUA
Gênero: ação

30 agosto 2023

Comédia de humor refinado, “O Porteiro” quer levar brasileiros de volta ao cinema

Produção nacional que não recorre à apelação, arranca risos do público (Fotos: Laura Campanella)


Eduardo Jr.


Marque em sua agenda: nesta quinta-feira, 31 de agosto, estreia nos cinemas a comédia nacional “O Porteiro”. Acompanhamos a live realizada com o elenco e a pré-estreia do longa em uma das salas da rede Cineart. Dirigido por Paulo Fontenelle (realizador de “Blitz, o filme”, 2019) e distribuído pela Imagem Filmes, a produção arranca risos do público sem dificuldades, por trazer atuações muito boas.

No filme, o porteiro Waldisney (personagem de Alexandre Lino) é mais um nordestino que migrou para o Rio de Janeiro com a família. Morando no “cafofo” dentro do prédio onde trabalha, ele não tem como evitar as situações (cômicas) que complicam sua vida. 


Ele é um homem simples, que não tem habilidade nem pra acalmar a estourada esposa Laurizete, vivida por Daniela Fontan (“A Sogra que te Pariu”, 2022, disponível na Netflix), que dirá capacidade para driblar os problemas. 

Waldisney inicia sua saga na delegacia, prestando depoimento ao delegado, personagem de Maurício Manfrini (“Os Farofeiros”, 2018), que tem na mão um personagem bem diferente dos papéis costumeiros. O que aconteceu e virou caso de polícia, descobrimos ao longo do filme.


Os flashbacks (que a gente esquece que são flashbacks) vão nos contando como as situações foram se amarrando até aquele ponto. E aí os moradores do edifício Clímax vão sendo apresentados. Destaques para a excelente Dona Alzira, vivida por Suely Franco ("Minha Mãe é uma Peça 2", 2016) e a surpreendente e engraçada presença do lutador José Aldo.   

Além destes nomes, a produção conta ainda com Cacau Protásio (“Juntos e Enrolados”, 2022), Aline Campos (“Um Dia Cinco Estrelas”, 2023), Bruno Ferrari (“O Buscador”, 2021), Rosane Gofman (“Confissões de uma Garota Excluída”, 2021) e Heitor Martinez (“Um Natal Cheio de Graça”, 2022). 


O elenco se reuniu em 2022 para as gravações. Se havia alguma insegurança com o período pós-pandemia, não se percebe isso na tela. A atriz Aline Campos revelou que o entrosamento foi tão grande que o diretor precisava pedir silêncio durante as filmagens, de tanto que a equipe se divertia. 

O desafio agora é trazer de volta aos cinemas um público que parece ter se habituado a assistir tudo em casa e não percebeu que o poder do controle remoto de pausar, voltar cenas, interrompe as emoções, faz perder o clima. Sem contar a perda da experiência coletiva nas salas de exibição. 


Outra intenção do filme é reforçar a necessidade de cordialidade para com os porteiros. Embora não seja um filme de militância, algumas pautas não têm como ser omitidas. 

O protagonista Alexandre Lino é natural de Pernambuco e sabe como é ser um migrante nordestino em um grande centro urbano, que muitas vezes apaga essas identidades. Seja pela grosseria de não dar um bom dia, seja sob a desculpa da piada (que geralmente é só manifestação de preconceito). 

Além disso, Lino nos disse que trazer às telas uma comédia nacional, sem o mesmo aparato de marketing de um filme como “Barbie”, por exemplo, é mais desafiador ainda. Principalmente neste momento em que se discute a cota de tela e a necessidade de mais salas exibindo produções brasileiras. 


A aposta de “O Porteiro” é na simplicidade. E o humor chega a ser refinado, já que não apela para o besteirol. A construção da simplicidade de Waldisney vem dos seis anos em que a peça é realizada nos palcos do país. E também é fruto de pesquisa. A equipe visitou portarias de diversos prédios em São Paulo e Rio de Janeiro para ouvir histórias dos profissionais e pedir permissão para retratar isso na telona. 


O resultado é um filme leve, que peca apenas por permitir que algumas cenas se alonguem e pela falta de mais músicas originais (Marília Mendonça nem sempre combina com as cenas). Mas diverte e retrata bem alguns aspectos da cultura brasileira e nordestina. 

"O Porteiro" já se equipara com produções da Marvel, porque tem até cenas pós-créditos. Então, depois que as letrinhas começarem a subir, se prepare pra rir mais um pouquinho. 


Ficha técnica:
Direção: Paulo Fontenelle
Produção: Rubi Produções
Distribuição: Imagem Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h23 minutos
Classificação: 14 anos
País: Brasil
Gênero: comédia

05 agosto 2023

"Gatos no Museu" é uma animação colorida com poucos recursos para crianças pequenas

Produção é baseada em fatos reais sobre os guardiões do Museu Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia
(Fotos: Imagem Filmes)


Maristela Bretas 


Poderia ser apenas uma animação sobre felinos, ratos, heróis e vilões, mas "Gatos no Museu", que estreia quinta-feira (10) nos cinemas, traz um enredo baseado em fatos reais e fica interessante por isso. 

