16 outubro 2021

Misterioso e instigante, “Convidado de Honra” confunde, desorganiza e atiça o espectador

Estrelado por David Thewlis, sob a direção de Atom Egoyan, longa está disponível apenas nas plataformas digitais (Fotos: Califórnia Filmes/Divulgação)

Mirtes Helena Scalioni

Há quem chame de “filme de festival” produções mais fechadas, intimistas, questionadoras e normalmente contadas em flashbacks – uma ferramenta que alguns diretores têm usado muito na tentativa de valorizar a obra. Se isso for verdade, pode-se chamar assim a mais recente direção de Atom Egoyan, responsável também pelo roteiro de “Convidado de Honra” ("Guest of Honour").

O longa está disponível para aluguel, compra ou assinatura apenas nas plataformas digitais Claro Now, Amazon Prime Video, iTunes /Apple Tv, Google Play, YouTube Filmes e Vivo Play. E tem tudo para agradar principalmente os cinéfilos de carteirinha. Não por acaso, foi apresentado ao mundo no Festival de Veneza de 2019.


Misterioso do começo ao fim, o filme fala da relação tumultuada e cheia de equívocos e culpas entre Jim (David Thewlis, de "Liga da Justiça - Snyder Cut" - 2021,  "Mulher Maravilha" - 2017 e "A Teoria de Tudo" - 2015 ) e sua filha Verônica (a atriz canadense-brasileira Laysla de Oliveira). 

Solitário e exigente inspetor de alimentos, Jim faz de tudo para tirar a jovem filha da prisão, pois todos sabem que ela é inocente, embora acusada de abuso sexual. Porém, há um grande problema: ela não quer sair da cadeia porque quer expiar outras culpas.


“Convidado de Honra” começa com uma conversa entre Verônica e o padre Greg (Luke Wilson, de "Zumbilândia - Atire Duas Vezes" - 2019), com o objetivo de preparar o funeral de Jim. Sabe-se, portanto, desde o início, que ele está morto. A partir daí, muitas idas e vindas e infinitos flashbacks vão revelando ao espectador partes da vida dos dois. Ele, fiscal de restaurante; ela, professora de música de adolescentes.


Embora cheio de mistérios e repleto de dúvidas – talvez exatamente por isso – o filme acaba por criar um certo suspense, mesmo que, por vezes, desorganize o raciocínio do público. A cena em que o espectador descobre, por fim, por que o título do longa é “Convidado de Honra” é, ao mesmo tempo, impagável, inteligente e sutil.

Enfim, é preciso dizer que David Thewlis carrega o filme nas costas, com uma atuação cheia de nuances que ajudam a confundir ainda mais o espectador. Impossível ficar indiferente depois de ver “Convidado de Honra”, por mais estranho que a produção possa parecer.


Ficha técnica:
Direção: Atom Egoyan
Exibição: Plataformas digitais Claro Now, Amazon Prime Video, iTunes /Apple Tv, Google Play, YouTube Filmes e Vivo Play
Duração: 1h45
Classificação: 14 anos
País: Canadá
Gênero: drama

10 outubro 2021

“Caminhos da Memória” mistura drama, futurismo, romance e investigação e ainda sim é um filme raso

Hugh Jackman e Rebecca Ferguson são as estrelas desta produção, que agora está em canais de streaming (Fotos: Warner Bros. Entertainment)

Jean Piter Miranda


Em um futuro não muito distante, a cidade de Miami, nos Estados Unidos, está submersa, por causa do agravamento do aquecimento global. É nesse mundo que o investigador particular da mente Nick Bannister (Hugh Jackman, de "O Rei do Show" - 2017) usa uma máquina para ajudar pessoas a reviverem suas memórias. O mesmo equipamento que o ajuda em suas investigações. 

Até que um dia, Bannister se envolve com uma cliente, que desaparece. Para reencontrá-la, ele terá que enfrentar a máfia e ainda resolver um misterioso assassinato. Essa é a história de “Caminhos da Memória” ("Reminiscence"), disponível nos canais HBO Max, Youtube Filmes e Google Play. 


Emily Sanders (Thandiwe Newton, de "Han Solo" - 2018) é a assistente de Nick e trabalham com a máquina de rever e gravar memórias. A pessoa é colocada deitada, parcialmente coberta por água, com fios ligados à cabeça. As memórias visitadas são projetadas em holograma, como numa tela de cinema. 

O trabalho requer muita privacidade, já que Nick e Emily assistem tudo, inclusive lembranças íntimas dos clientes. Tudo fica gravado em pequenas placas de vidro, para que a pessoa possa assistir em casa quantas vezes quiser.  


Certo dia, Mae (Rebecca Ferguson, de "Missão Impossível: Efeito Fallout"- 2018) vai até consultório para rever uma de suas memórias que vão ajudá-la a encontrar uma chave perdida. Motivo muito bobo, por sinal. Mae e Nick acabam se envolvendo, mas depois ela some. Ele fica desolado e passa a usar a máquina para reviver as lembranças desse relacionamento. O que é bem arriscado, já que ativar as mesmas memórias várias vezes pode corromper parte do cérebro.  

Tempos depois, durante uma investigação, Nick é chamado para acessar as memórias de um homem que está perto da morte. Nas lembranças do cliente, ele vê Mae. Com essa pista, ele percorre o submundo de Miami em busca de sua amada. Aí é que tudo se complica.  


O filme é, vamos dizer, uma "mistureba". Tem coisa demais na trama. Nick e Emily são ex-combatentes. Filme de herói sempre tem ex-combatente. E tirando os americanos, ninguém entende essa lealdade que os ex-militares têm uns com os outros. Se é que isso existe. Nick faz o papel de mocinho, bem clichê. Mae é a mocinha bonita que precisa ser salva. Emily é a amiga que se preocupa com Nick e faz de tudo por ele.  


E tem outros clichês. O mafioso é japonês. O policial corrupto tem cara de mexicano. Os bandidos e capangas são negros, orientais e latinos. Sempre há um bar onde a máfia se reúne, com bebidas, mulheres e drogas. A mocinha é obrigada a se envolver com criminosos. 

Tem troca de tiros que destrói o bar. As pistas do crime vão surgindo facilmente para Nick e para o público. A água que cobre Miami não interfere em nada na trama. O desfecho é previsível, sem muita emoção. Tudo muito raso, sem trocadilho com a inundação.  


O título original é “Reminiscência”, que significa imagem do passado, lembrança vaga que é memorizada de forma inconsciente. Até faz sentido, já que Nick colhe informações das imagens periféricas das lembranças de pacientes para pegar pistas. Mas "Caminhos da Memória" se perde. 

Esperava-se mais de uma das criadoras da série "Westworld", que poderia entregar um ótimo drama psicológico e, no entanto, vem com uma salada de trama policial rasa e cheia de clichês, até mesmo no romance. Os atores se esforçam em boas atuações, mas isso não salva o filme. É mais uma produção que desperdiça um bom elenco e boas ideias.  


Ficha técnica:
Direção, roteiro e produção: Lisa Joy
Exibição: HBO Max, Youtube Filmes e Google Play
Duração: 1h56
Classificação: 14 anos
País: EUA
Gêneros: Ficção / Romance / Suspense