sexta-feira, 1 de julho de 2016

Com poesia e algum delírio, "Big Jato" fala da podridão de que somos feitos

A história explora os conflitos entre os dois Francisco - o pai limpador de fossas e o filho poeta (Fotos: Divulgação)

Mirtes Helena Scalioni


Atuando em dois papéis, Matheus Nachtergaele é a grande estrela de "Big Jato", filme dirigido por Cláudio Assis, responsável por outras boas esquisitices intrigantes do cinema nacional como "Baixio das Bestas", "A Febre do Rato" e "Amarelo Manga", pra ficar só nos mais conhecidos. Ao emprestar seu brilho e talento a dois irmãos, Francisco e Nelson, dois personagens antagônicos da história, Nachtergaele dá um tom mais real ao drama - às vezes surreal - do menino nordestino cujo pecado era querer ser poeta.


O filme é baseado em livro homônimo (autobiográfico?) do conhecido jornalista Xico Sá. Francisco, vivido pelo estreante Rafael Nicácio, é um adolescente, filho do também Francisco (um dos papéis de Nachtergaele), cuja ocupação é percorrer estradas num caminhão pipa limpando fossas em lugarejos aonde a evolução sanitária não chegou. 

Embora tenha um pai machista e ignorante, o menino tem como modelo o tio Nelson (o outro papel de Nachtergaele), radialista anárquico e delirante. Delirante é também, de certa forma, o filme como um todo. A começar pelo lugar onde a trama se passa, Peixe de Pedra, espécie de cidade fóssil. Sem contar outro personagem, Príncipe, vivido por ninguém menos que Jards Macalé, figura popular que gosta de contar suas conquistas e dores amorosas ao menino Chico. "Big Jato" tem um pé fora do real e, muitas vezes, lembra uma fábula.


Os conflitos entre Francisco pai e Francisco filho - um quer o feijão; o outro quer o sonho - percorrem todo o filme, mediados às vezes pela mãe, interpretada pela sempre fantástica Marcélia Cartaxo. É nessa família que o adolescente vive sua primeira paixão e sofre bulling dos amigos por ser um ajudante do pai na incômoda e fétida tarefa de limpar fossas.

E talvez esteja aí - na fossa - a melhor ideia de "Big Jato". Durante toda a história, há argumentos e discursos recorrentes sobre os excrementos, como a nos lembrar da merda de que somos feitos, da podridão e da finitude de que padecemos.

A comédia dramática "Big Jato" foi a grande vencedora do Festival de Brasília de 2015, conquistando os prêmios de Melhor Filme, Melhor Ator e Atriz, Melhor Trilha Sonora e Melhor Roteiro. Com 1h37 de duração está em exibição na sala 3 do Belas Artes, sessão de 16 horas, e no Cine 104, sessão das 17 horas. Classificação: 16 anos



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