Ele conta a história dos felinos que habitam o Museu Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia, para proteger as obras de arte dos ataques de ratos e pragas (Confira a história clicando neste link).

Museu Hermitage (Reprodução Wikimedia)

A produção russa dirigida, roteirizada e produzida por Vasiliy Rovenskiy, ela apresenta personagens com movimentos duros de pernas e bocas e quando andam parece que estão flutuando. Os olhos são grandes, mas falta encanto aos gatinhos e ao ratinho, mesmo eles tentando ser simpáticos.


Os recursos técnicos lembram os desenhos disponíveis para os pequenos no Youtube. Mas já é possível notar uma melhora no traço dos personagens, que são bem semelhantes aos da animação "Animais em Apuros" (2018), do mesmo diretor, em exibição no Prime Vídeo.

"Gatos no Museu" conta a aventura de um jovem gato chamado Vincent que, na companhia do improvável amigo rato Maurice, escapa de uma enchente e acaba sendo enviado para São Petersburgo. Lá os dois conhecem um esquadrão felino de elite que protege há séculos as obras de arte do famoso museu russo contra ratos e outras pragas.


Vincent tem dois problemas: precisa proteger o amigo do esquadrão gordo e sem agilidade de felinos e também evitar que Maurice destrua as pinturas do museu que está para receber a exposição do famoso quadro da Mona Lisa. 

Mas nenhum deles desconfia que a obra de arte corre o risco de ser roubada. Para piorar, há um fantasma que mora nas dependências do Hermitage e não gosta de intrusos.


Como distração, "Gatos no Museu" é uma produção infantil para assistir em família com os pequenos. É bem colorida e tem momentos divertidos, especialmente por causa de um certo fantasminha azul rabugento que tenta ser malvado, mas é bem trapalhão.

Vale também como curiosidade ao mostrar outras obras de arte importantes da história que estão no museu.


Ficha técnica
Direção: Vasiliy Rovenskiy
Distribuição: Imagem Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração 1h23
Classificação: Livre
País: Rússia
Gêneros: animação, aventura, família

26 julho 2023

“O Convento” não encanta, mas não entendia

Trama envolve mistério, assassinatos e sacrilégios cometidos no interior da moradia das freiras
(Fotos: IFC Midnight e Wmix Distribuidora)


Wallace Graciano


Sejamos sinceros, amigos: demônios e slashers já estão tão batidos em filmes de terror e horror que pouco nos dão a angústia e a aflição peculiar aos gêneros. E cada vez mais, diretores tentam buscar outros elementos para dar suspense à trama e deixar de lado os velhos clichês da sétima arte. 

Talvez esse seja um dos principais erros de "O Convento" ("Consecration"), de Christopher Smith. Consegue, e muito bem, recorrer à freira como uma figura de espanto e impacto, com uma ótima justificativa para tal. 


Porém, ao tentar fugir demais de seus antecessores, tira um pouco do tempero que faria o personagem maior do que a película, o que poderia ser um grande divisor de águas. 

O filme conta a história de Grace (Jena Malone), uma oftalmologista que tem uma vida social praticamente inexistente, devido à sua criação católica. 

E nesse contexto, sua vida entra em descalabro ao receber a informação de que seu irmão, que era um sacerdote na Escócia, se matou em um convento. 


Sem muito o que fazer, ela toma como rumo às terras britânicas, onde buscará entender o que levou ao suicídio do irmão. Porém, já ao chegar ao local, entende que algo estranho paira no ar, quando começa a ser colocada de frente às suas angústias de um passado recente. 

Nesse contexto, Christopher Smith tenta criar uma imersão ao fantasmagórico, deixando o suspense que gira em torno do passado de Grace e seu irmão como o fator preponderante para um desfecho que promete bater à porta. 

A essa altura, o ranger dos dentes começa a ser notado, já que o contato com o sobrenatural parece ser iminente, criando expectativa e ansiedade pelo desfecho que virá.


Porém, justamente ao explorar ao máximo uma estética imersiva, o diretor nos tira o que poderia ser um grande divisor de águas: o poder do fator sobrenatural do personagem central. Ou seja, fugiu entre os dedos aquilo que poderia ser um grande argumento para um filme marcante.

Mas nem tudo são lamentos. A atuação de Danny Huston ("O Jardineiro Fiel" - 2005 e "Mulher Maravilha" - 2017) é o ápice do filme. Com seu quê de vilão, domina o enredo e toma para si muito dos holofotes, apesar de coadjuvante. 

De toda sorte, "O Convento" é uma trama que tem uma boa ideia por trás, mas uma execução aquém do que nos impactaria para torná-lo marcante. É um filme que te diverte, mas facilmente você esquecerá, como vários dos lançados do gênero nos últimos anos. 


Ficha técnica:
Direção: Christopher Smith
Roteiro: Christopher Smith e Laurie Cook
Produção: Moonriver Entertainment
Distribuição: Imagem Filmes
Exibição: nos cinemas
Duração: 1h30
Classificação: 16 anos
Países: EUA, Reino Unido
Gêneros: terror, suspense
Nota: 3 (0 a 5)