30 agosto 2017

"O Acampamento" explora a brutalidade humana e o desejo de sobrevivência


O que parecia ser um acampamento tranquilo de fim de semana acaba se tornando um inferno para um jovem casal (Fotos: Cineart Filmes/Divulgação)
  

Maristela Bretas


Inspirado nos clássicos thrillers de sobrevivência dos anos 1970, o diretor e roteirista Damien Power apostou numa história com final aparentemente previsível para criar o suspense "O Acampamento" ("Killing Ground"), que estreia nesta quinta-feira nos cinemas. O início pode parecer monótono, explorando o visual da mata onde toda a trama se passa, com cenas quase paradas, num cenário de pouca vida e um silêncio que chega a incomodar. Ao longo da narrativa, a escolha do local vai se justificando, além a própria fotografia, um dos pontos fortes do filme.

A história é simples e até previsível, mas os momentos de tensão são bem conduzidos e devem agradar aos fãs do suspense. Até mesmo o final, mesmo sem grandes surpresas. O destaque fica para a atuação dos vilões, em especial a do ator Aaron Glenane, no papel do psicopata Chook. Aaron Pedersen, que faz o violento parceiro German, também entrega uma boa interpretação.

Um fim de semana que era para ser de descanso do casal Ian (Ian Meadows) e Samantha (Harriet Dyer) num parque florestal acaba se tornando um pesadelo. Esperando ficarem sozinhos, eles se surpreendem com um carro abandonado e uma barraca vazia no local onde iriam acampar. À medida que o dia passa os vizinhos não aparecem e coisas estranhas começam a acontecer na mata.

A situação se torna mais tensa quando um bebê aparece com escoriações vagando pela floresta, sem identificação ou sinal dos pais. O casal tenta socorrer a criança, mas vai descobrir que seus problemas estão apenas começando. E que os três vão se tornar o alvo de uma caçada de loucos violentos.

"O Acampamento" é uma produção australiana que mereceu destaque no Festival de Sundance, nos EUA. O longa assusta pelas cenas de brutalidade, e perturba pela forma como aborda as relações e comportamentos, tanto da dupla violenta Chook e German quanto do jovem casal, cujo amor é posto à prova quando o desejo de sobrevivência fala mais alto. O longa apresenta os fatos em dois tempos - antes e depois da chegada de Ian e Sam à floresta, caminhando até o ponto onde as histórias se cruzam e o desfecho da trama. Vale a pena ser conferido.


Ficha técnica:
Direção e roteiro: Damien Power
Produção: Cineart Filmes
Distribuição: Cineart Filmes
Duração: 1h28
Gênero: Suspense
País: Austrália
Classificação: 16 anos
Nota: 4 (0 a 5)

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27 agosto 2017

"Bingo - O Rei das Manhãs" comove e homenageia o mito do palhaço triste

Inspirado na vida do ator Arlindo Barreto, o "Bozo", filme tem como seu destaque a atuação de Vladimir Brichta como o protagonista (Fotos: Luiz Maximiniano/Divulgação)

Mirtes Helena Scalioni


Cansado de fazer pornochanchadas para sobreviver, um ator fracassado é aprovado meio por acaso num teste no qual nem ele acreditava e consegue o emprego de apresentador de um programa infantil numa emissora de TV. Mas há uma ressalva: ele só pode trabalhar mascarado. E, por contrato, jamais pode revelar sua identidade. 

O personagem vira sucesso nacional, seu programa torna-se campeão de audiência, ele enriquece, mas é obrigado a permanecer no anonimato. Apenas esses dados já seriam suficientes para se contar uma boa história. Mas se esse personagem é um palhaço maluco e drogado, se ele tem um filho afetuoso que o adora, e ainda por cima a narrativa é baseada em fatos reais, aí sim é que os ingredientes se completam.

Residem aí, nesses detalhes, 80% do acerto de "Bingo - o Rei das Manhãs", filme de Daniel Rezende (premiado montador de “Tropa de Elite 2”) que conta a trajetória de Arlindo Barreto (no filme ele recebe o nome de Augusto Mendes), que fez sucesso como o palhaço Bozo no SBT. Os outros 20% da riqueza do filme ficam por conta da contundente atuação de Vladimir Brichta, que faz um palhaço tão emocionante quanto rebelde, tão amoroso quanto atrevido, tão talentoso quanto irresponsável.

Perfeitas também são as atuações de Leandra Leal como Lúcia, a diretora careta e evangélica do programa, por quem ele se apaixona; Ana Lúcia Torres como Marta, a mãe atriz; Tainá Muller como Angélica, ex-mulher do palhaço; Augusto Madeira como o hilário câmera Vasconcelos; Emanuelle Araújo como a bailarina Gretchen que ele leva pra rebolar para as crianças e com a qual tem um caso; e o menino Cauã Martins, que enternece pelo olhar carente e desprotegido.


De quebra, tem uma aparição relâmpago de Domingos Montagner, que representa os palhaços aos quais Bingo recorreu para tentar aprender seu novo ofício. E Pedro Bial, como o diretor de uma grande emissora de TV que recusou dar um trabalho melhor ao ator. Devido a questões autorais, além de Bozo, os nomes das emissoras foram trocados - a Globo é chamada de Mundial, o SBT de TVP.

Para temperar ainda mais essa história que nem parece real, o ator fracassado Augusto Mendes é filho de uma atriz em fim de carreira e tem, com ela, uma relação forte e tempestuosa. Para quem não sabe, Arlindo Barreto, o Bozo real, é filho de Márcia de Windsor, que se tornou conhecida como a boazinha do júri dos programas de calouro. Mais tempero? O filme se passa nos coloridos e extravagantes anos de 1980, marcados não apenas por ombreiras gigantes, mas também pelas discotecas, a cocaína e a loucura.

Com uma boa dose de atrevimento, somado a pitadas de emoção, Daniel Rezende alterna humor e ternura, conta uma bela história de superação sem nenhum pieguismo e ainda faz uma homenagem à figura mítica do palhaço no seu ofício mágico de fazer rir, mesmo com o coração aos pedaços e a vida em frangalhos. Classificação: 16 anos



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