quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A força das mulheres conduz "Tallulah", filme original Netflix

Ellen Page interpreta a jovem Tallulah, personagem que dá nome ao longa-metragem que estreou no Sundance Festival (fotos: Route One Entertainment/Divulgação)

Patrícia Cassese


No extenso rol de lançamentos previstos para o Netflix neste mês de agosto, várias produções próprias chamam a atenção do espectador. Sim, o canal está investindo pesado na própria lavra, entre séries e filmes que disputam a audiência. No segundo escaninho citado, um dos destaques recentes é "Tallulah", com Ellen Page como a personagem que dá nome ao longa-metragem que estreou no Sundance Festival. Verdade, a jovem atriz canadense até dispensaria apresentações, mas vamos lá: estourou com "Juno" e atuou sob a batuta de Woody Allen em "Para Roma, com Amor", além de ter feito chorar plateias no impactante "Um Crime Americano", entre muitos outros títulos. Na vida pessoal, fez por merecer a nossa admiração ao abraçar a causa gay em 2014. 

Tallulah é uma garota que, abandonada pela mãe, acabou se lançando na vida na base do sem lenço sem documento. Zero vaidade, viaja pelos Estados Unidos a bordo de um furgão detonado e vivendo dos restos que cata daqui e dali - e de pequenos golpes aplicados em meio a muita adrenalina. Quando o filme começa, aliás, Tallulah - ou simplesmente Lu - está fugindo de mais um, ao lado de seu namorado, Nico (Evan Jonigkeit). Ocorre que o rapaz está, digamos assim, um pouco cansado da vida errante, na qual está mergulhado há dois anos. E quer voltar para a casa da mãe, em NY, para desgosto de Tallulah. 

Na verdade, quando o ragazzo parte sem se despedir, é Lu quem chega primeiro à Big Apple, batendo na casa da "sogra" (digamos assim). E eis que somos apresentados a uma atuação magnífica de Allison Janney, a atriz por trás da personagem Margo. Sim, você já conhece esta impactante atriz: na verdade, Allison contracenou com Ellen Page em "Juno" (era a madrasta da moça), mas brilhou mais ainda como Charlotte, a mãe da irrequieta Skeeter (Emma Stone) em "Histórias Cruzadas". 

"Amarga" poderia ser um adjetivo aplicado a Margo. Solteira desde que o marido se assumiu gay e foi morar com o namorado, ela passa os dias tendo conversas ríspidas com a tartaruga de estimação e se esquecendo de exercitar o movimento labial comumente conhecido como "sorriso" - o que até o porteiro do prédio no qual mora observa. Quando Lu bate à sua porta, o ímpeto inicial da Margo é expulsá-la, ainda que a garota possa fornecer pistas do paradeiro do filho "on the road". 

Sem ter para onde ir, Lu se embrenha num hotel onde é confundida por uma hóspede - Carolyn (Tammy Blanchard) - com uma camareira. Carolyn, vamos situar, está zero a fim de passar a noite cuidando de seu bebê - a garotinha Madison, de presumíveis um ano e alguns meses. Ela viajou sem avisar ao marido e vê em Lu a pessoa ideal para cuidar da menina enquanto parte para o encontro com um amante em potencial. A esta altura atônita e sem conseguir explicar a confusão que se instaura, Lu acaba assumindo o papel de baby-sitter, ao mesmo tempo em que vai percebendo que a bebê corre sérios riscos, inclusive de vida, dada a negligência da mãe, que termina por desmaiar após voltar do frustrado encontro com muitos mililitros de álcool na corrente sanguínea.

Num impulso, Lu foge com a criança, mas sem ter como se virar no furgão com um bebê, acaba batendo novamente à porta de Margo. - que, por seu turno, a acolhe (ainda que com certa desconfiança) após ser informada que o tal bebê seria sua neta. Sim, caro leitor. É óbvio que ninguém roubaria um bebê em NY e passaria impune. 

No dia seguinte, a mãe, ensandecida com o sumiço da filha (e a iminência de mais um conflito conjugal assim que o marido descobrir a fuga e o desaparecimento), aciona a polícia que, esperta que é, também constata a incrível inabilidade desta mãe para cuidar de uma criança. E começam as buscas, devidamente reportadas pelos periódicos, com direito a fotos feitas por câmaras de vigilância. 

Enquanto isso, Lu e Margo estreitam relações - e a última vai paulatinamente saindo da concha na qual se recolheu nos últimos anos. Não bastasse, Nico também reaparece. Mas, é preciso assinalar: os personagens masculinos, aqui, são meros coadjuvantes. Trata-se de um filme de e sobre mulheres. Não só. De mulheres que, em algum momento da vida, foram abandonadas - inclusive a bebê Madison, negligenciada pela mãe biológica. Já falamos de Lu ter sido abandonada pela mãe e pelo namorado, bem como de Margo, pelo marido e pelo filho. Mas Carolyn também se apresenta ao espectador como uma mulher de certa forma menosprezada pelo marido, que já não nutre qualquer interesse por ela. 

Há um diálogo emblemático no filme, quando, deitadas na grama, no parque, Lu diz a Margo que seu erro pode ter sido ter colocado a felicidade na mão de terceiros, de outras pessoas. "E pessoas são horríveis. Sempre te decepcionam", filosofa, enquanto toda a ação se encaminha irremediavelmente para um desenlace crível (mesmo que o filme se utilize de pitadas bem dosadas de fantasia). 




O cartaz da empreitada ratifica a primazia dada aos personagens femininos: nele aparecem Margo, Lu e Madison no centro, com a imagem de Carolyn ao fundo, como a ameaçar o núcleo familiar em estado embrionário. E se as atrizes cumprem com galhardia a tarefa que lhes foi delegada (em especial Allison, como já dissemos), ao espectador ainda resta o prazer de se deparar com um dos rostos mais queridos de "Orange is The New Black", Uzo Aduba (a Crazy Eyes da série) - aqui, ela é uma policial (grávida) que participa da incessante caça à raptora do bebê. Mas não é necessariamente uma surpresa: a diretora e roteirista Sian Heder é também uma das roteiristas e produtoras da cultuada "OITNB" - que, aliás, também integra o acervo Netflix.

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