28 dezembro 2016

"Neruda" é deliciosamente delirante e sem nenhum compromisso com o real

O filme é pura ficção ao narrar a perseguição ao poeta sob o ângulo de um policial que tem certa obsessão pelo escritor (Fotos: Fabula - AZ Films - Funny Balloons - Setembro Cine)


Mirtes Helena Scalioni


Ao comentar sobre a possibilidade de o filme "Neruda" representar o Chile no próximo Oscar, o pouco simpático jornalista Diogo Mainardi disse, no programa Manhattan Connection, da GloboNews: "Ninguém se interessa por ele, que não passa de um poeta de ginasianos". Não é verdade. Pablo Neruda encantou mais de uma geração e não fez isso apenas por ser de esquerda. 

Poeta inspirado, foi um homem excêntrico e único, sedutor e encantador, ganhador do Nobel  de Literatura de 1971. Enfim, um grande personagem. Tão grande que, além de alguns documentários, já mereceu pelo menos três filmes: "O carteiro e o poeta", "Neruda - fugitivo" e 'Neruda", esse último lançado recentemente.

Diferentemente dos anteriores, "Neruda" não se prende à verdade. E isso talvez cause algum estranhamento em quem vai ao cinema em busca da história do senador e poeta chileno perseguido pela polícia política do então presidente González Videla na década de 1940. Há verdades no filme, claro, mas o roteirista Guillermo Calderón e o jovem diretor Pablo Larrain optaram pelo devaneio, pela ficção. Se já não eram claros, nem mesmo nas biografias, os detalhes da verdadeira fuga do escritor pelos Andes, as dúvidas podem agora se multiplicar.

No filme do chileno Pablo Larrain, que em 2012 dirigiu também o excelente "No", sobre o plebiscito que mudou a história do Chile em 1988, Neruda aparece às vezes como um homem vaidoso, quase arrogante, desafiando irresponsavelmente seus opositores. Detalhe: o filme é narrado sob a perspectiva de um policial, Oscar Peluchonneau, vivido pelo sempre correto Gael Garcia Bernal. E reside aí a graça do filme, que esbarra no gênero policial. O inspetor nutre certa obsessão pelo poeta e assim, ambos vão compondo uma nova história como se fossem personagens de uma ficção. A esposa de Neruda, Delia, interpretada por Mercedes Morán, também entra nessa espécie de jogo.

Embora o ator Luis Gnecco, que faz o papel de Neruda, tenha uma intrigante semelhança com o poeta, em momento algum o espectador se sente assistindo a uma cinebiografia real. Os personagens mudam de cenário num piscar de olhos como a nos lembrar que estamos diante de uma fantasia. O melhor é entrar na brincadeira e deixar-se levar pelo delírio do diretor. O filme está em cartaz no Belas Artes (13h50, 15h50 e 19h30) e no Ponteio (14h15). Classificação: 12 anos


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26 dezembro 2016

Atriz disputa concurso milionário de música com cantores pop

"Sing" explora o mundo da música com grandes sucessos nas vozes originais como parte da trilha sonora (Fotos: Universal Pictures/Divulgação)

Maristela Bretas


Os animais definitivamente garantiram seu espaço na animação dos estúdios Illumination e agora tomam o lugar dos humanos até mesmo na música. Depois de "Pets", com seus cães, gatos, coelhos e passarinhos cheios de manias e neurados, a aposta da vez é o mundo do realitty show musical, do tipo "The Voice".


Com uma trilha sonora de fazer inveja, mais de 80 sucessos, nas vozes originais, de diversas épocas e estilos e uma boa dose de comicidade, sem apelação, "Sing - Quem Canta Seus Males Espanta" ("Sing") mostra que tudo é possível quando se tem criatividade. De um rato com voz de Frank Sinatra a uma tímida porquinha que quando solta a garganta faz corações tremerem.

Mas o interessante desta animação é que, como nos programas de TV, os personagens são pessoas desconhecidas, saídas de locais comuns e que vêm num concurso de talentos a grande chance de realizarem seu sonho - cantar para um público.

Apesar de dubladores famosos fazendo suas vozes, os personagens são animais comuns - porcos, gorila, coala, porco-espinho, elefante, com comportamento e emoções e totalmente humanos, vivendo situações diárias.

Enquanto nos EUA, as vozes são de atores famosos - Matthew McConaughey, Reese Witherspoon, Scarlett Johansson - que não são cantores, na versão brasileira a dublagem também foi bem conduzida por cantores que não são atores e dois conhecidos globais Mariana Ximenes e Marcelo Serrado (interpretando a dupla Rosita e Gunter). Wanessa Camargo é a porco-espinho Ash, Fiuk o gorila Johnny e Sandy e a elefantinha tímida Meena (com uma voz de fazer inveja).

Ameaçado de perder seu teatro por causa das dívidas, o coala empresário Buster Moon resolve dar sua última cartada e anuncia um grande concurso musical para novos talentos. Um "pequeno" erro atrai uma multidão para os testes, mas apenas um grupo será selecionado.

Moon, com sua experiência no show business terá de aproveitar ao máximo o potencial de seus participantes, unindo-os ou separando cada um em seu estilo e forçando-os a se descobrirem e apostarem na garganta. Ao mesmo tempo que "Sing" é uma competição pelo grande prêmio, aos poucos os concorrentes vão formando uma grande família, exceto o arrogante e trambiqueiro rato, que já se considera o vencedor.

Moon, com todo o seu otimismo e perseverança, terá de administrar as dificuldades e fraquezas de cada um para conseguir realizar um grande espetáculo. Do drama do gorila cantor Johnny, que pertence a uma família de assaltantes, a Meena que, apesar da voz melodiosa e encantadora, não consegue se apresentar em público. Ou Rosita, uma porca casada que quando solteira era cantora, mas agora tem sua vida reduzida a dezenas de filhotes e um marido que não lhe dá valor.

Todo esse sonho e dramas animais de "Sing" vêm acompanhados de grandes sucessos, um enredo agradável e fácil de ser acompanhado por crianças e adultos, bons momentos cômicos e personagens simpáticos com uma boa mensagem. Vale a pena conferir.



Ficha técnica:
Direção, roteiro e dublagem: Garth Jennings
Produção: Universal Pictures / Illumination Entertainment
Distribuição: Universal Pictures
Duração: 1h48
Gêneros: Animação / Comédia/ Família / Musical
País: EUA
Classificação: Livre
Nota:  3,5 (0 a 5)

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